O que são transtornos mentais? Transtorno é sinônimo de doença? Transtornos mentais são doenças? Não? Sim? Em termos? Para a classe médica esses conceitos são biológicos. Para muitos autores e pesquisadores de outras áreas são conceitos eminentemente sócio-políticos.
O que estou lendo na introdução de alguns artigos: a sociedade escolhe quem será considerado doente ou não de acordo com seus interesses e conveniências. Se prisão é mais eficaz: não é doente, é criminoso. Se igreja funciona melhor: não é doente, é pecador.
E se o medicamento funcionar melhor ou tiver um lobby forte, já viu né...
http://bjp.rcpsych.org/content/180/2/110.full
http://data.psych.udel.edu/…/3%20Psyc…/Wakefield,%201992.pdf
E o pedófilo funcional abstinente, virgem na pedofilia? É transtorno de quê? O cara trampa, produz e não estupra ninguém, nem difunde pedofilia pela web. Cadê o transtorno? Cadê a disfunção? Fora o fato que a transexualidade é considerada transtorno pelo CID e DSM (sendo que a homossexualidade foi considerada transtorno por mais de 20 anos). É aquela historia: é doença porque é indesejável socialmente. Eis o juízo de valor.
Jogo duplo? CID e DSM classificam psicopatas como doentes, mas o sistema bota na prisão e pronto. É importante dizer que é doente para manter a onisciência?: “Sabemos o que são essas pessoas e um dia ainda faremos uma droga pra elas. Enquanto isso, deixa preso aí...”.
Meu entendimento, por ora, é que os transtornos mentais (em sua grande maioria) não são entidades objetivas, naturais. São convenções.
Talvez um ponto fundamental nesse debate é que a fronteira entre o saudável e o patológico é pura convenção. Assim sendo, é valor. Não é fato. Não é factivel. É valorativo.
Wakefield, um dos autores mais relevantes nesse debate, afirma que há dois componentes na distinção entre o patológico e o saudável: um componente valorativo e um componente factível.
O valorativo se refere ao que é desejável ou indesejável e varia conforme os contextos sociais. O componente factível diz respeito à funcionalidade. Se há disfunção e ao mesmo tempo essa disfunção é indesejável, logo há doença.
Contudo é muito complicado mesmo se falar em comportamentos disfuncionais, porque na maior parte das vezes um comportamento é disfuncional em um determinado contexto social e não em outros. É o que nos mostram claramente áreas como a antropologia, a sociologia e a história: o comportamento não funciona para um contexto social específico, para um determinado tipo de sociedade somente. Logo é valorativo.
E não estou de modo algum afirmando que transtornos mentais não existem. parafraseando um pouco o artigo de Fullford, eu diria que o ponto central é que os transtornos mentais possuem possivelmente uma natureza diferente do que costumamos classificar como doença. O termo transtorno possui uma conotação, um peso mais valorativo do que o termo doença. Os valores expressos em relação à sintomatologia psicopatológica são mais divergentes do que os valores expressos em relação à sintomatologia do que costumam chamar de doenças somáticas. Os valores humanos em relação a emoções, crenças, desejos, volições e sexualidade são mais diversos quando em comparação com os valores relativos a "sintomas físicos".
A história mostrou isso com bastante clareza em relação à classificação da homossexualidade como doença até poucos anos atrás. Wakefield dá o exemplo da visão. Diz que evolutivamente um olho foi projetado para o reconhecimento de estimulação externa e que uma alucinação seria uma disfunção. Mas também isso depende do contexto, pois uma alucinação é muito bem-vinda em um terreiro ou em um centro espírita, por exemplo. Os sintomas de uma depressão, por exemplo, seriam disfuncionais. Mas se eles existem é porque foram selecionados evolutivamente. Foram adaptativos para nossa espécie num determinado momento, em um determinado contexto. Então tiveram sua funcionalidade e talvez ainda tenham. Há evidências de que muitos sintomas presentes na depressão ainda tem essa funcionalidade. A tristeza é um sentimento importante e útil, por exemplo.
Enfim, a questão complicada é a questão conceitual. É muito parecido com o que ocorre em relação à hipnose...
Thus, if "disorder", notwithstanding the standard account, is a value term, it will share with all other value terms the features pointed out by Hare. "Mental disorder", then, if "disorder" is a value term, will be more value-laden than "bodily disorder", not, as the standard account implies, for reasons of scientific deficiency, but because the values expressed by the value term "disorder" are (relatively) divergent in the areas of diagnosis with which psychiatryis concerned and (relatively) shared in the areas of diagnosis with which bodily medicine is concerned. This is consistent with the fact that in psychiatry diagnosis is concerned with areas of human experience and behaviour, such as emotion, belief, desire, volition and sexuality, in which human values are highly diverse (what is good for one is bad for another), whereas in bodily medicine diagnosis is concerned with areas of human experience and behaviour, such as severe bodily pain, threat of death and paralysis, over which human values are relatively shared (what is bad for one is bad for most of us).
The clinician's question: With future scientific advances, in particular discoveries of the brain-based causes of mental disorder, won't values become less important diagnostically?
Reply: In a word, "no". It seems obvious that learning more about the causes of mental disorder will make values less important in psychiatric diagnosis because so much of the diagnostic process in bodily medicine is taken up with identifying the causes of bodily disorders. But remember that the relatively value-laden nature of mental disorder arises not from scientific deficiency (lack of knowledge of causes) but from greater value complexity. In the future we will indeed know much more about the causes (biological, psychological and social) of human experience and behaviour. But this will do nothing to resolve questions about exactly which kinds of experiences and behaviours are negatively evaluated, and, hence,pathological.
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1414736/
Traduzi também algumas citações notórias de Thomas Szasz nas quais ele critica o DSM. Questões abertas ao debate, ok?
"A principal função e objetivo do DSM é emprestar credibilidade à alegação de que certos comportamentos, ou mais corretamente, desvios da norma, são transtornos mentais e que tais distúrbios são, portanto, doenças médicas. Assim, o jogo patológico goza do mesmo status de um infarto do miocárdio (coágulo de sangue na artéria do coração). Com efeito, a APA sustenta que apostas são algo que o paciente não pode controlar; e que, em geral, todos os sintomas dos transtornos psiquiátricos estariam fora do controle do paciente. Rejeito essa reivindicação como patentemente falsa".
"A validade ostentada pelo DSM é reforçada pela afirmação da Psiquiatria que as doenças mentais são doenças do cérebro, uma reivindicação supostamente baseada em descobertas recentes da neurociência, tornada possível por técnicas de imagem para diagnóstico e agentes farmacológicos para o seu tratamento. Isso não é verdade. Não existem testes diagnósticos objetivos para confirmar ou não o diagnóstico de depressão; o diagnóstico é feito exclusivamente com base na aparência do paciente, de seu comportamento e nos relatos de outras pessoas sobre o seu comportamento. "
"O problema com diagnósticos psiquiátricos não é que eles não fazem sentido, mas que eles podem ser, e frequentemente são, feitos como jogos semânticos : destroem com a dignidade e a respeitabilidade do sujeito tão eficazmente como rachar um crânio. A diferença é que o homem que veste um rótulo diagnóstico desses é reconhecido por todos como um bandido, mas quem faz um diagnóstico psiquiátrico não é. "
As doenças são um "mau funcionamento do corpo humano, do coração, o fígado, o rim, o cérebro", enquanto "nenhum comportamento ou mau comportamento é uma doença ou pode ser uma doença. Não é isso que as doenças são".
Artigos publicados em periódicos científicos internacionais:
http://plato.stanford.edu/entries/mental-illness/
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1414736/
http://bjp.rcpsych.org/content/180/2/110.full#ref-11
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2174594/
Documentário da BBC:
How Mad Are You? (BBC Horizon)
http://www.youtube.com/watch?v=375-TcKxJpk
http://www.youtube.com/watch?v=SSvVlrt6sL0
David Rosenhan: Being Sane in Insane Places:
http://www.youtube.com/watch?v=j6bmZ8cVB4o
Thomas Szasz e a psiquiatria (legendado):
https://www.youtube.com/watch?v=uE0mysIHvvg
Thomas Szasz y la fabricación de la locura
https://www.youtube.com/watch?v=SvITgs6e9lU
Fiz alguns vídeos sobre esse tema e alguns de seus correlatos:
"Doenças mentais" (1)
https://www.youtube.com/watch?v=dMpumL2xSHA
"Doenças mentais" (2)
https://www.youtube.com/watch?v=m472FQvQTQo
Ser diferente
https://www.youtube.com/watch?v=wSBsKripp2s
https://www.youtube.com/watch?v=nNdSxqoWw0g
Doenças psicossomáticas
https://www.youtube.com/watch?v=VuGinJLbzyI
A felicidade
https://www.youtube.com/watch?v=4iMHdGSZvWc
As causas da depressão
https://www.youtube.com/watch?v=cYV-nVXkZ-8
Depressão na atualidade (Hangout)
https://www.youtube.com/watch?v=Sphr8VKPGDA
Depressão ("FAQ") - com a psiquiatra Camila Jordão
https://www.youtube.com/watch?v=Aas5Tu4SqBI
Caso Elliot Rodger (breves considerações)
https://www.youtube.com/watch?v=Mt7M2IDcSjU
Sadismo e duplo-vínculo
https://www.youtube.com/watch?v=nHouO-uPsYI
Dexter e Hitler: psicopatas?
https://www.youtube.com/watch?v=kmB_3HRs6Xo
E esse aqui, no qual faço algumas complementações ao que está escrito acima:
https://www.youtube.com/watch?v=vfFHIRdovaw
CRÍTICA DO SENSO COMUM E PROSA - Quem quiser adquirir o livro, acesse o link do canto superior direito
Saturday, September 05, 2015
Saturday, August 08, 2015
Da poesia desisti
Da poesia desisti. agora é ruína: restos e rastros que arrasto, voz morta na gaveta, boi sem pasto. hoje sou pele e osso de tudo o que já escrevi...
Medo de voar
Você tem medo de voar? A medida mais fidedigna para se pensar sobre o risco é de quantas mortes ocorrem por bilhão de quilômetros rodados. E sim: a taxa é muitíssimo menor para aviões. De ônibus o risco é 8 vezes maior. De carro é 62 vezes maior e de moto é mais de 2 mil vezes maior. Número de mortes por bilhão de quilômetros rodados: avião: 0,05; ônibus: 0,4; trem: 0,6; carro: 3,1; bicicleta: 44,6; a pé: 54,2; moto: 108,9.
Fonte: http://www.numberwatch.co.uk/risks_of_travel.htm
Fonte: http://www.numberwatch.co.uk/risks_of_travel.htm
Poesia bruta
Cada criança tem as suas peculiaridades hilárias e até mesmo poéticas, de uma poeticidade espontânea, acidental, em estado bruto.
Luisa, quando se machuca, quando alguma coisa a fere ao ponto dela chorar intensamente, logo aponta para o banheiro porque quer se olhar no espelho enquanto chora. Ela fica observando e "brincando", explorando suas próprias expressões enquanto chora.
Pois é, como disse uma vez Fernando Pessoa: o poeta é um fingidor que finge que é dor a dor que deveras [que realmente] sente.
Luisa, quando se machuca, quando alguma coisa a fere ao ponto dela chorar intensamente, logo aponta para o banheiro porque quer se olhar no espelho enquanto chora. Ela fica observando e "brincando", explorando suas próprias expressões enquanto chora.
Pois é, como disse uma vez Fernando Pessoa: o poeta é um fingidor que finge que é dor a dor que deveras [que realmente] sente.
Dessensibilização progressiva
Eu e minha filha assistimos novamente àquela cena de Tom e Jerry na qual Jerry se despede de um leão amigo, com um navio que vai partindo, até desaparecer no horizonte. Jerry acena com um lencinho, com algumas poucas lágrimas a escorrer de seu rosto.
Para a minha surpresa ela reconheceu o que estava sendo representado, e apontou para a tela, chorando, se emocionando sofrida e verdadeiramente com a cena.
Assistimos então a esse episódio pela segunda vez e o efeito foi mais ameno. Sua boquinha se entortou em expressão de choro, com os lábios tremendo e os olhinhos marejados. Mas não chorou. Aguentou firme.
É, a gente vai se acostumando com algumas durezas da vida...
Para a minha surpresa ela reconheceu o que estava sendo representado, e apontou para a tela, chorando, se emocionando sofrida e verdadeiramente com a cena.
Assistimos então a esse episódio pela segunda vez e o efeito foi mais ameno. Sua boquinha se entortou em expressão de choro, com os lábios tremendo e os olhinhos marejados. Mas não chorou. Aguentou firme.
É, a gente vai se acostumando com algumas durezas da vida...
Inteligência humana
Aquele serzinho, que está há um ano e meio nesse mundo, fala uma ou outra palavrinha isolada, mas compreende um monte de coisas das quais você não tem a menor ideia de que ele seja capaz.
Estávamos uma vez, há mais de um mês, eu e minha filha, assistindo ao Tom e Jerry. Era a primeira vez que ela assistia a esse desenho. Um grande leão havia fugido do circo, e se abrigado na casa de Tom e Jerry, se tornando um grande amigo do rato. No final Jerry inclusive o auxilia a pegar um navio de volta à África, onde voltaria a ser livre.
Quando o navio está partindo, Jerry se despede, acenando com um lencinho na mão, em lágrimas. Minha filha aponta para a tela e chora junto, com um choro verdadeiro e sofrido, com lágrimas. Acho que essa foi a primeira produção cinematográfica que a embalou, a envolveu, com a qual ela se emocionou junto.
E ninguém havia explicado a ela que o leão estava indo embora, que aquilo era uma despedida. Claro, ela detesta despedidas. A palavra que não deve ser dita aqui em casa é “tchau”, principalmente se você estiver andando em direção à porta de saída. Mas ela foi capaz de generalizar os gestos para uma representação pictórica bem específica. Para isso muitas crianças da sua idade são capazes, e é exatamente disso que nós nos esquecemos.
Nunca calibramos muito bem. Civilizações antigas, crianças e animais não-humanos: quando pensamos nessas três categorias sempre tendemos a errar em nossas estimativas.
Os antigos são sempre subestimados, e há até teorias conspiratórias a afirmar que não fizeram o que fizeram de grandioso – seria obra de extraterrestres. Crianças e animais que não amamos também são subestimados. Com amor na jogada a estimativa costuma se inverter.
E também, há poucos dias, a televisão estava ligada em algum noticiário esportivo. Ao observar a cena de um jogador fazendo um gol, levantando os braços e comemorando, ela também levantou os braços, saiu comemorando e, para botar uma cereja no bolo, gritando gol. E olha que aqui em casa ninguém comemora gol, ninguém se liga muito em futebol pela televisão, pois sempre preferi jogar a assistir.
Isso tudo é muito divertido...
Estávamos uma vez, há mais de um mês, eu e minha filha, assistindo ao Tom e Jerry. Era a primeira vez que ela assistia a esse desenho. Um grande leão havia fugido do circo, e se abrigado na casa de Tom e Jerry, se tornando um grande amigo do rato. No final Jerry inclusive o auxilia a pegar um navio de volta à África, onde voltaria a ser livre.
Quando o navio está partindo, Jerry se despede, acenando com um lencinho na mão, em lágrimas. Minha filha aponta para a tela e chora junto, com um choro verdadeiro e sofrido, com lágrimas. Acho que essa foi a primeira produção cinematográfica que a embalou, a envolveu, com a qual ela se emocionou junto.
E ninguém havia explicado a ela que o leão estava indo embora, que aquilo era uma despedida. Claro, ela detesta despedidas. A palavra que não deve ser dita aqui em casa é “tchau”, principalmente se você estiver andando em direção à porta de saída. Mas ela foi capaz de generalizar os gestos para uma representação pictórica bem específica. Para isso muitas crianças da sua idade são capazes, e é exatamente disso que nós nos esquecemos.
Nunca calibramos muito bem. Civilizações antigas, crianças e animais não-humanos: quando pensamos nessas três categorias sempre tendemos a errar em nossas estimativas.
Os antigos são sempre subestimados, e há até teorias conspiratórias a afirmar que não fizeram o que fizeram de grandioso – seria obra de extraterrestres. Crianças e animais que não amamos também são subestimados. Com amor na jogada a estimativa costuma se inverter.
E também, há poucos dias, a televisão estava ligada em algum noticiário esportivo. Ao observar a cena de um jogador fazendo um gol, levantando os braços e comemorando, ela também levantou os braços, saiu comemorando e, para botar uma cereja no bolo, gritando gol. E olha que aqui em casa ninguém comemora gol, ninguém se liga muito em futebol pela televisão, pois sempre preferi jogar a assistir.
Isso tudo é muito divertido...
Friday, July 31, 2015
Da poesia desisti
da poesia desisti. agora é ruína: restos e rastros que arrasto, voz morta na gaveta, boi sem pasto. hoje sou pele e osso de tudo o que já escrevi...
Sunday, July 26, 2015
Diretivo ou não-diretivo?
Desde o final de minha pesquisa de doutorado me incomodo com essa pretensa dualidade entre diretividade e não-diretividade em psicoterapia. Quem mais se dedica a tratar desse ponto, na minha compreensão, são os humanistas. Mas a minha impressão é a de que os humanistas mais esclarecidos sabem muito bem que não existe não-diretividade absoluta, a qual de alguma forma poderia ser equalizada a uma espécie de neutralidade.
Contudo, um texto que me incomodou nesse aspecto foi de um psicanalista, Renato Mezan, ao sugerir que a Psicanálise não faz uso da sugestão, em pretensa (e na minha concepção, falsa) oposição a todas as outras abordagens em psicoterapia. Ao procurar demonstrar a especificidade da Psicanálise, esse autor distingue três modalidades de ação da palavra em psicoterapias verbais: sugestão, catarse e interpretação. Mezan insinua que o psicanalista, ao cumprir a abstinência, não trabalha com a sugestão:
“Abstinência da sugestão: o psicanalista se limita a interpretar os dizeres do paciente, sem pretender impor, direta ou indiretamente, modelos e normas de ação ou pensamento, em vista do que chega ao extremo de preservar o segredo sobre suas próprias opiniões ou reações. (...) Em última instância, portanto, a abstinência é abstinência de referir-se à ou de intervir na realidade externa,
concentrando-se a atenção do psicanalista na interpretação do “mundo interno” tal como se expressa no elemento da transferência” (Mezan, 1988, p.30).
A Filosofia Analítica, mais propriamente a Análise da Linguagem Ordinária, me ajudaram a perceber que a forma dos enunciados é menos relevante do que o contexto em que são proferidos. Um terapeuta pode se valer de diversos enunciados que possuem forma descritiva (ou se valer somente de perguntas), se iludindo de que está somente descrevendo, não sendo diretivo ou que está somente “interpretando”, mas sugestões veladas, indiretas, podem ter um papel muito maior de diretividade, comando, do que sugestões diretas. É o que os analistas do comportamento, por exemplo, classificam como mando (comando verbal) disfarçado.
Não tenho dúvidas de que é fundamental estimular a auto-observação, e que o paciente desenvolva cada vez mais a sua capacidade para se sensibilizar às condições que controlam seu comportamento. É desejável que o comportamento, tanto do paciente quanto do terapeuta, seja predominantemente governado por contingências e não por regras.
Mas existem regras que foram sedimentados pela pesquisa científica: essa última frase (no parágrafo acima) é um exemplo claríssimo disso. Nossas concepções técnicas são permeadas por juízos, regras estabelecidas por pesquisas científicas, ou mesmo pelo acúmulo de evidências empíricas não necessariamente científicas, mas evidências da própria prática. Se afirmamos que uma determinada diretriz é mais desejável do que outra, que alguns procedimentos devem ser tomados e não outros, estamos partindo de regras.
Portanto, me desculpem, mas não vejo muito sentido no orgulho com o qual alguns terapeutas enchem a boca, com ares de superioridade, a dizerem que trabalham de modo não-diretivo. Estamos sempre influenciando as pessoas:
“Não se pode dizer que: “sem linguagem não poderíamos entender-nos uns com os outros”, mas sim: “sem linguagem não podemos influenciar outros homens desta ou daquela maneira, não podemos construir estradas e máquinas” etc. E também que: “sem o uso da fala e da escrita os homens não se podem entender uns com os outros” (Wittgenstein, 1996, § 491, p. 136).
Se essa influência sempre existe, por que ela deixaria de existir onde ela na verdade se torna potencializada: no consultório de Psicologia? Desculpe-me, colega, mas você influencia sim, e sua crença de que é não é diretivo pode ser muito mais nefasta do que uma diretividade esclarecida.
Portanto, desde o final de minha pesquisa de doutorado, tenho preferido me classificar como um diretivista esclarecido do que como um não-diretivista ou alguém que tenha a capacidade sobrenatural da neutralidade.
Referências:
Mezan, R. (1988) A vingança da esfinge: ensaios de Psicanálise. São Paulo: Brasiliense.
Wittgenstein, L. (1996) Investigações Filosóficas. São Paulo: Nova Cultural.
Thursday, July 16, 2015
Existem limites para a liberdade de expressão?
Existem limites para a liberdade de expressão, seja ela escrita ou em obras artísticas?
Sim, existem. Você não pode, por exemplo, sair por aí ameaçando as pessoas de morte. Não pode divulgar as fotos íntimas de outras pessoas (mesmo que isso lhe pareça lindo e maravilhoso, uma obra de arte...) se elas não tenham lhe dado autorização para tal. Não pode divulgar que uma determinada pessoa cometeu um crime sem ter provas. Porque tudo isso é muito perigoso, pode despertar ódio. Pessoas podem morrer em função de afirmações mentirosas ou boatos que façam menção a crimes ou atos imorais que não ocorreram.
E tudo isso fica muito mais complicado quando as agressões verbais, ou o que chamam de "liberdade de expressão", começam a se dirigir para grupos de pessoas menos favorecidos ou minoritários, os quais são mais vulneráveis e desprotegidos em um determinado contexto social.
Talvez seja importante pensar um pouco nisso antes de vociferar em favor da irrestrita liberdade de expressão ou de querer transformar em crime toda e qualquer representação que você julga como ofensiva em relação à uma ideia, símbolo ou imagem que você ama.
Plano de suicídio
A maioria aqui sabe que sou um militante da legalização da eutanásia e do suicídio assistido.
Sei que posso, diante de uma situação real, mudar completamente de ideia. Mas, por enquanto, penso do seguinte modo: se eu recebesse hoje o diagnóstico de uma doença degenerativa e incurável como, por exemplo, a esclerose lateral amiotrófica, meu pensamento hoje é o de que eu não hesitaria em optar pelo suicídio assistido. Eu entraria imediatamente em contato com a clínica Dignitas, na Suíça, para me inscrever e entrar na fila do suicídio assistido.
Eu não ia esperar para que o destino fizesse o que ele quisesse comigo, porque a minha experiência de observar o que o destino fez com as pessoas nesse tipo de situação é da ordem do horror. Qualquer um de nós deseja uma morte boa. Não existe quem deseje morrer afogado, queimado, ou muito lentamente, encarcerado em seu próprio corpo, e padecendo de sofrimentos muito intensos, sem inclusive a capacidade de poder comunicar o que está ocorrendo, e sem a menor perspectiva de poder exercer seu direito de terminar rapidamente com a própria vida, já que não lhe resta outra alternativa, que sua vida não vale mais a pena, sendo somente um fardo sem fim.
Sim: eu tenho um plano de suicídio assistido para esse tipo de situação extrema (uma espécie de seguro de morte), mas respeito e admiro muito quem tem a coragem ou a ilusão de acreditar que certamente terá uma morte tranquila, enfim, de acreditar na sorte.
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Discurso se trata com mais discurso
A presidente Dilma deu uma entrevista, publicada em 07/07/2015 na Folha de São Paulo. Disse que não vai cair, que não está com medo, que não está aterrorizada, e que esse período turbulento pra ela é moleza em comparação com o que já sofreu durante a ditadura militar, quando foi torturada. Há boatos de que ela teria tentado o suicídio. Ela nega:
“Outro dia postaram que eu tinha tentado suicídio, que estava traumatizadíssima. Não aposta nisso, gente. Foi cem mil vezes pior ser presa e torturada. Vivemos numa democracia. Não dá para achar que isso aqui seja uma tortura. Não é”, disse. “Eu não quis me suicidar na hora em que eles estavam querendo me matar [na prisão, durante a ditadura militar]! A troco de quê vou querer me suicidar agora? É absolutamente desproporcional.”
Nos primeiros 30 minutos da entrevista com Jô Soares deixou claro que a melhor forma de se lidar com os discursos que estão circulando hoje, até mesmo alguns mais autoritários, é a via democrática, é deixar que as pessoas falem.
Obviamente não existe liberdade absoluta de expressão. Ameaças de morte, calúnia e incitação ao ódio são os casos mais exemplares de crimes referentes ao discurso. Podem causar muitos danos, e em muitas situações até mesmo difamação e injúria também podem levar a efeitos similares.
Pelo que estou acompanhando, acredito que ela esteja de fato menos abalada do que muitos estão imaginando. Muitos criticam, dizendo que o governo não está reagindo a uma possível ascensão do fascismo no país, que o governo está meio autista. Alguns chegam a ser afirmar que os ovos já quebraram, em analogia ao "ovo da serpente", a metáfora que simbolizava o nascimento do fascismo na Alemanha, na década de 20.
Os mais exaltados com esse tipo de possibilidade que me perdoem, mas não consigo acreditar nesse tipo de afirmação. Se assim fosse, os americanos já teriam sido engolidos pelo fascismo há muito tempo ou por diversas vezes, pois a história de sua democracia está recheada de ameaças similares ou até mesmo de maior magnitude do que as observadas em nosso país. Essa fratura social da qual estamos padecendo hoje é a própria realidade deles, desde sempre. E em um determinado aspecto eles são exemplares: o respeito pela liberdade de expressão. Discurso se trata com mais discurso. O remédio para discursos inflamados é o debate e não a tentativa de silenciamento.
Percebo nas falas de Dilma que para ela isso é muito claro. Espero que isso esteja claro também para seus apoiadores. Não faz o menor sentido tentar silenciar quem está protestando, expressando o que pensa, mesmo que isso se dê com humor de mau gosto ou com pedidos para o retorno da ditadura. Não se previne fascismos de direita, se antecipando a estes com atos fascistas de esquerda. Isso é contrassenso.
"É só um detalhe..."
Por Davi Simões
Um dia, em uma reunião no Facebook, alguém dá uma ideia de alterar o visual. "Pô Zuck, tava reparando que o ícone de solicitação de amizades tem um bonequinho de homem e um de mulher, com o do homem na frente. A gente podia colocar os dois no mesmo plano, com o da mulher na frente, pra dar destaque pra mulher. Afinal, por que manter o do homem na frente?" Zuckerberg curte a ideia e resolvem anunciar sua implementação.
No dia seguinte, um milhão de pessoas reclamam que feminista vê machismo em tudo, falando que é só um desenho e que problematizar isso é procurar pelo em ovo.
Mas você não acabou de dizer que é só um desenho? Qual o problema em mudá-lo, então? Eu também detesto ativistas radicais (quase um pleonasmo), mas o pessoal tá num estado de alerta tão grande que já encrenca com qualquer iniciativa de representatividade.
(Aliás, se mudar o ícone incomoda tanta gente, talvez não seja "só um ícone" como os reclamões tão dizendo, né...)
"E é a mesmíssima coisa com o "Deus seja louvado" nas cédulas. "Ah que falta do que fazer, é só uma frase no dinheiro!", ah é? Então tira uai! Já que não tem importância nenhuma" (Guilherme Tomishiyo).
As contradições do nosso sistema
Por Rogério Jorge Da Silva Figueiredo
As contradições do nosso sistema são evidentes. Talvez por isso a repulsa que sinto por elas seja tão grande. É que se são notórias, mas persistem mesmo assim, então a conclusão mais imediata é que somos hipócritas e isso talvez seja o pior dos vícios.
As contradições do nosso sistema são evidentes. Talvez por isso a repulsa que sinto por elas seja tão grande. É que se são notórias, mas persistem mesmo assim, então a conclusão mais imediata é que somos hipócritas e isso talvez seja o pior dos vícios.
Vejamos o caso do nosso subsistema penal, a criminalização do furto de pequenas coisas e a resistência (inclusive - e principalmente - institucional) ao princípio da insignificância.
Os mesmos que insistem em dizer que toda e qualquer transgressão deve ser punida com o rigor da lei, são também aqueles que, no aconchego dos seus lares fazem download de softwares piratas.
Há os que dizem que não é a mesma coisa. Que o último caso é socialmente menos prejudicial que o primeiro. Será? Quando se furta algo de uma empresa ou pirateia aquilo que é sua atividade fim, não estamos nós violando o seu patrimônio? Que diferença há, portanto, naqueles que furtam pequenos bens em supermercados daqueles que recorrem a sites piratas para violar propriedade intelectual?
Aliás, dado o elevado preço de tais softwares, se fôssemos fazer uma varredura na casa de cada um de nós a fim de somar o valor estimado em programas pirateados, estaríamos muito além do limite estabelecido pelo STJ como sendo "insignificante" (um salário mínimo). Quantos aqui não baixam coletâneas inteiras pelo PirateBay? E o que dizer dos GBs de filmes?
Nossa hipocrisia não para por aí. Ela cria raízes institucionais. O nosso Código estabelece uma pena de no máximo um ano para o crime de violação de direito autoral (art. 184), isso equivale a pena MÍNIMA de furto simples (art. 155).
Pior! Se você pular um muro e furtar os bens produzidos pelo pirata (aquele que falsifica e comercializa o software), receberá uma pena maior (máxima de 8 anos) do que a dele por falsificar (máxima de quatro anos).
É por isso que nosso sistema é foda. Ele não é foda porque não se pune. Já punimos demais, eis que punimos por tão pouca coisa. Ele é foda porque enquanto os defensores do tolerância zero usam impunemente seus Windows 8 pirata para despejar a fúria no facebook, o STF julga se o furto de duas galinhas é crime, tudo isso porque o Ministério Público achou por bem recorrer tantas vezes quanto fosse necessário para garantir a "justiça".
Sigamos em frente, somos todos hipócritas. Estamos todos na lama.
Relembrar é viver
"Você não está sendo oprimido quando outro grupo ganha os direitos que você sempre teve"
“Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que se gasta demais em política social” (José Mujica)
“Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que se gasta demais em política social” (José Mujica)
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Orientação sexual não é opção
Orientação sexual não é opção, e não faz diferença se isso será justificado com determinantes biológicos ou sociais.
Para dizer que algo é opção, a pessoa que está escolhendo deve ser suscetível às opções em jogo. Pra você, que é heterossexual, farei a seguinte pergunta, a qual espero que possa fazer com que você se conscientize um pouco do que está falando: sentir atração por pessoas do mesmo sexo é opção pra você? É obvio que isso não é nem nunca foi opção pra você. E se você me disser que optou pela heterossexualidade, a pergunta é: quando ocorreu isso? Quando foi que você fez essa escolha consciente? Quando foi que você ponderou sobre todas os aspectos favoráveis e desfavoráveis relacionados à sua futura orientação e pensou: "Agora optarei por isso, serei isso e não aquilo"? E me responda, por favor, quem é que opta por ser discriminado e hostilizado? Quem é que opta pela solidão, pela vulnerabilidade social, pelo ostracismo?
E como já afirmei antes: para ocorrer uma escolha consciente é necessário existirem opções para as quais haja a suscetibilidade de quem escolhe. Ou seja, isso somente faz sentido se ela for, por exemplo, bissexual. Se você é heterossexual, e disser que em algum momento escolheu, é porque você tinha uma pré-disposição para as duas opções. Ou seja: você era bissexual.
Outro ponto a ser ressaltado diz respeito a uma possível, e majoritária, determinação social da orientação sexual. Qual é o problema desse tipo de tese reforçar a possibilidade de um dia conseguirmos cientificamente implementar alguma intervenção eficaz para se produzir reorientações sexuais? Em uma sociedade democrática, que respeita direitos individuais, o sujeito também teria que ter direito de se submeter a qualquer tipo de intervenção, para tentar mudar seu corpo ou sua personalidade, para a direção que ele bem entender, na medida em que isso não provoque danos diretos a ninguém.
Portanto, não há problema algum que um dia exista uma intervenção capaz de produzir reorientações sexuais, por exemplo. O problema é que isso ainda não existe e não adianta ficar forçando a barra, tentando empurrar qualquer feitiçaria pra cima das pessoas, com argumentos pseudocientíficos.
Faça isso na sua igreja, na sua religião, mas não queira abrir espaço para que a Psicologia comece a oferecer um remédio ou técnica que não existe, a qual tem se demonstrado, durante a história da área, como mais prejudicial do que benéfica. A fé não remove montanhas? Então pra que ficar correndo atrás da Psicologia pra isso? Uma clínica de Psicologia não é um local para se operar milagres.
Então que fique bem claro: de modo geral, mesmo que as determinações sejam majoritariamente sociais, as pessoas não optam por gostarem disso ou daquilo ou por sentirem atração por isso ou por aquilo. E qualquer psicólogo que se preze, sabe que é muito mais prático almejarmos aquilo para o qual nós tendemos, aquilo que gostamos, do que tentar fazer o sujeito gostar do que não gosta, ou sentir atração pelo que não sente. É muito mais simples, mais prático e menos arriscado (com menor tendência a produzir danos e distúrbios) que as pessoas sejam felizes do jeito que podem e não do jeito que os outros querem que elas sejam. E uma sociedade irracional e socioculturalmente pobre vai desejar que as pessoas sejam sempre de um mesmo e único jeito.
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Sunday, June 28, 2015
Cristofobia, circuncisão e a novela da Record
Isso me fez lembrar da novela sobre a vida de Moisés na Rede Record. Há poucos dias eu assisti a um ou outro capítulo. Aí fiquei curioso e fui pesquisar na Bíblia para fazer comparações com o que eu estava observando na telenovela.
O mais interessante é que de fato estão transformando a história bíblica de Moisés em uma novela, em uma trama muito mais longa, demorada e com uma série de detalhes que não estão na Bíblia.
Aí eu me deparo com a seguinte e curiosa passagem de Êxodo:
" 4.24 Durante a viagem para o Egito, num lugar onde Moisés e a sua família estavam passando a noite, o SENHOR se encontrou com Moisés e procurou matá-lo.
4.25 Aí Zípora, a sua mulher, pegou uma pedra afiada, cortou o prepúcio do seu filho e com ele tocou o pé de Moisés. E disse: — Você é um marido de sangue para mim.
4.26 Ela disse isso por causa da circuncisão. E assim o SENHOR deixou Moisés viver."
Deixa eu ver se entendi, Deus estava prestes a matar Moisés porque um de seus
filhos não havia sido circuncidado, e ele por pouco não foi salvo. Se não fosse a perícia e agilidade de sua esposa para pegar uma pedra afiada e cortar o prepúcio da criança (ela foi Mcgiver) Deus teria talvez arrebentando a cabeça de Moisés com um raio.
E confesso, fiquei bastante curioso em saber se a telenovela irá tratar dessa passagem e como faria isso. Os roteiristas terão de ser Mcgivers...
Vitamina D
Certa vez lancei uma questão no Facebook em relação às possibilidades de suplementação de vitamina D. Então John Scott, um colega britânico pelo qual tenho muito apreço, além de tê-lo em alta conta para questões de saúde e alimentação, me passou o link desta organização (The Vitamin D Council).
Achei as recomendações interessantes e detalhadas, além de me parecerem sensatas e razoavelmente consistentes. Fez com que eu pensasse sobre alguns possíveis mitos em relação aos benefícios e males da exposição à luz solar, assim como da possível suplementação com vitamina D. Abaixo enuncio as principais considerações percebidas por mim no texto desta organização:
1. Cuidado, não serve qualquer tipo de vitamina D. Não pode ser a vitamina D2 (ergocalciferol), a qual por vezes é utilizada Tem que ser a vitamina D3 (colecalciferol).
2. Não adianta muito tomar sol antes das 10 da manhã e depois das 16 horas. Se a sua sombra estiver maior do que a sua própria altura, o ângulo de entrada dos raios solares na atmosfera tende a produzir o bloqueio dos raios UVB, os quais são os necessários para a produção de vitamina D. Quanto maior for a sua sombra e quanto mais distante do meio-dia, menos UVB.
3. Há vários fatores que facilitam a produção de vitamina D pela exposição aos raios solares: quanto mais próximo do Equador e quanto mais clara a cor da pele, melhor. A exposição deve ocorrer sem filtro solar e durante a metade do tempo de exposição necessário para que a pele comece a queimar. Então todos esses fatores devem ser colocados na balança. O resultado, para países tropicais, é uma exposição média de 15 minutos ao sol do meio-dia. Isso, para muitas pessoas, tende a ocorrer de modo bem natural (enquanto caminham para o trabalho, para a parada de ônibus, e em outros atividades durante o dia).
4. Não adianta tomar sol por detrás de um vidro, por detrás de uma janela. O vidro bloqueia tanto UVA quanto UVB, e desse modo não há produção de vitamina D.
5. Melhor do que protetor solar, é sombra e roupa para se proteger dos raios solares, pois os protetores solares não protegem contra todos os tipos de câncer de pele. Se você prefere usar protetor solar todos os dias, procure fazer o exame para saber o quanto de vitamina D você tem no sangue, para saber se é necessário fazer a suplementação.
6. Há muitas preocupações em relação ao excesso, mas talvez muito mais ocorrências patológicas em relação à carência de vitamina D. Procure o acompanhamento de um médico. Mas saiba que, após uma exposição média de 15 minutos ao sol do meio-dia, o organismo produz de 10 a 25 mil e IUs de vitamina D. A toxicidade da vitamina D geralmente ocorre se você começa a produzir 40 mil IUs por dia, durante 2 meses seguidos ou mais.
7. Dá para tomar sol juntamente com a suplementação de vitamina D? Sim, mas de preferência alternadamente. Nos dias em que você não puder se expor ao sol, faça o uso da suplementação, porém sempre com acompanhamento médico e dos níveis de vitamina D em seu sangue.
Para maiores informações, leia todo o texto abaixo, informe-se, debata e pesquise em várias fontes diferentes e qualificadas, não se restringindo somente ao que está sendo dito acima.
Fonte:
Redução da maioridade penal
Um monte de gente aí, de classe média alta, achando que não vai diretamente ter qualquer tipo de problema com a redução da maioridade penal. Mas pode não ser bem assim. Cuidado com seu filho entre 16 e 17 anos, com quem ele namora. Se for com alguém menor de 14 anos, será estupro presumido. E você já viu o que acontece com estupradores nos presídios? Então é melhor parar de cuspir um pouco pro alto e também ficar esperto.
Por que a sexualidade é um tabu? (um esboço)
Há vários fatores importantes que convergem para ou a partir da sexualidade: experiências intensas de prazer, excitação, expressão emocional e afetiva. Filhos são gerados a partir de atos sexuais. Alianças são formadas.
A sexualidade é um ponto de início, uma porta de entrada para a formação de novos grupos sociais, e de certo modo até mesmo de novas sociedades. Novas alianças, novos grupos sociais significam a formação de uma nova vida e de novas esferas interações nos arranjos e rearranjos das relações de poder, de dominação.
Uma amiga minha dizia que havia três fatores que poderiam facilmente enlouquecer as pessoas: sexualidade, religião e dinheiro. Agora imagine esses fatores conjugados, ao mesmo tempo, um em combinação com o outro!
A organização da sexualidade estipula quem vai ficar com quem e como. Essa organização de certo modo define como será estruturada uma determinada sociedade. Com quem as pessoas poderão ter filhos, quem cuidará de seus filhos. Define quais atores sociais terão posição dominante, podendo usufruir da sexualidade até de um modo mais livre, com maior número de parceiros, em detrimento de outros que assim não poderão atuar. De certo modo, o que se observa na história é que atos sexuais geram formações sociais e relações de poder.
A sexualidade, portanto, sempre teve um valor social muito grande e é tabu para qualquer agrupamento humano. Isso nos permite afirmar que sexo é poder, é dinheiro, assim como o que nos é mais claro: é amor, tem o poder de engendrar alianças e relações amorosas.
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Liberdade, responsabilidade e psicoterapia
Quando o assunto é liberdade ou a responsabilização pelos próprios atos, há algumas coisas que para mim não fazem o menor sentido de serem ditas a pacientes. Jamais digo que qualquer coisa que esteja acontecendo é uma opção, ou que para haver mudança o sujeito precisa querer, por exemplo. As formas verbais desse tipo de fala seriam mais ou menos as seguintes:
“Mas isso é uma opção sua...”, “Mas quando a gente quer, a gente muda”, “Para mudar, precisa querer...”.
Ressalto que não estou falando aqui de pessoas refratárias à psicoterapia, as quais estão muito bem adaptadas aos seus estilos de vida - embora alguns familiares, ou pessoas ligadas a elas, queiram que ela se submeta a um processo psicoterápico para mudarem em alguma coisa que elas mesmas não desejam mudar.
Estou falando somente daquelas pessoas que procuraram por um psicólogo porque estão sofrendo, não estão encontrando alternativas, e talvez a pior coisa que possa ocorrer com elas é ouvirem (de quem teria de ajudá-las) que isso é somente uma opção, ou que (bem ao estilo Paulo Coelho) basta querer, que elas mudam.
Para ser sincero, eu até acho esse tipo de fala meio covarde e pouco dotado de empatia. É covarde justamente porque é pouco empático. Quem diz isso, me parece, se esmerou muito pouco em tentar compreender o outro a partir de suas próprias condições, a partir de seu próprio referencial. Ouviu pouco, acompanhou muito pouco. E, na minha concepção, se ouviu bastante e acompanhou o suficiente, perdeu a oportunidade de compreender que existem caminhos mais eficazes para a mudança.
Se a pessoa está sem motivação eu, como terapeuta, tenho de ajudá-la a encontrar o caminho para ter mais motivação. Tenho de ajudá-la também a querer, a desejar mais. Temos juntos, eu e paciente, de descobrir o que pode facilitar a mudança e, na minha compreensão, não basta somente incutir culpa, ou dizer que as mazelas vividas pela pessoa são simplesmente resultado de uma opção ou de suas opções.
Esse texto ainda poderia render muito. Há muito ainda o que ser dito por aqui. Contudo, prefiro deixar para a discussão, para o debate...
Saturday, June 13, 2015
Mantra reacionário
Comprei a ilusão de um mundo colorido de prazer e liberdade na esquina de minha miopia, a me esconder sob o escudo de predadores da existência de milhões de pessoas inofensivas e sem defesa que um dia caminharam na estrada de dor aberta na clareira da história da humanidade, com a defesa de que tudo isso é simplesmente natural ou assim projetado por Deus.
Thursday, June 11, 2015
Pelo que é sagrado, tudo é permitido
Uma vez postei no
Facebook algumas pérolas do Velho Testamento. Dentre elas há essa aqui:
"O povo de
Samaria será castigado porque se revoltou contra Deus. Os homens morrerão na
guerra, as crianças serão despedaçadas, e as barrigas das mulheres grávidas
serão rasgadas." (Oséias 13:16)
Aí uma pessoa,
conhecida minha, a qual eu prezo, justificou que teria sido necessário Deus
fazer tudo isso, pois se tratavam de tempos difíceis, de guerras e que não
haveria outro modo. Confesso: fiquei perplexo, chocado. Porque essa pessoa tem
capacidade intelectual. Como é que ela me diz que um ser onipotente e
absolutamente bom não tinha outra alternativa a não ser despedaçar crianças e
rasgar as barrigas de mulheres grávidas?
Isso só me faz pensar
o seguinte: adoração e sacralização, de qualquer entidade ou pessoa, são coisas
absolutamente nefastas, pois deixam as pessoas completamente cegas, inclusive
as que têm capacidade intelectual.
Nada nem ninguém é
sagrado, intocável, indiscutível, inquestionável, e nem deve ser. Porque tudo
será permitido para se defender algo sagrado e adorado.
Um dos irmãos
Karamazov dizia que se Deus não existe, tudo é permitido. Michel Onfray defende
o contrário: se Deus existe (e é sagrado e deve ser adorado), tudo é permitido,
até mesmo despedaçar crianças e rasgar as barrigas de mulheres grávidas.
Não vejo problema
algum em se acreditar em Deus. O problema é a perda do bom-senso, da sensatez,
do contato com a realidade e das noções mínimas de ética.
Uma coisa que me
alivia um pouco é imaginar que essa pessoa, a qual eu prezo, muito
provavelmente pensa, eu espero, que esse é um passado que já foi, já era, e que
não voltará mais.
Mas, infelizmente, o
que ela pensa é bem menos sensato, bem menos razoável do que dizer que o Deus
do Velho Testamento é um outro deus, que não é o mesmo Deus do Novo Testamento,
por exemplo.
Por outro lado, eu
compreendo que, devido aos círculos familiares e de amizade aos quais as
pessoas de certo modo estão presas, é muito difícil para alguém de fato assumir
um determinado posicionamento com o risco da reprovação de seus pares, e até
mesmo o risco da perda de amor dessas mesmas pessoas que lhes são as mais
importantes em sua vida.
Conclusão triste e
freudiana: nosso espaço de autonomia e de reflexão ou posicionamento
independentes é quase nulo. Vivemos quase que invariavelmente abafados,
asfixiados, pelo peso dos valores que compõem o tecido social do qual fazemos
parte.
“Não é suicídio. É outra coisa...”
O suicídio é um ato
muito solitário e horrivelmente triste. É um horror angustiante no seio de
qualquer família que o experimenta. Falar abertamente sobre ele, tentando
diminuir o tabu e sua proibição absoluta, é o que hoje faço como parte de
minhas estratégias de prevenção.
O suicida precisa de
vínculo, apoio, cumplicidade, carinho, amor, companhia, e muita conversa franca
e transparente sobre seus desejos e planos para morrer. Sem desafios nem
chantagens e sabendo sempre que ele é o dono e responsável por sua própria
vida.
Contudo, a vida de
algumas pessoas adentra um vórtice de sofrimentos extremos e incontornáveis. E
aí muitas pessoas dizem assim:
- Ah, mas isso aí tem
cura. Isso aí tem solução.
Tem cura, tem
solução, veja bem, teoricamente. Porque, em muitos casos, no contexto em que a
pessoa está vivendo, isso não foi possível e ninguém está conseguindo aliviar
seu sofrimento extremo. E pior: essa pessoa não tem a menor condição nem mesmo
de dar cabo de sua própria vida, pois em muitas situações ela está completamente
paralisada, dos pés à cabeça, presa a uma cama, em seu próprio corpo
agonizante.
E aí a minha questão
é a seguinte: se ela comunica por meses, ou até anos a fio, que o sofrimento
dela é absolutamente insuportável e nós, que estamos cuidando dela, não damos
conta de aliviar esse sofrimento, ela precisa então de ajuda para morrer; pois
seria exatamente isso o que ela faria se tivesse condições para tal, se pudesse
se locomover se movimentar e dar cabo de sua própria vida.
E há também o caso de
algumas pessoas que talvez tivessem condições de dar cabo de sua própria vida
com suas próprias mãos, as quais contudo preferem não fazê-lo dessa forma.
Preferem mostrar ao mundo e à sua família que não estão simplesmente cometendo
suicídio. Que estão simplesmente lutando para deixar de sofrer de modo tão
intenso e irremediável. Que precisam do consentimento da família para tal. Que
precisam de um ritual de despedida.
Lembro claramente do
que dizia um australiano que tinha uma doença incurável, a qual lhe causava
sofrimentos intensos, ininterruptos e irremediáveis. Ele tentava demonstrar que
o suicídio assistido não era como um suicídio comum. Ele e todos os que o
amavam já tinham aceitado que não havia mais outra alternativa a não ser
morrer, pois todos já haviam feito tudo o que podiam, e o que não podiam, para
acabar com a tortura que estava massacrando com todo e qualquer possível
sentido para a vida moribunda, absurda e inaceitável que ele levava. Todos,
apesar de toda a dor que isso implica, aceitavam a decisão dele de não mais
continuar vivendo.
Em um outro caso,
também em uma entrevista, um rapaz, o qual já tinha tido o seu pedido para o
suicídio assistido aceito para ser realizado na Suíça, foi perguntado assim
pelo entrevistador:
- Mas você tem
opióides de sobra em sua casa. Por que não utilizá-los?
E ele respondeu mais
ou menos assim:
- Acho horrível e
abominável a perspectiva de um suicídio comum, a perspectiva de minha mãe
chegar em casa e encontrar repentinamente meu corpo morto. Desejo o
consentimento e o ritual de despedida de minha família. A minha decisão vem
sendo debatida com todos os membros da família há muito tempo. Tivemos
conversas intermináveis. Fizemos absolutamente tudo o que podíamos ter feito,
envolvendo sacrifícios de várias pessoas de nossa família, sem contar o maior
deles, que é o meu próprio sacrifício nessa história toda.
Ou seja, não se trata
de um suicídio comum. Muitos até diriam que isso não é suícidio. É uma outra
coisa.
Ele deixava claro o
fato de que o pedido dele para ter direito ao suicídio assistido tinha sido
aprovado segundo critérios específicos, rigorosos e muito claros, organizados
segundo uma fundamentação consistente da legislação de seu país. Ou seja, o
direito de morrer não se estende para toda e qualquer pessoa. Em lugares como
Suíça, Bélgica, Holanda e alguns estados americanos, existe sim o direito de
morrer. Mas não são todas as pessoas que têm esse direito. São pouquíssimas as
pessoas que podem fazer uso desse direito. E quem tem esse direito? Ele se
aplica, de modo geral, para o caso de pessoas que se encontram em estado
terminal ou padecendo de sofrimentos intensos e incontornáveis.
Para finalizar acho
importante reiterar a consideração de Paul-Henri Thiry, o Barão d'Holbach, em
um livro escrito juntamente com Denis Diderot, em 1770:
“Se a aliança que une
o homem à sociedade for considerada, será óbvio que cada contrato é
condicional, deve ser recíproco, isto é, supõe vantagens mútuas entre as partes
contratantes. O cidadão não pode ser ligado ao seu país, aos seus associados,
mas pelos laços de felicidade. Se estes laços são cortados em pedaços, a este
homem deve ser restabelecida a liberdade.
A sociedade, ou
aqueles que representá-lo, ao usá-lo com severidade, ao tratá-lo com injustiça,
não tornam assim a sua existência dolorosa? A melancolia e o desespero lhe
roubam o espetáculo do universo? Em suma, por qualquer razão que seja, se ele
não é capaz de suportar seus males, deixe-o sair de um mundo que para ele é
somente um deserto terrível.” (D'Holbach, 1770/1970, 136-137)
Referência:
D'Holbach, Baron. The System of Nature, or Laws of the Moral and
Physical World, Volume 1, Robinson (trans.), New York: Burt Franklin, 1970.
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Sunday, June 07, 2015
Supervalorização da atividade sexual
Uma vez um amigo me perguntou assim:
"Como psicólogo, pra você qual é uma das maiores causas de infelicidade no mundo atual?"
Na hora ele me fez lembrar também da consideração de uma grande amiga minha, a qual mencionava três grandes fatores que podem enlouquecer uma pessoa: religião, sexo e dinheiro.
São três elementos muito inflamáveis, os quais têm um peso muitas vezes excessivo e até mesmo patológico na configuração de diversas interações humanas. Quando combinados, seu efeito pode ser ainda mais devastador. Possuem um potencial enorme para a inflação do ego. O narcisismo pode se valer de qualquer uma dessas três fontes em seu descolamento para com a realidade.
Nesse texto quero me ater somente à questão da sexualidade, pois talvez seja ela o que atualmente melhor representa a nossa desatenção. Com o advento da liberação dos costumes, conseguimos reduzir de modo saudável uma série de tabus em relação à sexualidade. Contudo, surgiram outros, os quais ainda não estão muito bem identificados e assim podem produzir muita infelicidade.
A pressão pela contenção, abafamento e diminuição da atividade sexual (prevalente até poucas décadas atrás) somente foi substituída por algo parecido com o seu oposto. Já há algum tempo uma série de autores vinculados ao pensamento psicanalítico vêm alertando para uma espécie de inversão do mal-estar na cultura. A pressão atual é para a fruição (desfrute) máxima, irrestrita e constante. Vou tentar colocar da forma que me parece ser a mais clara e simples possível: existe atualmente uma supervalorização da atividade sexual, a qual tem produzido, para muitas pessoas, mais infelicidade do que felicidade.
Há uma idealização de que a atividade sexual deve se realizar segundo padrões de intensidade, desempenho, frequência e variedade de parceiros, os quais são inatingíveis para a maioria das pessoas.
São muitas pessoas lutando para serem felizes com base em alguma coisa repleta de imperfeições, furos, idealizações baratas, e ainda com o acréscimo de que a sua realização repousa no nevoeiro caótico do desejo de quem desejamos sexualmente.
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Poesia no CAPS (2)
Um usuário do CAPS estava tentando melhorar sua redação. Sentei com ele e, além de todo o atendimento e produção escrita individual dele, escrevemos juntos a frase poética abaixo:
“Estou estudando o mundo da minha raiva, pela agonia que brota nas pedras que engasgam meu coração rasgado de medo e saudade.”
“Estou estudando o mundo da minha raiva, pela agonia que brota nas pedras que engasgam meu coração rasgado de medo e saudade.”
Poesia no CAPS
Uma vez um usuário (paciente) do CAPS me disse assim:
- Gosto de ler estórias. Poesia eu não gosto. É boiolagem!
- Talvez seja porque você nunca leu uma poesia de qualidade.
- E por acaso você conhece alguma?
Na hora eu somente lembrei, do meu jeito, de um trecho de uma poesia de Nicolas Behr:
Quando eu morrer “enterrem meu coração na areia do parquinho da 415 sul, e deixem meu corpo boiando no Paranoá”.
Ficou por um tempo me olhando, meio assustado.
- É assustador, não? - indaguei.
- É um pouco pesado.
- Que tal essa frase poética aqui? : “O pensamento humano é um avião sem fim que voa dentro de um coração ridículo”.
A gravidade do semblante se desfez e ele emendou:
- Ah, dessa eu gostei! A outra é meio pesada.
E ficou me olhando de um modo indagador, por um bom tempo, por várias vezes naqueles minutos em que estivemos juntos...
Prosseguimos com nossa interação, da qual não posso dar detalhes aqui, mas assevero que foi muito inspiradora, para nós dois. Saímos ambos renovados, de um encontro de poucos minutos. Sei que o paciente levou sua inspiração no coração, pra casa e para seus familiares. E eu tive de escrever alguma coisa, uma poesia. Aí ralei minutos atentos à profecia das palavras de um olhar siderado para desaguar esse texto aqui:
Meu coração está reinando hoje na paz de um menino tranquilo com sabor de estrela cadente, à beira do fogo de minhas lembranças boas da infância.
Tudo veio do mergulho no mundo que brotou do absurdo contato com a falta de sentido, mas com direção certa para o rumo do coração; na conversa que tive com o olho da loucura a me sequestrar para fora da vida burra das criaturas obedientes.
Construí meu caminho por cima do abismo que arrotava entre nós. Fui ao infinito da sua compreensão para morrer na praia da sua expectativa de continuar morando na sombra de suas regras.
E agora estou aqui, rindo do universo, ejaculando mais um pouco de escuridão na sua miopia ou no seu sorriso, o qual também se embriaga, sem perceber, em minha loucura.
- Gosto de ler estórias. Poesia eu não gosto. É boiolagem!
- Talvez seja porque você nunca leu uma poesia de qualidade.
- E por acaso você conhece alguma?
Na hora eu somente lembrei, do meu jeito, de um trecho de uma poesia de Nicolas Behr:
Quando eu morrer “enterrem meu coração na areia do parquinho da 415 sul, e deixem meu corpo boiando no Paranoá”.
Ficou por um tempo me olhando, meio assustado.
- É assustador, não? - indaguei.
- É um pouco pesado.
- Que tal essa frase poética aqui? : “O pensamento humano é um avião sem fim que voa dentro de um coração ridículo”.
A gravidade do semblante se desfez e ele emendou:
- Ah, dessa eu gostei! A outra é meio pesada.
E ficou me olhando de um modo indagador, por um bom tempo, por várias vezes naqueles minutos em que estivemos juntos...
Prosseguimos com nossa interação, da qual não posso dar detalhes aqui, mas assevero que foi muito inspiradora, para nós dois. Saímos ambos renovados, de um encontro de poucos minutos. Sei que o paciente levou sua inspiração no coração, pra casa e para seus familiares. E eu tive de escrever alguma coisa, uma poesia. Aí ralei minutos atentos à profecia das palavras de um olhar siderado para desaguar esse texto aqui:
Meu coração está reinando hoje na paz de um menino tranquilo com sabor de estrela cadente, à beira do fogo de minhas lembranças boas da infância.
Tudo veio do mergulho no mundo que brotou do absurdo contato com a falta de sentido, mas com direção certa para o rumo do coração; na conversa que tive com o olho da loucura a me sequestrar para fora da vida burra das criaturas obedientes.
Construí meu caminho por cima do abismo que arrotava entre nós. Fui ao infinito da sua compreensão para morrer na praia da sua expectativa de continuar morando na sombra de suas regras.
E agora estou aqui, rindo do universo, ejaculando mais um pouco de escuridão na sua miopia ou no seu sorriso, o qual também se embriaga, sem perceber, em minha loucura.
Thursday, May 28, 2015
A coisa mais importante na vida de um ser humano
Cada
vez mais me convenço de que é a coisa mais importante na vida de um ser humano
são outros seres humanos.
Há uma
distinção entre solidão e isolamento que talvez seja interessante de ser feita.
Fundamentalmente todos somos sós. O fato de ninguém poder viver por nós (e
ninguém pode viver exatamente o que vivemos, seja no prazer ou na dor), de
existir a individualidade, define uma solidão fundamental da qual não há como
fugir. Por existir a individualidade, somos todos então inevitavelmente sós.
Desse modo é portanto possível traçar uma distinção para com o isolamento, o
qual teria um caráter mais evitável.
Mas a
minha questão principal é a seguinte: quem são, como são os sobreviventes do
completo isolamento social?
Sabemos
que na infância, principalmente dos 0 aos 7 anos de idade, o completo
isolamento social provoca danos imensos ao desenvolvimento humano. Existem
períodos críticos, janelas de desenvolvimento. Se a criança não adquirir uma
determinada habilidade em um determinado período específico, muito dificilmente
irá adquiri-la depois. O caso da linguagem costuma ser emblemático. Criança que
não aprende a falar até os 5 anos de idade, dificilmente será capaz de adquirir
essa habilidade posteriormente.
Na
idade adulta, o completo isolamento social precisa de algumas estratégias
eficazes de compensação, senão a tendência é desembocar na loucura.
Portanto,
a minha compreensão é que crianças não escapam sem dano do completo isolamento
social. E os adultos que escapam só o fazem porque na verdade não estavam tão
isolados assim. Psicologicamente sobrevivem pelas artimanhas de algumas formas
de solilóquio ou obras de arte, os quais continuam de certo modo produzindo a
trama das interações sociais.
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Amor erótico
Há
poucos dias alguém se queixava pra mim de sua vida amorosa (erótica):
"Não
acredito mais no amor..."
"Eu
nunca acreditei nesse tipo de amor" - respondi.
E
também nunca deixei de amar (eroticamente) em função de meu ceticismo.
Pedir pra Deus
- Isso
vai passar, Adriano! É só você ter fé, e acreditar em Deus, que ele vai
resolver isso pra você! Pra Deus nada é impossível!
- Mas
se Deus pode tudo e sabe tudo, sabendo inclusive o que é melhor pra mim, meu
pedido não significa nada. Então não faz sentido pedir o que quer que seja.
Deus não é Papai Noel, concorda? O que eu quero não importa. O que importa é o
que ele quer pra mim, não?
A mãe e o tempo
Temos
que ter paciência e nada como o tempo para cicatrizar as feridas. Espere, deixe
o tempo passar que um dia a ferida se cicatriza. Com minha mãe essa história
não é diferente. Quando brigamos, sempre respiramos fundo e esperamos, com
paciência, o tempo passar. É sempre muito doloroso lidar com esse processo tão
lento de cicatrização, o qual parece que não vai acabar nunca. Para isso é
preciso também ser forte e esperar, porque depois de longos e infinitos 5
minutos está tudo resolvido entre nós!
A cor dos olhos e o espanto filosófico
É muito
importante para a postura filosófica a capacidade de se espantar com o mundo,
como se a tudo percebesse pela primeira vez.
Um
olhar que se espanta é um olhar que percebe algo diverso do olhar comum. É um
olhar renovado, ou primeiro. Um olhar puro, ingênuo, despido das contaminações
cotidianas, das influências mais próximas.
Pode
ser o olhar de uma pessoa em estado alterado de consciência (e nessa medida
podemos pensar de fenômenos que vão dos sonhos ao uso de drogas), de uma
criança, o olhar do louco, do bêbado ou até mesmo a percepção que animais
não-humanos teriam.
Não é
gratuita a inspiração que o movimento romântico sempre teve em relação a tudo o
que é olhar e forma marginal de existência. Daí seu elogio à marginalidade
expressa no fazer artístico, no uso de drogas, na rebeldia, nas ações
cotidianas de animais não-humanos e das crianças, enfim, no elogio de tudo o
que é diferente e inusitado.
Hoje,
mais uma vez, uma criança (com 7 anos de idade) teve um olhar surpreendente em
relação aos olhos de minha filha:
"O
olho dela é diferente" - a maioria das pessoas diz que os olhos dela são
bonitos.
"É
diferente como?" - perguntei, pois ela poderia estar falando de várias
características possíveis, desde o tamanho até a forma dos olhos.
"A
cor! É diferente."
"E
que cor você acha que são os olhos dela?"
"Não
sei."
E os
adultos não hesitam em dizer: "Que lindos esses olhos azuis dela!"...
Tuesday, April 14, 2015
Quem não enlouqueceu...
Quem não enlouqueceu, duvida de si mesmo, de seus pensamentos extremos, de suas hipóteses mais arrojadas ou bizarras.
Quem não enlouqueceu se preocupa, e muito, muitas vezes, com muito pouco, mas percebe, em vários momentos, que isso é ridículo, mesmo não conseguindo deixar de se preocupar.
Quem não enlouqueceu consegue formular as possibilidades mais absurdas e fantásticas, mas consegue compreender que são somente algumas possibilidades dentre inúmeras outras mais cabíveis e sensatas.
A saúde mental talvez esteja em um gosto maior pela investigação do que pelo saber, diante do pântano infinito de nossa ignorância. Porque quem não enlouqueceu percebe essa fragilidade, essa impotência fundamental.
Quem não enlouqueceu se preocupa, e muito, muitas vezes, com muito pouco, mas percebe, em vários momentos, que isso é ridículo, mesmo não conseguindo deixar de se preocupar.
Quem não enlouqueceu consegue formular as possibilidades mais absurdas e fantásticas, mas consegue compreender que são somente algumas possibilidades dentre inúmeras outras mais cabíveis e sensatas.
A saúde mental talvez esteja em um gosto maior pela investigação do que pelo saber, diante do pântano infinito de nossa ignorância. Porque quem não enlouqueceu percebe essa fragilidade, essa impotência fundamental.
Saturday, April 11, 2015
A esperança
"O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso." (Ariano Suassuna)
Mas, Ariano, a esperança é uma bosta:
“Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos." (Albert Camus)
“O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós” (...)
"Esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar. O sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito - já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade." (...)
“Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. A partir do momento em que esperamos a felicidade (“Como eu seria feliz se...”), não podemos escapar da decepção... É o que Woody Allen resume numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!” " (Comte-Sponville).
Mas, Ariano, a esperança é uma bosta:
“Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos." (Albert Camus)
“O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós” (...)
"Esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar. O sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito - já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade." (...)
“Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. A partir do momento em que esperamos a felicidade (“Como eu seria feliz se...”), não podemos escapar da decepção... É o que Woody Allen resume numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!” " (Comte-Sponville).
Jair jogou a isca e Jean fisgou...
No vídeo abaixo, acho muito fácil ficar parecendo, para o olhar do leigo, que Jean Wyllys é arrogante, que não quer o diálogo. Bolsonaro, por sua vez, ficará parecendo humilde, democrático, disposto ao debate.
Acho que Jean deveria ter questionado o porquê de Bolsonaro estar filmando. Deveria ter pedido para ele parar de filmar. Ou então deveria ter deixado a conversa rolar, acontecer.
A minha impressão é a de que os efeitos dessa atitude de Jean não são bons para a imagem dele ao olhar do leigo, o qual forma uma parte muito grande do eleitorado brasileiro.
Existe uma coisa muito importante, inclusive em política: estratégia. Esse comportamento do Jean somente convence quem já está do lado dele. E, infelizmente, Bolsonaro marcou um gol aí. Teve mais estratégia. Já possui mais eleitorado e terá ainda mais depois de um vídeo desses.
Jean deveria ter apontado que o cara estava filmando e queria provocar algum tipo de entreveiro. Jean deveria ter feito isso com calma, com um pouco mais de jogo de cintura, com sangue frio. Ficar simplesmente fazendo um discurso que somente convence quem já está convencido é furada. Tem que reconhecer que errou em não ter sido mais estratégico, malandro. Importante, claro, é sabermos sim que errou numa condição extrema, muito difícil, em que era necessário ter sangue de barata. Mas para isso existe treinamento, experiência política, experiência de vida, maturidade.
Acho triste que Jean não tenha percebido isso ainda. É importante observar a situação e perceber que mesmo em situações extremas poderíamos ter agido de forma mais eficaz. E não é isso o que ocorre. Em seu perfil do Facebook, Jean tentou simplesmente reproduzir o que Pagu fez em um contexto de ditadura (se não me falhe a memória e a leitura dinâmica), de guerra.
Em um contexto democrático acho que a coisa muda completamente de figura. Alguém que está preso, sendo torturado, se negar a cumprimentar, a dar a mão para o carrasco, pode até fazer todo sentido, mas não é o caso do que ocorreu nesse avião com Jean Wyllys e Jair Bolsonaro.
Acho que Jean deveria ter questionado o porquê de Bolsonaro estar filmando. Deveria ter pedido para ele parar de filmar. Ou então deveria ter deixado a conversa rolar, acontecer.
A minha impressão é a de que os efeitos dessa atitude de Jean não são bons para a imagem dele ao olhar do leigo, o qual forma uma parte muito grande do eleitorado brasileiro.
Existe uma coisa muito importante, inclusive em política: estratégia. Esse comportamento do Jean somente convence quem já está do lado dele. E, infelizmente, Bolsonaro marcou um gol aí. Teve mais estratégia. Já possui mais eleitorado e terá ainda mais depois de um vídeo desses.
Jean deveria ter apontado que o cara estava filmando e queria provocar algum tipo de entreveiro. Jean deveria ter feito isso com calma, com um pouco mais de jogo de cintura, com sangue frio. Ficar simplesmente fazendo um discurso que somente convence quem já está convencido é furada. Tem que reconhecer que errou em não ter sido mais estratégico, malandro. Importante, claro, é sabermos sim que errou numa condição extrema, muito difícil, em que era necessário ter sangue de barata. Mas para isso existe treinamento, experiência política, experiência de vida, maturidade.
Acho triste que Jean não tenha percebido isso ainda. É importante observar a situação e perceber que mesmo em situações extremas poderíamos ter agido de forma mais eficaz. E não é isso o que ocorre. Em seu perfil do Facebook, Jean tentou simplesmente reproduzir o que Pagu fez em um contexto de ditadura (se não me falhe a memória e a leitura dinâmica), de guerra.
Em um contexto democrático acho que a coisa muda completamente de figura. Alguém que está preso, sendo torturado, se negar a cumprimentar, a dar a mão para o carrasco, pode até fazer todo sentido, mas não é o caso do que ocorreu nesse avião com Jean Wyllys e Jair Bolsonaro.
O paz e o espírito
Muitas pessoas têm fé e costumam pedir muitas coisas para Deus. Alguns pedem somente saúde e outros chegam inclusive a pedir especificamente alguns bens materiais.
Mas a minha questão é a seguinte: qual é o sentido de se pedir para Deus algo além da paz? Qual é o sentido em se pensar que o espírito (imaterial, eterno e, portanto, inegavelmente superior ao corpo) deva encontrar paz, conforto, em coisas, em elementos materiais?
Se a espiritualidade é o cultivo do espírito, em superação aos limites da matéria e do corpo, não faz sentido orar ou pedir nem mesmo por saúde, muito menos por um novo emprego ou carro, por exemplo.
Compreendo que pedir por algo além da paz seja a negação da existência do espírito. Quem pede algo além disso, não acredita no espírito ou na alma eterna, ou então cultiva de maneira ambígua ou dissociada duas crenças completamente diferentes e incompatíveis.
Mas a minha questão é a seguinte: qual é o sentido de se pedir para Deus algo além da paz? Qual é o sentido em se pensar que o espírito (imaterial, eterno e, portanto, inegavelmente superior ao corpo) deva encontrar paz, conforto, em coisas, em elementos materiais?
Se a espiritualidade é o cultivo do espírito, em superação aos limites da matéria e do corpo, não faz sentido orar ou pedir nem mesmo por saúde, muito menos por um novo emprego ou carro, por exemplo.
Compreendo que pedir por algo além da paz seja a negação da existência do espírito. Quem pede algo além disso, não acredita no espírito ou na alma eterna, ou então cultiva de maneira ambígua ou dissociada duas crenças completamente diferentes e incompatíveis.
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