Sunday, September 19, 2021

Epiteto, Sartre e behaviorismo radical

Epiteto teria dito assim: “O que perturba o ser humano não são os fatos, mas a interpretação que ele faz destes”.

As pessoas costumam citar esta frase para ressaltar que somos responsáveis pelo modo como interpretamos o que acontece conosco. 

Muitas dessas pessoas inclusive ressaltam que podemos interpretar nossas desventuras de modo vitimista ou transformá-las em uma visão mais otimista e fortalecedora. Chegam a dizer que não somos responsáveis pelo que nos ocorreu, mas que somos totalmente responsáveis pelo modo como interpretamos o que nos ocorreu.

Então imaginemos uma pessoa que tenha sido, por exemplo, torturada. E imaginemos também que esta pessoa, durante um certo tempo, tenha tido uma interpretação “vitimista” do ocorrido. Durante um certo tempo ela costumava relacionar as torturas que sofreu com tudo o que havia de errado em sua vida.

Porém, agora imaginemos que há alguns anos ela vem convivendo com um novo grupo de amigos e que, a partir dessa convivência, essa interpretação tenha mudado.

Sabemos muito bem que esse tipo de coisa ocorre na vida das pessoas. Muitas mudam a partir de novas influências. E se mudam sua interpretação a partir de novas influências, faz sentido dizer que são as responsáveis, ou as únicas responsáveis pelo modo como interpretam o mundo?

Dizer que somos os responsáveis pelo modo como interpretamos o mundo, que interpretar de modo otimista ou pessimista é simplesmente um ato de escolha, individual, é assumir que não existe influência possível. Se somos totalmente responsáveis pelo modo como interpretamos a realidade, somos todos ilhas incomunicáveis umas com as outras.

O mesmo se aplica a uma frase que é geralmente atribuída a Sartre, que teria dito que “não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”

Mas se essa frase faz você agir, logo o que você faz é resultado de algo que fizeram com você.

Saturday, September 18, 2021

Como saber se alguém enlouqueceu mesmo?

 No filme "Reine sobre mim", Adam Sandler faz o papel de um sujeito que enlouqueceu. Mas não se trata de loucura clássica, de psicose. Está mais para um transtorno dissociativo. É um filme muito interessante. Recomendo a todas as pessoas que se interessam por saúde mental e a questão da loucura.

O personagem padece desse transtorno de um modo muito sofrido e triste. Seu adoecimento é enigmático. Não é simplesmente uma loucura comum, como já disse, uma loucura clássica. Não é psicose.

Alguns especialistas talvez até mesmo classifiquem esta condição como uma pseudopsicose. E podem até alegar que o personagem do filme não enlouqueceu de verdade.

E é possível mesmo pensar que não é psicose, porque o risco autolesivo é bem mais baixo do que em um transtorno psicótico. Quem sofre de transtorno dissociativo se comporta de modo muito parecido com pessoas que estão em estado hipnótico. 

É pouco provável que pessoas, nestas condições, se exponham a riscos extremos. Quando a situação fica de fato bastante perigosa os sintomas supostamente delirantes tendem a retroceder.

Há alguns anos acompanhamos um caso assim no CAPS, o qual possui nuances impressionantes, assim como o que pode ser observado no filme.

E esses aspectos impressionantes têm relação com o fato de serem paradoxais. Trata-se de um paciente que possui uma oratória e uma retórica muito acima da média dos outros pacientes que têm o mesmo nível de instrução formal que ele.

Ele sabe ler. Contudo é incapaz de lidar com dinheiro. Não consegue fazer o básico das operações de adição e subtração. E possui inclusive uma classificação diagnóstica de deficiência cognitiva.

Porém, faz discursos grandiloquentes, dizendo-se alguém de grande projeção social. Jamais se identifica com seu próprio nome. Sempre se identifica com um único codinome, cuja biografia remete a outra região do Brasil. A partir desse codinome que encarna, se apresenta como um homem de 30 a 40 anos mais velho, muito rico, poderoso e ocupando cargos políticos em nível nacional. 

Em uma única conversa costuma se apresentar como deputado federal, candidato a governador, médico, advogado e quantas posições sociais de prestígio puder mencionar.

Sua retórica e oratória são articuladas e envolventes. Praticamente toda e qualquer interlocução com ele se transforma em uma espécie de discurso político, em ritmo que é sempre solene e vigoroso, com diversas menções a grandes projetos de infraestrutura, com os quais ele garante que tem envolvimento direto.

Quando fala de outros políticos ou celebridades, sempre fala em tom de intimidade, mencionando supostos detalhes da vida dessas pessoas, que não seriam divulgados na imprensa ou para o grande público.

Tem também uma capacidade muito grande para o improviso e construções verbais carregadas de ironia e humor, sempre com aparência de sofisticação e intensa linguagem simbólica. Quem geralmente ouve o que ele diz fica envolvido, e acha divertido, engraçado.

Durante uma determinada época ele comparecia às reuniões de meu grupo terapêutico no CAPS. Ele não havia sido inscrito no grupo, mas adentrava a sala como se assim tivesse ocorrido. E suas intervenções eram, na maioria das vezes, jocosas e hilárias. Mencionava, de modo bastante elegante, sua suposta vida amorosa com suas secretárias e seus problemas de ereção.

Isso fazia com que muitas pessoas ali no grupo dessem risadas, mesmo aquelas que estavam muito abatidas, com o humor bem rebaixado. 

Sua participação era sempre um imenso desvio do tema, ou uma extrapolação cômica, que quebrava um pouco com o ritmo, ou fazia com que ficássemos todos um pouco mais alegres e relaxados.

Eu tinha sempre de limitá-lo, de contê-lo, de dizer que as coisas não eram assim, que aquilo não podia, que alguma outra coisa que ele tinha dito talvez fosse para um outro momento, ou então eu fazia isso também de um modo debochado, e aí todos se riam ainda mais.

Era realmente muito divertido, e eu confesso que sinto muita falta dele em meus grupos. Às vezes era tão engraçado e divertido que eu dizia a todos os presentes que tínhamos de montar um grupo de humor.

Um olhar mais superficial iria somente classificar a participação dele como perturbadora e ruim para a evolução do grupo. Mas hoje, relembrando tudo o que acontecia, sinto que ele era na verdade uma peça muito importante.

Há ainda uma série de eventos, provindos da interação com esse paciente, que são muito interessantes, sobre os quais talvez posso um dia fazer alguma narrativa mais reflexiva e pormenorizada. 

Mas o que fica mesmo é minha saudade da participação dele em meus grupos.

Sunday, September 05, 2021

Muito foram torturados, escravizados, estuprados

 A variedade de casos impressionantes no CAPS é grande. Atendo muitos pacientes que foram torturados, escravizados, estuprados. E muitos não se dão conta de que foram torturados, escravizados, ou estuprados. 

Muitos familiares só se dão conta de que esses pacientes estão numa situação grave quando cortam sua própria traqueia ao meio ou matam seu amado cachorro a pauladas. 

O fluxo de pacientes é tão grande que muitas vezes não damos conta de saber se hoje estão em melhor condição ou não. 

Um desses, que foi esse que cortou a própria traqueia ao meio, em uma tentativa malograda de autoextermínio, somente fui ter conhecimento do fato em minha atuação na UTI, há uns 7 anos (por sorte já não atuo mais em ambiente de UTI há 5 anos). 

Ele estava lá, internado na UTI, e era paciente registrado no CAPS, para acompanhamento conosco, em reabilitação psicossocial. É tanta correria que nem sei o nome dele, e nem tive tempo de acompanhar para saber se sobreviveu, se hoje está vivo ou como está. 

Era ficar correndo atrás disso ou atender o outro que havia tomado um copo duplo de água sanitária e que, segundo ele, isso tinha sido lhe ofertado por um policial militar. Segundo ele, o policial militar teria lhe ofertado esse copo, e o obrigado a beber todo o conteúdo. 

Ele tinha um histórico de drogadição, de morar nas ruas, e era com frequência torturado por policiais militares. 

Nem sempre temos tempo para fazer tudo que gostaríamos de fazer. Muitos pacientes têm meu número pessoal de celular, e me enviam mensagens com sermões de insandescidos pastores neopentecostais, ou de que estão pensando em se matar, no meio da madrugada. 

Hoje mesmo entrei na internet para abrir conta de e-mail, cadastro no governo federal e cadastro para microempreendedor individual para um paciente.

Reuni muitas dessas histórias em livro, e talvez haja ainda material para um segundo livro.

Wednesday, September 01, 2021

Você não precisa ressignificar nada

Parte 1:

É comum ouvirmos profissionais de Psicologia dizendo para as pessoas que elas devem ressignificar algumas coisas. Contudo, esse tipo de orientação, na minha concepção, tem somente alguns significados: é uma orientação ruim, vazia e confusa. 

Quem diz isso a seus pacientes simplesmente está deixando-os sozinhos com alguma coisa que não faz sentido. Porque esta ressignificação não irá simplesmente surgir a partir de um ato de boa vontade e esforço. 

Não existe geração espontânea de ressignificação. Não existe esse tipo de liberdade. Não existe, portanto, o que é definido como livre-arbítrio. Porque querer não é poder. Não temos o poder de desejar, do nada, algo que não desejamos, e vice-versa. A liberdade não brota da vontade. E o livre-arbítrio é, em certa medida, isso: acreditar que a liberdade brota da vontade.

Se a ingenuidade acredita que somos resultado de nossas escolhas, a próxima questão é: o que determina nossas escolhas, porque escolhemos uma coisa e não outra? 

Isso não é resultado de um simples ato de vontade. Acreditar que assim o seja é negar algo absolutamente simples e básico: que o mundo é maior do que nós. Eis o narcisismo tolo.

Então um ponto importante é não confundir as coisas. Passamos a dar um novo sentido para o que existe, o que vivemos e o que nos cerca, a partir do momento em que nossas interações com o mundo e as coisas se alteram. Novas interações, novos ambientes, novas fontes de estimulação, novos modos de agir e estar no mundo produzem novos sentidos e não o contrário.

Você não precisa ressignificar nada. O trabalho do psicólogo é inevitavelmente sistêmico, social, familiar, lidando com tudo o que for possível à volta do paciente. É mudando o mundo que mudamos nós mesmos. 

Então temos de fazer o possível para que as pessoas se desloquem, alterem posições, configurações, horários, locais, exposições, fontes de estimulação, alimentação, e tudo o que for necessário para que elas de fato mudem. 

Porque não existe geração espontânea. O indivíduo não é o manancial de nada. Porque a mudança é sempre de fora para dentro.


Parte 2:

Acho que é primeiro importante entender a diferença entre sentido e explicação.

Uma pessoa está caminhando por uma rua deserta e algo raro ocorre: um vaso cai de cima de um prédio, em sua cabeça. Ela se fere ao ponto de ter de ficar alguns dias em um hospital, e passa por uma série de situações muito sofridas até que por fim se recupera. E juntamente com todo o sofrimento físico, ela também fica com uma pergunta muito sofrida: "Por que isso foi ocorrer logo comigo?".

A pergunta é compreensível, porque se a queda de um vaso de um prédio é algo muito raro, mais raro ainda é que a trajetória do vaso entre em colisão com a cabeça de um transeunte em uma rua deserta.

A vítima se sente vítima também do acaso. Sente que foi vítima de um azar muito grande. Se sente cruelmente injustiçada.

O primeiro problema é que a realidade não é justa. Não existe justiça na natureza. A justiça é uma invenção, uma aspiração humana.

Se essa pessoa quer algum tipo de justiça ou reparação, deverá entrar na justiça contra o proprietário do apartamento do qual o vaso caiu. Mas não há como voltar no tempo para reverter o dano, e não há como se comprovar que exista alguma entidade sobrenatural onipotente que tenha feito ou permitido isso.

Então simplesmente não há sentido para o que ocorreu. Porque não havia nenhuma finalidade para aquilo. O vaso não caiu na cabeça da pessoa para que ela se transformasse nisso ou naquilo, para que ela se transformasse numa pessoa mais forte ou para que ela aprendesse alguma coisa. Não havia finalidade alguma no ocorrido. Porque, para dizermos que havia finalidade, tem de existir uma entidade controladora de tudo, que atua com propósitos específicos para a vida desta pessoa.

Há, portanto, somente o campo das causas, dos determinantes do ocorrido. E, a partir disso, o que devemos buscar é uma explicação, e não um sentido.

Mas o problema é que boa parte das explicações não satisfaz a um bom número de pessoas. Para muitas parece haver um poder mais consolador no sentidos, nas ficções, nas mentiras que inventam para si mesmas, do que na simplicidade angustiante de uma explicação.

Concordo que a explicação, no exemplo citado, é de fato muito menos consoladora. O vaso caiu na cabeça daquele sujeito porque era ele quem estava passando ali naquele exato momento, oras. Sim, fato muito raro, mas não impossível. Sim, muito azar. Mas o azar sempre existiu e não merece um sentido individual e sobrenatural só porque ocorreu agora especificamente com você. Evento muito específico, mas que não torna você tão especial assim. 

Então, a partir desse exemplo, temos a percepção de que o sentido não serve para nada. Porque ou você tem uma explicação ou você simplesmente não tem nada. O sentido entra na situação e embola o meio-de-campo. 

Alcançamos as causas por meio de explicações, e alcançamos os sentidos por meio de interpretações. Mas se o sentido não coincide com a causa, com o determinante, ele é falso, não? Se uma interpretação permite um sentido que difere dos fatos, trata-se de uma interpretação equivocada.

E claro, não nos esqueçamos: existe o sentido no sentido de sentir. No sentido de que cada um sente o mundo de modo individual. Quando perguntamos a uma pessoa o que é ser mãe, cada uma, em tese, dirá uma coisa diferente. 

Alguém poderia dizer que o trabalho de ressignificação incide exatamente aí, em fazer com que as pessoas passem a sentir, em perceber de modo diferente o que lhes acomete.  

Porém, insisto. É uma ilusão acreditar que isso será obtido somente por meio de conversas sobre o que a pessoa vem sofrendo. Claro, conversar já é uma forma de exposição, que facilita por exemplo a dessensibilização, ou a habituação. E, ocorrendo isso, a pessoa passa a dar um sentido diferente para sua experiência.

Também, ao falar sobre o que está acontecendo, e assim entrar em contato com outras perspectivas, o paciente vai elaborando e ressignificando. Mas é incrível como muitos psicólogos não se dão conta de que isso muitas vezes não basta. Acreditam que bastam os pacientes falarem sobre o que estão sentindo, e que somente isso terá um efeito de mudança significativa em suas vidas. 

O sujeito que foi vítima da queda de um vaso em sua cabeça não precisa da mentira de que aquilo aconteceu para que ele se transformasse em uma pessoa mais forte. Ele somente precisa seguir com sua vida, se envolvendo com atividades e pessoas que preencham sua vida e seu cotidiano. 

Não precisamos nem mesmo responder à pergunta de qual é o sentido de nossa vida se nossa vida tem sentido. Quando a vida tem sentido, esse tipo de pergunta não faz sentido algum.

Não basta ressignificar. A produção de um novo sentido só tem finalidade prática, e terapêutica, se ele for concebido como um indício para se alcançar um estado mais elevado de qualidade de vida ou de compreensão da realidade. O encadeamento de novos sentidos somente é útil se estiverem a caminho do encontro com a realidade.

O risco da profusão de sentidos é quando ela desemboca em uma espécie de pântano ou ciranda hermenêutica. Ou quando damos sentido ao que não tem sentido, que é o caso da superstição. 

Como muito bem enuncia André Comte-Sponville (2003, p. 577 - 578): 

"Toda superstição submete o real ao sentido: ela explica o que é (um sonho, um eclipse, um gato preto) pelo que quer dizer (por exemplo, uma desgraça por vir)".

E Comte-Sponville dá sequência a seu raciocínio, para mostrar o risco de psicoterapias ou mesmo de processos, ditos psicanalíticos, que podem se perder em hermenêuticas vazias, ou mesmo em algo que mais se parece com superstição do que com um trabalho que mira a própria realidade:

"A psicanálise faz o inverso. Ela submete o sentido ao real. Ela explica o que quer dizer (o sentido de um sonho, de um ato falho  de um sintoma) pelo que é (um desejo reprimido, um trauma, uma neurose). A superstição dá sentido ao que não tem sentido; a psicanálise reduz o sentido a outra coisa, que o dissolve. 

É por isso que é um equívoco pedir que a psicanálise aponte o sentido da vida. Ela pode apontar apenas o sentido de nossos sintomas ou dos nossos sonhos. Senão deixa de ser análise para ser superstição. Deixa de ser conhecimento (da minha história) para ser religião (do meu inconsciente). Pobres analisandos, que buscam um sentido! Freud só buscava a verdade. 

Dirão que as duas coisas estão ligadas, que é esse o caminho real da psicanálise... Resta, todavia, não tomá-la na contramão. Freud é o contrário de um profeta. Ele não anuncia, explica. (...) O sentido é apenas um caminho que conduz à verdade. (...) A terapia é feita de palavras, mas a saúde é feita de silêncio. 

Notemos, para terminar, que toda superstição tende a se verificar. Quem quebra um espelho e se assusta com isso, seu temor já confirma o presságio que o inspira. A superstição dá azar."

Referência:

Comte-Sponville, A. (2003). Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes.