Wednesday, December 28, 2022

Pois é, doutores...

 Acerca dessa tradição atrasada de chamarmos quem quer que seja por meio do termo “doutor” na frente do nome,  lembro de um fato curioso que ocorreu comigo no final da década de 1990 ou bem início dos anos 2000.

Um sujeito, advogado, bacharel em direito, devia dinheiro à minha mãe. E ela já havia me dito que ele estava utilizando de diversos meios, que não os legais, para não pagá-la. 

Este sujeito fazia, por sinal, questão de ser apresentado ou tratado como “doutor”. Minha mãe sempre se referia a ele como o Dr. Luis (nome fictício). Era Dr. Luis pra cá, Dr. Luis pra lá. E ela, que não havia concluído nem mesmo o ensino fundamental, ia, com muita sabedoria, levando o Dr. Luis no banho-maria.

Eu já não tinha tanta paciência. Hoje tenho mais. Não chamava ninguém de doutor. Eu ficava indignado com essas formas obtusas de tratamento que nossa história de opressão ainda insiste em perpetuar.

Pois bem, um dia atendo o telefone, e quem era? 

“Ah, sim, o senhor deseja falar com minha mãe? Seu nome, por favor?” 

“Doutor Luis...”, respondeu. 

Era o coisa ruim, o próprio. 

“Doutor Luis?”, perguntei. 

“Sim, meu caro, Doutor Luis”. 

“Perdoe-me a pergunta, mas, por curiosidade, o senhor tem doutorado?”. 

Eu já tinha o título de mestrado e ainda achava interessante fazer tal pergunta, problematizar esta questão. Dr. Luis, porém, ficou ofendido com a pergunta. 

Foi logo dizendo que defender um processo jurídico, como advogado, era o equivalente a produzir um doutorado, “que a defesa de uma causa equivalia a um doutorado”. 

“Não equivale não. É doutor aquele que defendeu uma tese de doutorado”, respondi.

Ficou ainda mais ofendido e perguntou rispidamente: 

“E você, é o quê?”. 

“Não sou nada”, respondi. 

“O que você faz da vida? Trabalha com quê?”, reiterou com mais precisão. 

“Não, não sou nada. Somente sei que doutor é quem fez doutorado. O senhor aguarde um momento, que chamarei minha mãe (...) Mãe, telefone para a senhora. Sr. Luis.” 

E fiz questão que ele ouvisse. Eu não o chamaria, em hipótese alguma, de doutor.

Inflexibilidade pela qual não respondo mais. E o Dr. Luis não perdoou, passou uns cinco minutos me debulhando para a minha mãe ao telefone. E depois ainda tive de ouvir mais uns minutos de colérico e inflamado sermão da progenitora. Para ela ele continuou como Dr. Luis. O Dr. Luis que ela acionou juridicamente e teve, apesar da arrogância, de pagá-la com todos os juros e correções devidas. Ele não possuía metade da sabedoria dela.

E hoje, para evitar dor de cabeça, acabo chamando de doutor um ou outro médico ou advogado. Mas, confesso: é com uma certa ironia.

Thursday, December 22, 2022

Maradona me empolga mais do que Pelé

Pelé é para nós, brasileiros, um ícone de uma grandeza única. Simétrico, olímpico. A perfeição. Garrincha e Maradona, por outro lado, eram mais trágicos e me encantam mais, sem nem mesmo eu precisar entrar no mérito de quem foi melhor. Isso não me importa. Garrincha e Maradona eram mais marcados por imperfeições e surpresas. E como conheci melhor Maradona, quero me ater a ele. 

A baixa estatura e as pernas curtas ajudavam em muito a lhe conferir a surpresa e a sensação de absurdo ao vê-lo jogar. Conduzia e tocava a bola com toques curtos. Eu sinto que mal consigo ver os movimentos de suas pernas, já que eram curtas. Era como se ele rolasse junto com a bola, como se seus movimentos também fossem todos esféricos e de rolamento, e isso me remete ao andrógino, esse ser da mitologia grega, que era perfeito e todo esférico. 

Maradona era aquele sujeito nada simétrico, que produzia simetrias complexas. E de repente lá estava Maradona, correndo com a bola, que também, assim como com Messi, parecia impossivelmente grudar em seus pés.

Bola grudada no pé. Mas não perfeitamente, porque grudava e escapava, repetidamente, enganando a legião de zagueiros que o perseguia e o cercava. Aquele mundo de jogadores juntos a correr atrás de algo, que sumia no meio dessa multidão. Era Maradona. 

E de repente essa bola parece que espirrava de seus pés para algum colega, que marcava o gol. 

Ele praticamente fez só isso contra o Brasil nas oitavas da copa de 1990. E bastou isso para vencerem, por 1X0. Como todo craque, bastou um único lance.

E quem acompanhou a copa de 1986 sabe muito bem do que estou falando.

Tuesday, December 20, 2022

Nem mérito, nem culpa

Nem mérito, nem culpa. O mérito, ou a culpa, são do acaso e do mundo, que foram generosos, ou adequados, conosco. E obviamente que não estou falando aqui de questões judiciais ou morais.

E, rumando um pouco para uma certa ontologia existencial, é possível afirmar que ninguém tem culpa ou mérito por ser o que é. Culpa ou​ mérito talvez somente se apliquem a ações ou interações específicas, para as quais precisamos definitivamente apontar os responsáveis diretos. Sabemos que cada um ser o que é, e ter ou não responsabilidade sobre isso, é outra história.

Wednesday, December 14, 2022

Não é suicídio. É outra coisa...

Pacientes suicidas são algo com o qual qualquer psicólogo, e muitos profissionais de saúde, irão lidar com alguma frequência. Em minha experiência, no SUS, tenho que lidar com essa questão, com bastante frequência, no CAPS.

Quando o usuário (o paciente) chega ao CAPS pela primeira vez, deve passar pelo acolhimento (avaliação), para se proceder uma primeira análise do caso, com o objetivo de se saber qual é o melhor encaminhamento. Então, nesse primeiro contato, informamos que estamos fazendo uma avaliação e que, após esta, o paciente será encaminhado para o que será mais adequado e benéfico para o seu caso.

 Em nosso CAPS, como guia para esse primeiro contato, temos a ficha de acolhimento.  Esta ficha contém cinco eixos, cinco pontos de peso, a serem levados em conta: histórico psiquiátrico, sintomas, funcionalidade, risco auto e heterolesivo e redes de apoio.

Todos esses pontos devem ser levados em conta para se decidir sobre o encaminhamento mais adequado, pois os CAPS atendem, preferencialmente, casos graves. Então há fatores que aumentam a possibilidade de um paciente ser avaliado como elegível para acompanhamento em CAPS. São eles: a existência, o número e a duração de internações psiquiátricas; sintomas relacionados à perda do juízo de realidade (geralmente psicóticos), funcionalidade básica comprometida (atendemos pessoas até mesmo incapazes de tomar um banho ou de comer sozinhas); alto risco de cometer suicídio ou homicídio; e isolamento social.

Essa avaliação não é absolutamente objetiva, mas se trilha por esses pontos. E se o paciente não for elegível para acompanhamento pelo CAPS, deve se proceder seu encaminhamento para outro serviço da rede de saúde mental.

Em relação ao risco autolesivo devemos avaliar, no acolhimento do paciente, se existe ideação suicida, assim como a sua intensidade. Devemos então perguntar se o paciente tem pensado em morrer, e não basta que ele diga que sim, para que isso seja classificado como ideação suicida.

Alguém que somente diz que muitas vezes tem o desejo de “sumir”, de “desaparecer”, não é necessariamente alguém que esteja planejando cometer suicídio. Em termos de nível de ideação suicida, querer “desaparecer” é o que existe de mais leve na escala. Querer morrer, estar pensando em se morrer, estar pensando em se matar, estar planejando fazer isso, ter acesso a meios, e ter acesso a meios mais letais é uma configuração mais adequada de um possível escala de ideação suicida, que se estende gradualmente de sintomas leves a graves. E é assim que deve ser minimamente avaliada a ideação suicida e seu nível de gravidade.

Em minha experiência, no SUS, não tive porém contato com suicidas, com ideações suicidas, somente no CAPS. Na UTI também acompanhei pacientes que haviam tentado o suicídio. E, como já devo ter mencionado, minha atuação, durante seis anos, foi concomitante, tanto no CAPS quanto na UTI. Em metade de minha carga horária eu atuava no CAPS e a outra metade se dava na UTI.

A maioria dos casos que acompanhei era de mulheres que haviam tentado morrer por meio da ingestão de medicamentos. Dois casos, porém, de tentativas cometidas por dois homens, foram os que mais me marcaram, em função dos meios utilizados e das consequências.

O primeiro caso era de um paciente anteriormente acompanhado pelo CAPS. Eu nunca havia atendido Arnaldo (nome fictício) no CAPS, e nem mesmo o conhecia. Só vim a saber que fora acompanhado pelo CAPS depois que já estava internado na UTI. Como já faz mais de 5 anos, não lembro dos detalhes, mas me recordo que Arnaldo aparentava ter entre 55 e 60 anos de idade, e tentou morrer cortando seu pescoço com uma faca. E seu golpe foi tão profundo, que sua traqueia foi cortada ao meio, por completo. Lembro-me também que, à época, pouco consegui interagir com ele. Arnaldo permaneceu durante muito tempo, muitos dias, completamente inconsciente. E nos dias em que esteve acordado, mostrava-se muito desorientado, fazendo com que nossa comunicação ficasse bastante comprometida. Fora o fato de ele receber talvez poucas visitas, ou então eu não ter tido a oportunidade de estar presente quando seus conhecidos e familiares lá estiveram para visitá-lo.

Então, no final das contas, não conheci melhor Arnaldo, nem no CAPS, nem na UTI. E também não sei como ele está hoje pois, do que tenho notícias, não tenho conhecimento sobre se ele retornou ao acompanhemento pelo CAPS ou não, e não sei nem mesmo como está atualmente. E não saber, com o grande volume de fluxo com o qual trabalhamos, é algo comum. O volume de pessoas que procuram nosso CAPS é muito grande, e muitas vezes somos simplesmente atropelados pela “correria”. Minha concepção de CAPS e UTI é muita clara: CAPS é o SUS que dá certo, que funciona. A UTI infelizmente não, porque representa um modelo biomédico falido e centrado em hospitais. Por isso que os relatos que faço nesse livro, sobre CAPS, são de modo geral nitidamente mais otimistas e empolgantes.

O outro caso de tentativa de suicídio que me marcou bastante, na UTI, foi o de Roberto (nome fictício), 35 anos de idade. Roberto estava fora do Distrito Federal, em um estado do Nordeste, cuidando de seu pai, que padecia de diabetes. Pegou uma quantidade grande da insulina, que aplicava em seu pai, e aplicou em si mesmo. Mas não morreu. Ficou com sequelas graves, e esteve internado na UTI durante meses, até seu falecimento. A minha lembrança é a de que sofreu muito. Tinha três filhos pequenos e sua tentativa de suicídio estava relacionada a uma vida financeiramente precária e muito sofrida, que ultrapassou seus limites de resistência. Roberto não suportou a pobreza, as péssimas condições de vida de seu pai, de sua esposa e filhos, além também do sofrimento por estar longe deles. Também não foi pouco penoso para mim acompanhar todo o seu drama, até o fim de tudo, sempre de modo brutal e revoltante.

E, da minha experiência como psicólogo e como pessoa, uma coisa é clara: todo o processo em direção a um suicídio é um ato muito solitário e horrivelmente triste. E quando algo grave se deflagra é um horror angustiante no seio de qualquer família que o experimenta. Então falar abertamente sobre o suicídio, tentando diminuir o tabu e sua proibição absoluta, é o que hoje faço como parte de minhas estratégias de prevenção.

O suicida precisa de vínculo, apoio, cumplicidade, carinho, amor, companhia, e muita conversa franca e transparente sobre seus desejos e planos para morrer. Sem desafios nem chantagens, e sabendo sempre que ele é o dono e responsável por sua própria vida.

Contudo, quando me lembro de vários casos de pacientes desenganados e internados por meses a fio naquela UTI, muitos dos quais inclusive pedindo para morrer, para mim fica claro que a vida de algumas pessoas pode adentrar um vórtice de sofrimentos extremos e incontornáveis. E aí, mesmo assim, muitos dizem:

- Ah, mas isso aí tem cura. Isso aí tem solução.

Tem cura, tem solução, veja bem, teoricamente. Porque, em muitos casos, no contexto em que a pessoa está vivendo, isso não foi possível e ninguém está conseguindo aliviar seu sofrimento extremo. E pior: essa pessoa não tem a menor condição nem mesmo de dar cabo de sua própria vida, pois em muitas situações ela está completamente paralisada, dos pés à cabeça, presa a uma cama, em seu próprio corpo agonizante.

E aí a minha questão é a seguinte: se ela comunica por meses, ou até anos a fio, que o sofrimento dela é absolutamente insuportável e nós, a família e a sociedade como um todo, que estamos cuidando dela, não damos conta de aliviar esse sofrimento, ela precisa então de ajuda para morrer. Porque seria exatamente isso o que ela faria se tivesse condições para tal, se pudesse se locomover, se movimentar, em um contexto tão extremo e penoso.

E há também o caso de algumas pessoas que talvez tivessem condições de dar cabo de sua própria vida com suas próprias mãos, as quais contudo preferem não fazê-lo dessa forma. Preferem mostrar ao mundo e à sua família que não estão simplesmente cometendo suicídio. Que estão simplesmente lutando para deixar de sofrer de modo tão intenso e irremediável. Que precisam do consentimento da família para tal. Que precisam de um ritual de despedida.

É o que, em parte, retrata um documentário de 2013 (Neighbour, 2013), da rede de televisão ABC, na Austrália, assim como vários outros textos presentes na internet. Narram como Jay Franklin, nascido em 1976, vinha lutando contra sua doença crônica incapacitante, que lhe causava sofrimento extremo e irremediável. Jay sofria da Doença de Hirschsprung (megacólon congênito), uma enfermidade congênita, caracterizada pela ausência de alguns grupos de neurônios em partes do intestino grosso. Os principais sintomas são: obstrução e distensão intestinal, infecções, vômitos, dores intensas, comprometimento do crescimento normal, e em cerca de 30% dos casos está associada a outras anomalias congênitas.

Então, para que não seja fatal, desde o nascimento são necessárias cirurgias para a retirada de partes do intestino, sendo que Jay foi submetido a mais de 100 cirurgias, tendo todo o seu intestino grosso e a maior parte de seu intestino delgado removidos. Sua condição era marcada por internações hospitalares frequentes, constantes dores crônicas severas e infecções repetidas, associadas à alimentação intravenosa e supressão imunológica. E em 2015 foi informado de que não era candidato a um transplante de intestino (“Euthanasia Pioneer Dies”, 2017).

Sua vida chegou a um ponto de sofrimento intenso, constante e irremediável. E isso fez com que começasse, em 2012, lutar pelo direito de morrer com dignidade. Entrou com um pedido para que fosse aceito pela Clínica Dignitas, na Suíça, a qual ajuda pessoas do mundo todo, que estão sofrendo como Jay, a morrerem. Seu pedido foi aceito. Porém Jay decidiu que iria lutar para alterar a legislação em seu país, para que a eutanásia voluntária e o suicídio assistido fossem legalizados.

Nesse documentário para a ABC, a fala de Jay Franklin é muito clara e até didática, ao tentar demonstrar que o suicídio assistido não é como um suicídio comum:

 

"Eu não quero fazer algo irracional. Você sabe, eu não quero me enforcar. Eu não quero me matar. Eu não quero pular de uma ponte. Eu não quero me jogar na frente de um trem, porque isso é suicídio. Não é suicídio, o que eu pretendo fazer.

(...)

Eles não tiveram de estar na minha pele nos últimos 36 anos e eles não estão passando pelo que passo todos os dias, você sabe, e não é sobre eles de qualquer maneira no final do dia. É sobre mim e eu sendo capaz de fazer minha própria escolha." (Neighbour, 2013)

 

Jay e todos os que o amavam já tinham aceitado que não havia mais outra alternativa a não ser morrer, pois todos já haviam feito tudo o que podiam, e o que não podiam, para acabar com a tortura que estava massacrando com todo e qualquer possível sentido para a vida moribunda, absurda e inaceitável que ele levava. Todos de sua família, apesar de toda a dor que isso implica, aceitavam a decisão dele de não mais continuar vivendo.

Jay, porém, lutou pela legalização do direito de morrer com dignidade, em seu país, Austrália, durante 5 anos, e veio a falecer entre outubro e novembro de 2017 devido a complicações resultantes das doenças crônicas que sofria.

Em um outro caso, também em uma entrevista, um rapaz, o qual já tinha tido o seu pedido para o suicídio assistido aceito para ser realizado na Suíça, foi perguntado assim pelo entrevistador:

- Mas você tem opióides de sobra em sua casa. Por que não utilizá-los?

E ele respondeu mais ou menos assim:

- Acho horrível e abominável a perspectiva de um suicídio comum, a perspectiva de minha mãe chegar em casa e encontrar repentinamente meu corpo morto. Desejo o consentimento e o ritual de despedida de minha família. A minha decisão vem sendo debatida com todos os membros da família há muito tempo. Tivemos conversas intermináveis. Fizemos absolutamente tudo o que podíamos ter feito, envolvendo sacrifícios de várias pessoas de nossa família, sem contar o maior deles, que é o meu próprio sacrifício nessa história toda.

Ele deixava claro o fato de que o pedido dele para ter direito ao suicídio assistido tinha sido aprovado segundo critérios específicos, rigorosos e muito claros, organizados segundo uma fundamentação consistente da legislação de seu país. Ou seja, o direito de morrer não se estende para toda e qualquer pessoa.

Em lugares como Suíça, Bélgica, Holanda e alguns estados americanos, existe sim o direito de morrer. Mas não são todas as pessoas que têm esse direito. São pouquíssimas as pessoas que podem fazer uso dele. E quem tem esse direito? Ele se aplica, de modo geral, para o caso de pessoas que se encontram em estado terminal ou padecendo de sofrimentos intensos e incontornáveis.

É inclusive também, atualmente, o que reconhece uma das instituições mais respeitadas mundialmente na área de prevenção ao suicídio, a Associação Americana de Suicidologia (American Association of Suicidology, 2018):

 

"Em geral, suicídio e assistência médica para se morrer são fenômenos conceituais, médica e legalmente diferentes, com uma quantidade indeterminada de sobreposições entre essas duas categorias. A Associação Americana de Suicidologia se dedica a prevenir o suicídio, mas isso não tem relação com a morte refletida e antecipada que um médico pode legalmente ajudar um paciente moribundo a facilitar, seja isso chamado de suicídio assistido, morte com dignidade, morte assistida por médico ou ajuda médica no morrer. De fato, acreditamos que o termo “suicídio assistido por médico” em si constitui uma razão crítica pela qual essas categorias de morte distintas são tão frequentemente confundidas [suicídio e suicídio assistido], e devem ser excluídas do uso. Essas mortes não devem ser consideradas casos de suicídio e, portanto, são um assunto fora do foco central do AAS."

 

Para finalizar acho importante reiterar a consideração de Paul-Henri Thiry, o Barão D'Holbach, em um livro escrito juntamente com Denis Diderot, em 1770:

 

"Se a aliança que une o homem à sociedade for considerada, será óbvio que cada contrato é condicional, deve ser recíproco, isto é, supõe vantagens mútuas entre as partes contratantes. O cidadão não pode ser ligado ao seu país, aos seus associados, mas pelos laços de felicidade. Se estes laços são cortados em pedaços, a este homem deve ser restabelecida a liberdade. A sociedade, ou aqueles que representá-lo, ao usá-lo com severidade, ao tratá-lo com injustiça, não tornam assim a sua existência dolorosa? A melancolia e o desespero lhe roubam o espetáculo do universo? Em suma, por qualquer razão que seja, se ele não é capaz de suportar seus males, deixe-o sair de um mundo que para ele é somente um deserto terrível." (D'Holbach, 1770/1970, 136-137)

Este relato foi retirado do livro "Agonia e sonho: memórias e reflexões de um psicólogo nos meandros do SUS" (2021), de minha autoria.

Todas as referências estão no final da obra, que pode ser encontrada facilmente na internet.

Sunday, December 04, 2022

O fim de Jair

Aliados e amigos alegam que Bolsonaro está com depressão. Ele já se comporta ou tenta aparentar que está retraído socialmente. Está recluso, interagindo bem pouco e apático.

Foi ontem que li sobre isso, sobre seu suposto quadro depressivo. E esta noite acabei sonhando com ele, como alguém próximo. No sonho ele exercia o papel de alguém como um tio, um colega de trabalho ou até mesmo um paciente.

Já não estava mais simplesmente em retraimento social. Já estava padecendo de algo bem mais grave, isolamento social, que ocorre quando há desqualificação e marginalização social. Nesse sentido não é mais a pessoa que não quer interagir com o mundo. É o mundo que já não interage mais com ela, isolando-a, marginalizando-a. É um estado cruel de desqualificação, de descrédito social. 

E era esse o Jair de meu sonho. Um desqualificado. Alguém em quem ninguém mais confiava, em casa, nas ruas e no trabalho. Ele estava sempre por perto. Mas quase nada do que dizia era valorizado. No trabalho era aquele colega que todos evitavam e detestavam. Ele, como sempre, fazia o tempo todo diversos comentários inconvenientes e horrorosos. As pessoas, porém, não davam mais bola. Somente toleravam aquele sujeito inútil e infeliz. 

E eu ali, por perto, fazendo meu trabalho. Tratando Jair como trato qualquer paciente que apareça para mim, seja no CAPS ou na UTI. 

Por sorte não trabalho mais na UTI, desde 2016. Ali muitas vezes ajudei os fisioterapeutas, fazendo massagens nos pacientes ou tentando alongar um pouco suas pernas. 

E lá estava eu, no sonho desta noite:

- Diga, Jair, o que está acontecendo? 

Ele então olhou para mim, sorrindo, como sempre, com seus dentes cariados, me pegou pelo braço, e falou bem perto de meu rosto, soltando perdigotos: 

- Ah, Adriano, não repare no que vou lhe dizer, mas esse pessoal aqui do CAPS é meio fresco. É tudo meio boiola, hahahaha... 

Alguns dos servidores o olhavam com expressão de desdém ou nojo. 

Ele continuava me segurando pelo braço, me abraçando. 

- Então, Adriano, a gente tem que namorar, cara! Eu sou apaixonado por você – tentando me abraçar. 

- Abraça, direito, seu Adriano! 

Apontava para os colegas e dizia: 

- O Adriano fica fugindo de mim. Acho que ele tem algo de boiola, de verdade. Eu abraço e ele fica irritado. O que é, tá com medo de sentir que gosta? Se você é macho, de verdade, não tem porque ter medo... 

E ele sempre se aproximava, com uma mão boba. Eu o segurava com uma chave de braço, imobilizando-o.

- Caraio, seu Adriano. Cê tá manjando do jiu-jitsu, hein? 

- Pois é, seu Jair. Não pode fazer isso com as pessoas. Eu não posso deixar que o senhor faça isso. É estupro, sabia? 

- Tá bom, tá bom. Prometo que não faço mais. Agora me solta e vamos só conversar, vai... 

Soltei. 

- Ah, seu bichinha, eu sabia que você não ia aguentar muito tempo – e tentou me dar um soco. 

- Poxa, seu Jair. Assim fica difícil, hein... 

- Hehehe, quase te peguei. 

E novamente o contive, por alguns minutos. 

- Tudo bem, Adriano. Pode soltar. Eu desisto. Você ganhou. 

Despedi-me dele e fui fazer relatórios. 

Depois de cerca de uma hora cruzo com ele novamente nos corredores. Estava chorando, com uma coriza que lhe escorria pelo rosto, seus olhos azuis se destacavam na vermelhidão do choro e das lágrimas. 

- Ninguém gosta de mim. Essa vida não tem mais valor. Eu vou lá pra a avenida. Vou me jogar na frente dos carros... 

- Jair, querido. Mas você tava tão bem agora há pouco? Até tinha feito piada e lutado jiu-jitsu comigo, lembra? O que tá acontecendo? 

- Ninguém gosta de mim. Desse jeito é melhor morrer... 

- Senta aqui. 

- Não consigo. Eu tô com o corpo todo doendo. Tá tudo ruim. Não tenho mais porque viver. 

Coloquei-o então sentado em um colchonete e comecei a ajudá-lo a se alongar. Apareceu um fisioterapeuta, que me instruiu. 

Eu fazia por Jair, aquele genocida do passado, agora em séria convalescença, tudo de melhor que já tinham feito por mim um dia. Porque minha especialidade não era matar.