Wednesday, July 04, 2018

Ele não era poliqueixoso

Cheguei à UTI e observei, do posto de enfermagem, que Luciano chorava. Tinha uma expressão de extrema angústia, de desespero. 

Contudo, mal eu tinha chegado, já fui logo advertido pela enfermeira que chefiava o plantão:

- Deixa ele quieto! Não vá até o leito! Esse paciente é poliqueixoso, e tá dando um trabalho enorme pra todos nós.

- Me desculpe, Alessandra, mas é também minha função estar junto dos pacientes e tentar ajudá-los com o que posso, dentro das minhas possibilidades técnicas...

Acho que com essa justificativa não havia muito o que a enfermeira pudesse fazer para me manter longe daquele paciente. Assim, então, me aproximei de seu leito para tentar entender o que estava acontecendo. Porém, antes de falar de minha interação específica com ele, naquele momento, quero traçar algumas breves considerações sobre seu histórico.

Antes de sua internação na UTI Luciano tinha uma vida com muitas características próximas ou similares à vida de muitos profissionais que atuavam em nossa unidade. A vida de Luciano era talvez até parecida com o que costumava ser retratado tradicionalmente em propagandas de margarina. Vivia com sua mulher e seus dois filhos pequenos, de 6 e 4 anos de idade. Tinha carro e casa próprios, e uma vida financeira humilde, mas relativamente estável. 

Resumindo: era um pai de família de classe média, talvez de classe média baixa, pois não tinha plano de saúde. Mas, como mencionei, tinha uma família estruturada, uma vida organizada, com uma certa estabilidade.

O problema é que Luciano, de repente, aos 37 anos de idade, teve um acidente vascular cerebral e, na UTI, estava paralisado do pescoço para baixo. Somente conseguia movimentar sua cabeça, e nada mais.

Eu já acompanhava o caso de Luciano há umas duas semanas. Tinha o humor gravemente comprometido. Nunca sorria, e sua expressão facial era de constante insatisfação, sofrimento. Mesmo após as intervenções mais trabalhosas, na tentativa de aliviar um pouco os sofrimentos dos quais padecia, Luciano jamais apresentou para mim qualquer expressão de alívio ou de um vínculo mais profundo comigo ou com quaisquer outras pessoas da equipe.

Luciano sofria muito e estava distante de todos. Seu sofrimento certamente era intensificado pela sensação de isolamento, de solidão. Seu único vínculo era de fato com sua esposa, a qual o visitava diariamente. Porém havia somente dois horários para visitas, um no período da tarde e outro à noite, os quais duravam uma hora cada. Ela o visitava somente durante a tarde, das 17 horas às 18 horas, pois morava muito longe e no período noturno, na periferia, era muito perigoso estar por ali, naquela região. 

Se havia um vínculo profundo com sua esposa, obviamente Luciano tinha a capacidade de desenvolver vínculos com outras pessoas, de desenvolver algum tipo de vínculo mais efetivo com alguns membros da equipe. Era uma questão de tempo, e de tempo também para que eu, por exemplo, pudesse me dedicar mais a estar com ele, e ir aos poucos desenvolvendo esse vínculo.

Porém, como eu estava narrando no início, nesse dia cheguei ao seu leito e ele chorava, apresentando essa expressão de extrema angústia. 

Parece que Luciano estava se sentindo extremamente desconfortável com absolutamente tudo nessa vida, dos pés à cabeça. Seus lábios se movimentavam, em uma tentativa desesperada de me comunicar o que estava sentindo, o que estava acontecendo. Era possível fazer a leitura labial e o que ele repetidamente dizia era muito claro:

- Me ajude!

Era um pedido simples e desesperado de socorro. Comecei então a perscrutar sobre o que ele estava precisando naquele momento. Assim fui perguntando sobre várias coisas, e ele foi me respondendo com "sim" ou "não", por meio de acenos de cabeça, para cada coisa que eu perguntava.

Após várias perguntas enfim consegui descobrir que ele queria que a cama fosse um pouco reclinada. Mal comecei a reclinar sua cama, conforme o que ele pedia, e fui interrompido pela enfermeira, bem brava comigo:

- Pode parar com isso agora! Eu não falei pra você não mexer com ele? Eu não falei pra você deixar ele quieto? Olha só o que você tá fazendo? Se você reclinar a cama, ele vai aspirar!

- Nossa, me desculpe! Foi mal... Eu não sabia...

Foi constrangedor, porque ela ficou realmente alterada, realmente brava comigo, e eu fiquei morrendo de vergonha, imaginando que de fato estava prestes a cometer um erro tosco. 

Por outro lado achei que ela se irritou de um modo desproporcional ao erro que eu estava prestes a cometer e a todo o contexto no qual era clara a minha intenção em ajudar. Aliás nem sei se de fato eu estava prestes a cometer um erro, pois nem mesmo fui verificar essa informação com outros colegas médicos ou enfermeiros. 

O problema é que me senti muito intimidado, do começo ao fim da interação com essa enfermeira, e tudo ficou, a partir disso, muito atravancado. E no contexto em que me encontrava, sendo o único psicólogo de todo o hospital, não era fácil enfrentar, se contrapor a como age e pensa a maioria das pessoas.

Há também o fato de que em plantões nos quais costumam ocorrer muitas intercorrências, e há muito o que se fazer, com um nível grande de estresse, no final das contas acabamos evitando o contato com pessoas cuja interação ficou assim tão comprometida. E infelizmente foi isso que passou a ocorrer em minha interação com essa enfermeira a qual, pelo que eu podia observar, não vinha apresentando um nível adequado de humanização no contato com os pacientes. 

Eu sentia que ela era, além de pouco humanizada na assistência, também negligente, e isso foi ficando mais claro conforme fui ouvindo de outros colegas da equipe sobre o que relatavam de seu trabalho. Ela vinha cometendo muitas falhas e faltas sérias, de caráter ético e técnico, há alguns meses, desde que havia sido lotada em nossa unidade.

Portanto, nesse dia não tive disposição para continuar ali, no mesmo espaço que essa enfermeira chefiava. Pedi desculpas e me retirei. Mesmo assim debati o caso desse paciente com um médico que era mais humanizado. Ele me disse que estava acompanhando o caso de Luciano. Descreveu-me alguns episódios, nos quais percebeu que esse paciente estava sendo negligenciado quanto aos cuidados paliativos, relatando que havia intervido com os medicamentos necessários para que Luciano tivesse mais conforto, mais paz.

O final dessa história marca com clareza um ponto importante: Luciano não era poliqueixoso, e esse termo costuma ser utilizado de forma abusiva por alguns profissionais de saúde.

Não era poliqueixoso. Era um paciente terminal, em sofrimento extremo e incurável. Veio a falecer cerca de uma semana depois de nossa triste e sofrida interação. Por sorte teve seus últimos dias sob os cuidados desse médico mais humanizado, o qual tinha mais coração, mais compaixão, se colocava um pouco mais no lugar dos pacientes, e lhe ajudou a morrer com os devidos cuidados paliativos.

Tuesday, June 26, 2018

Um inusitado equilíbrio

Imagine uma senhora de 42 anos e sua filha de 22 anos de idade. Imagine que as duas têm sobrepeso: aproximadamente 1,65 m e 90 kg cada uma. Agora imagine que elas estão sem o dinheiro para as passagens de ônibus, e que essa filha precisa levar sua mãe ao CAPS, pois ela vem nos últimos dois meses padecendo de crises psicóticas.

Sofre com sintomas psicóticos há 15 anos, com períodos de remissão entremeados em todos esses anos. Porém, no contexto atual, estão sem dinheiro para as passagens, e decidem então acordar às 5:30 hs da manhã, para se deslocarem por cerca de 15 km, de bicicleta, as duas, para chegarem ao CAPS.

Enfrentam o trânsito de rodovias em duas bicicletas precárias. Uma é do tamanho de uma mountain bike, porém a outra é uma bicicleta bem menor, cuja roda é aro 20. É uma bicicleta para uma criança de uns 10 anos de idade mais ou menos.

E também, para a minha surpresa, a única das duas que consegue se equilibrar em cima dessa bicicleta é a mãe. Edileuza (nome fictício) chega tranquila, pedalando a bicicleta de seu filho de 8 anos de idade. Sendo evangélica, sua igreja a obriga a manter os cabelos compridos e a usar vestidos longos. Mesmo com seu vestido longo, estampado com flores, ela, com seus cerca de 90 kg, consegue guiar a bicicleta de seu filho de 8 anos de idade com bastante agilidade.

Hoje entreguei-lhes o formulário para a tentativa de aquisição de passe-livre. E lá se foram as duas para mais uma aventura, em direção ao metrô. Entrariam no último vagão, o qual permite a entrada de bicicletas, e partiriam para mais uma aventura, em direção agora ao Plano Piloto.

A imagem das duas se distanciando, daquelas duas mulheres obesas, enormes, em bicicletas tão pequeninas, e o vento balançando os seus vestidos e cabelos, foi a poesia dessa manhã.

Você deve sentir mais e pensar menos?

É comum, no meio psi, a sugestão genérica e vaga de que devemos pensar menos e sentir mais. O problema é que a grande maioria das pessoas que proferem esse tipo de prescrição não tem a menor ideia de onde isso provém.

É uma prescrição que possui uma raiz romântica. O movimento que questionou a racionalidade como um meio fundamental para se alcançar a compreensão do mundo, e das interações entre as pessoas, é o Romantismo.

Porém não nos esqueçamos de uma coisa: permitir a expressão de nossos sentimentos, com a perseguição de uma expressão o mais fidedigna possível, é um meio para se alcançar a razão das coisas. A razão não é somente a organização artificial que produzimos por meio do que pensamos. Existe uma razão no mundo, uma razão objetiva, de organização do mundo, e é esta razão que procuramos quando estamos querendo conhecer alguma coisa.

Nosso sentimentos são pistas e meios valiosos para começarmos nossa incursão na busca pela razão das coisas. Porém, cuidado: o coração é para se ouvir, e a razão é para se obedecer. Ouça seu coração, seu corpo e suas vísceras, toda e qualquer centelha que possa estar contrariando conhecimentos presumidamente já estabelecidos. Porém também não se esqueça que o coração, e boa parte de seus sentimentos e intuições, está calcado no viés de seu umbigo.

Pacientes aventureiros

Já pude atender alguns pacientes, ou mesmo conhecer pessoas, cujas histórias de vida estão recheadas de aventuras e acontecimentos impressionantes. Não me lembro de ter escutado histórias similares, provindas de pacientes que não tivessem sintomas psicóticos. O comprometimento do juízo de realidade está sempre presente.

Um dos grandes problemas é que essas pessoas são bastante gratificadas por seus comportamentos aventureiros e de risco, os quais, no final das contas, costumam gerar danos para elas e suas famílias.

A primeira vez da qual me lembro em que tive contato com alguém loucamente aventureiro, que simplesmente saia andando pelo mundo, sem planejamento nem rumo, foi em 1996 quando, em um ônibus, de Ribeirão Preto para Campinas, sentei-me ao lado de um senhor, cujo comportamento era um pouco chamativo e desorganizado, mas com uma desorganização que chamava atenção, que era talvez concebida por muitas pessoas como algo engraçado.

Era divertido conversar com ele. E essas pessoas percebem que estão sendo divertidas, que outras pessoas estão gostando de observar e interagir com a sua loucura.

Durante a viagem, lembro-me dele ter me relatado o quanto que já havia viajado, completamente sem rumo, pelo Brasil todo. Depois contou-me de sua vida, anteriormente a toda a desorganização decorrente de seu processo de transtorno mental.

Relatou-me que era motorista particular, que tinha uma vida comum. Porém, a partir do momento em que começou a ter suas crises, adentrou uma nova fase na qual as internações psiquiátricas e os tratamentos desumanizados passaram a fazer parte de sua biografia, inclusive com o relato dos eletrochoques que havia tomado, e o quanto havia sofrido com aquilo tudo. Tinha os olhos esbugalhados, e era estrábico, e inclusive atribuía seu estrabismo ao tratamento torturante que havia sofrido durante as vezes em que esteve internado.

No CAPS me lembro de ter atendido a dois pacientes que viveram muitas aventuras, as quais incluíam viagens. Um deles relatou que tinha dois filhos, e que morava com eles e a esposa, com uma vida absolutamente comum, no interior de algum estado do nordeste. Porém disse-me que se cansou dessa vida, e que queria sair dali daquela pequena cidade e explorar outros lugares, para poder inclusive aumentar a renda da família.

Disse-me também que estava bastante cansado de viver na mesma casa que a sogra. Relatou que não aguentava mais conviver com ela. Queria ter seu próprio canto, juntamente com sua família, mas até mesmo a relação com sua própria esposa já havia se desgastado em função de estarem vivendo na casa da mãe dela.

Porém a forma como decidiu que seria a melhor para dar um jeito nessa situação foi de repente, sem qualquer tipo de aviso, ir embora para outro estado do Brasil. Quando soube que havia uma oportunidade de trabalhar em uma mineradora no interior do Pará, simplesmente preparou uma pequena mala com somente uma troca de roupas e se foi, sem sequer avisar a esposa e aos filhos sobre o que estava fazendo. Depois de um ou dois dias, quando já estava no Pará, é que resolveu telefonar, avisando-lhes do que havia feito.

Ficou alguns meses nessa mineradora, e quando cansou-se também dessa vida resolveu ir para fora do Brasil, para uma das Guianas, para também trabalhar em alguma coisa referente a mineração ou exploração de madeira, no interior da floresta. Relatou-me que conheceu as Guianas e o Suriname, forcendo detalhes de cada um desses lugares, com os nomes das cidades e vilarejos, o que me fazia pensar que não estava inventando tudo aquilo, o que inclusive foi depois confirmado por familiares, quando pude escutar a essas pessoas também.

Outro paciente também me impressionou bastante, e sabia que impressionava as pessoas, e sabemos o quanto isso dificulta um processo de remissão, pois há assim um retorno, tanto em termos da liberdade que vivenciam viajando, quando bem querem, quanto da própria comunidade que se impressiona com o que eles fazem, achando engraçada boa parte de seus comportamentos.

Quando o vi pela primeira vez, lembro-me de ter pensado que ele talvez fosse algum gestor da secretaria de saúde, porque estava muito bem vestido e com uma aparência padrão para pessoas que estão em postos de comando: alto, elegante, eloquente, e muitas vezes vinha ao CAPS vestido de terno.

Depois, conforme fui ouvindo-o, pude me dar conta do comprometimento de seu juízo de realidade, de sua megalomania, e que inclusive usava esse mesmo terno para vender balinhas nas ruas - o que não necessariamente caracteriza comprometimento do juízo de realidade, mas chama a atenção quanto ao fato de ser um comportamento que possui uma estética audaciosa. Contou-me muitas histórias sobre seu relacionamento com políticos, de altos cargos que havia ocupado nos locais onde havia trabalhado e diversas outras histórias um pouco difíceis de se acreditar.

Até que um dia sua esposa compareceu ao CAPS, e pude verificar com ela o que era verdade e o que não era. Ele certamente havia distorcido uma série de acontecimentos, para torná-los maiores porém, por outro lado, havia outros acontecimentos também impressionantes que havia omitido de mim.

Ele também tinha uma vida na qual desfrutava de grande liberdade, simplesmente desaparecendo. Era alguém que tinha o hábito muitas vezes de não voltar para casa, e ficar dias fora de casa, sem dar qualquer tipo de notícia, e em algumas dessas situações viajava para outras cidades.

Agindo dessa maneira, chegava um momento em que seus recursos se esgotavam e passava então a perambular pelas ruas de onde estava. Como nesses lugares suas interações com as outras pessoas eram marcadas por desencontros, pela percepção, dessas pessoas, de que seu juízo de realidade estava comprometido, principalmente com delírios religiosos e megalômanos, no final das contas acabava sempre sendo encaminhado para alguma instituição psiquiátrica, e internado por alguns dias até que sua esposa viajasse para a cidade em questão para trazê-lo de volta ao Distrito Federal.

As histórias que contam são muitos boas de se ouvir. A conversa com eles é sempre muito interessante, instigante, e eles sabem disso. Obviamente que é melhor que tenham rede social e apoio, que acabam angariando com sua simpatia e suas histórias fabulosas. Contudo existe um ciclo de gratificação de comportamentos psicóticos que é muito difícil de se romper, inclusive pelo fato de que é difícil colocar algo melhor no lugar disso, das redes sociais e de apoio das quais já dispõem.

A impressão que tenho é que a remissão, nesses casos, é muitas vezes somente facilitada com o avanço da idade. Quando essas pessoas começam a perceber limitações físicas significativas para as suas aventuras.

No caso de pessoas com transtorno de personalidade antissocial (que o senso comum denomina como psicopatas), isso já é um dado epidemiológico estabelecido: observa-se remissão, de modo significativo, somente a partir dos 45 anos de idade.

Porém não posso me esquecer que inclusive em minha família testemunho um caso no qual existem muitos comportamentos parecidos com esses que relatei, os quais geralmente são classificados pelos psiquiátricas como sintomas relativos ao transtorno afetivo bipolar (em sua fase maníaca). Esse caso, em minha família, possui um histórico de mais de 30 anos. A pessoa em questão já está com quase 70 anos de idade, e ainda desaparece e sai pelo mundo afora para viver algumas aventuras.

Concebo portanto que são casos de difícil manejo, pois em termos de planejamento de redes sociais, para que se alcance uma remissão, há uma dificuldade muito grande, pois esses pacientes não ficam reclusos à família. Sempre conseguem extrapolar, e escapar das interações mais próximas ou familiares, para se abraçarem com o mundo. Transformam o mundo em sua rede de apoio para as aventuras e loucuras que vivenciam em seu cotidiano.

No final das contas a maioria delas acaba tendo uma estabilização maior de seus sintomas quando passam a ingerir os medicamentos, geralmente estabilizadores de humor e um ou outro antipsicótico, de forma mais regular. Enfim, loucuras incontornáveis muitas vezes são o preço de se conquistar o mundo, ou a ilusão de que essa conquista somente pode ser remunerada com a simpatia e diversão dos outros.

O psiquiatra pediu para eu dizer o que sentia...

Quando ouço alguém dizer que precisamos pensar menos e sentir mais, vem-me à memória a ocasião de quando fui certa vez a um psiquiatra, e ele se dirigiu a mim assim:

- Me diga o que você está pensando agora.

- No contexto em que estou agora, diante dessa pergunta, sinto que estou um pouco ansioso...

- Eu não quero saber o que você está pensando. Não pense! Somente me fale o que você tá sentindo agora!

- Nada.

Temos de aceitar?

Discursinho de aceitação de tudo o que é merda na vida é fácil na boca do guru aceito e amado por legiões de fiéis. Quero ver aceitar o vazio do cão a rosnar no oco do buraco escuro e gélido de uma vida solitária e moribunda.

Inteligência e polidez

Conheço e conheci algumas pessoas nessa vida que eram brilhantes, em muitos aspectos, porém lhes faltava algo que parece não ter importância, mas tem, tem muita importância: polidez.

Tinham sacadas incríveis, escreviam textos belíssimos ou então eram absolutamente surpreendentes em sua oratória e inteligência devastadora. E a maioria das pessoas que conheci com essas características se sentiam verdadeiramente fracassadas na vida.

Tinham um sentimento imenso de superioridade em relação a maioria das pessoas e em relação inclusive àquelas pessoas que tinham conquistado postos de trabalho e de sucesso, os quais elas mesmas não tinham alcançado. Ressentiam-se profundamente disto.

Algumas disfarçavam e desdenhavam do que sempre haviam desejado na vida, tentando diminuir as conquistas de seus pares:

"Aquele fulano não representa nenhum brilhantismo, nenhuma novidade no meio dele. É somente mais um. Não criou nem fez nada de novo. Somente reproduz o que já vem sendo feito!"

Outras simplesmente quase que gritavam, constantemente, aos sete ventos, que eram absolutamente superiores à maioria da população, a qual era, em sua concepção, constituída majoritariamente por débeis mentais.

Darwin do céu, quanta mágoa, quanta frustração mal resolvida, e quanto ressentimento destilado na direção das pessoas que invejavam.

Algumas inclusive me fizeram chegar a pensar que não eram tão inteligentes assim, mas que travavam uma luta de vida ou morte durante toda a sua vida para provarem que eram mais inteligentes que a maioria.

E nessa guerra sem fim plantavam discórdias frequentes e relacionamentos instáveis.

Em outros momentos eu somente conseguia pensar que padeciam, sofriam muito na relação com outras pessoas, e isso se configurava em um plano até mesmo doentio.

Muitas vezes cheguei a lamentar para mim mesmo, em silêncio com meus próprios pensamentos: "Que triste... essa pessoa é tão brilhante e tão problemática. É incrível como joga tantas oportunidades no lixo..."

Em outros momentos eu simplesmente me dava conta de que essa pessoa podia ser extremamente inteligente em relação algumas habilidades, mas era na verdade extremamente burra em relação a uma série de questões, o que para mim ficava claro quando percebia que seu nível de convicção se aproximava inclusive de quadros delirantes.

Enfim, conheço e conheci muitos idiotas inteligentes ou inteligentes idiotas, e muitos deles se acumulam aqui nas redes sociais, porque não conseguiram conquistar algo melhor na vida...

Inteligências múltiplas?


Contudo não podemos nos esquecer de uma coisa: por mais inteligente que uma pessoa seja ela não sabe absolutamente de tudo nessa vida. É bem possível que ela não saiba se comportar de outra maneira, que não agressiva ou rispidamente, porque simplesmente não aprendeu isso, porque ainda obtém diversas gratificações se comportando de modo tão inconveniente, porque seu ambiente atual ainda é majoritariamente reforçador para seus comportamentos agressivos ou ríspidos, ou então porque houve uma mudança ambiental a qual essa pessoa ainda não foi capaz de se adaptar, pois não sabemos a quais esquemas de reforçamento ela foi submetida anteriormente, os quais podem ser muito resistentes à extinção.

É, pessoal, foi mal... Nesse final não consegui me livrar de um jargão um pouco mais técnico. Que venham os puxões de orelha, tanto das pessoas que não entenderam o final, quanto de meus colegas analistas do comportamento, os quais possam ter percebido qualquer tipo de equívoco da minha parte.

A inteligência de não compreender

Boa parte de meus comportamentos que as pessoas costumam classificar como inteligentes são relacionados à minha demonstração de que não compreendi alguma coisa. Porque eu sempre digo que não entendi, mostrando as contradições que sinto estarem presentes.

E quando, junto de outras pessoas, acabo me dando conta de que não havia contradição alguma, não hesito, e logo digo como sou burro ou como fui burro em pensar daquela maneira porque isso quebra um pouco gelo, levanta um pouco o astral, ou então desarma um pouco pessoas que se intimidam com demonstrações de inteligência ou que pensam que tudo faz parte de um grande combate a ser vencido, no qual haverá somente um vencedor, ou então porque admitindo que sou burro logo deixo que as as coisas fiquem tranquilas, e talvez até desperte um pouco de simpatia compadecida por parte de meus interlocutores.

Essas são as migalhas de minha miserável inteligência social em ambientes presenciais compostos por pessoas que não me conhecem na intimidade.

Pacientes violentos

Comecei meu percurso na Psicologia em 1991, quando iniciei meu curso de graduação, e hoje, depois de tantos anos, tive possivelmente meu momento mais intenso de medo no contato com um paciente.

Pedro (nome fictício) está internado no CAPS há cerca de uma semana. Está em crise psicótica desde então. Houve um dia em que ele queria cigarros. Comprei um maço pra ele, o qual fumou em menos de 3 horas, depois de ter comido 10 pães no café da manhã e quatro marmitas no almoço.

E nada disso ainda o havia satisfeito. Queria mais cigarros e mais comida. Ainda está bastante agitado, com o comportamento e o discurso completamente desorganizados.

Meu grupo, agora à noite, estava com 20 pacientes, fora os familiares que os acompanhavam. Contudo meu grupo não é uma atividade apropriada para alguém que está na situação de Pedro. O grupo de metas é indicado para pacientes mais organizados. Porém Pedro entrava e saía de nossa sala com uma frequência muito grande. Entrava e saía rapidamente, falando sozinho, e batendo a porta. Fez isso por várias vezes hoje durante o tempo em que estive com essas mais de 20 pessoas, em atividades focadas, as quais demandavam silêncio e concentração, e Pedro sempre entrando e saindo, e interrompendo a fala dos presentes. Não foi nada fácil.

Até que de repente algo se insinuou como a pior das possibilidades. Pedro, com 1,80 m e mais de 100 kg, adentrou a sala bruscamente e se sentou em uma cadeira, com seu cinto de couro, amarrado às mãos, com a fivela pendendo, uma fivela enorme que ele fazia questão de balançar de um lado para o outro, com um olhar de ódio para todos que estavam ali, principalmente pra mim.

- O que é isso Pedro?

- Isso aqui é um chicote. Você sabe pra que serve um chicote?

Ele repetiu por algumas vezes a pergunta, com sua intensa dificuldade de dicção, devido à crise psicótica, à falta de suas próteses dentárias e a impregnação medicamentosa.

Assim fui contornando como pude, torcendo para que não se levantasse e viesse em minha direção. Se isso ocorresse eu pegaria a cadeira pelas mãos, e a colocaria à minha frente, como uma espécie de escudo, mas mesmo assim acho que, diante da agressividade de alguém do tamanho dele e com tal arma na mão, o resultado seria possivelmente bastante complicado para o meu lado.

Essa situação tensa, dele balançando aquele cinto, com aquela fivela enorme, com aquele olhar de ódio, durou mais ou menos uns 3 minutos. Então ele se levantou e saiu da sala. Fui até a enfermaria e fiz o que pude para que todos os funcionários presentes no CAPS pudessem se amparar da melhor forma possível.

Como já estava no horário da medicação dele, foi isso o que foi feito, e parece que assim ficou um pouco menos agitado.

Retomamos as atividades do grupo, e mais coisas extremas continuaram a ocorrer, mesmo sem a presença de Pedro.

Atendi no grupo um caso novo, muito parecido com aqueles casos da série House, nos quais um paciente tinha uma infecção que havia afetado o cérebro, e feito com que tivesse surtos psicóticos recheados de agressividade e autodestruição. Fora a gritaria da discussão que um casal teve no grupo, sendo que esse casal está atualmente em risco sério de agressões físicas, pois a postura do marido é muito possessiva e ameaçadora, naqueles típicos contextos suscetíveis a feminicídio.

Aí Pedro adentrou a sala mais uma vez, interrompendo mais uma vez a fala dos presentes, só que agora em minha direção, para me abraçar e me pedir desculpas pelo episódio do cinto. Ficamos, diante de todos ali, abraçados por um bom tempo, com ele me pedindo desculpas repetidamente, e eu repetidamente aceitando suas desculpas e lhe abraçando, com carinho, e olhando em seus olhos, o que era pronta e intensamente retribuído por ele.

Um dos pacientes sugeriu que orássemos por ele. Todos aceitaram a sugestão, inclusive Pedro. Sentou-se e todos pousaram suas mãos nele, e assim foi feita a oração.

Depois alguém da equipe me disse que ele estava com a higiene precária, com odor forte. Em nenhum momento eu percebi isso, e achei bom que não tenha mesmo percebido. Pedro está precisando de mais atenção e carinho. Hoje demorei para me aperceber disso, e não tive tempo suficiente pra ele. Perdão, Pedro...

O que fazer para a vida ter sentido?

Você não precisa encontrar um sentido para sua vida, porque buscar por um sentido é simplesmente buscar pelo efeito. E o que você precisa é dos meios para produzir esse efeito. Sua vida passará a ter sentido a partir do momento em que você encontrar algo que lhe faça suficientemente bem ou então uma promessa, que lhe pareça consistente, de algo que lhe faça suficientemente bem.

Osho

O que eu acho de Osho? Um canalha divertido. Já ouvi dele coisas interessantes e divertidas, em um ritmo retórico muito envolvente. Mas as coisas interessantes que ele fala não são novidade alguma. Ele somente consegue trazer para o público leigo um compilado simplificado de uma série de discussões e conceitos que existem já há muito tempo no meio filosófico. Consegue fazer isso de forma simples e jocosa, o que torna sua apresentação muito agradável e acessível. E todo o processo de terem transformado esse cara em um guru endeusado é, pra mim, somente atestado de debilidade intelectual e/ou afetiva.

Gurus

Uma coisa que me deixa um pouco assustado é saber que existem pessoas letradas, ou aparentemente esclarecidas, que são ludibriadas por conversas e promessas de pessoas que se autointitulam mestres espirituais. Convenhamos, qualquer prática que contenha um caráter iniciático, seja ela espiritualística ou não, é inerentemente abusiva. Porque prega que deve-se comer o pão que o diabo amassou para alcançar algum estado supostamente superior, e é muito difícil percorrer um caminho desses sem que se sofra uma série de abusos. Esse papo de iluminação é furadíssimo. O que mais existem são pessoas obscuras e parasitas prometendo luz para pessoas crédulas, confusas, ignorantes ou desesperadas.

Friday, June 01, 2018

Como mudar?

Uma das coisas comuns que costumo ouvir, principalmente de psicólogos, é que, para resolverem suas pendências em seus relacionamentos pessoais, as pessoas teriam geralmente de permanecer nos mesmos relacionamentos, porque o problema, no final das contas, seria sempre algo que vem da própria pessoa. Ou seja: o defeito está sempre em você, e não adianta ficar mudando de lugar, casamento ou namoro. Tem que parar e resolver as coisas com as pessoas com as quais você está convivendo. Há aí uma concepção de que a responsabilidade é sempre da pessoa, e que o término de alguns relacionamentos simplesmente faz com que ela fique fugindo o tempo todo.

De modo geral costumo ter outra abordagem. Gosto de prezar pela simplicidade e praticidade. Acho que um psicoterapeuta também deve almejar resolutividade. Então, nesse sentido, concebo que algumas mudanças aparentemente simples podem ter efeitos duradouros.

Quando falo em mudança, falo em mudança nas interações com o mundo e com as pessoas, e essas mudanças podem se dar pela mudança de endereço, de escola, de local de trabalho, de país, de relacionamento afetivo ou de círculos de amizade, por exemplo.

Para exemplificar eu gostaria de relatar, com os devidos resguardos à privacidade, dois casos que acompanhei há alguns anos.

Tive um paciente que me relatava uma angústia constante. Era solteiro, por volta de 25 a 30 anos de idade. Tinha uma condição financeira de alto nível, aparência muito boa e também um trabalho como servidor público que lhe remunerava muito bem. Era de uma família rica. Era alguém que estava dentro dos ideais de beleza masculinos que existem atualmente. Tinha facilidade no trato social: conversava com facilidade, tinha bom senso de humor e conseguia seduzir as mulheres com bastante facilidade. Tinha de tudo, do bom e do melhor. Resumindo: homem, branco, heterossexual, dentro dos padrões de beleza, sociável, elegante charmoso e abastado.

Não relatava relacionamentos conflituosos com os pais, com seus relacionamentos afetivos amorosos nem com ninguém da família. Tudo indicava que não havia algo de significativo nesse campo. Contudo não podemos subestimar o papel que as interações com outras pessoas tem na vida de todos nós. E é geralmente isso que está comprometido quando alguém está com algum problema.

Uma pergunta que fiz a ele foi crucial para começarmos a compreender melhor o que estava acontecendo. Perguntei a ele sobre quando em sua vida havia tido mais tranquilidade, ou podia dizer que havia sido feliz. Relatou-me que fora muito feliz por alguns meses. Em algumas situações específicas havia sido muito feliz, por duas vezes, quando havia morado fora da casa de seus pais, em outras cidades.

Procurei ouvir um pouco mais sobre isso, tentando rastrear todos os detalhes possíveis, e não foi difícil de perceber o que estava em jogo. Viver com seus pais é que era o problema. Era servidor público, com uma remuneração boa, bastante digna. Porém, para seus pais, aquilo era muito pouco. Inclusive era motivo de vergonha, por exemplo, ter um carro popular, e ele estava querendo comprar um carro popular. O nível de sua situação era esse.

Uma coisa para mim, em uma situação dessas, é muitíssimo simples: ele deveria simplesmente sair da casa de seus pais. Como terapeuta eu não devia tentar insistir em ajustar os relacionamentos com seus pais. Acho que isso tende a ser mais trabalhoso e com resultados mais duvidosos. Penso que ele, indo para um outro lugar, ou morando com outras pessoas, iria aprender novas formas de interação.

Insistir numa interação já estereotipada e desgastada possui possibilidades remotas de sucesso. É mais fácil consertar uma relação estragada por meio de novas relações, pela renovação de interações e de formas de interação, do que na insistência em uma situação onde imperam papéis estereotipados. É muito mais simples investir em algo novo do que tentar investir em alguma coisa que simplesmente já se perdeu.

Em pouco meses ele já havia se mudado de casa e boa parte de suas dificuldades haviam sido completamente superadas. Seus problemas obviamente não acabaram. E também, ainda em psicoterapia, havia muito o que aprender em suas novas interações, porque isso não havia ocorrido em seu ambiente familiar, por exemplo, e nada disso havia sido monitorado ou supervisionado por um psicoterapeuta.

Outro caso que eu gostaria de citar é o de uma mãe que durante muito tempo teve diversas dificuldades com seu filho único. Desde que ele adentrara a adolescência o relacionamento dos dois ficou bastante conturbado. Ele já tinha mais de 20 anos de idade, e ela parecia obcecada por ele e pela vida independente que já levava, de certo modo, desde a adolescência. Como mãe suas preocupações eram constantes, e eram grandes os conflitos sobre os caminhos que ele havia escolhido, além do fato de já não sentir mais que o filho tinha tanto apego a ela como quando era criança.

Porém, houve uma ocasião em que ela me comunicou sobre a possibilidade de viajar e ficar fora de casa, longe de seu filho por cerca de seis meses ou mais. Percebi que aí havia uma oportunidade de mudança, que ela poderia aos poucos, longe dele, ir substituindo o laço afetivo intenso e obcecado que tinham. A distância e o novo ambiente facilitariam a incursão em novas interações.

Seis meses depois, inclusive sem ter tido contato também comigo, ela retornou:

"Foi muito bom! Eu me libertei de meu filho."

Foi muito mais simples e prática a distância e um novo ambiente, com outras pessoas, para que pudesse incursionar em novas interações, e aprender novas formas de lidar com as pessoas, ou então pelo menos conseguir esquecer e se desvencilhar de um amor mal resolvido, não correspondido, frustrado. O que de certo modo também reitera o ditado de que tempo e distância são remédios para muita coisa nessa vida.

Eu diria, então, que o que era inteiramente uma hipótese para mim agora está bastante claro e em consonância com o que venho observando, há um bom tempo, em minha prática clínica. A mudança fica muito mais facilitada quando ocorre uma renovação significativa de ambiente, quando os atores, as pessoas em questão se alteram, quando existem outras pessoas para o sujeito poder interagir, quando é possível escapar de relacionamentos que estão marcados por estereotipias, pois os estereótipos de papéis dificultam muito a mudança, principalmente em contextos familiares. As outras pessoas geralmente esperam a mesma coisa, o mesmo tipo de comportamento, por mais que esse comportamento, em seu discurso, seja representado como inadequado ou inconveniente. É importante não se esquecer que a abordagem sistêmica em psicoterapia tem muito o que ensinar a respeito disso...

Portanto, para quem quer mudar, eu diria que é possível mudar, insistindo na mudança em seus relacionamentos já velhos e desgastados. Isso é possível, porém penso que é muito mais prático, e talvez mais rápida a mudança se você simplesmente disser adeus. Diga adeus e vá para outro lugar. Vá conhecer outras pessoas e estabelecer novos horizontes. Alguém dificilmente muda se continuar interagindo com as mesmas pessoas que sempre interagiu. E creio que é assim que a vida da maior parte das pessoas de fato encontra renovação. Parece óbvio, mas o comportamento de muitas pessoas, de continuar insistindo nos mesmos relacionamentos, contraria um pouco essa obviedade aparente.

E uma grande dificuldade é muitas vezes o desgaste nos relacionamentos. Se após as devidas ponderações e reflexões, junto ao paciente, ele decidir que irá tentar permanecer no relacionamento em que já está, a mudança será incentivada através da proposição e obediência a novas regras, as quais muitas vezes também contemplam por uma certa renovação no círculo de influências.

Porque é muito difícil, por exemplo, uma mudança no sentido de um homem começar a ter comportamentos menos machistas, em um relacionamento conjugal, se seu círculo de amigos, de influência, é bastante machista.

Sobre essa questão do machismo inclusive pude atender um paciente que tinha um problema sério com sua ex-esposa. Ela não era mais sua esposa há alguns anos, e mesmo assim ainda era fonte de muitos problemas.

Haviam se separado devido a infidelidade por parte dela. E a vida dele havia simplesmente despencado depois da descoberta de sua infidelidade. Percebi, juntamente com ele, que o que mais o fazia sofrer era a pressão de sua família para que ela fosse agredida ou morta, coisa que ele não fez. Quando o adultério dela se tornou público, o status social dele despencou.

Os grupos sociais com os quais ele convivia eram extremamente machistas. Nesse contexto, ele não ter matado a mulher ou o amante dela gerava-lhe bastante sofrimento. Acreditar que ele iria resolver o problema dele continuando a conviver com as mesmas pessoas seria insensato. A renovação de seu círculo de influências era algo urgente, e essa oportunidade logo se insinuou com a possibilidade da mudança de endereço. Foi essa a meta que estabelecemos na última vez em que nos vimos. Contudo não mais o vi, e não sei se veio de fato a se mudar, para ficar longe daquelas pessoas que o influenciavam de modo bastante nefasto.


Conseguir dizer adeus, e ir embora, é muitas vezes o primeiro passo para um processo de construção de uma nova identidade. E isso não encerra com o trabalho de prevenção de generalizações e reconstrução das interações em novas bases, para se forjar novas estruturas. Certamente que a pessoa muitas vezes troca de endereço, de casamento, ou de amigos, e continua a se comportar do mesmo modo que se comportava antes. Porém parece-me que, apesar da tendência à repetição, essa fica muito menos facilitada se a pessoa consegue escapar de relacionamentos nos quais seu papel estava estereotipado, ou então passa a conviver com pessoas cujos valores são completamente diferentes daqueles dos círculos dos quais fazia parte anteriormente.

A vida vale a pena? (2)

Estou aqui com o livro de David Benatar o qual, muitos sabem, tenta demonstrar simplesmente uma coisa: a vida senciente é uma espécie de erro da natureza. Tenho uma vontade danada de lê-lo com maior propriedade.

Contudo ainda fico um pouco receoso se depois eu venha a me sentir muito mal, sentindo que perdi muito tempo com algo que somente me fez mal.

Porque esse autor traça algumas perspectivas nada otimistas em relação ao valor da vida senciente. Ele apregoa que o mais ético seria uma extinção gradativa, e o mais indolor possível, da espécie humana, por meio da cessação da reprodução, ou seja: o antinatalismo.

Resumindo: a conclusão desse autor é que a espécie humana causou muitos males na história da vida senciente no planeta Terra. A quantidade de sofrimento existente em nosso planeta multiplicou-se de modo significativo depois do surgimento e florescimento de nossa espécie. Então desse modo ele conclui que o mais ético é o fim da espécie humana.

Por outro lado, fico bastante tranquilo em imaginar que qualquer tipo de concepção parecida pode até se me demonstrar como incontestável, mas que acaba perdendo qualquer tipo de força, ou validade pessoal, em dois eixos básicos de minha vida.

O primeiro é ético, o qual deixa claro para mim o meu dever, de modo geral, de viver, e bem, mesmo que minha vida não esteja, no final das contas, sendo sentida por mim como uma boa vida. Porque o principal pra mim não é esse ponto, se a minha vida é boa ou ruim, mas se não é definitiva e indefinidamente insuportável. Enquanto percebo que existem horizontes de suportabilidade, mesmo com a demonstração lógica de que a vida seja, por exemplo, inerentemente ruim, de modo geral penso que vale a pena, porque vale a pena continuar cuidando das pessoas que cuido, divulgando as coisas que penso, investigando e descobrindo alguns conhecimentos ou informações que podem ser úteis a algumas pessoas: fazendo as atividades que já faço, e que eu acho que são importantes para um certo número de pessoas.

Esse ponto para mim está relacionado a um dever. Está mais voltado para um componente ético, de relação com outras pessoas. E por outro lado também existe o componente mais egoístico, o qual diz respeito à fruição, ao prazer de estar vivendo e convivendo com as pessoas, o qual não é completamente desconectado do que costumamos chamar de princípios éticos.

E como atualmente estou numa fase muito boa, sentido que minha vida é uma vida boa, fica muito difícil eu ficar deprimido com ideias como a de David Benatar, por mais que elas sejam verossímeis. E mesmo que eu ficasse um pouco deprimido, a noção de dever pra mim é tão forte que isso não implica em qualquer tipo de tendência suicida, por exemplo.

E o mais interessante: essa noção de dever confere à minha vida bastante dureza, mas também muita aceitação do próprio sofrimento inerente, e bastante poeticidade e beleza.

E quando falo em sofrimento inerente não estou fazendo um elogio do sofrimento, ou tentando dizer que qualquer tipo de sofrimento seja útil, ou qualquer coisa tola parecida. Trata-se simplesmente da aceitação de que essa vida, de modo geral, para a grande maioria dos seres sencientes, é mesmo muito sofrida, dura, e que isso tem uma ressonância bastante significativa em praticamente todos nós, por mais que façamos uso da negação disso.

Médicos, prescrições e motivação

Percebo que algumas pessoas ficam inconformadas com médicos, psiquiatras principalmente, que logo prescrevem medicações. Muitas vezes alegam que, aparentemente, esses médicos não fazem qualquer outro tipo de prescrição. Dizem que vão logo prescrevendo medicações, e que não fazem recomendações quanto a uma série de ações que os pacientes podem tomar para prevenir ou melhorar sua condição de saúde, por meio de um tratamento que não somente atue sobre os sintomas, mas também em suas causas.

O problema na verdade é que a atuação médica, de um modo geral, em nosso contexto, é mais prescritiva do que cuidadora. A maioria dos médicos é treinada para prescrever e mandar para casa. Porque cuidar é de certo modo bem mais difícil, pois exige um trabalho mais lento e gradual. O cuidado geralmente não se resolve em uma só tacada.

Somente para dar um exemplo, quero retomar aqui uma fala que uma vez ouvi de Drauzio Varella, um médico que boa parte de nós tem em alto conceito. Ele certa vez disse que recomendava aos pacientes que realizassem mais atividades físicas. Porém, com frequência, ouvia de muitos pacientes que eles simplesmente não tinham tempo para isso. “Aí já é problema seu...”, é o que ele disse que passou a falar para esses pacientes.

Os médicos, de modo geral, não são treinados para cuidar. São treinados para prescrever. Inclusive quando são excelentes médicos, quando começam a adentrar a seara do cuidado, se perdem ao ponto de até mesmo dizerem coisas desse tipo para seus pacientes. Porque esse é um terreno que eles simplesmente desconhecem. É o terreno do cuidado e da motivação. E motivação não se faz somente com algumas palavrinhas soltas, jogadas na orelha de um paciente que está completamente perdido em relação a como, especificamente, vai fazer o que está sendo recomendado.

Com uma pessoa desmotivada, e que acha que não tem tempo para fazer algumas coisas, é geralmente necessário muita conversa, muita escuta, muito tempo com ela para ir aos poucos encontrando a melhor forma para que possa realizar as atividades que são necessárias. E isso é o trabalho típico de um psicólogo. Bons psicólogos foram e são constantemente treinados para isso.

No final das contas o que isso tudo quer dizer? Quer dizer, no atual contexto, que o trabalho multiprofissional e interdisciplinar é fundamental. Se o médico não dá conta de cuidar, ou se essa não é sua atribuição, é importante que reconheça que seu paciente muitas vezes não está realizando algumas atividades que são necessárias para o restabelecimento de sua saúde e bem-estar, e que assim obviamente ele teria de ser encaminhado para algum profissional de outra área, especializado em cuidado, em acompanhamento contínuo.

Então, Drauzio, o que eu tenho a lhe dizer é o seguinte: isso não é só problema do paciente. É um problema nosso. Talvez não seja problema dos médicos, mas certamente é um problema do paciente e de seu psicólogo. Se for esse o caso, não precisa dizer isso a seus pacientes, que é somente problema deles. Encaminhe-os para nós, psicólogos. Estamos à disposição!

Bebês no útero conversando sobre a existência de vida depois do parto... (?)

Vocês se lembram daquela estória, daquela analogia, na qual existem dois bebês dentro de um útero, discutindo se existe ou não vida depois do parto?

O primeiro bebê diz que depois do parto há um silêncio completo, a finitude, o fim de tudo. Esse primeiro bebê, então, acredita que depois do parto tudo se acaba.

O segundo bebê, por sua vez, diz que há existência além daquele "tubo físico" (o cordão umbilical), que existe uma vida após o parto, na qual há mais luz, e na qual comemos com nossas próprias bocas, caminhamos com nossas próprias pernas, e vivemos independentes de nossas mães.

Há poucas evidências ali para os dois bebês falantes, inteligentes, filosóficos, porém bastante palpáveis, e praticamente autoevidentes, inegáveis, as quais são constantemente negadas pelo bebê que não acredita na vida após o parto: o bebê negacionista!

E o segundo bebê pede para que o primeiro olhe para o mundo à sua volta, que assim perceberá o que está acontecendo. Ou seja: basta um ato de vontade e abertura para as evidências, basta simplesmente olhar para o mundo à sua volta e se dar conta do que é simplesmente autoevidente.

E aí fico pensando: puta que pariu, o que não falta nesse mundo então é cientista com má vontade, hein... Como que toda a comunidade científica, em toda a sua diversidade cultural e de crenças, no mundo inteiro, ainda não chegou a esse consenso tão simples, o qual pode ser sacramentado por esta genial analogia, de que existe vida após a morte?

Obrigado a vocês que estão postando essa analogia! Agora vocês estão fazendo com que eu veja o que eu não estava querendo ver! Como eu era preguiçoso! Muito obrigado!

Retórica e enfeitiçamento

Muitas pessoas não percebem quando estão sendo ludibriadas por uma retórica vazia, dado o enfeitiçamento que a retórica tem a capacidade de provocar. Só dou mais valor ao meio que ao conteúdo quando estou lendo poesia, quando meu desejo de beleza é maior que meu desejo de verdade. Claro que em alguns momentos uma coisa pode cruzar com a outra, mas existem limites: se as artes prescindem de boa vontade, as ciências e o pensamento acadêmico não devem assim proceder, pois nesses meios a clareza e a simplicidade são um imperativo, e não são sinônimo de simploriedade, mas um antídoto para a perplexidade e os jogos de poder do obscurantismo.

Leitura, obscuridade e profundidade

Acho um pouco patética essa tentativa de desqualificação da leitura de audiolivros que algumas pessoas fazem. É mais ou menos como tentar desqualificar a leitura por parte de deficientes visuais. Nesse exato momento, por exemplo, estou escutando o PDF de um livro de ética utilitarista.

Por ser um texto em inglês coloquei a velocidade bem baixa, para escutar cada palavra, e conseguir compreender cada coisa que o autor está dizendo. Além, claro, de poder voltar sempre que eu não compreender o sentido de algumas frases ou parágrafos.

O fato de não perder meu tempo com autores que me parecem obscurantistas não quer dizer que não exista mais ninguém que seja profundo, e que esteja produzindo ideias e descobrindo fatos relevantes para a compreensão do mundo, da realidade, das interações humanas, e do que pode ser feito para aumentarmos a quantidade de bem-estar para todos os seres sencientes que existem no planeta.

Existe muita gente trouxa que adora a ostentação de lustres culturais, para se exibir como erudita em círculos sociais nos quais existe uma espécie de competição para se verificar quem teria lido mais livros de autores impenetráveis, e classicamente considerados (por alguns segmentos) como os mais profundos da história. Dão mais crédito para o que é pesado, prolixo e obscuro do que para exposições e debates mais francos e claros, os quais prezam pela justificação de cada ponto das alegações que fazem.

E com isso não estou querendo dizer que não existam autores que tenham um texto mais poético, o qual desperta muitos sentidos que abrem portas para uma série de reflexões. Isso também existe, mas o que estou querendo dizer é que, no meio disso tudo, também existem obscurantistas, que se escondem atrás de um texto que é somente hermético.

É para esses autores e textos que esses trouxas elitistas vivem babando ovo, para depois afetarem confusão travestida de profundidade. Constantemente confundem águas turvas com águas profundas, em uma confusão que muito beneficia seu narcisismo nesses círculos sociais restritos que cultivam a erudição como um fim em si.

Inteligência e polidez

Conheço e conheci algumas pessoas nessa vida que eram brilhantes, em muitos aspectos, porém lhes faltava algo que parece não ter importância, mas tem, tem muita importância: polidez.

Tinham sacadas incríveis, escreviam textos belíssimos ou então eram absolutamente surpreendentes em sua oratória e inteligência devastadora. E a maioria das pessoas que conheci com essas características se sentiam verdadeiramente fracassadas na vida.

Tinham um sentimento imenso de superioridade em relação a maioria das pessoas e em relação inclusive àquelas pessoas que tinham conquistado postos de trabalho e de sucesso, os quais elas mesmas não tinham alcançado. Ressentiam-se profundamente disto.

Algumas disfarçavam e desdenhavam do que sempre haviam desejado na vida, tentando diminuir as conquistas de seus pares:

"Aquele fulano não representa nenhum brilhantismo, nenhuma novidade no meio dele. É somente mais um. Não criou nem fez nada de novo. Somente reproduz o que já vem sendo feito!"

Outras simplesmente quase que gritavam, constantemente, aos sete ventos, que eram absolutamente superiores à maioria da população, a qual era, em sua concepção, constituída majoritariamente por débeis mentais.

Darwin do céu, quanta mágoa, quanta frustração mal resolvida, e quanto ressentimento destilado na direção das pessoas que invejavam.

Algumas inclusive me fizeram chegar a pensar que não eram tão inteligentes assim, mas que travavam uma luta de vida ou morte durante toda a sua vida para provarem que eram mais inteligentes que a maioria.

E nessa guerra sem fim plantavam discórdias frequentes e relacionamentos instáveis.

Em outros momentos eu somente conseguia pensar que padeciam, sofriam muito na relação com outras pessoas, e isso se configurava em um plano até mesmo doentio.

Muitas vezes cheguei a lamentar para mim mesmo, em silêncio com meus próprios pensamentos: "Que triste... essa pessoa é tão brilhante e tão problemática. É incrível como joga tantas oportunidades no lixo..."

Em outros momentos eu simplesmente me dava conta de que essa pessoa podia ser extremamente inteligente em relação algumas habilidades, mas era na verdade extremamente burra em relação a uma série de questões, o que para mim ficava claro quando percebia que seu nível de convicção se aproximava inclusive de quadros delirantes.

Enfim, conheço e conheci muitos idiotas inteligentes ou inteligentes idiotas, e muitos deles se acumulam aqui nas redes sociais, porque não conseguiram conquistar algo melhor na vida...

A agressividade como vício...

Agressividade, força e coerção são modos de atuação viciantes. Os resultados, as gratificações, costumam aparecer rapidamente. As pessoas ficam com medo, obedecem ou devotam respeito, e até admiração, a quem assim se comporta.

Valentões, em uma terapia, costumam perceber os efeitos colaterais, e geralmente chegam até nós, psicoterapeutas, em virtude de algum sofrimento decorrente do uso constante e excessivo da força, da violência, de sua capacidade de ameaça e de intimidação.

Percebem uma série de danos que causam nas pessoas, e em si mesmos, em virtude de seu "vício". Mas relatam que não conseguem deixar de explodir, de usar da força, de apelar para a violência quando precisam resolver alguma questão ou alcançar algum objetivo. A maioria inclusive nem percebe que assim agindo estão alcançando seus objetivos, e que muito dificilmente mudarão seu comportamento se os resultados continuarem sendo os mesmos, se as pessoas continuarem demonstrando medo, obedecendo, fazendo exatamente o que eles querem.

Certa vez ouvi de um deles, o qual inclusive já se mostrava mais sensibilizado com isso tudo, demonstrando um pouco de culpa:

- Mas você tá querendo dizer o quê, Adriano, que eu escolhi ser assim, que eu, além de todos os prejuízos que tenho tido em minha vida, ainda sou culpado por tudo isso?

Sua culpa já era mais do que suficiente, e não alteraria muito a situação sentir ainda mais culpa do que já estava sentindo. Não basta ficar se sentindo culpado, e simplesmente não ter a menor ideia do que fazer, de como agir para poder começar a resolver seus problemas. Fora o fato de que ninguém tem culpa ou mérito por ser o que é. Culpa ou​ mérito talvez somente se apliquem a ações ou interações específicas, para as quais precisamos definitivamente apontar os responsáveis diretos. Cada um ser o que é, e ter ou não responsabilidade sobre isso, é outra história.

Mas aí, em terapia, não tem outro jeito: é necessário escuta e acompanhamento constantes, para que essa pessoa vá descobrindo quais são especificamente os contextos que despertam seus episódios de agressividade e violência, assim como também saber quais são as consequências desse tipo de comportamento.

E bastará essa pessoa ter conhecimento sobre os determinantes de seus comportamentos indesejáveis? O autoconhecimento será suficiente? Não, porque muitas pessoas também mudam sem simplesmente terem tido conhecimento sobre os determinantes de seus comportamentos. Autoconhecimento porém costuma ser importante porque facilita o autocontrole, se é que isso existe.

Mas o que estou tentando dizer, e que inclusive se relaciona com essa questão das responsabilidades sobre sermos o que somos, é que as consequências, os resultados, precisam ser alterados, e essas consequências somente serão alteradas por outras pessoas, e não pela própria.

Muitos terapeutas esperam que a própria relação com eles (com o terapeuta) seja um dos mecanismos dessa mudança. Esperam que o paciente passe a seguir algumas novas regras que são construídas durante a terapia, na relação do paciente com o terapeuta. Juntos elaboram algumas estratégias, para as quais são necessários​ o consentimento e a motivação do paciente para realizá-las. A partir disso espera-se que o paciente comece a cumprir o que foi planejado, e que as gratificações provindas do próprio terapeuta (e de suas novas relações com o mundo) sejam suficientes para que o paciente continue se esforçando.

O paciente sai do consultório e volta para a sua casa, para o seu mundo cotidiano, e começa a tentar se comportar de maneira diferenciada, assim como também procura se observar de modo mais detalhado, atentando-se às consequências desses novos comportamentos.

Feito isso, retorna às sessões posteriores para debater e analisar como essas mudanças estão impactando sua vida. Trata-se de fazer diferente e observar a consequência. E tudo isso será analisado e pensado de modo detalhado nas sessões posteriores. Há muito de tentativa e erro, de testagem, de esforço constante na direção das​ mudanças​, as quais geralmente vão se implementando de modo bastante gradual, não-linear e lento, com períodos inclusive de regressão.

Geralmente se avança alguns passos, e em um próximo momento se retorna alguns outros, ou mesmo esses passos acabam por serem completamente apagados. Ser terapeuta é saber lidar constantemente com a impotência e o fracasso, os quais estão e estarão sempre presentes. Vitórias e progressos sólidos e definitivos existem, mas não me arrisco a dizer que são a regra.

Atuar em um CAPS de grande porte nos proporciona com mais clareza essa dimensão, porque podemos observar o trabalho de nossos colegas e o quanto também ralam com as imensas dificuldades que existem para que as pessoas consigam mudar de vida.

Minha maior gratificação não é a proporção de sucesso nessa empreitada de corpo e alma. Minha maior gratificação é a própria interação com quem está sofrendo, e perceber que essa interação é capaz de diminuir muito de seu sofrimento.

Ser terapeuta é atuar em uma profissão que dedica muito amor na relação com os pacientes. É o prazer de estar junto, de acompanhar, de cuidar, de conhecer histórias fascinantes, de saber que há uma riqueza muito grande na diversidade imensa das possibilidades de relação entre as pessoas, porque geralmente existe um mundo vasto e envolvente na história de cada pessoa para a qual dedicamos nossa escuta e companhia. É participar ativamente da construção, e da reconstrução, da vida e da história dessas pessoas.

Terapia e autoconhecimento

O objetivo de uma psicoterapia não é somente fazer com que o paciente se conheça melhor. Não é somente o autoconhecimento.

Conheço pessoas que dizem que já fizeram psicoterapia e que, a partir desse processo, passaram a se conhecer melhor. E alegam, contudo, que apesar disso não conseguiram produzir as mudanças necessárias para a melhora de seu bem-estar psicológico.

Porque de nada adianta alguém saber o que está acontecendo se não souber também como resolver, e quais são os passos ou toda a cadeia de ações que terá de tomar para encontrar a resolução de seu dilema.

Uma psicoterapia é um processo bastante permeado de tentativas e erros, de testagem de hipóteses, de negociação constante entre as percepções do terapeuta e do paciente e acerca do que este sente que pode realizar.

Sobre a procrastinação, de novo...

Tenho uma certa dificuldade para compreender o que exatamente as pessoas usualmente concebem como procrastinação.

Se estão falando do acúmulo de tarefas, às quais fazem com que a gente fique praticamente louco para realizá-las, no final do prazo, compreendo um pouco melhor.

Contudo muitas pessoas falam que estão procrastinando quando na verdade estão somente tentando se dedicar a um número muito grande de atividades ao mesmo tempo. Isso não é procrastinação. isso é dispersão, falta de foco.

E há também os casos, como mencionei na primeira postagem sobre o tema, das pessoas que na verdade estão se impondo verdadeiras torturas. E aí obviamente irão procrastinar.

E aí fico lembrando de minhas experiências pessoais, nas quais consegui chutar a bunda do que as pessoas chamam de procrastinação, conseguindo estabelecer foco. Minha dificuldade, como a de muitas pessoas, era na vida acadêmica, e o que salvou minha vida foram as boas bibliotecas que frequentei, juntamente com a garantia de refeições nos restaurantes universitários.

Eu simplesmente passava o dia todo, e muitas vezes também a noite toda, em bibliotecas muito agradáveis para desenvolver as minhas atividades de estudo e leitura. Fiz isso durante anos e simplesmente não vivenciei o que as pessoas costumam classificar como procrastinação. E não foi muito difícil não, porque uma boa biblioteca é o ambiente ideal para o mergulho nos estudos. É assim que eu sentia.

Fora o fato de que uma coisa para mim é simples: para não procrastinar é necessário gostar da tarefa e se restringir a ela. É necessário se dedicar integralmente à ela para que o foco seja garantido. Quem tenta realizar várias tarefas ao mesmo tempo geralmente se perde nessa história. Saber que não dá para abraçar o mundo é fundamental. Quem mergulha em alguma atividade abre mão de inúmeras outras.

Claro que o fato também de ter frequentado por vários anos um ambiente universitário bastante rico facilitava muito a minha tarefa, pois na USP (somente para citar o ambiente universitário mais rico que frequentei) a gente tinha de tudo, inclusive estrutura para a prática de esportes. Então na USP eu tinha tudo: as refeições que eu precisava, prática de esportes, atividades culturais e de lazer, e um lugar onde eu também fazia amigos - aliás, quase todos os meus amigos eram de lá. Enfim, a minha vida era inteiramente ali. Aquilo ali era o foco total. Sobrava pouco espaço para o que as pessoas costumam classificar como procrastinação.

E atualmente, como docente, tenho me visto em um espaço universitário e em um mundo completamente diferente. Então, o que tenho tentado desenvolver com os estudantes é um ambiente de aprendizagem colaborativa. Mas isso já é objeto para uma próxima postagem...