Monday, April 16, 2018

Procrastinação

Então quer dizer que você está procrastinando, e acha que isso é o fim da picada, e quer resolver de qualquer maneira?  Mas, convenhamos, em boa medida é bastante compreensível: você está exigindo de si mesmo a realização da tarefa mais chata do mundo, com uma série de outras coisas muito mais agradáveis para se fazer. Então é natural a procrastinação. O contrário, se não houver uma estruturação muito bem definida (principalmente para fazer com que você se sinta mais motivado para essa tarefinha chata), é somente tortura.

Na verdade tenho uma certa dificuldade para compreender o que exatamente as pessoas classificam como procrastinação.

Se estão falando do acúmulo de tarefas, às quais fazem com que a gente fique praticamente louco para realizá-las, no final do prazo, compreendo um pouco melhor.

Contudo muitas pessoas falam que estão procrastinando quando na verdade estão somente tentando se dedicar a um número muito grande de atividades ao mesmo tempo. Isso não é procrastinação. isso é dispersão, falta de foco.

E há também os casos, como mencionei acima, das pessoas que na verdade estão se impondo verdadeiras torturas. E aí obviamente irão procrastinar.

Aí fico me lembrando de minhas experiências pessoais, nas quais consegui chutar a bunda do que as pessoas chamam de procrastinação, conseguindo estabelecer foco. Minha dificuldade, como a de muitas pessoas, era na vida acadêmica, e o que salvou minha vida foram as boas bibliotecas que frequentei, juntamente com a garantia de refeições nos restaurantes universitários. 

Eu simplesmente passava o dia todo, e muitas vezes também a noite toda, em bibliotecas muito agradáveis para desenvolver as minhas atividades de estudo e leitura. Fiz isso durante anos e simplesmente não vivenciei o que as pessoas costumam classificar como procrastinação. E não foi muito difícil não, porque uma boa biblioteca é o ambiente ideal para o mergulho nos estudos. É assim que eu sentia. 

Fora o fato de que uma coisa para mim é simples: para não procrastinar é necessário gostar da tarefa e se restringir a ela. É necessário se dedicar integralmente à ela para que o foco seja garantido. Quem tenta realizar várias tarefas ao mesmo tempo geralmente se perde nessa história. Saber que não dá para abraçar o mundo é fundamental. Quem mergulha em alguma atividade abre mão de inúmeras outras.

Claro que o fato também de ter frequentado por vários anos um ambiente universitário bastante rico facilitava muito a minha tarefa, pois na USP (somente para citar o ambiente universitário mais rico que frequentei) a gente tinha de tudo, inclusive estrutura para a prática de esportes. Então na USP eu tinha tudo: as refeições que eu precisava, prática de esportes, atividades culturais e de lazer, e um lugar onde eu também fazia amigos - aliás, quase todos os meus amigos eram de lá. Enfim, a minha vida era inteiramente ali. Aquilo ali era o foco total. Sobrava pouco espaço para o que as pessoas costumam classificar como procrastinação.

E atualmente, como docente, tenho me visto em um espaço universitário e em um mundo completamente diferente. Então, o que tenho tentado desenvolver com os estudantes é um ambiente de aprendizagem colaborativa. Mas isso já é objeto para uma próxima postagem...

Fazer o que gosta ou com quem gosta?

Fazer a coisa certa no lugar errado não é melhor do que fazer a coisa errada no lugar certo. Trabalhar com o que não gostamos, em um ambiente acolhedor, é mais saudável do que trabalhar com o que gostamos em um ambiente ruim. Não basta fazer o que gosta, trabalhar com alguma coisa que você acha que irá lhe trazer realização pessoal, se você não tiver a sorte de ter um ambiente de trabalho saudável, uma equipe de trabalho com a qual consiga ter interações prazerosas e saudáveis. Fazer a coisa errada no lugar mais certo do mundo pode fazer com que você passe a gostar de um trabalho que não gostava antes.

Pensar primeiro em si ou nos outros? (sobre uma fala de PC Siqueira)

Gosto dos vídeos de PC Siqueira porque ele acaba, em sua retórica, muitas vezes me surpreendendo. Em um de seus últimos vídeos disse que devemos pensar primeiro em nós mesmos, para depois pensarmos nas outras pessoas. Porque, segundo ele, de modo geral, quando estamos pensando primeiro nas outras pessoas, elas estão dois passos à nossa frente, porque além de estarmos pensando nelas em primeiro lugar, elas também estão pensando nelas em primeiro lugar. Segundo ele isso abre portas para relacionamentos abusivos.

Gostei do que falou. Foi bem criativo. Contudo isso não me desceu muito bem. Isso talvez se aplique ao momento que ele está vivendo, após ter percebido uma série de abusos que sofreu em algumas interações pessoais. 

Penso que devemos obviamente ser responsáveis, o máximo que pudermos, por nossa própria vida. Não devemos esperar que os outros pensem primeiro em nós, e muito menos devemos exigir isso das pessoas. Cuidar de si mesmo não é somente um comportamento egoístico. 

Quem não cuida de si não sobrevive. Cuidar de si mesmo é fundamental. Tentar dar conta sozinhos, o máximo que pudermos, de nossos próprios problemas, é fundamental. É uma das características da maturidade. Pessoas maduras cuidam de si mesmas, e não ficam esperando pelos outros para que isso ocorra.

Do modo como se expressou ficou com um tom mais egocentrado, egoísta. Penso que não se trata exatamente de pensar primeiro em si mesmo e depois nos outros. Trata-se de pensar em si e também nos outros. Há uma importância muito grande de se pensar também nos outros Esse é um dos fundamentos da ética. Porque geralmente quando estamos pensando nos outros também estamos pensando em nós mesmos. Cuidar de todos é cuidar de si também.

Um dos maiores problemas que vivemos dentro de uma sociedade, que prima por níveis maiores de individualização, é a ausência ou diminuição dos intercâmbios fundamentais da vida comunitária. Não somos uma ilha, e o outro nos constitui, assim como é uma das maiores, senão a maior fonte para o nosso bem-estar.

O problema mais comum nos tempos atuais é que as pessoas estão pensando demais em si mesmas, e se esquecendo das outras, ao contrário do que ele apregoa nesse vídeo. Estão se colocando em primeiro lugar, e quando assim o fazem terminam por se perceberem completamente isoladas e sem referências sólidas. Isso facilita, por exemplo, o surgimento de sintomas de ansiedade e depressão, os quais atualmente apresentam níveis epidêmicos.

Se PC Siqueira vivenciou alguns relacionamentos abusivos, e isso o deixou sensibilizado ao ponto de agora talvez estar se dirigindo para o extremo oposto, espero que suas palavras ecoem somente em quem passou por situação semelhante. Porém também acho provável que ele esteja, como já mencionei, se dirigindo para o extremo oposto, o qual também não reserva boas surpresas.

Emoções negativas e positivas

As emoções negativas são emoções geralmente desagradáveis, de urgência, que salvam a vida das pessoas: medo, raiva, nojo... 

É possível, por exemplo, enumerar uma quantidade muito maior de emoções negativas do que de positivas. Quando pensamos em emoções negativas, várias delas nos vêm à lembrança, porque de fato há um número maior mesmo de emoções negativas. Contudo, esse número maior não faz das emoções negativas, do sofrimento, o sustentáculo da existência dos seres vivos. 

Mesmo que as emoções positivas estejam reunidas somente no que chamamos de alegria, e mesmo que sua magnitude possivelmente seja menor que a das emoções negativas, a alegria mesmo assim continua sendo o arroz com feijão da vida. As negativas até socorrem, mas não sustentam.

Fazer aconselhamento psicológico não é a mesma coisa do que dar conselhos

Fazer aconselhamento psicológico não é a mesma coisa do que dar conselhos. Para introduzir essa questão quero mencionar o ocorrido durante um atendimento, no qual um estudante de enfermagem atendia uma paciente, sob minha supervisão e a de um enfermeiro:

- Você estuda? - indagou ele.

- Não. Eu parei de estudar no ano passado.

- É importante! Volte a estudar. Volte estudar que isso vai ser importante para a sua vida!

Ele não investigou os motivos daquela paciente ter parado de estudar. Simplesmente recomendou que ela deveria voltar a estudar, sem saber qual era a condição e motivação dela para tal.

Conselhos são recomendações gerais que não levam em conta as condições específicas nas quais as pessoas estão inseridas. O conselheiro tem a ilusão de que a pessoa irá placidamente obedecê-lo, de que basta prescrever alguma coisa, com sua autoridade, para que o outro passe a executar o que foi recomendado. 

A paciente acima deve ter ouvido por diversas vezes a mesma coisa, que estudar era muito importante ou algo parecido, e estava ali, diante de um futuro enfermeiro, a ouvir a mesmíssima recomendação.

Também é comum se ouvir, a partir de quem está fazendo algum conselho, recomendações de como as pessoas devem ou não se sentir, o que também não faz muito sentido, porque as pessoas não se sentem assim ou assado em função de recomendações de como devem se sentir.

Quem dá conselhos tenta pular etapas e acredita que assim irá produzir alterações instantâneas nos comportamentos e realidades alheias. Quem está dando um conselho geralmente está totalmente alheio às motivações de quem está sendo aconselhado.

Lembro-me também, inclusive, de um relato de Drauzio Varella, ao recomendar que as pessoas façam atividades físicas regularmente, e sobre como reage quando lhe dizem que não têm tempo para isso. Ele simplesmente responde para essas pessoas que o problema é delas.

Compreendo que boa parte dos médicos costuma agir assim, somente com conselhos, recomendações ou prescrições rápidas. O psicólogo contudo não pode, em momento algum, agir assim. 

É importante também que as pessoas tenham seu próprio tempo e autonomia para, por vezes, aos poucos, sozinhas, irem resolvendo seus problemas. Contudo, afirmar que o problema é somente delas geralmente não é de muita utilidade. 

O aconselhamento é um processo constante de investigação das razões e motivações pelas quais as pessoas estão fazendo ou deixando de fazer as coisas. A partir disso iremos (nós, profissionais do aconselhamento), juntos com essas pessoas, descobrir qual é a melhor forma para elas, em particular, para que consigam realizar esta ou aquela atividade.

Cada um vai encontrar um jeito específico para se engajar ou se motivar em relação às mais variadas atividades dessa vida. Então não basta por exemplo recomendar que as pessoas simplesmente façam atividades físicas. Temos de descobrir, junto com elas, se terão condições de realizar alguma atividade física. Temos de, junto com elas, descobrir qual é especificamente a atividade, e em qual contexto ela poderá ser realizada.

E isso não quer dizer que, em um processo de aconselhamento, não seja possível se recomendar alguma coisa. Isso também é possível. Contudo, nesse processo as recomendações são sempre postas à prova. 

A forma literal com que é feita uma recomendação pode até mesmo ser a mesma ou muito parecida com a forma de conselhos simples. A diferença é que, em um processo de aconselhamento, as recomendações são sempre postas em discussão. Sempre se pede ao paciente que reflita sobre a recomendação que está sendo feita, se ela de fato faz sentido ou se aplica ao seu contexto específico:

"O que você acha? Faz sentido o que estou lhe dizendo? (...) Estou falando muita besteira? (...) Você acha que teria condições de fazer isso? (...) Por que não tentar?"

O conselho é geralmente um ato sumário, violento, indiferente às condições específicas nas quais a pessoa aconselhada está vivendo. O aconselhamento, por sua vez, tem relação com estar junto, com o acompanhamento, escuta e observação constantes de como o outro vem se relacionando com os outros e o mundo. 

É um mergulho reiterado, insistente e constante no mundo do outro, sempre de mãos dadas com ele. Jamais para simplesmente arrastá-lo para as cercanias de nossas suspeitas e hipóteses. Mas constantemente em direção às profundezas dos sentimentos e motivações de alguém que sempre irá renovar seu mistério na relação conosco.

Motivo ético para continuar vivendo

A minha impressão é que ser amado é uma razão moral para continuar vivendo. E amar? Amar é razão pessoal, egoística. Amar não é justificativa ética para continuar vivendo. Ética é sempre pelo outro. Nunca por si ou pra si mesmo. Em termos éticos, o dever é viver pelo outro mesmo. Nada mais. Por outro lado, há também a liberdade da individualidade de viver somente para si ou encontrar a maior parte dos motivos aí.

Comunicação oral x escrita

É um pouco assustador e frustrante  para mim perceber que a comunicação oral é totalmente diferente da comunicação escrita, porque permite um nível de envolvimento com o interlocutor que ultrapassa completamente a questão do conteúdo. O conteúdo pode ficar em plano secundário quando estamos falando de comunicação oral. Porque aí o principal é fazer com que seu ouvinte se envolva com o que você está falando e isso, em muitos casos, independe quase que totalmente do conteúdo.

Há um lado triste nisso, porque a comunicação oral muitas vezes acaba sendo uma comunicação baseada na ignorância, no equívoco, na falta de informação. É triste porque, ao observar as diferenças entre a comunicação oral e a escrita, fica claro para mim como políticos profissionais, charlatães e opressores das mais diversas espécies conseguem enganar as pessoas sem transmitir qualquer tipo de informação relevante. 

A linguagem enfeitiça, mas a linguagem oral enfeitiça muito mais. Terreno perfeito para a trapaça, no qual aqueles que muitas vezes estão mais preocupados com a verdade podem ser injustamente massacrados.

É possível "evoluir" sem sofrimento?

Há poucos dias recebi, por mensagem privada, a seguinte pergunta:

"Adriano, como as pessoas "evoluem" sem o sofrimento? Existe uma forma de "evoluir" o caráter de alguém que não seja invasiva e muitas vezes agressiva?"

Essa talvez seja uma das grandes contribuições da Análise do Comportamento, pois seus achados, os quais foram replicados tanto com modelos animais quanto com modelos humanos, corroboram a hipótese de que é possível sim, em boa medida, aprendermos muitas coisas nessa vida com muito menos sofrimento do que usualmente costumávamos pensar.

As evidências de que o condicionamento aversivo não é o caminho mais desejável, e de que há alternativas concretas para ele, demonstram isso com clareza.

É comum o enunciado de que "se não vai por amor, vai pela dor". Contudo quem assim se expressa está tentando adotar o caminho mais rápido, o mais fácil, ou então não tem conhecimento suficiente de como é possível atuar, de modo significativo e muito mais eficiente, com base no que as pessoas comumente chamam de amor.

Não estou dizendo que o que conhecemos hoje é infalível, mas que atualmente existem técnicas, ou até mesmo tecnologias, que ajudaram em boa medida a diminuir o sofrimento envolvido em todo o nosso processo de aprendizagem e conquista da maturidade.

Quero somente lhes dar um exemplo bem simples. Imagine que alguém esteja sofrendo de uma fobia específica em relação a altura. Uma descoberta muito antiga é que uma das estratégias mais eficazes para se combater a ansiedade, o medo, é o enfrentamento. Desse modo não faltaram pessoas, durante a história, expondo outras, às quais estavam com medo, de forma muito abrupta aos objetos dos quais essas pessoas tinham medo.

Lembro-me inclusive de uma de uma aluna que tive, a qual me relatou que, para acabar com seu medo de altura, lhe sugeriram que ela saltasse de paraquedas. O problema é que esse tipo de técnica produz uma inundação de estimulação aversiva, a qual possui muitos riscos, pois a pessoa pode, após esse tipo de manejo, ficar ainda mais sensibilizada, traumatizada com altura. O risco é muito grande, e há também o risco da pessoa, por exemplo, desmaiar, e simplesmente não entrar em contato com a experiência aversiva.

Para que qualquer pessoa possa entender, sem que eu precise fazer o uso de jargão técnico, eu diria que basicamente nos comportamos segundo dois vetores: nos comportamos para conseguir algo bom ou para evitar algo ruim. No primeiro caso o comportamento está sendo mantido por reforçamento positivo. No segundo caso ocorre o reforçamento negativo, o qual corresponde ao que é classificado como condicionamento aversivo.

O condicionamento aversivo então pode ser realizado por meio de reforçamento negativo e punição (positiva ou negativa). E a punição por sua vez se refere à consequências que diminuem a frequência de respostas. Ou seja: quando o sujeito é punido a tendência é que o comportamento punido diminua em frequência ou venha a se extinguir.

Há porém evidências científicas consolidadas de que o condicionamento aversivo possui inúmeras desvantagens. É definitivamente mais desejável adotar o reforçamento positivo.

Se queremos, por exemplo, que uma criança comece a estudar mais, e de modo mais motivado e saudável, é necessário se pensar que o mais desejável será o reforçamento positivo do comportamento de estudar. O comportamento de estudar precisa produzir consequências aprazíveis para essa pessoa. Estudar precisa ser prazeroso. 

As gratificações pelo comportamento de estudar deverão ocorrer de forma um pouco mais imediata, no próprio cotidiano das atividades acadêmicas. Gratificações que se distanciam dos próprios comportamentos de estudar serão menos eficientes. Se o próprio comportamento de estudar, em si, for gratificante, será muito mais efetiva a aprendizagem, a cultura, o gosto por estudar.

E talvez as gratificações mais poderosas são as gratificações sociais as gratificações que advém da companhia prazerosa de outras pessoas. Muitas pessoas inicialmente nem gostam de algumas atividades específicas Porém quando são submetidas à realização dessas atividades na companhia de pessoas que lhes fazem bem, há a possibilidade do estabelecimento de um processo que faz com que essa pessoa passe a gostar até mesmo daquelas atividades que inicialmente nem gostava.

Os analistas do comportamento, na minha concepção, são os maiores conhecedores de como fazer para que as pessoas se sintam mais motivadas e felizes em relação às atividades que desenvolvem na vida. 

E é importante obviamente tentar perceber quais são os comportamentos que são emitidos com mais facilidade ou até mesmo, eu diria, ser bastante otimista em relação aos sujeitos com os quais estamos lidando. Porque qualquer comportamento desejável, por mais minúscula que seja a sua frequência e magnitude, é uma semente que pode ser irrigada e gerar uma série de outros comportamentos adequados e desejáveis. 

É importante então olhar para as pessoas, para qualquer ser cujo comportamento ocorre por meio da seleção por consequências, com muito otimismo. Porque qualquer simples resposta, que seja parecida com algo desejável, deve ser gratificada. Então esse olhar é um olhar eminentemente otimista, porque olha para o que o outro tem de bom, mesmo que isso se apresente em uma quantidade minúscula. 

É a partir do que as pessoas têm de agradável, de aprazível, bom, desejável, que iremos atuar. Há um foco no que o outro tem de bom: eis o otimismo, e um tipo bom de otimismo, pois é focado na ação. É a partir disso que o outro irá crescer, e crescer com um nível de interação o menos violento e hostil possível, porque o que dá mais certo, e a Análise do Comportamento sabe muito bem disso, é a gentileza, o trato afetuoso, o que a maioria das pessoas conhece e classifica como sendo da ordem do amor.

“Chore que faz bem...” ?

É muito comum esse tipo de afirmação ou recomendação. Chorar, contudo, pode ter as mais diversas funções. Porém quando alguém assim se expressa geralmente está recomendando que a pessoa chore para desabafar, para diminuir a tensão e assim tenha um pouco de alívio em relação a seu sofrimento.

Entretanto existem também, para esse aspecto, contextos diversos. Há pessoas que relatam que geralmente se sentem piores após chorarem. Pois a expressão de uma emoção pode intensificar a emoção em questão. Ou seja: chorar pode, em alguns casos, intensificar a tristeza. Aí me lembro de muitos relatos de pacientes a me dizer que quanto mais choravam mais tinham vontade de chorar, e mais tristes ficavam.

Fora os contextos mais específicos: se a pessoa, por exemplo, chorar em público e isso implicar para ela em sentimentos de vergonha ou humilhação, chorar poderá então criar mais problemas e aumentar o sofrimento.

Portanto, chorar nem sempre faz bem...

O sofrimento enobrece?

Afirmar que o sofrimento enobrece faz um pouco de sentido para quem está no luxo, e vem sofrendo muito pouco nessa vida, e assim até se embruteceu. Não deve servir pra justificar sofrimentos dilacerantes, injustos e indecentes. Mas infelizmente  é mais para isso que esse tipo de afirmação acaba servindo mesmo, para naturalizar a opressão.

O sofrimento serve pra quê?

Se o sofrimento tem alguma função, função boa, é somente uma: facilitar a empatia, pois a tendência de quem não sofre, ou sofre pouco, é se dessensibilizar com o sofrimento alheio. Essa, pra mim, é a única utilidade do sofrimento. Para o restante dos sofrimentos prefiro pensar que são evitáveis ou inevitáveis.a

Wednesday, March 07, 2018

Colega desumanizado na UTI

Tive a infelicidade de conviver, na UTI, com um colega, médico, o qual não tinha muito compromisso com uma relação humanizada, tanto com pacientes quanto com seus colegas de trabalho, e isso era reconhecido pela grande maioria da equipe.

Seus colegas médicos se queixavam de seu histórico de quebra de compromissos com a própria equipe médica, na rotina de trabalho. Era visto como aquele colega que cometia diversos erros, geralmente relacionadas a negligência, os quais sempre tinham de ser acobertados pelo restante da equipe.

Não sei exatamente porque aceitavam a convivência com um colega tão difícil e comprometedor, mas o fato é que essa convivência se arrastava, apesar de tudo, estabilizada, por alguns anos. Todos sabiam que aquele colega era um pouco uma pedra no sapato, mas parece que não viam ali uma alternativa melhor.

Ele era também um daqueles colegas que frequentemente acaba descumprindo com as normas do local. Sempre que isso ocorria de modo mais exacerbado era advertido, e voltava a se comportar dentro das normas por um breve período, o qual não durava muito, porque aquele sujeito era um problema crônico, inclusive para seus próprios colegas médicos.

No início de minha interação com ele somente percebi que se tratava de alguém que tinha um imenso prazer em estabelecer uma relação de dominação com seus colegas de outras especialidades. Mesmo não sendo o chefe da UTI, em seu plantão se comportava como tal, como se fosse o chefe do plantão.

Desse modo acabava incorrendo em diversos atritos, principalmente com a equipe de enfermagem. Nesses conflitos geralmente se comportava de modo bastante ríspido e pouco empático. Porém, no final das contas, acabava agindo como se nada tivesse acontecido, e as pessoas parece que sempre o perdoavam. Agia muitas vezes de forma bastante rude, e até covarde, para dias depois estar ali, com as mesmas pessoas que havia hostilizado, contando piadas de mau-gosto e rindo, inclusive de pacientes.

Essas pessoas, contudo, apesar de aparentemente terem perdoado seus atos grosseiros e impensados, não se esqueciam do que ele fazia de errado. Em privado não deixavam de comentar e trocar histórias de quando haviam sido hostilizadas por esse médico. Havia uma espécie de um ranking das piores pessoas que trabalhavam ali, e ele sempre estava no topo.

Eu também fazia parte da equipe porém, pelo fato de ter feito doutorado, creio que isso exercia um papel de fazer com que ele me respeitasse um pouco mais do que a maioria ali naquele espaço. A minha impressão é de que ele era mais implacável com quem tinha menos formação ou autoridade. Suas presas prediletas eram os técnicos de enfermagem.

A maioria das pessoas relatavam que ele era o mais desumano e ríspido dos profissionais que existiam naquela UTI. Eu não conseguia entender isso muito bem, pois ele ainda não havia sido ríspido comigo.

Hoje penso que ele era certamente o mais desumano com os próprios colegas de trabalho, porém não era, na minha percepção, o mais desumano com os pacientes, porque havia um outro médico, ainda mais desumano do que ele com os pacientes, do qual, se for o caso, ainda falarei em outra oportunidade.

Então a convivência profissional com esse colega era bastante difícil. Somente para vocês terem uma ideia, no sábado pela manhã, quando havia treino de Fórmula 1, transmitido pela Rede Globo (e não estou falando da corrida; estou falando somente do treino) ele simplesmente não podia ser interrompido.

Se a pessoa quisesse dar uma de louca bastava bater na porta de seu repouso enquanto ele estava assistindo a esse treino de Fórmula 1. Quem assim o fizesse, mesmo que houvesse alguma intercorrência grave, de algum paciente que estivesse em parada cardíaca, ou coisa semelhante, seria maltratado por ele. Ele ficava transtornado, irritadíssimo se alguém o chamasse enquanto estivesse assistindo ao treino de Fórmula 1.

E não havia como não chamá-lo, porque depois, se algo muito grave ocorresse em função de não chamá-lo, essa pessoa que não o chamou seria responsabilizada por isso. Então as pessoas se revezavam nessa função inglória. Sempre que ele estava no repouso evitavam ao máximo bater em sua porta. Então ele era chamado somente em situações muito graves.

O problema é que a obrigação dele não era somente a de socorrer um paciente que estava com uma parada cardiorrespiratória. Ele também tinha a obrigação de passar pelos leitos durante os horários de visita.

Havia dois horários de visita: um das 16 às 17 horas e outro das 20 às 21 horas. E ele fazia questão de não sair de seu repouso durante a maioria das vezes nos horários de visita.

Se ele não saísse de seu repouso e nada acontecesse, estaria tudo bem, porque ninguém iria chamá-lo mesmo. O problema é que a maioria dos familiares sabia que era obrigação do médico comparecer aos leitos durante os horários de visita, para dirimir dúvidas dos familiares, e até mesmo dos próprios pacientes em relação ao tratamento, à sua estadia ali.

Havia geralmente então uma pressão muito grande por parte dos familiares para conversarem com o médico. Outro problema também é que quando ele comparecia, sempre comparecia nos últimos 15 minutos da visita. Então nosso trabalho era também pedir para que os visitantes e familiares tivessem um pouco de paciência e esperassem, porque ele geralmente iria aparecer nesses últimos 15 minutos.

Havia porém dias e períodos em que ele não demonstrava o menor interesse ou motivação para comparecer às visitas. Desse modo as pessoas ficavam esperando, e ele simplesmente não aparecia.

Houve um dia contudo em que não resisti, e mostrei para um familiar de um paciente onde era o repouso, pedindo para que essa pessoa não revelasse ao médico que havia sido eu o servidor que havia lhe indicado o local em que se situava tal aposento.

Quase uma semana depois, quando cheguei para meu plantão, esse médico veio até mim enfurecido:

- Eu sei que foi você quem disse para um visitante que eu estava no repouso! Cuide de seu trabalho que eu cuido do meu! Você está me entendendo bem? Cuide do seu trabalho que eu cuido do meu!

Ele falava e bufava de raiva. E eu, como fui pego de surpresa, também fiquei bastante transtornado, pois foi uma interação muito estressante, porque aquilo parecia que poderia se transformar muito facilmente em uma luta corporal.
E nesse dia eu pude compreender mais plenamente sobre o que as pessoas falavam acerca de sua rispidez.

Ele simplesmente esbravejou e nem permitiu que eu replicasse ou me justificasse. Entrou no repouso e bateu a porta na minha cara.

Pensei comigo: vou esperar a poeira baixar e, no final do plantão, quando tudo estiver mais calmo, quando ele estiver mais calmo, tento conversar para acertarmos os ponteiros.

Já no final do plantão, eu estava andando, no início do corredor, e percebi que ele estava vindo pelo mesmo corredor, em direção a mim. Continuei andando em sua direção, e procurando olhar para ele, para seus olhos, para que conseguíssemos retomar a conversa de modo civilizado. Assim que olhou para mim, eu acenei no sentido de que queria conversar com ele:

- Fulano...

- Não quero saber! Não quero nem olhar pra tua cara!

- Eu só queria lhe pedir desculpas, rapaz...
- Não quero saber! - e bateu novamente a porta do repouso na minha cara.

Sim, inspirado em um velho ensinamento de Emily Bronte, antes de começar a conversa eu lhe pediria desculpas pelo transtorno:

- Fulano, antes de mais nada eu gostaria de lhe pedir desculpas pelo transtorno, porque não era essa a minha intenção...

Porque eu acho que as coisas podem se encaminhar primeiramente mais ou menos assim. Acho que é possível fazer com que a outra pessoa se acalme e se desarme a partir de pedidos de desculpas em relação ao que ela veio sentir, e que aquilo que ela veio a sentir não era de fato a nossa intenção. Sim, é plenamente possível e sensato pedirmos desculpas mesmo quando temos convicção de que estamos certos. E isso não é assumir que estamos errados. Não é mesmo, e explicarei melhor para que entendam.

Essa técnica é comumente chamada de reflexão de sentimentos. Trata-se de expressar para o outro o que nos parece que está sentindo, como se colocássemos um espelho para que o outro se veja, com seus sentimentos, para que possa olhar para si mesmo. Porém, para que consigamos fazer isso, temos também de aceitar o que o outro está sentindo, temos de alguma forma de acolher o que o outro está sentindo.

É importante então acolher, traduzindo o que o outro faz em termos de sentimentos, refletir e também comunicar o que se passa em nós por meio de sentimentos. Trata-se de uma comunicação não-violenta, focada na expressão verbal do que se sente, e do que sentimos que o outro sente.

Depois que a outra pessoa já se encontra desarmada, mais calma, cabe falar do que sentimos na interação:

- Quando você esbravejou me senti também bastante transtornado, incomodado, irritado. Tive de respirar fundo e me controlar, para que não perdêssemos o controle, com o risco inclusive de agressões físicas. Acho muito lamentável que tenhamos chegado a esse ponto...

Porque a linguagem que expressa literalmente o que sentimos é a mais objetiva possível, a mais próxima possível dos fatos. Não há muito o que se discutir diante do que as pessoas estão sentindo. Elas simplesmente sentem. Isso é quase que um fato bruto, se podemos assim dizer.

Contudo, esse pequeno arsenal de técnicas e minha experiência em comunicação não-violenta, nessa interação com esse médico, foi praticamente inútil. Funcionou somente como o narcótico comunicacional de minha capacidade de desarmamento do outro a me intoxicar.

Naquele dia eu fragorosamente perdi a batalha. Fui embora para casa caminhando e já anoitecia. Eu estava vivendo um ano muito, muito difícil, e o sabor amargo das agressões que eu havia sofrido naquele plantão culminavam em um turbilhão de sentimentos de impotência e angústia. Andar, meditar sobre a falta de sentido da vida, sobre a minha fraqueza em conseguir dar continuidade à minha própria existência, e chorar, era o curso natural que o peso da escuridão e do silêncio da noite fazia em mim.

Entretanto, nas quatro semanas seguintes, diferentemente dos últimos seis meses, esse médico não estava presente nos mesmos plantões que eu. Disseram que não estava de férias nem de licença, que somente agora, durante aquele mês, estava fazendo seus plantões em outros horários.

Cheguei a pensar que ele pudesse estar na verdade fugindo de mim, fugindo da possibilidade de sentarmos frente a frente, olho no olho, e resolvermos aquela situação sem gritaria ou agressividade.

Porém, um mês depois ele estava de volta aos plantões em alguns horários que coincidiam com os meus, da mesma forma que nos seis meses anteriores.

Como naquele dia infeliz eu havia tentado me comunicar civilizadamente com ele por duas vezes, e por duas vezes ele havia corrido para dentro de sua toca, batendo a porta na minha cara, pensei que agora não faria o menor sentido tentar qualquer tipo de conversa, e que eu deveria simplesmente desprezá-lo, restringindo-me a um mínimo de comunicação possível.

Anexo ao ambiente principal da UTI, onde estavam os pacientes, havia uma pequena copa, na qual os funcionários lanchavam ou até mesmo faziam alguma refeição. Cerca de dois meses após o dia infeliz, estávamos eu e mais umas duas pessoas nessa copa, conversando, como de costume faziam muitos dos servidores enquanto lanchavam, e de repente a porta fechou-se muito bruscamente, provocando um estrondo e susto em nós que ali estávamos.

A porta não tinha batido sozinha. Alguém havia feito aquilo, e uma delas disse-nos que havia sido esse médico. Em posse dessa informação, comecei ali a tentar entender, junto desses colegas, os motivos pelos quais esse médico se comportava dessa maneira:

- Ah, Adriano, eu já desisti desse cara! Isso aí não tem solução não... – disse-me uma dessas pessoas.

Como eu era ali o desafeto mais recente dele, não tinha dúvidas de que aquela batida de porta tinha sido pra mim. Pensei: vou continuar tentando me comunicar com esse sujeito de modo civilizado. Só que agora vou tentar de uma outra maneira: vou tentar por escrito!

Escrevi um bilhete, sucinto, e joguei-o por debaixo da porta de seu repouso:

"Fulano, sinto que estamos tendo muitas dificuldades de interação. Precisamos conversar. Assim que você tiver um tempinho, por favor me comunique, para que possamos sentar e conversar de forma franca e civilizada."

Minha rotina e meus horários se mantiveram inalterados, mas esse médico simplesmente desapareceu, por cerca de uns 3 ou 4 meses. Ficou, durante todo esse tempo, "coincidentemente" fazendo seus plantões em horários totalmente diferentes dos meus.Tive a infelicidade de conviver, na UTI, com um colega, médico, o qual não tinha muito compromisso com uma relação humanizada, tanto com pacientes quanto com seus colegas de trabalho, e isso era reconhecido pela grande maioria da equipe.

Seus colegas médicos se queixavam de seu histórico de quebra de compromissos com a própria equipe médica, na rotina de trabalho. Era visto como aquele colega que cometia diversos erros, geralmente relacionadas a negligência, os quais sempre tinham de ser acobertados pelo restante da equipe.

Não sei exatamente porque aceitavam a convivência com um colega tão difícil e comprometedor, mas o fato é que essa convivência se arrastava, apesar de tudo, estabilizada, por alguns anos. Todos sabiam que aquele colega era um pouco uma pedra no sapato, mas parece que não viam ali uma alternativa melhor.

Ele era também um daqueles colegas que frequentemente acaba descumprindo com as normas do local. Sempre que isso ocorria de modo mais exacerbado era advertido, e voltava a se comportar dentro das normas por um breve período, o qual não durava muito, porque aquele sujeito era um problema crônico, inclusive para seus próprios colegas médicos.

No início de minha interação com ele somente percebi que se tratava de alguém que tinha um imenso prazer em estabelecer uma relação de dominação com seus colegas de outras especialidades. Mesmo não sendo o chefe da UTI, em seu plantão se comportava como tal, como se fosse o chefe do plantão.

Desse modo acabava incorrendo em diversos atritos, principalmente com a equipe de enfermagem. Nesses conflitos geralmente se comportava de modo bastante ríspido e pouco empático. Porém, no final das contas, acabava agindo como se nada tivesse acontecido, e as pessoas parece que sempre o perdoavam. Agia muitas vezes de forma bastante rude, e até covarde, para dias depois estar ali, com as mesmas pessoas que havia hostilizado, contando piadas de mau-gosto e rindo, inclusive de pacientes.

Essas pessoas, contudo, apesar de aparentemente terem perdoado seus atos grosseiros e impensados, não se esqueciam do que ele fazia de errado. Em privado não deixavam de comentar e trocar histórias de quando haviam sido hostilizadas por esse médico. Havia uma espécie de um ranking das piores pessoas que trabalhavam ali, e ele sempre estava no topo.

Eu também fazia parte da equipe porém, pelo fato de ter feito doutorado, creio que isso exercia um papel de fazer com que ele me respeitasse um pouco mais do que a maioria ali naquele espaço. A minha impressão é de que ele era mais implacável com quem tinha menos formação ou autoridade. Suas presas prediletas eram os técnicos de enfermagem.

A maioria das pessoas relatavam que ele era o mais desumano e ríspido dos profissionais que existiam naquela UTI. Eu não conseguia entender isso muito bem, pois ele ainda não havia sido ríspido comigo.

Hoje penso que ele era certamente o mais desumano com os próprios colegas de trabalho, porém não era, na minha percepção, o mais desumano com os pacientes, porque havia um outro médico, ainda mais desumano do que ele com os pacientes, do qual, se for o caso, ainda falarei em outra oportunidade.

Então a convivência profissional com esse colega era bastante difícil. Somente para vocês terem uma ideia, no sábado pela manhã, quando havia treino de Fórmula 1, transmitido pela Rede Globo (e não estou falando da corrida; estou falando somente do treino) ele simplesmente não podia ser interrompido.

Se a pessoa quisesse dar uma de louca bastava bater na porta de seu repouso enquanto ele estava assistindo a esse treino de Fórmula 1. Quem assim o fizesse, mesmo que houvesse alguma intercorrência grave, de algum paciente que estivesse em parada cardíaca, ou coisa semelhante, seria maltratado por ele. Ele ficava transtornado, irritadíssimo se alguém o chamasse enquanto estivesse assistindo ao treino de Fórmula 1.

E não havia como não chamá-lo, porque depois, se algo muito grave ocorresse em função de não chamá-lo, essa pessoa que não o chamou seria responsabilizada por isso. Então as pessoas se revezavam nessa função inglória. Sempre que ele estava no repouso evitavam ao máximo bater em sua porta. Então ele era chamado somente em situações muito graves.

O problema é que a obrigação dele não era somente a de socorrer um paciente que estava com uma parada cardiorrespiratória. Ele também tinha a obrigação de passar pelos leitos durante os horários de visita.

Havia dois horários de visita: um das 16 às 17 horas e outro das 20 às 21 horas. E ele fazia questão de não sair de seu repouso durante a maioria das vezes nos horários de visita.

Se ele não saísse de seu repouso e nada acontecesse, estaria tudo bem, porque ninguém iria chamá-lo mesmo. O problema é que a maioria dos familiares sabia que era obrigação do médico comparecer aos leitos durante os horários de visita, para dirimir dúvidas dos familiares, e até mesmo dos próprios pacientes em relação ao tratamento, à sua estadia ali.

Havia geralmente então uma pressão muito grande por parte dos familiares para conversarem com o médico. Outro problema também é que quando ele comparecia, sempre comparecia nos últimos 15 minutos da visita. Então nosso trabalho era também pedir para que os visitantes e familiares tivessem um pouco de paciência e esperassem, porque ele geralmente iria aparecer nesses últimos 15 minutos.

Havia porém dias e períodos em que ele não demonstrava o menor interesse ou motivação para comparecer às visitas. Desse modo as pessoas ficavam esperando, e ele simplesmente não aparecia.

Houve um dia contudo em que não resisti, e mostrei para um familiar de um paciente onde era o repouso, pedindo para que essa pessoa não revelasse ao médico que havia sido eu o servidor que havia lhe indicado o local em que se situava tal aposento.

Quase uma semana depois, quando cheguei para meu plantão, esse médico veio até mim enfurecido:

- Eu sei que foi você quem disse para um visitante que eu estava no repouso! Cuide de seu trabalho que eu cuido do meu! Você está me entendendo bem? Cuide do seu trabalho que eu cuido do meu!

Ele falava e bufava de raiva. E eu, como fui pego de surpresa, também fiquei bastante transtornado, pois foi uma interação muito estressante, porque aquilo parecia que poderia se transformar muito facilmente em uma luta corporal.
E nesse dia eu pude compreender mais plenamente sobre o que as pessoas falavam acerca de sua rispidez.

Ele simplesmente esbravejou e nem permitiu que eu replicasse ou me justificasse. Entrou no repouso e bateu a porta na minha cara.

Pensei comigo: vou esperar a poeira baixar e, no final do plantão, quando tudo estiver mais calmo, quando ele estiver mais calmo, tento conversar para acertarmos os ponteiros.

Já no final do plantão, eu estava andando, no início do corredor, e percebi que ele estava vindo pelo mesmo corredor, em direção a mim. Continuei andando em sua direção, e procurando olhar para ele, para seus olhos, para que conseguíssemos retomar a conversa de modo civilizado. Assim que olhou para mim, eu acenei no sentido de que queria conversar com ele:

- Fulano...

- Não quero saber! Não quero nem olhar pra tua cara!

- Eu só queria lhe pedir desculpas, rapaz...
- Não quero saber! - e bateu novamente a porta do repouso na minha cara.

Sim, inspirado em um velho ensinamento de Emily Bronte, antes de começar a conversa eu lhe pediria desculpas pelo transtorno:

- Fulano, antes de mais nada eu gostaria de lhe pedir desculpas pelo transtorno, porque não era essa a minha intenção...

Porque eu acho que as coisas podem se encaminhar primeiramente mais ou menos assim. Acho que é possível fazer com que a outra pessoa se acalme e se desarme a partir de pedidos de desculpas em relação ao que ela veio sentir, e que aquilo que ela veio a sentir não era de fato a nossa intenção. Sim, é plenamente possível e sensato pedirmos desculpas mesmo quando temos convicção de que estamos certos. E isso não é assumir que estamos errados. Não é mesmo, e explicarei melhor para que entendam.

Essa técnica é comumente chamada de reflexão de sentimentos. Trata-se de expressar para o outro o que nos parece que está sentindo, como se colocássemos um espelho para que o outro se veja, com seus sentimentos, para que possa olhar para si mesmo. Porém, para que consigamos fazer isso, temos também de aceitar o que o outro está sentindo, temos de alguma forma de acolher o que o outro está sentindo.

É importante então acolher, traduzindo o que o outro faz em termos de sentimentos, refletir e também comunicar o que se passa em nós por meio de sentimentos. Trata-se de uma comunicação não-violenta, focada na expressão verbal do que se sente, e do que sentimos que o outro sente.

Depois que a outra pessoa já se encontra desarmada, mais calma, cabe falar do que sentimos na interação:

- Quando você esbravejou me senti também bastante transtornado, incomodado, irritado. Tive de respirar fundo e me controlar, para que não perdêssemos o controle, com o risco inclusive de agressões físicas. Acho muito lamentável que tenhamos chegado a esse ponto...

Porque a linguagem que expressa literalmente o que sentimos é a mais objetiva possível, a mais próxima possível dos fatos. Não há muito o que se discutir diante do que as pessoas estão sentindo. Elas simplesmente sentem. Isso é quase que um fato bruto, se podemos assim dizer.

Contudo, esse pequeno arsenal de técnicas e minha experiência em comunicação não-violenta, nessa interação com esse médico, foi praticamente inútil. Funcionou somente como o narcótico comunicacional de minha capacidade de desarmamento do outro a me intoxicar.

Naquele dia eu fragorosamente perdi a batalha. Fui embora para casa caminhando e já anoitecia. Eu estava vivendo um ano muito, muito difícil, e o sabor amargo das agressões que eu havia sofrido naquele plantão culminavam em um turbilhão de sentimentos de impotência e angústia. Andar, meditar sobre a falta de sentido da vida, sobre a minha fraqueza em conseguir dar continuidade à minha própria existência, e chorar, era o curso natural que o peso da escuridão e do silêncio da noite fazia em mim.

Entretanto, nas quatro semanas seguintes, diferentemente dos últimos seis meses, esse médico não estava presente nos mesmos plantões que eu. Disseram que não estava de férias nem de licença, que somente agora, durante aquele mês, estava fazendo seus plantões em outros horários.

Cheguei a pensar que ele pudesse estar na verdade fugindo de mim, fugindo da possibilidade de sentarmos frente a frente, olho no olho, e resolvermos aquela situação sem gritaria ou agressividade.

Porém, um mês depois ele estava de volta aos plantões em alguns horários que coincidiam com os meus, da mesma forma que nos seis meses anteriores.

Como naquele dia infeliz eu havia tentado me comunicar civilizadamente com ele por duas vezes, e por duas vezes ele havia corrido para dentro de sua toca, batendo a porta na minha cara, pensei que agora não faria o menor sentido tentar qualquer tipo de conversa, e que eu deveria simplesmente desprezá-lo, restringindo-me a um mínimo de comunicação possível.

Anexo ao ambiente principal da UTI, onde estavam os pacientes, havia uma pequena copa, na qual os funcionários lanchavam ou até mesmo faziam alguma refeição. Cerca de dois meses após o dia infeliz, estávamos eu e mais umas duas pessoas nessa copa, conversando, como de costume faziam muitos dos servidores enquanto lanchavam, e de repente a porta fechou-se muito bruscamente, provocando um estrondo e susto em nós que ali estávamos.

A porta não tinha batido sozinha. Alguém havia feito aquilo, e uma delas disse-nos que havia sido esse médico. Em posse dessa informação, comecei ali a tentar entender, junto desses colegas, os motivos pelos quais esse médico se comportava dessa maneira:

- Ah, Adriano, eu já desisti desse cara! Isso aí não tem solução não... – disse-me uma dessas pessoas.

Como eu era ali o desafeto mais recente dele, não tinha dúvidas de que aquela batida de porta tinha sido pra mim. Pensei: vou continuar tentando me comunicar com esse sujeito de modo civilizado. Só que agora vou tentar de uma outra maneira: vou tentar por escrito!

Escrevi um bilhete, sucinto, e joguei-o por debaixo da porta de seu repouso:

"Fulano, sinto que estamos tendo muitas dificuldades de interação. Precisamos conversar. Assim que você tiver um tempinho, por favor me comunique, para que possamos sentar e conversar de forma franca e civilizada."

Minha rotina e meus horários se mantiveram inalterados, mas esse médico simplesmente desapareceu, por cerca de uns 3 ou 4 meses. Ficou, durante todo esse tempo, "coincidentemente" fazendo seus plantões em horários totalmente diferentes dos meus.

Autoengano e falsas memórias

O autoengano, o mentir para si mesmo, é uma impossibilidade lógica. Porque para mentir é preciso que uma das partes não saiba o que está acontecendo. 

Isso então não seria possível, porque uma parte de si mesmo teria de saber exatamente o que está acontecendo, e calculadamente criar uma outra versão, a versão mentirosa; enquanto outra parte de si mesmo teria de ser a parte enganada, e essa parte enganada no final das contas teria de ser a totalidade de si mesmo a repousar no engano, na ignorância.

Contudo penso que é bastante plausível a existência de mentirosos que durante todo o processo de construção de suas mentiras vão aos poucos forjando falsas memórias, e se esquecendo das versões originais, verdadeiras.

Assim, em todo o processo histórico de construção de suas mentiras, penso que um mentiroso pode aos poucos ir construindo uma espécie de autoengano.

Espantalho sobre o veganismo

Estão compartilhando a notícia de que uma divulgadora do veganismo havia declarado que teria curado seu câncer por meio de uma dieta vegana, e que agora ela veio a falecer do próprio câncer do qual havia declarado que tinha sido curada.

Concordo que é um pouco irônico que as coisas tenham ocorrido dessa maneira, e que as divulgações de cura do câncer por meio de métodos alternativos geralmente são fraudulentas, não importando se isso diz ou não respeito ao veganismo. 

Na verdade não é isso que resume o essencial do veganismo, que é fundamentalmente uma postura ética de respeito pelo sofrimento de animais sencientes não-humanos e toda a questão de uma melhor preservação dos ecossistemas.

Então achar bonito essa notícia, como se ela fosse um tapa na cara do veganismo, é tão ou mais idiota do que ficar divulgando curas milagrosas para o câncer.

Vamos falar um pouco de sintomas e transtornos de ansiedade?

Da minha observação e experiência clínica, concebo que os transtornos de ansiedade possuem geralmente duas fontes de determinação.

A primeira se relaciona a um processo de sensibilização em relação a determinados estímulos, o qual se instala após alguma experiência traumatizante. A segunda fonte se relaciona a uma diminuição da qualidade de vida como um todo.

É geralmente essa segunda fonte de determinação de sintomas de ansiedade a que com frequência é menos percebida por quem está padecendo dessa condição. 

Nesse caso a pessoa de repente, no correr da vida, em seu cotidiano, se percebe muito tensa, preocupada, ou com medo de uma série de coisas das quais antes não tinha medo, e não consegue perceber porque está se sentindo assim.

E sentir medo sem saber por que está sentindo medo em muitos casos tende a acentuar os sintomas de ansiedade. Gera mais sensações de falta de orientação, da falta de um terreno sólido sobre o qual se está pisando, e isso somente piora a situação, o quadro de sintomas ansiosos.

E nesses casos não faz muito sentido somente um trabalho de exposição gradual às coisas das quais a pessoa está relatando que vem sentindo medo. Ou seja, nesse caso, com uma certa frequência, não faz muito sentido somente a utilização de dessensibilização sistemática, a qual é mais facilmente compreendida pelo jargão de que é preciso simplesmente enfrentar aquilo do qual se tem medo.

Em casos assim é mais eficaz um trabalho intenso de investigação de como a vida se tornou pior, pois uma vida que de repente perde sua qualidade de fruição, de ser uma boa vida, ou de ser uma vida na qual as coisas tinham uma estabilidade suficiente para que ela caminhasse de modo saudável, é um terreno fértil para ansiedade.

E esse terreno fértil para a ansiedade, em muitos casos, se estabelece após decepções, frustrações ou perdas significativas. Um coração partido é uma terra fértil para sintomas ansiosos. 

Em boa parte dos casos há primeiro uma precipitação de sintomas de ansiedade, os quais depois vão se transformando ou progredindo para sintomas de depressão: primeiro existe a agitação, a tensão, o medo, os quais costumam gerar ações na tentativa de autoproteção ou isolamento o que, por sua vez, retroalimenta os sintomas de ansiedade. Ou seja: quanto mais o sujeito se protege mais medo sente. Depois da tempestade vem a tristeza.

Mas por que escrevi que depois da tempestade vem a tristeza? Escrevi isso porque infelizmente, com a progressão dos sintomas, depois da tempestade não vem a bonança. Depois dos sintomas de ansiedade, da tentativa desesperada de se proteger, a pessoa acaba se deparando com o isolamento, com a solidão. Porque as tentativas de proteção geralmente mais contribuem para o enfraquecimento dos repertórios do sujeito do que para a multiplicação de suas opções de enfrentamento e resolução de seu drama. Quanto mais a pessoa se protege mais medo passa a ter. 

Então um trabalho de dessensibilização sistemática, de exposição gradual às coisas das quais se tem medo, geralmente terá somente um papel de prevenção da acentuação de sintomas de ansiedade. É somente um trabalho de quebra de um ciclo vicioso, no qual as tentativas de autoproteção somente incorrem no agravamento dos sintomas.

Em direção a uma recuperação mais ampla é necessário um trabalho de investigação das decepções, perdas e frustrações que levaram a uma diminuição geral da qualidade de vida. E obviamente todo esse trabalho deve sempre ser realizado sem nunca nos esquecermos de uma série de outros componentes de nossa interação com o mundo, os quais dizem respeito, por exemplo, grosso modo, à alimentação, prática de exercícios físicos, exposição à luz solar, comorbidades e vários outros para os quais existem evidências científicas de sua repercussão na saúde mental.

Esse trabalho de investigação dos determinantes da piora na qualidade de vida visa primeiramente a construção de hipóteses que possam posteriormente ser testadas. Desse trabalho surgem hipóteses. Após o surgimento dessas hipóteses é necessária a construção, juntamente com o paciente, de um planejamento de intervenção na realidade, de testagem dessas hipóteses.

É comum, após a produção de algumas hipóteses, o surgimento de algumas tarefas que terão de ser realizadas fora das sessões de psicoterapia. E essas tarefas devem surgir de um trabalho conjunto entre terapeuta e paciente. Essas tarefas jamais devem ser produzidas ou direcionadas de modo unilateral. O terapeuta não deve simplesmente pedir para que o paciente realize algumas tarefas em casa. O terapeuta deve sempre negociar com o paciente o que este sente que tem condições para realizar.

O terapeuta pode sugerir esta ou aquela atividade, mas não pode nunca se esquecer de verificar com o paciente quais são os seus limites, inclinações e desejos, porque não faz o menor sentido sugerir alguma coisa para a qual não haverá motivação de realização.

E mesmo que o paciente tenha garantido que tinha motivação para a realização de uma simples tarefa, e se comprometido a realizá-la, quando não cumpre o que foi combinado também não faz o menor sentido produzir consequências aversivas para isso. Ou seja: não faz o menor sentido punir. Se não realizou a tarefa, temos sempre de abrir novamente a investigação para descobrirmos o que aconteceu para que não realizasse a tarefa. O trabalho de um terapeuta é um trabalho constante, em conjunto com o paciente, de investigação e teste de hipóteses.

Confusão conceitual no debate sobre a questão do relativismo moral

A minha impressão é existe uma certa confusão conceitual no debate sobre a questão do relativismo moral. Penso que existem dois níveis conceituais envolvidos. O primeiro diz respeito aos códigos morais, os quais variam em termos temporais, geográficos, culturais e sociais. O segundo nível diz respeito à questão da existência do bem e do mal. E aí talvez seja necessária a restrição ao que é fundamental. Na minha concepção é fundamental se pensar sobre a essência do mal. Penso que o mal existe sim e, claro, a experiência do mal irá variar de sujeito para sujeito, mas isso não quer dizer que não exista. Varia, mas não deixa de existir. Objetivamente existe. O mal é o sofrimento.

Desde a formulação do paradoxo de Epicuro, séculos antes de Cristo, isso é bem sabido. O mal objetivamente existe porque o sofrimento objetivamente existe. Os seres sencientes sofrem. Os seres humanos sofrem. E boa parte do empreendimento humano visa a construção de dispositivos, estruturas ou realidades para que esse sofrimento seja diminuído. E o bem se refere a toda ação que diminui ou extingue sofrimentos evitáveis, ou toda ação que vise à compreensão de como transformar sofrimentos inevitáveis em evitáveis.

O mal existe, e isso é uma realidade objetiva. Em si o sofrimento é o mal. Analise do modo mais objetivo possível, e observe que, em si, é algo ruim. O sofrimento, em essência, é o mal. Por menor que seja, é um representante do mal, representa o mal. Pode até ser inevitável ou desprezível, mas não faz sentido dizer que é útil. Acho que somente é útil pra quem subjuga o outro por meio dele. Para o opressor é bastante útil. Mas para quem sofre, o sofrimento, em si, é sempre uma carga, um desconforto, e isso já não faz sentido quando já se habituou, quando já se dessensibilizou.

A minha compreensão é a de que não podemos classificar o sofrimento em útil ou inútil, mas de que existem sofrimentos evitáveis e inevitáveis. Se são evitáveis, é um imperativo ético agir para que deixem de existir. Obviamente um dos pontos centrais nessa reflexão diz respeito à distinção entre sofrimentos evitáveis e inevitáveis. E muitos sofrimentos que eram inevitáveis no passado, hoje, com os mais variados desenvolvimentos técnicos e sociais, podem ser evitados. E o que é um sofrimento evitável? É todo sofrimento cuja extinção não tem como consequência a produção de sofrimentos ainda maiores.

Classificar o sofrimento como útil somente facilita a justificação de opressões e atrocidades.

Eutanásia para casos irremediáveis de transtornos mentais

Alguém certa vez, no Facebook, publicou isso aqui:

"Muitos falam sobre a eutanásia abordando apenas doenças orgânico-funcionais, como câncer, miopatias, alterações genéticas, etc.. Por que não se fala de doenças psiquiátricas? Pode-se dizer que é porque a pessoa terá alterações psicológicas o suficiente para não tomar uma decisão correta, é claro, mas e alguém de idade avançada que tenha sofrido todos os anos da vida com depressão profunda para a qual não há tratamentos?"

Minha resposta para essa questão é essa aqui:

Na Bélgica, por exemplo, uma pessoa nessa condição, em uma condição irremediável, seja qual for, depois de um certo tempo passa a ter o direito de morrer.

Ou seja: ela passa a ter o direito de ser ajudada pelo Estado para conseguir morrer em paz. Na Bélgica é assim porque existe a concepção de que a sociedade é responsável pelos seus membros.

Estar em sociedade é completamente diferente de estar sozinho. Se você está sozinho, você constantemente responde por si mesmo. Porém, se você está em sociedade, a sociedade em boa medida é também responsável por você e por seu bem-estar. Porque ninguém em sociedade está vivendo completamente sozinho. Sociedade implica nisso: em ter sócios. Se você tem um sócio, ele também é responsável por aquilo que você é responsável.

Existe uma sociedade no empreendimento da vida. Há uma vida em grupo,  há uma vida em sociedade: então a sociedade deve ajudar o sujeito tanto a viver bem quanto a morrer, se for um caso irremediável.

Angústia sobre a finitude

Minha angústia sobre a finitude da vida, de tudo, vai embora rapidinho quando começo a pensar que eu não existia também antes de nascer. É engraçado porque quase ninguém fica angustiado em pensar que simplesmente não existia antes de nascer, que o mundo já estava aí há bilhões de anos e a pessoa nunca havia existido, e a maioria fica muito angustiada em pensar que deixará de existir depois que morrer. Mas o que mais aconteceu na existência de tudo é você simplesmente não ter existido, criatura.

Quer ajudar um pouco as pessoas, com seus problemas e dilemas na vida?

A primeira coisa é começar a tentar mudar um pouco a postura quando estiver ouvindo as pessoas relatando seus problemas. Culpá-las pelo que elas estão passando é geralmente muito ineficaz. Evite duas frases prontas que comumente saem da boca dos ouvintes nessas horas: "Você não se ajuda" e "Você precisa ser forte" ("Seja forte!").

Essas duas frases, ou qualquer coisa parecida,  fazem com que você fique mais distante dessa pessoa. Vai fazer com que ela até comece talvez a evitar você. Porque essas duas frases são aversivas. Estão colocando todo o problema nas costas delas mesmas, e não estão oferecendo praticamente solução alguma. Acrescentam problemas. Fazem com que elas se sintam culpadas e desamparadas. Procuraram ajuda e encontram alguém que lhes aponta o dedo na cara, dizendo que a culpa é delas. Isso não é ajuda, não é solução pra nada.

Tente ouvir a pessoa tentando descobrir mais profundamente o que está acontecendo. Tente buscar por determinantes do que está ocorrendo. Quanto mais você perguntar e tentar entender os detalhes, mais facilmente vocês dois encontrarão, talvez, algumas alternativas.

Quem está com dificuldades precisa se sentir à vontade para relatar o que está acontecendo, e essa pessoa somente irá se sentir à vontade se você demonstrar que aceita o que está acontecendo e o que ela sente. Se você for capaz de demonstrar que compreende por que essa pessoa está se sentindo assim (porque ela de fato tem os motivos dela para estar se sentindo assim) já é alguma coisa.

Então boa parte dos procedimentos relacionados a ajudar efetivamente alguém tem relação com a postura que você terá nessa interação com essa pessoa que está precisando de ajuda. É importante ter uma postura receptiva e não-punitiva. Quanto mais a pessoa se sentir à vontade mais profunda e verdadeiramente vocês dois (duas) mergulharão nas questões e nos problemas que ela está relatando.

Então não tem jeito: tem que escutar com amor, com aceitação, com paciência, com o espírito aberto para o que está vindo de quem fala de suas dificuldades e sofrimentos. No final das contas quem governa uma boa relação de ajuda é o amor, o amor bem feito, o amor no lugar certo, o amor com técnica, ou então é um conjunto de técnicas que no final das contas a gente até pode chamar isso de amor.

Sofrimento: não é útil nem enobrece

Se o sofrimento tem alguma função, função boa, é somente uma: facilitar a empatia, pois a tendência de quem não sofre, ou sofre pouco, é se dessensibilizar com o sofrimento alheio. Essa, pra mim, é a única utilidade do sofrimento. Para o restante dos sofrimentos prefiro pensar que são evitáveis ou inevitáveis.

Afirmar que o sofrimento enobrece faz um pouco de sentido para quem está no luxo, e vem sofrendo muito pouco nessa vida, e assim até se embruteceu. Não deve servir pra justificar sofrimentos dilacerantes, injustos e indecentes. Mas infelizmente  é mais para isso que esse tipo de afirmação acaba servindo mesmo, para naturalizar a opressão.


Bolsa Família

Quem é contra o Bolsa Família, além da falta de empatia ou desinformação, prefere a mendicância forrando as ruas de nosso país.


O pobre oprimindo o miserável

De vez em quando vou ao hipermercado mais perto de minha casa, e sempre é a mesma coisa. Quase que para cada fila dos caixas há uma pessoa (geralmente crianças) mendigando, pedindo para que paguem por algumas coisas que compraram.

- Isso aí é assim o dia inteiro. Esse pessoal não quer saber de trabalhar – disse categoricamente a operadora do caixa.

E é quase sempre também a mesma coisa: o pobre hostilizando o miserável, o pobre culpando o miserável por sua miséria. 

Para estragar meu domingo, retruquei:

- Mas a miséria e a mendicância vão aumentar muito. Enquanto a gente achar que é o pobre que tem de pagar a conta nesse país, a coisa ainda vai piorar muito...

E fui vomitando: 70% dos juízes ganhando acima do teto constitucional, quem ganha R$ 5 mil pagando a mesma alíquota de imposto de renda que alguém que ganha R$ 100 mil, Brasil campeão mundial de impostos indiretos (fazendo os pobres e miseráveis pagarem mais do que os ricos), reiterados perdões de bilhões em dívidas para grandes empresários, um dos maiores índices de desigualdade social do mundo gerando boa parte da violência urbana que enfrentamos, R$ 500 bilhões de sonegação de impostos por ano (que mais, que mais? tem muito mais)...

Resultado: minha verborragia ecoou no vazio, e conquistei a antipatia de quem estava por perto, dando uma estragada no pouquinho do final de semana que me restava...

Chorar faz bem?

“Chore que faz bem...”

É muito comum esse tipo de afirmação ou recomendação. Chorar, contudo, pode ter as mais diversas funções. Porém quando alguém assim se expressa geralmente está recomendando que a pessoa chore para desabafar, para diminuir a tensão e assim tenha um pouco de alívio em relação a seu sofrimento.

Entretanto existem também, para esse aspecto, contextos diversos. Há pessoas que relatam que geralmente se sentem piores após chorarem. Pois a expressão de uma emoção pode intensificar a emoção em questão. Ou seja: chorar pode, em alguns casos, intensificar a tristeza. Aí me lembro de muitos relatos de pacientes a me dizer que quanto mais choravam mais tinham vontade de chorar, e mais tristes ficavam.

Fora os contextos mais específicos: se a pessoa, por exemplo, chorar em público e isso implicar para ela em sentimentos de vergonha ou humilhação, chorar poderá então criar mais problemas e aumentar o sofrimento.

Portanto, chorar nem sempre faz bem...

Tuesday, February 06, 2018

Médicos humanizados

Em conversa por WhatsApp com um colega de trabalho, médico na UTI em que atuo, ele me escreveu assim, em nossas reflexões sobre um dos casos que atendemos:

"Muitos acham que a titulação e que vomitar um monte de artigos é o que tem mais valor. Eu não entendo que as coisas são assim. Ao longo do caminho aprendi certas coisas que guardo como bússolas: o melhor médico é o que se interessa pelo paciente, não o que sabe mais; melhor um médico razoável disponível que um excepcional ausente; de nada vale um tesouro no fundo do mar; em medicina o que é raro é raríssimo e o que é comum é comuníssimo; arte sem ciência é pobreza e ciência sem arte é barbárie; melhor um mal educado sincero que um bem educado hipócrita; desconfie sempre de quem lucra com seu ideal... etc, etc, etc."

E isso não é somente da boca pra fora. Ele demonstra isso em suas ações cotidianas. Infelizmente sinto que a maioria não compreende as coisas dessa maneira. Mesmo assim fico feliz em poder contar com alguns colegas que são capazes de compreender o que é de fato a humanização na interação com nossos pacientes e seus familiares.

Wednesday, January 24, 2018

Sou de parir a existência na beleza que explode aos meus olhos de saber que viver é, no êxtase, somente conquistar um paraíso que será eternamente esquecido. Um bom psicoativo mergulha a vida no êxtase de experiências sem fim, para coroar o que há de mais belo, nessa existência sem sentido, ou sem mim.
Gosto de trabalhar alguns efeitos de sentido, alguns efeitos poéticos, mas esses só saem na velocidade da mão, que elabora o canteiro de obras de uma existência em palavras, em rabiscos e montagens de loucura, para brindar o universo com a beleza da vida ou do infinito que existe entre eu e o mundo.

O psicoativo se dissolve no sangue da forma que tive quando brotei para o mundo minha primeira loucura em forma de palavras. Era um vulcão de casamentos inesperados de imagens e ideias a navegar na beleza das cores de minha aventura retórica.

Beijo técnico?

Ator/atriz de Globo que, em qualquer cena trivial de novelinha das 9 dá um beijo guloso, cheio de língua, não tem moral para condenar a prostituição, a qual é uma profissão como qualquer outra, e tem distância nula da atuação de qualquer ator que faz beijo guloso de língua, para depois ficar dizendo que foi um beijo técnico.

Corrupção e protofascismo


Discursinho contra a corrupção, atualmente, é um dos mais furados que já vi. Qualquer político que tem condições de chegar ao poder, vencendo a eleição presidencial, não é limpo. Não tem como, no sistema político atual, ter condições de chegar lá sendo limpo. E isso não vale somente para o Brasil, não. Isso também se encaixa perfeitamente, por exemplo, no sistema político norte-americano.

Nunca teve nada a ver com corrupção, desde quando se justificava que Maluf roubava, mas fazia. E nem terá nada a ver com corrupção enquanto não fizermos uma reforma política decente.

Os eleitores de Maluf adoravam aquela história de obras rodoviárias faraônicas e superfaturadas. Achavam que aquilo era fazer alguma coisa. A maioria tinha paixão por carros e achava o máximo poder botar seus carrões nas obras que Maluf havia construído.

Votar em Maluf não era muito diferente, simbolicamente, do que comprar algum modelo de automóvel muito potente e caro, e ficar exibindo isso como demonstração de poder. Maluf ostentava poder e riqueza privada, e seus eleitores também gostavam de ostentar poder, e de estarem associados a celebridades ou poderosos (de fato) que assim o faziam.

Agora, com o candidato protofascista, talvez não seja muito diferente. Não deixarão de votar nesse cara por ele ter se envolvido ou não com corrupção. Seus eleitores se identificam com sua imagem, que representa força e poder. A maior parte de seus leitores está mais fascinada pela possibilidade de haver o uso da força do que com honestidade. Querem ver pessoas, em massa, sendo punidas e presas, ou até mesmo linchadas em público. Querem a centralização do poder na figura mítica de um herói, o qual fará todas as limpezas que julgar como necessárias. Querem limpeza, em todos os níveis possíveis. 

Progresso para essas pessoas é: a manutenção de de alguns valores, fundados principalmente em preceitos religiosos, por mais arcaicos e inúteis que sejam; a construção de obras faraônicas (levantar prédios, construir estradas e investir em segurança, em poderio militar, bélico, em todos os níveis) e limpeza, em todos os níveis, a qual inclusive pode envolver a matança de muitas pessoas que para elas representam o Mal.

Concebem a si mesmas como pessoas práticas, mas na verdade são somente toscas, pois carecem e repudiam um nível mínimo de conhecimentos básicos em relação a direitos humanos, ciência, meio ambiente, biologia, etc. Repudiam os avanços científicos, mas não deixam de fazer uso de seus benefícios, e também repudiam o investimento em cultura. 

Enfim: repudiam a própria atividade reflexiva e o debate democrático. Gostam de mais ação e menos conversa, mas gostam de uma ação que é mais genuína e infantilmente retratada por filmes de ação. Esse pessoal ainda pensa e age como se estivesse dentro de um filme do Rambo.