Wednesday, December 07, 2016

Dicas de português

Em duas frases curtas, e geniais, algumas dicas de português e um pouco de humor:
"O mau, educado, não é bom."
"Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase."

Tuesday, November 08, 2016

Olho azul

Duas crianças aqui no condomínio onde moro fizeram comentários engraçados (ou até um pouco tristes, talvez) sobre a cor dos olhos de minha filha:

- Eu tenho inveja dela - disse um menino de 8 anos de idade.
- Nossa, por quê?

- Porque ela tem o olho azul. Tomara que mude...

- Eu queria ser ela - disse o outro, de 6 anos de idade.

- Como assim? Por que você queria ser ela?

- Ah, eu queria ter o olho azul. Eu nunca tive olho azul...

Maiêutica com crianças

A maiêutica é uma técnica fecunda, poderosa para a produção de conhecimento, e também muito divertida. Isso é facilmente observável na interação com crianças.

Ontem eu estava no parquinho do condomínio, com minha filha, e três crianças dialogavam como se fossem adultas: duas com 6 anos e outra com 9 anos de idade.

- Passou agora no Jornal Nacional: o Estado Islâmico invadiu duas cidades - dizia o menino de 6 anos.

- E quais cidades o Estado Islâmico invadiu? - perguntei.

- Invadiu duas cidades dos Estados Unidos.

- O que é o Estado Islâmico?

- Eles são terroristas!

- O que é terrorista?

- É gente que mata as pessoas.

Como fiz muitas, e outras perguntas além dessas poucas que transcrevo aqui, como se eu não soubesse absolutamente nada a respeito do que eles estavam conversando, o de 9 anos me indagou:

- Poxa, tio! Você não sabe nada!

Jogou um chinelo no chão e me perguntou o que era aquilo, e eu prontamente respondi que era um chinelo:

- Pô, pelo menos isso você sabe né, tio... Pelo amor de Deus!

- E por que o nome é Estado Islâmico? Se eles são terroristas e matam pessoas, o nome teria que ser Estado Matador, não?

Ficaram um tempo meio atônitos, sem conseguir me responder. O mais velho continuava intrigado com minha aparente ignorância:

- Poxa, tio, você faz cada pergunta...

Até que o menino de 6 anos teve um brilhante insight:


- É islâminico, tio, por causa de lâmina. Eles cortam as pessoas!

Wednesday, November 02, 2016

"Tá podre" (uma história do livro "Eu vou hipnotizar você...")

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Certa vez, em sala de aula, expondo os motivos pelos quais Freud havia abandonado a técnica da hipnose, dispus-me a fazer uma demonstração. Até aquele dia eu havia tentado inúmeras vezes, por anos a fio, mas sem sucesso. Disse aos alunos que era uma técnica muito cansativa e que era muito difícil hipnotizar as pessoas, que a maioria não era hipnotizável. Ou seja, eu estava não somente falando de minha experiência, mas também do que Freud havia relatado há cerca de um século atrás e dos dados científicos consolidados sobre suscetibilidade hipnótica. 

Eu havia aprendido os fundamentos com meu irmão mais velho, o dentista. E tentara, assim como ele, em vão, hipnotizar amigos e familiares. Não tínhamos qualquer reflexão ou concepção teórica sobre o assunto. Como ele havia sido uma excelente cobaia em meio aos dentistas com os quais fizera o curso de hipnose, alimentávamos a expectativa de que poderíamos obter os mesmos resultados com qualquer outra pessoa. Ele havia sido um excelente sujeito para a demonstração de anestesia hipnótica. Seu professor e colegas espetaram agulhas por todo o seu corpo. E esta é geralmente uma espécie de demonstração derradeira, a mais convincente. Uma coisa é fingir alucinações e delírios, outra, bem mais difícil, é a capacidade de continuar fingindo, mesmo diante de estímulos dolorosos. 

Havia, para nós, alguma realidade na hipnose. Porque, senão, Edu, bom cético que era, teria sido o primeiro a rejeitá-la. E pelo contrário, lá estava Edu sendo trespassado por agulhas em diversas partes de seu corpo. Dando seu valioso testemunho, prático e vivo, de algo fenomenal. 

Porém, saindo da dimensão de excelente sujeito para a hipnose que era Edu, a coisa ficava bem menos convincente. Era tentar hipnotizar, a quem quer que seja, e os resultados eram sempre bem mais modestos e frustrantes. Nesse aspecto, pelo menos, o determinante mais evidente não é técnica de indução hipnótica, mas sim o próprio sujeito que a ela se submete. Dispondo de sujeitos facilmente hipnotizáveis, basta pedir que se concentrem e todo o processo assim se desenrola. 

Mas, e se estes sujeitos, tidos como facilmente hipnotizáveis, não tiverem tido qualquer espécie de treinamento hipnótico? Iogues, por exemplo? O que dizer deles? Possuem outros métodos de concentração, os quais podem não ser exatamente os mesmos que nós ocidentais chamamos de hipnose. Ou poderiam ser vistos como fundamentalmente os mesmos? Se forem os mesmos, a hipnose não é a única via para se obter determinados estados de consciência. Neste caso, ela perde sua aura de técnica única, exclusiva, especial. Por outro lado, se os fundamentos forem os mesmos; ou seja, se tanto hipnose quanto ioga, por exemplo, possuírem os mesmos fundamentos técnicos, ela (a hipnose) não representa nada de novo e nem de especial também. 

Se é diferente, mas obtém os mesmos resultados que outra coisa já existente, porém mais simples e acessível, por que seria mais vantajosa? E se compartilha dos mesmos fundamentos técnicos, por que tratá-la como absurdamente diferente? Qual é a função de se fazer a mesma coisa que os outros e, contudo, dar um nome diferente? Sim, não podemos esquecer que existem histórias diferentes. Ioga e hipnose nascem em contextos totalmente diferentes e suas especificidades devem ser resguardadas. Porém, por outro lado, perceber semelhanças em seus fundamentos técnicos pode também, por meios comparativos, ajudar a compreender melhor estas práticas. 

Porém, não há como negar, tanto hipnose quanto ioga são muito mistificadas. A ioga está tradicionalmente mais próxima de práticas religiosas. A hipnose, por outro lado, volta e meia aparece e reaparece reproduzindo mitos dentro até mesmo do próprio universo científico. Chega com pose de ciência e quebra as pernas de muitos pesquisadores, expondo feridas metodológicas e confusões conceituais. 

O hipnotista ordena e o hipnotizado realiza o que é ordenado. Esta talvez seja ainda uma boa definição: pertinente, objetiva e simples. Ainda não é possível dizer exatamente o que se passa na cabeça dos hipnotizados. Se estão somente colaborando ou se há mesmo significativas alterações de consciência. Há teorias e evidências em ambas as direções. Ainda não há consenso científico. 

Por que Freud abandonou a hipnose? Este era o tema da aula que comecei a relatar no início. Vamos então aos motivos de Freud: 

1. A hipnose não mais servia aos seus objetivos específicos. Sua intenção era recuperar memórias esquecidas, recalcadas. Percebeu que a hipnose deixava os pacientes em um estado muito primário de funcionamento mental. Fantasias eram produzidas em profusão, o que facilitava a produção de falsas memórias. 

2. A hipnose tinha se transformado para Freud em uma técnica muito cansativa. Não tinha mais paciência para ficar repetindo comandos indefinidamente, com o objetivo de fazer com que adultos “dormissem”. Tinha dificuldade em hipnotizar todos os pacientes, além de não concebê-la como uma ferramenta eficaz em termos etiológicos. Ou seja, além de não servir ao seu propósito principal (a recuperação de memórias), era também enfadonha. 

Sua dificuldade em hipnotizar todos os pacientes é atestada pelas pesquisas de suscetibilidade hipnótica. Somente cerca de 15% das pessoas são facilmente hipnotizáveis. Para o restante, a maioria, é necessário mesmo uma certa dose de paciência. 

Minhas idéias sobre a hipnose, até aquele dia, naquela aula sobre a relação de Freud com esta técnica, era totalmente endossada pelos argumentos do pai da Psicanálise. 

“Mas, a hipnose, professor? Existe mesmo?”, perguntavam alguns alunos, mortos de curiosidade. 

“Vocês querem fazer um teste? Podemos realizar um teste. Quem se dispõe a ser sujeito de alguns testes?”, indaguei. 

Um aluno levantou a mão. Era um rapaz muito jovem. Tinha menos de 20 anos de idade. Cursava o terceiro semestre e sempre aparecia com perguntas ora muito suaves ora constrangedoras, muitas vezes ingênuas e até pueris. 

Fiz tudo o que recomendam os mestres e manuais da área, com paciência e perseverança. Em um determinando momento, depois de muito relaxamento, pedi para que ele me dissesse o que estava vendo. Disse que não via nada, que estava escuro. 

“Então acenda a luz”, sugeri, buscando estimular sua imaginação. 

“Acendeu” e começou a descrever onde estava. Estava em casa, lendo. Pedi para que me descrevesse tudo o que estava fazendo e onde estava. 

Passado um certo tempo, resolvi fazer alguns testes, sugerir algumas imagens e sensações. Em um determinado momento peguei um estojo de lápis, feito de borracha, e ordenei que o comesse, pois era uma maçã. O rapaz morde o estojo e o arremessa ao chão. Pensei: falhou novamente! Ele obviamente percebeu que não é uma maçã. Eu sabia! Eu e Freud, juntos, não poderíamos estar duplamente enganados. 

“O que houve?” 

“Tá podre!”, respondeu. 

Sim, para meu espanto e de todos os presentes, ele se comportava tipicamente como alguém hipnotizado. 

Quem observava, como costuma ocorrer neste tipo de situação, ficou perplexo. A partir deste momento, o entendimento do que pode ou não estar ocorrendo geralmente fica comprometido. Os eventos podem se suceder de modo inusitado. Algumas pessoas parecem perder o controle. Podem falar ou agir de modo bizarro. E é exatamente isso o que acho de interessante nas induções hipnóticas. 

“Quanto mais bizarra é uma experiência, mais proveitosa ela é”. Conheço esta frase, deste modo, há muito pouco tempo. Mas manifestações bizarras sempre me despertaram grande interesse. O diferente, o inusitado, abrem novas perspectivas. São rupturas de padrão, fluidez. Abrir-se para o que é estranho é parte importante de um processo de exploração que se expõe a novos horizontes, mesmo que ainda não dotados de sentido. 

Um colega meu dizia assim: “o ridículo move o mundo”. E sempre compreendi da seguinte maneira: agir sem medo de errar, de ser diferente. Assumir nossos próprios defeitos e deles tirar algum proveito. Daí meu apreço pelas formas inusitadas, pelo nonsense, pelo bizarro. Novas formas de expressão e, portanto, de compreensão também. Novas alternativas, brotadas da loucura. 

Dou valor ao insólito, ao bizarro, na proporção de uma crença que carrego há um certo tempo: a crença no poder da expressividade. As psicoterapias, de modo geral, e as artes, como um todo, possuem esta crença: expressar e, brincar, curam. A expressão é curativa. E o que seria expressar bem? Não seria esta a principal tarefa das artes, expressar melhor? Ou de formas alternativas, que possam abrir novos horizontes de compreensão e, portanto, de solução para uma infinidade de dilemas humanos? 

Vejo a hipnose como um tremendo recurso expressivo. Acerca disto, para mim, não há qualquer questão. Muito freqüentemente expressões inusitadas ou mais intensas são despertadas. Possui um significativo valor catártico. E a catarse, a purgação dos afetos, a qual é popularmente conhecida como desabafo, desempenha um papel muito importante na psicoterapia. Sem desabafo não há terapia. E as artes estão todas aí para nos ensinar a expressar melhor o que sentimos e ainda não sabemos colocar em palavras. E esta expressão pode se dar das mais variadas formas. 

Acredito nisto. Tenho um percurso em Psicanálise. A influência que ela absorveu do Romantismo diz o seguinte: a loucura, enquanto método, enquanto caminho, pode ser de grande valia. E o que é sua regra principal, a da associação-livre? Dizer tudo o que ocorre à mente, sem restrições, nem ponderações, do modo mais imediato e espontâneo possível. Isto tem nome: loucura, como método, como meio. Jamais pode ser feito fora de seu ambiente propício, onde o inusitado e o censurável não sejam acolhidos. A associação-livre é um legado romântico que Freud aproveita a favor de seus objetivos psicanalíticos. A loucura como meio (associação-livre), a razão e a saúde como fim. 

A paranóia freudiana de que nada é por acaso ou de que tudo, em termos inconscientes, tem um sentido, exige a loucura como um meio: deixar o inconsciente fluir. Permitir um pouco de loucura. Ela é o caminho para uma razão libertadora. Para saber melhor o que sentimos, ou o que nos move, é preciso soltar um pouco os bichos. É preciso viver, envolver-se, atuar, relacionar-se. Ou permitir, em sessão, que isto de alguma forma se manifeste. 

Naquele dia havia um funcionário da universidade a observar pelo vidro da porta tudo o que ali se passava. Comentava com algumas alunas que não acreditava em nada do que estava acontecendo, que tudo não passava de encenação. Terminei a sessão com o aluno e este funcionário adentrou a sala, dizendo que também queria ser submetido à hipnose. “Temos pouco tempo, somente cerca de quinze minutos. Mas podemos tentar...”, respondi. Ele topou. Pensei: vou pedir para que se recline na cadeira, para que fique na posição mais confortável possível, que procure dormir. Afinal estávamos praticamente no horário de almoço, um horário muito propício ao sono. 

Em um mesmo dia, duas situações novas e diferentes. Primeiro um diz que “tá podre” ao morder um estojo de borracha. E logo em seguida adentra a sala alguém que duvidava daquilo tudo, em tom desafiador. O que eu, por sorte, nem havia percebido. Senão nem tentaria nada, pois eu não tinha objetivo nenhum de provar nada, nem de defender a hipnose como uma técnica eficaz ou legítima. 

A sessão prosseguiu. E lembro, com ele, de ter feito algo parecido: pedi para que comesse um estojo ou coisa semelhante, dizendo que era um barra de chocolate. Ele fez tudo o que pedi. Mas não tive muita confirmação se somente obedecia ou se estava em um estado alterado de consciência. 

Quando terminamos, ele disse que havia sido uma experiência fascinante. Não tivemos tempo para conversar mais nada. Era o fim da aula. Fomos todos embora. Dias depois, uma aluna veio me contar que ao perguntar a ele, nos corredores, como fora a experiência, ele descreveu a ela que havia comido, durante a sessão, uma barra de chocolate. 

“Não. Ele te deu um estojo. Você ficou mordendo um estojo”, respondeu ela. 

“Que isso? Você tá louca. Não paguei esse mico não. Lembro bem, era uma barra de chocolate.” 

Ele tinha a firme convicção de que havia comido chocolate e não estojo. A aluna relatou isso em sala. Os alunos ficaram muito impressionados. E eu continuei sem entender nada. 

Que mecanismo é este? Duvidar, desafiar e em seguida dobrar-se ao espetáculo, à influência de outra pessoa? O que fez com que perdesse sua capacidade de oposição, de ver com os próprios olhos? De sentir por si próprio? Sentiu o que lhe foi ordenado (ou sugerido) sentir. Isto é de fato possível? Foi “hipnotizado” por mim. 

Ser hipnotizado, segundo algumas teorias que já li a respeito, pode tanto ser fruto de uma sedução quanto de uma opressão, de um medo. Tanto sedução quanto medo são hipnotizantes. Faz o sujeito agir e perceber como queremos. E no caso deste funcionário, o que aconteceu? O que foi determinante para que ele fosse dominado do modo como foi? A pressão do grupo? : “Colabore conosco. Veja e sinta o que estamos todos ordenando. Senão você será linchado”. Seria esta a mensagem implícita, inconsciente? Ou seria a imagem que ele tinha de mim, o efeito da pré-sugestão, da expectativa de que o hipnotista é infalível? 

A pré-sugestão, não podemos nos esquecer de seu poder, ela sim é infalível. Penso que muitos hipnotistas se iludem, ao pensar que possuem uma técnica infalível. Pré-sugestão é fundamental. Ela pode ser definida como todo o conjunto de sugestões que bombardeam o sujeito antes de qualquer procedimento. Está mais do que evidenciada, seja por pesquisa sistemática, seja de modo informal. Quanto maior a expectativa depositada no hipnotista de que ele possui uma técnica eficaz, fulminante e especial, maior a pré-sugestão. Assim, mais da metade do trabalho já está realizado. Muitos hipnotistas já fizeram este teste.

Anunciam ao público a apresentação de um “grande” mestre da arte da hipnose. E basta o sujeito a ser hipnotizado depositar bastante autoridade na figura do hipnotista, que este se transforma num grande mestre, independente de quem seja. Se o público acreditar não importa nem mesmo se há experiência na área ou não. Pensam, e dizem: é um grande hipnotista que veio da Europa, dos Estados Unidos, professor e um dos maiores conhecedores do assunto, e com certeza isto já desempenha um papel absurdo na indução. 

Basta pegar alguém que possua pelo menos a aparência de ser um grande hipnotista. Pode ser simplesmente um leigo. É muito interessante. Isto com certeza demonstra que a técnica não é o mais importante. É mais relevante o valor que as pessoas depositam no sujeito. Acreditar e confiar constitui a maior parte do processo. Autoridade vale mais do que técnica, habilidade ou conhecimento. E esta autoridade, mesmo que falsa, pode funcionar muito bem. 

Daí o fato de ser geralmente tão difícil desvincular a hipnose do ilusionismo, da enganação. Há profissionais que se apoiam totalmente nesse aspecto. Vivem praticamente da imagem de competência que nutrem diante de seu público ou clientes. Universo, muito geralmente, em que o parecer vale bem mais do que o ser competente. É o efeito placebo alçado à sua dimensão talvez mais elevada. 

Dias depois, eu uma outra professora, reparamos que aquele funcionário, tido por muitos como arrogante, era agora bem simpático e receptivo para com minha pessoa. 

“Ué, Adriano? Esse funcionário não é simpático assim com ninguém...”, indagou ela, um pouco espantada. 

“É verdade. Acho que foi a hipnose. É assim mesmo, depois que a gente hipnotiza, a pessoa fica apaixonada.”

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Sunday, October 23, 2016

Sonho com Edu, no Alasca

É incrível o nível de elaboração de muitos sonhos, seus detalhes e combinações inusitadas, e por vezes belíssimas. Os surrealistas muitas vezes buscavam alcançar esse estado de consciência para poderem produzir com mais fertilidade e criatividade, e isso faz todo sentido.
Há poucos dias, durante a madrugada, fui surpreendido com personagens inusitados e um cenário lindíssimo. Meio cômico, risível, ridículo ou brega, mas o fato é que estávamos filmando uma série americana no Alasca. Eu fazia parte da equipe de produção, não sei com qual função. Estávamos no verão, em uma casa no meio do nada, no meio da vida selvagem do Alasca, a qual dava os fundos para um lago estupendamente belo.
O personagem principal da série era muito sensível e tinha uma relação conturbada e profunda com o mundo, mas eu ainda não sabia exatamente quem ou como ele era.
- Olha lá ele, Adriano!, disse-me alguém da equipe, apontando para uma pessoa que estava há dezenas de metros, às margens do lago, contemplando sozinho a imensidão.
Fui me aproximando, e quando já estava a dois metros do grande e aclamado protagonista, ele olhou para mim, com o semblante sereno, e me fez um aceno silencioso de cabeça, com um sorriso bem discreto, suave, e voltou a contemplar a beleza da paisagem.
Era Edu, meu finado irmão...

Hipnose: a pobreza das evidências

Talvez um dos maiores problemas da hipnose seja a pobreza das evidências científicas. Ainda não sabemos o que é exatamente a hipnose. É um estado alterado de consciência, obtido por meio de uma técnica especial? Ou é somente um estado de maior concentração da atenção, o qual pode ser obtido pelos mais variados meios, tais como: ouvir e obedecer reiteradamente a sugestões simples; ouvir ou acompanhar uma narrativa, uma estória ou uma apresentação envolvente, a qual pode ser um filme, um livro, uma peça de teatro ou mesmo a pregação de um pastor fervoroso? Ou então esse estado de concentração poderia ser obtido também quando cantamos, dançamos, quando nos envolvemos um pouco mais profundamente com qualquer atividade que possa nos fazer esquecer um pouco do mundo à nossa volta...

Se o que chamam de hipnose pode ser obtido por meio dos mais variados procedimentos, e não depende de uma técnica específica, especial, por que continuar chamando isso de hipnose? Por que continuar acreditando que alguns poucos, os ditos iniciados, seriam os grandes condutores das alterações extraordinárias que prometem a preços exorbitantes?

E se desejamos provar que alguns comandos e sugestões reiterados ao pé do ouvido produzem alterações intensas no comportamento e nas sensações das pessoas, teremos de submeter esse procedimento a um teste chamado de teste placebo. Para se provar que uma técnica ou um medicamento é efetivo, eficaz, eles devem passar no teste placebo. Deve-se provar que são mais eficazes do que mero placebo, do que a mera crença na eficácia de uma substância inócua. Mas como provar que a hipnose é efetiva, eficaz, se ela é, por definição, uma espécie de placebo?

Em seu livro Snake Oil Science, Barker Bausell salienta que:

"A hipnose e o efeito placebo são tão intensamente dependentes dos efeitos da sugestão e da crença que é difícil imaginar como um controle placebo, com credibilidade, poderia ser concebido para um estudo sobre a hipnose."


Há dois grandes ramos de teorias e achados que divergem sobre o que seria a hipnose. Há as teorias de estado e as teorias de não-estado. Para as teorias de estado o estado hipnótico é um estado alterado de consciência, e a indução hipnótica é uma técnica especial que conduz a esse estado, o qual é capaz de produzir efeitos inusitados, e com grande potencial para a cura de diversos problemas de saúde. Para as teorias de não-estado o estado hipnótico não é um estado alterado de consciência, e portanto não é diferente de vários outros fenômenos de nossa vida cotidiana tais como: um alto de nível de concentração de nossa atenção ou um alto nível de envolvimento com nossos papéis e funções sociais.

Não há nem mesmo consenso científico quanto à definição do que seja a hipnose. Se o fenômeno não está nem mesmo definido, como é que podemos afirmar que existem comprovações de sua existência ou de sua eficácia para os mais diversos males humanos, como muitos hipnólogos gostam de afirmar? Nem sabemos se ela existe, ou se existe do que jeito que dizem que existe. O que dizer então da eficácia de algo que ninguém nem sabe definir?

Muitos praticantes ou apreciadores da área costumam citar um aspecto da hipnose, para o qual já haveria evidências científicas conclusivas: a questão da anestesia e analgesia hipnóticas.


A própria Psicologia, como ciência, tem muitos problemas de replicação. Imaginem então como é esse campo da hipnose. A pesquisa sobre hipnose padece de um volume muito maior de problemas em relação a replicação.
Theodore X. Barber (1927 - 2005) foi, com suas pesquisas, um dos grandes responsáveis por trazer a hipnose mais para perto do campo científico, conduzindo uma série de importantes experimentos nas décadas de 60 e 70, principalmente.


Em um de seus experimentos estabeleceu três condições para o procedimento de anestesia: nenhum tipo de intervenção, “anestesia” por meio de indução hipnótica e sugestões simples.

A sugestão simples era bem boba, bem básica: "Se você tentar imaginar que a água está agradável e tentar pensar que não está desconfortável, tenho certeza de que você será capaz de continuar imaginando assim e que não fracassará no teste".

A estimulação dolorosa, por sua vez, era feita por meio da imersão do antebraço em uma água salinizada, por volta de ser 0º C ou menos.

Os resultados são muito interessantes. Não houve diferença entre a indução hipnótica e a sugestão simples. Houve diferença entre esses dois procedimentos e a ausência de qualquer tipo de intervenção.

Um experimento como esse nos diz basicamente que, para se obter anestesia, não há a necessidade de indução hipnótica, de uma técnica especial que muitos chamam de hipnose, e isso portanto tira o foco da hipnose para esse tipo de procedimento.
Pelo que já pude ler dos textos de Barber, percebo esse achado como uma constante em vários de seus experimentos: a hipnose não é uma técnica especial, diferenciada, muito diferente de simples sugestões.

Agora, porém, o outro lado das evidências:

Em 1971, Martin Orne e Frederick Evans fizeram um experimento, intitulado "O hipnotizador desaparecido”, utilizando-se de dois grupos de sujeitos: altamente hipnotizáveis e simuladores. Realizaram, primeiramente, o procedimento de indução hipnótica padrão e os próprios experimentadores simularam então uma interrupção de energia. Retiraram-se, como se fossem à busca da solução de falta de energia elétrica, abandonando os sujeitos na sala.

O resultado é que, após um certo tempo, os simuladores abriram os olhos, pararam de representar e também deixaram a sala, ao contrário dos sujeitos altamente hipnotizáveis, os quais permaneceram prostrados em seus lugares e, somente muito mais tarde, e aos poucos, vieram a abrir os olhos, levantar-se e também sair.

Esse tipo de evidência pesa para o lado das teorias de estado, ou seja, para o lado de quem acredita que a hipnose é um estado especial, um estado alterado de consciência, pois esse tipo de resultado é uma evidência de que o sujeito hipnotizados não estão simulando e de fato, aparentemente, adentraram um estado de consciência muito diferenciado.

Então um dos grandes problemas é a pobreza das fontes independentes. São poucas as replicações existentes. Onde estão as replicações de experimentos como esses que foram citados, por meio de fontes independentes, realizadas por outros pesquisadores, em outros contextos? Se não existem estudos de replicação, não há a possibilidade de consenso científico, não há evidências conclusivas sobre o que é a hipnose. Portanto a hipnose continua sendo um fenômeno ainda muito mal definido, controverso, e que promete efeitos extraordinários. Isso funciona como um grande imã para charlatães e aproveitadores de toda espécie.

Para finalizar, não nos esqueçamos de uma frase que se tornou popular por meio do trabalho de divulgação científica de Carl Sagan: "alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias."

Duas leituras que recomendo:

Leandro Karnal e o vocabulário

No texto de hoje, de Leandro Karnal, ele lamenta um pouco como as pessoas tem se comunicado atualmente, que talvez faça falta um vocabulário mais rico.
Como quase sempre, ele consegue inserir alguns exemplos muito engraçados. Menciona que um vocabulário mais rico talvez ajudasse a resolver alguns conflitos que ocorrem em nosso cotidiano. Se em um desentendimento no trânsito, por exemplo, um motorista xingasse de sacripanta, e o outro não entendesse (ou talvez se identificassse com alguém que prima por um vocabulário mais variado ou exótico), isso talvez funcionasse como um elemento de atenuação da agressividade:
“Visualizem a seguinte cena: numa rusga de tráfego, um motorista grita: sacripanta! um infrator que lhe atravesse a rota. Imaginem se o atingido pela pedrada vocal redarguisse que o insulto é estapafúrdio? Após um sagrado silêncio, talvez, poderiam se entreolhar com certo afeto parnasiano.”
É engraçado, é bonito de se ler, mas vamos traduzir. A sugestão dele é muito boa e acho que vale o esforço em também adotá-la. O que ele propõe para resolver um desentendimento no trânsito, por exemplo, é o que alguns linguistas chamam de contracomunicação. Esta, contudo, também pode ser realizada por meio de refinada ironia ou nonsense. Você pode gritar o início do Hino Nacional, o verso de alguma canção, algum mantra indiano ou coisa parecida.
Karnal também afirma que houve uma perda de nuances na comunicação, a qual se deve em boa medida ao atual cultivo de um vocabulário menos vasto:
“A modernidade asfaltou a estrada vocabular. Nada mais é engastado. Foram assassinadas as nuanças.”
Alegação exagerada, pois essa perda de nuances também pode ser resolvida com o auxílio de adjuntos adnominais, adverbiais, conjunções e mais variados elementos sintáticos de auxílio: "talvez, um pouco, porém, próximo de, em boa medida, na minha compreensão, sinto que, me parece que..."
Resumindo: nosso simpático professor de história da Unicamp propõe uma remediação nostalgista para as imprecisões de expressão e a resolução de alguns conflitos cotidianos, que tem como principais efeitos colaterais o aumento da opacidade e a diminuição da agilidade na relação entre falante e ouvinte.
Não irá resolver, querido professor. Na minha compreensão há formas mais práticas e eficazes para produzir os efeitos que você deseja.

Texto de Karnal:

Saturday, October 15, 2016

Assertividade e ética

"Se a mais vil das criaturas me esbofeteasse, eu não lhe retribuiria a ofensa, mas lhe pediria perdão por havê-la provocado" (Emily Bronte).

Em uma única frase, nessa frase acima, Emily Bronte me ensinou muitas coisas. Se não me ensinou literalmente, me sensibilizou para que eu me abrisse para novos aprendizados, os quais tem sido muito valiosos pra mim, há alguns anos.

Essa frase chama a atenção para uma questão fundamental em termos de interações humanas: quais são as melhores formas para resolvermos nossos conflitos interpessoais e qual é o papel da assertividade nesse campo?

Etimologicamente o termo assertividade remete a asserção. Quem profere asserções profere afirmações. O termo assertivo é muito utilizado no sentido da capacidade de se expressar com clareza, firmeza, convicção. A assertividade é uma forma de comunicar-se de modo eficaz. Contudo para a Psicologia esse termo tem um significado especial. Diz respeito à capacidade de se comunicar de modo transparente e integral, conseguindo fazer com que seu interlocutor seja capaz de ouvir, sem muitas barreiras ou defesas. É um modo de comunicação eficaz porque permite a fala e a escuta em uma interação eminentemente empática.

Para, de modo mais ágil, poder facilitar a sua compreensão desse conceito, eu diria que a assertividade está relacionada à capacidade de ser sincero sem ser ríspido, e de ser polido sem ser fingido. Comunicações assertivas são comunicações transparentes, sinceras, claras, porém extremamente empenhadas em serem isentas de acusações e hostilizações.

É um tipo de comunicação que não visa agredir ou denegrir. Seu objetivo é a compreensão mútua e até mesmo alguns níveis de conciliação. É uma forma de comunicação não violenta, pacifista, sem ser passiva, já que é transparente, sincera. Coloca as cartas na mesa, mas com polidez, com muito jeito e muitas vezes, porque não assim dizer: com amor.

E surge então uma questão importante: como ser sincero sem ser ríspido e ser polido sem ser fingido? Como ser assertivo? Obviamente que algumas instruções gerais costumam não ser suficientes. É sabido que treino é fundamental. Na vivência das mais variadas situações de conflito, e (com orientações adequadas) na tentativa de ser mais assertivo, é que vamos aos poucos nos tornando mais assertivos. Isso contudo não elimina a existência e a utilidade de algumas orientações gerais, as quais muitas vezes são enunciadas ou sugeridas, em boa medida, em algumas frases brilhantes, como essa de Emily Bronte.

Na tentativa de ser sincero sem ser ríspido, e ser polido sem ser fingido, um dos procedimentos mais utilizados é a expressão em primeira pessoa, e sempre tentando se concentrar nos sentimentos vivenciados na interação. É importante não acusar, julgar, condenar ou agredir o interlocutor. Esses comportamentos provocam repulsão na pessoa com quem estamos interagindo: afastam. Fazem com que ela tente fugir da situação ou entre em conflito mais aberto conosco. Fazem com que as pessoas se armem. Não aproximam, permitindo escuta, compreensão mútua. Vamos a alguns exemplos:

Caso 1
Acusatório e hostilizador (pouco assertivo): "Você é um sem vergonha de um mentiroso. Você não vale nada..."

Assertivo: "Você disse que estava no escritório, e depois fiquei sabendo que não estava. Fiquei muitíssimo triste e irritada com esse seu comportamento, por não ter me falado a verdade".

Caso 2
Acusatório (pouco assertivo): "A maneira como você me compara com seu pai é cruel e ridícula".

Assertivo: "Quando você me compara com seu pai, eu me sinto muito desvalorizado, preterido."

Caso 3
Tenta desqualificar, humilhando (pouco assertivo): "Pra você nunca nada está bom. Ninguém te tolera, ninguém aguenta conviver com você..."

Assertivo: "Você ontem disse que eu não me dedico às crianças. Fiquei muitíssimo chateado com isso, pois nos últimos 10 dias de férias me dediquei quase que integralmente a elas".

Algumas pessoas irão se precipitar, e afirmar que no caso 1 a pessoa (em tese, assertiva) estaria passando a mão na cabeça de um safado. Contudo, uma postura menos assertiva e mais agressiva somente faria talvez sentido se houvesse plena convicção da necessidade de um rompimento, por exemplo.

Outras pessoas também costumam estranhar bastante a frase de Emily Bronte, e afirmam que dessa maneira você pode simplesmente somente gratificar o comportamento agressivo da outra pessoa, já que estaria se rebaixando frente a um ato claro de violência, o qual deveria na verdade ser combatido também com o uso da força.

Contudo, ao demonstrar para o agressor que de alguma forma compreendemos sua impulsividade ou sua irritação, temos muitas vezes a oportunidade de quebrar um ciclo de agressões mútuas com diversos danos em potencial. Temos, por meio da empatia, a oportunidade de fazer com que o agressor observe seus próprios comportamentos. Esse procedimento costuma ser classificado como sendo a reflexão de sentimentos. Funciona como se estivéssemos colocando um espelho na frente do agressor, com o qual ele tem a oportunidade de se observar melhor, de observar melhor seus próprios comportamentos e talvez seus possíveis danos.

Fora o fato de que o ato de se desculpar, nesses contextos, não diz respeito a assumir por completo que estamos errados em um determinado conflito. Não está sendo dito ao agressor que ele agiu corretamente quando nos deu um tapa na cara. Isso obviamente não foi correto, e certamente haverá um momento mais propício para que isso seja dito, ou para que o próprio agressor, com a manifestação na nossa empatia, venha a perceber que agiu de modo errado.

É lugar-comum, mas não custa reiterar: violência gera violência. Gentileza gera entendimento, compreensão, consciência; portanto: mais gentileza.

E cada vez venho me convencendo mais de uma coisa: sempre, diante de internações mais turbulentas, vale mais a pena reagir com tristeza e ponderação do que com agressividade ou violência.

A tristeza nos faz sofrer, e cobra um preço alto, mas no final das contas o saldo, com ela, é mais benéfico do que com a violência. A tristeza costuma doer bastante, e pode nos torturar por um bom tempo na terra devastada de nossos afetos, após alguma ingratidão ou hostilização. Mas a tristeza tem uma capacidade de organização das ideias e do mundo de interações turbulentas entre as pessoas da qual a agressividade nem chega aos pés.

A tristeza tenta compreender o que ocorreu, e vai aos poucos digerindo as feridas. A precipitação em ser agressivo nos faz correr riscos desnecessários, podendo causar danos irreversíveis: repele, destrói e compreende pouco, deixando muitas vezes um rastro sanguinolento de culpa e medo, um deserto completo onde antes havia amor.

A tristeza semeia a cura, e a violência somente sabe semear a morte. Sei que é preciso morrer, mas não todo dia. E, sinceramente, não é um mundo em que as pessoas constantemente se destroem umas às outras o qual quero habitar ou construir.

Acho fundamental deixar que a tristeza faça seu trabalho de botar as coisas no seu devido lugar, para depois podermos mostrar ao outro as razões dela. A violência fecha muitas oportunidades e janelas para o amor e para a vida. A tristeza é um movimento de se fechar em si mesmo que deixa muitas boas janelas abertas.

Friday, October 14, 2016

O quadrante de Benatar e o antinatalismo



Essa imagem retrata o quadrante proposto por David Benatar, filósofo, professor da Universidade da Cidade do Cabo, autor do livro “Better Never to Have Been” (“Melhor nunca ter existido”).

Segundo esse autor o advento da consciência insere, na existência, uma desvantagem lógica em relação à inexistência. Para os seres vivos que têm consciência, os seres sencientes, seria melhor não existir, pois o sofrimento predomina sobre o prazer. Se o sujeito x existe, a presença de sofrimento é ruim (-), e a presença de prazer é boa (+). Logo o saldo é zero. Porém, na inexistência, inexiste o sofrimento, e isso é bom (+), assim como inexiste prazer, e isso não é ruim (0). Ou seja: a inexistência é, em termos lógicos, uma vantagem em relação à existência.

Esse é, porém, somente o quadrante lógico que compara a existência com a inexistência. David Benatar tenta demonstrar mostrar que, além de haver essa vantagem lógica da inexistência, há também, durante a própria vida, o predomínio do sofrimento. Ou seja: há mais sofrimento do que prazer na vida. A vida senciente é essencialmente uma vida de sofrimentos, uma vida ruim.

Confesso que ainda não fui capaz de ler todo seu livro, mas pude ouvir algumas conferências e debate dos quais ele participou. Pelo que percebi, ele tenta demonstrar que há um predomínio do sofrimento na existência dos seres sencientes. Desso modo a consciência seria então um erro enorme da natureza, o qual vem produzindo mais danos do que benefícios, o qual vêm produzindo uma história repleta de sofrimentos no transcorrer da vida em nosso planeta.

Viver é basicamente sofrer, e muitos de nós continuamos vivendo em função de algumas migalhas, de algumas miragens de prazer. E, para Benatar, nem faz muito sentido afirmar que sofrimento e prazer são os dois lados de uma mesma moeda, pois há muitos exemplos de seres que têm uma vida preenchida, repleta de sofrimento, com pouquíssimos espaços para experiências de prazer. Encontramos muitos desses exemplos, muito facilmente, em animais de criação para o consumo humano. Boa parte, senão a maioria desses animais (criados e mortos aos bilhões todos os anos) costumam ter uma vida que é predominantemente sofrida. Portanto, nesses casos, sofrimento e prazer não são os dois lados de uma mesma moeda: trata-se de uma moeda que tem somente uma face, a face do sofrimento.

O surgimento da consciência criou o prazer, porém criou o sofrimento, e esse pesa muito mais na conta. A existência consciente (senciente) seria uma existência eminentemente cruel e injusta. Portanto procriar, ou colocar mais seres conscientes nesse mundo, seria imoral, antiético. Na perspectiva de Benatar ninguém pediu para nascer, e ninguém merece nascer, porque essa vida é fundamentalmente ruim. Ele é então um filósofo que propõe a perspectiva antinatalista.

Nessa perspectiva não há muito o que fazer com quem já nasceu. A perspectiva de Benatar é calcada em valores. Ele deixa claro de que o antinatalismo não é uma perspectiva niilista, de que nada tem valor. Para esse autor os seres vivos conscientes não devem morrer, e ele não faz também uma apologia ao suicídio, pois acredita que intentar para essa possibilidade gera mais sofrimento do que continuar tentando viver da melhor forma possível. Desse modo seria então mais ético, para quem já está vivo, tentar não procriar para não perpetuar o legado da miséria dos seres sencientes.
Sim, Benatar acredita que seria melhor nós, seres sencientes, nunca termos existido. Seria melhor que o planeta continuasse sendo dominado por seres não sencientes, desprovidos de sistema nervoso, como bactérias ou plantas, por exemplo.

Ele acredita que os únicos que poderiam escolher a inexistência, a qual acabaria sendo alcançada de forma paulatina, por meio da não procriação, seriam os seres humanos. Mas a minha objeção a essa perspectiva é que isso não resolverá o problema da existência do sofrimento na natureza, pois esse sempre esse existirá. Desde que surgiu a vida consciente, há centenas de milhões de anos, que existe o sofrimento imperando (se é que ele de fato impera), e isso não deixará de existir com a extinção da espécie humana. Aliás, talvez a própria espécie humana é que seja uma possibilidade mais consistente da minoração significativa dos sofrimentos das espécies sencientes que existem e ainda existirão.

Concordo que a espécie humana por enquanto tem mais contribuído para aumentar esse sofrimento. Isso pra mim é um fato. Porém há ainda a possibilidade de que nossa espécie contribua significativamente para a diminuição dos sofrimentos do planeta como um todo. Há inclusive um filósofo britânico, David Pearce, o qual afirma que no futuro, com uma série de desenvolvimentos tecnológicos, teremos a real possibilidade de acabar com todo e qualquer sofrimento, de todas as espécies de seres vivos, do planeta.

Finalizando, reitero: a proposta antinatalista não resolve o problema do sofrimento entre as espécies sencientes de nosso planeta, nem impede o surgimento futuro de novas espécies humanas, as quais novamente imporiam ciclos de sofrimentos mais intensos para si mesmas e a outras espécies. Por ora é assim que concebo: prefiro me filiar a propostas transumanistas-hedonísticas como a de David Pearce.

Thursday, October 06, 2016

Ter filhos não traz felicidade

Antes de ler, um alerta: não estou fazendo apologia ao antinatalismo, ok?

A verdade é dura, muito dura: as pesquisas mostram que ter filhos não traz felicidade. Pelo contrário: a qualidade de vida costuma piorar, e a sensação de bem-estar psicológico, de felicidade, também. E é muito comum muitas pessoas pensarem que são exceção, e não são:

Então você espera que seus filhos cuidem de você na velhice?

Se você, meio até sem querer, pensa que tendo filhos, eles irão cuidar de você na velhice, ou se você tem, nem que seja um pouco inconscientemente, alguma ideia similar a isso, você muito provavelmente está se baseando em uma ilusão ridícula.
Há um ditado que diz o seguinte: uma mãe cuida de dez filhos, mas dez filhos não cuidam de uma mãe. Tenho testemunhado, tanto em minha experiência profissional quanto pessoal, a solidão de muitas pessoas idosas, e carentes de diversos cuidados, e quem menos cuida dessas pessoas geralmente são os filhos. Sobra para outros familiares: irmãos, tios, primos; ou até mesmo para algumas pessoas que não tem relação de parentesco alguma com esses idosos: alguns vizinhos ou amigos.
Se deseja que alguém cuide de você na velhice é melhor fazer um bom plano de aposentadoria.

Para as mulheres que querem ter filhos

Você quer ter filhos? Então pense muito bem se você terá condições de criar esse filho sozinha. Sim, isso infelizmente vale principalmente para as mulheres. Às vezes a impressão que tenho é que a família "tradicional" brasileira, a mais comum, é a família monoparental com as mulheres carregando todo o peso da criação dos filhos nas costas, com os homens simplesmente sumindo do mapa.
Criar um filho, de modo responsável, é uma tarefa hercúlea, nada fácil, muito pesada mesmo, sacrificante, e o que mais vejo são mulheres arcando com isso sozinhas e muito desassistidas, principalmente nas classes sociais com menor poder aquisitivo.
Não consigo sentir de outra forma: ter filhos, de modo geral, em nossa realidade brasileira, é um fator crucial de desempoderamento para as mulheres, com consequências nefastas as mais variadas.
É impressionante a quantidade de mulheres que aparecem no CAPS com transtornos mentais em virtude do peso de terem sido abandonadas por homens, após terem tido filhos. É uma caixa de Pandora.
Corrijam-me, por favor, se eu estiver errado...

A vivência do choque no CAPS

Hoje no CAPS fizemos uma vivência com orações religiosas. Mas esta não é a vivência que eles mais gostam. A vivência que mais gostam é a vivência do choque.
Nessa vivência eles se unem, geralmente em trios, se segurando uns nos braços dos outros, de forma que se faça um contato bem grande pele a pele, e ficam simulando um choque, gritando e pulando. Para quem não entendeu ainda como é exatamente a posição em que eles ficam: é uma posição corporal em que as duas pessoas que seguram, quando estão em dupla, como se uma estivesse chacoalhando a outra.
Mas, veja bem: é irônico e muito simbólico que pacientes com transtornos mentais, pacientes psiquiátricos, tenham como a brincadeira que eles mais gostam uma brincadeira que simula que todos eles estão tomando choque.
Há um simbolismo muito forte na reforma psiquiátrica, na luta antimanicomial, em relação a choque, em função de como choques foram utilizados no passado, no contexto manicomial, por meio dos eletrochoques.
Era uma violência, uma violação, que há alguns anos, em nosso grupo de teatro, se transformou em brincadeira...

Orações e religiosidade no CAPS

Sou agnóstico. Ou seja, simplificando: não acredito em nada, e não me comprometo com qualquer tipo de crença religiosa. Não acredito na existência de Deus nem na sua inexistência.
E hoje, no CAPS (em um grupo de terapia pela fala que coordeno), houve muita oração. Sim, oração: ficou parecendo um templo, uma igreja.
O paciente que assim quisesse se sentava numa cadeira, no centro da sala, e os outros, que também assim quisessem, se aproximavam e tocavam esse paciente com as mãos, sendo que cada um ficava à vontade para proferir suas orações, sua fala, da forma como achasse melhor.
Não entrarei em maiores detalhes sobre como o grupo chegou a esse estágio para não expor nenhum de meus pacientes. Mas posso lhes dizer que hoje os efeitos dessa prática, dessa vivência, em especial, foram muito interessantes.
Um dos pacientes estava muito resistente, tanto ao grupo quanto à minha pessoa. Simplesmente se negava à comunicação verbal, com expressões faciais de profundo desprezo em relação a todos os presentes. Dei a oportunidade para que todos se expressassem sobre como se sentiam em relação a esse tipo de interação.
A sensação que de certo modo imperava era a de que essa pessoa estava com uma raiva muito grande de tudo e de todos nesse mundo. Havia um abismo imenso, e muitíssimo incômodo e constrangedor, entre o grupo e esse paciente, o qual já faz parte desse grupo há mais ou menos dois anos.
Senti que não seríamos capazes de avançar, e de quebrar um pouco o gelo, se continuássemos somente nesse tipo de interação verbal, mais convencional. Tenho percurso, experiência, com outras formas de intervenção e resolvi então propor essa vivência, a qual já tínhamos realizado várias vezes em outros grupos, tais como o grupo de teatro ou o grupo de expressão total, ambos atualmente não mais ativos, mas que foram também coordenados por mim.
No início todos tocavam a paciente, que estava no centro, e oravam em completo silêncio. Observando as expressões de cada um, percebi que um deles estava muito compenetrado. De modo bastante sutil fui até ele e sussurrei que ficasse completamente à vontade, e que inclusive soltasse a voz, se assim o desejasse.
Ele se empolgou e passou a orar em voz alta e com bastante vigor. Indaguei se mais alguém gostaria de fazer sua oração em voz alta, e ninguém se manifestou. Então, feito isso, houve o momento em que cada um, individualmente, abraçou o paciente em questão.
Nessa hora me emocionei e não contive minhas lágrimas. Aliás, não fiz esforço algum para contê-las. Quando todos já tinham lhe dado um abraço, fui na direção desse paciente e também o abracei, pedindo-lhe desculpas por qualquer coisa que eu pudesse ter feito, ou falado, que o tivesse machucado. Nos abraçamos e choramos, juntos, abraçados.
Portanto fiz questão de mostrar ao grupo que eu estava emocionado. Também verbalizei sobre o que estava sentindo naquele momento e por quê
Foi uma intervenção muito difícil. O paciente estava muito resistente e por vários momentos pensei que o caldo fosse entornar, que esse paciente fosse me hostilizar. Isso causaria danos ao nosso precioso vínculo.
Quando isso ocorre não há como não nos entristecermos. Quebra de vínculo com quem a gente cuida, com quem a gente ajuda, com quem a gente ama, é sempre doloroso. E psicólogo que não cuida, que não interage com seus pacientes com carinho, com muito carinho, com amor, está fazendo tudo errado. Então a quebra de vínculo é sempre dolorosa, porque é uma quebra muito similar a qualquer quebra de vínculo que existe entre duas pessoas que se amam.
Enfim, é isso o que eu queria dizer aqui pra vocês: que hoje de manhã, esse momento, essa ocasião de minha interação com esses pacientes, foi emocionante. E continuo tranquilamente sendo agnóstico.

A UTI e o sofrimento

Em maio de 2010, quando comecei a trabalhar na UTI, Pedro (nome fictício) já lá residia há cerca de seis meses. Tinha esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença degenerativa, progressiva, cuja sobrevida é de mais ou menos 5 anos após o diagnóstico.
Os pacientes com ELA vão perdendo todos os seus movimentos, inclusive a capacidade de respirar sem a ajuda de aparelhos. Porém sua consciência costuma permanecer intacta. É a doença da qual padece Stephen Hawking, cujo tempo de sobrevivência, após seu diagnóstico, está completamente fora da curva. Ou seja: ele tem sobrevivido muito além da média, devido ao emprego dos maiores avanços tecnológicos disponíveis, além de cuidados intensivos extremamente onerosos e completamente inacessíveis à maioria da população.
Pedro somente movimentava os olhos, e era assim que se comunicava, por meio de sim ou não, com a equipe. Seu olhar para a direita significava sim. Seu olhar para a esquerda significava não. Pedro não tinha nem mesmo o controle de suas piscadas. Era incapaz de piscar voluntariamente. Então restou-lhe somente esse movimento ocular da direita para a esquerda e vice-versa.
Como seu olhar para a esquerda era mais evidente, como o movimento para esta direção era mais evidente, mais fácil de ser executado, optamos por escolher essa direção como sendo o não, já que o sim seria simplesmente, muitas vezes, a ausência de qualquer movimento. Pedro tinha uma dificuldade muito maior de movimentar seus olhos para a direita.
Cheguei devagarinho e bem aos poucos fui conhecendo Pedro. A comunicação somente com o olhar é de uma intensidade afetiva singular: é um pouco hipnotizante, e pode produzir um pouco a sensação de que estamos sendo tragados pela interação. Não é comum adentrar o universo de pessoas desconhecidas, olhando-as fixamente. É uma outra forma de começar a conhecer alguém, de se vincular, de se afeiçoar. E é bem diferente dos olhares que trocamos com algum animal de estimação, pois esses não sabem ou não aprenderam, em sua história, a se comunicar de modo tão específico quanto um ser humano.
Meses depois Pedro era capaz de se comunicar comigo, ao ponto de conseguir expressar uma série de desejos que compunham a infinitude de suas carências naquele contexto cruel.
Por meio de uma tábua de letras, com as frequências das letras, da língua portuguesa, em ordem decrescente, eu construía, juntamente com Pedro, letra por letra, palavra por palavra, do que ele desejava comunicar.
Houve um dia em que ele me comunicou que queria jogar Meg...(?). As primeiras três letras eram essas aí. A partir das primeiras letras eu sempre tentava descobrir quais seriam as outras. Mas como eu não me lembrava de nenhum jogo cujo nome começasse com essas três letras, então perguntei para algumas pessoas da equipe:
- Pessoal, que jogo é esse, que começa dessa maneira: Meg? Meg... o quê?
- Mega Sena! - gritou alguém lá no fundo.
- É isso, Pedro? Mega-sena? - perguntei-lhe, por mais de uma vez, como sempre fazia, para poder me certificar da resposta certa.
Pedro não mexia seus olhos. Ou seja: isso significava que ele queria jogar na mega-sena!
E quase toda semana ele me passava os números que queria jogar na mega-sena. Em algumas vezes fui eu mesmo à lotérica para fazer os jogos que ele queria. Em outras ocasiões, quando não podia ir à lotérica, telefonava para seus familiares, para que eles fizessem os jogos pra ele.
Na segunda vez em que ele me ditou os números percebi que eram os mesmos números da primeira ocasião.
- Uai, Pedro, são sempre os mesmos números?
Respondeu com um discreto sinal de sim. E depois, conforme eu perguntava, foi confirmando que já vinha apostando nesses números há vários anos.
- Mas rapaz, agora que você tem uma conexão direta com o além, que você pode perguntar para o além em qual número jogar, por que ainda continua a apostar nesses velhos números? - brinquei, e ele sorriu...
Continuamos interagindo, nos comunicando, e após algum tempo ele me falou que gostaria de tentar apostar em novos números.
Quando ele me ditou esses novos números deixei que se alimentasse em mim uma suspeita bizarra e bem pouco provável: agora nesse estado de completa imobilização, ele tinha contato direto com alguma outra dimensão que lhe forneceria números muito prováveis de serem sorteados. Pedro estava muito próximo de realidades que eram completamente inacessíveis a nós mortais...
E se ele captasse os números corretos? Se isso ocorresse sairiam reportagens nos noticiários televisivos do mundo todo. Ele não somente ficaria rico. Seria notícia no mundo inteiro. Eu me regozijava em pensar sobre isso tudo, apesar de francamente acreditar que não passavam de fantasias com as quais eu simplesmente me divertia.
Cheguei inclusive a comunicá-lo sobre essas minhas fantasias e pudemos rir bastante juntos.
No final das contas a conta para Pedro teve um saldo imensa e inaceitavelmente doloroso. Nunca chegou nem perto de acertar na mega-sena, e sua capacidade de movimentação dos olhos logo se degenerou. Cada dia que passava Pedro tinha mais dificuldades para se comunicar com movimentos oculares. Portanto a frequência de suas comunicações se tornou bem mais irregular. A regularidade maior, agora, era a do choro, era a expressão muito frequente de que seu sofrimento era intenso, constante, e simplesmente irremediável.
Pedro ficou internado em nossa UTI durante três anos e meio, dos quais somente no primeiro ano é que foi capaz de se comunicar de maneira regular e frequente. Posteriormente, durante cerca de dois anos e meio, a regularidade, a rotina de Pedro, em suas tentativas de comunicação conosco, era o choro, a expressão de sofrimento intenso e constante.
Pedro, essa pessoa inclusive da qual não posso mencionar o verdadeiro nome, foi o ser humano que mais vi sofrer nessa vida. Eu nunca havia testemunhado tanto sofrimento, e tanto desprezo, desdém, de uma sociedade mais sensível à manutenção de algumas tradições notoriamente antiéticas e desumanas, do que preocupada com os sofrimentos evitáveis, e inaceitáveis, de seus próprios membros.
Nesses três anos e meio em que esteve internado na UTI pediu inúmeras vezes para morrer. Sofrimento eterno, e sem alívio: eis a definição do padecimento no inferno e o que Pedro viveu durante 3 anos e meio.
Não ganhou e, via de regra, nem nunca ganharia na mega-sena. Ganhou, em três anos e meio, a constante negação, do estado brasileiro, de seus direitos sobre seu corpo e sua vida. O governo investiu, nesses três anos e meio, contra a vontade de Pedro, cerca de 3 milhões de reais em seu sofrimento intenso, e completamente inaceitável por qualquer ser humano capaz de um mínimo de empatia e compaixão.
Pedro não ganhou na mega-sena. Não recebeu uma fortuna com a qual iria possivelmente resolver muitos dos seus problemas e de seus familiares. Mas o estado brasileiro investiu uma pequena fortuna em seu sofrimento atroz: quantia que ultrapassa a soma dos rendimentos de todos os seus familiares, durante toda a sua vida.
E essa tem sido infelizmente a realidade de muitos brasileiros no final de sua vida...

O pior tipo de funcionário público que existe

O pior tipo de funcionário público que existe, muitas vezes, é aquele que serve somente seu chefe e não a população.
Resumindo: é um puxa-saco, interesseiro, ganancioso e politiqueiro que vive de fazer conchavos e atacar quaisquer colegas que estejam isolados politicamente, seja por rivalidade ou sadismo, mesmo se esses colegas estejam trabalhando arduamente para oferecer a melhor assistência à população.
Mas é aquela história: gente que somente se alia a quem é forte existe em tudo o que é lugar, e é muito importante sempre ficar atento com esses tipinhos existencialmente medíocres.

Reuniões de trabalho

Reunião de trabalho? Com mais de 5 pessoas? E que não é deliberativa? Fuja para as colinas! É perda de tempo. É caldeirão para cozinhar, para fomentar rivalidades e rancores. É desculpinha esfarrapada de quem não quer trabalhar, de quem adora joguinhos políticos podres, ou então mais uma forma obscena para cultivar seu próprio narcisismo em exercícios ridículos de oratória.

A polidez - em complemento a um texto de Leandro Karnal

O texto de Karnal no link abaixo:


E eis também a assertividade: o constante esforço da polidez sem fingimento e da sinceridade sem rispidez.
Mas, a título de complementação, vamos também um pouco de Comte-Sponville, em sua obra, o “Pequeno tratado das grandes virtudes”:
“As boas maneiras precedem as boas ações e levam a estas.”
(...)
“A polidez é como uma moral do corpo, uma ética do comportamento, um
código da vida social, um cerimonial do essencial. “Moeda de papel”, diz Kant, mas que é melhor do que nada e que seria tão louco suprimir quanto tomar por ouro verdadeiro; uns “trocados”, diz ele também, que não passam de aparência de virtude, mas que a tornam amável. E que criança se tornaria virtuosa sem essa aparência e essa amabilidade? A moral começa, pois, no ponto mais baixo – pela polidez -, e de algum modo tem de começar.”
(...)
““A polidez”, observava La Bruyère, “nem sempre inspira a bondade, a eqüidade, a complacência, a gratidão; pelo menos dá uma aparência disso
e faz o homem parecer por fora como deveria ser por dentro.” Por isso ela é insuficiente no adulto e necessária na criança. É apenas um começo, mas o é. Dizer “por favor” ou “desculpe” é simular respeito; dizer “obrigado” é simular reconhecimento. É aí que começam o respeito e o reconhecimento.”
(...)
“A polidez é anterior à moral, e a permite. “Ostentação”, diz Kant, mas moralizadora. Trata-se, primeiro, de assumir “os modos do bem”, não, claro, para contentar-se com eles, mas para alcançar, por meio deles, o que eles imitam – a virtude – e que só advém imitando-os. “A aparência do bem
nos outros”, escreve ainda Kant, “não é desprovida de valor para nós: desse jogo de dissimulações, que suscita o respeito sem talvez merecê-lo, pode nascer a seriedade”, sem a qual a moral não poderia se transmitir nem se constituir em cada um. “As disposições morais provêm de atos que lhes são semelhantes”, dizia Aristóteles. A polidez é essa aparência de virtude, de que as virtudes provêm. Portanto, a polidez salva a moral do círculo vicioso (sem a polidez, seria necessário ser virtuoso para poder tornar-se virtuoso) criando as condições necessárias para seu surgimento e, mesmo, em parte, para seu pleno desenvolvimento.”
(...)
Um grosseirão generoso sempre será melhor do que um egoísta polido; um homem honesto descortês melhor do que um crápula refinado. A polidez nada mais é que uma ginástica de expressão, dizia Alain; é dizer claramente que ela pertence ao corpo, e, é claro, o coração ou a alma é que prevalecem. Inclusive, há pessoas em que a polidez incomoda, por causa de uma perfeição que inquieta. “Polido demais para ser honesto”, diz-se então, pois a
honestidade às vezes impõe ser desagradável, chocar, trombar. Mesmo honestos, aliás, muitos ficarão a vida toda como que prisioneiros de suas boas maneiras, só se mostrando aos outros através da vidraça – nunca totalmente transparente – da polidez, como se tivessem confundido de uma vez por todas a verdade e o decoro. No estilo certinho, como se diz hoje em dia, há muito disso. A polidez, se levada por demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças grandes bem-comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos usos e às conveniências. Faltou-lhes a adolescência, graças à qual nos tornamos homem ou mulher – a adolescência que remete a polidez ao irrisório que lhe é próprio, a adolescência que está pouco ligando para os usos, a adolescência que só ama o amor, a verdade e a virtude, a bela, a maravilhosa, a incivil adolescência! Adultos, eles serão mais indulgentes e mais sensatos. Mas, enfim, se é absolutamente necessário escolher, e imaturidade por imaturidade, é melhor, moralmente falando, um adolescente prolongado do que uma criança obediente demais para crescer – é melhor ser honesto demais para ser polido do que polido demais para ser honesto!
O saber-viver não é a vida; a polidez não é a moral. Mas não quer dizer que não seja nada. A polidez é uma pequena coisa, que prepara grandes coisas. É um ritual, mas sem Deus; um cerimonial, mas sem culto; uma etiqueta, mas sem monarca.”