Sunday, July 21, 2019

Edu compadecido

O realismo de alguns sonhos é impressionante. 

Sonhei com meu irmão, morto há 15 anos, chorando muito sofridamente por compaixão à minha mãe, em 1956 – 14 anos antes dele mesmo ter nascido. E nesse ano, em 1956, ela tinha 9 anos de idade. 

Tinha perdido o pai no ano anterior e trabalhava como empregada doméstica em troca somente de comida (escrava doméstica, convenhamos).

Pior, o sofrimento dele, por compaixão ao sofrimento dela, em 1956, 14 anos antes dele nascer, era maior do que o sofrimento dela aos 9 anos de idade, enfrentando o mundo sozinha e trabalhando em troca somente de comida.

E eu no sonho, com compaixão dele, faço um pouco o papel de advogado do diabo, tentando convencê-lo de que aquela criança tenha sido talvez uma criança feliz.

Isso tudo, para ser acordado, no meio da madrugada e, um minuto depois, me dar conta de que esse meu irmão, tão absurdamente presente nesse sonho, não existe mais. Se foi desse mundo, definitivamente triste e por conta própria, há 15 anos...

Anteontem ele estaria completando 43 anos de idade.

Janeiro de 2013

A compaixão - André Comte-Sponville

Gosto muito do que André Comte-Sponville escreve sobre a compaixão, no "Pequeno tratado das grandes virtudes":

“Compartilhar o sofrimento do outro não é aprová-lo nem compartilhar suas razões, boas ou más, para sofrer; é recusar-se a considerar um sofrimento, qualquer que seja, como um fato indiferente, e um ser vivo, qualquer que seja, como coisa. É por isso que, em seu princípio, ela é universal, e tanto mais moral por não se preocupar com a moralidade de seus objetos – e é aí que ela leva à misericórdia. É sempre a mesma assimetria entre prazer e sofrimento. Simpatizar com o prazer do torturador, com sua alegria má, é compartilhar sua culpa. Mas ter compaixão por seu sofrimento ou por sua loucura, por tanto ódio nele, tanta tristeza, tanta miséria, é ser inocente do mal que o corrói, e recusar-se, pelo menos, a somar ódio ao ódio. Compaixão de Cristo por seus carrascos; de Buda pelos maus. Esses exemplos nos esmagam? Por sua elevação, sem dúvida, mas é assim que a percebemos. A compaixão é o contrário da crueldade, que se regozija com o sofrimento do outro, e do egoísmo, que não se preocupa com ele. Tão certamente quanto esses são dois defeitos, a compaixão é uma qualidade. Uma virtude? O Oriente (em especial o Oriente budista) responde que sim, e a maior de todas, talvez.”

Wednesday, June 12, 2019

REVÓLVER NA BUNDA

A flexibilização da posse de armas tem me feito lembrar de algumas coisas bizarras, muito irresponsáveis, e bastante perigosas, que vivenciei ou testemunhei, principalmente no âmbito familiar, antes do Estatuto do Desarmamento, em 2003.

Lembro-me que com 4 ou 5 anos de idade eu já atirava com as garruchas de meu pai, com ele me ajudando a segurar a arma. A minha lembrança era de que as garruchas dele, de cano curto, nas quais iam cartuchos bem grandes, eram capazes de fazer imensos estragos em tijolos ou em qualquer tipo de barreira aparentemente bem resistente. O tiro era um evento bastante explosivo, com um som muito estrondoso e sempre com um imenso estrago em seu alvo. Era uma demonstração de força, de masculinidade, para a qual desde muito cedo já éramos constantemente impelidos, acompanhada das mais diversas e conhecidas expressões, tais como "homem não chora", "vem aqui se você for homem", "isso é coisa de macho", etc...

Morávamos na periferia, em um conjunto habitacional, cujas casas originalmente tinham 33 metros quadrados, compostas somente por quarto, sala e cozinha. Sendo que moramos nessa casa, com esse tamanho, com essa configuração, até meus quatro anos de idade. Então, durante um bom tempo, meus pais dormiam no quarto, no qual também havia o berço de meu irmão caçula (Cako), que era bebê, e eu e o mais velho, Edu (dois anos e meio mais velho que eu), dormíamos na sala, em um único colchão de solteiro, no chão.

Quando meus pais se mudaram para esse bairro havia, no terreno, somente essa casa, sem qualquer tipo de muro ou portão, separando-a das casas vizinhas e da rua. E assim era a maioria das casas da rua e do bairro. Imagino que meu irmão mais velho devia ter somente alguns meses de vida. Contudo, passado um pouco mais de um ano, Edu já andava com facilidade e minha mãe começou temer que ele corresse para a rua e fosse, por exemplo, atropelado. Ela conta que foi uma batalha muito grande junto ao meu pai para conseguir construir um muro que separasse a casa da rua. Ele sempre alegava que não tinha dinheiro, e no final das contas ela acabou descobrindo que ele tinha dinheiro guardado mais do que o suficiente para construir um muro e colocar o portão.

Então aquele casal, que sempre teve uma relação muito conflituosa, desde quando namorava, tinha um início de casamento também muito turbulento, com muitas brigas, e essa era mais uma delas, para que ele botasse a mão no bolso, e fizesse um portão e um muro com o objetivo de proteger seu filho pequeno. O filho que, segundo minha mãe, ela resolveu que ia ter em função do conselho de sua sogra, a mãe do meu pai:

- Dá um filho pra ele, que ele acalma...

E assim ela imaginava que ele talvez deixasse de ser tão mulherengo, começasse a chegar mais cedo e sóbrio em casa, sem aquele cheiro de álcool.

Em 1976 quando eu tinha de três para quatro anos de idade, depois de uma breve separação conjugal, minha mãe impôs a condição de que meu pai parasse de beber, para que eles voltassem a ficar juntos, e deu certo: meu pai aceitou e conseguiu cumprir à risca esse acordo durante oito anos.

Creio que esses 8 anos tenham sido os mais pacíficos do casamento deles. Meu pai, além de ter parado de beber, praticamente não escondia mais dinheiro algum, e com isso foi possível fazer uma boa reforma na casa, a qual possibilitou a construção de uma garagem para dois carros, aumentar o tamanho da sala, construir mais um quarto e ainda um quarto de despejo no fundo do terreno.

E nada disso tem relação com armas, aparentemente, porém a casa tendo tornado uma casa bem maior, com mais cômodos, com um quintal e com muros que a circundavam, se transformou em um espaço interior maior, portanto com mais possibilidades de esconderijo para ladrões, por exemplo.

Eu me lembro muito bem das várias noites em que meu pai ouvia algum barulho que lhe fosse suspeito, se levantava com sua garrucha de dois canos em punho, e ia até o quintal para averiguar o que estava acontecendo. Levantava, somente de cueca, com a garrucha na mão, e sumia no meio da escuridão.

Essa garrucha ficava do lado de sua cama, dentro de um saco, e não me lembro de nenhum de nós com curiosidade de ficar manipulando aquilo o tempo todo, ou achando que podia usá-la sem a permissão dele, inclusive porque ele era bastante rigoroso conosco em função de qualquer coisa que fizéssemos que alterasse até mesmo a posição em que ele tinha deixado seus pertences.

Houve uma época inclusive em que ele se tornou bastante metódico nos castigos corporais que nos aplicava. Tinha uma grossa vara de marmelo, envernizada, que era especificamente utilizada para nos punir em caso de algum ato que ele julgasse como transgressor. Quanto maior a transgressão, maior era o número de varadas que recebíamos com força controlada e metódica nas pernas, na parte de trás das coxas. Quando nós três recebíamos conjuntamente esse tipo de castigo depois ficávamos competindo para ver quem estava com os maiores vergões.

Em minha casa então, desde quando éramos pequenos, havia: essas garruchas; algumas espingardas pica-pau, que eram armadas pelo cano, com inserção de pólvora e chumbos; zarabatanas estilingues e arcos e flechas. Posteriormente, já em minha adolescência, tínhamos também: arcos-balestra; revólveres 765, 38 22, 32; espingardas Winchester; espingardas de pressão CBC, Rossi, tanto de cano longo como de cano curto; espingardas de pressão automáticas que disparavam 80 tiros seguidos, da marca Fionda e a extremamente potente Urko 3; vários tipos de armas de brinquedo, algumas praticamente idênticas a uma arma real e coleções de facas e canivetes. Acho que meu irmão mais novo, com 12 ou 13 anos, já tinha uma coleção de facas e canivetes.

Nos finais de semana, quando íamos passear em algum rancho ou chácara de conhecidos, meu pai levava algumas dessas armas para se divertir. Em uma dessas vezes, quando eu tinha por volta de 5 anos de idade, tentei armar sozinho uma espingarda de pressão, a qual exigia um pouquinho de força no final, para que se criasse a pressão necessária para o tiro, e ela fosse engatilhada.

Contudo, com 5 anos de idade eu não tinha força suficiente. Após muito esforço o cano acabou escorregando de minhas mãos, e retornou rapidamente à sua posição original, atingindo minha testa exatamente com a parte da mira da arma, a qual era relativamente pontiaguda. Isso fez com que houvesse muito sangue, e meus pais ficaram bastante atônitos a imaginar que eu tinha tomado um tiro na cabeça. 4 ou 5 pontos fecharam a ferida, cuja cicatriz tenho até hoje em minha testa.

Lembro-me também de que, por volta dessa idade, ou até mesmo mais novo, de ser comum irmos a algum lugar descampado, para atirarmos flechas para o alto. Nós crianças atirávamos essas flechas para o alto segurando o arco com os pés, mirados para cima, puxando as cordas com as mãos. E assim eu contemplava com bastante admiração a imagem de uma flecha subindo, até quase desaparecer e retornar muito velozmente ao chão, no qual se fincava com bastante profundidade.

E obviamente havia um risco grande de uma flecha dessas se extraviar, cair em algum outro lugar e poder ferir seriamente ou matar alguém. Mas eu estava ali, participando daquilo tudo, me divertindo, como bem cabia a uma criança daquela idade, sem nem mesmo me dar conta dos riscos, e somente hoje consigo entender que havia riscos e que aquilo era talvez algo muito perigoso.

Quando eu tinha 4 anos de idade, meu irmão mais velho já tinha 6 ou 7 anos, e ele já brincava sozinho com dardos de adultos. Certa vez ele estava arremessando seus dardos em um alvo, e eu passei correndo em sua frente. É bizarro: um dos dardos acertou minha cabeça, e ficou preso ao couro cabeludo. Eu chorava e gritava muito, enquanto minha mãe retirava o dardo que estava fincado em meu couro cabeludo.

Eu poderia ter sido atingido, por exemplo, nos olhos, tanto com o dardo, quanto com o cano da espingarda. Uma dessas espingardas poderia ter sido acidentalmente disparada e, com um tiro tão forte quanto o de uma Urko 3, alguém poderia ter morrido.

Felizmente nenhum de nós morreu ou ficou seriamente ferido, e me lembro somente de um único disparo acidental, já em nossa adolescência, de uma picapau, nas mãos de Edu, que disparou para cima, fazendo um rombo nas telhas de amianto da varanda dos fundos de casa.

Edu também, há mais de 30 anos, quando tinha uns 17 anos de idade, teve uma discussão comigo, enquanto estava com uma Urko 3 na mão, e em um momento de raiva apontou-a para mim e me fez correr por debaixo de mesa e para todo lado com aquela espingarda apontada para mim, ameaçando me dar um tiro. Fiquei apavorado e inconformado com aquele ato de covardia. Foi uma sensação horrível.

Meu pai, com suas armas, principalmente suas espingardas de chumbinho automáticas, que podiam atirar 80 chumbinhos, um seguido do outro, sem recarga, matou inúmeros animais, de diversas espécies. Cako, meu irmão caçula, chegou a matar um ou outro animal. Edu, meu irmão mais velho, durante sua adolescência, também matou inúmeros animais, para depois se transformar em uma pessoa completamente diferente, que até se compadecia excessivamente de tudo quanto é sofrimento nesse mundo.

Uma vez apontou a Urko 3 para uma pomba, em um fio de alta tensão, e antes que ele atirasse arremessei um pedaço de cabo de vassoura, na esperança de que ela voasse para longe. O pedaço de pau passou longe da pomba, e ele a abateu. Então, em tom triunfante, olhando para mim e para seus amigos, anunciou, dando risadas:

- Adriano, o salvador da natureza!

E uma outra lembrança que tenho, de 1994 ou 1995, era a de que meu pai estava com uma quantidade grande de revólveres em sua casa. Nós três (eu, Edu e Cako), todos já com mais de 20 anos de idade, achávamos aquela quantidade de revólveres um exagero. Mas não ficávamos muito surpresos, porque meu pai era mesmo uma pessoa muito exagerada, em muitas coisas. Quando gostava de alguma coisa, acabava colecionando ou cultivando em excesso.

Novamente, bizarro. Uma vez cheguei em sua casa, e fui me sentar no sofá, e por debaixo da almofada do sofá senti que havia alguma coisa pontuda, me incomodando. Tirei a almofada, e era um revólver.

Não foi sem motivo que, tanto eu quanto meus dois irmãos, quando assistimos aos Simpsons pela primeira vez, logo associamos Homer à figura de meu pai.

Essas foram algumas de minhas lembranças bizarras em relação à convivência que eu e minha família tivemos com armas, anteriormente ao Estatuto do Desarmamento.

E muitos de vocês devem estar se perguntando porque estou simplesmente narrando uma série de eventos bizarros que ocorreram em minha vida e de minha família, relacionados a posse de armas, anteriormente ao Estatuto do Desarmamento.

A questão é que estamos observando várias coisas bizarras desde as últimas eleições, creio que a principal delas sendo a eleição de Bolsonaro para presidente e a eleição de inúmeros de seus correligionários, que apresentam constantemente pautas e discursos bastante tresloucados, assim como um grande número de pessoas de sua equipe, que vem falando e prometendo as mais variadas sandices. Então por que não posso aproveitar e contar um pouco de minha história e algumas histórias bizarras que eu mesmo vivenciei, que talvez comecem novamente a fazer parte do cotidiano dos brasileiros?

Wednesday, May 29, 2019

Na face sangrenta do cotidiano, de horas pesadas, que não passam, agora permito que meu corpo seja levado pelos rios mortos de minha alegria, a desembocar na escuridão de quem já se rendeu.

Monday, April 29, 2019

As tentativas de suicídio aumentaram?

Há atualmente no CAPS uma percepção generalizada de que houve um aumento significativo dos casos de tentativas reiteradas de suicídio e automutilação entre adultos jovens. Aparentemente uma quantidade maior de pacientes com esse perfil tem vindo ao CAPS em busca de ajuda.

Em termos gerais não acho muito difícil de compreender, ou de acreditar que tenho hipóteses plausíveis sobre o que está acontecendo. O suicídio é hoje um tabu muito menos incisivo do que era há cerca de 30 ou 40 anos, quando as pessoas não conversavam sobre isso, e quando a maioria talvez nem mesmo tinha a menor ideia de que isso pudesse ser feito. 

Eu mesmo, pessoalmente, há cerca de 30 anos, tinha um bloqueio enorme em relação a qualquer coisa que pudesse se relacionar a isso. Eu sentia o suicídio como alguma coisa sobre a qual simplesmente era proibido até mesmo se pensar a respeito. Havia, nos grupos sociais com os quais eu convivia, uma carga negativa muito grande relacionada à possibilidade de se fazer algo desse tipo.

Quando algo deixa de ser tabu há a possibilidade de prevenção de vários casos, mas há também uma maior aproximação (do que antes era considerado tabu) de muitas outras pessoas que muitas vezes nem estariam pensando sobre essa possibilidade.

Com o desenvolvimento social penso que muita coisa deixa de ser tabu. Isso é bom, porque aumenta o leque de opções que as pessoas têm. Contudo, no rol destas opções há também a opção de dar cabo da própria vida.

Outra coisa que também facilita demais o comportamento suicida é a diminuição de uma vida comunitária consistente, que é muitas vezes um efeito colateral do aumento cultivo da individualidade. Esse é um sinal dos tempos atuais. As pessoas então com frequência se veem isoladas, se sentindo muito solitárias em ter que dar conta de uma série de coisas que anteriormente eram muito mais compartilhadas no seio da família ou da comunidade. Como os laços comunitários e familiares estão mais diluídos, a tendência é que o comportamento suicida ocorra com maior frequência.

Fora o fato de que existe o feedback positivo: quanto mais tentativas existirem, mais pessoas terão modelos de comportamento suicida, e mais pessoas inspirarão umas às outras para tentar o autoextermínio.

Isso sem falar em toda a questão da psicopatologização da vida cotidiana, e de como isso acaba implicando em um contexto que ainda trata tudo isso dentro da esfera biomédica, e com todas as consequências relativas a atestados e licenças médicas, por exemplo. Ou seja: a concepção de que existe doença, e de como isso se reflete no comportamento das pessoas que passam assim a conseguir também uma maneira de interagir com o mundo por meio de tentativas de suicídio e automutilação. Não nos esqueçamos: se um comportamento existe, e perdura, é porque tem função.

Portanto, no contexto sociocultural em que vivemos, tentar ou ameaçar um suicídio é algo que gera um efeito significativo no mundo, nas pessoas. Tentativas de suicídio e automutilação geram consequências, geram mudanças na realidade de quem assim se comporta. Coisa que talvez há 50 anos não fosse assim tão clara ou até mesmo possível.

E em relação ao fato das taxas de suicídio serem de modo geral mais altas nos países ricos do que nos países pobres, penso que para isso há a contribuição significativa de alguns fatores, tais como:

- Maior secularização da sociedade: que contribui para o enfraquecimento das religiões, as quais possuem forte papel de coesão e coerção social em direção à homogeneização do comportamento, com consequente pressão para a formação de tabus que ajudam a prevenir o suicídio. Isso também ajuda intensificar o individualismo, e este, na minha percepção, possui relação com o aumento de taxas de autoextermínio.

- Maiores níveis de industrialização, os quais possuem associação com o aumento de doenças inflamatórias crônicas, cuja correlação com a incidência de alguns transtornos mentais é algo verificado por uma série de estudos.

- Mais acesso a meios, devido a maiores níveis de industrialização, que por si só dispõem uma variedade maior de produtos e opções, e um poder de compra maior. Além de existirem mais meios para tal, associa-se a isso o fato da população ter mais capacidade de adquirir esses recursos.

Thursday, April 25, 2019

Planejamento urbano e saúde mental

Possivelmente uma mudança em termos de planejamento urbano, com o objetivo de aumentar os níveis de bem-estar psicológico, seria a de fazer tudo o que fosse necessário para que as pessoas realizassem mais atividade física e se encontrassem mais nas ruas, intensificando-se assim também a vida comunitária. Então penso que deveria haver mais ciclovias, parques, espaços de lazer, centros culturais, esportivos, de atividades e de convivência, feiras ao ar livre e praças. 

O hábito que as pessoas tinham no passado, nas cidades do interior, de estarem com frequência sentadas, durante a noite, em frente às suas casas, conversando com seus vizinhos ou então reunidas nas praças, tornava a vida certamente mais saudável. 

Lembro-me inclusive da prática do foot, quando as praças ficavam lotadas, com as pessoas dando voltas em torno dela. Imagine que era boa parte da população dessas cidades, reunida na praça, andando constantemente, contornando toda a sua área. Era a oportunidade constante de caminhada e encontro com várias pessoas. Pura festividade e espírito comunitário. Assim fica muito mais fácil ser feliz.

Sunday, April 21, 2019

Minha conversa onírica com Bolsonaro

- Ah, mas o Lula não gosta do Bolsonaro não. Você vê que ele trata bem, que não fica falando mal, mas a gente sabe que ele odeia o Bolsonaro.

É disparatada, muito deslocada e atrapalhada essa fala. Mas foi isso o que ouvi essa noite, em uma conversa informal e tranquila, na qual as pessoas ficam à vontade para falar tudo o que pensam, sem muita restrição. E eu ouvia isso de alguém que claramente apresentava várias deficiências de formação.

Essa pessoa não compreendia o mínimo do que era a ação política em um regime democrático, de que os adversários políticos, nesse contexto, não são inimigos. Essa pessoa não compreendia que não se trata de se gostar ou não de tal pessoa, que no campo político-institucional as coisas não se dão, nem devem se dar, nesses termos, que simplesmente não se trata disso. Essa pessoa não compreendia essas e mais uma série de outras coisas básicas da vida, como um todo. Como muitos dizem: era uma fala de tiozão.

Mas aí de repente eu me dei conta da encrenca quando percebi quem estava falando isso pra mim. Era um ambiente um pouco festivo, e eu já tinha me esquecido que estava conversando ali, descontraidamente, há quase uma hora, com uma autoridade, de quem não fazia o menor sentido dizer o que estava dizendo. E quando eu de repente me dei por mim, olhando para aquela autoridade proferindo tamanhas asneiras, fiquei assustado, muito assustado. Sabe quem era a pessoa? O próprio, era o próprio Jair Bolsonaro quem me dizia aquilo, ontem à noite.

Me despedi e saí dali assustado, pensando que ninguém acreditaria que eu tinha ouvido tamanha sandice, tamanha asneira, tamanho disparate, da boca do presidente da república. E depois eu fiquei pensando em nossa conversa, em como ele era equivocado, como tinha dificuldades para articular as ideias, como era uma pessoa limitada, e até tive uma gota de compaixão.

Consegui, por alguns instantes, me compadecer de seu profundo despreparo, de sua inocência, de sua lerdeza de raciocínio, de quanto aquilo parecia mostrar para mim que eu ali na verdade conversava com alguém que estava doente, em processo de demenciação.

Era o curso da vida seriamente destruindo com os neurônios de um ser humano e, com isso, destruindo com sua própria vida e dignidade, e eu podia ali não somente discordar e lamentar tantos profundos equívocos (principalmente quando vindos de uma autoridade, de alguém com tanto poder), mas eu podia também me compadecer por aquele ser humano em estado de decrepitude física e mental (principalmente mental).

Era a senilidade se expressando de de forma cruel, porque destruía com a capacidade intelectual da pessoa em questão e assim, consequentemente, também com sua dignidade. Isso demandava um mínimo de respeito. E eu pensava assim: “O tempo desse sujeito já passou. Ele está no fim. Daqui a pouco será tudo pó. Não faz o menor sentido resistir com força ou bradar contra alguém assim”.

Um outro lado em mim, porém, também queria gritar pra todo mundo ouvir: “Vejam só com quem acabei de conversar e o tamanho das sandices e equívocos que acabei de ouvir! Acordem! Vocês, que votaram nele, acordem! Não percebem o que está acontecendo? Vocês não percebem que colocaram no poder o que há de mais ultrapassado, equivocado e decrépito?”.

Mas aí me dei conta de que eu não poderia sair por aí dizendo que havia conversado com o presidente da república e ouvido tais absurdos. E minha principal preocupação não eram possíveis processos judiciais por difamação. Eu pensava que seria antiético de minha parte divulgar o que alguém, que confiou em mim, havia me confidenciado em privado. Imagina, o cara tinha manifestado apreço por minha pessoa, ao ponto de ficar à vontade e mostrar o quanto era limitado e equivocado, e eu iria sair por aí divulgando isso? Iria sair por aí revelando o quanto ele havia mostrado para mim que era fraco e patético de dar pena?

Eu caminhava pelas ruas e sentia que isso seria, além de deslealdade, uma grande covardia. Eu poderia fazer de tudo para, depois dessa conversa, tentar demonstrar o quanto o presidente era bizarramente equivocado, principalmente em seus discursos e falas públicas. Mas jamais poderia revelar o que ele havia me dito em uma conversa informal e privada, em tom de confissão, como alguém que se revela a um amigo. No final da conversa ele me deu um abraço, me olhou nos olhos com um olhar senil e aparentemente carinhoso, e me disse:

- Adriano, gostei de conhecer você, rapaz! Ele é meio boiola assim, mas é um cabra muito gente boa, não é, Dudu? Hehehe... Apareça mais vezes por aqui! O Palácio da Alvorada é portas abertas pra você! Quando quiser é só dar um toque! Fala lá com a assessoria do Carlinhos e vem!

Pois é, eu conversei com o presidente da república essa noite. Entretanto, foi somente um sonho, enquanto dormia, um sonho ruim, um sonho que somente traduziu o que sinto e penso sobre quem foi eleito em 2018 e agora governa nosso país. E às vezes fico pensando se tudo isso não é um pesadelo do qual uma hora ainda acordaremos. E espero que, quando acordarmos, já não seja tarde demais...

Wednesday, April 17, 2019

Paraíso ou inferno dos tolos?

Imagine que alguém sofra de um ciúme patológico. O cônjuge é fiel, um santo, mas equivocadamente o ciumento pensa constantemente que está sendo traído. Sofre constante e intensamente em função de seu equívoco. Eis o inferno dos tolos: conceber o pior cenário possível, nunca saber o que de fato está ocorrendo, quando tudo na verdade é uma benção. 

Mas existe também o paraíso dos tolos. Há, equivocadamente, convicção e segurança de que o outro é fiel, quando na verdade é o contrário.

Então, o que é pior: o inferno ou o paraíso dos tolos? Não sejamos tolos: obviamente que é o inferno. Tolice por tolice, fiquemos com o paraíso. 

Conclusão: se você é tolo, é melhor ser otimista. Se você não sabe o que as coisas são, ou o que está acontecendo, é melhor ser otimista. Neste caso o otimismo é o colírio, o adoçante dos tolos. Porque torna a tolice muito menos amarga.

E é também por isso que o otimismo vende mais. Porque é a tolice quem com mais frequência dá as cartas.

Thursday, April 04, 2019

O pior ano de minha vida

Em 1985 e 1986 (dos 12 anos e meio aos 14 anos) sofri intensamente com sintomas obsessivos, compulsivos, de ansiedade e de depressão, e me recuperei, completamente. E, dentro dos parâmetros atuais de classificação psiquiátrica, eu certamente teria sido classificado como alguém padecendo de algum ou de alguns transtornos mentais.

Ou seja, já tive transtorno mental, com os sintomas acima mencionados e, depois de mais um menos um ano em sofrimento intenso, entrei em remissão, a qual se prolongou e foi, aos poucos, se transformando em recuperação, em recuperação completa. Ou seja: cura.

Durante cerca de um ano tive em média uma crise a cada dois meses e, sempre depois de uma crise, eu prometia para mim mesmo, com todos o meus esforços, que não mais passaria por aquele vexame, por aquela situação extremamente vergonhosa e embaraçadora a qual, em minha concepção, estava causando um mal-estar enorme em minha mãe e em minha família. Quem mais sofria era eu mesmo, mas perceber que aquilo se alastrava para meus familiares era um sofrimento a mais em meio a tanta dor.

Minhas obsessões eram quase sempre compostas por pensamentos ruins, que me eram muito aversivos, que é o que ocorre com a grande maioria das pessoas que sofre com obsessões. Eu era acometido por imagens de coisas ruins, muito ruins, acontecendo comigo e com pessoas que amava, e as compulsões eram como pequenos rituais de neutralização das obsessões, que pareciam ter força de maus agouros. E é isso mesmo que costumam ser as compulsões, para quem sofre com elas.

Meu sentimento era o de que aquelas obsessões eram extremamente ridículas, bizarras e vergonhosas. No início eu impliquei com o movimento involuntário de piscar os olhos, e não conseguia mais fazer as coisas direito, porque eu não conseguia deixar de pensar em meus olhos.

Depois comecei a imaginar que eu havia vendido minha alma ao diabo, como se houvesse algo em mim que fizesse isso, contra a minha vontade, mas me enganando o tempo todo. Havia um lado meu, que eu abominava e que eu não controlava, que de repente ia lá e fazia algo irreversível: vender minha alma ao diabo. Porque se a gente reza em silêncio, a gente pode também vender a alma ao diabo em silêncio. E essa capacidade de fazer coisas em silêncio era o que me matava.

Eu tinha uma vergonha muito grande de tudo aquilo que estava ocorrendo comigo. Tinha medo de relatar minhas obsessões a alguém e que elas assim se fortalecessem, adquirindo poder de realização, mais ou menos dentro da superstição de que não podemos tocar no nome de coisas ruins que assim elas podem aparecer, acontecer. Então conversar sobre isso, sobre minha suspeita de que eu havia vendido minha alma para o diabo, por exemplo, era algo extremamente difícil. Minha vida estava travada, bloqueada, e a angústia, a dor, era muito intensa. Era tão intensa que ainda hoje considero que o pior ano de minha vida foi 1985.

Depois passei a fazer e desfazer várias coisas: falava e desfalava, olhava e desolhava. E isso teve inspiração em uma brincadeira supersticiosa infantil. Quando uma criança pulava a outra, tinha depois que despular (pular de novo) porque senão a criança pulada em número ímpar não cresceria, não se tornaria um adulto. E o problema era o número ímpar. Para desfazer algo ruim, tinha que ser em par. Então, imaginem, eu chegava a olhar e desolhar para alguma coisa que me despertava ansiedade por várias vezes, e isso também se estendia às palavras.

E, em 1985, o que eu mais queria na vida era crescer, entrar na puberdade e não ficar ali me vendo como uma criança em meio aquele monte de amigos que já eram púberes, adolescentes, com maior estatura do que eu, com peso e uma cara mais parecida com a de um adulto, e que adultos mandavam em crianças, e que crianças não tinham voz, e que nada dos que as crianças faziam tinha força ou validade.

“Ah, você é café com leite”, “O que você tá falando não tem validade”, “Você é uma criança. Não quero namorar com você. Quero um homem”, “Você não é um homem. É um menininho, uma criança boba, um menininho cuja tibieza e vergonhas estão escancaradas nesse corpo esquálido, nessa estrutura que pode ser massacrada e sufocada a qualquer momento por qualquer um aqui nesse mundo deserto de compreensão, de abrigo para essa solidão que grita em cada contorno de sua dor, mas que você nem sabe que é isso: solidão”.

Essas eram algumas frases e orações que ecoavam em mim e para as quais hoje até consigo dar um pouco de expressão poética.

E eu era ali uma criança que não tinha a menor condição de se impor perante um mundo que me era completamente estranho. Mas não queria mais ser uma criança. Era e não era uma criança. Nisso eu era talvez tipicamente adolescente. Queria assumir diversas responsabilidades de adultos, mas percebia, de modo obscuro (e eis o problema), que aquele mundo pra mim, no campo afetivo, era um completo deserto. Eu estava no deserto, morrendo de sede, e não sabia, com clareza, que aquilo era um deserto.

E eu tinha uma hipótese. Eu acreditava que tudo aquilo se resumia ao fato de que eu ainda não era um púbere. Quando eu me transformasse em um púbere, quando eu começasse a crescer, adquirindo pelos por todo o corpo, eu faria novamente parte de uma tribo, e poderia ser amado. Porém, os termos que usei aqui não cabem na descrição que eu tinha de mim mesmo em 1985. Eu sentia algo parecido com isso, mas não havia os nomes precisos, as classificações que podem definir o jogo.

E essa hipótese de fato fazia bastante sentido, porque depois, com a entrada definitiva na puberdade, tudo ficou muito mais fácil.

Contudo, havia outros aspectos de minha vida para os quais eu não estava tão atento, e que certamente poderiam ter me fornecido uma compreensão melhor acerca do que ocorria em minha vida. Eu não estava bem dentro de minha própria família de origem. Meu relacionamento com meus pais e irmãos era bem ruim, no sentido principalmente de ausência. Eu vivenciava um vazio muito grande de companheirismo, e nem me dava conta disso. Fui perceber melhor esse ponto somente cerca de 5 anos depois, quando eu e meu irmão mais novo estabelecemos uma relação bem mais empática e companheira.

Então se eu tivesse uma estrutura familiar que me fosse mais acolhedora, eu muito provavelmente não teria sido engolido por aquela trama de sensações a me fazer pensar que havia somente uma solução para meus problemas: entrar na puberdade. Não havia somente essa solução, e era a ela que eu me agarrava.

E também não havia ajuda, suporte técnico-profissional consistente. Primeiro minha mãe me levou a um clínico geral do INAMPS. Como várias vezes anteriores, acordamos às 2:30 hs e fomos para a fila, com nossos banquinhos. Às 7 horas o portão abriu e mais ou menos no final da manhã fomos atendidos muito, mas muito rapidamente mesmo, por um médico que nos encaminhou a um neurologista.

E depois, não teve jeito, peregrinamos por alguns consultórios, a maioria particulares, à busca de alguma resposta. A minha sensação era de que algum distúrbio estava repentinamente acontecendo em meu cérebro. Os médicos rapidamente descobririam o que estava ocorrendo, e isso seria facilmente corrigido.

Era comum, naquela época, ouvirmos que esta ou aquela criança tinha "foco", no cérebro, e que em virtude disso precisava de remédios psiquiátricos. Então, prontamente pensei que meu problema também devia ser esse: eu devia estar com "foco".

No consultório particular de um neurologista fizemos a primeira eletroencefalografia, e não foi constatada qualquer tipo de anormalidade. Semanas depois esse mesmo exame foi repetido, porém agora no consultório de um neurologista, que também era psiquiatra, e que havia nos convencido de que era necessário um novo exame em sua clínica.

Novamente não houve qualquer tipo de alteração, e esse médico quis, diferentemente do anterior, conversar um pouco comigo, em privado. Ele me fez algumas perguntas, e essa nossa interação ocorreu por no máximo uns 20 minutos, após os quais pediu para que minha mãe entrasse.

Em minha presença disse à minha mãe que eu era um "perfeccionistazinho", e assim prescreveu clomipramina (um antidepressivo tricíclico) e o outro medicamento eu não me lembro mais qual era.

Tomei esses dois medicamentos durante uns 2 ou 3 meses, e não percebi qualquer tipo de alteração em meus sintomas. Isso me deixava bastante revoltado, porque simplesmente parecia não haver qualquer tipo de solução médica para meu problema. Não havia qualquer tipo de definição acerca do que estava acontecendo.

E meu pai também ficava bastante revoltado:

- Adriano, porra, vamo pará com essa merda! Puta que pariu, Adriano, o que é que tá acontecendo com você?

E assim diversas suposições, palpites, dicas, conselhos e superstições brotavam da boca das mais variadas pessoas que acabavam sabendo um pouco do que estava ocorrendo comigo.

Na escola os adolescentes não perdoavam: "Adriano, é verdade que você ficou louco?", "Esse aí é aquele crânio, que ficou louco", "Olha só, de que adianta o cara ser inteligente pra caralho, e ser pequenininho, feio e magricela desse jeito. Parece um ET", e assim, para alguns ali, meu apelido passou a ser ET.

"Cala a sua boca, porque você não tem moral alguma para dizer nada! Você está consumindo toda a grana da casa com seu psiquiatra. Vai lá conversar com seu psiquiatra e não me enche o saco!", era o que algumas vezes ouvi de meus irmãos, muitas vezes na presença de pessoas de fora da família, em algumas situações em que nos desentendemos.

E ouvir algo assim era extremamente eficaz para fazer com que eu me calasse mesmo, porque eu me sentia extremamente culpado e envergonhado com tudo aquilo.

Esse grande consumo de recursos estava ocorrendo primeiramente porque a renda de minha família era muito baixa em comparação com os preços de consultas em psiquiatras e psicólogos. Minha mãe inicialmente procurou por assistência em um hospital público, o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Tínhamos uma vizinha que lá trabalhava como técnica de enfermagem, e ela recomendou que procurássemos pelo serviço de psiquiatria, no qual trabalhava o Dr. Felipe (nome fictício).

- Vai lá, e procura por ele. Ele é um crânio.

Entretanto Dr. Felipe nos atendeu somente uma única vez naquele hospital público. Logo em seu primeiro atendimento convenceu minha mãe de que seria melhor se fôssemos acompanhados em seu consultório particular. Não tratarei aqui do provável problema ético envolvido nesse tipo de encaminhamento. A resultante desse tipo de procedimento é mais importante para a narrativa e as considerações que estou fazendo neste texto: o valor das consultas com esse psiquiatra era extremamente alto diante da renda familiar que tínhamos àquela época.

Não bastasse todo o sofrimento que eu já estava vivenciando, ainda havia o adicional de me sentir como um peso, o grande estorvo de minha família. Da criança que, um ano antes, todos os dias lavava as louças e arrumava a cozinha, participando ativamente em várias tarefas da casa, e sendo um bom ajudante de minha mãe, que praticamente não consumia nenhum recurso que fosse dispendioso para a família, me transformei em um peso.

Em uma família que vivia uma espécie de economia de guerra, para poder continuar funcionando e construindo alguma coisa para o futuro, eu era agora um um fardo muito grande para ser carregado: era assim que me sentia.

Assim então comecei uma psicoterapia com esse psiquiatra. Inicialmente as sessões ocorriam semanalmente, e talvez tenham ocorrido somente umas três ou quatro sessões com essa frequência, porque de fato ficou bastante pesado em termos de orçamento familiar. Portanto a minha lembrança é a de que tive no máximo umas 10 sessões com esse médico.

E senti algo similar ao que muitas pessoas sentem quando fazem psicoterapia pela primeira vez: o terapeuta pouco falava, porém, por sorte, fazia muitas perguntas. Contudo eu não tinha ideia de que respondendo às perguntas dele, e falando do modo mais livre possível, de modo a me envolver o máximo possível, eu poderia ter tido um aproveitamento muito melhor.

Às vezes fico pensando também que talvez não houvesse condições para que ele mesmo se envolvesse de modo mais profundo com seus pacientes. Entretanto também talvez não faça muito sentido fazer uma série de especulações acerca de algo que ocorreu há mais de 30 anos, quando eu era uma criança.

Uma coisa porém, apesar de tantos anos já terem se passado, para mim é clara: foram pouquíssimas sessões dentro daquela modalidade de acompanhamento.

Por sorte, não sei se em função das próprias contingências de convívio e de sensações que eu vinha vivenciando, ou até mesmo em boa medida em função das interações que eu vinha tendo com esse terapeuta, comecei a interagir com as pessoas de modo um pouco diferente e mais flexível.

Entretanto, mesmo com algumas variações em meus comportamentos, no ano de 1986 tive ainda umas duas crises. Após a primeira delas meu pai, kardecista, fez questão de me levar ao centro espírita que de vez em quando ele frequentava, para que eu pudesse "tomar um passe", porque eu estaria possivelmente sofrendo em virtude da atuação maléfica de algum espírito obsessor.

Vários dias após o ritual kardecista eu continuava me sentindo do mesmo jeito, e assim sobreveio uma segunda crise. E, para piorar, depois dessa segunda crise, padeci durante cerca de 40 dias de muitos sintomas de ansiedade. Tivera a infelicidade de assistir, juntamente com um de meus irmãos, um filme de terror ("A profecia") no qual muitas pessoas enlouqueciam após serem possuídas pelo demônio.

A trama desse filme fazia novamente ressoar em mim o pavor de ser possuído pelo diabo, enlouquecer e assim cometer atrocidades. Muitos dos personagens do filme, quando possuídos, além de enlouquecidos e assim cometerem atrocidades, eram também mortos de forma atroz. E tudo isso acompanhado por uma trilha sonora indigesta e horripilante.

E durante a noite eu tinha de dormir em um quarto, juntamente com meus irmãos, que tinha algumas imagens de demônios e símbolos satânicos estampadas nos pôsteres das bandas de heavy metal que meu irmão mais velho gostava. Isso, por mais ridículo que possa parecer, fez com que eu tivesse muitas noites mal dormidas, angústia intensa e muita vergonha por estar sentindo tudo aquilo durante uns 40 dias.

Até que de repente, em um final de tarde, eu estava em casa estudando, e coloquei um dos discos de meu irmão para tocar. Estava fazendo algum dever escolar, por escrito, e o disco era do Pink Floyd. Eu gostava muito de Pink Floyd, mas aquele disco, cuja capa era um ouvido mergulhado na água, aquele eu ainda não havia ouvido inteiro.

Era “Meddle”, disco de 1971, e a música era “Echoes”, que tem mais de 20 minutos, e tomava todo o lado B do vinil. Começa com um som ecoante e suave, como se fosse de um pingo, entra em um crescente grandioso, atinge seu clímax, e vai se desfalecendo até se transformar em sons com um aspecto horrendo, assombroso.

Eu estava sozinho, e ainda estava vivenciando todo aquele pesadelo de estar apavorado com a possibilidade de sofrer em função do poder sobrenatural de uma entidade sobre a qual não há qualquer tipo de evidência. Porém para mim, àquela época, havia uma possibilidade razoável de que algo assim (totalmente fora de nosso controle e extremamente poderoso) existisse.

Estava anoitecendo e a casa já estava toda escura, havendo somente acesa a lâmpada da luminária que eu usava para estudar. Mas eu já não aguentava mais toda aquela tortura. Levantei-me, em fúria, e fui até o fundo do quintal, nos quartinhos dos fundos, onde costumeiramente nem eu nem meus irmãos íamos durante a noite sem que sentíssemos um certo frio na espinha.

Inspirado em uma passagem da obra "Grande sertão: veredas", de Guimarães Rosa, a qual havia sido retratada em uma minissérie da Rede Globo meses antes, no escuro olhei para o céu e fiz uma espécie de desafio ao diabo:

- Já tô bem cansado disso tudo, e não aguento mais ter medo de alguma coisa que eu não sei se existe. Ou você aparece agora e aí a gente vê o que faz, ou então estarei livre! Apareça agora, Belzebu, Coisa Ruim!

O tempo passava e nada acontecia. Mesmo assim eu continuava invocar, e fiz isso por várias vezes. Desse modo fui ficando mais tranquilo, e percebendo que eu poderia esperar um pouco mais para ver se as coisas de fato iriam acontecer da forma que eu tanto temia.

Nesse dia minha crença no diabo sofreu um grande golpe, e eu tive um sentimento intenso de libertação. Eu não estava livre de todos os meus problemas e sintomas, mas esse havia sido certamente um passo importante. Eu tinha a intuição de que era importante que eu tentasse me habituar, que era necessário entrar em contato com aquilo que temia. Só não sabia exatamente como fazer isso e nem estava tendo a ajuda adequada.

E eu também de certo modo acreditava que minha vida precisava de algumas mudanças concretas e objetivas, as quais iriam resultar em alterações no modo como as pessoas se relacionavam comigo.

Minha crença porém não continha as especificidades necessárias para compreender meu contexto de vida de uma forma mais completa. Supunha que existiam algumas direções básicas, mas não tinha a menor ideia de que existiam algumas outras alternativas também. Algumas coisas fundamentais, em termos afetivos, não estavam ocorrendo em minha vida, e isso não se resumia ao fato de ainda não ser um púbere.

Após esse episódio em que eu praticamente me libertei do medo do diabo, consegui adquirir um pouco mais de estabilidade, e passei a contar cada dia que eu conseguia continuar vivendo sem ter uma crise. E assim os dias e os meses foram se passando, e eu continuei contando. Até que algo em torno de um ano inteiro se passou, e eu resolvi que já era hora de parar de contar. Porque também agora eu já era o que tanto havia desejado ser: um púbere, de corpo e alma.

Os anos foram se passando, e meus desafios e problemas foram se alterando, se alternando e se recriando, ou até mesmo se acumulando em alguns momentos, como ocorre na vida de qualquer pessoa.

Sei que em alguns momentos tive dificuldades mais acentuadas, e com as quais cheguei a pensar que não iria conseguir lidar. Tive, como quase qualquer pessoa, momentos felizes e outros bastante dolorosos, e nunca tive comigo a sensação de que sei viver. O aprendizado é constante, e sempre podemos aprender com o mais variado tipo de pessoas.

Ter escolhido fazer Psicologia, dentre outros propósitos, também se relacionou com querer entender melhor tudo isso que é a vida, o sofrimento e a complexa interação entre as pessoas. Conforme os anos foram se passando é que fui compreendendo melhor o que ocorreu comigo naqueles tão sofridos 1985 e 1986.

Wednesday, April 03, 2019

Transtorno mental e responsabilidade

Certa vez, atendendo um casal, ouvi um paciente dizer assim para sua esposa, depois dela relatar uma série de excessos e abusos da parte dele:

- Mas ela tem que entender que eu não tenho culpa. Eu tenho transtorno mental.

O problema é que, de modo geral, o transtorno mental e a vida familiar tendem a piorar quando alguém se coloca nessa posição. Isso não ajuda, e muito provavelmente irá atrapalhar e muito. 

E por que tendem a piorar? Porque as pessoas precisam ter sensibilidade para as consequências de suas ações. Isso é fundamental para o autoconhecimento e autocontrole e, consequentemente, para o processo de recuperação de um transtorno mental.

O voto dos ressentidos

Compreendo um pouco melhor a eleição e os apoios que Bolsonaro ainda recebe quando observo alguns conhecidos que votaram nele. São pessoas que eu conheço bem. São amigos, ex-amigos ou familiares, de cuja maioria ultimamente eu tenho tentado manter uma certa distância, para que a poeira baixe, para que a coisa não desande de vez. Porque às vezes é melhor deixar que o tempo e a realidade façam seu trabalho, aos poucos. Porque sabemos que bater de frente é geralmente apostar no erro.

E o que tem me chamado a atenção é que não todas, mas boa parte dessas pessoas são, em grande medida, ressentidas, pelos mais variados motivos. E do que é constituído o ressentimento? Fundamentalmente de um horizonte afetivo restrito que alimenta sua fidelidade ao ódio. Porque o ressentimento é essencialmente isso, por definição: fidelidade ao ódio.

O ressentido coleciona e cultiva sentimentos muito amargos em relação a pessoas que julga terem lhe causado mal. E por menor que tenha sido esse mal, no coração do ressentido tudo isso se transforma em uma grande tormenta, com histórias repletas dos mínimos detalhes a justificar todo seu ódio. 

Porque o ressentido padece de um espírito de justiça que se afirma em continuamente alimentar-se pelos reflexos do labirinto de espelhos e da solidão na qual se perdeu justamente por, muitas vezes, ter colocado a promessa de felicidade absoluta no colo de uma única pessoa. 

E aí, quando essa pessoa exibe uma única e mínima falha, eis a intolerância a vociferar. E o problema não é mais somente aquela pessoa que falhou. O ressentido dirige seu ódio para tudo o que, para ele, tenha semelhança com ela. 

Existem vários tipos de ressentidos. Mas eu arriscaria dizer que são, cada um a seu modo, perfeccionistas. Alguns inclusive ostentam grande retidão moral, e parecem cumprir cada regra estabelecida pelas tradições nas quais foram criados. Mas não nos esqueçamos, contudo, que sempre existem pontos de fuga, pois volta meia a retidão moral se expressa somente como moralismo, como moral que somente deve ser aplicada aos outros e não a si mesmo.

Mas são perfeccionistas da ordem e da moral. Tudo, mesmo que isso se aplique somente aos outros, tem de estar na mais perfeita ordem. Sua expectativa para com os outros, principalmente para com as pessoas que alegam amar, é altíssima. Mas isso geralmente não se transmuta na relação com seus superiores. É, amiúde, uma relação impessoal (e completamente acrítica) de idolatria. O grande problema do ressentido é a relação com quem ele julga que é dono: cônjuges e filhos, principalmente.

E onde nasceram, foram criadas ou doutrinadas essas pessoas que estão ressentidas? Em contextos religiosos, tradicionalistas, conservadores, patriarcais, os quais costumam prometer a perfeição da pureza, da limpeza, da certeza e do bem absoluto. Então há ressentimento para com todos os segmentos sociais que lutaram (nesses pouco mais de 30 anos de democracia) pela mudança, pela ideia de que era possível fazer diferente. Mas há também certamente o ressentimento que cultivam em suas próprias relações pessoais e afetivas. Estão ressentidas, muito ressentidas, com ex-namoradas(os), ex-cônjuges e filhos. 

O ressentido é alguém que tem em si um sentimento muito forte de que foi traído. Projetou suas profundas frustrações pessoais e afetivas na ordem do mundo. Em seu perfeccionismo moralista (porque no final das contas é isso que sobra) o mundo está dominado por devassidão e falsidade. Somente com limpezas (as mais diversas) e fogueiras é que a ordem será restabelecida. 

Em sua expressão mais pura, esses ressentidos são, como ressaltou Alexandre Ioda, os zumbis, apoiadores da extrema direita, que continuarão vagando entre nós, mesmo após a queda dos que estão hoje no poder.

Wednesday, March 13, 2019

“Meu coração rasgado de medo e saudade...”

Raul (nome fictício), usuário do CAPS, estava tentando melhorar sua redação. Era um senhor com 52 anos de idade, bastante desiludido com a vida. Morava com a esposa, três filhos já adultos e uma neta. Havia deixado seus cabelos encaracolados crescerem, e tinha uma aparência que lembrava muito o estereótipo de indígenas americanos. Falava pouco. Parecia um pajé, um índio sábio e já um pouco velho. 

Tinha uma aparente sabedoria no olhar, a qual não se transmutava em palavras ou a compreensão que precisava para poder lidar de forma mais serena com diversas pessoas com as quais conviveu e convivia. Colecionava destempero, conflitos interpessoais e culpa. Aos 52 anos de idade carregava nos ombros a sensação amarga de que nunca soubera viver, e pensava muito em morrer. Sentia-se um estranho em um mundo que não o abrigava.

Voltou a estudar. Começou um curso supletivo, e retomou seus estudos, que haviam sido cessados quando ainda estava na 5ª série do ensino fundamental.

- Adriano, eu gostaria muito de poder melhorar minha escrita, de conseguir escrever o que penso. Estou tendo aulas de redação na escola, mas é muito difícil...

Lembrei-me de um exercício literário, de fluidez, que incentiva o descolamento do sentido, com a compreensão de que uma frase não precisa ter pressa para se findar, já que os termos vão se encontrando, aos poucos, para no final das contas permitir um mergulho na profundidade do jogo de palavras que é escrever. 

No final do atendimento escrevemos juntos uma frase poética, tentando traduzir seus sentimentos: “Estou estudando o mundo da minha raiva, pela agonia que brota nas pedras que engasgam meu coração rasgado de medo e saudade...”
Há muitos meses que não o vejo. Quem por último me deu notícias suas foi sua esposa:

- Ele tá bem. Você sabe, né, com aquela dificuldade e angústia toda que ele tem. Mas tá levando, tá caminhando...

E sempre que penso em Raul me lembro desse nosso versinho, de como sua dor talvez ainda esteja a vagar por dentro dos labirintos em que ele se via perdido.

Tragado para uma dimensão paralela

Às vezes no CAPS me sinto tragado para uma espécie de realidade paralela. Um dia atendi a um paciente que parecia inicialmente um zumbi, saído de um filme apocalíptico. Completamente psicótico, e eu não tinha dúvidas disso. 

Pouco conseguia estabelecer comigo um contato minimamente sustentável para um diálogo que pudesse se aprofundar no que quer que seja. Tinha uma série de trejeitos que se assemelhavam mais ao de um animal selvagem acuado, fora de seu habitat. 

Estava bastante emagrecido, talvez com um IMC abaixo do mínimo. As unhas eram compridas, a pele extremamente branca e seus dentes caninos superiores involuntariamente, com frequência, se sobressaiam, escapando, da boca, dos lábios. 

Oscilei entre a piedade e um pouco de medo de alguma possível agressão imotivada. Conforme fui aprofundando o contato, e tentando coletar o maior número possível de informações (principalmente a partir de um de seus familiares, que também era alguém com uma série de condições especiais, com um histórico muito peculiar e também vulnerável a sérios transtornos mentais), pude mergulhar um pouco no drama imenso que aquele menino de 20 anos de idade viveu durante toda a sua vida, até estar ali naquela sala, conversando comigo.

Nunca havia tido qualquer tipo de contato sexual ou amoroso com outra pessoa. Nunca nem mesmo havia beijado alguém. Tinha seus 20 anos, fazia o segundo semestre de um curso de graduação. Tentava, diante de toda a sua vulnerabilidade, enfrentar um mundo que a ele sempre foi completamente estranho, inóspito. Um constante e eterno nível de estranheza, tão profundo, que era simplesmente impossível não ter talvez uma aparência que não aquela de alguém que sobreviveu a uma guerra ou catástrofe de dimensões apocalípticas.

Friday, January 18, 2019

Sobre a busca de sentido, em Viktor Frankl

O livro "Em busca de sentido", de Viktor Frankl, é um texto redundante em relação à alegação de que é necessário haver um sentido na vida, de que a vida pode estar muito ruim, por exemplo, contudo, havendo sentido, haveria motivação para continuar vivendo.

Ele se refere principalmente às experiências que teve quando foi prisioneiro em campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial. Relata casos de diversas pessoas que conheceu nesses campos de concentração, e reiteradamente tenta demonstrar que passamos a ter motivação para continuar vivendo e lutando, apesar de todo e qualquer sofrimento, quando sentimos que nossa vida tem uma finalidade, um propósito: um sentido.

Assim, Viktor Frankl criou a logoterapia, que é uma forma de psicoterapia existencial, e isso de certo modo o aproxima dos existencialistas e de concepções, por exemplo, como a de que estamos sempre escolhendo, de que estamos condenados sempre a escolher.

Nessa perspectiva é comum a valorização das idiossincrasias, da individualidade, das diferenças que sempre irão existir entre as pessoas, para se afirmar o primado da liberdade. Essa concepção de que estamos condenados à liberdade, a sempre escolher, vai até mesmo ao limite de alegar que durante, por exemplo, uma sessão de tortura, alguns cederiam, e delatariam seus companheiros, e outros, apesar de todas as condições e sofrimentos impostos, não.

Para esta concepção estamos então sempre fazendo escolhas, porque, no limite, em situações bastante extremas, como numa tortura, por exemplo, alguns torturados escolhem se render, enquanto outros fariam a escolha de jamais se render, e de que essa seria a liberdade fundamental, da qual não há como abrir mão.

Estaríamos sempre escolhendo porque somos seres conscientes de nossa própria existência e finitude. A consciência reflexiva seria o que nos condena à liberdade.

Uma crítica, geralmente feita a esta concepção, é a de que não somos somente consciência. Somos também coisa.

Do outro lado encontramos outra posição, que é a do determinismo, inclusive a do determinismo científico. Nesse sentido, nosso comportamento de escolher existe mas, para melhor compreendermos esse comportamento de escolha, temos de recorrer aos determinantes desse comportamento. Alegar que é o próprio sujeito quem escolhe é simplesmente recorrer a uma explicação circular, a uma falsa explicação.

Pessoalmente penso que para uma psicoterapia isso é absolutamente desastroso. Porque, se em nosso trabalho como psicoterapeutas desejamos que nossos pacientes passem a fazer escolhas diferentes, não basta simplesmente dizermos a eles que precisam escolher algo diferente, porque se, assim como todas as pessoas, esses pacientes estão condenados à liberdade, depende somente deles o ato de fazer uma escolha diferente. Nesse tipo de concepção a escolha é algo que se origina no próprio indivíduo.

Ou seja: há aí uma concepção de que as ações humanas têm origem nos indivíduos. Há um completo desprezo pela princípio lógico, básico, da razão suficiente. Porque para uma psicoterapia é importante saber por que um indivíduo escolhe x e o outro escolhe y, ou por que o mesmo indivíduo escolhe x e, em um contexto diferente, escolhe y.

É importante que um psicoterapeuta tenha consciência de que existem condições que facilitam algumas escolhas, que que seu esforço junto a seus pacientes deve ser sempre o de procurar compreender melhor quais são essas condições específicas, inclusive para cada caso que está acompanhando, em suas especificidades e idiossincrasias.

Viktor Frankl parece dar um pequeno passo adiante, quando propõe o sentido como um fator de motivação para que as pessoas passem a fazer escolhas mais saudáveis. Contudo ele somente se mantém em uma espécie de pregação, na qual reiteradamente afirma que é necessário ter um propósito, um sentido. Nesse livro não há qualquer tipo de enfatização em relação aos procedimentos necessários para que as pessoas encontrem sentido em suas vidas. Porque a principal questão, no final das contas, é sobre como as pessoas irão encontrar sentido. O que, de modo geral, faz uma vida ter sentido? Como cada pessoa, em suas especificidades, em sua individualidade, irá encontrar sentido?

Para a primeira questão já existem respostas que são fruto de pesquisa científica. Uma vida passa a ter sentido quando existe bem-estar geral, quando há saúde, pelo menos em termos psicológicos.

Alguém pode até objetar que Viktor Frankl está também se referindo a pessoas com a saúde física completamente comprometida, como era o caso de muitos prisioneiros em campos de concentração que, apesar de todas essas condições adversas, conseguiram encontrar um sentido para a sua vida. Sim, isso é possível. E atualmente a ciência já descobrirlu, em boa medida, quais são os fatores envolvidos nessa equação.

Os dados do "Grant Study", por exemplo, que é a pesquisa sobre bem-estar humano maior e mais longa já feita na história, demonstram que o principal determinante do bem-estar humano diz a respeito a bons vínculos sociais e afetivos. Então atualmente temos demonstrações muito sólidas de que algumas pessoas, mesmo com boa parte de sua saúde completamente comprometida, podem ter bem-estar psicológico, e sentir que sua vida tem sentido.

Portanto, finalizando, eu gostaria de dizer que, na minha concepção, não faz muito sentido ficar procurando pelo sentido. Simplesmente não é necessária a consciência de que nossa vida tem sentido. Porque a vida de qualquer pessoa, ou animal senciente não-humano, passa a ter sentido a partir do momento em que existem os elementos que produzem pelo menos o bem-estar psicológico, o qual parece compor uma parte fundamental do bem-estar como um todo.

Acreditar que precisamos ter consciência do sentido, para que nossa vida seja uma vida que valha a pena, simplesmente não faz o menor sentido quando pensamos na vida de crianças pequenas, de muitos deficientes mentais ou até mesmo na vida de animais sencientes não-humanos. O sentido é somente um dos efeitos, na percepção de alguns de nós, de uma vida minimamente bem vivida. Se estamos bem, a vida não precisa ter sentido algum. Basta vivê-la.

Wednesday, August 22, 2018

Estamos vivendo uma epidemia de depressão e transtornos de ansiedade?

É importante que essa seja a pergunta inicial, porque há também a possibilidade de que estejamos vivendo um contexto em que o nível de patologização da vida cotidiana seja maior do que outrora. Ou seja: é possível que esteja ocorrendo um fenômeno de superdiagnosticalização.

Porém também é possível que nossa sociedade, nossos estilos de vida, estejam contribuindo para o aumento de sintomas de depressão e ansiedade. Se isso, em alguma medida, estiver ocorrendo, penso que existem alguns fatores que podem estar contribuindo. E os três grandes fatores que costumam estar associados a uma série de males dos quais padecemos atualmente são: o contexto histórico da modernidade, a urbanização e a industrialização.

Esses três grandes fatores possuem, cada um deles, uma miríade de extensões e consequências, sobre as quais seria impossível dar um tratamento mínimo em um texto tão breve como o que estou escrevendo agora. Porém, mesmo pecando pela brevidade, não me furtarei de enunciar alguns pontos que concebo como nevrálgicos.

Com o advento da modernidade, houve uma diminuição muito grande do peso da comunidade e da família na determinação de como as pessoas serão, ou qual destino terão na vida. E esse processo de diluição desse peso é crescente, progressivo. Vem perdendo consistência e se liquefazendo há cerca de 500 anos.

Quanto maior a força da comunidade e da família em nossa formação e na determinação de nosso destino, menor o espaço para a liberdade (na forma como a concebemos). Contudo, quanto maior essa liberdade, maior o espaço para sentimentos de solidão e desamparo. Tanto que é notória a expressão, no meio acadêmico, de que o desamparo é o preço da modernidade. Obviamente que não é o único preço, mas isso deixa claro que a modernidade, e a liberdade, não são coisas que conquistamos sem custos.

Por outro lado, quando nos atentamos mais para a questão da urbanização, por exemplo, o que atualmente mais tem me chamado a atenção é a questão da crescente diminuição de biodiversidade, a qual inclui também a microbiodiversidade. Se existe um processo crescente de extinção das mais diversas espécies, esse processo também, de alguma forma, acontece nos centros urbanos, em nível microbiológico. A microbiodiversidade das cidades é muito menor do que a existente em zonas de mata, ou zonas rurais onde existe criação de animais.

Há atualmente todo um campo de pesquisas, o qual é usualmente denominado como ecologia médica, a tratar da importância dos microbiomas em nossa saúde. Nosso organismo depende imensamente da diversidade das bactérias que nos habitam, e provavelmente essa dependência também existe em relação a outros seres vivos, tais como algumas espécies de fungos e helmintos.

Dentre as enfermidades crônicas que infernizam o homem moderno, a inflamação crônica certamente possui também um papel importante. Há evidências de processos inflamatórios crônicos associados a uma série de transtornos mentais. E as teorias que estão unificando o campo de investigação das doenças inflamatórias crônicas são todas relacionadas à nossa relação ecossistêmica, mutualística, com micróbios e algumas espécies de helmintos.

E um dos grandes problemas é que os processos de urbanização e de industrialização não são benéficos à microbiodiversidade, assim como também não costumam contribuir para uma vida comunitária mais viva e ativa. Os processos de individualização fortalecem a liberdade, mas também constroem muros, facilitando o isolamento social. E os antibióticos salvam vidas, porém seu uso indiscriminado representa uma ameaça séria ao equilíbrio ecossistêmico dos microbiomas.

E a tudo isso também podemos associar a possibilidade da prevalência, atualmente, de modos de vida que valorizam excessivamente a vivência do prazer sem esforço, ou até mesmo uma desvalorização de qualquer evento que possa gerar algum tipo inevitável de sofrimento ou dor. A cultura do menor esforço, se aplicada a tudo o que existe, pode fazer com que, em muitos aspectos de nossa vida, deixemos de realizar uma série de atividades que são fortalecedoras para nosso organismo como um todo.

A exposição de nosso sistema imunológico a um microbioma rico, diversificado, é fortalecedora desse sistema. Nossa exposição controlada (devidamente dosada) a uma série de eventos aversivos é fortalecedora de nossa capacidade de trânsito e exploração do mundo. E a obtenção de prazer, sem a realização de qualquer tipo de esforço ou atividade física, é enfraquecedora. Porque provavelmente a melhor e mais saudável noite de sono seja aquela que foi obtida após um dia onde houve atividade física, luz solar e alimentação adequada.

E assim nos remetemos a alguns outros fatores, que julgo como muito importantes para a saúde, como um todo, que são: luz solar; espaços abertos e ventilados; o contato e a imersão em ambientes naturais; uma alimentação diversificada, rica em vegetais e fibras, e atenta para o excesso de carboidratos simples.

Concebo que os fatores enunciados nesse breve texto são todos muito importantes para nossa saúde, como um todo, e obviamente também para nossa saúde mental. Não consigo pensar em saúde mental de modo desvinculado dessas questões.