Wednesday, January 11, 2017

Taxas de suicídio x taxas de homicídio

Segundo dados do Banco Mundial  de fato a taxa de suicídios (2012), em nível mundial, por volta de 11,3 / 100 mil habitantes, é alarmante, se comparada com a taxa de homicídios intencionais: por volta de 6,2 / 100 mil habitantes. Em 2014 a taxa de homicídios caiu para 5,3/100mil, mas ainda não há dados mais recentes sobre a taxa de suicídios.

A taxa de suicídios, portanto, é mais ou menos o dobro da taxa de assassinatos, e nos países ricos essa proporção é muito maior. Na União Européia, por exemplo, a taxa de assassinatos é de 1/100mil e a de suicídios é de 12,2/100mil.

Contudo, em países notoriamente violentos como o Brasil, o cenário se inverte.

Segundo dados do Banco Mundial, em 2012, no Brasil, a taxa de assassinatos foi de 24/100mil, e em 2014 foi de 25/100mil (e não há dados mais recentes registrados nas estatísticas do Banco Mundial). A taxa de suicídios, em 2012, foi de 6/100mil.

Fora o fato de que um assassinato gera muito mais prejuízos sociais do que um suicídio. Um homicídio intencional gera um morto e um preso. Há a perda de duas pessoas, que geralmente estão em idade produtiva: uma morre e a outra vai presa; fora o fato de que a pessoa presa irá onerar os cofres públicos. Ou seja, um assassinato é muitíssimo mais custoso que um suicídio.

Como nos países ricos eles já, em boa medida, resolveram seus problemas de violência urbana, resta-lhes a preocupação com suas altas taxas de suicídio.

Ou seja, lá as pessoas estão tirando a própria vida cerca de duas vezes mais do que aqui. E aqui as taxas de suicídio são menores, mas a violência (com seus custos muito mais altos) é altíssima. Uma proporção enorme de nosso orçamento é dispendida com segurança e isso diz muito sobre o nosso atraso.

Mudança climática (aquecimento global)

Sinto que o contexto é alarmante e que infelizmente vai piorar:

"A cada dia que passa, vai ficando mais evidente que as mudanças climáticas não são algo remoto, para futuras gerações que ainda não conhecemos, tampouco algo abstrato. Afeta e afetará ainda mais cada um(a) dos(as) já viventes. E naquilo que mais nos é essencial.

Trata-se de onde morar, do avanço do nível do mar que desaloja comunidades e até nações inteiras a extremos de temperaturas que podem tornar enormes porções do planeta inabitáveis para nós; de onde tirar o alimento, com a tendência a riscos cada vez maiores de quebras de safra por alterações nos padrões de chuva, temperatura, umidade, etc.; de onde obter a água que se bebe, tarefa continuamente mais dura a persistirem o agravamento das secas, a contaminação dos corpos d'água e a demanda imposta pelo agronegócio e a grande indústria; da própria saúde, pois tanto extremos de secas quanto enchentes comprometem a infraestrutura de água potável e ampliam a área de atuação de vetores transmissores de doenças.":


"Chocado com o quanto me identifiquei com o relato, queria chamar muito a atenção de vocês para esta sequência de publicações no twitter de um colega, Eric Holthaus, porque é muito comum eu me sentir dessa exata maneira. E meu dia-a-dia é mergulhar nos dados, nas informações. Teve muito artigo da Nature e da Science que me levou às lágrimas.
A seguir uma tradução livre do depoimento dele:"

"Estou começando meu 11º ano trabalhando em mudança climática, incluindo os últimos 4 no jornalismo diário. Hoje eu procurei aconselhamento a respeito. Estou dizendo isso porque sei que muitas pessoas sentem um desespero profundo sobre o clima, especialmente após as eleições. Eu luto todo dia. Vocês não estão sozinhos. Há dias em que literalmente não consigo trabalhar. Eu leio uma história e desligo pelo resto do dia. Nada parece ajudar muito, além de exercícios e tempo. O profissional disse: "Faça o que você pode", o que me parece um conselho simples e poderoso. Vou começar a trabalhar bastante com a mente. O desespero é natural quando há evidência objetiva de um problema existencial comum com o qual não estamos a lidar adequadamente. Você se sente só. Você se sente impotente. Você sente como se nada importasse. Suas relações sofrem. Você se sente culpado por "não fazer mais". Mas que diabos eu posso fazer? Escrever mais um artigo para o blog? Nosso secretário de estado é o maldito executivo-chefe da Exxon. Ano passado, perdemos um enorme pedaço da Grande Barreira de Corais. Estamos literalmente pondo um fim à existência de animais que estão aqui por milhões de anos.":


"Agora apenas 20 km de gelo impedem o imenso bloco de 5 mil km² (o equivalente a 500 mil campos de futebol ou à área do Distrito Federal) de se soltar.":


Relatório (de julho de 2015) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos:

“O Departamento de Defesa vê a mudança climática como uma ameaça de segurança atual, e não como risco a longo prazo. Já estamos observando os impactos das mudanças climáticas nos choques e fatores estressores para nações e comunidades vulneráveis, inclusive nos Estados Unidos e no Ártico, Médio Oriente, África, Ásia e América do Sul. Estudos de caso demonstraram impactos mensuráveis em zonas vulneráveis às alterações climáticas e, em casos específicos, há associação significativa entre as dinâmica dos conflitos e a sensibilidade às mudanças climáticas.
Embora o estresse relacionado ao clima irá afetar desproporcionalmente as nações frágeis e afetadas por conflitos, mesmo os países resilientes, e bem desenvolvidos, estão sujeitos aos efeitos das alterações climáticas de forma significativa e consequente.”

Retrogosto (enologia)

Ouvi dizer que em enologia existe uma coisa chamada retrogosto. Aí fico pensando que retrogosto (principalmente o retrogosto de sardinhas do campo), é mais ou menos como aquele gosto do Kisuco que você cospe, com corante, na pia, quando vai escovar os dentes...

O Problema do Mal

O Problema do Mal é um paradoxo que foi enunciado primeiramente por Epicuro e que, em termos lógicos, não foi resolvido até hoje. Certamente não é com analogias tortas, impróprias, que ele se resolve.

É logicamente impossível a existência de um ser onipotente e moralmente perfeito. É onipotente e moralmente imperfeito ou é impotente e moralmente perfeito. É todo-poderoso e mau ou é fraco e bom.

Se Deus é onisciente, nesse exato momento ele sabe que existem crianças morrendo de fome, sendo torturadas, abusadas, estupradas. Se ele fosse onipotente e absolutamente bom logo impediria a existência desse tipo de coisa.

E também não faz muito sentido falar em livre arbítrio, porque a criança que está morrendo de fome, ou aquela que foi estuprada e terá sequelas para o resto de sua vida, essas duas crianças não têm nem tiveram livre arbítrio algum. Se alguém cometeu um erro, não faz o menor sentido punir seus filhos, ou todos os seus descendentes que vierem ao mundo. Isso seria de uma atrocidade e injustiça abomináveis.

Por favor, não me façam lembrar de uma frase até um pouco desagradável de ser dita:

"Se eu pudesse impedir alguém de estuprar uma criança, eu impediria. Esta é a principal diferença entre eu e seu deus"

Não me façam pensar que vocês reverenciam um Psicopata.

Primeiro motor e deus pessoal

A coisa funciona assim: primeiro a gente menciona que a ideia de primeiro motor é razoável em função do princípio da razão suficiente, o qual é um princípio racional. 

A partir disso algumas pessoas começam a afirmar que esse primeiro motor é Deus. Para elas esse primeiro motor não é algo, é uma consciência, uma inteligência, é alguém. Ou seja, essas pessoas antropomorfizam o conceito de primeiro motor. 

Aí, quando você se utiliza dessa premissa, da antropomorfização de um suposto primeiro motor, para fazer algumas considerações, para mostrar o quanto isso é insustentável, os antropomorfizadores iniciais vão dizer que você está antropomorfizando Deus.

Tuesday, January 10, 2017

The right to live, to kill and die in the thought of Peter Singer

Peter Singer, a fundamental reference in bioethics, is an author who draws important issues on the rights to live, to kill and die. The first point that must be taken into account is that he is a utilitarian. In the utilitarian conception it is an ethical imperative to act to reduce suffering in the world as a whole. In this sense, ethics is not restricted to interactions between human beings. It also extends to the interactions of humans with all other sentient living beings.

Ethics is a philosophy of action, which makes systematic reflections on the concepts of good and evil, trying to produce consistent knowledge about our actions in relation to their possible benefits and harm to all living beings who suffer (the sentient beings).

The purpose of utilitarian ethics is the reduction of suffering in the world. If there is something that can be called evil it is certainly suffering itself. For this approach, there is avoidable and unavoidable suffering. The first one must be must be extinguished or at least diminished. For the second one we must make efforts to create techniques or technology to turn unavoidable into avoidable suffering. And, in ethical terms, for a suffering to be avoidable it must not implicate in more harm, in the future, produced by itself. It must produce more welfare without weaken one’s abilities.  

The utilitarianism adopted by Peter Singer, in turn, is closely linked to the interests (preferences) of living beings in question. So that it is classified as a preference utilitarianism. The understanding is that, having their vital interests thwarted, some living beings suffer greatly. That is, only the sentient beings have interests. In theory, plants or a fetus less than 12 weeks old, for example, do not have any interest, since so far we do not have any evidence of suffering.

So let it be clear, for this ethical conception there is no sacralization of life, not even of human life. By the way, in modern terms, it does not make sense to sacralize anything. In this sense, the greatest respect is for the interest of each one in relation to himself: to his own body and to his own life. It is ethical, in this case, fundamentally, respect for others and for their well-being, as long as this welfare does not directly cause harm to third parties.

In these terms, therefore, the right to live must be granted to those beings who suffer and are interested in continuing to live, who are aware that they are living beings and that there is death, being able to figure, to conceive of a future time and to plan their own life in relation to the data of their reality.

For human beings, for example, it is important to know that they have the right to live, that other people can not simply attack their life (or the lives of those they care and love) without this having serious consequences. Knowing that the state or other people could give way to our lives (or the lives of the people we love), arbitrarily, can cause much anguish and suffering in all the people, with serious risks of social disruption, which implies in barbarism, the war of all against all.

There is no guarantee of a minimum social organization without the right to live being safeguarded. In this case we would not have a society but groups, clans, isolated and in constant tension.

Therefore, the right to live is to protect the lives of individuals and society as a whole. Even the most nihilistic and detached people, in relation to their own lives, have in some way a moral obligation to strive, as far as possible, to stay alive and well, since the life of a human being is usually very precious to other human beings. When a person dies, others usually stay alive and suffer greatly because of the one that is gone. Some people, when they die, can leave irreparable damage to those who remain.

However, if a person survives in poor conditions, in extreme and irreparable suffering (which is experienced by that person as unbearable), there must be social conditions to guarantee the right to die. If we are not, as a society, able to relieve extreme suffering of someone who does not support to live, we should help this person to die with dignity.

In this approach a consequentialist conception prevails. If the consequence of what we do produces more benefits than harm, this action is generally judged as correct, as the one that should be adopted. So the right to die, the right to euthanasia, the right to a painless death, for those who have a terminal illness or suffering from extreme and irremediable suffering, is the right to end suffering that can and should be avoided. This is an ethics of compassion, empathy, and respect for people's autonomy.

And, finally, the right to kill. There is no way support the simple-minded claim that killing is always wrong, because our survival as a species implies killing beings from other species, all the time. Even those who adopt a vegetarian diet also kill other living things in order to feed on them, or to protect themselves and not get some diseases and perish. In the end, the most important thing is to know how sentient beings, which are under our responsibility, are living and being created by us. And if we feed on them, it is ethically important to have a most painless slaughter possible because we are able to guarantee them a dignified death. Just as we are able to decrease, in our population, the intake of animal protein, which can be largely replaced by protein of vegetable sources.

Finally I must say the ethics proposed by Peter Singer never claimed that one should kill this or that living being regardless their preferences. A moral imperative, a duty, in this conception, is related to the decrease of suffering in the world, which in no way can be settled with prescriptions of mass extinction of humans, as it is claimed by some opponents of his thought. Therefore, as the reasons that have been here exposed, autonomous human beings and aware of themselves (or even those who were once so), owners of their own life and their own bodies, these human beings have the right to life.



Friday, January 06, 2017

Como lidar com ameaças de suicídio

No último dia 25 de dezembro uma moça, aqui pelo Facebook, anunciou que havia ingerido dezenas de comprimidos e que esse era seu presente de Natal para sua família.

Alguns de seus familiares mais próximos, parece que alguns de seus irmãos e sua mãe, responderam a essa mensagem dela, desqualificando-a. Escreveram que ela sempre fazia isso e que sempre era para chamar a atenção.

O tom, tanto dela quanto da família, era bastante agressivo. Era aquele tom de barraco ao vivo, de quem está brigando frente às câmeras em algum programa sensacionalista.

Esses familiares responderam à postagem dela, mencionando que já estavam no hospital, que era sempre assim, e que desta vez não seria diferente. Ou seja, segundo eles, ela novamente estava dando o "show" dela de sempre, e eles novamente a conduziram ao hospital. Diziam que era somente mais uma tentativa para chamar a atenção.

Porém dessa vez foi diferente. Oito dias depois ela veio a falecer.

Como já me abordaram para que eu me expressasse sobre o ocorrido, deixo-lhes aqui minhas breves considerações, as quais considero apenas como um ponto de partida para o debate.

Uma coisa bem básica ao se lidar com uma pessoa que está ameaçando suicidar é não cairmos em dois possíveis extremos: não devemos nos tornar reféns ou (no outro extremo) desafiar a pessoa em questão.

Quem se torna refém acaba gratificando uma série de comportamentos abusivos e assim, muito possivelmente, vai se construindo uma relação abusiva.

Quem desafia brinca com fogo, e não se dá conta de que o desafio, a desqualificação, pode ser exatamente o que está faltando para que a pessoa conclua um suicídio.

É preferível dar atenção, ser acolhedor ou carinhoso, antes que a pessoa comece a fazer suas ameaças. O problema é fazer com que isso ocorra de forma mais efetiva em uma família cujos laços afetivos (principalmente com o suicida) estejam deteriorados.

Muitas vezes as melhores alternativas de solução não estão na família, mas sim em interações fora do ambiente familiar. Já acompanhei diversos casos que somente tiveram um melhor encaminhamento fora do seio familiar. As pessoas em questão precisaram sair de casa, mudar de bairro ou até mesmo de cidade. A gradual renovação de vínculos sociais costuma ser uma alternativa relevante.

Obviamente que, por um mecanismo de generalização, as pessoas costumam adotar padrões de comportamento anteriores para seus novos relacionamentos, e muitos conflitos tendem a se repetir. Porém creio que é muito mais fácil haver mudanças em ambientes renovados do que em interações que já estão totalmente desgastadas.

É importante também lembrar que existem diversos contextos possíveis. Somente uma análise consistente, paciente e apurada desses contextos, das interações do suicida com as pessoas com as quais convive (e de inúmeras peculiaridades envolvidas), é que possibilitará um conhecimento mais apurado de como intervir.

E, para finalizar, vale ressaltar que transtorno mental não é passe livre para se fazer o que bem quer, para abusar das pessoas e não se responsabilizar pelos próprios atos. Aliás, a responsabilização pelos próprios atos costuma ser mais benéfica e reabilitadora do que o contrário.

Thursday, December 29, 2016

Doenças inflamatórias crônicas e miopia (o estado da arte)

Uma série de achados científicos recentes vem apontando para o fato de que existem doenças próprias às sociedades urbanas e industrializadas. As doenças inflamatórias crônicas e a miopia são um bom exemplo desse tipo de enfermidade.

A prevalência de miopia, nas sociedades urbanas e industrializadas, tem aumentado bastante nos últimos 50 anos e isso demonstra o quanto os fatores ambientais também são importantes na determinação desse tipo de distúrbio. Portanto, atualmente tem ganhado força a teoria de que a miopia é resultante de uma interação complexa entre predisposição genética e exposições ambientais.
As pesquisas mais recentes têm demonstrado que os fatores mais intensamente correlacionados à miopia são ambientes fechados e pouca luz natural, do sol.

A lista de doenças inflamatórias crônicas, por sua vez, é bastante extensa. Nela estão várias doenças das quais padecemos atualmente. Nessa lista estão incluídas as doenças de caráter alérgico e autoimune e talvez muitas outras que apresentam processos inflamatórios crônicos.

Somente para se ter uma ideia, eis uma lista das mais notórias: asma, bronquite, espondilite anquilosante, artrite, aterosclerose, doença de Crohn, retocolite ulcerativa, colite, dermatite, diverticulite, fibromialgia, síndrome do intestino irritável, lúpus eritematoso sistêmico e esclerose múltipla.

Em uma das maiores e mais recentes revisões científicas sobre o tema, a qual foi publicada em 2012, os autores escreveram assim:

“Embora os fatores genéticos tenham seu papel, a teoria imunológica atual foca na interação desses fatores com as exposições precoces e isso, em alguns indivíduos, resulta em uma desregulação do sistema imunológico.” (1)

Ou seja, há fatores genéticos, porém a interação precoce com o ambiente é também fundamental. E essa interação começa antes do nascimento, ainda em nível intrauterino, e se estende para a infância, durante a formação do sistema imunológico.

Nas sociedades urbanas e industrializadas ocorreu um processo de empobrecimento do microbioma: o ambiente urbano é microbiologicamente pobre. A diversidade de espécies de micróbios no meio urbano é menor do que nas regiões de matas e nos meios rurais que cultivam criações de animais. Então a redução da exposição a biomas mais diversificados (incluindo aí os microbiomas) seria um dos determinantes fundamentais dessa desregulação de nosso sistema imunológico e, consequentemente, do aumento da incidência de certas doenças inflamatórias.

Essas correlações começaram a ser estabelecidas a partir da investigação das doenças atópicas (provocadas por uma reação alérgica causada pela ativação da imunoglobulina E - IgE). Mas agora essas correlações tem sido observada em outras doenças tais como: “asma, a maioria dos tipos de artrite, doenças inflamatórias intestinais como colite ulcerativa e doença de Crohn, distúrbios neuroinflamatórios como a esclerose múltipla, aterosclerose, diabetes tipo 1, a depressão associada com o aumento de citocinas inflamatórias, e alguns tipos de câncer.” (1)

Portanto, de acordo esses achados científicos, se você quer tentar prevenir distúrbios como a miopia e as doenças inflamatórias crônicas em seus filhos, existem algumas medidas simples que podem ser tomadas, e que talvez eficazes.

No caso da miopia talvez seja válido estimular que crianças e adolescentes realizem mais atividades, durante o dia, ao ar livre, pois a luz do sol e ambientes abertos talvez possam ter um papel preventivo.

Por sua vez, para a prevenção de doenças inflamatórias crônicas, é importante saber que sua incidência é menor:

1. Em pessoas cujas mães, durante a gravidez, tinham verminose ou moravam na zona rural (com criação de animais). E boa parte dessas pessoas, livres desse tipo de doença, nasceram e cresceram em zonas rurais que têm criação de animais (de preferência de várias espécies).

2. Em populações que moram em zonas de mata ou bem próximas dessas zonas.

3. Em pessoas que pouco fizeram uso de antibióticos durante a vida.

4. Em pessoas com índices adequados de vitamina D, o que nos relembra novamente da importância dos banhos de sol, os quais são a melhor fonte para a síntese dessa vitamina.

5. Em pessoas com verminoses leves.

6. Em quem teve parto normal (vaginal) e teve amamentação para além dos seis meses de idade.
Abaixo uma das maiores e mais recentes revisões científicas sobre o tema, a qual foi publicada em 2012:


Portanto algumas medidas simples podem ser tomadas, com o intuito de tentar prevenir, ou diminuir os efeitos de algumas dessas doenças.

No caso da miopia, se você deseja atuar para tentar preveni-la em seus filhos, é importante a exposição precoce (na infância) ao sol e a ambientes abertos. Ou seja: é importante deixar que seu filho brinque, muito, fora de quatro paredes, fora de casa. Luz natural, do sol, e ar livre: eis os ingredientes.

Abaixo um artigo científico e uma reportagem da BBC sobre o tema:


A paz e o espírito

Desculpe-me, mas se você acredita em espiritualidade, em espírito, e que este se opõe à matéria, a esse mundo, não faz o menor sentido pedir nada, pra Deus, que não seja paz - se é que é possível se pedir alguma coisa pra Deus.

Se a espiritualidade ou o espírito transcendente existem, e em oposição à matéria, seu único porto, pilar, base ou fundamento, talvez seja mesmo a paz. Desse modo não faz sentido nem mesmo pedir pela cura de uma doença fatal, e muito menos por mais dinheiro ou bens de qualquer espécie. O exercício da espiritualidade deve almejar a superação dos determinantes materiais e corporais: a paz, nesse caso, não seria simplesmente o último refúgio do espírito, mas sim a sua única morada.

Ariano Suassuna e a esperança

"O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso." (Ariano Suassuna)

Mas, Ariano, a esperança é uma bosta:

“Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos." (Albert Camus)

“O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós” (...)

"Esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar. O sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito - já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade." (...)


“Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. A partir do momento em que esperamos a felicidade (“Como eu seria feliz se...”), não podemos escapar da decepção... É o que Woody Allen resume numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!” " (Comte-Sponville).

Referência:
Comte-Sponville, A. (2001). A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes

Saturday, December 24, 2016

"Japonês do Japão prova rodízio japonês do Brasil"

Está circulando um vídeo em que um japonês, do Japão, come em um rodízio de comida japonesa, no Brasil, e na maioria das vezes ele simplesmente cospe tudo, achando um horror, um nojo.

Eu é quem achei esse vídeo um nojo, e nem consegui assisti-lo até o final. Uma vez assisti a uma entrevista com um dos maiores pesquisadores acadêmicos (de universidade mesmo) do Japão na área de culinária japonesa, e esse pesquisador deixou uma coisa clara: é bom que o sushi ou a culinária japonesa se espalhe pelo mundo conforme as características de cada lugar, que cada um faça ou recrie o sushi como achar melhor.

A maneira como o brasileiro come sushi é somente a maneira como o brasileiro come sushi. Só isso. Menos etnocentrismo e mais tolerância e respeito pelas diferenças culturais, por favor.

Se um gringo tenta dançar samba é porque ficou admirado com algum aspecto de nossa cultura. Não faz o menor sentido ficarmos debochando de alguém que nos admira e respeita, assim como também não faz muito sentido você ficar se vangloriando por ter assistido a um programa, em algum restaurante japonês caríssimo, o qual caga regra de como exata e especificamente deve ser feito e comido o verdadeiro sushi.


Porque no final das contas é bem simples: o verdadeiro sushi é o sushi que cada um gosta de comer.

Qual é o sentido?

O sujeito estava passando na rua e, azar, um ladrilho, um único ladrilho, em anos, solta do reboco, cai na sua cabeça e ele morre.

Foi por acaso, sem causa? De forma alguma.

E por que isso foi ocorrer justamente com esse coitado que estava passando na rua?

Porque era ele que estava passando ali no momento.
Isso explica? Explica.


Isso nos consola? Não. Isso não nos consola e não tem sentido. É como a vida: não tem sentido. Se quiser, cada um que crie o seu...

Wednesday, December 21, 2016

"O que é Deus pra você?"

Hoje os usuários do CAPS, de meu grupo, quiseram falar de Deus. Uma das usuárias tomou a frente, e liderou essa atividade, proposta por eles mesmos.

Como ela sofreu algumas perdas muito dolorosas em sua vida, contou-nos que, após essas perdas, passou a não entender como seria possível a existência de algo como Deus (onipotente e absolutamente bom) a permitir a existência de tanta injustiça e sofrimento.
Após declarar isso, o discurso dela sofre um revés, e ela fala que já está recuperando sua fé, porém agora em outros moldes. Mas ela ainda parece ter várias questões sobre o que seria exatamente Deus pra ela, se ele seria algo muito similar a uma pessoa ou se ele seria simplesmente "energia" ou coisa parecida.

Tendo feito suas digressões sobre o tema, ela lançou uma pergunta para todos os presentes: "O que é Deus pra você?".

E ela queria muito que eu também dissesse, a todos ali, o que é Deus pra mim. Aliás, houve também uma certa pressão de todos os presentes para que eu também participasse. Estavam muito curiosos em saber o que eu pensava sobre isso.

- Se eu disser que Deus pra mim é a origem e o fim de tudo, a razão do universo e a substância primordial do amor, como vocês se sentiriam?

A maioria quase que absoluta respondeu que se sentiria muito bem ouvindo isso de mim.

- E se eu dissesse pra vocês que Deus, pra mim, não é porra nenhuma?

A maioria quase que absoluta disse que não se sentiria nada bem em ouvir isso de mim.

- E se eu dissesse a vocês que eu gostaria muito, que eu acharia maravilhoso que Deus existisse, que alguém de fato pudesse cuidar de nós, como vocês se sentiriam?

A maioria disse que seria muito tranquilo ouvir isso de mim.

Enquanto eles debatiam, rapidamente puxei algumas palavras de Clarice Lispector:

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."


Senti que a situação exigia delicadeza e vínculo, com um nível um pouco maior de reciprocidade, e não simplesmente uma abstinência que instala algumas porções de deserto entre as pessoas. Senti-me mais próximo deles, e espero que também tenham se sentido mais próximos de mim. No final, após termos aprofundado a questão, segundo as possibilidades e limites de nosso contexto, um número maior de usuários, do que de costume, veio me abraçar...

Cuidado com seus desejos (texto de 2007)



 Há duas catástrofes na existência: a primeira é quando nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando o são.

George Bernard Shaw


Boa parte de nossos dramas existenciais e da conquista de bem-estar psicológico podem ser relacionados ao modo como lidamos com nossos desejos. Há quem pregue a completa renúncia ao desejo. Afirmam que nele estaria a fonte da infelicidade. Neste caso, em tese, só desejamos aquilo que não possuímos. Logo, ao obter o que desejávamos, já não o queremos mais. O que nos incluiria em um ciclo de perpétua geração da insatisfação. Esta só existe se há desejo. Se há insatisfação, infelicidade, elas geralmente existem porque algum desejo não foi satisfeito.

A felicidade, ou a alegria, seu representante elementar, são frutos da realização de desejo. Se alguém está alegre ou feliz é porque algum desejo foi ou está sendo satisfeito. Portanto, neste contexto de argumentação, a afirmação de que renúncia ao desejo seria um caminho para a felicidade é insustentável. Na verdade, o foco deve ser mantido no modo como desejamos. Não se trata, em termos absolutos, de haver desejo ou não. Pois o desejo é o motor. É ele, de certo modo, quem nos mantém vivos. Sem desejo não há ação.

Segundo Luc Ferry (2007), a sabedoria antiga, por meio da escola estóica, nos ensina muito acerca da temperança e da resignação: desejar somente aquilo que dependa diretamente de nós; jamais despender energia e esforços para com o que é improvável; e, no eixo do tempo, não lamentar passado nem esperar nada do futuro. Ao invés de esperar, agir, e no agora. Há um foco na ação e no presente. Os estóicos concebem a esperança e a nostalgia como verdadeiros atrasos de vida. Devem ser expurgados de nossa existência. “Não chorar o leite derramado"; não criar expectativas demais”; “não viver em função de passado nem de futuro”: é mais ou menos nestes termos que estas questões são expressas pelo senso-comum.

Da minha leitura de autores que escreveram sobre o desejo, fica uma formulação, um valor que procuro também adotar para minha própria vida. Tento sintetizar, da forma mais simples possível (ou até simplória – talvez seja o caso), um imperativo moral no seguinte enunciado:

“Desejar mais o que já se tem e menos o que ainda não tem”.

A primeira é a classe dos desejos imediatamente possíveis. E a segunda é a classe dos desejos prováveis. Colocados na balança de nossa vida, é mais prudente que existam, em maior peso e número, os imediatamente possíveis. Esta classe diz respeito a tudo aquilo que desejamos e que pode ser imediatamente realizado. É desejar o que já se tem. É desfrutar de tudo aquilo que já possuímos. É dar valor ao que temos. Eis a gratidão, como uma virtude, e sua importância.

Os jargões populares “só dá valor quando perde” e “não dá valor ao que tem” traduzem de certa forma o erro: desejar somente o que não possuímos, deixando de lado toda uma vida possível e palpável, a qual poderia ter sido desfrutada e não foi. Sinto da seguinte maneira: não é necessário abandonar nossos sonhos. Mas é muito pouco saudável viver somente em função deles, sacrificar nossas possibilidades de fruição e prazer imediatos em prol de castelos no ar.

E o que seria desejar o que já se possui? Muito simples. É desejar o que é imediatamente possível. Por exemplo: desejo chegar hoje em casa e tomar um bom e relaxante banho; desejo comer lasanha no almoço; desejo, após o almoço, tirar uma boa soneca; desejo agora estar aqui, escrevendo este artigo, e estou. Nada disso é simplesmente provável. São eventos que estão imediatamente ao meu alcance. E não dependem predominantemente de terceiros ou sorte. Lembro de Sartre dizendo coisa parecida: se depende dos outros ou da sorte, então desista e vá dedicar sua energia em algo mais útil.
É a tristeza do torcedor, do fã, dos idólatras como um todo. É remoer-se por algo que não depende de nossos próprios esforços. É colocar todas as fichas de nossas apostas vitais em algo que está fora de nós mesmos. É abrir mão de nossas responsabilidades e de tudo o que podemos fazer por nós próprios, na esperança inútil (sempre inútil, segundo alguns autores) de que algo decisivo aconteça, de que alguma graça caia do céu.

Há, porém, distinções e sutilezas existentes entre os conceitos de desejo, vontade, e esperança, por exemplo, que ser realizadas. Segundo Comte-Sponville, em seu belo ensaio “A felicidade, desesperadamente” (2005, p. 60), pode-se desejar o que depende de nós (vontade) e o que não, de nós (esperança). Diz que toda esperança é um desejo, mas que nem todo desejo é uma esperança. Pois é possível desejar o que já possuímos, o que é imediatamente possível. E isto seria o que ele chama de “felicidade em ato”. Mais bem-estar significa mais felicidade em ato e menos felicidade em potência no balanço de nossa vida.

Seria tirar a vida do condicional, do “como eu seria feliz se isso ou se aquilo”. É fazer o que se tem vontade, o que se gosta, aqui e agora. O que se pode fazer e não o que se poderia fazer. Tirar proveito, prazer, de tudo o que já temos, por mais simples que seja. Uma sabedoria da simplicidade, dos pequenos prazeres da vida, muitas vezes.
Comte-Sponville defende que a conquista da felicidade se dá por meio de um “alegre desespero”. E o sentido palavra desespero, neste caso, remete à ausência de esperança, a qual ele, e boa parte da história da filosofia, repudiam. Neste sentido, ter esperança, esperar, (ou seja, desejar o que não depende de nós mesmos) é desejar sem gozar, sem poder e sem saber. Sem gozar, pois não que desejamos. Sem poder, pois não que desejamos e nem somos capazes para tal. E sem saber, pois nosso desejo é somente uma aposta à derivar pelo oceano do acaso, na crença de uma fortuna remota.

A esperança – ao contrário da vontade, a qual está centrada na ação e em objetivos mais concretos e imediatamente possíveis – é um desejo miserável. Não consigo deixar de ver relação com o dito “sonhar alto”, o qual não vejo com bons olhos. Logo sinto o cheiro de megalomanias, adolescência ou o mercado da venda do sucesso no ar. Não que sonhar alto seja condição para realizar o que quer que seja. E em muitos casos, como nas manias, o preço do sonhar alto é a negação da realidade mais imediata e concreta. Há desprezo pelos passos mais próximos, pela humildade de saber se colocar na realidade, e um desespero sentido de aflição em pular etapas. Como se pudéssemos viajar sem percorrer qualquer caminho.

Tive um paciente acometido por megalomanias. O que mais fazia era sonhar alto. E quanto maior o sonho, maior o tombo, se este não for realizado. Maior a frustração. E quanto maior for esta, mais sólida terá de ser a estrutura do sujeito para o fracasso, para a perda, pois maior é o luto a ser justamente elaborado, o que não costuma ocorrer com quem sonha alto demais, com os megalômanos. Eles sonham alto para se esconder, para fugir do peso da realidade. E ficam presos a um ciclo vicioso. Seus castelos no ar se desmancham e caem no fundo do poço da frustração. E voltam a sonhar alto, porque é isso, no seu modo de funcionamento, o que lhes resta.

Desejando avidamente tudo o que não possuem, tudo o que está distante, tropeçam no passo mais próximo. Aliás, a avidez, o excesso de energia que concentramos em um único ponto de nossos desejos, é também geralmente nefasta. Jargão popular: “não ir com muita sede ao pote”. Em muitos casos uma atitude mais desprendida e desapegada do objeto de desejo é mais salutar.

Porque a avidez é irmã de uma ansiedade contraproducente, a qual atropela ou violenta o objeto de desejo, em vez de conquistá-lo. Bota o carro na frente dos bois. É mãe de uma impetuosidade viciosa. É a voracidade que não saboreia, o desejo intenso que é inimigo da espontaneidade, pois é mistificação excessiva, tornar fetiche o que não se possui. É desejar possuir antes de conhecer. O ter antes do saber. E talvez uma desesperada paixão pelo êxito.

Então, retomando o título do artigo: “Cuidado com seus desejos. Você pode realizá-los.” Este é o dito popular em sua forma completa. Porém, pode haver diferentes apropriações do mesmo. Pode-se compreendê-lo pelo viés da capacidade, do sucesso, ou mesmo da decepção. O primeiro sentido seria: você é capaz de realizá-los. Ou: a possibilidade de realização é maior do que você imagina. Acaba atuando como uma forma poética ”de estimular o desejo, o sonho, ou a aposta.“

E na verdade é isso o que o mercado do sucesso, da auto-ajuda, em boa medida, faz: cria legião de apostadores. Vive de vender apostas. De estimular o comportamento de jogo, de aposta. “É necessário desejar (pois assim o universo conspira a favor”), sonhar, acreditar, ter fé, esperança, pensar positivo”.

O segundo sentido refere-se à possibilidade de realização, mas levando-se em conta também a possibilidade da decepção. E este seria o segundo tipo de catástrofe que acomete a existência: quando nossos desejos são satisfeitos. E é para o que chama atenção a frase de Bernard Shaw.

Muitas vezes, devido a avidez ou ambição excessivas, criamos tantas expectativas em relação à realização de determinados desejos, que nos esquecemos de todo o restante da vida. Passamos a habitar as nuvens e assim deixamos de viver. E nos esquecemos também que frustrações e decepções não são somente frutos do fracasso. Elas podem surgir da simples percepção de que nossos objetos de desejos não são tão fabulosos quanto nossa sede os fazia parecer. Porque a idolatria quase sempre desemboca na decepção. O olhar faminto adultera e diviniza o objeto da fome. Assim, o desejo, o sonho, é traduzido em necessidade vital (com o perdão do pleonasmo).

É este mesmo o mecanismo: transformar o sonho em algo vital; e a probabilidade em certeza. O sonho realizado ou a morte. E assim muitos sonhadores deixam de viver, para viver sonhando.

Referências

Comte-Sponville, A. (2004). Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes.
__________________ (2005). A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes.

Ferry, L. (2007). Aprender a viver. São Paulo: Objetiva.

Wednesday, December 07, 2016

Dicas de português

Em duas frases curtas, e geniais, algumas dicas de português e um pouco de humor:
"O mau, educado, não é bom."
"Se você me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase."

Tuesday, November 08, 2016

Olho azul

Duas crianças aqui no condomínio onde moro fizeram comentários engraçados (ou até um pouco tristes, talvez) sobre a cor dos olhos de minha filha:

- Eu tenho inveja dela - disse um menino de 8 anos de idade.
- Nossa, por quê?

- Porque ela tem o olho azul. Tomara que mude...

- Eu queria ser ela - disse o outro, de 6 anos de idade.

- Como assim? Por que você queria ser ela?

- Ah, eu queria ter o olho azul. Eu nunca tive olho azul...

Maiêutica com crianças

A maiêutica é uma técnica fecunda, poderosa para a produção de conhecimento, e também muito divertida. Isso é facilmente observável na interação com crianças.

Ontem eu estava no parquinho do condomínio, com minha filha, e três crianças dialogavam como se fossem adultas: duas com 6 anos e outra com 9 anos de idade.

- Passou agora no Jornal Nacional: o Estado Islâmico invadiu duas cidades - dizia o menino de 6 anos.

- E quais cidades o Estado Islâmico invadiu? - perguntei.

- Invadiu duas cidades dos Estados Unidos.

- O que é o Estado Islâmico?

- Eles são terroristas!

- O que é terrorista?

- É gente que mata as pessoas.

Como fiz muitas, e outras perguntas além dessas poucas que transcrevo aqui, como se eu não soubesse absolutamente nada a respeito do que eles estavam conversando, o de 9 anos me indagou:

- Poxa, tio! Você não sabe nada!

Jogou um chinelo no chão e me perguntou o que era aquilo, e eu prontamente respondi que era um chinelo:

- Pô, pelo menos isso você sabe né, tio... Pelo amor de Deus!

- E por que o nome é Estado Islâmico? Se eles são terroristas e matam pessoas, o nome teria que ser Estado Matador, não?

Ficaram um tempo meio atônitos, sem conseguir me responder. O mais velho continuava intrigado com minha aparente ignorância:

- Poxa, tio, você faz cada pergunta...

Até que o menino de 6 anos teve um brilhante insight:


- É islâminico, tio, por causa de lâmina. Eles cortam as pessoas!

Wednesday, November 02, 2016

"Tá podre" (uma história do livro "Eu vou hipnotizar você...")

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Certa vez, em sala de aula, expondo os motivos pelos quais Freud havia abandonado a técnica da hipnose, dispus-me a fazer uma demonstração. Até aquele dia eu havia tentado inúmeras vezes, por anos a fio, mas sem sucesso. Disse aos alunos que era uma técnica muito cansativa e que era muito difícil hipnotizar as pessoas, que a maioria não era hipnotizável. Ou seja, eu estava não somente falando de minha experiência, mas também do que Freud havia relatado há cerca de um século atrás e dos dados científicos consolidados sobre suscetibilidade hipnótica. 

Eu havia aprendido os fundamentos com meu irmão mais velho, o dentista. E tentara, assim como ele, em vão, hipnotizar amigos e familiares. Não tínhamos qualquer reflexão ou concepção teórica sobre o assunto. Como ele havia sido uma excelente cobaia em meio aos dentistas com os quais fizera o curso de hipnose, alimentávamos a expectativa de que poderíamos obter os mesmos resultados com qualquer outra pessoa. Ele havia sido um excelente sujeito para a demonstração de anestesia hipnótica. Seu professor e colegas espetaram agulhas por todo o seu corpo. E esta é geralmente uma espécie de demonstração derradeira, a mais convincente. Uma coisa é fingir alucinações e delírios, outra, bem mais difícil, é a capacidade de continuar fingindo, mesmo diante de estímulos dolorosos. 

Havia, para nós, alguma realidade na hipnose. Porque, senão, Edu, bom cético que era, teria sido o primeiro a rejeitá-la. E pelo contrário, lá estava Edu sendo trespassado por agulhas em diversas partes de seu corpo. Dando seu valioso testemunho, prático e vivo, de algo fenomenal. 

Porém, saindo da dimensão de excelente sujeito para a hipnose que era Edu, a coisa ficava bem menos convincente. Era tentar hipnotizar, a quem quer que seja, e os resultados eram sempre bem mais modestos e frustrantes. Nesse aspecto, pelo menos, o determinante mais evidente não é técnica de indução hipnótica, mas sim o próprio sujeito que a ela se submete. Dispondo de sujeitos facilmente hipnotizáveis, basta pedir que se concentrem e todo o processo assim se desenrola. 

Mas, e se estes sujeitos, tidos como facilmente hipnotizáveis, não tiverem tido qualquer espécie de treinamento hipnótico? Iogues, por exemplo? O que dizer deles? Possuem outros métodos de concentração, os quais podem não ser exatamente os mesmos que nós ocidentais chamamos de hipnose. Ou poderiam ser vistos como fundamentalmente os mesmos? Se forem os mesmos, a hipnose não é a única via para se obter determinados estados de consciência. Neste caso, ela perde sua aura de técnica única, exclusiva, especial. Por outro lado, se os fundamentos forem os mesmos; ou seja, se tanto hipnose quanto ioga, por exemplo, possuírem os mesmos fundamentos técnicos, ela (a hipnose) não representa nada de novo e nem de especial também. 

Se é diferente, mas obtém os mesmos resultados que outra coisa já existente, porém mais simples e acessível, por que seria mais vantajosa? E se compartilha dos mesmos fundamentos técnicos, por que tratá-la como absurdamente diferente? Qual é a função de se fazer a mesma coisa que os outros e, contudo, dar um nome diferente? Sim, não podemos esquecer que existem histórias diferentes. Ioga e hipnose nascem em contextos totalmente diferentes e suas especificidades devem ser resguardadas. Porém, por outro lado, perceber semelhanças em seus fundamentos técnicos pode também, por meios comparativos, ajudar a compreender melhor estas práticas. 

Porém, não há como negar, tanto hipnose quanto ioga são muito mistificadas. A ioga está tradicionalmente mais próxima de práticas religiosas. A hipnose, por outro lado, volta e meia aparece e reaparece reproduzindo mitos dentro até mesmo do próprio universo científico. Chega com pose de ciência e quebra as pernas de muitos pesquisadores, expondo feridas metodológicas e confusões conceituais. 

O hipnotista ordena e o hipnotizado realiza o que é ordenado. Esta talvez seja ainda uma boa definição: pertinente, objetiva e simples. Ainda não é possível dizer exatamente o que se passa na cabeça dos hipnotizados. Se estão somente colaborando ou se há mesmo significativas alterações de consciência. Há teorias e evidências em ambas as direções. Ainda não há consenso científico. 

Por que Freud abandonou a hipnose? Este era o tema da aula que comecei a relatar no início. Vamos então aos motivos de Freud: 

1. A hipnose não mais servia aos seus objetivos específicos. Sua intenção era recuperar memórias esquecidas, recalcadas. Percebeu que a hipnose deixava os pacientes em um estado muito primário de funcionamento mental. Fantasias eram produzidas em profusão, o que facilitava a produção de falsas memórias. 

2. A hipnose tinha se transformado para Freud em uma técnica muito cansativa. Não tinha mais paciência para ficar repetindo comandos indefinidamente, com o objetivo de fazer com que adultos “dormissem”. Tinha dificuldade em hipnotizar todos os pacientes, além de não concebê-la como uma ferramenta eficaz em termos etiológicos. Ou seja, além de não servir ao seu propósito principal (a recuperação de memórias), era também enfadonha. 

Sua dificuldade em hipnotizar todos os pacientes é atestada pelas pesquisas de suscetibilidade hipnótica. Somente cerca de 15% das pessoas são facilmente hipnotizáveis. Para o restante, a maioria, é necessário mesmo uma certa dose de paciência. 

Minhas idéias sobre a hipnose, até aquele dia, naquela aula sobre a relação de Freud com esta técnica, era totalmente endossada pelos argumentos do pai da Psicanálise. 

“Mas, a hipnose, professor? Existe mesmo?”, perguntavam alguns alunos, mortos de curiosidade. 

“Vocês querem fazer um teste? Podemos realizar um teste. Quem se dispõe a ser sujeito de alguns testes?”, indaguei. 

Um aluno levantou a mão. Era um rapaz muito jovem. Tinha menos de 20 anos de idade. Cursava o terceiro semestre e sempre aparecia com perguntas ora muito suaves ora constrangedoras, muitas vezes ingênuas e até pueris. 

Fiz tudo o que recomendam os mestres e manuais da área, com paciência e perseverança. Em um determinando momento, depois de muito relaxamento, pedi para que ele me dissesse o que estava vendo. Disse que não via nada, que estava escuro. 

“Então acenda a luz”, sugeri, buscando estimular sua imaginação. 

“Acendeu” e começou a descrever onde estava. Estava em casa, lendo. Pedi para que me descrevesse tudo o que estava fazendo e onde estava. 

Passado um certo tempo, resolvi fazer alguns testes, sugerir algumas imagens e sensações. Em um determinado momento peguei um estojo de lápis, feito de borracha, e ordenei que o comesse, pois era uma maçã. O rapaz morde o estojo e o arremessa ao chão. Pensei: falhou novamente! Ele obviamente percebeu que não é uma maçã. Eu sabia! Eu e Freud, juntos, não poderíamos estar duplamente enganados. 

“O que houve?” 

“Tá podre!”, respondeu. 

Sim, para meu espanto e de todos os presentes, ele se comportava tipicamente como alguém hipnotizado. 

Quem observava, como costuma ocorrer neste tipo de situação, ficou perplexo. A partir deste momento, o entendimento do que pode ou não estar ocorrendo geralmente fica comprometido. Os eventos podem se suceder de modo inusitado. Algumas pessoas parecem perder o controle. Podem falar ou agir de modo bizarro. E é exatamente isso o que acho de interessante nas induções hipnóticas. 

“Quanto mais bizarra é uma experiência, mais proveitosa ela é”. Conheço esta frase, deste modo, há muito pouco tempo. Mas manifestações bizarras sempre me despertaram grande interesse. O diferente, o inusitado, abrem novas perspectivas. São rupturas de padrão, fluidez. Abrir-se para o que é estranho é parte importante de um processo de exploração que se expõe a novos horizontes, mesmo que ainda não dotados de sentido. 

Um colega meu dizia assim: “o ridículo move o mundo”. E sempre compreendi da seguinte maneira: agir sem medo de errar, de ser diferente. Assumir nossos próprios defeitos e deles tirar algum proveito. Daí meu apreço pelas formas inusitadas, pelo nonsense, pelo bizarro. Novas formas de expressão e, portanto, de compreensão também. Novas alternativas, brotadas da loucura. 

Dou valor ao insólito, ao bizarro, na proporção de uma crença que carrego há um certo tempo: a crença no poder da expressividade. As psicoterapias, de modo geral, e as artes, como um todo, possuem esta crença: expressar e, brincar, curam. A expressão é curativa. E o que seria expressar bem? Não seria esta a principal tarefa das artes, expressar melhor? Ou de formas alternativas, que possam abrir novos horizontes de compreensão e, portanto, de solução para uma infinidade de dilemas humanos? 

Vejo a hipnose como um tremendo recurso expressivo. Acerca disto, para mim, não há qualquer questão. Muito freqüentemente expressões inusitadas ou mais intensas são despertadas. Possui um significativo valor catártico. E a catarse, a purgação dos afetos, a qual é popularmente conhecida como desabafo, desempenha um papel muito importante na psicoterapia. Sem desabafo não há terapia. E as artes estão todas aí para nos ensinar a expressar melhor o que sentimos e ainda não sabemos colocar em palavras. E esta expressão pode se dar das mais variadas formas. 

Acredito nisto. Tenho um percurso em Psicanálise. A influência que ela absorveu do Romantismo diz o seguinte: a loucura, enquanto método, enquanto caminho, pode ser de grande valia. E o que é sua regra principal, a da associação-livre? Dizer tudo o que ocorre à mente, sem restrições, nem ponderações, do modo mais imediato e espontâneo possível. Isto tem nome: loucura, como método, como meio. Jamais pode ser feito fora de seu ambiente propício, onde o inusitado e o censurável não sejam acolhidos. A associação-livre é um legado romântico que Freud aproveita a favor de seus objetivos psicanalíticos. A loucura como meio (associação-livre), a razão e a saúde como fim. 

A paranóia freudiana de que nada é por acaso ou de que tudo, em termos inconscientes, tem um sentido, exige a loucura como um meio: deixar o inconsciente fluir. Permitir um pouco de loucura. Ela é o caminho para uma razão libertadora. Para saber melhor o que sentimos, ou o que nos move, é preciso soltar um pouco os bichos. É preciso viver, envolver-se, atuar, relacionar-se. Ou permitir, em sessão, que isto de alguma forma se manifeste. 

Naquele dia havia um funcionário da universidade a observar pelo vidro da porta tudo o que ali se passava. Comentava com algumas alunas que não acreditava em nada do que estava acontecendo, que tudo não passava de encenação. Terminei a sessão com o aluno e este funcionário adentrou a sala, dizendo que também queria ser submetido à hipnose. “Temos pouco tempo, somente cerca de quinze minutos. Mas podemos tentar...”, respondi. Ele topou. Pensei: vou pedir para que se recline na cadeira, para que fique na posição mais confortável possível, que procure dormir. Afinal estávamos praticamente no horário de almoço, um horário muito propício ao sono. 

Em um mesmo dia, duas situações novas e diferentes. Primeiro um diz que “tá podre” ao morder um estojo de borracha. E logo em seguida adentra a sala alguém que duvidava daquilo tudo, em tom desafiador. O que eu, por sorte, nem havia percebido. Senão nem tentaria nada, pois eu não tinha objetivo nenhum de provar nada, nem de defender a hipnose como uma técnica eficaz ou legítima. 

A sessão prosseguiu. E lembro, com ele, de ter feito algo parecido: pedi para que comesse um estojo ou coisa semelhante, dizendo que era um barra de chocolate. Ele fez tudo o que pedi. Mas não tive muita confirmação se somente obedecia ou se estava em um estado alterado de consciência. 

Quando terminamos, ele disse que havia sido uma experiência fascinante. Não tivemos tempo para conversar mais nada. Era o fim da aula. Fomos todos embora. Dias depois, uma aluna veio me contar que ao perguntar a ele, nos corredores, como fora a experiência, ele descreveu a ela que havia comido, durante a sessão, uma barra de chocolate. 

“Não. Ele te deu um estojo. Você ficou mordendo um estojo”, respondeu ela. 

“Que isso? Você tá louca. Não paguei esse mico não. Lembro bem, era uma barra de chocolate.” 

Ele tinha a firme convicção de que havia comido chocolate e não estojo. A aluna relatou isso em sala. Os alunos ficaram muito impressionados. E eu continuei sem entender nada. 

Que mecanismo é este? Duvidar, desafiar e em seguida dobrar-se ao espetáculo, à influência de outra pessoa? O que fez com que perdesse sua capacidade de oposição, de ver com os próprios olhos? De sentir por si próprio? Sentiu o que lhe foi ordenado (ou sugerido) sentir. Isto é de fato possível? Foi “hipnotizado” por mim. 

Ser hipnotizado, segundo algumas teorias que já li a respeito, pode tanto ser fruto de uma sedução quanto de uma opressão, de um medo. Tanto sedução quanto medo são hipnotizantes. Faz o sujeito agir e perceber como queremos. E no caso deste funcionário, o que aconteceu? O que foi determinante para que ele fosse dominado do modo como foi? A pressão do grupo? : “Colabore conosco. Veja e sinta o que estamos todos ordenando. Senão você será linchado”. Seria esta a mensagem implícita, inconsciente? Ou seria a imagem que ele tinha de mim, o efeito da pré-sugestão, da expectativa de que o hipnotista é infalível? 

A pré-sugestão, não podemos nos esquecer de seu poder, ela sim é infalível. Penso que muitos hipnotistas se iludem, ao pensar que possuem uma técnica infalível. Pré-sugestão é fundamental. Ela pode ser definida como todo o conjunto de sugestões que bombardeam o sujeito antes de qualquer procedimento. Está mais do que evidenciada, seja por pesquisa sistemática, seja de modo informal. Quanto maior a expectativa depositada no hipnotista de que ele possui uma técnica eficaz, fulminante e especial, maior a pré-sugestão. Assim, mais da metade do trabalho já está realizado. Muitos hipnotistas já fizeram este teste.

Anunciam ao público a apresentação de um “grande” mestre da arte da hipnose. E basta o sujeito a ser hipnotizado depositar bastante autoridade na figura do hipnotista, que este se transforma num grande mestre, independente de quem seja. Se o público acreditar não importa nem mesmo se há experiência na área ou não. Pensam, e dizem: é um grande hipnotista que veio da Europa, dos Estados Unidos, professor e um dos maiores conhecedores do assunto, e com certeza isto já desempenha um papel absurdo na indução. 

Basta pegar alguém que possua pelo menos a aparência de ser um grande hipnotista. Pode ser simplesmente um leigo. É muito interessante. Isto com certeza demonstra que a técnica não é o mais importante. É mais relevante o valor que as pessoas depositam no sujeito. Acreditar e confiar constitui a maior parte do processo. Autoridade vale mais do que técnica, habilidade ou conhecimento. E esta autoridade, mesmo que falsa, pode funcionar muito bem. 

Daí o fato de ser geralmente tão difícil desvincular a hipnose do ilusionismo, da enganação. Há profissionais que se apoiam totalmente nesse aspecto. Vivem praticamente da imagem de competência que nutrem diante de seu público ou clientes. Universo, muito geralmente, em que o parecer vale bem mais do que o ser competente. É o efeito placebo alçado à sua dimensão talvez mais elevada. 

Dias depois, eu uma outra professora, reparamos que aquele funcionário, tido por muitos como arrogante, era agora bem simpático e receptivo para com minha pessoa. 

“Ué, Adriano? Esse funcionário não é simpático assim com ninguém...”, indagou ela, um pouco espantada. 

“É verdade. Acho que foi a hipnose. É assim mesmo, depois que a gente hipnotiza, a pessoa fica apaixonada.”

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