Friday, June 01, 2018

Como mudar?

Uma das coisas comuns que costumo ouvir, principalmente de psicólogos, é que, para resolverem suas pendências em seus relacionamentos pessoais, as pessoas teriam geralmente de permanecer nos mesmos relacionamentos, porque o problema, no final das contas, seria sempre algo que vem da própria pessoa. Ou seja: o defeito está sempre em você, e não adianta ficar mudando de lugar, casamento ou namoro. Tem que parar e resolver as coisas com as pessoas com as quais você está convivendo. Há aí uma concepção de que a responsabilidade é sempre da pessoa, e que o término de alguns relacionamentos simplesmente faz com que ela fique fugindo o tempo todo.

De modo geral costumo ter outra abordagem. Gosto de prezar pela simplicidade e praticidade. Acho que um psicoterapeuta também deve almejar resolutividade. Então, nesse sentido, concebo que algumas mudanças aparentemente simples podem ter efeitos duradouros.

Quando falo em mudança, falo em mudança nas interações com o mundo e com as pessoas, e essas mudanças podem se dar pela mudança de endereço, de escola, de local de trabalho, de país, de relacionamento afetivo ou de círculos de amizade, por exemplo.

Para exemplificar eu gostaria de relatar, com os devidos resguardos à privacidade, dois casos que acompanhei há alguns anos.

Tive um paciente que me relatava uma angústia constante. Era solteiro, por volta de 25 a 30 anos de idade. Tinha uma condição financeira de alto nível, aparência muito boa e também um trabalho como servidor público que lhe remunerava muito bem. Era de uma família rica. Era alguém que estava dentro dos ideais de beleza masculinos que existem atualmente. Tinha facilidade no trato social: conversava com facilidade, tinha bom senso de humor e conseguia seduzir as mulheres com bastante facilidade. Tinha de tudo, do bom e do melhor. Resumindo: homem, branco, heterossexual, dentro dos padrões de beleza, sociável, elegante charmoso e abastado.

Não relatava relacionamentos conflituosos com os pais, com seus relacionamentos afetivos amorosos nem com ninguém da família. Tudo indicava que não havia algo de significativo nesse campo. Contudo não podemos subestimar o papel que as interações com outras pessoas tem na vida de todos nós. E é geralmente isso que está comprometido quando alguém está com algum problema.

Uma pergunta que fiz a ele foi crucial para começarmos a compreender melhor o que estava acontecendo. Perguntei a ele sobre quando em sua vida havia tido mais tranquilidade, ou podia dizer que havia sido feliz. Relatou-me que fora muito feliz por alguns meses. Em algumas situações específicas havia sido muito feliz, por duas vezes, quando havia morado fora da casa de seus pais, em outras cidades.

Procurei ouvir um pouco mais sobre isso, tentando rastrear todos os detalhes possíveis, e não foi difícil de perceber o que estava em jogo. Viver com seus pais é que era o problema. Era servidor público, com uma remuneração boa, bastante digna. Porém, para seus pais, aquilo era muito pouco. Inclusive era motivo de vergonha, por exemplo, ter um carro popular, e ele estava querendo comprar um carro popular. O nível de sua situação era esse.

Uma coisa para mim, em uma situação dessas, é muitíssimo simples: ele deveria simplesmente sair da casa de seus pais. Como terapeuta eu não devia tentar insistir em ajustar os relacionamentos com seus pais. Acho que isso tende a ser mais trabalhoso e com resultados mais duvidosos. Penso que ele, indo para um outro lugar, ou morando com outras pessoas, iria aprender novas formas de interação.

Insistir numa interação já estereotipada e desgastada possui possibilidades remotas de sucesso. É mais fácil consertar uma relação estragada por meio de novas relações, pela renovação de interações e de formas de interação, do que na insistência em uma situação onde imperam papéis estereotipados. É muito mais simples investir em algo novo do que tentar investir em alguma coisa que simplesmente já se perdeu.

Em pouco meses ele já havia se mudado de casa e boa parte de suas dificuldades haviam sido completamente superadas. Seus problemas obviamente não acabaram. E também, ainda em psicoterapia, havia muito o que aprender em suas novas interações, porque isso não havia ocorrido em seu ambiente familiar, por exemplo, e nada disso havia sido monitorado ou supervisionado por um psicoterapeuta.

Outro caso que eu gostaria de citar é o de uma mãe que durante muito tempo teve diversas dificuldades com seu filho único. Desde que ele adentrara a adolescência o relacionamento dos dois ficou bastante conturbado. Ele já tinha mais de 20 anos de idade, e ela parecia obcecada por ele e pela vida independente que já levava, de certo modo, desde a adolescência. Como mãe suas preocupações eram constantes, e eram grandes os conflitos sobre os caminhos que ele havia escolhido, além do fato de já não sentir mais que o filho tinha tanto apego a ela como quando era criança.

Porém, houve uma ocasião em que ela me comunicou sobre a possibilidade de viajar e ficar fora de casa, longe de seu filho por cerca de seis meses ou mais. Percebi que aí havia uma oportunidade de mudança, que ela poderia aos poucos, longe dele, ir substituindo o laço afetivo intenso e obcecado que tinham. A distância e o novo ambiente facilitariam a incursão em novas interações.

Seis meses depois, inclusive sem ter tido contato também comigo, ela retornou:

"Foi muito bom! Eu me libertei de meu filho."

Foi muito mais simples e prática a distância e um novo ambiente, com outras pessoas, para que pudesse incursionar em novas interações, e aprender novas formas de lidar com as pessoas, ou então pelo menos conseguir esquecer e se desvencilhar de um amor mal resolvido, não correspondido, frustrado. O que de certo modo também reitera o ditado de que tempo e distância são remédios para muita coisa nessa vida.

Eu diria, então, que o que era inteiramente uma hipótese para mim agora está bastante claro e em consonância com o que venho observando, há um bom tempo, em minha prática clínica. A mudança fica muito mais facilitada quando ocorre uma renovação significativa de ambiente, quando os atores, as pessoas em questão se alteram, quando existem outras pessoas para o sujeito poder interagir, quando é possível escapar de relacionamentos que estão marcados por estereotipias, pois os estereótipos de papéis dificultam muito a mudança, principalmente em contextos familiares. As outras pessoas geralmente esperam a mesma coisa, o mesmo tipo de comportamento, por mais que esse comportamento, em seu discurso, seja representado como inadequado ou inconveniente. É importante não se esquecer que a abordagem sistêmica em psicoterapia tem muito o que ensinar a respeito disso...

Portanto, para quem quer mudar, eu diria que é possível mudar, insistindo na mudança em seus relacionamentos já velhos e desgastados. Isso é possível, porém penso que é muito mais prático, e talvez mais rápida a mudança se você simplesmente disser adeus. Diga adeus e vá para outro lugar. Vá conhecer outras pessoas e estabelecer novos horizontes. Alguém dificilmente muda se continuar interagindo com as mesmas pessoas que sempre interagiu. E creio que é assim que a vida da maior parte das pessoas de fato encontra renovação. Parece óbvio, mas o comportamento de muitas pessoas, de continuar insistindo nos mesmos relacionamentos, contraria um pouco essa obviedade aparente.

E uma grande dificuldade é muitas vezes o desgaste nos relacionamentos. Se após as devidas ponderações e reflexões, junto ao paciente, ele decidir que irá tentar permanecer no relacionamento em que já está, a mudança será incentivada através da proposição e obediência a novas regras, as quais muitas vezes também contemplam por uma certa renovação no círculo de influências.

Porque é muito difícil, por exemplo, uma mudança no sentido de um homem começar a ter comportamentos menos machistas, em um relacionamento conjugal, se seu círculo de amigos, de influência, é bastante machista.

Sobre essa questão do machismo inclusive pude atender um paciente que tinha um problema sério com sua ex-esposa. Ela não era mais sua esposa há alguns anos, e mesmo assim ainda era fonte de muitos problemas.

Haviam se separado devido a infidelidade por parte dela. E a vida dele havia simplesmente despencado depois da descoberta de sua infidelidade. Percebi, juntamente com ele, que o que mais o fazia sofrer era a pressão de sua família para que ela fosse agredida ou morta, coisa que ele não fez. Quando o adultério dela se tornou público, o status social dele despencou.

Os grupos sociais com os quais ele convivia eram extremamente machistas. Nesse contexto, ele não ter matado a mulher ou o amante dela gerava-lhe bastante sofrimento. Acreditar que ele iria resolver o problema dele continuando a conviver com as mesmas pessoas seria insensato. A renovação de seu círculo de influências era algo urgente, e essa oportunidade logo se insinuou com a possibilidade da mudança de endereço. Foi essa a meta que estabelecemos na última vez em que nos vimos. Contudo não mais o vi, e não sei se veio de fato a se mudar, para ficar longe daquelas pessoas que o influenciavam de modo bastante nefasto.


Conseguir dizer adeus, e ir embora, é muitas vezes o primeiro passo para um processo de construção de uma nova identidade. E isso não encerra com o trabalho de prevenção de generalizações e reconstrução das interações em novas bases, para se forjar novas estruturas. Certamente que a pessoa muitas vezes troca de endereço, de casamento, ou de amigos, e continua a se comportar do mesmo modo que se comportava antes. Porém parece-me que, apesar da tendência à repetição, essa fica muito menos facilitada se a pessoa consegue escapar de relacionamentos nos quais seu papel estava estereotipado, ou então passa a conviver com pessoas cujos valores são completamente diferentes daqueles dos círculos dos quais fazia parte anteriormente.

A vida vale a pena? (2)

Estou aqui com o livro de David Benatar o qual, muitos sabem, tenta demonstrar simplesmente uma coisa: a vida senciente é uma espécie de erro da natureza. Tenho uma vontade danada de lê-lo com maior propriedade.

Contudo ainda fico um pouco receoso se depois eu venha a me sentir muito mal, sentindo que perdi muito tempo com algo que somente me fez mal.

Porque esse autor traça algumas perspectivas nada otimistas em relação ao valor da vida senciente. Ele apregoa que o mais ético seria uma extinção gradativa, e o mais indolor possível, da espécie humana, por meio da cessação da reprodução, ou seja: o antinatalismo.

Resumindo: a conclusão desse autor é que a espécie humana causou muitos males na história da vida senciente no planeta Terra. A quantidade de sofrimento existente em nosso planeta multiplicou-se de modo significativo depois do surgimento e florescimento de nossa espécie. Então desse modo ele conclui que o mais ético é o fim da espécie humana.

Por outro lado, fico bastante tranquilo em imaginar que qualquer tipo de concepção parecida pode até se me demonstrar como incontestável, mas que acaba perdendo qualquer tipo de força, ou validade pessoal, em dois eixos básicos de minha vida.

O primeiro é ético, o qual deixa claro para mim o meu dever, de modo geral, de viver, e bem, mesmo que minha vida não esteja, no final das contas, sendo sentida por mim como uma boa vida. Porque o principal pra mim não é esse ponto, se a minha vida é boa ou ruim, mas se não é definitiva e indefinidamente insuportável. Enquanto percebo que existem horizontes de suportabilidade, mesmo com a demonstração lógica de que a vida seja, por exemplo, inerentemente ruim, de modo geral penso que vale a pena, porque vale a pena continuar cuidando das pessoas que cuido, divulgando as coisas que penso, investigando e descobrindo alguns conhecimentos ou informações que podem ser úteis a algumas pessoas: fazendo as atividades que já faço, e que eu acho que são importantes para um certo número de pessoas.

Esse ponto para mim está relacionado a um dever. Está mais voltado para um componente ético, de relação com outras pessoas. E por outro lado também existe o componente mais egoístico, o qual diz respeito à fruição, ao prazer de estar vivendo e convivendo com as pessoas, o qual não é completamente desconectado do que costumamos chamar de princípios éticos.

E como atualmente estou numa fase muito boa, sentido que minha vida é uma vida boa, fica muito difícil eu ficar deprimido com ideias como a de David Benatar, por mais que elas sejam verossímeis. E mesmo que eu ficasse um pouco deprimido, a noção de dever pra mim é tão forte que isso não implica em qualquer tipo de tendência suicida, por exemplo.

E o mais interessante: essa noção de dever confere à minha vida bastante dureza, mas também muita aceitação do próprio sofrimento inerente, e bastante poeticidade e beleza.

E quando falo em sofrimento inerente não estou fazendo um elogio do sofrimento, ou tentando dizer que qualquer tipo de sofrimento seja útil, ou qualquer coisa tola parecida. Trata-se simplesmente da aceitação de que essa vida, de modo geral, para a grande maioria dos seres sencientes, é mesmo muito sofrida, dura, e que isso tem uma ressonância bastante significativa em praticamente todos nós, por mais que façamos uso da negação disso.

Médicos, prescrições e motivação

Percebo que algumas pessoas ficam inconformadas com médicos, psiquiatras principalmente, que logo prescrevem medicações. Muitas vezes alegam que, aparentemente, esses médicos não fazem qualquer outro tipo de prescrição. Dizem que vão logo prescrevendo medicações, e que não fazem recomendações quanto a uma série de ações que os pacientes podem tomar para prevenir ou melhorar sua condição de saúde, por meio de um tratamento que não somente atue sobre os sintomas, mas também em suas causas.

O problema na verdade é que a atuação médica, de um modo geral, em nosso contexto, é mais prescritiva do que cuidadora. A maioria dos médicos é treinada para prescrever e mandar para casa. Porque cuidar é de certo modo bem mais difícil, pois exige um trabalho mais lento e gradual. O cuidado geralmente não se resolve em uma só tacada.

Somente para dar um exemplo, quero retomar aqui uma fala que uma vez ouvi de Drauzio Varella, um médico que boa parte de nós tem em alto conceito. Ele certa vez disse que recomendava aos pacientes que realizassem mais atividades físicas. Porém, com frequência, ouvia de muitos pacientes que eles simplesmente não tinham tempo para isso. “Aí já é problema seu...”, é o que ele disse que passou a falar para esses pacientes.

Os médicos, de modo geral, não são treinados para cuidar. São treinados para prescrever. Inclusive quando são excelentes médicos, quando começam a adentrar a seara do cuidado, se perdem ao ponto de até mesmo dizerem coisas desse tipo para seus pacientes. Porque esse é um terreno que eles simplesmente desconhecem. É o terreno do cuidado e da motivação. E motivação não se faz somente com algumas palavrinhas soltas, jogadas na orelha de um paciente que está completamente perdido em relação a como, especificamente, vai fazer o que está sendo recomendado.

Com uma pessoa desmotivada, e que acha que não tem tempo para fazer algumas coisas, é geralmente necessário muita conversa, muita escuta, muito tempo com ela para ir aos poucos encontrando a melhor forma para que possa realizar as atividades que são necessárias. E isso é o trabalho típico de um psicólogo. Bons psicólogos foram e são constantemente treinados para isso.

No final das contas o que isso tudo quer dizer? Quer dizer, no atual contexto, que o trabalho multiprofissional e interdisciplinar é fundamental. Se o médico não dá conta de cuidar, ou se essa não é sua atribuição, é importante que reconheça que seu paciente muitas vezes não está realizando algumas atividades que são necessárias para o restabelecimento de sua saúde e bem-estar, e que assim obviamente ele teria de ser encaminhado para algum profissional de outra área, especializado em cuidado, em acompanhamento contínuo.

Então, Drauzio, o que eu tenho a lhe dizer é o seguinte: isso não é só problema do paciente. É um problema nosso. Talvez não seja problema dos médicos, mas certamente é um problema do paciente e de seu psicólogo. Se for esse o caso, não precisa dizer isso a seus pacientes, que é somente problema deles. Encaminhe-os para nós, psicólogos. Estamos à disposição!

Bebês no útero conversando sobre a existência de vida depois do parto... (?)

Vocês se lembram daquela estória, daquela analogia, na qual existem dois bebês dentro de um útero, discutindo se existe ou não vida depois do parto?

O primeiro bebê diz que depois do parto há um silêncio completo, a finitude, o fim de tudo. Esse primeiro bebê, então, acredita que depois do parto tudo se acaba.

O segundo bebê, por sua vez, diz que há existência além daquele "tubo físico" (o cordão umbilical), que existe uma vida após o parto, na qual há mais luz, e na qual comemos com nossas próprias bocas, caminhamos com nossas próprias pernas, e vivemos independentes de nossas mães.

Há poucas evidências ali para os dois bebês falantes, inteligentes, filosóficos, porém bastante palpáveis, e praticamente autoevidentes, inegáveis, as quais são constantemente negadas pelo bebê que não acredita na vida após o parto: o bebê negacionista!

E o segundo bebê pede para que o primeiro olhe para o mundo à sua volta, que assim perceberá o que está acontecendo. Ou seja: basta um ato de vontade e abertura para as evidências, basta simplesmente olhar para o mundo à sua volta e se dar conta do que é simplesmente autoevidente.

E aí fico pensando: puta que pariu, o que não falta nesse mundo então é cientista com má vontade, hein... Como que toda a comunidade científica, em toda a sua diversidade cultural e de crenças, no mundo inteiro, ainda não chegou a esse consenso tão simples, o qual pode ser sacramentado por esta genial analogia, de que existe vida após a morte?

Obrigado a vocês que estão postando essa analogia! Agora vocês estão fazendo com que eu veja o que eu não estava querendo ver! Como eu era preguiçoso! Muito obrigado!

Retórica e enfeitiçamento

Muitas pessoas não percebem quando estão sendo ludibriadas por uma retórica vazia, dado o enfeitiçamento que a retórica tem a capacidade de provocar. Só dou mais valor ao meio que ao conteúdo quando estou lendo poesia, quando meu desejo de beleza é maior que meu desejo de verdade. Claro que em alguns momentos uma coisa pode cruzar com a outra, mas existem limites: se as artes prescindem de boa vontade, as ciências e o pensamento acadêmico não devem assim proceder, pois nesses meios a clareza e a simplicidade são um imperativo, e não são sinônimo de simploriedade, mas um antídoto para a perplexidade e os jogos de poder do obscurantismo.

Leitura, obscuridade e profundidade

Acho um pouco patética essa tentativa de desqualificação da leitura de audiolivros que algumas pessoas fazem. É mais ou menos como tentar desqualificar a leitura por parte de deficientes visuais. Nesse exato momento, por exemplo, estou escutando o PDF de um livro de ética utilitarista.

Por ser um texto em inglês coloquei a velocidade bem baixa, para escutar cada palavra, e conseguir compreender cada coisa que o autor está dizendo. Além, claro, de poder voltar sempre que eu não compreender o sentido de algumas frases ou parágrafos.

O fato de não perder meu tempo com autores que me parecem obscurantistas não quer dizer que não exista mais ninguém que seja profundo, e que esteja produzindo ideias e descobrindo fatos relevantes para a compreensão do mundo, da realidade, das interações humanas, e do que pode ser feito para aumentarmos a quantidade de bem-estar para todos os seres sencientes que existem no planeta.

Existe muita gente trouxa que adora a ostentação de lustres culturais, para se exibir como erudita em círculos sociais nos quais existe uma espécie de competição para se verificar quem teria lido mais livros de autores impenetráveis, e classicamente considerados (por alguns segmentos) como os mais profundos da história. Dão mais crédito para o que é pesado, prolixo e obscuro do que para exposições e debates mais francos e claros, os quais prezam pela justificação de cada ponto das alegações que fazem.

E com isso não estou querendo dizer que não existam autores que tenham um texto mais poético, o qual desperta muitos sentidos que abrem portas para uma série de reflexões. Isso também existe, mas o que estou querendo dizer é que, no meio disso tudo, também existem obscurantistas, que se escondem atrás de um texto que é somente hermético.

É para esses autores e textos que esses trouxas elitistas vivem babando ovo, para depois afetarem confusão travestida de profundidade. Constantemente confundem águas turvas com águas profundas, em uma confusão que muito beneficia seu narcisismo nesses círculos sociais restritos que cultivam a erudição como um fim em si.

Inteligência e polidez

Conheço e conheci algumas pessoas nessa vida que eram brilhantes, em muitos aspectos, porém lhes faltava algo que parece não ter importância, mas tem, tem muita importância: polidez.

Tinham sacadas incríveis, escreviam textos belíssimos ou então eram absolutamente surpreendentes em sua oratória e inteligência devastadora. E a maioria das pessoas que conheci com essas características se sentiam verdadeiramente fracassadas na vida.

Tinham um sentimento imenso de superioridade em relação a maioria das pessoas e em relação inclusive àquelas pessoas que tinham conquistado postos de trabalho e de sucesso, os quais elas mesmas não tinham alcançado. Ressentiam-se profundamente disto.

Algumas disfarçavam e desdenhavam do que sempre haviam desejado na vida, tentando diminuir as conquistas de seus pares:

"Aquele fulano não representa nenhum brilhantismo, nenhuma novidade no meio dele. É somente mais um. Não criou nem fez nada de novo. Somente reproduz o que já vem sendo feito!"

Outras simplesmente quase que gritavam, constantemente, aos sete ventos, que eram absolutamente superiores à maioria da população, a qual era, em sua concepção, constituída majoritariamente por débeis mentais.

Darwin do céu, quanta mágoa, quanta frustração mal resolvida, e quanto ressentimento destilado na direção das pessoas que invejavam.

Algumas inclusive me fizeram chegar a pensar que não eram tão inteligentes assim, mas que travavam uma luta de vida ou morte durante toda a sua vida para provarem que eram mais inteligentes que a maioria.

E nessa guerra sem fim plantavam discórdias frequentes e relacionamentos instáveis.

Em outros momentos eu somente conseguia pensar que padeciam, sofriam muito na relação com outras pessoas, e isso se configurava em um plano até mesmo doentio.

Muitas vezes cheguei a lamentar para mim mesmo, em silêncio com meus próprios pensamentos: "Que triste... essa pessoa é tão brilhante e tão problemática. É incrível como joga tantas oportunidades no lixo..."

Em outros momentos eu simplesmente me dava conta de que essa pessoa podia ser extremamente inteligente em relação algumas habilidades, mas era na verdade extremamente burra em relação a uma série de questões, o que para mim ficava claro quando percebia que seu nível de convicção se aproximava inclusive de quadros delirantes.

Enfim, conheço e conheci muitos idiotas inteligentes ou inteligentes idiotas, e muitos deles se acumulam aqui nas redes sociais, porque não conseguiram conquistar algo melhor na vida...

A agressividade como vício...

Agressividade, força e coerção são modos de atuação viciantes. Os resultados, as gratificações, costumam aparecer rapidamente. As pessoas ficam com medo, obedecem ou devotam respeito, e até admiração, a quem assim se comporta.

Valentões, em uma terapia, costumam perceber os efeitos colaterais, e geralmente chegam até nós, psicoterapeutas, em virtude de algum sofrimento decorrente do uso constante e excessivo da força, da violência, de sua capacidade de ameaça e de intimidação.

Percebem uma série de danos que causam nas pessoas, e em si mesmos, em virtude de seu "vício". Mas relatam que não conseguem deixar de explodir, de usar da força, de apelar para a violência quando precisam resolver alguma questão ou alcançar algum objetivo. A maioria inclusive nem percebe que assim agindo estão alcançando seus objetivos, e que muito dificilmente mudarão seu comportamento se os resultados continuarem sendo os mesmos, se as pessoas continuarem demonstrando medo, obedecendo, fazendo exatamente o que eles querem.

Certa vez ouvi de um deles, o qual inclusive já se mostrava mais sensibilizado com isso tudo, demonstrando um pouco de culpa:

- Mas você tá querendo dizer o quê, Adriano, que eu escolhi ser assim, que eu, além de todos os prejuízos que tenho tido em minha vida, ainda sou culpado por tudo isso?

Sua culpa já era mais do que suficiente, e não alteraria muito a situação sentir ainda mais culpa do que já estava sentindo. Não basta ficar se sentindo culpado, e simplesmente não ter a menor ideia do que fazer, de como agir para poder começar a resolver seus problemas. Fora o fato de que ninguém tem culpa ou mérito por ser o que é. Culpa ou​ mérito talvez somente se apliquem a ações ou interações específicas, para as quais precisamos definitivamente apontar os responsáveis diretos. Cada um ser o que é, e ter ou não responsabilidade sobre isso, é outra história.

Mas aí, em terapia, não tem outro jeito: é necessário escuta e acompanhamento constantes, para que essa pessoa vá descobrindo quais são especificamente os contextos que despertam seus episódios de agressividade e violência, assim como também saber quais são as consequências desse tipo de comportamento.

E bastará essa pessoa ter conhecimento sobre os determinantes de seus comportamentos indesejáveis? O autoconhecimento será suficiente? Não, porque muitas pessoas também mudam sem simplesmente terem tido conhecimento sobre os determinantes de seus comportamentos. Autoconhecimento porém costuma ser importante porque facilita o autocontrole, se é que isso existe.

Mas o que estou tentando dizer, e que inclusive se relaciona com essa questão das responsabilidades sobre sermos o que somos, é que as consequências, os resultados, precisam ser alterados, e essas consequências somente serão alteradas por outras pessoas, e não pela própria.

Muitos terapeutas esperam que a própria relação com eles (com o terapeuta) seja um dos mecanismos dessa mudança. Esperam que o paciente passe a seguir algumas novas regras que são construídas durante a terapia, na relação do paciente com o terapeuta. Juntos elaboram algumas estratégias, para as quais são necessários​ o consentimento e a motivação do paciente para realizá-las. A partir disso espera-se que o paciente comece a cumprir o que foi planejado, e que as gratificações provindas do próprio terapeuta (e de suas novas relações com o mundo) sejam suficientes para que o paciente continue se esforçando.

O paciente sai do consultório e volta para a sua casa, para o seu mundo cotidiano, e começa a tentar se comportar de maneira diferenciada, assim como também procura se observar de modo mais detalhado, atentando-se às consequências desses novos comportamentos.

Feito isso, retorna às sessões posteriores para debater e analisar como essas mudanças estão impactando sua vida. Trata-se de fazer diferente e observar a consequência. E tudo isso será analisado e pensado de modo detalhado nas sessões posteriores. Há muito de tentativa e erro, de testagem, de esforço constante na direção das​ mudanças​, as quais geralmente vão se implementando de modo bastante gradual, não-linear e lento, com períodos inclusive de regressão.

Geralmente se avança alguns passos, e em um próximo momento se retorna alguns outros, ou mesmo esses passos acabam por serem completamente apagados. Ser terapeuta é saber lidar constantemente com a impotência e o fracasso, os quais estão e estarão sempre presentes. Vitórias e progressos sólidos e definitivos existem, mas não me arrisco a dizer que são a regra.

Atuar em um CAPS de grande porte nos proporciona com mais clareza essa dimensão, porque podemos observar o trabalho de nossos colegas e o quanto também ralam com as imensas dificuldades que existem para que as pessoas consigam mudar de vida.

Minha maior gratificação não é a proporção de sucesso nessa empreitada de corpo e alma. Minha maior gratificação é a própria interação com quem está sofrendo, e perceber que essa interação é capaz de diminuir muito de seu sofrimento.

Ser terapeuta é atuar em uma profissão que dedica muito amor na relação com os pacientes. É o prazer de estar junto, de acompanhar, de cuidar, de conhecer histórias fascinantes, de saber que há uma riqueza muito grande na diversidade imensa das possibilidades de relação entre as pessoas, porque geralmente existe um mundo vasto e envolvente na história de cada pessoa para a qual dedicamos nossa escuta e companhia. É participar ativamente da construção, e da reconstrução, da vida e da história dessas pessoas.

Terapia e autoconhecimento

O objetivo de uma psicoterapia não é somente fazer com que o paciente se conheça melhor. Não é somente o autoconhecimento.

Conheço pessoas que dizem que já fizeram psicoterapia e que, a partir desse processo, passaram a se conhecer melhor. E alegam, contudo, que apesar disso não conseguiram produzir as mudanças necessárias para a melhora de seu bem-estar psicológico.

Porque de nada adianta alguém saber o que está acontecendo se não souber também como resolver, e quais são os passos ou toda a cadeia de ações que terá de tomar para encontrar a resolução de seu dilema.

Uma psicoterapia é um processo bastante permeado de tentativas e erros, de testagem de hipóteses, de negociação constante entre as percepções do terapeuta e do paciente e acerca do que este sente que pode realizar.

Sobre a procrastinação, de novo...

Tenho uma certa dificuldade para compreender o que exatamente as pessoas usualmente concebem como procrastinação.

Se estão falando do acúmulo de tarefas, às quais fazem com que a gente fique praticamente louco para realizá-las, no final do prazo, compreendo um pouco melhor.

Contudo muitas pessoas falam que estão procrastinando quando na verdade estão somente tentando se dedicar a um número muito grande de atividades ao mesmo tempo. Isso não é procrastinação. isso é dispersão, falta de foco.

E há também os casos, como mencionei na primeira postagem sobre o tema, das pessoas que na verdade estão se impondo verdadeiras torturas. E aí obviamente irão procrastinar.

E aí fico lembrando de minhas experiências pessoais, nas quais consegui chutar a bunda do que as pessoas chamam de procrastinação, conseguindo estabelecer foco. Minha dificuldade, como a de muitas pessoas, era na vida acadêmica, e o que salvou minha vida foram as boas bibliotecas que frequentei, juntamente com a garantia de refeições nos restaurantes universitários.

Eu simplesmente passava o dia todo, e muitas vezes também a noite toda, em bibliotecas muito agradáveis para desenvolver as minhas atividades de estudo e leitura. Fiz isso durante anos e simplesmente não vivenciei o que as pessoas costumam classificar como procrastinação. E não foi muito difícil não, porque uma boa biblioteca é o ambiente ideal para o mergulho nos estudos. É assim que eu sentia.

Fora o fato de que uma coisa para mim é simples: para não procrastinar é necessário gostar da tarefa e se restringir a ela. É necessário se dedicar integralmente à ela para que o foco seja garantido. Quem tenta realizar várias tarefas ao mesmo tempo geralmente se perde nessa história. Saber que não dá para abraçar o mundo é fundamental. Quem mergulha em alguma atividade abre mão de inúmeras outras.

Claro que o fato também de ter frequentado por vários anos um ambiente universitário bastante rico facilitava muito a minha tarefa, pois na USP (somente para citar o ambiente universitário mais rico que frequentei) a gente tinha de tudo, inclusive estrutura para a prática de esportes. Então na USP eu tinha tudo: as refeições que eu precisava, prática de esportes, atividades culturais e de lazer, e um lugar onde eu também fazia amigos - aliás, quase todos os meus amigos eram de lá. Enfim, a minha vida era inteiramente ali. Aquilo ali era o foco total. Sobrava pouco espaço para o que as pessoas costumam classificar como procrastinação.

E atualmente, como docente, tenho me visto em um espaço universitário e em um mundo completamente diferente. Então, o que tenho tentado desenvolver com os estudantes é um ambiente de aprendizagem colaborativa. Mas isso já é objeto para uma próxima postagem...

Monday, April 16, 2018

Procrastinação

Então quer dizer que você está procrastinando, e acha que isso é o fim da picada, e quer resolver de qualquer maneira?  Mas, convenhamos, em boa medida é bastante compreensível: você está exigindo de si mesmo a realização da tarefa mais chata do mundo, com uma série de outras coisas muito mais agradáveis para se fazer. Então é natural a procrastinação. O contrário, se não houver uma estruturação muito bem definida (principalmente para fazer com que você se sinta mais motivado para essa tarefinha chata), é somente tortura.

Na verdade tenho uma certa dificuldade para compreender o que exatamente as pessoas classificam como procrastinação.

Se estão falando do acúmulo de tarefas, às quais fazem com que a gente fique praticamente louco para realizá-las, no final do prazo, compreendo um pouco melhor.

Contudo muitas pessoas falam que estão procrastinando quando na verdade estão somente tentando se dedicar a um número muito grande de atividades ao mesmo tempo. Isso não é procrastinação. isso é dispersão, falta de foco.

E há também os casos, como mencionei acima, das pessoas que na verdade estão se impondo verdadeiras torturas. E aí obviamente irão procrastinar.

Aí fico me lembrando de minhas experiências pessoais, nas quais consegui chutar a bunda do que as pessoas chamam de procrastinação, conseguindo estabelecer foco. Minha dificuldade, como a de muitas pessoas, era na vida acadêmica, e o que salvou minha vida foram as boas bibliotecas que frequentei, juntamente com a garantia de refeições nos restaurantes universitários. 

Eu simplesmente passava o dia todo, e muitas vezes também a noite toda, em bibliotecas muito agradáveis para desenvolver as minhas atividades de estudo e leitura. Fiz isso durante anos e simplesmente não vivenciei o que as pessoas costumam classificar como procrastinação. E não foi muito difícil não, porque uma boa biblioteca é o ambiente ideal para o mergulho nos estudos. É assim que eu sentia. 

Fora o fato de que uma coisa para mim é simples: para não procrastinar é necessário gostar da tarefa e se restringir a ela. É necessário se dedicar integralmente à ela para que o foco seja garantido. Quem tenta realizar várias tarefas ao mesmo tempo geralmente se perde nessa história. Saber que não dá para abraçar o mundo é fundamental. Quem mergulha em alguma atividade abre mão de inúmeras outras.

Claro que o fato também de ter frequentado por vários anos um ambiente universitário bastante rico facilitava muito a minha tarefa, pois na USP (somente para citar o ambiente universitário mais rico que frequentei) a gente tinha de tudo, inclusive estrutura para a prática de esportes. Então na USP eu tinha tudo: as refeições que eu precisava, prática de esportes, atividades culturais e de lazer, e um lugar onde eu também fazia amigos - aliás, quase todos os meus amigos eram de lá. Enfim, a minha vida era inteiramente ali. Aquilo ali era o foco total. Sobrava pouco espaço para o que as pessoas costumam classificar como procrastinação.

E atualmente, como docente, tenho me visto em um espaço universitário e em um mundo completamente diferente. Então, o que tenho tentado desenvolver com os estudantes é um ambiente de aprendizagem colaborativa. Mas isso já é objeto para uma próxima postagem...

Fazer o que gosta ou com quem gosta?

Fazer a coisa certa no lugar errado não é melhor do que fazer a coisa errada no lugar certo. Trabalhar com o que não gostamos, em um ambiente acolhedor, é mais saudável do que trabalhar com o que gostamos em um ambiente ruim. Não basta fazer o que gosta, trabalhar com alguma coisa que você acha que irá lhe trazer realização pessoal, se você não tiver a sorte de ter um ambiente de trabalho saudável, uma equipe de trabalho com a qual consiga ter interações prazerosas e saudáveis. Fazer a coisa errada no lugar mais certo do mundo pode fazer com que você passe a gostar de um trabalho que não gostava antes.

Pensar primeiro em si ou nos outros? (sobre uma fala de PC Siqueira)

Gosto dos vídeos de PC Siqueira porque ele acaba, em sua retórica, muitas vezes me surpreendendo. Em um de seus últimos vídeos disse que devemos pensar primeiro em nós mesmos, para depois pensarmos nas outras pessoas. Porque, segundo ele, de modo geral, quando estamos pensando primeiro nas outras pessoas, elas estão dois passos à nossa frente, porque além de estarmos pensando nelas em primeiro lugar, elas também estão pensando nelas em primeiro lugar. Segundo ele isso abre portas para relacionamentos abusivos.

Gostei do que falou. Foi bem criativo. Contudo isso não me desceu muito bem. Isso talvez se aplique ao momento que ele está vivendo, após ter percebido uma série de abusos que sofreu em algumas interações pessoais. 

Penso que devemos obviamente ser responsáveis, o máximo que pudermos, por nossa própria vida. Não devemos esperar que os outros pensem primeiro em nós, e muito menos devemos exigir isso das pessoas. Cuidar de si mesmo não é somente um comportamento egoístico. 

Quem não cuida de si não sobrevive. Cuidar de si mesmo é fundamental. Tentar dar conta sozinhos, o máximo que pudermos, de nossos próprios problemas, é fundamental. É uma das características da maturidade. Pessoas maduras cuidam de si mesmas, e não ficam esperando pelos outros para que isso ocorra.

Do modo como se expressou ficou com um tom mais egocentrado, egoísta. Penso que não se trata exatamente de pensar primeiro em si mesmo e depois nos outros. Trata-se de pensar em si e também nos outros. Há uma importância muito grande de se pensar também nos outros Esse é um dos fundamentos da ética. Porque geralmente quando estamos pensando nos outros também estamos pensando em nós mesmos. Cuidar de todos é cuidar de si também.

Um dos maiores problemas que vivemos dentro de uma sociedade, que prima por níveis maiores de individualização, é a ausência ou diminuição dos intercâmbios fundamentais da vida comunitária. Não somos uma ilha, e o outro nos constitui, assim como é uma das maiores, senão a maior fonte para o nosso bem-estar.

O problema mais comum nos tempos atuais é que as pessoas estão pensando demais em si mesmas, e se esquecendo das outras, ao contrário do que ele apregoa nesse vídeo. Estão se colocando em primeiro lugar, e quando assim o fazem terminam por se perceberem completamente isoladas e sem referências sólidas. Isso facilita, por exemplo, o surgimento de sintomas de ansiedade e depressão, os quais atualmente apresentam níveis epidêmicos.

Se PC Siqueira vivenciou alguns relacionamentos abusivos, e isso o deixou sensibilizado ao ponto de agora talvez estar se dirigindo para o extremo oposto, espero que suas palavras ecoem somente em quem passou por situação semelhante. Porém também acho provável que ele esteja, como já mencionei, se dirigindo para o extremo oposto, o qual também não reserva boas surpresas.

Emoções negativas e positivas

As emoções negativas são emoções geralmente desagradáveis, de urgência, que salvam a vida das pessoas: medo, raiva, nojo... 

É possível, por exemplo, enumerar uma quantidade muito maior de emoções negativas do que de positivas. Quando pensamos em emoções negativas, várias delas nos vêm à lembrança, porque de fato há um número maior mesmo de emoções negativas. Contudo, esse número maior não faz das emoções negativas, do sofrimento, o sustentáculo da existência dos seres vivos. 

Mesmo que as emoções positivas estejam reunidas somente no que chamamos de alegria, e mesmo que sua magnitude possivelmente seja menor que a das emoções negativas, a alegria mesmo assim continua sendo o arroz com feijão da vida. As negativas até socorrem, mas não sustentam.

Fazer aconselhamento psicológico não é a mesma coisa do que dar conselhos

Fazer aconselhamento psicológico não é a mesma coisa do que dar conselhos. Para introduzir essa questão quero mencionar o ocorrido durante um atendimento, no qual um estudante de enfermagem atendia uma paciente, sob minha supervisão e a de um enfermeiro:

- Você estuda? - indagou ele.

- Não. Eu parei de estudar no ano passado.

- É importante! Volte a estudar. Volte estudar que isso vai ser importante para a sua vida!

Ele não investigou os motivos daquela paciente ter parado de estudar. Simplesmente recomendou que ela deveria voltar a estudar, sem saber qual era a condição e motivação dela para tal.

Conselhos são recomendações gerais que não levam em conta as condições específicas nas quais as pessoas estão inseridas. O conselheiro tem a ilusão de que a pessoa irá placidamente obedecê-lo, de que basta prescrever alguma coisa, com sua autoridade, para que o outro passe a executar o que foi recomendado. 

A paciente acima deve ter ouvido por diversas vezes a mesma coisa, que estudar era muito importante ou algo parecido, e estava ali, diante de um futuro enfermeiro, a ouvir a mesmíssima recomendação.

Também é comum se ouvir, a partir de quem está fazendo algum conselho, recomendações de como as pessoas devem ou não se sentir, o que também não faz muito sentido, porque as pessoas não se sentem assim ou assado em função de recomendações de como devem se sentir.

Quem dá conselhos tenta pular etapas e acredita que assim irá produzir alterações instantâneas nos comportamentos e realidades alheias. Quem está dando um conselho geralmente está totalmente alheio às motivações de quem está sendo aconselhado.

Lembro-me também, inclusive, de um relato de Drauzio Varella, ao recomendar que as pessoas façam atividades físicas regularmente, e sobre como reage quando lhe dizem que não têm tempo para isso. Ele simplesmente responde para essas pessoas que o problema é delas.

Compreendo que boa parte dos médicos costuma agir assim, somente com conselhos, recomendações ou prescrições rápidas. O psicólogo contudo não pode, em momento algum, agir assim. 

É importante também que as pessoas tenham seu próprio tempo e autonomia para, por vezes, aos poucos, sozinhas, irem resolvendo seus problemas. Contudo, afirmar que o problema é somente delas geralmente não é de muita utilidade. 

O aconselhamento é um processo constante de investigação das razões e motivações pelas quais as pessoas estão fazendo ou deixando de fazer as coisas. A partir disso iremos (nós, profissionais do aconselhamento), juntos com essas pessoas, descobrir qual é a melhor forma para elas, em particular, para que consigam realizar esta ou aquela atividade.

Cada um vai encontrar um jeito específico para se engajar ou se motivar em relação às mais variadas atividades dessa vida. Então não basta por exemplo recomendar que as pessoas simplesmente façam atividades físicas. Temos de descobrir, junto com elas, se terão condições de realizar alguma atividade física. Temos de, junto com elas, descobrir qual é especificamente a atividade, e em qual contexto ela poderá ser realizada.

E isso não quer dizer que, em um processo de aconselhamento, não seja possível se recomendar alguma coisa. Isso também é possível. Contudo, nesse processo as recomendações são sempre postas à prova. 

A forma literal com que é feita uma recomendação pode até mesmo ser a mesma ou muito parecida com a forma de conselhos simples. A diferença é que, em um processo de aconselhamento, as recomendações são sempre postas em discussão. Sempre se pede ao paciente que reflita sobre a recomendação que está sendo feita, se ela de fato faz sentido ou se aplica ao seu contexto específico:

"O que você acha? Faz sentido o que estou lhe dizendo? (...) Estou falando muita besteira? (...) Você acha que teria condições de fazer isso? (...) Por que não tentar?"

O conselho é geralmente um ato sumário, violento, indiferente às condições específicas nas quais a pessoa aconselhada está vivendo. O aconselhamento, por sua vez, tem relação com estar junto, com o acompanhamento, escuta e observação constantes de como o outro vem se relacionando com os outros e o mundo. 

É um mergulho reiterado, insistente e constante no mundo do outro, sempre de mãos dadas com ele. Jamais para simplesmente arrastá-lo para as cercanias de nossas suspeitas e hipóteses. Mas constantemente em direção às profundezas dos sentimentos e motivações de alguém que sempre irá renovar seu mistério na relação conosco.

Motivo ético para continuar vivendo

A minha impressão é que ser amado é uma razão moral para continuar vivendo. E amar? Amar é razão pessoal, egoística. Amar não é justificativa ética para continuar vivendo. Ética é sempre pelo outro. Nunca por si ou pra si mesmo. Em termos éticos, o dever é viver pelo outro mesmo. Nada mais. Por outro lado, há também a liberdade da individualidade de viver somente para si ou encontrar a maior parte dos motivos aí.

Comunicação oral x escrita

É um pouco assustador e frustrante  para mim perceber que a comunicação oral é totalmente diferente da comunicação escrita, porque permite um nível de envolvimento com o interlocutor que ultrapassa completamente a questão do conteúdo. O conteúdo pode ficar em plano secundário quando estamos falando de comunicação oral. Porque aí o principal é fazer com que seu ouvinte se envolva com o que você está falando e isso, em muitos casos, independe quase que totalmente do conteúdo.

Há um lado triste nisso, porque a comunicação oral muitas vezes acaba sendo uma comunicação baseada na ignorância, no equívoco, na falta de informação. É triste porque, ao observar as diferenças entre a comunicação oral e a escrita, fica claro para mim como políticos profissionais, charlatães e opressores das mais diversas espécies conseguem enganar as pessoas sem transmitir qualquer tipo de informação relevante. 

A linguagem enfeitiça, mas a linguagem oral enfeitiça muito mais. Terreno perfeito para a trapaça, no qual aqueles que muitas vezes estão mais preocupados com a verdade podem ser injustamente massacrados.

É possível "evoluir" sem sofrimento?

Há poucos dias recebi, por mensagem privada, a seguinte pergunta:

"Adriano, como as pessoas "evoluem" sem o sofrimento? Existe uma forma de "evoluir" o caráter de alguém que não seja invasiva e muitas vezes agressiva?"

Essa talvez seja uma das grandes contribuições da Análise do Comportamento, pois seus achados, os quais foram replicados tanto com modelos animais quanto com modelos humanos, corroboram a hipótese de que é possível sim, em boa medida, aprendermos muitas coisas nessa vida com muito menos sofrimento do que usualmente costumávamos pensar.

As evidências de que o condicionamento aversivo não é o caminho mais desejável, e de que há alternativas concretas para ele, demonstram isso com clareza.

É comum o enunciado de que "se não vai por amor, vai pela dor". Contudo quem assim se expressa está tentando adotar o caminho mais rápido, o mais fácil, ou então não tem conhecimento suficiente de como é possível atuar, de modo significativo e muito mais eficiente, com base no que as pessoas comumente chamam de amor.

Não estou dizendo que o que conhecemos hoje é infalível, mas que atualmente existem técnicas, ou até mesmo tecnologias, que ajudaram em boa medida a diminuir o sofrimento envolvido em todo o nosso processo de aprendizagem e conquista da maturidade.

Quero somente lhes dar um exemplo bem simples. Imagine que alguém esteja sofrendo de uma fobia específica em relação a altura. Uma descoberta muito antiga é que uma das estratégias mais eficazes para se combater a ansiedade, o medo, é o enfrentamento. Desse modo não faltaram pessoas, durante a história, expondo outras, às quais estavam com medo, de forma muito abrupta aos objetos dos quais essas pessoas tinham medo.

Lembro-me inclusive de uma de uma aluna que tive, a qual me relatou que, para acabar com seu medo de altura, lhe sugeriram que ela saltasse de paraquedas. O problema é que esse tipo de técnica produz uma inundação de estimulação aversiva, a qual possui muitos riscos, pois a pessoa pode, após esse tipo de manejo, ficar ainda mais sensibilizada, traumatizada com altura. O risco é muito grande, e há também o risco da pessoa, por exemplo, desmaiar, e simplesmente não entrar em contato com a experiência aversiva.

Para que qualquer pessoa possa entender, sem que eu precise fazer o uso de jargão técnico, eu diria que basicamente nos comportamos segundo dois vetores: nos comportamos para conseguir algo bom ou para evitar algo ruim. No primeiro caso o comportamento está sendo mantido por reforçamento positivo. No segundo caso ocorre o reforçamento negativo, o qual corresponde ao que é classificado como condicionamento aversivo.

O condicionamento aversivo então pode ser realizado por meio de reforçamento negativo e punição (positiva ou negativa). E a punição por sua vez se refere à consequências que diminuem a frequência de respostas. Ou seja: quando o sujeito é punido a tendência é que o comportamento punido diminua em frequência ou venha a se extinguir.

Há porém evidências científicas consolidadas de que o condicionamento aversivo possui inúmeras desvantagens. É definitivamente mais desejável adotar o reforçamento positivo.

Se queremos, por exemplo, que uma criança comece a estudar mais, e de modo mais motivado e saudável, é necessário se pensar que o mais desejável será o reforçamento positivo do comportamento de estudar. O comportamento de estudar precisa produzir consequências aprazíveis para essa pessoa. Estudar precisa ser prazeroso. 

As gratificações pelo comportamento de estudar deverão ocorrer de forma um pouco mais imediata, no próprio cotidiano das atividades acadêmicas. Gratificações que se distanciam dos próprios comportamentos de estudar serão menos eficientes. Se o próprio comportamento de estudar, em si, for gratificante, será muito mais efetiva a aprendizagem, a cultura, o gosto por estudar.

E talvez as gratificações mais poderosas são as gratificações sociais as gratificações que advém da companhia prazerosa de outras pessoas. Muitas pessoas inicialmente nem gostam de algumas atividades específicas Porém quando são submetidas à realização dessas atividades na companhia de pessoas que lhes fazem bem, há a possibilidade do estabelecimento de um processo que faz com que essa pessoa passe a gostar até mesmo daquelas atividades que inicialmente nem gostava.

Os analistas do comportamento, na minha concepção, são os maiores conhecedores de como fazer para que as pessoas se sintam mais motivadas e felizes em relação às atividades que desenvolvem na vida. 

E é importante obviamente tentar perceber quais são os comportamentos que são emitidos com mais facilidade ou até mesmo, eu diria, ser bastante otimista em relação aos sujeitos com os quais estamos lidando. Porque qualquer comportamento desejável, por mais minúscula que seja a sua frequência e magnitude, é uma semente que pode ser irrigada e gerar uma série de outros comportamentos adequados e desejáveis. 

É importante então olhar para as pessoas, para qualquer ser cujo comportamento ocorre por meio da seleção por consequências, com muito otimismo. Porque qualquer simples resposta, que seja parecida com algo desejável, deve ser gratificada. Então esse olhar é um olhar eminentemente otimista, porque olha para o que o outro tem de bom, mesmo que isso se apresente em uma quantidade minúscula. 

É a partir do que as pessoas têm de agradável, de aprazível, bom, desejável, que iremos atuar. Há um foco no que o outro tem de bom: eis o otimismo, e um tipo bom de otimismo, pois é focado na ação. É a partir disso que o outro irá crescer, e crescer com um nível de interação o menos violento e hostil possível, porque o que dá mais certo, e a Análise do Comportamento sabe muito bem disso, é a gentileza, o trato afetuoso, o que a maioria das pessoas conhece e classifica como sendo da ordem do amor.

“Chore que faz bem...” ?

É muito comum esse tipo de afirmação ou recomendação. Chorar, contudo, pode ter as mais diversas funções. Porém quando alguém assim se expressa geralmente está recomendando que a pessoa chore para desabafar, para diminuir a tensão e assim tenha um pouco de alívio em relação a seu sofrimento.

Entretanto existem também, para esse aspecto, contextos diversos. Há pessoas que relatam que geralmente se sentem piores após chorarem. Pois a expressão de uma emoção pode intensificar a emoção em questão. Ou seja: chorar pode, em alguns casos, intensificar a tristeza. Aí me lembro de muitos relatos de pacientes a me dizer que quanto mais choravam mais tinham vontade de chorar, e mais tristes ficavam.

Fora os contextos mais específicos: se a pessoa, por exemplo, chorar em público e isso implicar para ela em sentimentos de vergonha ou humilhação, chorar poderá então criar mais problemas e aumentar o sofrimento.

Portanto, chorar nem sempre faz bem...

O sofrimento enobrece?

Afirmar que o sofrimento enobrece faz um pouco de sentido para quem está no luxo, e vem sofrendo muito pouco nessa vida, e assim até se embruteceu. Não deve servir pra justificar sofrimentos dilacerantes, injustos e indecentes. Mas infelizmente  é mais para isso que esse tipo de afirmação acaba servindo mesmo, para naturalizar a opressão.

O sofrimento serve pra quê?

Se o sofrimento tem alguma função, função boa, é somente uma: facilitar a empatia, pois a tendência de quem não sofre, ou sofre pouco, é se dessensibilizar com o sofrimento alheio. Essa, pra mim, é a única utilidade do sofrimento. Para o restante dos sofrimentos prefiro pensar que são evitáveis ou inevitáveis.a

Wednesday, March 07, 2018

Colega desumanizado na UTI

Tive a infelicidade de conviver, na UTI, com um colega, médico, o qual não tinha muito compromisso com uma relação humanizada, tanto com pacientes quanto com seus colegas de trabalho, e isso era reconhecido pela grande maioria da equipe.

Seus colegas médicos se queixavam de seu histórico de quebra de compromissos com a própria equipe médica, na rotina de trabalho. Era visto como aquele colega que cometia diversos erros, geralmente relacionadas a negligência, os quais sempre tinham de ser acobertados pelo restante da equipe.

Não sei exatamente porque aceitavam a convivência com um colega tão difícil e comprometedor, mas o fato é que essa convivência se arrastava, apesar de tudo, estabilizada, por alguns anos. Todos sabiam que aquele colega era um pouco uma pedra no sapato, mas parece que não viam ali uma alternativa melhor.

Ele era também um daqueles colegas que frequentemente acaba descumprindo com as normas do local. Sempre que isso ocorria de modo mais exacerbado era advertido, e voltava a se comportar dentro das normas por um breve período, o qual não durava muito, porque aquele sujeito era um problema crônico, inclusive para seus próprios colegas médicos.

No início de minha interação com ele somente percebi que se tratava de alguém que tinha um imenso prazer em estabelecer uma relação de dominação com seus colegas de outras especialidades. Mesmo não sendo o chefe da UTI, em seu plantão se comportava como tal, como se fosse o chefe do plantão.

Desse modo acabava incorrendo em diversos atritos, principalmente com a equipe de enfermagem. Nesses conflitos geralmente se comportava de modo bastante ríspido e pouco empático. Porém, no final das contas, acabava agindo como se nada tivesse acontecido, e as pessoas parece que sempre o perdoavam. Agia muitas vezes de forma bastante rude, e até covarde, para dias depois estar ali, com as mesmas pessoas que havia hostilizado, contando piadas de mau-gosto e rindo, inclusive de pacientes.

Essas pessoas, contudo, apesar de aparentemente terem perdoado seus atos grosseiros e impensados, não se esqueciam do que ele fazia de errado. Em privado não deixavam de comentar e trocar histórias de quando haviam sido hostilizadas por esse médico. Havia uma espécie de um ranking das piores pessoas que trabalhavam ali, e ele sempre estava no topo.

Eu também fazia parte da equipe porém, pelo fato de ter feito doutorado, creio que isso exercia um papel de fazer com que ele me respeitasse um pouco mais do que a maioria ali naquele espaço. A minha impressão é de que ele era mais implacável com quem tinha menos formação ou autoridade. Suas presas prediletas eram os técnicos de enfermagem.

A maioria das pessoas relatavam que ele era o mais desumano e ríspido dos profissionais que existiam naquela UTI. Eu não conseguia entender isso muito bem, pois ele ainda não havia sido ríspido comigo.

Hoje penso que ele era certamente o mais desumano com os próprios colegas de trabalho, porém não era, na minha percepção, o mais desumano com os pacientes, porque havia um outro médico, ainda mais desumano do que ele com os pacientes, do qual, se for o caso, ainda falarei em outra oportunidade.

Então a convivência profissional com esse colega era bastante difícil. Somente para vocês terem uma ideia, no sábado pela manhã, quando havia treino de Fórmula 1, transmitido pela Rede Globo (e não estou falando da corrida; estou falando somente do treino) ele simplesmente não podia ser interrompido.

Se a pessoa quisesse dar uma de louca bastava bater na porta de seu repouso enquanto ele estava assistindo a esse treino de Fórmula 1. Quem assim o fizesse, mesmo que houvesse alguma intercorrência grave, de algum paciente que estivesse em parada cardíaca, ou coisa semelhante, seria maltratado por ele. Ele ficava transtornado, irritadíssimo se alguém o chamasse enquanto estivesse assistindo ao treino de Fórmula 1.

E não havia como não chamá-lo, porque depois, se algo muito grave ocorresse em função de não chamá-lo, essa pessoa que não o chamou seria responsabilizada por isso. Então as pessoas se revezavam nessa função inglória. Sempre que ele estava no repouso evitavam ao máximo bater em sua porta. Então ele era chamado somente em situações muito graves.

O problema é que a obrigação dele não era somente a de socorrer um paciente que estava com uma parada cardiorrespiratória. Ele também tinha a obrigação de passar pelos leitos durante os horários de visita.

Havia dois horários de visita: um das 16 às 17 horas e outro das 20 às 21 horas. E ele fazia questão de não sair de seu repouso durante a maioria das vezes nos horários de visita.

Se ele não saísse de seu repouso e nada acontecesse, estaria tudo bem, porque ninguém iria chamá-lo mesmo. O problema é que a maioria dos familiares sabia que era obrigação do médico comparecer aos leitos durante os horários de visita, para dirimir dúvidas dos familiares, e até mesmo dos próprios pacientes em relação ao tratamento, à sua estadia ali.

Havia geralmente então uma pressão muito grande por parte dos familiares para conversarem com o médico. Outro problema também é que quando ele comparecia, sempre comparecia nos últimos 15 minutos da visita. Então nosso trabalho era também pedir para que os visitantes e familiares tivessem um pouco de paciência e esperassem, porque ele geralmente iria aparecer nesses últimos 15 minutos.

Havia porém dias e períodos em que ele não demonstrava o menor interesse ou motivação para comparecer às visitas. Desse modo as pessoas ficavam esperando, e ele simplesmente não aparecia.

Houve um dia contudo em que não resisti, e mostrei para um familiar de um paciente onde era o repouso, pedindo para que essa pessoa não revelasse ao médico que havia sido eu o servidor que havia lhe indicado o local em que se situava tal aposento.

Quase uma semana depois, quando cheguei para meu plantão, esse médico veio até mim enfurecido:

- Eu sei que foi você quem disse para um visitante que eu estava no repouso! Cuide de seu trabalho que eu cuido do meu! Você está me entendendo bem? Cuide do seu trabalho que eu cuido do meu!

Ele falava e bufava de raiva. E eu, como fui pego de surpresa, também fiquei bastante transtornado, pois foi uma interação muito estressante, porque aquilo parecia que poderia se transformar muito facilmente em uma luta corporal.
E nesse dia eu pude compreender mais plenamente sobre o que as pessoas falavam acerca de sua rispidez.

Ele simplesmente esbravejou e nem permitiu que eu replicasse ou me justificasse. Entrou no repouso e bateu a porta na minha cara.

Pensei comigo: vou esperar a poeira baixar e, no final do plantão, quando tudo estiver mais calmo, quando ele estiver mais calmo, tento conversar para acertarmos os ponteiros.

Já no final do plantão, eu estava andando, no início do corredor, e percebi que ele estava vindo pelo mesmo corredor, em direção a mim. Continuei andando em sua direção, e procurando olhar para ele, para seus olhos, para que conseguíssemos retomar a conversa de modo civilizado. Assim que olhou para mim, eu acenei no sentido de que queria conversar com ele:

- Fulano...

- Não quero saber! Não quero nem olhar pra tua cara!

- Eu só queria lhe pedir desculpas, rapaz...
- Não quero saber! - e bateu novamente a porta do repouso na minha cara.

Sim, inspirado em um velho ensinamento de Emily Bronte, antes de começar a conversa eu lhe pediria desculpas pelo transtorno:

- Fulano, antes de mais nada eu gostaria de lhe pedir desculpas pelo transtorno, porque não era essa a minha intenção...

Porque eu acho que as coisas podem se encaminhar primeiramente mais ou menos assim. Acho que é possível fazer com que a outra pessoa se acalme e se desarme a partir de pedidos de desculpas em relação ao que ela veio sentir, e que aquilo que ela veio a sentir não era de fato a nossa intenção. Sim, é plenamente possível e sensato pedirmos desculpas mesmo quando temos convicção de que estamos certos. E isso não é assumir que estamos errados. Não é mesmo, e explicarei melhor para que entendam.

Essa técnica é comumente chamada de reflexão de sentimentos. Trata-se de expressar para o outro o que nos parece que está sentindo, como se colocássemos um espelho para que o outro se veja, com seus sentimentos, para que possa olhar para si mesmo. Porém, para que consigamos fazer isso, temos também de aceitar o que o outro está sentindo, temos de alguma forma de acolher o que o outro está sentindo.

É importante então acolher, traduzindo o que o outro faz em termos de sentimentos, refletir e também comunicar o que se passa em nós por meio de sentimentos. Trata-se de uma comunicação não-violenta, focada na expressão verbal do que se sente, e do que sentimos que o outro sente.

Depois que a outra pessoa já se encontra desarmada, mais calma, cabe falar do que sentimos na interação:

- Quando você esbravejou me senti também bastante transtornado, incomodado, irritado. Tive de respirar fundo e me controlar, para que não perdêssemos o controle, com o risco inclusive de agressões físicas. Acho muito lamentável que tenhamos chegado a esse ponto...

Porque a linguagem que expressa literalmente o que sentimos é a mais objetiva possível, a mais próxima possível dos fatos. Não há muito o que se discutir diante do que as pessoas estão sentindo. Elas simplesmente sentem. Isso é quase que um fato bruto, se podemos assim dizer.

Contudo, esse pequeno arsenal de técnicas e minha experiência em comunicação não-violenta, nessa interação com esse médico, foi praticamente inútil. Funcionou somente como o narcótico comunicacional de minha capacidade de desarmamento do outro a me intoxicar.

Naquele dia eu fragorosamente perdi a batalha. Fui embora para casa caminhando e já anoitecia. Eu estava vivendo um ano muito, muito difícil, e o sabor amargo das agressões que eu havia sofrido naquele plantão culminavam em um turbilhão de sentimentos de impotência e angústia. Andar, meditar sobre a falta de sentido da vida, sobre a minha fraqueza em conseguir dar continuidade à minha própria existência, e chorar, era o curso natural que o peso da escuridão e do silêncio da noite fazia em mim.

Entretanto, nas quatro semanas seguintes, diferentemente dos últimos seis meses, esse médico não estava presente nos mesmos plantões que eu. Disseram que não estava de férias nem de licença, que somente agora, durante aquele mês, estava fazendo seus plantões em outros horários.

Cheguei a pensar que ele pudesse estar na verdade fugindo de mim, fugindo da possibilidade de sentarmos frente a frente, olho no olho, e resolvermos aquela situação sem gritaria ou agressividade.

Porém, um mês depois ele estava de volta aos plantões em alguns horários que coincidiam com os meus, da mesma forma que nos seis meses anteriores.

Como naquele dia infeliz eu havia tentado me comunicar civilizadamente com ele por duas vezes, e por duas vezes ele havia corrido para dentro de sua toca, batendo a porta na minha cara, pensei que agora não faria o menor sentido tentar qualquer tipo de conversa, e que eu deveria simplesmente desprezá-lo, restringindo-me a um mínimo de comunicação possível.

Anexo ao ambiente principal da UTI, onde estavam os pacientes, havia uma pequena copa, na qual os funcionários lanchavam ou até mesmo faziam alguma refeição. Cerca de dois meses após o dia infeliz, estávamos eu e mais umas duas pessoas nessa copa, conversando, como de costume faziam muitos dos servidores enquanto lanchavam, e de repente a porta fechou-se muito bruscamente, provocando um estrondo e susto em nós que ali estávamos.

A porta não tinha batido sozinha. Alguém havia feito aquilo, e uma delas disse-nos que havia sido esse médico. Em posse dessa informação, comecei ali a tentar entender, junto desses colegas, os motivos pelos quais esse médico se comportava dessa maneira:

- Ah, Adriano, eu já desisti desse cara! Isso aí não tem solução não... – disse-me uma dessas pessoas.

Como eu era ali o desafeto mais recente dele, não tinha dúvidas de que aquela batida de porta tinha sido pra mim. Pensei: vou continuar tentando me comunicar com esse sujeito de modo civilizado. Só que agora vou tentar de uma outra maneira: vou tentar por escrito!

Escrevi um bilhete, sucinto, e joguei-o por debaixo da porta de seu repouso:

"Fulano, sinto que estamos tendo muitas dificuldades de interação. Precisamos conversar. Assim que você tiver um tempinho, por favor me comunique, para que possamos sentar e conversar de forma franca e civilizada."

Minha rotina e meus horários se mantiveram inalterados, mas esse médico simplesmente desapareceu, por cerca de uns 3 ou 4 meses. Ficou, durante todo esse tempo, "coincidentemente" fazendo seus plantões em horários totalmente diferentes dos meus.