Tuesday, February 06, 2018

Médicos humanizados

Em conversa por WhatsApp com um colega de trabalho, médico na UTI em que atuo, ele me escreveu assim, em nossas reflexões sobre um dos casos que atendemos:

"Muitos acham que a titulação e que vomitar um monte de artigos é o que tem mais valor. Eu não entendo que as coisas são assim. Ao longo do caminho aprendi certas coisas que guardo como bússolas: o melhor médico é o que se interessa pelo paciente, não o que sabe mais; melhor um médico razoável disponível que um excepcional ausente; de nada vale um tesouro no fundo do mar; em medicina o que é raro é raríssimo e o que é comum é comuníssimo; arte sem ciência é pobreza e ciência sem arte é barbárie; melhor um mal educado sincero que um bem educado hipócrita; desconfie sempre de quem lucra com seu ideal... etc, etc, etc."

E isso não é somente da boca pra fora. Ele demonstra isso em suas ações cotidianas. Infelizmente sinto que a maioria não compreende as coisas dessa maneira. Mesmo assim fico feliz em poder contar com alguns colegas que são capazes de compreender o que é de fato a humanização na interação com nossos pacientes e seus familiares.

Wednesday, January 24, 2018

Sou de parir a existência na beleza que explode aos meus olhos de saber que viver é, no êxtase, somente conquistar um paraíso que será eternamente esquecido. Um bom psicoativo mergulha a vida no êxtase de experiências sem fim, para coroar o que há de mais belo, nessa existência sem sentido, ou sem mim.
Gosto de trabalhar alguns efeitos de sentido, alguns efeitos poéticos, mas esses só saem na velocidade da mão, que elabora o canteiro de obras de uma existência em palavras, em rabiscos e montagens de loucura, para brindar o universo com a beleza da vida ou do infinito que existe entre eu e o mundo.

O psicoativo se dissolve no sangue da forma que tive quando brotei para o mundo minha primeira loucura em forma de palavras. Era um vulcão de casamentos inesperados de imagens e ideias a navegar na beleza das cores de minha aventura retórica.

Beijo técnico?

Ator/atriz de Globo que, em qualquer cena trivial de novelinha das 9 dá um beijo guloso, cheio de língua, não tem moral para condenar a prostituição, a qual é uma profissão como qualquer outra, e tem distância nula da atuação de qualquer ator que faz beijo guloso de língua, para depois ficar dizendo que foi um beijo técnico.

Corrupção e protofascismo


Discursinho contra a corrupção, atualmente, é um dos mais furados que já vi. Qualquer político que tem condições de chegar ao poder, vencendo a eleição presidencial, não é limpo. Não tem como, no sistema político atual, ter condições de chegar lá sendo limpo. E isso não vale somente para o Brasil, não. Isso também se encaixa perfeitamente, por exemplo, no sistema político norte-americano.

Nunca teve nada a ver com corrupção, desde quando se justificava que Maluf roubava, mas fazia. E nem terá nada a ver com corrupção enquanto não fizermos uma reforma política decente.

Os eleitores de Maluf adoravam aquela história de obras rodoviárias faraônicas e superfaturadas. Achavam que aquilo era fazer alguma coisa. A maioria tinha paixão por carros e achava o máximo poder botar seus carrões nas obras que Maluf havia construído.

Votar em Maluf não era muito diferente, simbolicamente, do que comprar algum modelo de automóvel muito potente e caro, e ficar exibindo isso como demonstração de poder. Maluf ostentava poder e riqueza privada, e seus eleitores também gostavam de ostentar poder, e de estarem associados a celebridades ou poderosos (de fato) que assim o faziam.

Agora, com o candidato protofascista, talvez não seja muito diferente. Não deixarão de votar nesse cara por ele ter se envolvido ou não com corrupção. Seus eleitores se identificam com sua imagem, que representa força e poder. A maior parte de seus leitores está mais fascinada pela possibilidade de haver o uso da força do que com honestidade. Querem ver pessoas, em massa, sendo punidas e presas, ou até mesmo linchadas em público. Querem a centralização do poder na figura mítica de um herói, o qual fará todas as limpezas que julgar como necessárias. Querem limpeza, em todos os níveis possíveis. 

Progresso para essas pessoas é: a manutenção de de alguns valores, fundados principalmente em preceitos religiosos, por mais arcaicos e inúteis que sejam; a construção de obras faraônicas (levantar prédios, construir estradas e investir em segurança, em poderio militar, bélico, em todos os níveis) e limpeza, em todos os níveis, a qual inclusive pode envolver a matança de muitas pessoas que para elas representam o Mal.

Concebem a si mesmas como pessoas práticas, mas na verdade são somente toscas, pois carecem e repudiam um nível mínimo de conhecimentos básicos em relação a direitos humanos, ciência, meio ambiente, biologia, etc. Repudiam os avanços científicos, mas não deixam de fazer uso de seus benefícios, e também repudiam o investimento em cultura. 

Enfim: repudiam a própria atividade reflexiva e o debate democrático. Gostam de mais ação e menos conversa, mas gostam de uma ação que é mais genuína e infantilmente retratada por filmes de ação. Esse pessoal ainda pensa e age como se estivesse dentro de um filme do Rambo.

Liberdade de expressão

Há quem defenda a liberdade irrestrita de expressão, a qual faria com que qualquer pessoa tivesse a liberdade, por exemplo, de difamar ou caluniar. Argumentam que não é crime enquanto não houver dano comprovado.

Porém esse mesmo argumento também não teria de valer, por exemplo, para a defesa da liberdade irrestrita no trânsito? Enquanto não estiver causando dano deve então ser tolerado? Deve então ser tolerado, por exemplo, o comportamento de dirigir na contramão, por cima de calçadas ou em altas velocidades, totalmente incompatíveis com vias mais lentas, desde que isso não chegue ao ponto de causar algum acidente, algum dano material comprovado a alguém?

É isso o que os defensores da irrestrita liberdade de expressão defendem? É esse então seu argumento, para que exista a liberdade de caluniar, difamar ou ameaçar alguém de morte?
Tenho comigo, guardado a peso de ouro, a imagem do homem que se perde na rua brincando com as crianças para voltar pra casa embriagado das pessoas que constroem seu cotidiano e seu amor.
Moro na distância de um suspiro de alegria, a embalar a noite que me inebria.

Ironias nas lutas da vida

Existem basicamente dois tipos de ironia: a ironia instrumental e a observável. A primeira se refere basicamente a alguém dizer textualmente uma coisa e significar na verdade seu contrário. O segundo tipo se refere à ironia não-verbal que observamos no mundo, seja na representação de elementos que se se contrapõe  com contrastes surpreendentes e avassaladores,  ou na observação dos eventos do mundo em sucessão também contrastante e surpreendente.

Apesar de ter, em 2003, defendido um doutorado sobre o tema, nunca discorri sobre ele aqui no Facebook. Porém, quando percebo um volume grande de ironias acontecendo, sejam verbais ou não-verbais, aí não tem jeito: acabo ficando com bastante vontade de comentar o ocorrido.

Há cerca de um mês fiquei sabendo da história de um rapaz pobre que migrou da África, de Camarões, para Paris, na França, há cerca de 5 anos. Pobre, mas com uma estrutura física e muscular absolutamente surpreendente: 1,93 de estatura e quase 120 kg de de uma massa corporal carregada de músculos. 

Esse rapaz chegou à capital francesa com 26 anos de idade, e seu objetivo era continuar treinando boxe, como ele fazia em seu país natal. Seu sonho era conseguir uma carreira na área, já que na sua terra natal isso não estava se mostrando como muito promissor, devido principalmente a falta de recursos financeiros.

Porém, chegando à Paris, as coisas inicialmente se mostraram como muito mais difíceis do que imaginava, e acabou assim se transformando em um morador de rua. 

Depois de alguns dias ou meses morando nas ruas de Paris tentou ver se conseguia ser empregado em uma instituição filantrópica que fornecia refeições para moradores de rua. Conseguiu um emprego na cozinha dessa entidade. Não sei se era o cozinheiro ou se ajudava na preparação das refeições, mas sei que descascava muitos alimentos. E essa era a sua principal função.

Após alguns dias já trabalhando nessa instituição perguntou para as pessoas ali se elas conheciam alguma academia onde pudesse voltar a treinar boxe. Tendo descoberto onde havia a oportunidade de voltar a treinar, foi até academia indicada, e ali logo perceberam que ele tinha todas as condições para ter sucesso na carreira de lutador.

Contudo, seu treinador nessa academia lhe informou que o caminho mais rápido para o sucesso não era o boxe, mas o MMA.  Esse treinador prontamente percebeu que esse rapaz, Francis Ngannou, seria muito em breve um grande campeão, porque além de muito forte, também era muito ágil.

Francis então começou a atuar no circuito de MMA da França. Seu primeiro combate foi em 30 de novembro de 2013, aproximadamente um ano depois de ter chegado à capital francesa. Atuou em meia dúzia de lutas, vencendo cinco delas, e tendo somente perdido a sua segunda luta por pontos. Como nessa etapa teve uma trajetória impressionante, em seu sétimo combate (quase exatamente dois anos depois de seu primeira luta na França) já estava na principal competição de MMA do mundo, o UFC.

Sua estreia no UFC foi absolutamente impressionante, devido à potência e rapidez de seus golpes fulminantes. Fez seis lutas contra adversários poderosos, e venceu cinco delas com nocautes assustadores.

Somente cinco anos depois de ter vivido como morador de rua em Paris, Francis Ngannou já estava nos Estados Unidos disputando, como favorito, o cinturão de campeão dos pesos pesados do UFC. 

Toda essa trajetória já é muito irônica, mas não termina aí a sequência de ironias. Um mês antes da ocorrência da luta começaram as entrevistas com os dois lutadores. Pude assistir a duas delas, e assim inclusive conhecer melhor o campeão mundial.

O interessante de ter assistido a essas breves entrevistas foi também a minha surpresa com esse campeão mundial, Stipe Miocic. 

Miocic, que é  4 anos mais velho que Ngannou (tem 35 anos e  Ngannou tem 31), é americano, filho de pais croatas.

Miocic, após a vitória de ontem se transformou, por enquanto, no maior peso-pesado, do UFC, de todos os tempos. Ninguém antes havia defendido o título por três vezes consecutivas e vencido. 

Essa história é recheada de ironias, do começo ao fim, porque tudo começa há 5 anos, com um africano pobre que migra para a capital francesa. Chegando lá não consegue o que queria inicialmente, e se torna um morador de rua. Depois vai trabalhar na cozinha de uma entidade filantrópica e começa a treinar boxe, para cinco anos depois já estar lutando pelo título mundial dos pesos-pesados. 

Tudo isso é muito irônico. E continuaria sendo irônico se o africano vencesse. Mas acho que foi mais irônico do que isso. Nessas duas entrevistas que assisti o campeão sempre se comportou de maneira muito discreta e extremamente profissional, e o desafiante sempre de modo muito confiante, e dizendo que agora seria a vez dele e que ele iria vencer fácil. 

O campeão parecia muito menor e mais fraco. Contudo ontem, durante a luta de cinco rounds, a história teve um final diferente do que a maioria havia apostado. O campeão, que parecia muito menor e mais fraco, dominou o gigante: Davi venceu Golias. Essa história se completou com esse desfecho também muito irônico. Aliás mais irônico ainda do que se o gigante tivesse vencido.

Linguagem corporal

Há um canal no YouTube, cujo tema é linguagem corporal, o qual tem feito bastante sucesso. Esse tema, linguagem corporal, desperta muito interesse em muitas pessoas, porque tem um aspecto de espetáculo. 

A promessa é a de que seremos capazes de fazer a leitura dos desejos, intenções e sentimentos das pessoas, nos mais variados contextos, sem que precisemos entrevistá-las ou perguntar a elas o que está acontecendo.

A habilidade na leitura de linguagens corporais nos daria um grande poder. É a promessa de que, somente olhando para uma pessoa, saberemos o que aconteceu, o que está acontecendo e o que acontecerá. Promete uma espécie de onisciência em relação ao tempo (passado, presente e futuro) e à privacidade das pessoas.

Convenhamos, é uma promessa muito grande. Não é muito diferente do que algumas outras áreas controversas também prometem, tais como a hipnose e a programação neurolinguística.

Com pouco tempo, e pouco esforço, o detentor dessas habilidades teria um retorno muito grande. Do que já li sobre essas três áreas, para mim uma coisa é muito clara: sobram controversias e não há nada de conclusivamente corroborador no meio científico. E isso acaba sendo um terreno muito fértil para quem deseja trabalhar com isso como caça-níqueis. Sobram o mistério e a promessa de muito poder (em pouquíssimo tempo) sobre as pessoas.

Nesse canal do YouTube percebi que a linguagem é muito refinada, e a impressão é a de que aquele apresentador está falando de uma série de mecanismos já conclusivamente corroborados por dados científicos. Contudo, como já mencionei, a coisa não é exatamente assim. É uma área ainda, em termos científicos, significativamente controversa. 

Acho muito engraçado quando o apresentador desse canal faz análises da linguagem corporal de competidores, principalmente de lutadores, após a ocorrência das lutas. Analisar a linguagem corporal do vencedor, e tentar a todo custo justificar qualquer sinal que ele emite como sinal de alguém que vai vencer, sabendo que já venceu, é embuste.

Se o vencedor se mostra com o queixo firme, olhando fixamente nos olhos do oponente, com a musculatura toda contraída, é sinal de que vai vencer. Contudo, se o vencedor mostrar um olhar um pouco mais baixo e mais discreto, ou até mesmo hesitante ou tímido, também é sinal de que vai vencer porque estava com o olhar tranquilo de quem estava mais confiante. 

Praticamente tudo o que o sujeito faz e demonstra em sua linguagem corporal acaba sendo tomado como justificativa para o seu sucesso. Os critérios que ele aplica na análise dos vencedores não aplica na análise dos derrotados, pois sempre analisa a linguagem corporal após os resultados. E quando faz alguma análise, anteriormente a qualquer resultado, sempre faz nessa probabilidade de 50% para cada caso, o que não é muito diferente do que muitos videntes e charlatães fazem. 

Quem acompanhou a luta que ocorreu ontem na categoria dos pesos-pesados do UFC sabe muito bem do que estou falando. O vencedor parecia muito menor e mais fraco, além de ter um olhar muito menos focado. Contudo, durante a luta, tudo foi absolutamente diferente. O corpo também mente, e muitas vezes não é o corpo quem vai nos dizer que está mentindo. E é isso o que boa parte das pessoas que trabalha com linguagem corporal não fala. Nós seres humanos somos muito bons na arte da mentira, seja ela verbal ou não.

Então para saber se alguém está mentindo, ou qual será o resultado de um determinado evento, não basta a análise da linguagem corporal. Ela é somente um, dentre vários componentes, de uma análise da situação em questão. E certamente não é o principal deles. Se você fez algum curso na área, espero que seu professor tenha sido competente e responsável o suficiente para ter lhe dito isso.

Saturday, January 06, 2018

Por que a taxa de suicídios é maior nos países ricos do que nos países pobres?

Quanto maior a desigualdade social, menor o índice de felicidade. Quanto maior o índice de felicidade, maior a taxa de suicídios. E a taxa de suicídios é maior nos países ricos do que nos países pobres.

Eis alguns dados de pesquisa, por enquanto paradoxais, os quais vêm sendo replicados por fontes independentes.

A impressão que tenho é que altas taxas de suicídio tem uma relação muito maior com a disponibilidade para tal, seja ela obtida por meio de alguns incentivos culturais, assim como por meio até mesmo da disponibilidade de conhecimento, de informações acerca de meios que tornem mais possível o ato suicida.

O suicídio não é proporcional à quantidade de sofrimento porque se assim o fosse muitos animais cometeriam suicídio, e a maioria deles não comente suicídio justamente porque não tem capacidade cognitiva ou os meios disponíveis pra isso.

Então a taxa de suicídios é mais elevada nos países ricos e também os índices de bem-estar psicológico, de felicidade, porque eles têm os meios tanto para terem mais bem-estar psicológico como também para poderem dar cabo de sua própria vida.

Isso sem mencionar também os fatores relacionados ao alto nível de individualismo mais presente em estados ricos do que nos pobres, o qual também tem um papel grande, pois o suicídio é eminentemente um ato solitário e de certo modo bastante relacionado a um tipo específico de isolamento social.

"O que você tem é psicológico..."?

"O que você tem é psicológico..."

É comum ouvir isso, até mesmo de médicos. O problema, porém, é que já fizeram esse tipo de hipótese ou alegação psicologizante em relação a várias enfermidades, as quais depois se demonstraram como sendo determinadas por outros fatores. Cito alguns exemplos: tuberculose, úlceras gástricas e uma série de enfermidades relacionadas a inflamações crônicas.

Depois que descobriram o bacilo causador da tuberculose, as alegações de que era uma doença, cuja determinação era psicológica, foram para o ralo, e isso também aconteceu com as úlceras gástricas depois da descoberta do do papel da H. pylori, e isso vem acontecendo com várias enfermidades relacionadas a inflamações crônicas, agora com as descobertas recentes relacionadas à diminuição da diversidade microbiológica.

Religião faz as pessoas mudarem?

Onde falta o estado, e bem-estar social, sobram igrejas.

E afirmar simplesmente que religião muda a vida das pessoas para pior não faz muito sentido, porque essas pessoas encontram redes de apoio em igrejas e templos. Encontram algo que é fundamental para o bem-estar psicológico.

Fazer parte de uma rede de apoio, de um grupo no qual se é acolhido, é fundamental para que a vida se organize de modo minimamente razoável, para que a pessoa possa continuar vivendo, para que ela não adentre um ciclo destrutivo, o qual em nossa sociedade está muito relacionado à drogadição, uma série de transtornos mentais incapacitantes e criminalidade.

Uma pessoa que segue uma série de dogmas, para se sentir pertencendo a um determinado grupo, pode até ser vista como alguém quem não está caminhando de modo muito racional, quando se refere a pensar qualquer coisa fora do que seu grupo pensa. Possui um nível baixo de crítica, autocrítica e independência intelectual. Mas tem forças para continuar vivendo. Pensa que sua vida tem sentido pela existência de uma entidade onipotente e sobrenatural, mas na verdade a sua vida de fato tem sentido porque faz parte de um grupo que a acolhe.

Prefere até mesmo o fim do mundo a deixar a companhia de seus pares.

Otimismo e pessimismo (um pouquinho de análise do comportamento pode ajudar)

É muito comum que as pessoas recomendem umas às outras que elas precisam ser mais otimistas. Porém não nos esqueçamos de uma coisa: o otimismo é um sentimento, e sentimentos não brotam do nada. Cada um tem uma história de vida e condições específicas para poder se sentir desta ou daquela maneira, para se sentir otimista ou não, por exemplo. Portanto a recomendação para que alguém seja mais otimista tende a fracassar. É como recomendar, por exemplo, para que alguém não sinta fome quando está sentindo fome.

O que muitas pessoas não percebem é que, na variedade e complexidade da vida, há históricos diferentes de relação com a frustração. Para fazer com que as pessoas passem a ser mais otimistas (no sentido comportamental de continuarem lutando, apesar das condições adversas, o que em muitos casos nem mesmo seria classificado como otimismo, mas que seria sim o mais desejável) é necessário que haja treinamento, habituação em relação a alguns tipos de frustração.

Porque é aquela velha história: o pessimista reclama do vento, o otimista espera que ele mude de direção, e o realista ajusta as velas. E olha que esse realista aí pode até estar um pouco pessimista, dizendo que a probabilidade de conseguir as coisas seja pequena, mas ele não para de agir, não para de tentar ajustar suas ações ao que está ocorrendo no mundo e na natureza. Trata-se do que muitos chamam de otimismo da ação, o qual é muito melhor do que o otimismo da ideia.

Em muitos casos é melhor a combinação de pessimismo no campo das ideias com otimismo no campo da ação. Se você vai, por exemplo, construir um avião, talvez seja melhor pensar no pior que pode acontecer, para assim construir o melhor avião possível.

Gut Hack

Acabei de assistir a um vídeo incrível, no qual, em fevereiro de 2016, o biohacker Josiah Zayner tenta fazer um transplante de todo o seu microbioma.

O cara é PhD em biofísica, e durante um período foi pesquisador na NASA.

Assim como eu, ele vem há vários anos padecendo de problemas gastrointestinais os quais, segundo um corpo crescente de evidências científicas, podem ser eliminados, ou significativamente amenizados, com uma alteração radical do microbioma intestinal.

O primeiro passo foi encontrar um doador saudável. Escolheu um amigo que ele julgava como completamente saudável para lhe doar fezes, saliva e amostras de pele.

O segundo passo foi composto pela tentativa de esterilização total de seu organismo. Tomou antibióticos para esterilizar os intestinos e se utilizou de uma série de procedimentos bactericidas para esterilizar completamente a sua pele.

O terceiro passo foi o próprio transplante, o qual exigiu anteriormente uma preparação bastante trabalhosa, pois ele teve de transformar essas amostras de pele, saliva e fezes em amostras que se tornassem biodisponíveis para o transplante. Então teve de preparar, por exemplo, as fezes de modo adequado, em solução salina específica, na proporção adequada, em cápsulas que pudesse ingerir, e que se abrissem somente em seus intestinos.

Não tenho todos os detalhes desse autoexperimento porque assisti somente ao vídeo, no site do New York Times, que veicula uma parte de todo o documentário que foi feito a respeito, o qual inclusive também está integralmente disponível na internet, para que qualquer pessoa possa assisti-lo gratuitamente.

Esse vídeo, entretanto, mostra que esse terceiro passo, que é o da tentativa de transplante total, foi realizado durante o período de 72 horas.

O mais interessante é que os produtores desse documentário registraram as reações contrárias de diversos pesquisadores e especialistas ao que Zayner estava fazendo. Obviamente há diversos pesquisadores pelo mundo afora, que estão lidando em detalhes com esse tipo de evidência, os quais talvez não fizessem oposição ao que ele estava fazendo. Contudo, os produtores fizeram questão de registrar as reações contrárias, as quais provavelmente são de pesquisadores não familiarizados com esse campo de estudos. E nesse vídeo é possível ouvir os áudios dos depoimentos de alguns desses pesquisadores, dizendo que o que ele estava fazendo era simplesmente estúpido, pois não havia um controle adequado de variáveis, além de perigoso, pois havia sérios riscos de contaminação, de ficar seriamente doente.

Entretanto, o que esses pesquisadores talvez não soubessem é que se tratava de um biofísico, expert em técnicas de sequenciamento genético.

E então o que Zayner fez? Ele submeteu todo o seu microbioma a um sequenciamento genético, que foi realizado por um laboratório independente, antes do experimento e 8 semanas depois.

E vejam só que interessante foi o resultado. O sequenciamento genético de sua pele, depois de 8 semanas, se manteve exatamente como era originalmente. Contudo, o microbioma de seus intestinos se alterou completamente. Logo depois desse transplante fecal, e ainda 8 semanas depois, o microbioma de seus intestinos estava quase idêntico ao microbioma dos intestinos de seu amigo que lhe doou as fezes.

E, o melhor de tudo: seus sintomas gastrointestinais simplesmente desapareceram.

Ainda não li nada sobre como seu organismo vem reagindo a essas mudanças, meses após os transplantes. Mas sei que essa técnica, a do transplante fecal, tem uma história de centenas de anos na medicina chinesa.

Essa técnica inclusive foi submetida a um experimento bastante rigoroso, realizado por uma equipe numerosa de pesquisadores holandeses, cujos resultados foram publicados na mais conceituada revista científica de medicina (New England Journal) no início de 2013.

Esses resultados foram de grande impacto no meio científico, pois o transplante fecal se mostrou como definitivamente superior ao tratamento antibiótico (com vancomicina) de colite pseudomembranosa, em estágio grave, provocada por bactérias resistentes da espécie Clostridium difficile.

Para quem quiser se aprofundar nessas questões posto abaixo o link referente a esse documentário, no New York Times, assim como alguns links básicos referentes às evidências científicas desse tipo de abordagem.

A pornografia e suas implicações para a saúde

Há um vídeo, que muitas pessoas estão compartilhando aqui pelo Facebook, o qual veicula a declaração de um músico, de 28 anos de idade, que relata como sua vida sexual e afetiva melhorou significativamente após ter abolido a pornografia de sua vida.

Ele diz que vinha tendo problemas de ereção, e que de repente resolveu parar e pensar melhor em como estava a sua vida afetiva e sexual.

Relata que, após fazer uma análise de como se masturbava, percebeu que isso geralmente ocorria a partir de imagens e vídeos pornográficos, desde seus 12 anos de idade:

"Eu tenho 28 anos, e eu acho que consumo pornografia desde os 12/13 anos de idade. Então posso dizer que eu consumo pornografia diariamente, semanalmente, há 15 anos aproximadamente. Eu nunca tive educação sexual, assim propriamente dita, na escola ou em casa, então a minha sexualidade foi construída a partir da pornografia. Foram 15 anos de uma sexualidade construída a partir de vídeos, fotos e conteúdos pornográficos em geral."

Fico um pouco assustado com a perspectiva de que a pornografia tenha um papel maior na vida de muitas pessoas do que as próprias experiências de vida, vividas na variedade das inúmeras interações que a vida oferece.

Essa vida é muito maior do que os vídeos ou imagens que as pessoas veem pela internet. Se o que as pessoas estão vendo pela internet ocupa um espaço maior, é mais determinante para o que elas vão fazer em suas interações sexuais e afetivas, nós estamos realmente diante de um problema sério.

Ouço a esse tipo de consideração com um estranhamento muito grande, porque minha experiência pessoal contradiz completamente isso que esse rapaz diz nesse vídeo. Nunca fiz a mim mesmo qualquer tipo de restrição para assistir ou ver imagens de cunho pornográfico e acho que isso nunca influenciou negativamente em minhas interações afetivas e sexuais, as quais sempre foram muito mais variadas e singulares do que qualquer representação, em imagens ou vídeos de sexo explícito.

Minha experiência de vida me mostra que a vida é muito maior, mais complexa e variada do que o que podemos assistir em imagens ou em vídeos de sexo explícito na internet.

A minha impressão é a que a vida é muito mais vasta do que isso. Se de fato um número significativo de pessoas estiver produzindo malefícios para sua vida afetiva e sexual em virtude dos vídeos ou imagens pornográficas que veem na internet, não tenho a menor ideia de como exatamente isso está se produzindo porque inclusive, dentre os inúmeros atendimentos que já fiz, como psicólogo, nunca observei esse tipo de problema no relato de meus pacientes.

E sim, obviamente que meu testemunho continua sendo meramente anedótico. Mas não consigo observar isso nem mesmo nos relatos de meus amigos, nos relatos das pessoas com as quais interagi nessa vida. Então será que eu vivo em um outro planeta?

Em relação à forma como a mulher é retratada nas produções pornográficas concordo que ela, na maioria das vezes, é representada como alguém que está ali para servir os homens.

Mas será que as pessoas adultas, os maiores consumidores desse tipo de material, são assim tão imaturas e burras ao ponto de simplesmente reproduzirem o que veem nessas imagens, com desprezo total para as diversas nuances da vida real, da vida que elas realmente vivem, no dia-dia, com todos os embates, contratempos e os envolvimentos afetivos que têm com as pessoas, no cotidiano, com as quais fazem trocas reais, e trocas que influenciam verdadeiramente seus modos de agir no mundo?

Fora o fato de que acho muito cansativo e brochante como as coisas são geralmente representadas nas imagens ou vídeos pornográficos. É sempre da mesma maneira, com um único padrão de beleza ou das ações produzidas nesses vídeos. São representações muito repetitivas, sempre com os mesmos tipos físicos de homens e de mulheres, e sempre com roteiros muito rigidamente inalterados.

São filmes enjoativos, repletos de gemidos e gritos desproporcionais, com representações de força ou de atos agressivos e violentos, os quais transformam tudo em algo simplesmente distante da realidade, da vida cotidiana, a qual é feita da interação entre imperfeições, entre pessoas que hesitam e que possuem uma série de oscilações para com seu desejo e em sua relação com o mundo.

Sinto que responsabilizar a pornografia pelos abusos que as pessoas cometem, ao deixarem de viver e ficarem somente vendo pornografia o dia inteiro, não é muito diferente do que responsabilizar as drogas ou o álcool pelo alcoolismo, pela drogadição.

Sabemos muito bem que a drogadição tem como base um empobrecimento da vida. Esse empobrecimento da vida é que leva à drogadição, assim como me parece que o empobrecimento da vida afetiva e sexual, ou alguma grande decepção ou frustração nesse campo, é que levam a uma espécie de toxicomania pornográfica.

Então, a partir desse tipo de evidência científica, a minha percepção é a de que a pornografia não é causa de qualquer tipo de distúrbio na vida sexual. Ela é um dos efeitos dos distúrbios, os quais estão relacionados ao empobrecimento da vida, o qual diz respeito à isolamento socioafetivo, frustrações ou decepções traumáticas no campo afetivo- sexual, e inclusive a falta de experiência, a falta de contato afetivo e sexual real com outras pessoas.

Sim, acho que é possível que um adolescente, ainda completamente inexperiente no campo amoroso e sexual, venha a se atrapalhar bastante se suas únicas experiências são somente visuais, assistindo a material pornográfico.

Mas isso é somente o que eu penso acerca de uma determinada possibilidade. Para poder se fazer qualquer afirmação nesse nível, teríamos que visitar a literatura científica, e observar se esse é um problema real, se isso de fato vem provocando problemas na iniciação sexual de adolescentes.

Há também quem faça uma analogia com a questão das drogas, ao ponto de fazer uma distinção, a qual reserva à pornografia o papel do crack. Nesse sentido a sexualidade seria muito mais vasta, e incluiria o que chamamos de drogas recreativas. Mas a pornografia seria, nesse caso, algo à parte: seria portadora de uma significativa periculosidade. Ou seja, a pornografia seria como o crack, talvez a uma das únicas drogas cuja defesa é praticamente impossível, dado o tanto de malefícios que causa, dado seu potencial destrutivo, o qual é significativamente maior do que a maioria das drogas recreativas existentes.

Eu contudo não penso que a pornografia seja o crack nisso tudo. Acho que a pornografia é o combo de todas as drogas nisso tudo. Penso que querer eliminar a pornografia não é muito diferente do que querer eliminar as drogas. É uma guerra perdida.

Acho um pouco infundado esse empreendimento de tentar convencer as pessoas de que elas devem consumir menos pornografia, como se a pornografia fosse um mal em si ou, como já anunciei, um determinante de distúrbios na sexualidade.

Acho que o que esse rapaz está fazendo nesse vídeo não é muito diferente do jargão: "diga não às drogas!". Ele está dizendo "diga não à pornografia!". E, pelo que entendo, segundo as evidências científicas mais atualizadas, isso é infundado.

Portanto tenho a hipótese de que esse seja um falso problema ou simplesmente uma nova forma de moralismo.

Para quem quiser assistir ao vídeo dele, eis o link: https://goo.gl/pVq8ku

A vantagem de se declarar como agnóstico

A vantagem de se declarar como agnóstico é evitar patrulhamento e encheção de saco. A maioria das pessoas que querem saber do posicionamento dos outros, nesse campo, não entende o conceito de agnosticismo e logo se desinteressa da conversa, nem mesmo tendo ideia que, no final das contas, ou se é crente ou ateu. Pois, no final das contas, a crença quase sempre pende para um ou outro lado. Porque se tivesse de apostar na existência ou não de algum tipo de deus, a maioria logo se perceberia como crente ou ateu.

Psicólogo pode se envolver? Como? Em que nível?

Psicólogo tem que se envolver com o que o paciente está lhe dizendo. Tem que mergulhar de modo integral no universo do paciente. Esse envolvimento inclui um certo envolvimento emocional também. Contudo, não é o mesmo envolvimento que existe em uma amizade, pois uma amizade é uma relação simétrica e não controlada de troca, de reciprocidade.

Aí não consigo deixar de me lembrar de quando um colega, médico, me disse assim:

- Eu não me envolvo. Acho melhor não me envolver emocionalmente com meus pacientes. Porque se eu fizer isso, vou me compadecer demais e não vou dar conta de atender a todos.

É interessante porque muitas pessoas, inclusive pacientes, me perguntam sobre como dou conta, pois percebem meu envolvimento emocional. Quando posso, tento explicar que esse é meu trabalho, o qual é controlado, pois geralmente tem hora e local marcado, para começar e para terminar, que algumas vezes levo pra casa alguns sentimentos e reflexões, e que raramente as coisas extrapolam ao ponto de me desesperar ou me sentir sobrecarregado. Enfim: explico-lhes o quanto é diferente de uma amizade.

Mas para esse colega, médico, fiz questão de dar a seguinte resposta:

- Eu, pelo contrário, me envolvo. Meu trabalho é me envolver emocionalmente também. Acho que é inclusive uma boa técnica para que eu não me dessensibilize para com a dor alheia.

Psicopatas?

Conheci e conheço algumas pessoas que têm uma vida completamente "tranquila e normal", algumas pessoas realmente boas em seu cotidiano.

Elas não fazem mal pra ninguém. Não manipulam ninguém, não abusam de ninguém. Contudo, em sua vida sexual ou afetivo-amorosa, possuem um histórico de terem cometido uma série de abusos, ao ponto de eu ficar pensando se elas eram meio psicopatas.

E elas não são psicopatas, mas no campo afetivo-sexual têm comportamentos típicos de uma pessoa psicopata. Vivem relacionamentos simultâneos, enganam, mentem, são completamente descaradas, cínicas.

Mas também tenho de admitir que não observei da parte delas uma falta de empatia, sincera, para com o sofrimento alheio. Mesmo agindo de forma completamente cínica, descarada e manipuladora, têm a capacidade de se compadecer quando percebem que estão fazendo o outro sofrer. Isso obviamente já desqualifica qualquer tipo de classificação delas como sendo psicopatas.

Velomóveis

A maioria de vocês talvez nunca tenha ouvido falar de velomóvel (velomobile). Trata-se de um triciclo ou quadriciclo, movido a pedal (com assistência elétrica ou não), o qual possui carenagem, proteção contra o clima.

É uma mistura de carro com bicicleta, o qual geralmente comporta somente uma pessoa. Porém com um velomóvel é possível fazer até mesmo compras, carregar quilos de compras, porque a maioria dos velomóveis têm um compartimento para cargas.

Tenho verdadeira fascinação por esse veículo porque, como muitas pessoas pelo mundo afora, penso que seria uma alternativa bastante viável para o transporte urbano. Sim, eu sei que a verdadeira solução para o transporte urbano está no transporte coletivo, não tenho dúvidas disso. Porém tenho fascinação também por alguns transportes individuais alternativos, geralmente movidos por força muscular ou elétrica. E o velomóvel se encaixa nessa categoria.

Com minha bicicleta elétrica já estou realizando um sonho que eu tinha. Mas fico pensando que é muito triste que as ruas não estejam cheias de velomóveis ao invés de carros, pickups e SUVs...

Por que Bolsonaro está em segundo lugar nas pesquisas?

Porque nosso candidato protofascista à presidência da república está com tanta força, em segundo lugar nas pesquisas? Sugiro, primeiramente, que vocês leiam o texto abaixo:

"Você acorda cedo, rala pra caramba pra sobreviver com o seu salário. Volta pra casa em ônibus lotado, um caldeirão de gente se acotovelando. Morre de medo de ser assaltado todo dia. Passa por um tiroteio no caminho de casa, e a única segurança que sente é a fé que tem em Jesus (e a confiança de que está com o dízimo em dia). Quando finalmente chega em casa, tudo que você quer é relaxar assistindo o futebol e a novela.

O que a esquerda moderna tem a dizer sobre você?

Que você é tudo que ela odeia. Que você é um imbecil por acreditar em deus, um alienado por assistir a Globo, um reacionário maldito por ter medo de bandido. Que você é machista por gostar de ver a dançarina rebolando no Faustão, e ao mesmo tempo homofóbico por não gostar do clipe do Pablo Vittar. E além de machista e homofóbico, você também é racista, fascista, transfóbico, heteronormativo e mais um monte de outros palavrões sofisticados que você não sabe nem pronunciar.

Do alto de sua torre de marfim, os intelectuais de esquerda idealizaram um pobre que só existe na mente deles - um pobre que está muito preocupado com apropriação cultural, islamofobia, agricultura orgânica, laicidade do Estado e veganismo. Essa enorme elite burguesa - quase sempre sustentada por dinheiro de impostos cobrados de você - está lá, falando palavras difíceis e preocupada com temas completamente alheios ao seu dia-a-dia, enquanto fala mal de tudo que você gosta e te chama de idiota.

E o pior de tudo, petulância das petulâncias: ela acredita que te representa.

A esquerda fala muito de alienação mas, de tão alienada em si mesma, se convenceu de que representa os pobres. Nada mais longe da verdade. Na verdade, ela não tem o menor interesse de representar, mas sim de controlar os pobres. A esquerda ama o pobre no mesmo jeito que alguém ama seu bichinho de estimação - eu te dou comida e limpo seu cocô, em troca você me deve lealdade e obediência eternas.

Eis que chega um Trump. Eis que chega um Bolsonaro.

Eles não querem ditar o que você deve pensar. Pelo contrário, parecem dar voz ao que você pensa. Eles não estão preocupados com a ararinha azul ou com a representatividade trans-quilombola no congresso, mas com os seus problemas reais.

Finalmente um político promete prender o bandido que roubou o celular que você ainda está pagando prestação, em vez de dizer que ele é uma vítima da sociedade que precisa de carinho. Finalmente um político que fala de Jesus, em vez perseguir o cristianismo e proteger o islã. Finalmente um político que promete acabar com a boca de fumo que destruiu a vida do seu filho, em vez de falar de legalizar a maconha. Finalmente o seu Zé, dono do botequim da esquina, vê um político que o reconhece como um empreendedor que rala pra caramba, e não como um empresário malvadão explorador.

Não é questão de eu concordar ou não com essas pautas. Como quem me conhece sabe, eu sou um ateu, defensor da laicidade, do aborto, da legalização das drogas, e da igualdade de direitos. Mas eu também sou só mais um burguesinho na minha torre de marfim.

O fato é que esses políticos estão realmente alinhados com os anseios do povão e isso, no Brasil e no mundo atuais, é uma raridade."

O texto acima faz muito sentido. Mas não faz todo o sentido, porque o que o autor chama de "esquerda moderna" não resume toda a esquerda, não é a esquerda inteira. A esquerda é também um campo heterogêneo.

O autor também se esquece que existe um candidato de centro-esquerda que tem praticamente o dobro dos votos de Bolsonaro: Lula. E Lula praticamente não tem nada a ver com as considerações feitas acima. Tanto Lula quanto Bolsonaro tem ressonância com uma série de anseios e valores da maior parte da população brasileira. Se você trocar o termo "esquerda" por "Lula", o texto acima perde completamente o sentido. E boa parte da esquerda no Brasil ainda é Lula.

Mas concordo plenamente com uma coisa: a esquerda que se comporta como no texto acima está realmente em franco desalinhamento com os anseios e o cotidiano da maior parte da população brasileira.

Para ler, na íntegra, o texto que citei: https://goo.gl/uYmRhL

A corrupção da classe política e do empresariado é um reflexo do jeitinho brasileiro?

A corrupção da classe política e do empresariado é um reflexo do jeitinho brasileiro?

Acho bem possível que isso seja uma falácia, composta por uma uma falsa dualidade e uma falsa analogia.

Talvez haja mais do que dois elementos nessa equação. É possível que existam vários contextos, e não somente o contexto da população geral e o contexto da classe política e do empresariado.

Mesmo que exista essa dualidade, será que as leis e as consequências para seu não cumprimento são as mesmas nos dois contextos?

As causas, os determinantes, do jeitinho brasileiro talvez sejam, em muitos contextos, totalmente diferentes dos determinantes da corrupção na classe política e no empresariado.

Certamente deve haver espaços de intersecção, situações em que o jeitinho brasileiro se estende também para os atos dos políticos e do empresariado. Sabemos, por exemplo, que o patrimonialismo é algo muito presente em nossa história, e ele acontece desde o nível do bairro, do município, até o nível federal. Porém não creio que exista essa continuidade, essa linearidade perfeita entre a população geral e a classe política.

Fora o fato de que é tolice acreditar que a população de repente vai botar a mão na consciência e mudar, porque não se trata simplesmente de uma questão moral.

Há evidências, pesquisas científicas, que demonstram o papel fundamental da constituição legal para a implementação de mudanças que visem a diminuição da corrupção. O comportamento das pessoas não vai mudar simplesmente por uma espontânea tomada de consciência. É necessário que existam leis que sejam devidamente cumpridas. É necessário que existam leis que as pessoas tenham condições de cumprir.

E é nesse ponto que também entra um fator talvez muito importante: a burocracia, a qual é comumente constituída de regras e leis muito difíceis de serem cumpridas. Existem recomendações, baseadas em estudos científicos, que apontam o excesso de burocracia também como um dos fatores responsáveis pela corrupção, ou pelo que chamam de "jeitinho".

Então no Brasil a população acaba tendo dificuldades de lidar com a burocracia, assim como a impunidade também parece ter seu papel. Inúmeras e variadas regras, redundantes, com muitas que parecem ser francamente inúteis, se constituem num emaranhado de muito difícil compreensão para a população, cujo sucesso no seu cumprimento acaba ficando muito aquém do que as próprias normas prescrevem.

Isso configura um quadro no qual existem muitas leis que simplesmente não são cumpridas pela maioria das pessoas, e tudo fica por isso mesmo, sem qualquer tipo de penalização, a qual seria muito mais custosa do que a situação já dada.

Algo que também é frequente, principalmente no meio político, é o balanço entre os atos de corrupção e suas respectivas penalizações. Se as penalizações acabam sendo menos custosas do que as transgressões, está aberto o caminho para a corrupção.

Alguns pesquisadores chegam a colocar nessa equação a questão do risco de ser descoberto mais o custo das penalizações. Se o risco de ser descoberto é pequeno, e o custo de uma penalização é menor do que o custo da transgressão, a tendência é ocorrer transgressão.

O risco de ser descoberto é geralmente menor quando há menos transparência, a qual está diretamente ligada ao tanto que uma sociedade, um determinado contexto é democrático, e também a algumas tecnologias da informação. Quanto menos democracia e participação popular existir, maior a tendência à corrupção. Quanto menos disponibilidade de informações na internet, para que a própria população possa fiscalizar, também aí, no caso, existe uma maior tendência à corrupção.

As pesquisas realizadas por Dan Ariely também revelam fatos interessantes. O dado que ficou mais solidamente depurado de suas pesquisas é que a desonestidade está em praticamente todas as pessoas. Há uma tendência a trapacear em todos nós, principalmente se tivermos a confiança, ou a convicção, de que não seremos descobertos.

Contudo essa tendência geral à desonestidade é, na maioria das pessoas, uma tendência a trapacear somente um pouco e não de maneira exagerada ou total. Somos todos então, de certo modo, essencialmente trapaceiros e desonestos quando temos a oportunidade para tal, porém a maioria das pessoas costuma "roubar" somente um pouquinho.

Voltando à questão inicial, acho que é muito importante não nos esquecemos de que possivelmente existem os mais variados contextos nessa equação, e não somente a tão alardeada dualidade entre a população geral e a classe política, ou a continuidade perfeita entre uma e outra, como se a própria população, ou a cultura brasileira, fossem os responsáveis pela corrupção em nosso país.

Eutanásia em casos de transtornos mentais

Há poucos dias, no Facebook, alguém publicou isso aqui:

"Muitos falam sobre a eutanásia abordando apenas doenças orgânico-funcionais, como câncer, miopatias, alterações genéticas, etc.. Por que não se fala de doenças psiquiátricas? Pode-se dizer que é porque a pessoa terá alterações psicológicas o suficiente para não tomar uma decisão correta, é claro, mas e alguém de idade avançada que tenha sofrido todos os anos da vida com depressão profunda para a qual não há tratamentos?"

Minha resposta para essa questão é essa aqui:

Na Bélgica, por exemplo, uma pessoa nessa condição, em uma condição irremediável, seja qual for, depois de um certo tempo passa a ter o direito de morrer.

Ou seja: ela passa a ter o direito de ser ajudada pelo Estado para conseguir morrer em paz. Na Bélgica é assim porque existe a concepção de que a sociedade é responsável pelos seus membros.

Estar em sociedade é completamente diferente de estar sozinho. Se você está sozinho, você constantemente responde por si mesmo. Porém, se você está em sociedade, a sociedade em boa medida é também responsável por você e por seu bem-estar. Porque ninguém em sociedade está vivendo completamente sozinho. Sociedade implica nisso: em ter sócios. Se você tem um sócio, ele também é responsável por aquilo que você é responsável.

Existe uma sociedade no empreendimento da vida. Há uma vida em grupo, há uma vida em sociedade: então a sociedade deve ajudar o sujeito tanto a viver bem quanto a morrer, se for um caso irremediável.

Saturday, November 18, 2017

O otimismo e os cadáveres do Monte Everest

Acabo de ler, aqui pela internet, a seguinte frase: 

“Lembre-se de que todo cadáver, no Monte Everest, já foi um dia uma pessoa altamente motivada.”

Como muitos de vocês sabem, há centenas de corpos de pessoas que morreram durante a escalada, e que estão congelados no Monte Everest.

Essa frase é bastante interessante porque demarca muito bem o limite do entusiasmo, da motivação, do otimismo. Para se ter sucesso não basta estar motivado, entusiasmado, pensando positivo, com vontade de fazer as coisas. É necessário, antes de tudo, estar muito bem treinado. 

Essa frase é interessante, porque é um soco no estômago da ideia de que o otimismo é determinante para alguma coisa nessa vida. O fato é que o otimismo não é determinante de nada. E não é determinante de nada porque ele não é o início. É o fim. Não é causa. É consequência. O otimismo é um efeito de interações favoráveis com o mundo e as pessoas.

As coisas não dão certo porque você está motivado, otimista. Você fica motivado e otimista porque as coisas estão dando certo. É esse o ponto principal, e que deve ser levado em conta. É justamente isso que essa frase impactante nos faz lembrar.

É óbvio que uma pessoa mais motivada irá produzir mais. Mas o ponto principal aqui é o equívoco das pessoas em acreditar que a motivação irá surgir do nada, ou de algumas estimulações que na verdade são bem pouco efetivas para fazer com que os outros fiquem mais motivados. Não adianta ficar falando que as pessoas têm de ser mais otimistas, porque isso é muito pouco efetivo para produzir mais otimismo. Assim como também não faz o menor sentido ficar falando que as pessoas têm de ser mais motivadas.

Aliás, nesse caso, o termo motivação é bem mais adequado que o termo otimismo, pois há uma compreensão melhor de que a motivação precisa ser produzida por meio de melhorias nos ambientes em que as pessoas atuam. Quando se fala em motivação, as pessoas compreendem melhor que ela não depende de pensamentos positivos ou inutilidades similares. Compreendem que é necessário fomentá-la, e que esse fomento preferencialmente ocorra com mudanças efetivas nas interações que as pessoas têm com o mundo e os outros. Se o ambiente é melhor, mais estimulante e acolhedor, a tendência é que as pessoas se sintam mais motivadas.

Quando utilizamos o termo motivação fica mais claro que não depende da própria pessoa para que ela seja mais motivada. Não basta ela pensar que ela tem que ser mais otimista ou mais motivada, porque a motivação não brota de si mesmo. Surge sempre de fora. A mudança, segundo as evidências mais sólidas, sempre se dá de fora para dentro, e não o contrário, como o senso-comum apregoa. 

Acreditar no contrário é acreditar em geração espontânea. É acreditar em falsos agentes. É trocar o determinante pelo seu efeito. É mexer no lugar errado. É não compreender a distinção fundamental entre variáveis dependentes e independentes em relação a nosso comportamento. Serve para quem não quer mudar nada, para depois ainda jogar a culpa nas costas de alguém. Só serve para isso: para manter tudo como está.

Então, finalizando: ninguém tem que ser otimista. As pessoas tem que ser motivadas, por outras pessoas, pelo mundo, e motivadas de modo adequado.

Tive hoje um momento 14 Bis!

Acho que alguém só sabe nadar, de verdade, quando já sabe boiar. E Luisa hoje, em um momento de inspiração, se jogou na água, de costas, na posição de quem sai nadando, ou boiando, e enquanto assim vazia, batendo as perninhas, foi tirando minhas mãos de suas costinhas, pedindo para que eu tirasse as mãos dela, e saiu sozinha nadando, boiando de costas. 

Foi por uma distância curta, mas foi o suficiente para que eu tivesse o sentimento de que hoje eu tive um momento 14 Bis!

O olhar sistêmico

Sim, eu sei que quando alguém está falando de outra pessoa está em boa medida falando de si mesmo. Sei que também é possível conduzir um processo de acompanhamento psicoterápico, com sucesso, somente atendendo essa pessoa, sozinha, a qual pode constantemente se referir a outras pessoas, ou a alguma pessoa especificamente. Ou seja, nesses casos é possível uma psicoterapia não-sistêmica, a qual ouça somente um dos lados, e assim alcance sucesso, eficácia.

Contudo não consigo atualmente conceber que esse tipo de abordagem, não-sistêmica, seja mais prática do que uma abordagem sistêmica quando há referência constante e repetida a alguma pessoa com quem o paciente interage, em uma relação de coabitação, dependência, interdependência ou submissão. 

Em minha prática atual prefiro sugerir ao paciente que convidemos a pessoa sobre quem ele sempre fala (a qual geralmente têm uma relação muito grande com seus sintomas), para que compareça às sessões, para que eu possa conversar com ambos.

Um bom processo de psicoterapia individual pode, aos poucos, ir separando o que é a versão da própria pessoa da versão dos outros, e isso ir se configurando de modo a se produzir mais consciência da realidade, mais lucidez. Uma boa psicoterapia individual pode ir, aos poucos, discriminando esses conteúdos ao ponto do sujeito, nesse processo, ir adquirindo maior consciência sobre si mesmo e o papel dos outros em sua vida.

Contudo, acho que não há nada melhor do que chamar a outra pessoa para conversarmos, os três, juntos, colocando todas as cartas na mesa, ouvindo a todas as versões envolvidas. Porque faz um pouco de sentido o jargão de que existem três versões para para tudo o que ocorre nesse mundo: a minha versão, a sua versão e a realidade. 

Acho importantíssimo todos sentarem juntos e se ouvirem. Acho fundamental esse aspecto de constante negociação, de constante tentativa das pessoas entrarem em acordos de vida que sejam mais saudáveis.

Na minha concepção atual penso, por enquanto, que atuar dessa forma é mais prático e eficaz. Desse modo os resultados começam a se produzir de maneira mais rápida e sólida.

Lições de anatomia

- Pai, qual é o nome de onde sai o cocô?

- Bumbum.

- Não, pai, eu quero saber o nome de lá de dentro do bumbum, do buraquinho de onde sai o cocô...

Fatos inusitados em narrativas de pacientes

Talvez nenhum outro profissional de saúde se dedique de maneira tão intensa e integral aos pacientes quanto o psicólogo.

Já pude me surpreender tanto com o que ouvi de meus pacientes que faz todo o sentido de vez em quando relatar aqui. Então abaixo vou somente pincelar alguns conteúdos de 3 histórias que acompanhei e como elas são aparentemente, ou de fato, surpreendentes:

1. Uma paciente que tivera toda a sua história de vida permeada por uma orientação heterossexual e de repente conheceu uma mulher, a qual se transformou em sua amiga, e depois de um certo tempo as duas se apaixonaram e passaram a viver juntas. Ambas relatavam que eram heterossexuais até o momento em que se conheceram. Essa paciente sempre me dizia que não tinha, que nunca havia sentido atração sexual por outras mulheres. Dizia que era homossexual somente na relação com essa companheira, e que se um dia isso terminasse ela voltaria para sua vida heterossexual. Àquela época, pelo acompanhamento que ela tinha comigo, em inúmeras sessões, minha hipótese era a de que, havendo um rompimento, ela não voltaria exatamente para a mesma vida que tinha antes. A minha hipótese era a de que, após esse relacionamento, ela passaria também a ter uma orientação homossexual em sua vida. Ela passaria a ter então uma orientação mais bissexual, pois as características de sua companheira tenderiam a ser generalizadas para outras mulheres. Mesmo que a fala dela em relação ao que sentia para com outras mulheres, que não a sua companheira, não fizesse o menor sentido, o próprio relato não deixa de ser interessante e fecundo para análise e algumas reflexões.

2. O caso da paciente que tinha muitos episódios de violência física na relação com seu marido, porém a violência nesse caso geralmente produzia mais malefícios e ferimentos para ele e não para ela. Não os acompanhei ao ponto de saber o que sucedeu depois, e não cabe aqui enunciar os motivos para a interrupção da terapia com eles. Porém, à época, havia um risco muito grande de morte para esse rapaz, pois ela já tinha um histórico judicial de sérias tentativas de homicídio. Em um confronto mais sério, mesmo que começado por ele, havia o risco grande dele se ferir gravemente ou morrer. Como era ela a paciente, e não ele, chegamos, eu e ela, juntos, a essa conclusão. Ela estava em vias de deixá-lo e ele, muito ciumento, oferecia riscos, pois em um outro momento de rompimento já havia abordado-a na rua, armado de uma faca. Ela, porém, era maior, mais pesada e mais ágil do que ele, e dessa vez, diante dessa ameaça com uma faca, na rua, ela conseguiu tomar-lhe a faca das mãos, imobilizá-lo, e ainda dar-lhe uma surra. Sempre que havia um confronto físico entre os dois, ela levava a melhor e ele sempre saía todo arrebentado. Segundo ela, havia marcas indeléveis de sangue nas paredes da casa dela, as quais ela havia tentado lavar, mas mesmo assim não se apagavam. E era sangue dele, devido às brigas que haviam tido e ele, como já mencionei, sempre levava a pior. Quem saía sangrando, e bastante machucado, era sempre ele.

3. Tive um paciente alguns anos atrás, no CAPS, que era assim como vários outros: bem parecido com um Forrest Gump da vida. Era uma pessoa muito diferente e com sérias dificuldades de adaptação social. Em seu histórico escolar havia sofrido bullying por diversas vezes. Tinha 19 anos de idade e não tinha mais dente algum na boca. Usava próteses totais em ambas as as arcadas dentárias. Ou seja: usava dentadura tanto na arcada superior quanto na inferior. Tivera uma vida tão sofrida que até mesmo esse era um indicativo de seu sofrimento: perdera todos os dentes antes de completar a maioridade. Era um menino diferente, muito diferente. Tinha uma origem muitíssimo humilde. Foi retirado, por sua tia, de uma roça muitíssimo pobre, ainda pequeno, com menos de 10 anos de idade. Alguns médicos o diagnosticaram como tendo um retardo mental leve. Outros talvez não tenham feito tal diagnóstico porque percebiam o quanto havia sofrido e o quanto a carga enorme de sofrimento de sua vida havia maculado até mesmo parte de sua capacidade intelectual. Mas não se sabia ao certo o quanto esse provável processo era reversível ou não. Trabalhava na construção civil, como peão de obra, e enfrentava, à época, os constantes abusos e loucuras de sua tia. Ela era uma mulher extremamente controladora, a qual acabava enclausurando-o em casa, ou tentando fazer com que ele se transformasse em alguma coisa que jamais se transformaria: alguém que viesse a fazer e completar um curso universitário. Ele era peão de obra e gostava de ser peão de obra. Sonhava em ser carpinteiro, e ter esse posto dentro de uma obra. Era muito bonito acompanhar, testemunhar sua dedicação ao trabalho em um canteiro de obras. Era também muito interessante ver o quanto tinha pureza, ideais elevados, nobres, relacionados principalmente a querer aprender as coisas, a gostar por exemplo de desenhos, animes japoneses. Era tocante observar que, no fundo de sua solidão absurda, tinha sonhos muito nobres. Um paciente que sem dúvida me marcou, assim como vários outros, dos quais não falarei aqui para que esse texto não fique muito longo e entediante...

Inteligência ou habilidades sociais?

Não conheço suficientemente a teoria das inteligências múltiplas e nem sei o quanto é válida. Porém, em um cenário hipotético, se me perguntarem se eu prefiro ter um QI muito acima da média ou uma habilidade social muito acima da média, definitivamente eu não teria dúvida em responder que eu gostaria de ter uma habilidade social acima da média. Porque a capacidade de compreender ou resolver problemas lógicos, ou de poder alcançar mais rapidamente a solução de alguma contenda que demande raciocínio lógico, se isso for elevado, mas não houver a capacidade de se entender com as pessoas ao seu redor, isso será em boa medida até mesmo inútil, porque nossa adaptação e nosso bem-estar psicológico dependem muito mais de nossas habilidades sociais do que de nossa capacidade para a resolução de problemas lógicos.

Felicidade, desigualdade social e suicídio

Quanto maior a desigualdade social, menor o índice de felicidade. Quanto maior o índice de felicidade, maior a taxa de suicídios. E a taxa de suicídios é maior nos países ricos do que nos países pobres.

Eis alguns dados de pesquisa, por enquanto paradoxais, os quais vêm sendo replicados por fontes independentes. 

A impressão que tenho é que altas taxas de suicídio tem uma relação muito maior com a disponibilidade para tal, seja ela obtida por meio de alguns incentivos culturais, assim como por meio até mesmo da disponibilidade de conhecimento, de informações acerca de meios que tornem mais possível o ato suicida.

O suicídio não é proporcional à quantidade de sofrimento porque se assim o fosse muitos animais cometeriam suicídio, e a maioria deles não comente suicídio justamente porque não tem capacidade cognitiva ou os meios disponíveis pra isso.

Então a taxa de suicídios é mais elevada nos países ricos e também os índices de bem-estar psicológico, de felicidade, porque eles têm os meios tanto para terem mais bem-estar psicológico como também para poderem dar cabo de sua própria vida.

Isso sem mencionar também os fatores relacionados ao alto nível de individualismo mais presente em estados ricos do que nos pobres, o qual também tem um papel grande, pois o suicídio é eminentemente um ato solitário e de certo modo bastante relacionado a um tipo específico de isolamento social.