Saturday, August 20, 2016

O comportamento de alguns torcedores nos Jogos Olímpicos Rio-2016

As pessoas estão se dividindo também em relação ao comportamento de alguns torcedores brasileiros, se foram adequados ou não, ou seja: a polêmica, mais uma, sobre as vaias.

Cá com meus botões fico pensando que esse comportamento um pouco mais agressivo das torcidas, no contexto olímpico, é um tiro, moral, no pé. É imoral e desinteligente.

Acho que é desinteligente e um tiro moral no pé porque de certo modo está queimando o filme, a imagem, do torcedor brasileiro. Lá fora, para muitos estrangeiros, está parecendo que estamos conseguindo ganhar no grito. Talvez nossos atletas nem precisassem disso para vencer, e alguns rivais estão justificando suas derrotas com base nisso.

Um pouquinho de lógica não faz mal a ninguém: se no contexto olímpico esse comportamento é uma exceção, isso é um tiro moral no pé.

Na minha concepção o que faz com que um país consiga significativamente mais medalhas não tem relação quase que alguma com esse tipo de comportamento. Isso no máximo consegue somente roubar algumas migalhas, da vitória, que caem no chão...

As vantagens do contato virtual

Vejo várias vantagens no contato virtual com pessoas com as quais não tenho intimidade. Alguns debates ou conversas podem se estender por dias ou até meses e eu, descendente de italianos que sou, nunca altero meu tom de voz o qual, em contextos presenciais, costuma espantar algumas pessoas, gerando boa parte dos problemas de relacionamento, com estranhos, que tenho.

A linguagem virtual escrita, registrável, permite um nível de precisão, economia de gestos e de palavras e registro (para o qual pode-se retornar sempre que for necessário) que é superior ao contato presencial.

O contato presencial tem uma série de elementos não-verbais, tais como o olhar, a forma com que se fala, os quais na minha concepção são, de modo geral, desprezíveis, já que também servem muito ao engano, à ilusão e à trapaça. Há evidências científicas de que psicopatas preferem o contato presencial. É muito mais fácil seduzir se utilizando de uma série de artimanhas não-verbais do que por escrito.

A escrita permite releitura, comparações com registros anteriores, reinterpretação e cálculo de quem a recebe, e esse tipo de contexto costuma ser desvantajoso para um psicopata.

Viva a interação virtual!

Dando o sangue na criação dos filhos

Minha esposa foi fazer exame de sangue. E minha filha está numa fase de extrema curiosidade. Porém, infelizmente, Lilian estava com pressa e não pudemos ir juntos. Luisa ficou comigo, querendo saber o que sua mãe tinha ido fazer. Eram tantas, mas tantas perguntas, que começamos vendo um monte de coisas na internet sobre sangue, como é, o que é, pra que serve, que está presente em todos os vertebrados...

Ela nunca viu sangue, ao vivo. Já foi picada para coleta de sangue porém, como faz tempo, não se lembra mais disso. Então, como sua curiosidade não acabava, esterilizei bem as minhas mãos e as dela, assim como o alfinete, com o qual tentei me furar, na frente dela.

Mas fiquei com preguiça de fazer isso, de furar-me. Então segurei sua mãozinha e deixei que ela mesma tentasse fazer o serviço, picando minha mão onde quisesse. Ela perguntou se faria dodói. Eu lhe disse que era um dodói bem pequeno. Não escondi que não haveria dodói, e ela não conseguiu me furar ao ponto de tirar sangue. Um dia ela consegue e, em algum outro dia, com menos pressa, presenciará o papai ou mamãe sendo picados no laboratório, antes que ela mesma seja um dia picada dessa maneira.

Friday, August 19, 2016

Dia dos pais

No sábado, na véspera do dia dos pais, Lilian estava colocando Luisa para dormir. E Luisa, com dois anos e meio, ainda mama no peito. Luisa só dorme mamando no peito, e eu acho isso muito lindo e muito bom, tanto pra ela quanto pra Lilian.

Toda noite, ao mamar para dormir, Luisa sussurra algumas coisas para a mãe. Geralmente ela fala de alguma coisa que aconteceu durante o dia. E nesse último sábado eu brinquei muito com ela:

- Mamãe, neném tá feliz...

- Por que o neném tá feliz?

- Papai brincou neném...

Voltou a mamar e dormiu, feliz. E eu também, muito, muito feliz. 

Tristeza

Há dias em que a gente bate de frente com a boca escancarada do buraco escuro que é se sentir um completo estranho nesse mundo, a jogar na nossa cara que somos o lado errado, o estorvo, o empecilho, o espinho na garganta de todos aqueles que souberam estar em bando, e não irão pensar duas vezes em pisar na sua cara quando você já com ela afundada na lama.

Fazer o que então? Resta deixar somente deixar que a tristeza faça seu trabalho, e lave a nossa alma, devastando o que tiver pela frente. Eis a redenção: resignar-se.

Chefes

Seu chefe é um carrasco? Há chefes acima dele? Então muito provavelmente ele é um ganancioso lambe-botas de quem está acima dele. Carrasco com os subordinados e cordeirinho nas mãos de seus superiores. O sonho dele é ser o macho alfa ou abelha rainha de toda a empresa.

O pior tipo de funcionário público que existe

O pior tipo de funcionário público que existe, muitas vezes, é aquele que serve somente seu chefe e não a população.

Resumindo: é um puxa-saco, interesseiro, ganancioso e politiqueiro que vive de fazer conchavos e atacar quaisquer colegas que estejam isolados politicamente, seja por rivalidade ou sadismo, mesmo se esses colegas estejam trabalhando arduamente para oferecer a melhor assistência à população.

Mas é aquela história: gente que somente se alia a quem é forte existe em tudo o que é lugar, e é muito importante sempre ficar atento com esses tipinhos existencialmente medíocres.

Sunday, August 14, 2016

Como construir uma cultura de paz?

Hoje de manhã acordei e encontrei isso, compartilhado por um amigo, no Facebook:

“Uma pessoa verdadeiramente pacífica torna-se um foco de paz para todas que a rodeiam. Quando a paz individual é atingida por várias pessoas, a paz coletiva torna-se uma possibilidadade” Swami Bhavyananda

Sim, uma pessoa pacífica pode se transformar em um modelo para aquelas com as quais ela convive, e uma das formas com que um comportamento pode ser alterado é a imitação. Por meio da imitação outras pessoas podem também passar a se comportar de modo mais pacífico.

Contudo, em muitos casos, é necessário que haja orientação adequada e assertividade por parte de quem é pacífico, assim como um contexto de gratificações culturais, de cultura da paz.

Fora o fato de que muitas pessoas são pacíficas no modo passivo. São pacíficas porque são simplesmente passivas. Dão a outra face, mas não têm assertividade, não sabem orientar nem comunicar o que está acontecendo. Ou então, com sua passividade, somente reforçam a agressividade de quem as deseja exatamente assim: caladas, colaborativas, sem qualquer tipo de contraponto ou contestação.

E pensar que o movimento se dá de dentro pra fora, do individual para a coletividade, pode ser pura besteira. A própria mensagem do Swami Bhavyananda, sendo difundida, é um contra-exemplo do que ele prega.

Friday, August 05, 2016

Sobre "dicas" e "sugestões de leitura"

Recebo muitos pedidos de meus ouvintes do YouTube para fazer um vídeo sobre dicas e sugestões de leitura. Mas não tenho dicas ou sugestões de leitura pra ninguém, a não ser que alguém me pergunte sobre uma preferência minha acerca de um assunto específico.
E minhas preferências nem talvez signifiquem alguma sugestão qualificada de quais seriam as melhores leituras no tema proposto, pois não conheço tudo o que foi escrito. Gostei de ler alguns autores, mas não sei se são os melhores em suas áreas.
Também acho um pouco ultrapassada, ou deslocada, essa ideia de que as pessoas tem que ler x livros por ano. Um livro é uma maratona danada e e demanda um tempo grande para ser concluído. Se o autor então começar a incursionar com algum viés ideológico eu nem recomendo. As pessoas costumam se debruçar, durante tanto tempo e com tanto esforço, na leitura de um livro, que isso muitas vezes é suficiente para imaginarmos algumas coisas parecidas com lavagem cerebral, convenhamos.
A depender do autor as ideias demoram tanto a serem desenvolvidas, e há tanta repetição e redundância, que não tem como justificar tamanha dedicação a uma única pessoa. Tem que ser alguma coisa muito agradável de se ler, como uma história bem contada (um romance, um livro de contos) ou então talvez não valha mesmo a pena, principalmente se você estiver entendendo pouca coisa do que está escrito, ou sentir que a leitura não lhe acrescentou muita coisa, ou que o tempo despendido foi muito grande em função do pouco de conteúdo significativo que você assimilou.
Somente para lhes fornecer alguns exemplos, cito-lhes algumas leituras que tive em 1999, quando fazia mestrado na UnB. Em uma disciplina que traçava relações entre psicanálise e literatura, li Hamlet e algumas tragédias gregas. Lamento, por mim e por vocês que estão aqui lendo esse texto, mas essas leituras não acrescentaram quase nada à minha vida profissional, intelectual ou pessoal. Não aprendi quase nada de significativo lendo essas obras, e nem mesmo tentando compreender qual era a importância delas nessas aulas. Podem arremessar suas pedras e me chamar de burro ou ignorante, mas meus esforços para absorver algum conhecimento dessas leituras foram muito grandes e praticamente em vão.
Se fosse hoje muito provavelmente eu teria tirado melhor proveito dessas leituras, pois há mais facilidade de acesso à informação e assim, mais facilmente, encontramos boas interpretações ou bons guias para esse tipo de leitura, cujas aulas de meus qualificados professores do mestrado não foram suficientes para que eu mesmo compreendesse a profundidade e a relevância dessas obras.
Então a minha percepção atual, sobre qualquer tipo de leitura, é a de que ela deve ser inserida no contexto, no horizonte de compreensão e prazer do leitor. Esse engajamento costuma ser paulatino, e é muitas vezes facilitado pela mediação verbal de alguém mais experiente, de alguém que já fez essas leituras e pode facilitar a incursão do leitor nelas.
Outro fator que também julgo importante se relaciona à função da leitura. Muitas pessoas se dirigem para algumas leituras com o intuito de produzirem para si mesmas uma espécie de lustre cultural, o qual poderá ser exibido no circuito esnobe das interações pseudoeruditas.
E pra quê, depois de uma série de leituras, se transformar em um caminhão de pólvora, se você pode ser uma espingarda que atira? O mais importante não são os títulos que você consumiu, que você leu. O mais importante é no que você transforma aquilo que assimilou por meio da leitura.

Se boa parte de suas leituras se transformaram em um exibicionismo descolado da vida vivida, das interações saudáveis entre você, as pessoas e o mundo, isso tudo na verdade não passou de desperdício de tempo, o qual poderia ter sido aproveitado certamente com atividades muito mais prazerosas e saudáveis.

Verso que brota na madrugada

A noite, escorrendo seu escuro, com as horas de molho, secreta um olho, de luz, para massagear a saudade, o que dói em mim.

E assim brota um verso do terror parado do ar na madrugada, do estrume da agonia de que tudo tem fim.

Thursday, August 04, 2016

A natureza não é perfeita

A natureza não é perfeita nos aspectos funcionais, morfológicos e principalmente nos aspectos éticos e morais.

Você já assistiu a algum documentário sobre o comportamento de felinos, principalmente leões? O processo de adaptação desses animais fez com que uma série de comportamentos extremamente agressivos e cruéis fossem selecionados.

Na minha concepção, do ponto de vista ético, a maior parte dos predadores são a coisa mais abominável que existe, inclusive o ser humano, que é o maior e o mais letal de todos eles.
Mas faça uma busca bem simples no YouTube e encontre bandos de leões trucidando outros animais da forma mais cruel e sofrida que se pode imaginar.

Você já viu como que leões caçam e matam elefantes, hipopótamos ou qualquer animal de grande porte? É horripilante, essas presas sofrem demais, por horas e horas ou até dias, sendo comidas praticamente vivas. O animal está sendo comido pelos predadores e não morre, e continua lá gemendo, vivo.

É o cúmulo do absurdo saber que tamanha maldade e crueldade existam, e não faz o menor sentido dizer que isso tem qualquer relação com perfeição.

Linda rosa juvenil

Isso ocorreu há mais de dois meses. Um menininho, com cerca de 4 anos de idade, estava em um balanço no parquinho, brincando perto de minha filha, e ele cantava assim:

"A linda rosa juvenil, juvenil, juvenil,
A linda rosa juvenil, juvenil, juvenil! ..."

Ele cantava a canção todinha. E dias depois pego minha filha cantando assim:

"A linda rosa do vovô Nil, vovô Nil,vovô Nil,vovô Nil!!"

É que o avô materno de minha filha, meu sogro, se chama Juvenil...

Como é trabalhar em um CAPS

É muitíssimo gratificante e enriquecedor, profissional e existencialmente, trabalhar em um CAPS. Há aqui, no CAPS, várias dimensões possíveis de contato com a experiência das interações humanas.
Muitas pessoas, que um olhar exclusivamente biomédico classifica somente como doentes, têm a oportunidade, em um CAPS, de mostrarem ao mundo que são somente radicalmente diferentes dos padrões dominantes.

Chegam aqui massacradas pela violência de uma sociedade que não foi capaz de assimilá-las. Basicamente sofrem por que foram e são constantemente discriminadas e excluídas, mas não simplesmente em função de terem transtornos mentais, porque esses transtornos, em boa parte dos casos, surgiram como resultado desse processo de discriminação e exclusão.

Muito se fala que as pessoas com transtornos mentais sofrem muito preconceito, mas pouco se fala que a discriminação e a exclusão são inclusive fatores importantes na gênese desses transtornos. A discriminação e a exclusão, portanto, começam bem antes, e estão entremeadas no cotidiano de todos nós.

Reitero o que já afirmei antes, há a pouco mais de três anos, após a observação e acompanhamento de alguns casos aqui no CAPS:

"Se você é uma pessoa radicalmente diferente dos padrões estabelecidos pela sociedade na qual está inserido, e se essa sociedade é socioculturalmente pobre, ela fará de você um marginal, herege ou doente mental. Se essa sociedade porém for socioculturalmente rica, se ela for uma sociedade que abriga a riqueza da diversidade humana, ela fará de você um artista ou uma pessoa que possa fazer parte dela em sua evolução e reinvenção criativa, a cada dia..."

Wednesday, August 03, 2016

Ninja 7 (o que vem antes do 7 eu pulei)

Jamais imaginei que um final de tarde seria tão repleto de aventuras, e isso tudo em pouco mais de 30 minutos. Pela manhã tentei fazer um depósito para uma determinada pessoa, com a qual não tenho qualquer tipo de relação pessoal. Ela porém forneceu informações confusas acerca de seus dados bancários. Então tentei por várias vezes fazer esse depósito pela manhã, sem sucesso, e no final da tarde lá estava eu novamente caminhando em direção ao banco. Mas eu mal imaginava que a partir dali, em poucos minutos, teria três grandes momentos ninja, em uma surpreendente configuração cósmica-triangular-ninja-da-morte.

O primeiro momento foi o momento ninja míope. Estava caminhando na mesma via em que muitas pessoas fazem suas caminhadas vespertinas quando, de repente, em um universo de centenas de pessoas se movimentando ao mesmo tempo e em diversos pontos de meu raio de visão quase nula (já que tenho seis graus de miopia), percebi que uma delas a dezenas de metros de mim. Era possivelmente alguém que conhecia mas para a qual muito sabiamente não olhei diretamente, com o intuito de não fazer com que ela percebesse que eu já a havia percebido, e isso obviamente incorreria em algum constrangimento, já que sou míope e na verdade não saberia de fato o que eu estava vendo.

Olhei somente de rabo de olho e pensei: deve ser aquela senhora, minha vizinha... E ela, coitadinha, nem mesmo percebeu que eu já a havia localizado.

Quando, de repente e muito tranquilamente, ela já estava ao meu lado e fez questão de me cumprimentar. E convenhamos, ela também foi um pouco ninja nesse ponto. Resumindo: não passei por constrangimento nem mico. Andei no fio da navalha, e isso é ninja.

O segundo momento ninja se deu dentro da agência bancária, quando tive de digitar os dados bancários do favorecido, para depósito, e não precisei nem mesmo recorrer a qualquer tipo de anotação, pois inconscientemente memorizei todos os 12 algarismos referentes aos seus dados. Tentei por tantas vezes fazer aquela porra de depósito pela manhã, com um ou dois números errados que o favorecido me fornecera, que no final da tarde eu já estava ninja, sabendo todos os seus dados bancários, sendo que não sei de cor nem o número de minha própria conta no banco.

E, convenhamos, essa memorização inconsciente, e sem esforço, que fiz, é um típico momento ninja de quando se é atropelado por um carro e, girando, no alto, a cerca de uns cinco do chão, o ninja ainda consegue disparar a sua pistola, acertando fatalmente vários de seus oponentes antes de perder a consciência e ir a óbito.

O último momento ninja foi o mais espetacular. Foi o momento ninja peidorreiro. Há cerca de 10 metros da portaria de meu prédio, não conseguindo saber se de fato havia um elevador que subiria para meu andar, corri feito um louco e consegui chegar a tempo, com uma mulher adentrando esse clássico cubículo de onde brota um anedotário imenso em que os peidos reinam como protagonistas de uma sufocante saga sem fim. Mas foi tudo tão rápido que eu mesmo tenho dificuldades de narrar a peripécia. O que fiz é mais rápido do que qualquer possibilidade de concepção ou planejamento.

Como disse, corri como nunca, sem fazer qualquer tipo de ruído. Ou seja, ninguém percebeu que naquele ambiente havia alguém correndo desesperadamente, e isso já é meio ninja. Cheguei até o elevador e estendi meus braços, para que o sensor infravermelho já captasse minhas intenções, e adentrei completamente dentro do mesmo, sem que a mulher que estava lá dentro percebesse que havia mais alguém, porque ela ainda estava de costas pra mim. 

Ou seja, adentrei o elevador juntamente com essa mulher, bem perto dela, e ela nem percebeu que alguém passou por ali e saiu muito rapidamente, deixando no ar um cheiro absurdamente impressionante de merda. Eu já estava dentro do elevador mas não poderia dar continuidade à viagem, pois aquela senhora iria saber que, nessa corrida louca de 10 metros, eu tinha quase me cagado devido a tal esforço. 
Senti-me um verdadeiro fantasma peidorreiro. Essa senhora não deve ter entendido patavinas, pois adentrou um ambiente em condições normais, e teve de se direcionar para seu andar em um elevador podre, caindo aos pedaços, pela bomba involuntária que lá deixei.

Voltei para casa com um sorriso nos lábios e um sentimento de missão cumprida, de que mais uma vez a humanidade foi salva de seu extermínio total.

Nazismo e socialismo (Stanley, Viereck, Constantino)

Tim Stanley, historiador, PhD pelo Trinity College, Cambridge, conhecido por apoiar o Partido Republicano nos EUA e o partido conservador de David Cameron na Inglaterra, escreve assim:

"Tornou-se evidente que Hitler não era um socialista algumas semanas depois de se tornar Chanceler da Alemanha, quando ele começou a prender socialistas e comunistas. Ele fez isso, afirmam alguns, porque eram modalidades diferentes de socialismo concorrendo entre si. Mas isso não explica porque Hitler definiu a sua política tão absolutamente como uma guerra contra o bolchevismo - uma promessa que ganhou o apoio das classes médias, industriais e muitos conservadores estrangeiros.

Dan afirma que Hitler era um socialista com algumas reservas, que:

"O erro de Marx, Hitler acreditava, tinha sido a promover guerra de classes em vez de unidade nacional - para definir trabalhadores contra os industriais, em vez de recrutar os dois grupos em uma ordem corporativista."

No entanto, por essa mesma definição, Hitler não era um socialista. O marxismo é definida pela guerra de classes e o socialismo é realizado com a vitória total do proletariado sobre as classes dominantes. Por outro lado, Hitler ofereceu uma aliança entre trabalho e capital na forma de corporativismo - com o propósito expresso de evitar a guerra de classes.

Marxistas consideravam esta como uma das etapas do desenvolvimento capitalista e poucos no momento legitimamente interpretaram o Terceiro Reich como sendo uma sociedade socialista. O radical George Bernard Shaw, por exemplo, certamente expressou simpatia por Hitler quando ele chegou ao poder, mas mais tarde descreveu o socialismo do ditador como fraudulento - como uma forma de subornar a revolução inevitável. Ele usava, na opinião de Shaw, "o mais recente máscara do capitalismo".

De fato, enquanto os nazistas continuaram a política de nacionalização da República de Weimar, eles também privatizaram algumas coisas, também: algumas siderúrgicas, quatro grandes bancos e as estradas de ferro. O lucro gerou quase 1,4 por cento da renda do Estado 1934-38. Industriais se deram bem nos anos do nazismo, ajudado por uma política de Estado de esmagar os sindicatos e enfatizando o pleno emprego em detrimento do aumento de salários.

É verdade que a economia foi socializada na última parte da década de 1930, mas não por causa da construção do socialismo. Era para se preparar para a guerra. Política vem antes de economia no estado fascista na medida em que é difícil conceber de Hitler como um pensador econômico coerente em tudo. Ele teria feito qualquer coisa para fortalecer a sua conquista da Europa Oriental, e uma economia de comando provou ser melhor para a construção de tanques do que o mercado livre. Dado que o ditador contou com o apoio de uma burguesia que aceitava os sacrifícios que tiveram de ser feitos para defender seus lucros contra o socialismo, podemos definir o Terceiro Reich como o capitalismo abraçando os aspectos da economia socialista, a fim de defender os interesses dos capitalistas. Shaw tinha razão.

As metas de Hitler eram, de fato, totalmente contraditórias com o igualitarismo do socialismo. A ironia é que ele às vezes se utilizava de uma economia socialista para prosseguir a sua agenda. Mas, reiterando, isto ocorria porque a política tinha prioridade sobre uma teoria econômica consistente. Por exemplo, fazendas alemãs não foram coletivizadas como o marxismo exigiu. Elas foram protegidas da concorrência e o agricultor alemão era representado como o ideal ariano.

Com a guerra se aproximando, a agricultura caiu em importância e a industrialização teve prioridade. A política econômica oscilava entre esquerda e direita. Mas derrotar o movimento comunista "judeu" era a única coisa que realmente importava.

Então, como vamos explicar por que Hitler muitas vezes se autodenominava um socialista? É uma questão de moda: na década de 1920 e 1930, o socialismo era a onda do futuro e teve um efeito enorme sobre o discurso político. Muita gente usou a terminologia do marxismo sem necessariamente fazer parte dele ou até mesmo entendê-lo. E muitos governos falavam da necessidade de elevar os padrões de vida, ajudar os pobres ou mesmo gerir a economia - mas nós não os classificaríamos como marxistas. A América teve seu New Deal; a Suécia teve a sua social-democracia. Os japoneses militarizaram o país inteiro, mas assim fizeram para expandir o domínio de um imperador que eles julgavam como sendo um deus vivo, o que dificilmente pode ser concebido como um comportamento de comunistas. Na Grã-Bretanha, o governo de Stanley Baldwin gastou milhões em um programa de construção de casas e criou a BBC, uma empresa estatal. Mas Stanley não era Stalin.

Agora, os libertários dizem que chamam Hitler de socialista, em parte, para combater esquerdistas que chamando todos eles não gostam de "fascistas". Eles têm um bom ponto e é muito irritante quando a esquerda faz isso. Mas não apenas porque sua ofensiva para equiparar Iain Duncan Smith com Goebbels: porque é um abuso de os fatos da história.

No entanto, a acusação de que X ou Y é "como Hitler" continua a ser comum. E há alguns libertários que afirmam que algo só é de direita se abraça o liberalismo clássico; enquanto tudo o que concebe um papel para o Estado na economia tem sido historicamente de esquerda. Mas de direita autoritarismo certamente existe. O fascismo é a utilização violenta do Estado para alcançar os objetivos de direita: a ordem social, chauvinismo religioso, a proteção do lucro privado etc. A lição moral é que o poder corrompe todos: esquerda, direita, homens, mulheres, homossexuais, heterossexuais, preto , branco, religioso, ateu.

Vote libertário!"

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O jornal The Guardian republicou, em 2007, alguns trechos de uma entrevista de Hitler, concedida ao escritor alemão George Sylvester Viereck em 1923:

“O socialismo é a ciência de lidar com o bem comum. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu devo tomar socialismo longe dos socialistas.

"O socialismo é uma antiga instituição ariana e germânica. Nossos antepassados alemães tinham certas terras em comum. Eles cultivavam a idéia do bem comum. O marxismo não tem o direito de se disfarçar como um socialismo. O socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia propriedade privada. Ao contrário do marxismo, não envolve qualquer negação da personalidade, e ao contrário do marxismo, é patriótico. ""

Hum, é um socialismo meio olavete...

E, por fim, uma citação feita por R. Constantino e que o vlogueiro N. Moura repete, sem citar o Constantino, o qual, por sua vez, não cita de onde tirou isso:

O próprio Hitler teria confessado: “Não sou apenas o vencedor do marxismo, sou seu realizador”. Hitler diz ainda: “Aprendi muito com o marxismo e não pretendo escondê-lo”.
Descobri de onde saiu essa citação. Saiu do livro de Hermann Rauschning. A maioria da comunidade cientifica em historia considera o livro uma fraude completa, e esta citação é um evento isolado em completa contradição com inúmeras outras fontes.

Referências:

Artigo de Tim Stanley:
http://www.telegraph.co.uk/history/11655230/Hitler-was-not-a-socialist-even-if-he-did-stash-champagne.html

Entrevista com Hitler, concedida a George Sylvester Viereck em 1923 (The Guardian):
https://www.theguardian.com/theguardian/2007/sep/17/greatinterviews1

P. 114 do livro de Hermann Rauschning, com parte usada por Constantino:
https://archive.org/stream/VoiceOfDestruction/VoiceOfDestructionJr#page/n114/mode/1up


Nazismo e Socialismo (Bracher)

O termo nazismo é uma abreviação de nacional-socialismo. Como existe o termo socialismo contido nesta locução, algumas pessoas se prendem a isso para afirmar que o nazismo era uma forma de socialismo e elas costumam se expressar mais ou menos assim:

"O nazismo é uma forma de socialismo, pois o partido nazista alemão se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Ou seja, se tem "socialismo" no nome, logo é socialista."

Porém, tomemos cuidado com a falácia terminológica. O nome de alguma coisa não quer dizer necessariamente que essa coisa seja literalmente o que esse nome designa. Se for somente tomar pelo nome, o Partido Progressista, de Bolsonaro, teria de ser progressista. E não é. O PP é totalmente antiprogressista.

Há também outros exemplos. A República Democrática Alemã (1949-1990) e a atual Coréia do Norte, oficialmente República Popular Democrática da Coreia (duas ditaduras socialistas), teriam de ser classificadas como democráticas. Ou um cavalo-marinho teria de ser classificado como uma espécie de equino somente por ter "cavalo" no nome.

Por outro lado, é importante que tentemos começar a avaliar o conceito (e o contexto histórico que produziu o nazismo) por meio de referências qualificadas. E como a internet é de fato uma maravilha, sugiro que vocês acessem online o Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, para que vocês possam ler juntinho comigo o que vou citar aqui do verbete sobre o “nacional-socialismo”.

Esse verbete foi escrito por Karl D. Bracher, cientista político e historiador alemão, nascido em 1922, professor e pesquisador da Universidade de Bonn, especialista em República de Weimar e Alemanha nazista.

Antes que alguém precipitadamente acuse esse professor alemão de ser um comunista ou coisa parecida, é melhor se informar um pouco sobre o histórico dele. Durante todo o período da Guerra Fria, Bracher foi um dos poucos acadêmicos alemães totalmente favoráveis à política externa dos Estados Unidos, com a constante e sistemática defesa dos valores da Alemanha Ocidental, em contraposição aos valores da Alemanha Oriental e União Soviética.

A introdução, o primeiro parágrafo, do verbete é assim:

“I. PROBLEMAS DE DEFINIÇÃO,- o termo Nacional-socialismo possui inúmeros significados e diferentes conotações. No seu sentido mais geral tem sido usado, há mais de um século, por vários movimentos e ideologias políticas, defensores de um tipo de socialismo diferente do socialismo internacionalista e marxista, ou até contrários a ele. Por um lado, o nacionalismo nasceu no século XIX, como reação à sociedade industrial e à emancipação liberal. Por outro, os movimentos nacionalistas nos países em desenvolvimento, sobretudo nos Estados árabes (socialismo árabe), defenderam, até o presente momento, formas novas de Nacional-socialismo, como alternativa ao feudalismo e ao colonialismo. Em todos estes exemplos, todavia, qualquer uso que se faça do termo ficará praticamente abandonado ou provocará mais confusão uma vez que o Nacional-socialismo, como fenômeno político de dimensões históricas mundiais, indica sobretudo o movimento político alemão, fundado e guiado por Adolf Hitler após a Primeira Guerra Mundial, polemicamente conhecido pelo diminutivo de nazismo.” (p. 807) [1]

Ou seja, não dá para citar esse verbete de modo isolado e fora do contexto histórico em que ele surgiu. É importante conhecer um pouco dos detalhes desse contexto.

Pela leitura de todo o verbete e de outras leituras que já tive, tenho a impressão de que os nazistas foram muito estratégicos em termos de propaganda. Como já defendi em meu último texto sobre o tema: é importante se levar em conta a hipótese de que o nazismo era um movimento sincrético, ou seja, reunia repertórios de outros movimentos, inclusive de movimentos antagônicos entre si, e isso se encaixa em suas estratégias em termos de propaganda, em termos de manipulação das massas.

Após 1918 era muito importante conquistar a mentalidade dos trabalhadores alemães. Sabemos que o mundo ocidental tremia em relação ao perigo comunista, e Hitler também temia esse avanço das ideologias marxistas, como está claro em vários trechos de seu livro, “Minha luta”.

Havia portanto uma guerra ideológica intensa para se conquistar a mentalidade dos trabalhadores alemães, os quais vinham flertando com as ideologias marxistas. Neste sentido um nome, estratégico para o partido era fundamental:

“O Nacional-socialismo se estruturava com base num darwinismo social nacionalista, racista e muito simplificado, tornado popular pelos escritos de radicais sectários. Porém, ao mesmo tempo, procurou, mediante uma mistura eclética de programas doutrinários e políticos, atingir todas as camadas da população. Os primeiros slogans do Nacionalsocialismo, pelo seu sucesso imperialista e expansionista e pela submissão ao Governo ditatorial nacionalista, foram elaborados para distrair a classe média e a classe operária dos reais problemas internos. A "comunidade nacional" foi escolhida para ser a panacéia que curaria os males econômicos e políticos, no lugar do pluralismo econômico e da sociedade classista. As doutrinas militaristas e racistas foram os instrumentos utilizados para enganar e conquistar a população.” (p. 810)

“[...] o terceiro Reich pôde se concretizar graças a um conjunto de manobras eficazes e enganadoras. Sem estas manobras, provavelmente, Hitler nunca chegaria ao poder. Ele afirmava que a sua era uma "revolução legal". Misturando estes dois conceitos contraditórios, os nacionalistas conseguiram satisfazer o desejo popular de ordem e, ao mesmo tempo o desejo de uma mudança radical num período de profunda crise econômica.”

“O caminho da ditadura presidencial sempre foi apoiado pelos adversários conservadores da democracia parlamentar e, após 1930, contou com o apoio ativo do marechal Hindenburg, o autoritário filomonárquico presidente alemão. Foi ele quem ajudou o partido nacional-socialista a se libertar da incômoda posição de partido minoritário, que nunca tinha conseguido mais de um terço dos votos populares em nenhuma eleição.” (p. 811)

“No fim, as reais manifestações do regime nacional-socialista foram uma refutação daquelas próprias ideias em que o mesmo se baseava.” (p. 812) [1]

Hitler acreditava que a propriedade privada era útil na medida em que estimulava a concorrência e criava inovação técnica, mas insistiu que ela tinha de atuar de acordo com os interesses nacionais e ser "produtiva" ao invés de "parasitária". O direito à propriedade privada era condicionado ao modo como essa propriedade deveria ser usada: se não colaborasse com as metas econômicas nazistas, o estado poderia nacionalizá-la. Embora os nazistas tenham privatizado propriedades e uma série de serviços públicos, também aumentaram o controle estatal. Apesar do livre mercado e a livre concorrência terem se enfraquecido sob o regime nazista, as crenças darwinistas, o darwinismo social dos nazistas, era obviamente relutante em desconsiderar inteiramente a concorrência e a propriedade privada como os motores da economia.[2,3,4,5]

“Ao mesmo tempo, não se pode negar que a visão de mundo (weltanschaung) nacional-socialista, diferentemente do marxismo e do comunismo, não é resultado de uma filosofia ou teoria coerente, e sim se caracteriza por um conjunto de idéias e princípios, concepções, esperanças e emoções, unidos por um movimento político radical numa época de crise." (p. 809)

“III. FATORES DA ASCENSÃO DO NACIONALSOCIALISMO, - A ascensão do Nacional-socialismo (1919-1933) foi possível graças à conjugação dos defeitos da política alemã, desde os primórdios do século XIX, com as raízes fatídicas e a história repleta de crises da República de Weimar. A democracia de 1918 foi considerada responsável pelas consequências da derrota na Primeira Guerra Mundial. O novo Governo se tornou o bode expiatório e o objeto do ódio das forças da restauração e da reação no Estado e na sociedade, bem como dos movimentos revolucionários ditatorias reunidos nos belicosos Freikorps, em seitas populares anti-semitas e em organizações paramilitares. O "espantalho vermelho" da revolução comunista completou a tarefa de tornar exército e burocracia, classe média e patrões, fácil conquista de tais sentimentos.” (p. 809)

Referências:

1. BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Brasília: Ed. da Universidade de Brasília, 1986.
2. Overy, R.J., The Dictators: Hitler's Germany and Stalin's Russia, W. W. Norton & Company, Inc., 2004. p. 403.
3. Temin, P. (November 1991). "Soviet and Nazi economic planning in the 1930s". The Economic History Review, New Series. 44 (4): 573–93. Abstract in Wiley Online Library.
4. Guillebaud, C. W. 1939. The Economic Recovery of Germany 1933-1938. London: MacMillan and Co. Limited.
5. Barkai, Avaraham 1990. Nazi Economics: Ideology, Theory and Policy. Oxford Berg Publisher.


Thursday, July 28, 2016

Causa ou efeito?

É muito comum ouvir as pessoas dizendo, inclusive muitas pessoas do meio acadêmico de Psicologia, que a mudança deve se dar de dentro para fora, quando falam do que as pessoas devem fazer para mudar.

Utilizam expressões como "profunda mudança interior" ou a famosa expressão, no melhor estilo Paulo Coelho: "Se você não quiser, você não vai mudar. Para mudar, você precisa querer".

Mas em nenhum momento pensam que para querer a pessoa precisa antes mudar, alterar sua posição no mundo, seus contextos de ação, suas formas de interação. Porém, não tem jeito, logo aparecem outros lugares comuns: "O que perturba as pessoas não são os eventos, os fatos, os acontecimentos da vida, mas sim a concepção, o julgamento, a crença que têm sobre esses eventos." Aliás, essa ideia é geralmente atribuída a Epiteto (55-135 DC). No ocidente teria sido esse filósofo antigo o primeiro a defendê-la.

E não faltarão inclusive psicólogos difundindo que o modo como significamos uma experiência é que é o determinante de como iremos nos sentir.

O problema é que essas concepções são fundamentalmente equivocadas. Quando alguém afirma ser necessário que mudemos nossas crenças, a forma como significamos nossa realidade, para que possamos alterar o modo como nos sentimos, se esquece de fazer algumas perguntas:

Se nossas crenças determinam como nos sentimos em relação à realidade, o que devemos fazer para alterarmos nossas crenças?

Se nossas crenças determinam como nos sentimos em relação à realidade, seriam essas crenças anteriores às próprias estimulações do mundo em nós. Existe um ambiente, um mundo, um contexto do qual fazemos parte, seja ele físico ou social, e isso nos afeta constantemente. Nossas crenças provêm então daí, correto?

Não citei nomes de áreas da Psicologia anteriormente, mas agora faço questão de citar. Uma área, relativamente nova, a qual é também, em boa medida, equivocada, é a Psicologia Positiva, a começar pelo nome, que mais confunde do que esclarece. Esse nome dá a entender que o positivo é sempre benéfico, que o conceito de positividade está intrinsecamente relacionado ao que é benéfico, saudável. E isso de antemão já é um erro conceitual crasso. Se assim o fosse, um exame de HIV, com um resultado positivo nas mãos, seria sempre uma festa. Contudo, tanto na tradição científica quanto na tradição filosófica a positividade indica presença, e a negatividade, obviamente, indica ausência. A psicologia positiva, nesse sentido, não possui relação alguma com as tradições positivas.

Uma de minhas leituras na área de Psicologia Positiva foi o livro "Felicidade autêntica", de Martin Seligman. Trata-se de um compêndio de várias pesquisas que traçam possíveis correlações entre sentimentos (e emoções "positivas") e o bem-estar psicológico.

Alguns desses estudos levantaram dados em relação a conceitos tais como o de otimismo. Aliás, o autor simplesmente não faz qualquer tipo de consideração conceitual. Seu livro se resume elencar uma série de referências, as quais deixam o leitor sem saber exatamente o que é o otimismo, por exemplo. A impressão que tive é que Seligman somente quer convencer seus leitores de que as pessoas otimistas (seja lá o que isso signifique) são mais saudáveis, e que o otimismo seria, juntamente com algumas outras virtudes e qualidades, a causa do bem-estar como um todo, da saúde.

Isso reproduz alguns lugares comuns da indústria da autoajuda e do sucesso. Esses estudos de correlação não comprovam quais são os determinantes do bem-estar, da saúde. Estudos de correlação somente apontam para algumas relações entre eventos.

Se pessoas felizes são mais otimistas, é possível que sejam felizes porque são mais otimistas, mas também é possível que sejam otimistas porque são mais felizes ou saudáveis. Ou então tanto o otimismo, quanto o bem-estar e a saúde, são somente efeitos produzidos por alguma variável que não está presente nessa equação, nesses estudos. Não sabemos qual é a causa e qual é o efeito.

Fora o fato de que o conceito de otimismo pode ter vários significados, e isso nem mesmo é abordado em seu livro. Existe o otimismo da ideia, da ação, em relação ao presente e ao futuro. De qual desses quatro ele está falando?

Ok, tudo bem, vamos supor que ele esteja falando do otimismo em relação ao futuro, que é o mais alardeado pelo senso comum, e que de fato o otimismo seria uma das causas do bem-estar. Logo, a partir disso, é produzida uma regra social, a qual diz mais ou menos assim: "seja mais otimista, pois as pessoas otimistas são mais saudáveis".

Mas, como já falei anteriormente, isso deixa algumas questões importantes em aberto, e está muito longe de respondê-las. Se a pessoa precisa ser mais otimista, uma questão fundamental é como fazer para que ela seja mais otimista.

Porém, e se o otimismo, nossos comportamentos, nossos sentimentos, e inclusive nosso bem-estar, nossa saúde, forem somente efeitos e não causa do que quer que seja?
Há evidências acumuladas, por décadas de pesquisas experimentais, replicadas tanto com animais como com humanos, de que tudo isso aí, acima, é efeito e não causa de bem-estar e saúde.

Nossos sentimentos, crenças sensações, inclusive nossos comportamentos, são efeitos e não causas. São resultado de nossa interação com o mundo, com tudo que nos afeta, seja isso proveniente de algo que está fora de nós ou dentro de nós mesmos.

E não adianta ficar dizendo que esse dentro de nós mesmos é nossa mente, ou coisa parecida, porque quando procuramos a mente encontramos somente duas coisas: massa encefálica e interação com o mundo. E massa encefálica sem interação com o restante do corpo, e com o mundo, não é nada: é somente tecido morto.

E se você, como psicólogo, quer ajudar seus pacientes, de fato, procure compreender melhor como estão interagindo com o mundo e com os outros.

Se você, por exemplo, está muito preocupado se seus pacientes estão otimistas ou não, fique atento a uma coisa: as pessoas tendem a ficar mais otimistas quando suas vidas melhoram, quando suas interações se tornam mais saudáveis.

Neutralidade e imparcialidade (escola sem partido)

Há uma distinção entre neutralidade e imparcialidade que talvez ajude no debate sobre o projeto “escola sem partido”. Ou talvez somente produza ainda mais confusão.

Neutralidade diria respeito a uma condição. Geralmente o termo neutralidade (ou neutro) é utilizado para se referir a alguém que se comporta como uma espécie de folha em branco, coisa que ninguém é. Em física das partículas, por exemplo, o conceito de neutralidade remete à valência nula: se trata de uma partícula que não possui carga positiva nem negativa. Em matemática temos também a ideia de neutralidade relacionada à ausência de valor. O zero, por exemplo, muitas vezes é concebido como neutro.

Portanto uma série de usos dos termos neutro e neutralidade me faz pensar em pessoas que simplesmente não teriam valores ou não fizessem qualquer tipo de avaliação. Isso é simplesmente impossível, porque as pessoas não somente têm seus valores como vivem em função deles. Nesse sentido portanto neutro, folha em branco, nulo, ninguém é. Todos temos nossas experiências, nossa cultura, nossa história e nossos valores.

Contudo, há também a noção de imparcialidade. Há quem faça uma distinção entre neutralidade e imparcialidade. Não somos neutros, mas podemos nos esforçar para não tomar partido. Podemos sempre, na medida do possível, nos esforçarmos para conhecer o outro lado, para buscar evidências contrárias às nossas próprias convicções, e esse é inclusive, em termos ideais, um parâmetro importante para se produzir conhecimento consistente, para se fazer ciência, por exemplo.

O problema de fato é que pouquíssimas pessoas têm um mínimo de disposição pra isso, para buscar evidências contrárias às suas próprias convicções, inclusive no próprio meio científico. Se essa característica é pouco presente, inclusive no meio científico, imagine o que acontece com ela no universo das polarizações, das acirradas lutas políticas.

Por outro lado, quando pensamos no uso do termo imparcialidade, no meio jurídico, logo comparece à nossa imaginação a figura do juiz de direito o qual, em seus esforços para ser imparcial, deve permitir que ambas as partes se expressem com igual valor, com igual peso. E no final o juiz deve emitir seu julgamento.

Os defensores do projeto “escola sem partido”, por sua vez, defendem que no final o professor não poderia emitir juízo algum, contudo se esquecem que manipulações e comandos indiretos podem ser até mais eficazes. Quando digo, muito rapidamente, “olha o cachorro!!!”, muito provavelmente não estou somente apontando para a existência de um fato, de um cachorro. Essa expressão geralmente quer dizer isso: “Cuidado com o cachorro! Corra! Fuja!”. Não é uma simples e objetiva constatação. É um comando, é uma tentativa de influenciar o outro.

Finalizo, sem concluir coisa alguma, com dois autores: Wittgenstein e Tom Zé. O primeiro, em sua obra “Investigações Filosóficas”, no parágrafo 491, escreve assim:
“Não se pode dizer que: “sem linguagem não poderíamos entender-nos uns com os outros”, mas sim: “sem linguagem não podemos influenciar outros homens desta ou daquela maneira, não podemos construir estradas e máquinas” etc. E também que: “sem o uso da fala e da escrita os homens não se podem entender uns com os outros”.

E Tom Zé (tomando partido do quê?), em sua canção “Tô”, composta em parceria com Elton Medeiros, enuncia assim:

“Eu tô te explicando pra te confundir / Eu tô te confundindo pra te esclarecer...”

E vocês que se virem com esse texto mulambo que escrevi, porque eu me esforcei bastante pra não tomar partido rs...

O perigo da retórica

Acho muito interessante a utilização da retórica, da ornamentação da escrita, da linguagem poética, carregada de efeitos de sentido, para poder expressar melhor um sentimento e conseguir talvez fazer com que o leitor de certo modo sinta o que estou sentindo.

Penso que a retórica é um meio para conseguirmos comunicar o que geralmente é concebido como incomunicável ou como da ordem do indizível. Quem alcança esse nível de expressividade costuma despertar nas pessoas a sensação de que conseguiu dizer aquilo que elas sempre tiveram vontade de dizer, mas para o qual não encontravam palavras.

Acho interessantíssimo e sei como me utilizar de uma série de recursos retóricos porém, infelizmente, acho que podem também ser usados como um um meio muito poderoso para iludir e enganar as pessoas. Os efeitos de sentido, inclusive também, obviamente, aqueles utilizados pelos humoristas, costumam conquistar as pessoas, contudo há o risco da excitação de uma série de emoções, de modo excessivo, que pode abafar uso da racionalidade.

Há cerca de 20 anos eu gostava muito de ler Arnaldo Jabor. Aos poucos, porém, fui me desiludindo com seu estilo, o qual cabe muito bem para se falar da vida afetiva, por exemplo, mas não para se colocar na mesa os argumentos relativos a um debate que demanda racionalidade.

A retórica e a oratória têm um poder muito grande de enfeitiçamento. Outro colunista que também sempre abusou disso é Luiz Felipe Pondé, com o agravante de se beneficiar inclusive de uma certa blindagem em virtude de ser uma pessoa do meio acadêmico, um doutor em filosofia. Já li muitos de seus artigos em jornais, e venho acompanhando o que ele escreve há mais de 10 anos, e a impressão que tive da maioria de seus textos é que ele geralmente nem mesmo se dá ao trabalho de argumentar. Somente tece suas piadas e trocadilhos, desfilando uma série de figuras de linguagem e efeitos de sentido, esparramados no que escreve, para enfeitiçar o leitor e parecer que saiu vitorioso de algum debate.

Portanto hoje desconfio muito de quem abusa da retórica. Esse abuso está mais próximo da sofística, da arte do engano e da trapaça, do que da transparência, da humildade e da vulnerabilidade de quem está de fato tentando compreender como as coisas são.

Tuesday, July 26, 2016

Quase fui assaltado...

5 de julho de 2016,

Acho que não fui assaltado hoje em função do fato dos suspeitos não terem tido tempo hábil para avaliar precisamente como eu era fisicamente e um pouco em função de minha postura corporal. Eram três, em região visada por bandidos, vindos em minha direção – um no meio da rua, outro na calçada e um outro quase do outro lado rua. O que pude perceber é que eram mais baixos do que eu e dois deles vestiam bonés.

Saí do carro, não muito rapidamente, pois tive de pegar documentos e coisas no porta-luvas, desligar tudo o que podia (em um carro estranho, que não é meu) e achar meus chinelos, no escuro, no lugar do passageiro (sim, eu estava dirigindo descalço). Quando desci do carro, e me voltei para trás, esses três sujeitos, que apareceram de repente, vinham em minha direção.

Como já não gostei do cenário, ergui minha cabeça, inflei o peito (é ridículo, mas fiz de fato isso, inconscientemente, e só me dei conta depois), fiquei olhando fixo para o que estava mais próximo, como se fosse enfrentá-lo, e andei rapidamente (quase correndo) em direção ao outro lado da rua, sempre olhando fixamente pra ele, mas praticamente indo na direção dele. Na verdade eu tangenciei o cara. Sim, saí pela tangente. Acho que ele sentiu que eu trombaria com ele, mas saí pela tangente, em direção ao outro lado da rua, onde há, a uns vinte metros, uma quadra na qual havia umas 5 pessoas.

Passaram batido, passei batido por eles. E fui salvo por minha pose de galinho de briga e pelo tempo escasso que tiveram para poderem me analisar melhor, se é que estavam mal intencionados. Eu não reagiria, mas sinto que meu rabo também não ficaria entre as as pernas, pelo menos durante aqueles poucos segundos de olho no olho. Agi errado? Não sei. Agi sem pensar, agi para fugir o mais rápido possível daquela situação, praticamente correndo na direção dos caras, como se eu mesmo fosse atacá-los antes mesmo que me atacassem ou anunciassem qualquer coisa.

Lembrei-me de 1990, quando eu, meu irmão Cako e mais dois amigos, fomos assaltados por um arrastão às 23 horas e poucos minutos de um sábado, na Rua Barão do Amazonas, em Ribeirão Preto. Estávamos andando por essa rua, para voltarmos pra casa, depois de uma noitada de adolescentes, quando várias pessoas apareceram e vinham em nossa direção, vindas de uma esquina a uns 30 ou 50 metros distante de nós. Havia umas 20 ou 30 pessoas nesse grupo, inclusive mulheres, e creio que estavam simplesmente roubando e agredindo quem quer que cruzasse seu caminho.

Meu irmão e nossos dois amigos perceberam o risco bem antes de mim. Eu somente olhei para aquele povo e pensei que se tratava da saída de alguma festa ou igreja. Como perceberam bem antes de mim, tentaram correr e eu fiquei parado. Esses dois amigos correram, driblaram alguns meliantes, mas ambos tomaram uma travada, uma rasteira, e foram de peito no chão, um deles perdendo sua blusa de frio que estava amarrada na cintura, e não me lembro o que levaram do outro, se é que levaram alguma coisa, além de sua tranquilidade e integridade corporal.

Meu irmão também correu e eu não vi nada disso, porque fiquei cercado de carinhas tentando arrancar tudo o que eu tinha, mas acabaram levando somente meu relógio e minha carteira. Aliás, nem minha carteira levaram, porque pedi que levassem somente o dinheiro, pois eu lhes disse que tinha documentos na carteira. Então me levaram um relógio vagabundo, e feio, e o que hoje seria uns 5 ou 10 reais da carteira, a qual não continha documento algum (aha, enganei eles!).

Nossos dois amigos disseram que meu irmão foi meio doido, dando um murro na cara de um moleque, de uns 11 ou 12 anos de idade, que o ameaçava com um revólver. Segundo eles, Cako deu um murro bem dado, de nocautear o bichinho, e saiu correndo. Acho que ele também perdeu sua blusa de frio, antes atada à cintura, na correria.

Fui o único que ficou lá, feito uma múmia, parado, tentando intimidar aqueles moleques todos com meu olhar fixo e penetrante. E isso, claro, não serviu de porra nenhuma, pois me rapelaram do mesmo jeito. Mas acho que corri muito menos riscos do que meu irmão, não é verdade?

Se hoje de fato intentassem um assalto contra mim, não sei qual seria o resultado mas, feliz ou infelizmente, meu fulminante olhar 43 continuaria lá, tentando domar o submundo do crime...

Misofonia, obsessões e perfeccionismo

Se você se irrita bastante com alguns sons específicos, tais como alguns sons repetitivos ou estridentes (ou mesmo com sons sutis de mastigação ou outros provindos da boca das pessoas) talvez você tenha misofonia. Porém não há ainda, e talvez nem venha existir evidências científicas de que isso é um transtorno, de que esse transtorno existe.

Contudo se você, em um ambiente silencioso, por exemplo, se sente muitíssimo irritado com alguém que está comendo alguma coisa, de boca fechada, você muito provavelmente tem essa dificuldade, a qual alguns classificam como misofonia.

E a questão é a seguinte: como vencer esse problema? Se você já percebeu que isso é um problema, parabéns! Pois desse modo já deu o primeiro passo para conseguir lidar melhor com sua dificuldade.

O primeiro passo, nesses casos, é sempre perceber que antes de tudo o problema é nosso e não dos outros. É fundamental saber distinguir em que momento alguém está invadindo nosso espaço ou se é simplesmente uma neura de nossa parte.

Se você, por exemplo, em um ambiente silencioso, se irrita bastante com alguém que está por perto, mastigando alguma coisa ou fazendo algum barulho específico, e essa pessoa não está fazendo nada que transgrida alguns padrões estabelecidos (como mastigar de boca aberta, por exemplo), a pior coisa que você pode fazer é responsabilizar essa pessoa por sua irritação.

E isso também vale para vários outros tipos de obsessões que as pessoas possam ter. A primeira grande dificuldade da maior parte dos obsessivos é não reconhecer que o problema é deles e não dos outros. Costumam se defender dizendo que são perfeccionistas, pessoas muito limpinhas, ordeiras e outras justificativas similares. Se orgulham de serem como são e são, em outros contextos de suas vidas, muito gratificadas por se comportarem dessa maneira.

Porém, na minha compreensão, perfeccionismo não é uma qualidade, é um defeito horroroso que raramente faz sofrer somente o perfeccionista.

Se somente o perfeccionista sofresse com essa sua característica, aí talvez o problema fosse bem menor. Contudo o que as pessoas geralmente classificam como sendo perfeccionismo na maioria das vezes é somente um apego excessivo a detalhes inúteis.
Muitas vezes há uma linha tênue entre trabalhos bem feitos e gente louca torturando outras em função de seus caprichos. Mas não tenho dúvida de que é muito mais comum pessoas caprichosas, doentes, e mal acostumadas, viverem torturando outras com a justificativa de que gostam das coisas bem feitas, com a justificativa de que são perfeccionistas.

E como fazer então para que a pessoa obsessiva (ou "perfeccionista") reconheça que o problema é dela? Não tem jeito, esse é um problema difícil de se contornar, que às vezes demanda um certo tempo em terapia mesmo. Mas um ponto é claro: é fundamental não se alimentar a obsessão, o "perfeccionismo".

Desse modo então terá de haver uma reestruturação muito grande da interação do obsessivo com o mundo. Uma das metas, muitas vezes, é fazer com que o obsessivo comece a conviver com pessoas que não gratificam esses seus comportamentos indesejáveis...

Tuesday, July 19, 2016

Empatia e compaixão

Empatia é conexão, é estar junto, é ser companheiro, de verdade. E muitas vezes somente isso já ajuda bastante. Mas há também a questão técnica de como podemos aprofundar a empatia, e isso pode variar bastante em função do problema pelo qual alguém está passando.

Empatia não é sentir o que o outro sente. É compreender o outro a partir dos referenciais dele. É mais cognitiva do que afetiva. Disposição afetiva para sentir o que o outro sente, sem preparo técnico adequado, pode gerar projeções, confusões. Sentir o que o outro sente é compaixão, não é necessariamente empatia.

É importante ser afetado, ter compaixão. A compaixão é um motor, um motivador. Mas muito do que chamam de compaixão é somente projeção, altruísmo desesperado. Compreendo o poder motivador da compaixão. Mas o que discrimina melhor é a empatia, esse processo "infinito" de estar junto e conhecer melhor o outro a partir dos referenciais dele.

E ter uma relação de empatia com alguém já é fazer algo por essa pessoa: é estar junto, ser companheiro, ouvir, tentar compreender em detalhe, construindo com o outro os caminhos para possíveis resoluções.

E o risco da compaixão sem empatia, do afeto sem a compreensão, é o sentimento de pena, o qual é pura projeção de si sobre o outro. A pena é sempre produzida de modo vertical, assimétrico. Costuma estabelecer mais uma relação de poder do que de ajuda respeitosa. E o mais doido é o senso comum se apropriando da coisa. Muita gente diz assim: "eu tenho pena de você”, e isso na verdade pode ser traduzido assim: "eu acho você inferior, um idiota desprezível". E aí, claro, as pessoas vão dizer que não querem que ninguém sinta pena delas...

A empatia é um regulador da compaixão.

Para quem quiser ainda se aprofundar um pouquinho mais nessa questão, trabalhei um pouco esses conceitos a partir de Comte-Sponville, nesse vídeo aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=7Ro9ASkgDCM

A empatia é mais cognitiva do que afetiva em virtude da definição de empatia que estou adotando: a compreensão do outro a partir dos referenciais dele.

Muitas pessoas costumam definir empatia como a capacidade de sentir o que o outro sente. Não é essa a definição que adoto, pois pra mim isso é compaixão (sentir com o outro, sentir junto). Já existe um conceito para se definir o que seria essa capacidade de sentir juntamente com o outro, que é a compaixão. Então, na minha compreensão, não faz o menor sentido chamar isso de empatia.

Sentir é da ordem do afeto e compreender é da ordem da cognição. Portanto a empatia está mais para a cognição e a compaixão está mais para o afeto.

Não é possível sentir exatamente o que o outro sente. Existe sempre um elemento de equívoco contido na compaixão, o qual pode e deve ser modulado pela empatia.

Pra mim é muito claro que é impossível sentir, perfeitamente, o que o outro sente. Mas será que é impossível compreender o outro a partir de seus referenciais? Se você agora, por exemplo, está compreendendo a partir de quais conceitos estou falando, a partir de que lugares estou falando, você está de certo modo me compreendendo a partir de meus referenciais.

Se o conceito de empatia está atrelado ao conceito de compreensão, a coisa muda muito de figura. Estaremos desse modo aproximando o conceito de empatia de conceitos tais como o conceito de racionalidade, a qual em tese pressupõe universalidade, objetividade.
Penso que a empatia demanda um certo preparo técnico, o qual pode variar em função do tipo de problema apresentado, porque alguém que tenha técnica, que seja mais versado nas questões que estão sendo apresentadas, já conhece melhor o caminho e algumas estratégias de enfrentamento.

Se a empatia é da ordem da compreensão a questão é como vamos fazer para que essa compreensão se aprofunde, para que o conhecimento se acumule. Alguém que não esteja preparado tecnicamente fará as perguntas erradas e de modo inadequado. Simplesmente não saberá o que fazer diante do dilema, do problema apresentado.

Obviamente que esse preparo técnico, ou o que estamos chamando de empatia, pode ser adquirido simplesmente pelo volume de convivência que se tem com o outro. Já interagi com muitos familiares de pacientes que tinham um conhecimento muito grande das necessidades e desejos da pessoa que estava em tratamento.

O familiar sabia o que estava acontecendo. O familiar não sentia o que o doente estava sentindo. Sofria junto. Não sentia junto. E talvez seja esse um conceito mais preciso de compaixão: sofrer junto, sofrer também, sofrer por que o outro está sofrendo, porque sentir a mesma coisa, vivenciar igualzinho, é impossível.