Monday, March 29, 2021

Competindo tacitamente

Ter uma bicicleta elétrica é divertido, sob vários aspectos. Um deles diz respeito à tácita competição que existe entre ciclistas. Nas ruas se um ciclista é ultrapassado por outro, uma coisa que muito usualmente ocorre é esse ciclista tentar retribuir. Então é muito comum isso, que os ciclistas fiquem, tacitamente, apostando corridas.

Quando ultrapasso algum ciclista-esportista a reação costuma ser extrema, cômica. Porque os caras ficam muito irritados, e fazem de tudo para logo poderem me ultrapassar. Em poucos segundos testemunho uma reação quase que violenta e desesperada.

Agora há pouco, voltando para casa, para o almoço, houve uma interação engraçada com um ciclista não-esportista. Ele tinha uma bicicleta muito boa, e me acompanhou por boa parte do trajeto, em uma velocidade alta.

Eu simplesmente me mantive em minha velocidade usual, sem qualquer tipo de desespero ou tentativa de fazê-lo comer poeira. E ele também não se desesperou.

Porém chegou um momento em que paramos na faixa de pedestre, e ele olhou para minha bicicleta e disse:

- Essa sua bicicleta parece uma Barra Forte, mas corre demais, rapaz...

Desesperou

Na volta do trabalho, eu vinha pedalando em minha velocidade normal, de cruzeiro. Havia um rapaz, em uma mountain bike, a uns 100 ou 200 metros de mim, que pedalava vagarosamente, em ritmo de passeio.

Bastou eu ultrapassá-lo para ele alterar totalmente seu comportamento. Olhei pelo retrovisor e agora ele pedalava frenético, completamente louco. Tivemos de passar por dentro de um posto de gasolina e havia alguns meio-fios a serem transpostos. Como ele estava de mountain bike, passou por cima de tudo como se não houvesse obstáculo algum, e eu tive de frear e fazer alguns desvios.

Isso fez com que ele me ultrapassasse e ficasse a uns 100 metros à minha frente. Ele pedalava de modo insano. Tinha muito mais giro do que eu. Mas era instável. Pedalava demais e se cansava. Depois pedalava de modo frenético novamente, e se cansava novamente.

Como estávamos na descida, esse contexto era mais favorável para seu tipo de bicicleta. Mas depois adentramos uma reta de quase 1 km, e isso foi suficiente para que eu pacientemente conseguisse me aproximar dele, ultrapassando-o novamente.

Bateu-lhe um desespero que vexatoriamente o despiu das migalhas de compostura que ainda tinha. Tentou cortar caminho pelo meio do mato, e por pouco não se esborrachou no chão, porque havia pedras e galhos como obstáculos. Ele tinha uma mountain bike, mas aquilo não é um helicóptero, não sai voando por cima das coisas.

Para sua infelicidade mesmo assim não conseguiu me ultrapassar. Consegui olhar para seu rosto. Sua expressão era de angústia, de desolação. Olhei para o retrovisor, e sinceramente não entendi o que ocorreu. Ele simplesmente desapareceu. Coisa de Arquivo-X.

Falar com uma porta

 A queixa que mais ouço de pessoas que se frustraram com psicoterapia é a de que nunca tinham uma orientação mais clara ou direta de seus terapeutas.

Diziam simplesmente não entenderem o que estavam fazendo ali, porque falavam o tempo todo e o terapeuta não falava nada. Ou então perguntavam sobre alguma coisa que não sabiam, e o terapeuta continuava se abstendo de responder ou orientar.

Para algumas pessoas esse procedimento funciona, mas para muitas delas não é o caso. E assim muitas terapias vão se arrastando, e o próprio terapeuta não se dá conta, ou parece não querer se dar conta de que não estão ocorrendo progressos. Ou então não tem conseguido comunicar isso ao paciente.

E se de fato não estão ocorrendo progressos, se a terapia não sai do lugar, se aquele é um espaço onde o paciente está sentido que nada de muito significativo está sendo feito, e se o terapeuta já fez o que pôde para alterar a situação e não conseguiu, talvez seja importante que esse terapeuta perceba seus próprios limites, que ele não está conseguindo dar conta do recado.

E quando o terapeuta percebe seus próprios limites, e deixa isso claro na relação, mostrando claramente que não está mais conseguindo ajudar seu paciente, conseguindo comunicar isso claramente, novas portas se abrem, inclusive a porta do encaminhamento. Porque é muitas vezes em situações assim que o encaminhamento é o mais recomendável, o mais ético.

Porque ninguém aguenta, durante muito tempo, sentir que vem interagindo, conversando, por meses a fio, com uma porta. O paciente vai embora, e não indicará esse terapeuta para outras pessoas.