Friday, October 10, 2008

Deserto

(Antologia do Prêmio Sesc de Poesias 2008)


Deserto,


o ar parado,


entre


meu olhar


e


o


teto.


Deserto,


o meu pensamento,


sem morte,


nem projeto.


Deserto,


o meu corpo largado,


sangrando aberto,


às traças do quarto.


Deserto,


o olhar do mendigo,


engolindo um grito,


dormindo e acordando comigo,


ruminando desertos.


Thursday, September 18, 2008

O pensamento positivo cronifica as obsessões

Obsessões são idéias fixas, geralmente desagradáveis, carregadas de ansiedade, das quais o sujeito não consegue se livrar. Muitos obsessivos se queixam que são escravizados por determinados pensamentos ruins, dos quais não conseguem se livrar. Geralmente recorrem a alguma compulsão, algum comportamento ritual repetitivo e aparentemente desprovido de utilidade objetiva para desfazer a obsessão.
É mais ou menos assim: o pensamento ruim (o pensamento “negativo”) surge e o obsessivo somente consegue se apaziguar e sentir-se menos ansioso com um ritual que o neutraliza. O jogador na hora do pênalti, por exemplo. Ele está morrendo de medo de errar. E o que faz para neutralizar esse medo ou as obsessões, os “pensamentos ruins”, de que irá errar? Ele pode, por exemplo, recorrer ao pensamento positivo: “vou acertar, vou acertar”. Atua como uma espécie de oração.
Neste contexto, de ansiedade extrema, já instalada, o chamado pensamento positivo, ajuda. Ele tem a função de neutralizar as obsessões, os pensamentos ruins, e acalmar o sujeito. E o que fica claro é o seguinte: se não houver medo, não há necessidade de pensamento positivo. Onde há medo, há pensamento positivo. E onde há pensamento positivo, há medo. Sem medo, ele perde o sentido.
Porém, quero focar em outro detalhe. As compulsões (e o pensamento positivo é uma delas) neutralizam as obsessões e acalmam o obsessivo. Porém, este efeito é paliativo. Os estudos nesta área são conclusivos: a neutralização reforça a obsessão. Resolve momentaneamente, mas acaba por fim cronificando a obsessão. A melhor alternativa é o enfrentamento, a exposição sistemática. Ou seja, é mais eficaz e efetivo acabar com o medo.
Para o exemplo do pênalti eu diria o seguinte. É mais efetivo o jogador se preparar para perder o medo de perder um pênalti. Aprender a perder, então, é fundamental. Obsessivos são, de modo geral, fóbicos ou perfeccionistas. Morrem de medo de algumas coisas: contaminação, medo de perder, de errar, de morrer, medo de ter medo e vários outros milhares de medos dos quais sua vida é constituída.
Atendi a dois casos em que os pacientes tinham um medo absurdo do diabo. A imagem do demônio em suas mentes ou a idéia de que teriam vendido a alma para ele, ou que ele lhes faria algum mal, era algo do qual não conseguiam se livrar. Este tipo de obsessão gerava muita ansiedade e acabava sendo incapacitante. Recorriam aos mais diversos rituais: orar indefinidamente, fazer repetidos e inúmeros sinais da cruz, não dizer certas palavras, ou dizê-las em pares (para que fossem ditas e “desditas”), não adentrar em determinados lugares, não pisar em determinados pontos do chão. Enfim, o arsenal de compulsões pode ser enorme e o sujeito acaba padecendo bastante com isso tudo.
Fiz o que então? Baseado em uma estória zen, a qual lera há alguns anos, eu lhes propus o seguinte: o enfrentamento. Com o consentimento desses pacientes, invoquei o diabo. Se ele de fato existia, deveria comparecer à sessão.
“Diabo, belzebu, capeta, demônio, lúcifer...” – utilizamos todos os seus nomes e designações possíveis, “eu, Ricardo de Souza Machado Bueno e Adilson da Silva Teles Moura” (era importante também fornecer os nomes completos, assim não teria erro), “estamos aqui, no planeta Terra, na América do Sul, no Brasil” - enfim, endereço completo, pro coisa-ruim não ter desculpa; “venha até nós, apareça e comprove sua existência!”.
Nesse momento o paciente geralmente fica muito ansioso e tenso, praticamente se agarrando ou se escondendo atrás de nós.
Antes de tudo, porém, deve-se encher o bolso de grãos de feijão, centenas deles, se possível. A idéia é a seguinte: se o diabo aparecer, perguntamos quantos grãos de feijão temos no bolso. Nas duas sessões em que adotei este procedimento, ele sequer apareceu. Na estória zen, porém, o espírito maligno costuma aparecer. Mas, ao se perguntar pela quantidade de grãos no bolso, subitamente desaparece, sem dar qualquer resposta, e nunca mais retorna. E foi exatamente isso o que ocorreu com meus pacientes. O enfrentamento dissipou a obsessão. O diabo nunca mais azucrinou suas vidas.
(Autor, personagens e história fictícios)

Desejar mais o que se tem e menos o que não se tem

Já disse aqui e sempre digo: desejar mais o que não se tem do que o que se tem é infelicidade. E aí sempre me perguntam: “Como vou desejar o que já tenho?”. Respondo: “Você é casado(a) ou namora?”. Quando me dizem que sim, emendo: “Então deixe a pessoa com quem você está, a qual você já tem, e vá procurar outra que você não tem”.
E quem disse que desejamos somente o que não temos? O desejo do que já temos é mais importante para nos mantermos vivos do que os sonhos. Sem sonho não se vive? Não vivemos é sem usufruir do que já temos. Não é a esperança (o desejo do que não depende de nós) que nos mantém vivos, mas sim a vontade (o desejo do que depende de nós).
A esperança deseja o provável ou o improvável: é uma aposta. A vontade deseja e realiza o que é imediatamente possível. Isso é viver, de fato. Desejar mais o que é provável do que o imediatamente possível é a própria infelicidade. Pois uma postura realiza e vive e a outra espera. Isto é também um ensinamento de simplicidade e humildade.
Quando digo isso, de forma alguma estou querendo dizer que devemos abrir mão de nossos sonhos. Devemos somente estar atentos para o tamanho deles em nossa vida. Se eles estiveram tomando o lugar de tudo, de nossa vida concreta, de nossos fundamentais e pequenos prazeres cotidianos, há problema. E projetos são sempre melhores do que sonhos, castelos no ar. Um passo a cada dia também.

Sunday, September 07, 2008

Se você é tolo, é melhor ser otimista

Inferno dos tolos: a mulher do cara é fiel, uma santa, e ele, tolo total, tem a idéia fixa e infernal de que é traído. Paraíso dos tolos: a bandida é infiel e o imbecil agradece a Deus pela santa que tem em casa.
O que é pior: o inferno ou o paraíso dos tolos? Não sejamos tolos: obviamente que é o inferno. Tolice por tolice, fiquemos com o paraíso.
Conclusão: logo, se você é tolo, é melhor ser otimista.
Se você não sabe o que as coisas são ou do que se trata é melhor ser otimista. Neste caso, o otimismo é o colírio dos tolos.

Tuesday, August 12, 2008

A filosofia é útil?

Nem me estenderei muito. Somente citarei a resposta de Marilena Chauí para esta questão, em seu livro didático de introdução à Filosofia, o “Convite à Filosofia”. Ficou perfeita, nada a acrescentar:

“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.”

Tuesday, August 05, 2008

O ser humano é essencialmente covarde

Uma série de experimentos demonstram que a agressividade dos primatas superiores (basicamente chimpanzé, bonobo, orangotango, gorila, gibão e o homem) é mais cortical do que hipotalâmica. Ou seja, é uma agressividade menos impulsiva e mais aprendida. Predomina o planejamento, o cálculo.

Uma pequena estimulação elétrica em uma área específica do hipotálamo produz agressividade extrema e atésuicidaem tudo o que é mamífero que não seja primata superior. Por outro lado, a estimulação elétrica do hipotálamo em primatas superiores produz também agressividade, que de um modo bem mais relativo. Macacos submetidos a este tipo de procedimento demonstram agressividade para com oponentes mais fracos ou de uma hierarquia inferior em sua organização social. E macacos de hierarquias inferiores, quando estimulados deste modo, se acovardam ou se submetem.

Moral da história: macaco grande não é bobo não. É covarde mesmo.

Thursday, July 31, 2008

"Tudo é relativo"?

De imediato, já podemos dizer o seguinte: essa frase não tem sentido. É um paradoxo. E paradoxos, para boa parte da lógica, são simplesmente enunciados sem qualquer sentido. Se tudo é relativo, logo este enunciado também o é, e assim nem tudo é relativo. Ao dizer isto, não estamos dizendo simplesmente nada. Há contradição: tudo e nem tudo é relativo. Resumindo: besteira.


Melhor dizer outra coisa: dizer, talvez, que é sempre importante analisar o contexto, ou tentar ser mais específico. Porque a relatividade existe sim, assim como o absoluto.


E alguns ainda arriscam: “não existem verdades absolutas”. Nada disso. Existem sim: são, por exemplo, as verdades por definição. “Todos os homens são mortais”. Esta é uma verdade absoluta. Alguém poderia objetar: “E se encontrássemos, em algum outro ponto do universo, um homem imortal?”. Resposta: já não seria homem, seria outra coisa. O homem, por definição, é mortal. Assim como o fato dos triângulos possuírem três lados: outra verdade absoluta, por definição. Se possuir um número diferente de lados, já não é um triângulo.


Outra pérola que li estes dias, em um marcador de página de uma grande e pomposa livraria brasileira: “Fatos não há, somente interpretações”. E pior, tal frase era atribuída a Nietzsche. Sim, ele pode muito bem ter proferido este enunciado. Mas assim, fora de contexto, como a livraria reproduziu?


Pura besteira. Se tudo fosse relativo ou se fatos não existissem, convenhamos, o mundo seria um caos total. Como fazer ou reivindicar justiça sem fatos ou qualquer quinhão de absoluto? 


Como debater o que quer que seja? O próprio debate os supõe. Isso tornaria impossível o conhecimento, além de dar razões à prática e justificativa do mal ou à extinção da moral, da ética. Desse modo, a versão do criminoso, do corrupto, teria o mesmo valor da versão de suas vítimas, apesar dos fatos estarem do lado das últimas.


Como dizem os anglófonos: “bullshit”...




Podcast com comentários:


Monday, June 09, 2008

Qual é o sentido da vida?

O sentido da vida é que ela acaba
Franz Kafka

Concebo, por enquanto, três respostas fundamentais:
1. O sentido da vida é a morte.
2. O sentido da vida é viver e se reproduzir.
3. O sentido da vida é uma construção eminentemente individual.
Por sentido pode-se entender direção específica, significação ou finalidade.
No primeiro caso podemos assim traduzir: qual é a direção para a qual a vida ruma, seu destino? Para onde vai esta vida? Neste caso a resposta mais concreta e simples é espantosa, porém, verdadeira (mesmo que em parte): o sentido da vida é a morte. Esta é a direção ou destino concreto de todo e qualquer ser vivo.
Contudo, o senso comum geralmente está perguntando por uma outra coisa. É mais ou menos a indagação de Paul Gauguin, a qual é o título de um de seus quadros, de 1897: "De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?”. Ou seja: qual é a função, a finalidade da vida? Por que e para que estamos aqui?
Em termos biológicos, é a resposta de número dois, a qual dei acima: o sentido da vida é viver, autopreservar-se, manter-se vivo, e se reproduzir, gerar descendentes. Uma compreensão hedonista ainda acrescentaria: o sentido da vida é o prazer. Tudo o que fazemos é em busca de prazer e em fuga da dor, do sofrimento. Mesmo nossos maiores sacrifícios teriam como meta última, seja real ou fantasiada, uma situação mais confortável, a satisfação de algum desejo ou impulso.
Contudo, estes sentidos universais, impostos pela biologia, não costumam satisfazer o sanguinário anseio metafísico das massas. As pessoas, de um modo geral, estão perguntando se há uma missão, um plano programado para nossa estadia nesta parca e frágil existência. E não querem ouvir uma resposta que seja negativa. Dizer que nãosentido algum para a vida, neste caso, é ofensa mortal.
Em termos racionais não é possível dizer que existe uma finalidade predeterminada intencionalmente para a vida de todas as pessoas. As pessoas que acreditam nesta tese, porém, insistem: “Não é possível. Não estamos aqui por acaso. Deve existir uma razão, um motivo”. Encontrar o motivo seria encontrar a causa, e esta não é certamente uma . Nossa existência é um somatório de inúmeras e pequenas causas.
Com certeza, não estamos aqui por acaso: alguns fatores agiram como causa. Mas, e o acaso, não é justamente isso: um somatório de inúmeras e pequenas causas, ao ponto de não podermos determinar o que ocorrerá? Um lançamento de dados é o exemplo clássico: determinar com precisão que número sairá é impossível. Pois não há uma única causa. São inúmeras e incontroláveis. para citar algumas: a força com que se arremessa os dados, a aspereza da superfície de contato, a altura do arremesso, a posição do dado nas mãos, a posição em que cairá, etc. Se pudermos controlar não é acaso. A predeterminação, neste caso, é sempre uma probabilidade.
Mas o grande problema é saber aceitar esta impotência fundamental, coisa que a maioria das pessoas não é capaz: não podemos controlar, não podemos, nem nunca poderemos saber precisamente o que produz o que para que nossa vida tenha surgido tal como ela é. Ou seja, o acaso existe. E o grande drama é que ele não nega que tudo tem causa. Ele nega que podemos controlar as causas e produzir exatamente o que desejamos, ou descobrir uma finalidade transcendental e única para vida humana. Se não é possível saber precisamente porque estamos aqui, “de onde viemos”, pois não há uma única causa, também não podemos saber qual é a finalidade de nossa existência.
E é exatamente isso que deixa as massas desconfortáveis: não poder controlar, não poder explicar, não encontrar um sentido predeterminado, único e universal para a vida. Porém, após escrever esse texto, uma única coisa me vem à cabeça: a pergunta sobre o sentido da vida, ansiosa pela resposta de que haveria uma “missãopara cada um de nós, é a indagação de quem não quer ouvir outra resposta que não esta mesma, a da “missão”.
A terceira resposta, no início do texto, diz o seguinte: o sentido da vida é uma construção eminentemente individual. Cada um dá o sentido que lhe cabe. A concepção de qual é a finalidade da vida irá variar de pessoa para pessoa (ou de grupos para grupos de pessoas) segundo as circunstâncias, possibilidades, concepções, costumes e sonhos de cada um. Assim, o sentido não é universal, mas particular. Não é dado, e sim construído.
Em um próximo texto sobre esta questão falarei sobre o amor e como ele pode dar sentido à vida.

Saturday, May 31, 2008

Você acredita em destino?

Esta pergunta é comum. E a resposta é simples: sim. Não é questão de acreditar. O destino é um fato inquestionável. Ele existe, assim como o céu, o dia, as árvores e as pessoas. Pois o destino é simplesmente o sentido, a direção para a qual algo está programado. O destino, por exemplo, do ônibus que vai para São Paulo é São Paulo. Ele está destinado para São Paulo, o que por sua vez não quer dizer que chegará infalivelmente .
O destino existe, assim como os acidentes que impedem que ele seja realizado. Destinos são desfeitos por acidentes. Sempre que ocorre um acidente, algum destino está sendo desfeito. Neste sentido, o destino existe e não é imutável.
Porém, quando as pessoas perguntam umas para as outras se elas acreditam em destino, essa pergunta faz uma extensão de sentido do termo. Somente se utiliza a palavra destino, neste caso, por uma questão de costume, de uso comum, seja em que campo for, até mesmo na filosofia. A pergunta mais precisa seria: “Você acredita em predestinação?”. Mas , talvez, ninguém entendesse nada. É compreensível a simplificação.
Penso que o termo predestinação é mais preciso. Fala de um destino fixado previamente, e é um termo cunhado pela teologia. Ou seja, foi criado para afirmar esta idéia.
Neste sentido, acreditar em predestinação é acreditar que alguém escreve o destino. É a idéia de um ser supremo e onipotente a agir sobre suas criações. Determinar irrevogavelmente o futuro de um ser é, de algum modo, agir como seu criador.
Há, por outro lado, quem tenha a concepção de que o destino foi forjado e antecipado à luz de diversos fatores associados. É a própria idéia de predição ou determinação, a qual pode simplesmente ser erguida segundo o misticismo de uma variedade de causas coincidentes ou o controle das mesmas.
Na perspectiva mística deve imperar uma atmosfera nebulosa e mágica, sensacional. Isso foi escrito por entes sobrenaturais, sobre os quais não temos qualquer poder ou acesso. Criaturas da noite ou de luzes transcendentais a produzir um fato único, sublime e preciso, o qual foi planejado nos confins de universos distantes ou paralelos ao nosso, os quais somente não seriam percebidos por míopes de espírito.
Na perspectiva deterministasimplesmente o controle das causas, seu conhecimento preciso e acabado, e assim pode se determinar o que as coisas serão. E isto não demarca nenhum mistério. É simplesmente a explicação racional. Explicar é encontrar as causas. Determinar é saber como manejá-las para se produzir infalivelmente o que se quer. Se, por exemplo, você unir uma chama a um elemento inflamável, terá a combustão deste. Saber como fazer e executar o que se deseja, é determinar. Fogo associado a um elemento inflamável gera uma reação explosiva, de combustão, e não outra coisa. É assim necessariamente. Na filosofia é chamado de necessidade.
Também é muito utilizado o termodeterminante”, o qual, neste sentido, é simplesmente sinônimo de causa. Se um fator é determinante, ele é causa. Finalizando, acreditar em predestinação (em destino, como é comum dizer) é acreditar que tudo está determinado. Para algumas coisas isso é até possível. A morte, por exemplo, é uma predestinação. Todos seres vivos estão predestinados à ela. Porém, o momento e a forma como ela sucederá podem ser inferidos por probabilidades ou por obra do acaso.

Tuesday, May 20, 2008

Aqui se faz e aqui se dá o calote

Aqui se faz e aqui se paga”. E por que seria assim? Onde está escrito que é necessariamente deste modo? Esta concepção julga que há uma justiça divina e infalível, a qual fará com que os maus, ainda nesta vida, neste plano, paguem por tudo o que fizeram de ruim.

O problema é que não faltam evidências contrárias. Ainda mais no Brasil, onde observamos de camarote o desfile da impunidade, no meio político, por exemplo. O que não falta é político corrupto, canalha, terminando seus dias com os louros do sucesso e do amor do povo. Além de não pagar nada do que roubaram, muitos ainda deixam saudades no coração de boa parte de nossa população.

Em relação à corrupção, em nosso país, aqui se fazer e aqui se pagar é exceção. Se a justiça divina está sendo feita, não é nesta vida. Então, modifiquemos, para os que acreditam na justiça divina, fica assim: aqui se faz e no além se paga. Ou: aqui se faz e aqui se dá o calote.

Esse provérbio tenta servir como uma espécie de consolo, muito vago, a depositar em uma providência divina a esperança de futura justiça para os miseráveis que dela foram destituídos. Serve muito bem para quem acredita em retribuições ou compensações transcendentais, sobrenaturais.

uma crença em justiça natural ou divina. O problema é que não existe justiça, nem bondade ou maldade na natureza. Ela simplesmente não carrega conceitos em seu ventre. A natureza simplesmente flui, acontece e pronto. Mais nada. A natureza é muda e sem juízo. Quem julga o que nela acontece somos nós, os seres humanos.

Monday, May 19, 2008

"A voz do povo é a voz de Deus"?

Esse provérbio toma, equivocadamente, a voz do povo por uma verdade inquestionável. E nãomelhor maneira de uma mentira vigorar do que em coro, em grupo, em multidão cega. Minta bem, minta em grupo. Uma mentira, muitas vezes repetida, torna-se verdade. É o que dizia Joseph Goebbels, líder da propaganda nazista alemã. E é também o que sugere Nietzsche, ao dizer que a verdade nada mais é do que a mentira do rebanho.

E a voz do povo faminto por linchamento, por vingança, por pão e circo, por sangue? Do povo que entrega cegamente o poder a ditadores e corruptos? É também a voz de Deus? Não, de forma alguma. Neste sentido, mais cabe dizer que a voz do povo é voz do capeta. dizia Nelson Rodrigues: a unanimidade é burra. E também sugeria Freud, sobre a psicologia das massas, que as multidões não pensam. Agem de modo muito volátil, seguindo simplesmente a trilha do movimento do rebanho. Passam do amor ao ódio em segundos.

Um exemplo notório é das torcidas de futebol. Se o ídolo não está jogando bem, estão babando cólera, e querendo linchá-lo. Se, de repente, ele faz o gol: redenção total. O vilão se transforma em herói em questão de segundos. Ausência completa de sensatez, memória e justiça.

Esse provérbio é conversa de demagogo, de político populista. Dizendo isso, fica muito mais fácil angariar simpatias e votos.

Pela demolição dos provérbios

Provérbios são enunciados rápidos que resumem com força determinadas concepções. Alguns até possuem algumas nuances poéticas ou humorísticas. As pessoas acabam tomando-os como formas inteligentes de dizer ou enfatizar o que pensam. Seus trocadilhos, seus jogos de linguagem, lhes conferem a aparência de fulminantes formas de expressão.

Para o senso comum é um modo bem freqüente para se acabar logo com uma discussão. O provérbio vem como uma bomba no meio de tudo o que estava sendo dito e cala a boca de todo mundo. Isso ocorre porque, de modo geral, expressam enfaticamente uma parte da verdade. O restante fica de fora, e é somente um pensamento mais crítico que pode atingir ou questionar.

Esse ato dos provérbios de calar o pensamento é o que mais me indigna. Funcionam como os nefastos argumentos de autoridade. Chegam, sem muitas evidências, e somente por serem provérbios vão logo impondo o fim da reflexão. Assim, darei início aqui no blog a uma nova sessão: a demolição de provérbios.

Monday, April 21, 2008

Felicidade: paz ou excitação

Quando pensamos no nível de agitação de uma vida, pode-se dizer que são basicamente dois os tipos de felicidade concebíveis: uma como fruto de agitação e outra devido à paz. Um ideal deseja fortes emoções (excitação) e o outro, maisbucólico”, calcado na idéia de paz, deseja tranqüilidade. A idéia do que é ser feliz varia entre esses dois pólos.

quem conceba e deseje para si a agitação (excitação), e veja somente o possível caminho para a sua bem-aventurança. Aliás, esta parece ser atualmente a concepção dominante de felicidade. Por outro lado, existem também aqueles que pensam o contrário, e vêem na idéia de paz um caminho.

A idéia de que intensas emoções devem necessariamente acompanhar a felicidade é tão forte para algumas pessoas que elas simplesmente não são capazes de conceber a possibilidade de serem felizes com sutilezas ou na simplicidade. Em sua concepção, a felicidade deve sempre vir acompanhada de muito tempero, de muita pimenta. Ser feliz, nesta visão, é viver grandes emoções e grandes conquistas. É, de certo modo, incessantemente esperar ou lutar para que algo decisivo ocorra.

Para Bertrand Russell, o ideal de uma vida completamente livre de tédio, rotina ou mesmice, é nobre, porém, impossível. E acrescenta: “as manhãs são tanto mais aborrecidas quanto a noite anterior foi mais divertida”, poisum pouco de aborrecimento talvez seja até indispensável à vida” (1930/2001, p. 58-59). Para Russell a mesmice, o tédio, a rotina (o que ele chama de aborrecimento) são a regra.

Apesar de Russell fornecer inúmeros exemplos a favor de sua tese, a de que o tédio é a regra, podemos prescindir destes e partir da linha de raciocínio exposta em suas últimas palavras, no parágrafo acima.

A agitação é muitas vezes desejável, sem dúvida. Ela, porém, impõe expectativas e exigências com as quais geralmente não sabemos lidar. A idéia de que a vida deva ser repleta de agitação a torna mais penosa do que a aceitação de sua ausência. Vejamos, por exemplo, o caso da rotina. Há quem diga que detesta rotina. Esta fala é tão comum quanto tola. Rotina é algo inevitável e vital. Qualquer aprimoramento ou tranqüilidade a exige. Experimente abandonar horários para toda e qualquer atividade. Tente aprender qualquer coisa nova sem repetição. Nosso aprendizado e nossos ciclos vitais exigem rotinas. Nossa mente, para não ter de sempre pensar no que vai fazer, exige rotina. A rotina é o descanso que precisamos para podermos pelo menos pensar na vida de vez em quando.

Imagine ter de pensar em tudo, sempre, todos os dias? Levantar-se e ter de procurar sua escova de dentes onde ela nunca esteve. Ter de escolher entre várias marcas de sabonetes para o banho, pois a cada dia você utiliza uma diferente. E isso depois de ter se levantado em um horário completamente novo, com o qual você não estava acostumado. Em uma outra cama, em outro clima, em outras regras de convivência. Enfim, nunca ter uma pausa para esquecer-se ou esquecer do que se deve ou não fazer. Ou seja, um mundo bloqueado para a divagação, o devaneio.

Obviamente é mais belo dizer que se detesta a rotina. Em um mundo marcado pela movimentação constante, pela velocidade, é muito mais fácil e claro seguir o fluxo das mudanças incessantes e acreditar que assim, sempre, deva ser a vida. Excitação, agitação, luzes, cores, festas, companhias, pessoas, sexo e prazeres intensos são produtos mais vendáveis do que silêncio, escuridão, estar sozinho, quietude, sutilezas e prazeres íntimos.

Vivemos em uma sociedade dos prazeres bradados aos sete ventos. Vivenciar prazeres estratosféricos, ou assim parecer, e ostentá-los, faz parte de um jogo de comparações infinitas. A única felicidade a vigorar nesta realidade é a felicidade relativa. Ou seja, sou feliz em comparação com a felicidade do outro, com o sucesso do outro. Porque ser feliz, neste sentido, é ter sucesso. É mostrar que é feliz. Mostrar que se tem mais do que o outro. E assim as coisas simples da vida são simplesmente esquecidas, abandonadas. Vivemos em uma sociedade que tem verdadeiro repúdio pela simplicidade, pela conquista íntima e secreta da felicidade.

E a experiência da agitação é tanto mais perigosa quanto menos esforços ela requer. E este é o perigo, por exemplo, do uso de drogas estimulantes:

“A passividade física durante a excitação é contrária ao instinto. (...) projetos construtivos não se formam facilmente na mente de quem leva uma vida de distrações e dissipações, pois neste caso os seus pensamentos serão sempre orientados para os prazeres imediatos mais do que para realizações distantes.” (Russell, p. 62-63).

Vejamos, por exemplo, o hábito de estudar. É necessário paciência, saber lidar, muitas vezes, com um nível de agitação baixo. Pois, quando estudamos, parece que não estamos realizando nada. Há aparente monotonia, recolhimento e solidão, na leitura e no estudo. É necessário paciência, esforço, uma espécie de ação silenciosa, a qual supera as aparências do que seja a excitação e como esta pode naturalmente ser obtida. Estudar, em certa medida, é um ato meditativo, de mergulho, calcado em atenção e esforços de introspecção.

Russell encerra suas reflexões sobre o “aborrecimento e a agitação” da seguinte maneira: “Uma vida feliz deve ser, em grande parte, uma vida tranqüila, pois numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer”. (p. 65)

O próprio ato da reflexão, por exemplo, exige tranqüilidade. Paixão, excitação ou agitação não combinam com reflexão. Refletir é, em boa medida, degustar.

Se entendermos que o prazer deve brotar também de uma relação com o tempo. O recolhimento, a espera virtuosa (a paciência) e a capacidade de deixar que o tempo passe são formas sadias de habitar o presente. O prazer emerge de uma certa relação entre contrastes. Aprender a suportar uma certa quota de tédio é aprender tolerar limites. A produção do prazer também depende do acúmulo de tensões, as quais constituem o contraste necessário para que ele emerja, inclusive, com mais intensidade.

O acesso irrestrito ao prazer, se fosse possível, talvez levasse à morte do sujeito que o experimenta. São conhecidos alguns experimentos em que o animal pode obter acesso irrestrito a uma estimulação direta em seus centros de prazer no cérebro. Os resultados são os de animais que deixam de fazer tudo o mais que é vital e gerador de prazer (comer e copular, por exemplo), para somente agir em função da obtenção desta estimulação.

Por outro lado, há também experimentos que demonstram a importância de fontes alternativas de prazer. Quando o fornecimento de determinada droga (no caso, geralmente, a heroína) é irrestrito e desacompanhado de fontes alternativas de prazer, de um ambiente rico em outras estimulações, o animal se mostra mais propenso à drogadição.

Isto nos diz, de algum modo, que a excitação irrestrita é esgotante e contrária à própria sobrevivência do indivíduo. Neste sentido, é possível então dizer que o prazer irrestrito e sem esforço mata.


Referências

Russell, B. (1930/2001). A conquista da felicidade. Lisboa: Guimarães Editores.


Monday, April 14, 2008

A gratidão

Quero começar pelo senso comum. Muitas pessoas se sentem capazes de agradecer por comparação a quem tem menos ou não tem nada, por comparação a moribundos, miseráveis, destituídos, ou a quem perdeu. É muito freqüente ouvirmos sermões do tipo: “Agradeça por ter um corpo perfeito; por ter uma casa, alimento, saúde, por ser parte de uma minoria privilegiada...”. É a alegria pela comparação com as desgraças dos outros. Na verdade, uma forma vulgar e bem baixa de gratidão. Uma gratidão passiva, fruto de espíritos mais invejosos do que virtuosos. Precisam da miséria, da derrota ou da infelicidade alheia para ser felizes. É a alegria por saber que se tem o que o outro não possui. Emerge somente por comparação, por meio de um olhar invejoso e competitivo. É uma forma infeliz de gratidão. Tem o mal do outro como condição.
A gratidão, antes de ser um consolo ou um sentimento de dívida, pode ser um ato. O ato simples de usufruir do que se tem e do que se pode. Ser grato, em seu sentido mais virtuoso, é dar valor ao que se tem. E para isso é preciso ter olhos para o que existe e é capaz de produzir prazer.
Muitos pacientes nos chegam, em desespero, relatando que suas vidas estão em ruínas, aos pedaços. Os primeiros passos, muitas vezes, obviamente, são os de recolher cacos e tentar aproveitar o que sobrou. Esta tentativa, por mais estranho que pareça, é um movimento de gratidão. E ela, se possível, na melhor das hipóteses, deve se dar sem a comparação com uma miséria alheia maior.
quem tenha sido condicionado a se sentir feliz somente por comparação com os outros. Ou seja, ser feliz é ser ou ter mais que o outro, é ostentar superioridade. É uma felicidade social, de coluna social. Para quem foi assim condicionado, fica mesmo muito difícil ser feliz sozinho (no seu bom sentido), no seu cantinho, sem se preocupar demais com os outros. Segundo Russell:
“O homem sensato não deixa de sentir prazer com o que tem pelo fato de alguém ter mais ou melhor. A inveja, na realidade, é uma forma de vício, em parte moral, em parte intelectual, que consiste em não ver as coisas em si mesmas, mas somente em relação com outras. (...) Quem deseja a glória, poderá invejar Napoleão. Mas Napoleão invejou César. César invejava Alexandre e Alexandre, provavelmente, invejava Hércules, que nunca existiu. Não se pode, por conseguinte, combater a inveja por meio da conquista da glória, pois haverá sempre, na história ou na lenda, algum personagem cujos feitos tenham sido mais gloriosos. Pode-se combatê-la, sim, pelo gozo dos prazeres que se nos oferecem, pelo trabalho que tivermos de realizar e evitando comparações com aqueles que imaginamos, talvez sem razão, mais ditosos do que nós.” (2001, p. 84)
A melhor forma de se fazer isso é o usufruto íntimo e discreto do que se tem à disposição, e não do que se teria. É saber gozar em nossa própria simplicidade e intimidade, em um possível mundo não somente feito e construído como uma vitrine. Explico melhor: é olhar menos para a vida ou o sucesso dos outros. É poder habitar um mundo menos permeado por inveja. Um mundo onde a privacidade seja um elemento chave para o desenvolvimento pessoal e o prazer. A sugestão é de Sade: o quarto (a alcova) é o espaço privilegiado para o crime. É na privacidade que a possibilidade de prazer e gozo pode ser diversa e rica.
A gratidão, neste sentido, é as vezes até meio anti-social. Por que é o prazer pelo que é simples e somente nosso. Somente nosso porque ninguém maisvalor. Ou melhor, ninguém mais sabe o valor que aquilo tem. Não é somente uma virtude da memória, mas também da intimidade.
Quanto mais privacidade, maisexcentricidade produtiva e menos excentricidade reativa. É poder ser diferente simplesmente pelo gozo que a diferença possibilita, sem rebeldia, satisfação ou provocação a ninguém. É o prazer afirmado em segredo, em usufruto íntimo.
A intimidade, curtir nosso cantinho, sem olhar para os lados, é um caminho suave de felicidade. É tocar nosso barquinho num ponto isolado e esquecido do oceano e poder, de preferência, compartilhar isso com alguém, ou seja: amando. Gratidão, mas gratidão compartilhada, como tudo o que é do amor. Poder dividir esta alegria a mais, que é a gratidão, é o próprio ato de agradecer. E isto também é uma das formas do amor. Para Comte-Sponville:
“A gratidão é dom, a gratidão é partilha, a gratidão é amor: é uma alegria que acompanha a idéia de sua causa, como diria Spinoza, quando essa causa é a generosidade do outro, ou sua coragem, ou seu amor. Alegria retribuída: amor retribuído.” (2000, p. 147)
Sendo que até aqui somente falei de um tipo de gratidão: a gratidão para com a vida. A gratidão para com os outros seria o segundo tipo.
O segundo caso diz respeito mais precisamente ao reconhecimento de que não somos sujeitos absolutos de nossa própria condição. Ser grato é reconhecer que outras pessoas também participaram na produção de nossa aventurança. Trata-se de uma certa humildade que obriga a reconhecer o outro como parte de nossa alegria. É poder dedicar, compartilhar a graça recebida. Reconhecer o que nos foi dado. Ainda, segundo Comte-Sponville:
Agradecer é dar; ser grato é dividir. Esse prazer que devo a você não é apenas para mim. Essa alegria é a nossa. Essa felicidade é a nossa. O egoísta pode regozijar-se em receber. Mas seu regozijo é seu bem, que ele guarda para si. Ou, se o mostra, é mais para fazer invejosos do que felizes: ele exibe seu prazer, mas é o prazer dele. esqueceu que outros têm algo a ver com isso. Que importância têm os outros? Por isso o egoísta é ingrato: não porque não goste de receber, mas porque não gosta de reconhecer o que deve a outrem, e a gratidão é esse reconhecimento, porque não gosta de retribuir, e a gratidão, de fato, retribui com o agradecimento, porque não gosta de partilhar, porque não gosta de dar. (...) O egoísta é incapaz disso, pois conhece suas próprias satisfações, sua própria felicidade, pelas quais zela como um avaro por seu cofre. A ingratidão não é incapacidade de receber, mas incapacidade de retribuirsob a forma de alegria, sob a forma de amorum pouco da alegria recebida ou sentida.” (2000, p.146)
E um erro muito comum, neste caso, é esperar gratidão. É fazer algo pelo outro , de antemão, esperando que no futuro haja reconhecimento. Fazer, de graça, por amor, esperando gratidão ou retribuição, é tolice. Neste sentido, deve-se fazer sem esperar nada em troca. Isto simplesmente porque a gratidão do outro não depende de nós.
Por outro lado, sentir-se grato, às raias de um sentimento constante de dívida impagável, também pode não ser muito saudável. A gratidão é sempre boa na medida da alegria que a acompanha. E a angústia de uma dívida constante carece de alegria. vi casos em que a gratidão mais expressava sofrimento do que alegria. A pessoa se sentia, na verdade, mais devedora do que grata. Embora se expressasse sempre com a palavragratidão”. Sim, quando somos gratos, podemos assim dizer: “devo muito a você, a fulano ou sicrano”, porém, em muitos casos, não é possível que todos sejam “pagos”, que todas estas dívidas sejam saldados. Não é o caso de pagar, mas de comemorar juntos a alegria da graça obtida.
graças oudívidasque são, por definição, impagáveis. A dívida que temos para com nossos pais, por exemplo. Principalmente se a graça é considerada grande e o papel deles fundamental. Ou se os sacrifícios dos pais, como muito comumente ocorre, foram notáveis. Entretanto, se eles amam os filhos, basta a ar da graça destes. Não tem preço e não se paga.
Porém, vi filhos que carregavam culpa, como se quisessem pagar. Foi o caso de um amigo. Carregava um pesado e martirizante sentimento de dívida para com os pais. Eu também tenho um sentimento de dívida. Mas sinto que a minha felicidade é a melhor forma de retribui-los. Neste caso o “calote” é mais saudável. Empreendimento para saldar uma dívida impossível é suicídio. E é este mesmo, em muitas situações, o destino de muitos eternos culpados e obtusamente gratos: enterram-se em culpas eternas em relação ao que “devem” ou “deveriam” aos pais.
Como bem finaliza Comte-Sponville, a gratidão “se rejubila com o que deve”.
Referências

Comte-Sponville, A. (2000). Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes.
Comte-Sponville, A. (2004). Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes.
Russell, B. (2001). A conquista da felicidade. Lisboa: Guimarães Editores.