Friday, April 29, 2022

Interações abusivas

Não consigo nem imaginar alguém que nunca tenha sido vítima de uma interação abusiva. Tenho a impressão de que todo mundo já sofreu algum tipo de abuso em alguma interação, por mais leve que tenha sido o abuso, ou por mais breve que tenha sido essa interação.

Há diversas possibilidades de abuso, e algumas são mais sutis. E é muito comum que a pessoa abusada não tenha consciência de que está sendo vítima de abuso.

Há situações em que o abusador:

1. Consegue manipular, e fazer o outro se sentir culpado, sem de fato ter culpa alguma.

2. Chantageia e ameaça.

3. Persegue, no sentido de rastrear tudo o que o outro faz, para depois condenar, prender ou castigar física ou psicologicamente. E isso é muito comum em interações com abusadores marcados por ciúme e sentimento de posse excessivos.

4. Persegue, no sentido de marcar e registrar tudo o que a vítima faz, para poder condená-la e castigá-la por erros mínimos ou insignificantes. Isso por vezes caracteriza o abuso marcado pela implicância, o qual também pode ser fruto de relacionamentos que se desgastaram. Há abusadores que atuam como se tivessem pegado birra das pessoas que sofrem em suas mãos, e isso abre as portas do inferno para horrores marcados pelas mais variadas formas de sadismo. 

5. Constantemente humilha, agride e subjuga, muitas vezes alternando esse tipo de comportamento com afagos ou declarações de amor, o que acaba tornando difícil a percepção de que existe abuso.

6. Emite um comando, e logo depois emite um comando contrário, fazendo com que a pessoa se torne refém de um jogo no qual “se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come”. É o chamado duplo-vínculo. O abuso exige x. Tendo x, o abusador pune, e logo depois exige o contrário, y, e assim em um ciclo eterno, e paradoxal, de uma espécie de “bate e coça”. A vítima fica presa em comando paradoxais.

Exemplo:

O abusador exige dedicação. A vítima se esforça, e se dedica. Aí o abusador responde que o comportamento da vítima foi totalmente impróprio, e que se for para ser assim, nem precisa fazer nada. Mas não fazer nada é falta de dedicação. Eis a prisão do paradoxo do abusador.

E é importante ressaltar que nem todo abusador tem consciência de que abusa. Existem sádicos que conscientemente manipulam e torturam. Mas existem também aqueles que abusam em virtude de suas próprias vulnerabilidades e imaturidade. Porque o abusado nem sempre é mais fraco do que o abusador. Existem, por exemplo, pais abusados por filhos. Assim como existem pessoas psicologicamente enfraquecidas, que são patologicamente ciumentas, egocêntricas, imaturas, impulsivas, com medo patológico de serem abandonadas, desrespeitadas, humilhadas, que reduziram seu mundo a relacionamentos empobrecidos e doentios. 

Há abusadores que têm a convicção de que estão lutando pelo bem de suas vítimas, ao impor-lhes limites, disciplina ou punições, que concebem como justas e educativas. Mas que, no final das contas, torturam, mutilam, dilaceram e podem até matar.

E também é comum que um abusador (pouco consciente dos abusos que comete) passe a ter prazer com isso. É comum a transformação de um disciplinador em uma espécie de torturador sádico. Deste modo, o senso de disciplina com frequência se mistura com sentimentos de prazer sádico. 

Porque todos nós controlamos uns aos outros, o tempo todo, seja com guloseimas e agrados (gratificações/reforços) ou pontapés (estímulos aversivos). O problema é que os últimos costumam ser muito gratificantes para quem os utiliza, porque são com frequência mais simples de serem usados, e seu efeito é imediato. Eis então uma grande oportunidade para o abuso.

E você, já sofreu ou se sentiu abusado(a)? Quais situações mais vivenciou em sua vida? 1, 2, 3, 4, 5, e/ou 6?

O chocolate e a insônia

 Uma vez recebi um paciente, com sintomas de ansiedade e depressão, encaminhado ao CAPS por um médico, que teria lhe recomendado parar com a ingestão de todo e qualquer alimento que contivesse cafeína, inclusive chocolate.

Achei estranho. Mas não sei se esse médico errou, ou se esse paciente entendeu errado o que esse médico teria lhe dito. E sinto que talvez esse médico estivesse preocupado com a insônia relatada pelo paciente.

Porém, se a ingestão de cafeína for alta, parar de uma vez é um risco, pois o paciente pode sofrer com sintomas de abstinência.

E as recomendações mais comuns são a de se evitar a ingestão de alimentos que contenham cafeína depois das 17 horas.

Mas, em relação ao chocolate, vejam que interessante. 

Um chocolate, com 45 a 59% de cacau contém 43 mg de cafeína para cada 100 g. Meio copo americano de café (100ml) contém cerca de 71,5 mg de cafeína. Uma regra de 3 mostra, então, que um chocolate com 70% de cacau teria por volta de 58 mg de cafeína para cada 100 g. Uma barra de chocolate Talento (com 70% de cacau) tem 75 g, o que equivale a cerca de 43,5 mg de cafeína. Um terço dessa barra (25g) dá uma boa sobremesa, e isso equivale a 14,5 mg de cafeína. Meio copo de café contém quase 5 vezes mais cafeína do que 25g de chocolate 70%. 

E há também a teobromina, e o quanto seria ela o problema. Mas vejam a conclusão desse estudo, de 2013:

“Em conclusão, descobrimos que a teobromina geralmente carece de efeitos auto-relatados semelhantes à cafeína, apesar do uso de uma ampla gama de doses de teobromina e um tamanho de amostra relativamente grande de indivíduos. Em vez disso, a teobromina mostrou efeitos diferenciais dependendo da dose: a 250 mg mostrou efeitos positivos limitados no humor que se tornaram negativos em doses mais altas. Também aumentou a frequência cardíaca de forma dose-dependente. Juntos, isso sugere que a teobromina em níveis normais de ingestão, como pode ser encontrada em uma barra padrão de 40 g de chocolate amargo, pode contribuir para os efeitos positivos do chocolate.” (Baggott et al, 2013)

E não há evidências suficientes de que o chocolate seria um alimento importante no combate a sintomas de ansiedade e depressão. As evidências atuais nos mostram que o chocolate é somente um alimento que muitos de nós apreciamos.

Então talvez seja necessário um pouco de cuidado com a ingestão de chocolate amargo depois das 17 horas. Mas talvez não faça o menor sentido parar de comer, moderamente, essa delícia.

Referências

Baggott MJ, Childs E, Hart AB, de Bruin E, Palmer AA, Wilkinson JE, et al. Psychopharmacology of theobromine in healthy volunteers. Psychopharmacology. 2013 Feb 19;228(1):109–18.

Fundasono - Fundação Nacional do Sono - Quase metade dos brasileiros sofre de distúrbios do sono [Internet]. www.fundasono.org.br. [cited 2022 Apr 27]. Available from: https://www.fundasono.org.br/.../69-quase-metade-dos...

Fusar-Poli L, Gabbiadini A, Ciancio A, Vozza L, Signorelli MS, Aguglia E. The effect of cocoa-rich products on depression, anxiety, and mood: A systematic review and meta-analysis. Critical Reviews in Food Science and Nutrition. 2021 May 10;1–13.

Nisar M, Mohammad RM, Arshad A, Hashmi I, Yousuf SM, Baig S. Influence of Dietary Intake on Sleeping Patterns of Medical Students. Cureus. 2019 Feb 20.

O desencontro com pessoas intelectualmente desonestas e mal-intencionadas

Quando a piscina de meu condomínio estava sendo aquecida a 37°C (uma temperatura muito acima do máximo de 30°C, determinados por normas sanitárias), enfrentei a resistência de uma vizinha. Na ocasião ela me disse que a temperatura deveria continuar daquele jeito, porque nenhum de seus filhos adoecia com aquilo, e que eles gostavam muito das águas quentes de Caldas Novas.

O nível de sua tentativa de argumentação era tão tosco e desonesto, que eu desisti em poucos minutos. Não fazia sentido tentar argumentar com uma pessoa que, em um debate, estava tão mal-intencionada.

Porém, dias depois, tive o azar de cruzar novamente com essa pessoa em uma situação conflituosa.

Meu prédio tem três elevadores, sendo dois sociais e um de serviço. Moro no primeiro andar, e minha bicicleta é muito pesada para que eu consiga descer pelas escadas. Então, todos dias, desço pelo elevador de serviço.

Quando minha bicicleta entra no elevador, não sobra muito espaço para outras pessoas. É possível que caibam eu, a bicicleta e mais umas três pessoas. E todas ali ficarão um pouco espremidas. Não é confortável. Mas é possível.

Pedi o elevador. Ele demorou muito para chegar. E quando chegou, já estava com com quatro pessoas dentro. Não era possível que eu entrasse com minha bicicleta. Então deixei que ele fosse até o térreo, e pedi novamente. 

O problema é que ele não retornou imediatamente para o meu andar. Ele possivelmente foi até o 15° andar, e talvez tenha parado em vários andares, até chegar ao meu. Porque as pessoas pedem todos os elevadores ao mesmo tempo. Elas não se conformam em somente pedir os dois elevadores sociais. Também apertam o botão do elevador de serviço, e ele também acaba (em um horário de rush) sendo muito demandado. 

Após perder o primeiro elevador, esperei que ele fizesse toda a sua jornada, por todos os andares do prédio, até novamente chegar até mim,  no 1° andar. 

Quando ele por fim chegou, quem estava dentro? 

Essa infeliz e um adolescente, que talvez fosse seu filho ou neto, não sei.

Quando ela me viu,  e viu que o espaço ali ficaria reduzido, recomendou que eu não entrasse.

Eu, porém, fui entrando, e dizendo a ela que eu já tinha esperado muito tempo, e que já era o segundo elevador que eu estava aguardando.  

Ela, contudo, ficou irritadíssima, e resolveu nesse dia falar o que não havia me dito no dia da discussão sobre a temperatura da piscina.

- É uma falta de respeito tremenda você entrar dentro do elevador com essa bicicleta, fazendo com que a gente fique aqui espremido! Você é mal educado! 

Tentei novamente argumentar, mas com pessoas assim é praticamente em vão:

- Minha senhora, esse elevador é de serviço. É prioritariamente para cargas. Há dois outros elevadores sociais, e somente um único de serviço. Esse já é o segundo elevador que estou esperando, porque as pessoas estão usando-o para outras finalidades que não prioritariamente a de serviço. 

Não teve jeito. Ela saiu repetindo, em alto e bom tom, em modo de xingamento, na área externa do prédio, para que todas as pessoas possíveis ouvissem:

- Mal educado! Mal educado! 

Somente repliquei: 

- Siga as regras, e teremos mais tranquilidade no convívio. Basta seguir as regras. 

Como faço todos os dias, hoje novamente eu estava pedindo pelo elevador de serviço.  A porta se abriu, e quem estava lá? Novamente essa senhora e o adolescente. 

Dessa vez, porém, ela foi mais inteligente. Já foi logo saindo do elevador e, resmungando, se dirigiu aos elevadores sociais.

Ao invés de retrucar suas grosserias, achei melhor gratificar seu bom comportamento:

- Isso! Muito bom! Seguindo as regras! Muito obrigado, e tenha um bom dia! 

Sei que meu tom, no final das contas, soou um pouco irônico. Mas não me restou muitas alternativas. E não há como ela me acusar de ironia, porque eu realmente a parabenizei, a agradeci e lhe desejei um bom dia.

É assustador pensar que boa parte dessas pessoas está hoje pensando ou planejando ter porte de arma.