Tuesday, April 04, 2017

Amor é perrengue

Se você não é uma pessoa louca de tacar pedra e, no amor, está com medo de ser inconveniente, por estar ligando fora de hora, saiba de uma coisa: amor é isso mesmo. É perrengue, é convívio com tudo o que o outro tem de bom e de ruim. É surpresa, é tolerância e a necessidade de balanço constante. É ter o direito de aporrinhar e o dever de cuidar, e de dizer que está se sentindo aporrinhado(a), se for o caso. Exerça seu direito e não se furte ao seu dever, que já é meio caminho andado para o amor andar bem das pernas.

Wednesday, March 29, 2017

“Basta pensar diferente”?


“Basta pensar diferente”. Esse era o título de um livro que uma colega está lendo:

- Está me ajudando muito. É de TCC [terapia cognitivo comportamental].

Aí fiquei pensado: se pensar diferente é um efeito, um resultado de novas interações com o mundo, não faz sentido afirmar que “basta pensar diferente”. Tentei explicar isso para minha colega:

- Não concordo, Adriano. Está me ajudando muito e é isso o que interessa. Cada um com seu cada um.

Bom, pelo menos espero que ela não esteja somente tentando pensar diferente. Espero que não esteja sozinha nessa empreitada, que novas interações estejam ocorrendo em sua vida, e que estas tenham força para sustentar o desejo dela de pensar diferente. Boa sorte, querida!

Friday, March 17, 2017

O paradoxo de Epicuro

A imagem pode conter: 1 pessoa

Um pouco da história de minha mãe

Nasci e vivo em uma sociedade machista, mas a voz mais influente para com os filhos, em minha casa, sempre foi a de minha mãe. Nós, os filhos, escutamos dela, nossa infância e adolescência inteiras, sobre o tanto que homens abusavam de mulheres, e ele fazia questão de nos dar inúmeros exemplos disso, principalmente dentro de casa, na relação de meu pai com ela.
Seu pai morreu em 1955, quando ela tinha 8 anos de idade, a duas quadras de casa, atropelado por um ônibus, que lhe esmagou a cabeça; e ter visto seu corpo, com a cabeça esmagada, no necrotério, não foi a pior coisa que ocorreu na vida dessa mulher, minha mãe.
Tendo seu pai morrido, formou-se uma nova configuração familiar, agora somente composta por mulheres: minha avó, com 30 anos, viúva, e suas 3 filhas. Minha mãe era a mais velha, com 8 anos de idade. Minha outras duas tias tinham 6 e 4 anos. Moravam em Ribeirão Preto, no interior do estado de São Paulo, e seus familiares mais próximos, sua família extensa, residiam na zona rural, em municípios distantes cerca de 200 km de Ribeirão.
Essa mulher e suas três filhas estavam isoladas, vulneráveis. A partir dessa condição ouvi, durante minha vida toda, algumas histórias que minha mãe contava. Ela relata que a partir da morte de seu pai surgiram muitas dificuldades. Resumindo: minha avó teve mais três filhos, com outros dois homens. No final das contas tinha 6 filhos, com 3 pais diferentes, sendo um morto, um que nunca assumiu um dos filhos e outro que veio a se casar com ela, anos depois, após uma história repleta de instabilidade, negligência com os filhos e privações as mais diversas.
Minha mãe sempre nos contava que minha avó tinha sido muito negligente com os filhos, e que ela sempre dizia assim:
“Os filhos não são nossos, e quem cria é o mundo.”
Sempre relata um episódio, quando minha avó simplesmente sumiu, foi embora de casa, sem dar muitas notícias, voltando somente 3 meses depois.
“Eu somente sabia que ela tinha ido para Franca, mas a gente não tinha o endereço. Depois fiquei sabendo que ela tinha ido pra lá a procura de um amante. Mas ela voltou somente 3 meses depois e nós ficamos sem assistência alguma...”
Minha mãe tinha 11 anos, suas irmãs tinham 9 e 7 anos, e meu tio, filho do homem que nunca o assumiu como filho, tinha somente 8 meses de idade. Depois de mais ou menos duas semanas não havia mais comida. Minha mãe me disse que alguns vizinhos perceberam e lhes deram algum alimento tal como fubá ou coisa similar. Sim, começaram a passar fome.
Nesses 3 meses tiveram de tentar refúgio na casa de familiares. Com a ajuda de vizinhos e a boa vontade de desconhecidos, conseguiram pegar um ônibus para a “rocinha”, para a casa de alguns de seus familiares. Chegando lá, contudo, sua avó foi clara:
- Vocês entram, mas esse bastardo [o bebê] não!
Minha mãe teve de voltar para a estrada e, segundo sua avó, o bebê deveria ser abandonado em qualquer canto. Minha mãe não teve coragem de abandoná-lo ou de dá-lo para alguém. Novamente, com a ajuda e boa vontade de desconhecidos, conseguiu pegar um ônibus de volta para Ribeirão Preto.
Lembro sempre que minha mãe contava essa história chorando, algumas vezes inclusive na presença também de meu tio, o qual também chorava ao ouvir o relato. Conta que voltou com ele para a cidade e que esses vários e longos dias em que passaram sozinhos teriam sido os piores da vida dela.
Isso porque, antes disso, minha mãe já trabalhava, desde os 9 anos de idade, em troca de comida. No final dia, depois de muito trabalho de faxina, na casa de algumas mulheres que viviam de prostituição, ganhava um prato com arroz cru.
Passou pela casa de muitas pessoas, como doméstica, até mais ou menos seus 18 anos de idade, quando conseguiu trabalho como balconista, no comércio do centro da cidade. Prestes a completar 22 anos casou-se, e um ano depois teve seu primeiro filho, meu finado irmão, Eduardo.
Segundo ela, meu pai bebia muito e, um pouco antes de meu irmão nascer, estava bastante violento. Disse que foi várias vezes agredida, espancada nessa época, ou quando éramos todos já nascidos e pequenos. Relata inclusive que uma vez ele a espancou com um cabo de vassoura, deixando-a com o olho roxo, que ela justificava, para os vizinhos e conhecidos, como um tombo que havia levado.
Sei que meu pai deixou de beber de 1976 a 1984, e que essa época foi marcada por uma certa calmaria. Portanto, dos meus 3 aos meus 12 anos de idade tudo correu mais ou menos bem. Os episódios piores, de maior violência, se deram, segundo ela, antes de 1976, e eu simplesmente não me lembro de tê-lo visto agredindo-a. Porém, meu pai quebrando a casa toda é lembrança recorrente de minha infância e adolescência.
Segundo minha mãe, seu primeiro ano de casamento, sem filhos, foi muito difícil. Ele se comportava de modo excessivamente agressivo, ciumento, e voltava sempre muito tarde para casa. Ela dizia que nesse primeiro ano ele teve uma vida de solteiro.
Conversando sobre isso tudo com minha avó, sua sogra, essa teve uma ideia que parecia brilhante:
- Dá um filho pra ele, que ele sossega...
E assim veio ao mundo meu irmão mais velho, Edu, o qual cometeu suicídio 28 anos depois. Veio com uma missão impossível e absolutamente injusta para com uma criança: salvar um casamento falido.
O resultado é que meu pai continuou do mesmo jeito e, óbvio: a vida piorou, muito. Minha mãe relata que um dos filhos veio da maternidade, no colo dela, na garupa da Lambreta (uma espécie de motoneta da época), e não duvido que tenha sido o Edu. Relata também que, após o nascimento de um de nós, ela teria chegado em casa e limpado a casa toda, deixando-a um brinco, inclusive indo para o chão, de quatro, para encerá-lo.
Minha mãe relatou-nos, algumas vezes, que fez alguns abortos – não sei se 2 ou 3. Diz que, se não fossem esses abortos, nossa vida teria sido muito pior. E eu simplesmente também não duvido disso. Crescemos ouvindo que a vida é dura, muito dura, que o mais importante é a qualidade de vida, que colocar alguém no mundo é uma responsabilidade enorme, que criar filho é muito difícil, que “homem é tudo igual”, que as tarefas domésticas devem ser igualmente divididas por todos, que “mulher burra arruma logo uma barriga” e também:
“Coloque-se no lugar do outro”; “Deus é uma força maior e bela, mas religião é furada, (...) só querem levar seu dinheiro...”; “vocês estudem porque senão vão puxar carroça”; “não me arranjem filho cedo, porque filho é atraso de vida”; “no dia em que eu ficar velha me levem pra um asilo ou me deixem morrer, porque não quero dar trabalho pra ninguém”; e agora, mais recentemente: “seu irmão é que está bem, porque nem conheceu a velhice” – ao falar de Edu; “a velhice é uma merda”.
Ah, minha mãe também sempre detestou flores com hipocrisia.
- Não venha me dar florzinha não. Ou é compreensivo e companheiro ou nada feito!
No dia de hoje, no dia das mulheres, só quero lhe dizer uma coisa, minha mãe:
Você é a primeira pessoa que tentou me mostrar o que é ser mulher. O aprendizado é constante, e ainda tenho muito o que aprender e ouvir. Quero ainda poder escutar em mais detalhes todas as suas histórias e tudo o que ainda não sei. Se hoje consigo entender um pouco melhor a histórica divisão sexual do trabalho e a subjugação da mulher, algumas peculiaridades do universo feminino e seus dramas, em boa medida é porque você ajudou a produzir uma boa base pra isso...
Obrigado, minha mãe!

Wednesday, February 22, 2017

Seu olhar, morto, orbitava a imensidão de uma existência miserável a desbravar os rincões de um sofrimento isolado do resto da humanidade, da qual nunca se sentira parte...

Wednesday, February 01, 2017

Conflitos pessoais e tristeza

Se nas batalhas do dia-dia, em seus conflitos pessoais cotidianos, você praticamente não sente tristeza, ou está cortando cabeças e arrebentando com as pessoas, ou você é um sábio das relações humanas que não pode se furtar de transmitir seus preciosos conhecimentos para todos aqueles que apanham duro, todos os dias, nessa jornada que é lidar com pessoas e viver em sociedade.

No dia-dia a gente toma porrada, muita porrada. O que não falta é gente grossa, ríspida. E tomar porrada dói. A consequência menos ruim do revide é um bate-boca rivalizado, com duas pessoas da mesma categoria, com forças equivalentes. As duas tentam se ferir e o equilíbrio da situação anestesia os golpes. O problema é quando ocorre assimetria. Aí arrancamos cabeças e machucamos pessoas. Pais fazem muito isso com os filhos, homens com mulheres, caras fortões com magricelas e mulheres... Nesse caso, para não machucar, temos que engolir alguma coisa, e isso gera tristeza. Faz parte.

Os mais frágeis também precisam engolir, senão se machucam muito. Existe a assertividade, mas nem sempre há tempo e contexto pra ela. Às vezes só nos resta mesmo o silêncio e lidar com a dor.

Acho que a tristeza é inevitável e muitas vezes saudável: para pensar melhor, refletir, ponderar, analisar, tentar entender, esperar. Tudo isso faz parte do amadurecimento. Mas a sabedoria também é possível. Ela não elimina a dor, a tristeza, mas consegue aliar lucidez com alegria.

Assertividade e tristeza

"Se a mais vil das criaturas me esbofeteasse, eu não lhe retribuiria a ofensa, mas lhe pediria perdão por havê-la provocado" (Emily Bronte).

Em uma única frase, nessa frase acima, Emily Bronte me ensinou muitas coisas. Se não me ensinou literalmente, me sensibilizou para que eu me abrisse para novos aprendizados, os quais tem sido muito valiosos pra mim, há alguns anos.

Essa frase chama a atenção para uma questão fundamental em termos de interações humanas: quais são as melhores formas para resolvermos nossos conflitos interpessoais e qual é o papel da assertividade nesse campo?

Etimologicamente o termo assertividade remete a asserção. Quem profere asserções profere afirmações. O termo assertivo é muito utilizado no sentido da capacidade de se expressar com clareza, firmeza, convicção. A assertividade é uma forma de comunicar-se de modo eficaz. Contudo para a Psicologia esse termo tem um significado especial. Diz respeito à capacidade de se comunicar de modo transparente e integral, conseguindo fazer com que seu interlocutor seja capaz de ouvir, sem muitas barreiras ou defesas. É um modo de comunicação eficaz porque permite a fala e a escuta em uma interação eminentemente empática.

Para, de modo mais ágil, poder facilitar a sua compreensão desse conceito, eu diria que a assertividade está relacionada à capacidade de ser sincero sem ser ríspido, e de ser polido sem ser fingido. Comunicações assertivas são comunicações transparentes, sinceras, claras, porém extremamente empenhadas em serem isentas de acusações e hostilizações.
É um tipo de comunicação que não visa agredir ou denegrir. Seu objetivo é a compreensão mútua e até mesmo alguns níveis de conciliação. É uma forma de comunicação não violenta, pacifista, sem ser passiva, já que é transparente, sincera. Coloca as cartas na mesa, mas com polidez, com muito jeito e muitas vezes, porque não assim dizer: com amor.

E surge então uma questão importante: como ser sincero sem ser ríspido e ser polido sem ser fingido? Como ser assertivo? Obviamente que algumas instruções gerais costumam não ser suficientes. É sabido que treino é fundamental. Na vivência das mais variadas situações de conflito, e (com orientações adequadas) na tentativa de ser mais assertivo, é que vamos aos poucos nos tornando mais assertivos. Isso contudo não elimina a existência e a utilidade de algumas orientações gerais, as quais muitas vezes são enunciadas ou sugeridas, em boa medida, em algumas frases brilhantes, como essa de Emily Bronte.

Na tentativa de ser sincero sem ser ríspido, e ser polido sem ser fingido, um dos procedimentos mais utilizados é a expressão em primeira pessoa, e sempre tentando se concentrar nos sentimentos vivenciados na interação. É importante não acusar, julgar, condenar ou agredir o interlocutor. Esses comportamentos provocam repulsão na pessoa com quem estamos interagindo: afastam. Fazem com que ela tente fugir da situação ou entre em conflito mais aberto conosco. Fazem com que as pessoas se armem. Não aproximam, permitindo escuta, compreensão mútua. Vamos a alguns exemplos:

Caso 1

Acusatório e hostilizador (pouco assertivo): "Você é um sem vergonha de um mentiroso. Você não vale nada..."

Assertivo: "Você disse que estava no escritório, e depois fiquei sabendo que não estava. Fiquei muitíssimo triste e irritada com esse seu comportamento, por não ter me falado a verdade".

Caso 2

Acusatório (pouco assertivo): "A maneira como você me compara com seu pai é cruel e ridícula".

Assertivo: "Quando você me compara com seu pai, eu me sinto muito desvalorizado, preterido."

Caso 3

Tenta desqualificar, humilhando (pouco assertivo): "Pra você nunca nada está bom. Ninguém te tolera, ninguém aguenta conviver com você..."

Assertivo: "Você ontem disse que eu não me dedico às crianças. Fiquei muitíssimo chateado com isso, pois nos últimos 10 dias de férias me dediquei quase que integralmente a elas".

Algumas pessoas irão se precipitar, e afirmar que no caso 1 a pessoa (em tese, assertiva) estaria passando a mão na cabeça de um safado. Contudo, uma postura menos assertiva e mais agressiva somente faria talvez sentido se houvesse plena convicção da necessidade de um rompimento, por exemplo.

Outras pessoas também costumam estranhar bastante a frase de Emily Bronte, e afirmam que dessa maneira você pode simplesmente somente gratificar o comportamento agressivo da outra pessoa, já que estaria se rebaixando frente a um ato claro de violência, o qual deveria na verdade ser combatido também com o uso da força.

Contudo, ao demonstrar para o agressor que de alguma forma compreendemos sua impulsividade ou sua irritação, temos muitas vezes a oportunidade de quebrar um ciclo de agressões mútuas com diversos danos em potencial. Temos, por meio da empatia, a oportunidade de fazer com que o agressor observe seus próprios comportamentos. Esse procedimento costuma ser classificado como sendo a reflexão de sentimentos. Funciona como se estivéssemos colocando um espelho na frente do agressor, com o qual ele tem a oportunidade de se observar melhor, de observar melhor seus próprios comportamentos e talvez seus possíveis danos.

Fora o fato de que o ato de se desculpar, nesses contextos, não diz respeito a assumir por completo que estamos errados em um determinado conflito. Não está sendo dito ao agressor que ele agiu corretamente quando nos deu um tapa na cara. Isso obviamente não foi correto, e certamente haverá um momento mais propício para que isso seja dito, ou para que o próprio agressor, com a manifestação na nossa empatia, venha a perceber que agiu de modo errado.

É lugar-comum, mas não custa reiterar: violência gera violência. Gentileza gera entendimento, compreensão, consciência; portanto: mais gentileza.

E cada vez venho me convencendo mais de uma coisa: sempre, diante de interações mais turbulentas, vale mais a pena reagir com tristeza e ponderação do que com agressividade ou violência.

A tristeza nos faz sofrer, e cobra um preço alto, mas no final das contas o saldo, com ela, é mais benéfico do que com a violência. A tristeza costuma doer bastante, e pode nos torturar por um bom tempo na terra devastada de nossos afetos, após alguma ingratidão ou hostilização. Mas a tristeza tem uma capacidade de organização das ideias e do mundo de interações turbulentas entre as pessoas da qual a agressividade nem chega aos pés.

A tristeza tenta compreender o que ocorreu, e vai aos poucos digerindo as feridas. A precipitação em ser agressivo nos faz correr riscos desnecessários, podendo causar danos irreversíveis: repele, destrói e compreende pouco, deixando muitas vezes um rastro sanguinolento de culpa e medo, um deserto completo onde antes havia amor.

A tristeza semeia a cura, e a violência somente sabe semear a morte. Sei que é preciso morrer, mas não todo dia. E, sinceramente, não é um mundo em que as pessoas constantemente se destroem umas às outras o qual quero habitar ou construir.

Acho fundamental deixar que a tristeza faça seu trabalho de botar as coisas no seu devido lugar, para depois podermos mostrar ao outro as razões dela. A violência fecha muitas oportunidades e janelas para o amor e para a vida. A tristeza é um movimento de se fechar em si mesmo que deixa muitas boas janelas abertas.

Sunday, January 29, 2017

Após o deserto frio da solidão, nasceu o verão, do amor, para abraçá-lo com sol e tempestades do gesto carinhoso de um mundo a brilhar por detrás das montanhas do desprezo em que construía secretamente seu sorriso de luz.

Em poucos segundos consigo parir o mundo inteiro, na ilusão de uma frase imensa, para tragar a sua atenção para a boca do vulcão de minhas sandices.
Descobri onde nasce a loucura do homem que chora no meio da rua, regando a pedra da dor, para colher a beleza de um sorriso inesperado, a florescer no deserto de sua solidão.

Sunday, January 22, 2017

Seremos todos esquecidos

Às vezes o que mais me consola é saber que um dia todos seremos esquecidos.
Importante não esquecer disso...

Amar a si mesmo

"Se eu não gostar de mim mesmo, quem irá gostar?”

O problema é que é o contrário. Só é possível amar a si mesmo se já foi amado.

Inflamação crônica

Inflamação crônica: eis o nome da coisa que faz muita gente, mas muita gente mesmo, nas sociedades industrializadas, sofrer bastante. Bote aí na conta tudo o que é processo alérgico ou doença autoimune, só para se ter um pouco a dimensão disso.

O estado da arte, por ora, aponta para alguns fatores determinantes: dietas pró-inflamação (ricas em carboidratos simples, açúcar e comidas processadas), sedentarismo, baixos índices de vitamina D, e pouca biodiversidade, inclusive dentro de nós, principalmente em nossos intestinos.

http://inquilinosdoalem.blogspot.com.br/2016/12/doencas-inflamatorias-cronicas-e-miopia.html

Hipnoterapia

Você quer fazer um tratamento psicológico com hipnose ou o que muitos chamam de “hipnoterapia”? Antes, porém, fique atento a esses 3 pontos:

1.Não existe hipnoterapia, porque a hipnose não é uma abordagem. É somente uma técnica auxiliar.

2. Procure por um psicólogo, devidamente registrado e fiscalizado por seu conselho de classe (com inscrição no CRP de sua região), senão você vai muito provavelmente entrar numa furada. 

3. Esse psicólogo deve saber, e muito bem, muito claramente, que a hipnose é somente uma técnica como qualquer outra, uma técnica auxiliar a um processo psicoterápico ou de orientação psicológica. Ou seja, a hipnose é somente uma técnica como qualquer outra. Não é mais nem menos eficaz que qualquer outra técnica usada por psicólogos. Não faz mágica, não cura em pouquíssimas sessões, e muito menos em uma única sessão.

Histeria do dia-dia...

Existem algumas pessoas, mais delicadas, as quais são adultas, que gostam de ser tratadas como crianças. São as primeiras a aumentar o tom de voz em uma discussão e, se aumentamos nosso tom, se deixamos o tom no mesmo nível do tom delas, somos acusados de grosseiros, ríspidos. E, pior, se for em ambiente de trabalho, muitas dessas pessoas mais delicadas ainda se unem, em ardis os mais diversos, contra a pessoa que foi classificada como grosseira, a qual nem se dá conta de que criou inimizades em um momento que parecia ser somente um debate de ideias em um tom um pouco mais exaltado.

APOIO PSICOLÓGICO: COMO OBTER?

Se você está precisando de apoio psicológico ou conhece alguém que está precisando desse tipo de serviço, por favor leia e compartilhe a mensagem abaixo.

Em função do fato de ser psicólogo, com certa frequência recebo mensagens de pessoas quase que literalmente pedindo socorro. Algumas dessas mensagens contém um texto enorme tentando relatar o que está acontecendo, e outras são muito vagas, geralmente resumidas a poucas frases ou menos de um parágrafo.

Infelizmente não tenho condições de ler todas essas mensagens e muito menos condições para tentar de alguma forma ajudar, profissional e pessoalmente, todas essas pessoas. 

Se você está passando por alguma dificuldade, e procura pela ajuda de algum profissional da área de Psicologia, é importante saber que existem alguns serviços gratuitos que podem ajudar bastante. Você pode:

1) Pegar seu telefone e ligar no número 141, no CVV (Centro de Valorização da Vida). Terá somente o custo de uma ligação local para telefone fixo. Você pode ligar a qualquer hora do dia ou da noite, pois o atendimento é 24 horas.

2) Procurar em sua localidade por faculdades que tenham cursos de graduação em Psicologia, ou mesmo cursos de especialização em psicoterapia. Em suas clínicas-escola costumam oferecer serviços de psicoterapia gratuitos ou até mesmo serviços de pronto-atendimento psicológico. Tudo gratuitamente ou a preços simbólicos.

3) Ir até o centro de saúde mais próximo de sua casa, e marcar uma consulta com um clínico-geral o qual, via-de-regra, terá condições de lhe encaminhar para o serviço de saúde mental do SUS mais próximo de sua localidade. 

4) Procurar pelo CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) mais próximo de sua casa. Lá você será devidamente acolhido(a), para poderem saber o que, na rede de saúde mental, irá melhor ajudá-lo(a).

Relativismo moral

Em seu livro "Life you can save" há um trecho em que Peter Singer deixa claro que para ele o relativismo moral é uma concepção equivocada. Menciona que muitas pessoas costumam relativizar o que é uma ação boa ou ruim até o momento em que testemunham alguém colocando as patas de um gato numa chapa fervendo. 

Peter Singer é um defensor de que existe sim a possibilidade de formularmos algumas propostas éticas que são mais objetivas do que outras. Quando falamos em objetividade talvez não seja bom colocar as coisas em termos de tudo ou nada, porque a busca pela objetividade é uma luta constante. 

A possibilidade de progresso moral existe, e é exatamente por isso que existem a Ética e a Bioética. Para os utilitaristas, como Peter Singer, o mal existe, e seu componente mais claramente objetivo é o sofrimento.

Algumas pessoas afirmam que o sofrimento é de ordem subjetiva e portanto não mensurável: não existe uma escala para se medir quem está sofrendo mais, ou menos, ou coisa similar. Isso porém não é de todo verdade. Há, por exemplo, dores mais ou menos intensas, e isso pode ser aferido por medidas objetivas: pressão arterial, frequências cardíaca e respiratória são algumas delas. 

Faz um pouco mais de sentido falarmos em relativismo moral quando nos referimos a questões antropológicas, pois concepções de bem e mal variam de um contexto sócio-histórico-cultural para outro. Contudo não há como negar que alguns contextos geram mais sofrimento do que outros. 

Ao concentrar seus argumentos nos conceitos de senciência, consciência reflexiva, interesse vital e autonomia, filósofos como Peter Singer estão justamente chamando a atenção para o que há de mais objetivo, se quisermos traçar reflexões de cunho moral. 

O primeiro imperativo moral então é a diminuição do sofrimento no mundo, e isso se estende para todos os seres vivos que sofrem (os seres sencientes). A partir desse ponto fundamental é importante respeitar o interesse vital de cada ser senciente, segundo suas capacidades perceptivas, intelectivas e sociais, o qual irá implicar no manejo de conceitos tais como o conceito de autonomia e o conceito de consciência reflexiva.

Eu poderia continuar, e aprofundar, mas já fiz isso em outros dois textos. Se tiver interesse, estão nos links abaixo:

O direito de viver, matar e morrer no pensamento de Peter Singer:

Ética e sofrimento:

O problema do mal

O Problema do Mal é um paradoxo que foi enunciado primeiramente por Epicuro e que, em termos lógicos, não foi resolvido até hoje. Certamente não é com analogias tortas, impróprias, que ele se resolve.

É logicamente impossível a existência de um ser onipotente e moralmente perfeito. É onipotente e moralmente imperfeito ou é impotente e moralmente perfeito. É todo-poderoso e mau ou é fraco e bom.

Se Deus é onisciente, nesse exato momento ele sabe que existem crianças morrendo de fome, sendo torturadas, abusadas, estupradas. Se ele fosse onipotente e absolutamente bom logo impediria a existência desse tipo de coisa.

E também não faz muito sentido falar em livre arbítrio, porque a criança que está morrendo de fome, ou aquela que foi estuprada e terá sequelas para o resto de sua vida, essas duas crianças não têm nem tiveram livre arbítrio algum. Se alguém cometeu um erro, não faz o menor sentido punir seus filhos, ou todos os seus descendentes que vierem ao mundo. Isso seria de uma atrocidade e injustiça abomináveis.

Por favor, não me façam lembrar de uma frase até um pouco desagradável de ser dita:

"Se eu pudesse impedir alguém de estuprar uma criança, eu impediria. Esta é a principal diferença entre eu e seu deus"

Não me façam pensar que vocês reverenciam um Psicopata.

Peito cura...

Luisa agora cedo brigou com a priminha, e ficou toda chorosa.

Chegou em Lilian falando assim, bem baixinho:

- Mamãe, deixa eu mamar um pouquinho, pra eu parar de chorar...

Ela somente mama no peito para dormir, mas teve peitinho sim! Afinal, estamos de férias...

Casar com o papai...

Luisa, ontem:

- Mamãe, o que é esse anel no seu dedo?

- É a aliança de casamento com o papai, filha. Depois que a mamãe se casou com o papai, botou essa aliança no dedo.

- Também quero casar com o papai!

Abuso sexual e diferenças de gênero

Nunca ouvi falar de alguma pessoa do sexo masculino que, ao ter sido abusada sexualmente, por meio de sedução, em sua infância, tenha tido alguma sequela depois. 

Já ouvi muitas histórias de homens que, quando crianças bem pequenas, foram seduzidos por mulheres, e nunca ouvi dessas pessoas o relato de que ficaram traumatizadas.

Sempre que ouço esse tipo de história fico pensando sobre o que ocorreria se houvesse simplesmente uma inversão dos sexos. E a consequência mais comum, todos nós sabemos, é que as mulheres ficam marcadas para sempre, traumatizadas, com sérios problemas afetivos.

Para mim uma coisa é clara: o sofrimento posterior tem uma relação muito grande com a divisão dos papéis sexuais, entre homens e mulheres, em nossa sociedade. 

Mas quero também saber um pouco sobre o que vocês pensam acerca do tema...

PS (1): Percebam que em minha postagem não estou falando dos casos de coerção. Estou somente me referindo aos casos de abuso sexual infantil por meio de sedução.


PS (2): Os homens que me relataram suas experiências prazerosas com mulheres, quando crianças (com menos de 8 anos de idade), não me relataram que se sentiram enganados de nada. Relataram-me que foi bom, e fizeram questão de absolver essas mulheres que, segundo eles, agiram inclusive com muito carinho.

Não sugira...

Após ter feito isso algumas vezes, percebi que comentar sobre os comportamentos indesejáveis de minha filha, com minha esposa, na frente dela, tem um efeito ruim. 

Então para você, que tem filhos pequenos, e ainda não percebeu isso, fica a dica: debater ou comentar sobre os comportamentos indesejáveis de seu filho, na presença dele, pode ter um efeito intensificador sobre esses mesmos comportamentos.

A espiritualidade e a paz

Desculpe-me, mas se você acredita em espiritualidade, em espírito, e que este se opõe à matéria, a esse mundo, não faz o menor sentido pedir nada, pra Deus, que não seja paz - se é que é possível se pedir alguma coisa pra Deus.

Se a espiritualidade ou o espírito transcendente existem, e em oposição à matéria, seu único porto, pilar, base ou fundamento, talvez seja mesmo a paz. Desse modo não faz sentido nem mesmo pedir pela cura de uma doença fatal, e muito menos por mais dinheiro ou bens de qualquer espécie. O exercício da espiritualidade deve almejar a superação dos determinantes materiais e corporais: a paz, nesse caso, não seria simplesmente o último refúgio do espírito, mas sim a sua única morada.

Dízimo

Já recebi pessoas, para atendimento psicológico, com a vida financeira devastada depois de terem caído na promessa de que melhorariam de vida se entrassem para uma determinada religião. Entraram com a vida financeira ruim e saíram piores do que entraram: com menos dinheiro (e às vezes mais dívidas) e com medo de irem para o inferno, pois as ameaças, caso não contribuíssem cada vez mais, eram constantes. 

E isso é frequente: entram com a promessa de prosperidade, cujo pedágio será o dízimo, o qual nunca é suficiente. Permanecem nesse círculo social, o qual se retroalimenta de alguns apoios mútuos e ameaças constantes do inferno para queimar com os que não se sacrificam para ajudar na obra de um deus todo-poderoso, criador e governante de bilhões de galáxias, o qual precisa de 10% de seu salário ou um pouco mais, cada vez mais...

Bem-vindo aos quarenta

Bem-vindo aos "entas" (40, 50, 60, 70, 80...) 
de quem tenta, enfrenta,
cai, levanta, aguenta.
Perde, perde de novo,
consegue sorrir e senta.

Espera...
quanta espera do que já era.

Deixa acontecer, deixa viver e deixar morrer, seja agora aos quarenta ou pra lá dos oitenta,
porque a vida passa, a vida vai embora,
a vida venta...

Ritmo de festa

Lilian e Luisa costumam sair do banho cantando, e muitas vezes cantam um sucesso de Sílvio Santos:

- Ritmo... É ritmo de festa...

- Mamãe, quem Ritmo?

- Meu amor, ritmo não é uma pessoa, não é gente...

E começou a fornecer vários exemplos de ritmo: ritmo de samba, ritmo de funk...

- Então vamu fazê o assissessaio [aniversário] dele, mamãe!

Wednesday, January 11, 2017

Taxas de suicídio x taxas de homicídio

Segundo dados do Banco Mundial  de fato a taxa de suicídios (2012), em nível mundial, por volta de 11,3 / 100 mil habitantes, é alarmante, se comparada com a taxa de homicídios intencionais: por volta de 6,2 / 100 mil habitantes. Em 2014 a taxa de homicídios caiu para 5,3/100mil, mas ainda não há dados mais recentes sobre a taxa de suicídios.

A taxa de suicídios, portanto, é mais ou menos o dobro da taxa de assassinatos, e nos países ricos essa proporção é muito maior. Na União Européia, por exemplo, a taxa de assassinatos é de 1/100mil e a de suicídios é de 12,2/100mil.

Contudo, em países notoriamente violentos como o Brasil, o cenário se inverte.

Segundo dados do Banco Mundial, em 2012, no Brasil, a taxa de assassinatos foi de 24/100mil, e em 2014 foi de 25/100mil (e não há dados mais recentes registrados nas estatísticas do Banco Mundial). A taxa de suicídios, em 2012, foi de 6/100mil.

Fora o fato de que um assassinato gera muito mais prejuízos sociais do que um suicídio. Um homicídio intencional gera um morto e um preso. Há a perda de duas pessoas, que geralmente estão em idade produtiva: uma morre e a outra vai presa; fora o fato de que a pessoa presa irá onerar os cofres públicos. Ou seja, um assassinato é muitíssimo mais custoso que um suicídio.

Como nos países ricos eles já, em boa medida, resolveram seus problemas de violência urbana, resta-lhes a preocupação com suas altas taxas de suicídio.

Ou seja, lá as pessoas estão tirando a própria vida cerca de duas vezes mais do que aqui. E aqui as taxas de suicídio são menores, mas a violência (com seus custos muito mais altos) é altíssima. Uma proporção enorme de nosso orçamento é dispendida com segurança e isso diz muito sobre o nosso atraso.

Mudança climática (aquecimento global)

Sinto que o contexto é alarmante e que infelizmente vai piorar:

"A cada dia que passa, vai ficando mais evidente que as mudanças climáticas não são algo remoto, para futuras gerações que ainda não conhecemos, tampouco algo abstrato. Afeta e afetará ainda mais cada um(a) dos(as) já viventes. E naquilo que mais nos é essencial.

Trata-se de onde morar, do avanço do nível do mar que desaloja comunidades e até nações inteiras a extremos de temperaturas que podem tornar enormes porções do planeta inabitáveis para nós; de onde tirar o alimento, com a tendência a riscos cada vez maiores de quebras de safra por alterações nos padrões de chuva, temperatura, umidade, etc.; de onde obter a água que se bebe, tarefa continuamente mais dura a persistirem o agravamento das secas, a contaminação dos corpos d'água e a demanda imposta pelo agronegócio e a grande indústria; da própria saúde, pois tanto extremos de secas quanto enchentes comprometem a infraestrutura de água potável e ampliam a área de atuação de vetores transmissores de doenças.":


"Chocado com o quanto me identifiquei com o relato, queria chamar muito a atenção de vocês para esta sequência de publicações no twitter de um colega, Eric Holthaus, porque é muito comum eu me sentir dessa exata maneira. E meu dia-a-dia é mergulhar nos dados, nas informações. Teve muito artigo da Nature e da Science que me levou às lágrimas.
A seguir uma tradução livre do depoimento dele:"

"Estou começando meu 11º ano trabalhando em mudança climática, incluindo os últimos 4 no jornalismo diário. Hoje eu procurei aconselhamento a respeito. Estou dizendo isso porque sei que muitas pessoas sentem um desespero profundo sobre o clima, especialmente após as eleições. Eu luto todo dia. Vocês não estão sozinhos. Há dias em que literalmente não consigo trabalhar. Eu leio uma história e desligo pelo resto do dia. Nada parece ajudar muito, além de exercícios e tempo. O profissional disse: "Faça o que você pode", o que me parece um conselho simples e poderoso. Vou começar a trabalhar bastante com a mente. O desespero é natural quando há evidência objetiva de um problema existencial comum com o qual não estamos a lidar adequadamente. Você se sente só. Você se sente impotente. Você sente como se nada importasse. Suas relações sofrem. Você se sente culpado por "não fazer mais". Mas que diabos eu posso fazer? Escrever mais um artigo para o blog? Nosso secretário de estado é o maldito executivo-chefe da Exxon. Ano passado, perdemos um enorme pedaço da Grande Barreira de Corais. Estamos literalmente pondo um fim à existência de animais que estão aqui por milhões de anos.":


"Agora apenas 20 km de gelo impedem o imenso bloco de 5 mil km² (o equivalente a 500 mil campos de futebol ou à área do Distrito Federal) de se soltar.":


Relatório (de julho de 2015) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos:

“O Departamento de Defesa vê a mudança climática como uma ameaça de segurança atual, e não como risco a longo prazo. Já estamos observando os impactos das mudanças climáticas nos choques e fatores estressores para nações e comunidades vulneráveis, inclusive nos Estados Unidos e no Ártico, Médio Oriente, África, Ásia e América do Sul. Estudos de caso demonstraram impactos mensuráveis em zonas vulneráveis às alterações climáticas e, em casos específicos, há associação significativa entre as dinâmica dos conflitos e a sensibilidade às mudanças climáticas.
Embora o estresse relacionado ao clima irá afetar desproporcionalmente as nações frágeis e afetadas por conflitos, mesmo os países resilientes, e bem desenvolvidos, estão sujeitos aos efeitos das alterações climáticas de forma significativa e consequente.”

Retrogosto (enologia)

Ouvi dizer que em enologia existe uma coisa chamada retrogosto. Aí fico pensando que retrogosto (principalmente o retrogosto de sardinhas do campo), é mais ou menos como aquele gosto do Kisuco que você cospe, com corante, na pia, quando vai escovar os dentes...

O Problema do Mal

O Problema do Mal é um paradoxo que foi enunciado primeiramente por Epicuro e que, em termos lógicos, não foi resolvido até hoje. Certamente não é com analogias tortas, impróprias, que ele se resolve.

É logicamente impossível a existência de um ser onipotente e moralmente perfeito. É onipotente e moralmente imperfeito ou é impotente e moralmente perfeito. É todo-poderoso e mau ou é fraco e bom.

Se Deus é onisciente, nesse exato momento ele sabe que existem crianças morrendo de fome, sendo torturadas, abusadas, estupradas. Se ele fosse onipotente e absolutamente bom logo impediria a existência desse tipo de coisa.

E também não faz muito sentido falar em livre arbítrio, porque a criança que está morrendo de fome, ou aquela que foi estuprada e terá sequelas para o resto de sua vida, essas duas crianças não têm nem tiveram livre arbítrio algum. Se alguém cometeu um erro, não faz o menor sentido punir seus filhos, ou todos os seus descendentes que vierem ao mundo. Isso seria de uma atrocidade e injustiça abomináveis.

Por favor, não me façam lembrar de uma frase até um pouco desagradável de ser dita:

"Se eu pudesse impedir alguém de estuprar uma criança, eu impediria. Esta é a principal diferença entre eu e seu deus"

Não me façam pensar que vocês reverenciam um Psicopata.

Primeiro motor e deus pessoal

A coisa funciona assim: primeiro a gente menciona que a ideia de primeiro motor é razoável em função do princípio da razão suficiente, o qual é um princípio racional. 

A partir disso algumas pessoas começam a afirmar que esse primeiro motor é Deus. Para elas esse primeiro motor não é algo, é uma consciência, uma inteligência, é alguém. Ou seja, essas pessoas antropomorfizam o conceito de primeiro motor. 

Aí, quando você se utiliza dessa premissa, da antropomorfização de um suposto primeiro motor, para fazer algumas considerações, para mostrar o quanto isso é insustentável, os antropomorfizadores iniciais vão dizer que você está antropomorfizando Deus.

Tuesday, January 10, 2017

The right to live, to kill and die in Peter Singer's thought

Peter Singer, a fundamental reference in bioethics, is an author who draws important issues on the rights to live, to kill and die. The first point that must be taken into account is that he is a utilitarian. In the utilitarian conception it is an ethical imperative to act to reduce suffering in the world as a whole. In this sense, ethics is not restricted to interactions between human beings. It also extends to the interactions of humans with all other sentient living beings.

Ethics is a philosophy of action, which makes systematic reflections on the concepts of good and evil, trying to produce consistent knowledge about our actions in relation to their possible benefits and harm to all living beings who suffer (the sentient beings).

The purpose of utilitarian ethics is the reduction of suffering in the world. If there is something that can be called evil it is certainly suffering itself. For this approach, there is avoidable and unavoidable suffering. The first one must be must be extinguished or at least diminished. For the second one we must make efforts to create techniques or technology to turn unavoidable into avoidable suffering. And, in ethical terms, for a suffering to be avoidable it must not implicate in more harm, in the future, produced by itself. It must produce more welfare without weaken one’s abilities.  

The utilitarianism adopted by Peter Singer, in turn, is closely linked to the interests (preferences) of living beings in question. So that it is classified as a preference utilitarianism. The understanding is that, having their vital interests thwarted, some living beings suffer greatly. That is, only the sentient beings have interests. In theory, plants or a fetus less than 12 weeks old, for example, do not have any interest, since so far we do not have any evidence of suffering.

So let it be clear, for this ethical conception there is no sacralization of life, not even of human life. By the way, in modern terms, it does not make sense to sacralize anything. In this sense, the greatest respect is for the interest of each one in relation to himself: to his own body and to his own life. It is ethical, in this case, fundamentally, respect for others and for their well-being, as long as this welfare does not directly cause harm to third parties.

In these terms, therefore, the right to live must be granted to those beings who suffer and are interested in continuing to live, who are aware that they are living beings and that there is death, being able to figure, to conceive of a future time and to plan their own life in relation to the data of their reality.

For human beings, for example, it is important to know that they have the right to live, that other people can not simply attack their life (or the lives of those they care and love) without this having serious consequences. Knowing that the state or other people could give way to our lives (or the lives of the people we love), arbitrarily, can cause much anguish and suffering in all the people, with serious risks of social disruption, which implies in barbarism, the war of all against all.

There is no guarantee of a minimum social organization without the right to live being safeguarded. In this case we would not have a society but groups, clans, isolated and in constant tension.

Therefore, the right to live is to protect the lives of individuals and society as a whole. Even the most nihilistic and detached people, in relation to their own lives, have in some way a moral obligation to strive, as far as possible, to stay alive and well, since the life of a human being is usually very precious to other human beings. When a person dies, others usually stay alive and suffer greatly because of the one that is gone. Some people, when they die, can leave irreparable damage to those who remain.

However, if a person survives in poor conditions, in extreme and irreparable suffering (which is experienced by that person as unbearable), there must be social conditions to guarantee the right to die. If we are not, as a society, able to relieve extreme suffering of someone who does not support to live, we should help this person to die with dignity.

In this approach a consequentialist conception prevails. If the consequence of what we do produces more benefits than harm, this action is generally judged as correct, as the one that should be adopted. So the right to die, the right to euthanasia, the right to a painless death, for those who have a terminal illness or suffering from extreme and irremediable suffering, is the right to end suffering that can and should be avoided. This is an ethics of compassion, empathy, and respect for people's autonomy.

And, finally, the right to kill. There is no way support the simple-minded claim that killing is always wrong, because our survival as a species implies killing beings from other species, all the time. Even those who adopt a vegetarian diet also kill other living things in order to feed on them, or to protect themselves and not get some diseases and perish. In the end, the most important thing is to know how sentient beings, which are under our responsibility, are living and being created by us. And if we feed on them, it is ethically important to have a most painless slaughter possible because we are able to guarantee them a dignified death. Just as we are able to decrease, in our population, the intake of animal protein, which can be largely replaced by protein of vegetable sources.

Finally I must say the ethics proposed by Peter Singer never claimed that one should kill this or that living being regardless their preferences. A moral imperative, a duty, in this conception, is related to the decrease of suffering in the world, which in no way can be settled with prescriptions of mass extinction of humans, as it is claimed by some opponents of his thought. Therefore, as the reasons that have been here exposed, autonomous human beings and aware of themselves (or even those who were once so), owners of their own life and their own bodies, these human beings have the right to life.



Friday, January 06, 2017

Como lidar com ameaças de suicídio

No último dia 25 de dezembro uma moça, aqui pelo Facebook, anunciou que havia ingerido dezenas de comprimidos e que esse era seu presente de Natal para sua família.

Alguns de seus familiares mais próximos, parece que alguns de seus irmãos e sua mãe, responderam a essa mensagem dela, desqualificando-a. Escreveram que ela sempre fazia isso e que sempre era para chamar a atenção.

O tom, tanto dela quanto da família, era bastante agressivo. Era aquele tom de barraco ao vivo, de quem está brigando frente às câmeras em algum programa sensacionalista.

Esses familiares responderam à postagem dela, mencionando que já estavam no hospital, que era sempre assim, e que desta vez não seria diferente. Ou seja, segundo eles, ela novamente estava dando o "show" dela de sempre, e eles novamente a conduziram ao hospital. Diziam que era somente mais uma tentativa para chamar a atenção.

Porém dessa vez foi diferente. Oito dias depois ela veio a falecer.

Como já me abordaram para que eu me expressasse sobre o ocorrido, deixo-lhes aqui minhas breves considerações, as quais considero apenas como um ponto de partida para o debate.

Uma coisa bem básica ao se lidar com uma pessoa que está ameaçando suicidar é não cairmos em dois possíveis extremos: não devemos nos tornar reféns ou (no outro extremo) desafiar a pessoa em questão.

Quem se torna refém acaba gratificando uma série de comportamentos abusivos e assim, muito possivelmente, vai se construindo uma relação abusiva.

Quem desafia brinca com fogo, e não se dá conta de que o desafio, a desqualificação, pode ser exatamente o que está faltando para que a pessoa conclua um suicídio.

É preferível dar atenção, ser acolhedor ou carinhoso, antes que a pessoa comece a fazer suas ameaças. O problema é fazer com que isso ocorra de forma mais efetiva em uma família cujos laços afetivos (principalmente com o suicida) estejam deteriorados.

Muitas vezes as melhores alternativas de solução não estão na família, mas sim em interações fora do ambiente familiar. Já acompanhei diversos casos que somente tiveram um melhor encaminhamento fora do seio familiar. As pessoas em questão precisaram sair de casa, mudar de bairro ou até mesmo de cidade. A gradual renovação de vínculos sociais costuma ser uma alternativa relevante.

Obviamente que, por um mecanismo de generalização, as pessoas costumam adotar padrões de comportamento anteriores para seus novos relacionamentos, e muitos conflitos tendem a se repetir. Porém creio que é muito mais fácil haver mudanças em ambientes renovados do que em interações que já estão totalmente desgastadas.

É importante também lembrar que existem diversos contextos possíveis. Somente uma análise consistente, paciente e apurada desses contextos, das interações do suicida com as pessoas com as quais convive (e de inúmeras peculiaridades envolvidas), é que possibilitará um conhecimento mais apurado de como intervir.

E, para finalizar, vale ressaltar que transtorno mental não é passe livre para se fazer o que bem quer, para abusar das pessoas e não se responsabilizar pelos próprios atos. Aliás, a responsabilização pelos próprios atos costuma ser mais benéfica e reabilitadora do que o contrário.