Tuesday, January 11, 2005

DE DEUS EM QUANDO


As horas saltaram do relógio, todas em comboio ou esvoaçando, não me lembro.
Na caverna do quarto,
da minha alma,
do meu medo,
pude falar com com um raio de sol e uma cauda de nuvem, talvez fosse Deus...
Ele não falava nada, mas me deixava surdo
Ele não era nada e tão nada dizia tudo.
Ou melhor, ele era um pouco menos que nada
Estava lá, entre o nada e o lugar nenhum,
Abrangendo do silêncio à página em branco,
Tão sem, tão... tão, tão nem, tão não...
O proprio vão
O vão que carregamos sem o sabê-lo
E tão nada dizia tudo,
Tudo e mais um pouco
Deus estava lá, onde não se estava e estava dentro de mim.
Deus era esse nada,
essa morte que carregamos no lombo e que se curte por debaixo de nosso couro
Assim, entreguei-me a Deus
E do seu rosto eu via somente a lua e a lembrança do sorriso de minha mãe.
Corri para o fundo do quintal e olhei para a boca do escuro do olho de Deus
Eu estava dentro de Deus ou ele estava dentro de mim?
Eu era um sonho de Deus?
Deus não é ninguém, é esse ninguém que me persegue, que fala ao ouvido de todos os homens que todos morrerão,
Deus é sempre esse aviso.
Não, Deus é sempre um desvio para outro desvio,
Deus é desviado, o marginal em estado puro.
Ele vem agora me dizer que estou com sono, com fome, que devo dormir, que minha caligrafia é o rascunho do ruindade do mundo, vingada em meus garranchos arrependidos e heróicos
Mas eu desobedeço a Deus
Não entendo nem mesmo esse seu nome no plural.
São vários eus? Eus de mim? Como se o mundo fosse meu através de uma gramática egocêntrica voltada para as ressonâncias mais íntimas que até mesmo a pedra mais fria fosse capaz de despertar?
Quem é Deus?
Ele não é
Mas diz para que eu seja
Para que eu seja mais calmo agora
E eu teimo em desobedecê-lo.
Isso é ser humano, desobedecer a Deus
Na hora certa?
Sim, pois o destino sempre carrega um certa ironia. E a ironia do destino é trágica. O drama humano é a saga de teimar em desobedecer a Deus. O homem só faz aliança total com Deus quando morre.
Se Deus existisse, a vida seria uma fórmula numa lousa lá no céu. O que a vida não deixa de ser, um conceito divino. Mas se Deus não existisse, a vida seria uma ironia do destino. O que também não se pode negar.
É isso, essa vida é uma piada.
Tudo corria conforme as trilhas marcadas do tédio celeste até que de repente Deus resolveu inventar uma piada, eis o homem pintando na história. Mas, depois Deus percebe que havia semeado na verdade uma tragédia. As piadas são imortais, divinas. E a tragédia é exatamente aquilo que foge ao controle divino.
Será que Deus deseja tanta miséria e injustiça?
Não, Deus não deseja nada, pois nada lhe falta. Deus não fica furioso ou infeliz, não se rebaixa a isso. Assim, Deus não cobra, pode ficar tranqüilo.
Mas é que Deus nos deu de presente algo maravilhosamente sábio e assassino, o tempo. Mas o tempo também não está em lugar algum a não ser na cabeça de quem sabe que morre um dia.
O tempo é Deus ou o irmão dele?
O tempo é gente abraçando o vazio ou uma boa causa, no caso de quem sabe se aproveitar dele. E o tempo é causa de tudo.
Mas cansa querer falar disso como se fosse tarefa de casa, uma redação sobre Deus ou a geografia divina.
Nem mesmo andando por dois milhões de pais-nossos e aves-marias poderíamos encontrar a rua em que Deus mora ou número de seu telefone.
Falar de Deus é sempre engraçado. Ele nos enebria e nos faz sentir fora do corpo. Porque Deus está lá, no além, retumbando aqui dentro, no canto do vento, flutuando no mim e no amém.
É mesmo. Mesmo não sendo, assim o desejo e deliro e que assim seja, amém...

3 comments:

Olavo Carvalho said...

Gostei deste seu texto, me fez lembrar de um ponto comum a diversas culturas (pra não dizer todas)em relação aos deuses, e que também está presente no texto. Os deuses sempre possuem esse lado intocável, irrepresentável ou inacessível. E é isso q dá a eles esse aspecto divino, de algo incompreensível. É o Mistérium Tremendum do Joseph Campbell e do Rudolf Otto. E é o que vemos em várias mitologias: deuses incinerando ou destruindo por completo aqueles que vêem sua verdadeira face. Como vc colocou, esse é o caminho humano, afinal, caminhar para o nunca chegar. Talvez porque o que interessa não é o final e sim o caminho, o processo, e este só termina com a morte.

Marcos Siqueira said...

A expressão de confusão ao tentar explicar o inexplicável e a forma como foi abordada deixou o texto bonito e sincero. Gostei!

Ioda said...

Mestre Frank,

Seu D~s é muito humano! Os meus são mais ao modo dos deuses do Kalvin.

E o tempo ... o tempo não existe, nunca existiu!

Abraços,
Ioda