Sunday, January 02, 2005

A CRÍTICA DA BUNDA PURA

(Publicado no "Caros Umbigos", em 2000)

“As emissões do falo, as convulsões da vulva e
as explosões do cu nos apagam o riso da cara”
Octávio Paz

Muito já foi dito sobre a bunda. Mas a verdade é que a bunda não se cala. Tem muito a dizer ainda dentro de toda a sua mitologia para continuar falando para os homens de seus mistérios surdos.
Ela está bem no centro do corpo, abrigando e protegendo o que dizem ser o centro de massa do corpo, aquele sujeito escondido, taciturno, arcabouço de tabus históricos, o cu. A bunda abriga e protege o cu e até mesmo a vulva ou parte dela. A bunda é a moldura do cu. Moldura esta que guarda tudo o que ela pode mostrar sem escancarar. É uma fenda onde transita um buraco negro aleatório. Bingo!! O cu não existe e a bunda está ali para disfarçá-lo, mascarar, fazer-lhe mote? A bunda é uma melodia que acompanha a volição sem palavra, às vezes ruidosa, da porta para o intestino? E se o cu tem vontade, a bunda não, mas está sempre sorrindo.
Composta por duas esferas que se enfrentam e se abrem nas extremidades. Onde se enfrentam, constituem sua tensão indissolúvel, o cu e aquelas suas fissuras com cara dura de dor. Embora não seja dor, mas somente o que permanece naturalmente trancado. O cu é uma coisa para ser destrancada, um olho adormecido, ou um olho ao avesso. Mas eu quero é falar da bunda. Esse nome de origem africana que os brasileiros eternizaram. Só isso já é o suficiente para imaginarmos o quanto a nossa bunda tem mais samba, requebra e brinca com a gravidade, tanto a física quanto a moral.
E a bunda parece o infinito. Duas esferas que se encontram, beijam-se, se espalham e depois se esparramam para o infinito. Falo mesmo é daquele símbolo do infinito, o oito deitado, que seria também a representação do universo, do um-inverso. Você pega uma esfera e a corta ao meio, girando as duas metades e fazendo com que as suas duas faces opostas se beijem. Assim está desenhado o oito deitado, a representação do universo (um-inverso), a fotografia de uma eterna explosão. É muito engraçado, nós vivemos no universo, nos somos o universo, em constante explosão. Estamos explodindo, é essa a nossa realidade material mais básica: a evolução material com dispersão. E onde entra a bunda nisso tudo? Ela não entra, simplesmente explode perante os nossos olhos. Uma explosão do corpo, em carne. Assim como o coração está sempre a explodir dentro da gente (esta bombinha que nos alimenta), a bunda também, só que do corpo pra fora, para aparecer, exibidinha... Explosões do coração: contidas que vem e vão, pulsações. Só que a explosão quer nos enganar, dizer que extrapolou. E nós acreditamos, principalmente se a bunda flutua, não respeitando a gravidade. Isso, estou falando de bundas voadoras, e que explodem em saladas de peles. E quanto mais bunda, maior o seu tamanho, maior o seu mistério, pois mais gravidade deve ser desafiada.
Aí começam a esboçar-se todos os devaneios e delírios possíveis em torno das esferas gluteanas. Qual seria a bunda perfeita? Seria a bunda clássica, gestáltica? Muitos tendem nesta direção. Aliás, é o gosto médio que, segundo seu veredito, prega uma certa beleza ideal à qual a boa forma de uma bunda aspiraria. Pois são duas esferas, e a esfera já é um signo da boa forma. E num certo ponto essas esferas se encontram, se roçam, oscilam uma sobre a outra, testemunhando o jogo das nádegas. Este é o ponto da fenda, do que também denomina-se por rego. Esta brecha nos deixa sempre no limiar de sentir que por ali se pode espreitar, e isto seduz, pois que é entreaberto, nem aberto, nem fechado, cavernoso. A bunda é assim, vai se fechando devagarinho e esconde um vale. Isto sem dizer da mitologia do que é ou seria um vale: local fértil, de onde brota vida, com um rio no meio. Vales são sempre coisas vivas. E nossos vales sempre guardam segredos, porque guardam riquezas, reservas, recantos de intimidade. Outra associação é a de que a bunda tenha semelhança com os seios. As nádegas são duas mamas surdas, sem mamilos. Tanto os seios como a bunda guardam o seu fetiche. Os seios trazem a memória primeva de alimento, conforto, um prazer oral. A bunda carrega uma memória ancestral que não esconde o fato de que os machos geralmente agarram-se às ancas da fêmea para o ato sexual. Desse modo, uma penetração contempla sempre esta região de contato extremamente erógena que é a fenda, o beijo entre uma nádega e outra.
Mas o negócio é que as nádegas não decidem nunca se são dois membros, como as pernas, ou se são tronco. São uma transição. E são exatamente nas regiões de transição onde as pessoas costumam se perder. Sem uma definição, a fixidez necessária de um conceito ou estereótipo, qualquer ser humano se vê frente a um certo colapso cognitivo. Sim, a bunda deve continuar mostrando que ela é mais irracional do que nunca. Mas a bunda pode continuar pacificamente sendo o que é, simplesmente bunda. Falar da bunda pode parecer desonesto, é como se falássemos de alguém pelas costas. Deixar de falar, porém, é ver que o rabo do diabo inevitavelmente escapa das calças.

2 comments:

Ludmila said...

kkkkkkkkkkk fenomenal!

xoomei said...

...
a bunda conta a história da criação do universo (aun-inverso)

na versão do big-bang...:


deus andava sozinho pelo vazio, pelo nada... até que começou a
ficar entediado, a achar tudo (?) aquilo um saco (vazio).

na verdade ele não estava NADA satisfeito com TUDO, não era
a criação que ele vinha imaginando no pensamento dele.

começou a ficar irado, sismou, emputeceu-se de vez e disse

- QUE BUNDA...!!!! lançou um raio e explodiu TUDO pra que NADA restasse.

neste momento, ele criou 2 FORÇAS..... quando ele pronunciou BUUUUUUM, explodiu tudo... e quando disse: DÁ, "deu" a vida ao un-inverso... a força BUM e a força DÁ.

então, quando dizemos "nossa, que bunda !!"... estamos contando "A História da Criação do Universo"

"nossa !" é o redutivo de "Nossa Senhora", representando a força feminina.... o inverso.

a continuidade da vida algumas vezes nasce da contemplação de uma bunda que passa... olhar para uma bunda mexendo ao andar, na memória latente gravada no espírito, remete ao longinguo e esquecido pensamento a lembrar do momento em que tudo começou

...