Saturday, July 16, 2005

Os loucos 3 (A louca do pão)

Os churrascos e chopadas da época de faculdade eram muitas vezes inesquecíveis. Fabulosa é a capacidade que o ser humano tem para superar seus limites. E estes existiam até o momento das festas. Adorava assistir e participar do espetáculo que de fato deve corresponder ao sentido de uma festa: alterações de consciência, alegria e impulsos fluindo mais livremente. E nossa amiga Ilza não escapou desses três quesitos fundamentais.

Quando me aproximei, percebi que Ilza e minha namorada riam convulsivamente, de olhos esbugalhados e já roxas com a falta de ar e dores no abdômen. Era uma risada louca, das duas, de quem já perdeu boa parte do controle sobre si mesmo. Apesar de aparentarem intensa alegria e gozo, tinham uma expressão mórbida de loucas.

Mas Ilza queria ir além, como quem vai adentrar o mar e confiando que o domina. Esse oceano que é nosso psiquismo e um barquinho de substâncias psicoativas a navegar em suas tempestades. Com aventura e espírito desbravador (às vezes suicida), assim concebe a maioria das pessoas que usam drogas para viajar por entre as bordas da realidade.

Falava muito alto e proferiu vários discursos. Alguns muito engraçados e talvez memoráveis. Era muito mico, muita coragem e espírito embebido em álcool e maconha para uma pessoa só. Sua personalidade parecia ali estar pelo avesso. E ela sabia o quanto isso era espetacular e perigoso. Mas quem conhece perigo no infinito extremo da alegria, a qual já fez a curva para adiante do que não mais podemos conceber?

Ilza foi subindo, subindo e de tão alto, como um balão, explodiu suavemente e pulverizou-se no ar. Continuo bebendo e fumando, cada vez mais. Estava voraz em saber o que poderia haver adiante, como lugares ainda não visitados por seu espírito, em sua busca desbravadora incessante. E por fim adentrou um ponto tão demente de sua ebriedade onde as palavras não tinham mais função, pois sua boca (babando) e sua mente já não eram capazes de articular mais nada.

Durante todo o tempo de sua loucura segurou firmemente nas mãos um pedaço de pão com lingüiça. Caiu no chão várias vezes. O pão raspava no chão, mas ela não o soltava, mesmo com as sugestões insistentes dos amigos para o fato de aquele pão já era. Estava sujo, molhado, babado. Porém ela continuava a segurá-lo e de vez em quando ainda o levava à boca. Se apegou àquele pedaço de pão, como se fosse seu único referencial de uma realidade concreta. Os punho fechado, segurando o pão podre, como se segurasse seu último quinhão de realidade.

Com a outra mão às vezes pegava outro pão e enfiava um pedaço imenso na boca. Mastigava-o por um bom tempo, como se fosse um chiclete, e não engolia. E ainda insistia em conversar com a boca cheia daquela massa de pão com saliva.

A festa acabou e Ilza jazia completamente torta e largada, ao relento, em um banco da pracinha da faculdade, ainda com o pão firme na mão. Alguns rapazes se riam a observá-la. Comentavam e faziam inúmeras piadas. Um deles, bem gordo e com uma aparência repugnante, de sujo, tirou o pênis para fora da calça e o passou em sua boca. Riram bastante e foram embora.

Mas não teve jeito, na segunda-feira o assunto principal era o fenômeno Ilza, a descabelada louca do pão. E esse foi uma espécie de apelido com o qual teve de conviver por algum tempo; além das lendas referidas ao episódio.

O tempo passou e sua história ficou conhecida como a da louca do pão. Diziam que ela tinha enlouquecido durante uma festa e não largou jamais um pedaço de pão, o qual levava por vezes à boca, já podre. Teria permanecido vagando pelas redondezas do campus, proferindo e profetizando sandices, sempre com o pão com lingüiça podre na mão, alimento de suas qualidades clarividentes. Uma santa louca, descabelada e de pão podre na mão.

Um quadro com sua imagem sacra e imaculada foi pendurado dentro do centro acadêmico. Assim, as festas e loucuras ali se passavam não sem inúmeros pedidos de proteção e reverências à santa louca do pão.

Monday, July 04, 2005

Os loucos 2 (Na vida de um beijo)

João Renato era machista, preconceituoso, grosseiro, insensível. Ninguém entendia por que havia escolhido estudar Psicologia. Era uma das primeiras visitas de nossa turma a um hospital psiquiátrico. Uma das internas, Claudete, ficou imediatamente fissurada por ele. Era baixa, bem gorda e forte. Tinha a boca muito grande e não tinha os dentes da frente. Transitava sempre com o mínimo de roupa possível ou até mesmo nua. Como a maioria dos pacientes, tinha a aparência intensamente afetada por seu histórico de doença mental.

João Renato não conseguiu disfarçar. Estava extremamente tenso com a abordagem de Claudete. Andamos por todas as alas do hospital e ela fez questão de nos acompanhar, de braço dado com ele. Não desgrudou um minuto. Ele não sabia como agir. Somente era capaz de fazer o que sempre fazia com qualquer um: transpirar indiferença, irritação e até arrogância. Claudete não deixava por menos: “Poxa, gatinho, vai ficar fazendo bico. Tô aqui te recebendo com o maior carinho na minha casa e você não é capaz de dar um sorriso?” E João Renato soltava um sorriso forçado, amarelo, quase perdendo a paciência. “O que foi, gatinho? Não gostou da minha blusinha. Se quiser eu tiro, fico sem nadinha, pra você”.

E Claudete ficou assim durante toda nossa visita, abraçadinha a João Renato e tentando agradá-lo com suas palavras carinhosas: “Ele é lindo né, gente”. Chegou a hora de irmos embora. E muitos dos internos mostraram sua insatisfação. Queriam que ficássemos. Estavam tão felizes com a visita, tão fascinados pela presença de gente do mundo fora, de jovens saudáveis e “bonitosque se dispunham a estar ali naquele momento. Sentiam-se honrados pelo mundo de vez em quando saber que existem, de haver qualquer contato. Uma senhora chorou. Aquela visita mexeu mais com eles do que conosco.

A despedida deu-se com muitas trocas de abraços. Porém o foco era João Renato e Claudete. Ela deu-lhe um abraço bem longo e, logo após, travando-lhe o pescoço com os braços, lascou-lhe um beijo na boca, bem molhado.

No caminho de volta à Universidade, João Renato não dizia uma palavra, estava absorto na experiência única pela qual houvera passado. Contudo, logo pudemos perceber que a pessoa mais afetada por aquela visita fora ele próprio. Passou, pelo menos em relação ao curso de Psicologia e à nossa turma, a mostrar uma outra face, que ainda não conhecíamos. Havia mudado. Com o passar dos meses pudemos ali perceber outra pessoa. Parecia mais aberto às diferenças, mais disposto a ouvir e experimentar coisas novas, mais sensível. E como, a partir dessa mudança, sofreu. Sua sensibilidade ficava à flor da pele. Funcionava com um pára-raios. Era capaz de mergulhar na dor dos outros, de gente indefesa, como ninguém. Desesperado e revoltado com as injustiças dessa vida, por vezes não sabia o que fazer. Sonhava romanticamente com um mundo melhor, e sua revolta era uma companheira eterna que nunca o deixava se acomodar. Uma criança indefesa frente a tantas coisas por se fazer.

Abriu-se para os outros e para a vida com uma coragem rara e tinha uma ânsia muito grande em consertar o mundo. Quantas vezes, nos anos em que convivemos pude vê-lo quebrando padrões, questionando a hipocrisia e uma série de contradições que compõem a vida social. Não queria acomodar-se, não queria ser cúmplice com o que era injusto ou egoísta. Possuia uma disposição enorme para o sacrifício, para doar-se, protestar e chamar a atenção para a injustiça.

Adentrou o movimento estudantil. Era dos militantes mais puros e sinceros. Mas muito revoltado. Fazia acampamento em frente à Reitoria e até greve de fome se necessário. Em protestos públicos e passeatas, apanhou da polícia algumas vezes e chegou até a ser preso. Foi perseguido por um diretor da Faculdade. Montaram uma comissão para avaliar sua sanidade mental. Argumentavam que talvez não tivesse condições psíquicas para exercer a profissão de psicólogo. Toda a faculdade se mobilizou em seu favor. Mesmo assim foi submetido a uma bateria de testes e de avaliações psicodiagnósticas. Nada de revelante foi constatado pela comissão e pôde receber seu diploma. Então os alunos se reuniram e fizeram uma grande festa para comemorar uma conquista que para João Renato havia sido tão sofrida: o direito de trabalhar como psicólogo.

Nos dois anos seguintes começou a trabalhar em um hospital psiquiátrico e passou na seleção para o mestrado. Continuou então na Universidade e não se afastou dos movimentos estudantis. Contudo, sua loucura parecia crescente. Realizava performances absurdas durante os protestos ou mesmo se dispunha a protestar sozinho, das formas mais bizarras possíveis. Exibia mensagens, seja em camisetas ou no corpo, muitas vezes incógnitas. O que antes era engraçado e excêntrico passou a ser visto com reservas. Mesmo os amigos mais próximos não entendiam o que dizia.

Durante as festas bebia um pouco, e antes que ficasse bêbado não hesitava em proferir discursos inflamados, em arrotar sua revolta para quem estivesse por perto. E a estas atitudes somava-se o ato de despir-se. Perambulava pelas festas completamente nu, como se nada estivesse acontecendo. Debatia com muita desenvoltura e inteligência sobre os mais diversos assuntos (filosofia, artes, política, história), porém, completamente nu. Quem não o conhecia ficava muito assustado: fugia ou ia aos poucos se acostumando, até percerber que João Renato era uma boa companhia. Era um maluco-beleza, um louco querido, que todos queriam por perto.

Entretanto, estava sendo tragado por um processo de enlouquecimento. não sabíamos distinguir entre o que era genial ou patológico. Até que um dia sua nudez e seus discursos insanos resolveram fugir do ambiente protegido das festas para ir sambar em frente à direção da Faculdade ou Reitoria. Não tardou e finalmente, um dia, João Renato foi internado. Ficou ao todo dois meses internado em um hospital psiquiátrico, público - mas que era modelo, um dos melhores do Brasil àquela época – e um ano afastado de suas atividades profissionais e acadêmicas.

Um dia reencontrei João Renato na rua. Estava novamente envolvido com teatro, artes e aplicando seus conhecimentos dessas áreas às oficinas que realizava no centro de saúde mental. Fiquei muito feliz e surpreso, pois parecia estar bem recuperado de toda a viagem que havia feito ao inferno. Conversamos por quase uma hora. Convidei-o então a dar uma palestra sobre seu trabalho e sua experiência junto a meus alunos.

Sua palestra foi excelente, inesquecível. É incrível como pôde absorver tudo o que lhe ocorrera em sua história de vida de forma muito construtiva. Era uma pessoa profundamente envolvida com sua profissão e com a vida de um modo geral. Falava com muita desenvoltura e ao mesmo tempo serenidade. E em um determinado momento da palestra lembrou-se, com muito bom humor e uma boa pitada de ironia, onde tudo havia começado, em sua experiência indescritível da primeira visita a um hospital psiquiátrico: “Na verdade aquele é que foi o meu primeiro beijo.”

Os loucos

Cheguei bem cedo. Seria um dia repleto de atividades. Zezinho, nosso porteiro titular, está lá, sorridente, como sempre, para receber a todos com carinho, principalmente as mulheres. “Eu sou o sorriso caixão”, com sorriso e olhar siderados. Como se estivesse despindo o universo de todo e qualquer mistério. “Lá dentro é tudo enterro e missa com cara de fome. E o padre tem um incêndio debaixo da batina. É, eu vi sim. Oh, não conta pra ninguém: estudei muito pra isso, pra ser o imperador da ventania”, erguendo os braços, os cabelos ao vento, como um profeta esquálido do fim dos tempos. E assim e abraçou o sol e a manhã inteira.

Wednesday, June 15, 2005

SOMOS INQUILINOS DO ALÉM 2


A vida fica bem menos solitária e o mundo bem mais povoado quando pensamos que os mortos estão sempre entre nós. Sendo o morto absolutamente bonzinho, não havendo dúvidas quanto às suas boas intenções, estaremos seguros de constante boa companhia e proteção. Agora, se associarmos à isso a teoria de que entre nós estão predominantemente os mal resolvidos, aí a coisa fica mais apavorante. Pois uma pessoa mal resolvida dificilmente é uma boa companhia. Mesmo querendo ajudar, acaba atrapalhando. Pois sendo mal resolvida, acha que quer uma coisa quando na verdade quer outra. Não sabe o que quer e quando faz as coisas, faz atravessado: desconta raiva em inocentes; superprotege ou “ama” demais para recalcar ódio ou rejeição; se vinga de Fulano simplesmente porque esse se parece com Beltrano, sem nem mesmo saber que odiava ou desejava vingar-se do segundo. O mal resolvido é isso. Agride sem saber, indiretamente, de repente. Ou agride quando no fundo desejava amar e não pode. É a maldade sem motivo ou o amor que mata, o “amor” que aparece pra encobrir talvez uma censurável rejeição ou mesmo o ódio.
E se continuarmos na trilha desta teoria, a de que os espíritos entre nós geralmente são os mal resolvidos, aí a coisa fica preta. É, pelo que me lembre, dizem que os bem resolvidos vão logo pro firmamento, para algum lugar, para um destino mais certo. Não ficam perambulando por aqui, partem logo pra outra. Então quer dizer que o além é feito de muito sonho e temor. Porque é bom sonhar com o além ou um terror imaginar o que pode estar acontecendo às nossas costas por meio da obra de nossas más companhias, as almas penadas. É, de fato, a vida não é um lugar seguro, nem mesmo para o que não se relaciona com ela. Viver é ser, por excelência, frágil. E o além dos vivos é, por definição, mal resolvido.

Friday, June 10, 2005

Inquilinos do além 1

Foi ainda criança quando li uma citação de Machado de Assis, mais ou menos assim: “Pronto, está morto. Agora podemos elogiá-lo”. De fato, basta morrer para uma pessoa se transformar em alguém melhor. A morte é um momento de aperfeiçoamento pessoal do morto. Defeitos são varridos para debaixo do tapete da memória e do morto passa somente a brotar nobreza.

Certa vez, um amigo, psicoterapeuta, disse que em determinada sessão baixou lá um espírito. Relatou ter sido um momento de difícil manejo e que teve de conversar muito com esse morto mal resolvido. É, mal resolvido, assim também podemos denominar os fantasmas, as almas penadas: mortos que precisam urgentemente de terapia. Pois são mortos que não se enxergam como mortos, como são (ou como não são?). É o sujeito que morreu e não sabe. O pior deve ser o dia em que cai na real. Imagine: “Nossa, eu morri. Como não pude perceber, esse tempo todo. Tantos sinais, tanta gente tentando me avisar...”, deve sentir-se atavicamente traído pelo destino, pelo além, uma traição da própria eternidade. Aliás, a morte é, por definição, uma traição da vida. Com a morte, a vida é passada pra trás.

E fantasma é igual chifrudo, é sempre o último a saber de sua própria condição. Nossa, deve ser um baque emocional. Deve ser de matar, hein.

No final de sua estória meu amigo perguntou: “Escuta, morto paga sessão? Tem como eu cobrar dele? Sim, pois a sessão não foi do vivo. Ele ficou o tempo todo tomado pelo morto.”

Respondi assim: “Nós é que vivemos pagando para os mortos. Ninguém questiona a autoridade de um morto. Eles mandam. Nós temos muito temor aos mortos; respeito. Ninguém brinca com gente morta. Nós é que vivemos pagando coisas para eles. Aqui se faz e aqui se paga? É, mas muita gente dá o calote. Aliás, acho inclusive que os mortos cobram aluguel da gente. Não estamos aqui nessa vida de favor? Esse corpo não é um favor? Um empréstimo, como dizem muitas religiões? Somos inquilinos do além.”

“Nossa, bonita expressão: ‘inquilinos do além’; parece até nome de banda”, devolveu ele. E assim surgiu o nome deste blog, através de uma divertida reflexão sobre esses nossos companheiros eternos, os mortos.

Thursday, May 19, 2005

Mudei 2 (O império do autismo e suas seduções)

<>Naveguei horas na sala vazia, de pessoas, de meus sentimentos mais vivos. Estava lá a contemplar toda a minha paisagem imensa de saboroso silêncio e omissão. Arrastei as nuvens do meu olhar carinhoso para perto de quem amava e a indiferença bruta e metálica para os desafetos.
<>Era todos os seres indefesos no consentimento de estar vivo. Tomei as rédeas do mundo traduzido nos desenhos do corpo e seus alarmes de fazer a verdade sem rodeios. Fui também muito longe em meu desejo, na boca quente e voluptuosa do mar de segredo e gozo que brotava do silêncio. O orgasmo sutil de ficar quieto em meu canto. A glória de parir o universo sem juízo algum.

Wednesday, May 04, 2005

Mudei

Tudo começou com uma inofensiva tosse. Ela foi aumentando e um dia acordei muito rouco. E um dia após a rouquidão, acordei completamente mudo. Não saia voz alguma, nem bem baixinho: nada! Fiquei assim durante uns três dias. Havia uma reunião. Fui. E não pude soltar uma palavra. O imbecil de sempre – pois toda reunião tem sempre um imbecil – aproveitou da minha mudez para falar uma asneira atrás da outra e poder emitir todos os juízos possíveis e contrários às minhas idéias e interesses. Não havia como me defender, não havia nada a fazer. Eu era a omissão em estado puro. O que eu pensava do mundo? O que eu queria? Nada disso podia expressar. Mesmo frases simples, comandos ou pedidos, estavam totalmente bloqueados. Mas minha observação tomou outros ângulos, ficou mais aguçada para outros detalhes que a normalidade não permite enxergar.

Dois camaradas, pessoas pelas quais sempre tive apreço e admiração e que me respeitavam muito estavam a debater uma série de assuntos de meu completo domínio. Como sempre, estavam ansiosos por minha opinião. Olhavam pra mim e perguntavam, mas nada acontecia. Compreenderam minha situação e resolveram continuar debatendo, na minha frente. Foi muito interessante ver aqueles dois - antes mudos frente ao meu domínio - agora tagarelas, soltos para divagar como bem pudessem fazer sozinhos, sem minhas chancelas, sem a minha responsabilidade pelo que estavam pensando. E vi que apesar dos seus altos cargos profissionais ainda eram garotos gordinhos que colecionavam figurinhas, viciados em coxinhas e sempre ansiosos pela hora do recreio.

Vivi naqueles dias de mudez estados de abandono de minha idéias, de minha comunhão de palavras com os outros. Estava abandonado a mim mesmo. Tudo ia, vinha, e ficava comigo mesmo, sem trocas verbais. Sem lutas nesse palco de satisfações que é boa parte de nossa vida. Não havia satisfação a ser dada pra ninguém. E um estado enorme de inocência tomou meu ser, ou pelo menos o seu papel, seu personagem. Quem não fala, quem não pode defender-se por palavras pode aparentar uma profunda inocência. Sentia-me fora do mundo, mero espectador. Mas estava dentro dele com minha carne, meus olhos, meu sorriso e não mais com o veio abstrato das palavras. Abateu-se sobre mim a ternura dos animais domésticos. Estava sempre ali, presente, ouvindo o que outros diziam, deixando que se sentissem no domínio dos rumos do mundo porque suas palavras e comandos simulavam seu império. Eu era mais um bichinho de estimação de olhar terno e incógnito. Uma companhia plácida. Um companheiro de verdade. Meu silêncio e minha omissão eram o berço da soberania de quem tinha a palavra. Fiquei muito mais amável. Meu silêncio era a expressão da omissão, da falta de qualquer testemunho possível. A cumplicidade do mundo todo quis apoderar-se de mim. Era agora a pessoa mais confiável, porque a mais muda.


Tuesday, April 26, 2005

Papa Memorex

O papa que acaba de falecer ficou quase trinta anos no pontificado. Talvez deve se lembrar da última eleição para papa somente quem já esteja perto dos quarenta anos e quem tenha mais idade que isso. Eu, por exemplo, aos cinco ou seis anos de idade, mal conseguia compreender qualquer coisa que se dizia no noticiário. “Esse povo fala rápido e complicado demais”, eu pensava. Sim, tinha um velhinho simpático lá naquela enorme janela, acenando para o povo. Aliás, João Paulo II era muito simpático. Que rostinho mais angelical, hein. Não me surpreende que tanta gente parecia confundi-lo com uma espécie de Papai Noel.

Chamou-me muito a atenção o tamanho do funeral desse homem. Talvez nenhuma autoridade internacional tenha porte suficiente para tanto prestígio em seu velório. Aquele monte de cerimônias, coisa que remonta à séculos e séculos atrás. O mundo ocidental voltou-se para a Idade Média por alguns dias. Estávamos todos submersos naqueles rituais antiquísimos. Foi um “revival”do poder total da Igreja Católica mais do que deliciado por todos os seus devotos. Apesar de ser a ocasião da tristíssima morte de um papa, foi o momento da Igreja mostrar como se fazem as coisas, ou seja, como vêm sendo feitas há séculos. É o que a tradição diz: “É feito assim porque sempre foi assim” ou “Assim sempre se faz porque Deus fez assim”.

No mundo atual, tão laico, dessacralizado e desritualizado, rugiam, no miolo dos noticiários, os rituais católicos da mais fina estampa para enterrar um papa. Abriu-se um portal do tempo com passagem para a Idade Média e o mundo católico imperou solene para os olhares de todo o planeta. A Igreja Católica é hoje um mundo à parte dentro do Mundo, muito maior, o qual devora sua memória e seus fiéis a cada dia.

Senti que toda esta colossal projeção da morte do papa tinha todos os sinais do que isto de fato representa: o sepultamento da Igreja Católica. Todos os rituais relativos ao funeral somente me faziam lembrar que aquilo eram cenas de algo já morto. Como se o mundo todo deixasse o Vaticano apresentar seu número naquele momento. Agora é a hora do Vaticano, deixem eles tocar suas musiquinhas e fazer seus ritos. Isso tudo é muito bonito porque é uma aula de história: “Nossa, olha só estas roupas, estão sendo usadas há séculos! Isso sempre foi feito assim e assado. Que lindo, como algo pode ser guardado e respeitado por tanto tempo? Quanto respeito pelo passado, quanta memória embutida em cada gesto. E o quanto cada gesto é tão caro, tão precioso”. Prestemos nossas reverências mais elevadas a quem lhes cabe: os mortos, à morte da Igreja Católica. E é exatamente assim que ela acredita: na sua morte será mais respeitada do que na sua vida. Se toda religião precisa da morte para edificar a sua força, porque não ela mesma morrer para poder estabelecer eternamente o seu poder?

Mesmo o novo papa reconhece publicamente que a Igreja Católica é um barco que está afundando. E ele, conservador como é, vai ficar rezando em latim até o último suspiro, até que o oceano da história engula de vez o catolicismo: é mais importante a tradição e o ritual do que a vida.

E eu pouco vi na minha vida um funeral tão envolvente e excitante. Gente, que delícia ficar em frente à televisão acompanhando cada passo da despedida do papa. Os rituais católicos às vezes são tão monótonos quanto lindos. E do pouco que vi, a beleza superou a monotonia. Mas mais que isso, os tons todos eram os de que morria um santo. E enterrado com muitas cores. Sua roupa colorida, com tons vermelhos, fora do caixão, seu corpo todo à mostra e ainda segurando um cetro majestoso. Não parecia morto, parecia dormir serenamente. Pois o objetivo é esse: reinar após a morte. Aliás, reinar ainda mais do que em vida. A morte produz seus louros para a memória.

Mas fiquei muitíssimo frustrado com a eleição de um papa conservador. Será que o cara vai ficar implicando com gay e o uso da camisinha com uma África se afundando em Aids e miséria? E uma colega me perguntou o porquê de papas adotarem um nome de guerra, ôpa, ou melhor, um nome artístico, não, não... enfim um outro nome. É, de fato, papa não pode falar em nome próprio. Nada que é medieval ou tradicional pode falar em nome próprio. Deve sempre responder pelos outros. Estará sempre falando em nome de uma coletividade, de uma história. Ele deve encarnar o personagem, a entidade papa. Tal como um ator, deve sacrificar o si mesmo, seu próprio eu, em nome de um personagem, de uma entidade. Por isso que ser papa dá tanto medo. Talvez o pontificado seja o sacrifício mais antigo, modelar e tradicional de nosso tempo.

Friday, April 01, 2005

Menininho no ônibus

O ônibus pára bruscamente. Em frente ao pronto-socorro, a porta se abre para o escuro da rua. Entra uma mulher e, logo à frente, meio atropelado pela pressa da mãe, pela pressa do mundo, um garotinho de 4 ou 5 anos de idade. O ônibus balança muito e ele se segura firme, como quem fosse lançado em alto-mar, caso se distraísse um pouquinho sequer. O balanço do ônibus sabotava o sossego daquela criança. Mas ele era muito pequeno para remoer sobre perseguições do destino.

Seu rostinho se vira em minha direção. Há uma lágrima presa, que escorreu do canto de seu olho. E o pronto-socorro ao fundo. Ele não fala nada: um filhote mudo, de olhos ao mesmo tempo assustados e tristes. E uma lágrima: havia chorado.

Tinha a expressão tão perdida, tão “não sei o que estou fazendo aqui”, tão “vamos pra casa”, ou tão “eu não quero”, “isso dói”, com choro de terror, pânico. Aquele seu olhar pós-tortura morava em lugar nenhum. Todo o seu corpinho era uma expressão de derrota para todo o resto do mundo, muito maior do que ele. E uma derrota sem lamento. O terror já havia passado. Agora restava aquele corpinho pequeno e sem forças, todas consumidas na luta mortal que travara contra uma avalanche de invasões ao seu pequeno recanto de paz.

Eis que senta-se ao seu lado uma outra mulher, com uma criança bem menor, de 1 ano e pouco. As duas mães começam a conversar e deixam as duas crianças interagindo. Sem que qualquer uma delas perceba, o maiorzinho desfere um soco forte na cabeça do menor. O soco pega no rosto e espreme a cabeça do bebê no ferro do banco do ônibus. Como as duas mulheres não viram o que ocorreu, pensaram que havia sido o balanço do ônibus. Não houve mais uma agressão tão bruta. Porém durante toda a viagem, nosso garotinho da lágrima no canto do olho, transforma-se num capeta. Passa a fazer inúmeras caretas para o bebê, parando somente quando ele fazia cara de choro. Depois começa a cutucar os passageiros, mostrando a língua, e a arremessar tocos de cigarro na cabeça das pessoas. Vários passageiros simplesmente estavam com vontade de esganá-lo, de descer a mão na bunda daquela criança mal-criada e infernal.

Mas eis que de repente o ônibus dá uma boa freada, e o menininho voa pro chão. Não é capaz de segurar o choro. Chora alto e sofrido. Não havia machucado, chorava de susto. A mãe o pega no colo e tenta consolá-lo, assim como a mãe da criança que havia sido espancada por ele. Parecia que a desgraça do mundo desabara sobre aquele pobre e indefeso ser. O motorista pede desculpas, e olha com carinho para aquele rostinho inocente e meigo, prometendo-lhe um pirulito no final da viagem. O menininho então volta a sorrir.

Monday, March 28, 2005

DO ESPÍRITO

<>(Trecho sobre o espírito, de minha tese de doutorado)

Pois somente o espírito é que pode pairar por sobre as prisões da realidade, sejam estas prisões configuradas segundo critérios concretos ou normativos. O espírito não é definido de fora, pois somente ele pode definir-se a si mesmo. Assim, não está preso à lógica, à necessidade de definição. O espírito paira por sobre as contradições, é puro movimento, puro recriar-se. Mesmo que tudo falhe, que tudo se destrua, está lá o espírito, a única possibilidade de existência perante a destruição de todas as alternativas, de todos os meios. O espírito pode às vezes traduzir-se em silêncio, em sem-sentido (non-sense), em ausência, lugar do indecidido, o espaço que semeia a criação. Sem espírito, não há criação. Contudo, o espírito é uma impossibilidade. Frente a qualquer anúncio, mesmo que sutil, desta impossibilidade, percebemos o espírito, sua presença grandiosa que nos espanta, pois que nos coloca de frente para uma auto-abolição alegre, um desprendimento de si mesmo, imprevisto, uma retirada do campo comum em que trocamos nossos afetos, como uma contra-comunicação freqüentemente risível a zombar de uma determinação implacável que define o nosso destino, como a morte. Não é portanto gratuita a relação histórica entre o espírito e tudo o que diz respeito ao riso e as arquiteturas de sua produção. Ser espirituoso é poder, em alguma medida, libertar-se, sempre de modo obtuso, mas de forma absurdamente justificável, daí o riso. Quando votado ao riso, a justificativa pelo absurdo é a saída do espírito.

<>Quando transitamos com tranqüilidade pelos meandros impróprios de uma expressão que atreve-se a contestar o óbvio, e insistir em enunciar o absurdo e o ridículo na dissimulação consciente de que estamos imersos no absurdo; mas que este é nosso mote de sobrevivência em uma realidade absurda, e que estar preso seriamente na mesma não merece mais do que nosso desprezo, mesmo que este possa brilhar por um único instante no beco sem saída de tal determinação: aí podemos abrir-nos para o riso: ínfimo na sua cronologia, mas eterno na memória que ensina, aos que virão, a abrir algumas brechas para o prazer, mesmo que sem corpo, sem o crivo do possível, mesmo que em espírito. O espírito possui esta virtude, a de corporificar o improvável. Como já disse, ele é sopro, ele inspira, vivifica.

Sunday, March 27, 2005

NO QUINTAL DO PENSAMENTO

Tenho estrelas para contar, pois perdi a conta da vida em céu nublado. Já colecionei muita escuridão: viciado em bater de frente com o errado. Imperador de cagadas. Era o rei da palavra em forma de choro. E o turbilhão de palavras não explodia além da manhã. Comi muita terra para poder voar. Respirei muito vazio e abismo para conquistar a terra. De dentro do meu buraco escuro, o estado de escrever era algum vaga-lume distante. De dentro do meu buraco de escrever eu poria um sol por poesia. Às vezes, no quintal do pensamento, eu imaginava, ou melhor, eu brincava de poesia: “poedizer o mundo em oitenta versos”, Camões de um mar interior, subterrâneo ou perdido bem no meio de um Pacífico turbulento de guerra, que fracasso em trancar no peito. “Poedizer o muito, como me tenta o verso...”. Então, vaguei para os meus becos sujos e vi a morte enroscada num canto, me vomitando obscenidades. É, nunca entendi a morte. É sempre preciso deformá-la para poder entendê-la. Se eu não deformo, não me formo. Se eu não destruo eu não vejo. Maestro nessa sinfonia de equívocos, despenco do que era previsto. Meu nome é acidente, moro dentro do horror, sou foragido da razão, estou onde vocês não me procuram.

Friday, February 18, 2005

GALINHAS 2

Galinhas são pássaros sem asas. Galinhas são seres avoados. Quem afinal já pensou uma galinha? Neste exato momento existe um mundo todo dominado por elas. Estar ciscando é como meditar e aproveitar o dia. As galinhas têm o tempo todo uma busca frenética de alguma coisa, no chão, é claro. Elas não voam e simplesmente desprezam o céu. Mas porque não voam? Que castigo foi este? Por que tal mutilação ocorreu na natureza? Uma especulação em evolução diria que não voam porque foi assim que nós humanos as fizemos. Nós mesmos que fomos selecionando sua forma. O mais engraçado é que esta seleção tira da galinha sua forma de bicho para dar-lhe a melhor forma possível de um alimento, acessível, tal como uma fruta a nos esperar no pé de uma árvore. Isto me deixa uma brecha de dó, acreditando que as galinhas são naturalmente infelizes, portadoras de uma infelicidade de quem não se sabe infeliz. Ou talvez o próprio ritmo lento de suas vidas permite que eu assim projete. Na verdade não dá para pensar nem que são felizes ou infelizes, puro devaneio besta de minha parte, convenhamos. Mas é divertido pensar no que são ou seriam, na relação que temos com elas.

Pouco vi alguém tentando decifrar um animal como uma galinha. Lembro, contudo, de um conto de Clarice Lispector. Ela narra o drama da fuga de uma galinha que estava prestes a ir para o forno. Ela vai parar em cima dos telhados das casas, como se soubesse da morte iminente. E o que mais me chamou atenção na narrativa de Clarice foi a sua bela suscinta descrição dos dois estados básicos de espírito de uma galinha: “apatia e sobressalto”. Magnífico, não preciso dizer mais nada. Ferreira Gullar também tem uma poesia sobre o galo. Muito bonita. Ele também tentou entender um pouco mais acerca do que é um galo. Claro, é totalmente imponderável tentar decifrar o que sente ou deixa de sentir um galo ou um galinha. Mas é por isto mesmo que é fascinante: o grande abismo que há entre nossas espécies.

Ferreira Gullar descreve o galo com uma aparência medieval, a crista, os esporões. E o que intriga Ferreira é o eterno preparo do galo para a luta, a guerra. Como se o tempo todo, em guarda, avistasse inimigos em uma defesa excessiva e intransigente de seu território. Marcou-me muito a expressão, ao final de uma enumeração de partes do corpo do galo, de seu “olho sem amor”. E também: “grito, fruto obscuro e extremo dessa árvore: galo. Mas que fora dele é mero complemento de auroras...”. Tocante, desdobrou um galo em partes que ainda não conhecíamos.

Então, voltemos para as nossas galinhas. Dotadas de nenhuma autonomia, as galinhas só vivem porque os seres humanos assim as querem, vivas e gordas. Se o homem não existisse, existiriam galinhas e cachorros? Este é um lado triste, galinhas e cachorros como meros apêndices da existência humana, acessórios vivos, espécies portáteis, propriedade humana. As galinhas são mais humanas do que imaginamos: são bípedes e frágeis. Ao contrário dos cachorros, com as galinhas os homens possuem uma relação de extrema indiferença e desprezo. As galinhas são seres completamente des-idealizados, não romantizados e, para a maioria, não romantizáveis. As galinhas se humanizam somente enquanto objeto de consumo, se é que assim se humanizam. As galinhas são bichos arrancados da natureza e criados como máquinas vivas que crescem e engordam para virar simplesmente carne e nada mais que alimento, como se esse alimento não fosse um ser vivo.

As galinhas são bichos zumbis, escravos de uma miséria fundamental. As galinhas são muito miseráveis. A natureza não as deseja e o homem as mantêm para não morrer de fome. As galinhas são pássaros pela metade, assim como os pingüins, que sabem nadar e têm sua própria casa. Mas nem galinhas , nem pingüins sabem disso. As galinhas perderam o rumo da evolução, assim como os homens, para ser esse nosso companheiro de exílio que violentamos sem piedade. Isto fez parecer que galinhas são seres naturalmente violáveis e violentáveis, absolutamente desprovidos de qualquer direito, bloqueados para o nosso amor. Elas somente têm acesso à nossa compaixão e é sobre o que me debruço agora. Pela história da criação de animais domésticos, as galinhas e os gatos são grandes vítimas de sadismo. Há quem odeie a histeria de uma galinha ou se deleite em sentir a sua reação desesperada a qualquer intento violento.. (a continuar)

Thursday, February 17, 2005

GALINHAS

<> As galinhas caminham em fila indiana, vendo-me, sem me olhar. Na sua via-crucis de ciscar o dia todo e ter o sol morrendo e nascendo em suas veias. Caminham para o nada, fazem a vigilância de seu coração que bate, do pelotão indistinto de filhotes que cega e histericamente as perseguem. Seres rumando pro nada, fugindo do momento fatal à espreita. Sempre postas a correr de outros bichos. O que pensa uma galinha? O que pensa uma galinha? O que sente uma galinha? O que é uma galinha? Deselegante pássaro mutilado que não voa? Irritante comida histérica a qual toleramos seu crescimento de ciscar e andanças desajeitadas, cacarejadas e sem rumo? Ser infeliz, acessório humano exilado da seleção natural, prometido ao sacrifício frente aos nossos caprichos de fé ou paladar? As criamos e as destruímos, ou melhor, as devoramos, com a indiferença com que se corta uma grama ou se derruba um muro velho. Afinal, o que são as galinhas?

Saturday, February 05, 2005

SOMOS INQUILINOS DO ALÉM


Foi ainda criança quando li uma citação de Machado de Assis, mais ou menos assim: “Pronto, está morto. Agora podemos elogiá-lo”. De fato, basta morrer para uma pessoa se transformar em alguém melhor. A morte é um momento de aperfeiçoamento pessoal do morto. Defeitos são varridos para debaixo do tapete da memória e do morto passa somente a brotar nobreza.
Certa vez, um amigo, psicoterapeuta, disse que em determinada sessão baixou lá um espírito. Relatou ter sido um momento de difícil manejo e que teve de conversar muito com esse morto mal resolvido. É, mal resolvido, assim também podemos denominar os fantasmas, as almas penadas: mortos que precisam urgentemente de terapia. Pois são mortos que não se enxergam como mortos, como são (ou como não são?). É o sujeito que morreu e não sabe. O pior deve ser o dia em que cai na real. Imagine: “Nossa, eu morri. Como não pude perceber, esse tempo todo. Tantos sinais, tanta gente tentando me avisar...”, deve sentir-se atavicamente traído pelo destino, pelo além, uma traição da própria eternidade. Aliás, a morte é, por definição, uma traição da vida. Com a morte, a vida é passada pra trás.
E fantasma é igual chifrudo, é sempre o último a saber de sua própria condição. Nossa, deve ser um baque emocional. Deve ser de matar, hein.
No final de sua estória meu amigo perguntou: “Escuta, morto paga sessão? Tem como eu cobrar dele? Sim, pois a sessão não foi do vivo. Ele ficou o tempo todo tomado pelo morto.”
Respondi assim: “Nós é que vivemos pagando para os mortos. Ninguém questiona a autoridade de um morto. Eles mandam. Nós temos muito temor aos mortos; respeito. Ninguém brinca com gente morta. Nós é que vivemos pagando coisas para eles. Aqui se faz e aqui se paga? É, mas muita gente dá o calote. Aliás, acho inclusive que os mortos cobram aluguel da gente. Não estamos aqui nessa vida de favor? Esse corpo não é um favor? Um empréstimo, como dizem muitas religiões? Somos inquilinos do além.”
“Nossa, bonita expressão: ‘inquilinos do além’; parece até nome de banda”, devolveu ele. E assim surgiu o nome deste blog, através de uma divertida reflexão sobre esses nossos companheiros eternos, os mortos.

Sunday, January 30, 2005

SINCERAMENTE, NÃO SEI O QUE SIGNIFICA ISSO 3

E Deus continua, porque a eternidade não tem parada mesmo:

Porque eu sou complicadinho mesmo, sabe. Já tentei de tudo para descomplicar, tentei e tento dar milhões de avisos sem palavras, a voz oca, o rosto sem face da natureza, a ausência de sentido em tudo o que ela faz e que vocês vivem a dizer que sou eu. Tentei até mesmo extinguir qualquer lampejo de minha existência, para que vocês não matassem tanto uns aos outros para dizer o que sou ou deixaria de ser. Vocês inventam mil idiotices da própria cabeça e egoísmos seus, e jogam tudo na mesma vala sob o meu nome. E sei o quanto vocês temem esta minha invisibilidade, este meu silêncio colossal com ares de uma iminente explosão e destruição. Sou um vulcão prestes a explodir. Sou tudo o que é maior e mais forte do que vocês. Sou tudo o que vocês não podem controlar: o destino, a morte, o sofrimento inesperado ou até mesmo o amor. Temam e agradeçam. Ao temer, venham até mim e pensem que somos um só, pois sou tudo. E agradeçam, pois o acaso é um absurdo sem sentido.

Mas o homem carrega questões no lombo: Mas Senhor, onde você está quando um pobre e indefeso ser agoniza e sofre o absurdo da dor em que nenhuma explicação é capaz de dar conta? Se você pode tudo, se você é o Bem absoluto, por que o mal, Senhor? Por quê?

Deus: Há mais de quinhentos anos que venho dizendo isso: culpa é de vocês humanos. Eu dei o livre-arbítrio. Agora vocês é que se virem com a merda toda que têm aprontado.

Homem: Mas Senhor, a liberdade não explica tudo. O maremoto que dizimou centenas de milhares de vidas em poucos dias e ainda mata de fome e doença por sua destruição, não tem nada a ver com o que estamos fazendo. Ninguém foi lá e atiçou a baba seca da cólera do terremoto. E um pobre e indefeso animal que quebra a perna e agoniza de inanição no meio da floresta intacta? Que culpa temos nós nisso?

Deus: Deixei tudo muito bem escrito aí na Bíblia. Vocês me desobedeceram, me traíram, comeram do fruto proibido. Desejavam a liberdade e eu dei. Antes disso tudo não havia o Mal. Então eu resolvi tirar um bom proveito de sua desobediência. Ah, querem fazer o que dá na telha? Sim, pois não. Mas agora sejam responsáveis pelo destino do mundo. De um mundo que é uma versão violada do Paraíso. E violada por vocês mesmos. A partir desse nosso desacordo inicial, ficou assim estabelecido: eu não governo mais porra nenhuma. E não venham dizer que eu pari o mundo e sumi. Não, não, não. Eu dei a luz ao mundo, que era um Paraíso, por sinal. Aí vocês resolveram começar a fazer o que queriam. Vocês fugiram do meu controle. Agora, como bons filhos meus que são, vocês seguirão os passos do Pai. Um dia, sob o meu exemplo, vocês serão capazes de resgatar o Paraíso. Este é o destino de vocês, de serem deuses também.

Homem: E esse papo de juízo final? Esse negócio tá parecendo reality show. A gente desobedece, você nos dá as contas, para depois vir cobrar novamente? O quê? Nossa existência desde o Paraíso tem sido um teste? Você soltou a boiada para testá-la? Foi assim: sintam o gostinho da liberdade, e vejam que ela não vale a pena? Sintam o gostinho da liberdade (e uma liberdade bem vigiada, porque você vive com esses zóio grande aí, oh, olhando pra gente o tempo todo, marcando nossos pontos para o juízo final)... Então, sintam o gostinho da liberdade, para depois voltar a serem crianças por toda a eternidade, meus filhos obedientes. Pra quê a liberdade, se o nosso destino é obedecê-lo? Você deu a liberdade para que nós quebrássemos a cara, e aprendêssemos na pele que o destino de tudo não cabe a nós? E se hoje somos responsáveis por tudo, qual é a finalidade de você existir?

Deus: Você não sabe nada, meu jovem... (a continuar, se o leitor quiser...)

SINCERAMENTE, NÃO SEI O QUE SIGNIFICA ISSO 2

E Deus, esbravejando vapores eternos de colgate total, replica:

Prefiro mil vezes a morte do que perder a vida. Mas sou a eternidade em carne e osso. Sou o osso duro de roer de todos os mistérios da miserável razão humana. Sou nuvens em avalanche em estórias bíblicas de cinema. Em sânscrito, significo “céu iluminado”. Sou então um céu cortado fora à fora de luzes e trovões. Viram só? Posso ser muito violento. E que o homem não se meta comigo. Basta me amar.
E eu me afastei dos homens? Sou um pai que pariu o mundo e sumiu? Sumi para lhes dar liberdade? E libertar é abandonar?
Vocês são os responsáveis por essa bosta toda que está isso aí. E nem venham vocês, psicanalistas, dizer que sou histérico. Só porque posso desabar o céu na cabeça de vocês de vez em quando? Posso? Posso, mas não faço. Tenho todo o poder para não usar um grama dele sequer. Poder demais é para isso, para não ser usado: basta intimidar. A posse de um poder excessivo já é a sua utilização. Sejam então filhotes obedientes e entrem em harmonia comigo, me amem.
Não estou pedindo, estou mandando. A minha própria existência é uma ordem para que eu seja amado. Do contrário, vocês estão fritos. Não preciso dizer nada, pois é o que todas as religiões que mencionam meu nome já dizem: “Ame à Deus acima de tudo, ame à Deus”. Este é o pedido desesperado de todas elas. “Mas ame através de mim, através dessa religião aqui, ó”. É, e estão dizendo, sem perceber, que não há como me amar sem um atravessador. A relação comigo nunca é direta. Eu sou esse carinha que vive mandando recados. E meus garotinhos de recado, meus mensageiros, meus carteiros, meus pombo-correios, são os caras que mais tem moral na história da vidinha de vocês, na história desse planetinha aí, ó. Só que o maior problema é que eu digo uma coisa e eles sempre transmitem outra. Mas não há como ser de outro jeito. Vocês nunca irão entender o que eu tenho a dizer. Porque eu sou complicadinho mesmo, sabe. Já tentei de tudo para descomplicar...
(a continuar...)

Saturday, January 29, 2005

SINCERAMENTE, NÃO SEI O QUE SIGNIFICA ISSO

E disse, desiludido, um poeta, querendo dar uma de padre: Pelo temor, que é vizinho da dor dos mais fracos, para poder expelir bolhas de alegria por toda a eternidade do prazer de um beijo no ponto de fogo da zona atômica da paixão; estamos novamente aqui, senhores, a anunciar a bosta do sacramento entre dois seres iludidos pela conversa fiada da promessa de um amor infalível.
E do fundo do céu, do horizonte da praia da esperança, cheia de bobs na cabeça, com o feijão no fogo, Dona Zuleica argumentava: Não, meu filho, não pense deste modo. Assim seu karma será voltar-se para o mundo de sua própria miséria de otimismo a assumir o triste fim do amor que alimenta a sua existência.
E a própria consciência, às vezes em estado de sapo, por vezes em estado de salto mortal do espírito, dizia: Quero ser mais eu, mesmo sabendo que eu já sei que eu não sou eu, e que o eu perdeu-se no fundo do que ele mesmo escondeu. Assim vou para a distância da estrada infinita de meu próprio delírio e digo pra Deus, baixinho, como se fosse seu compadre de boteco: dá um time*, maninho, dá um time...
E Deus, esbravejando vapores eternos de colgate total, replica...
(a continuar...)
*time significa tempo, em inglês

Saturday, January 15, 2005

PEÃO SEM RODEIO

(3º lugar no Concurso Sesc-DF de contos de 2004)

O iceberg da montanha do leite em pó na água do copo me esperava uma iniciativa. O pão confuso, deitado em duas fatias, pedia manteiga. A fome do fim da tarde fazia pressa em cada movimento, o estômago vociferava o apito da hora de comer. Ao fundo, lá no portão da frente, uma franzina palma seca se anunciava, meio que abafada pela música do toca-discos laser. Repetitiva, insistia na escuridão das 20 horas.
- Pronto.
- O dono da casa está? - mal se via o vulto preto por detrás daquela voz mole e escondida que muito se bate nas portas do por aí.
- Sou eu mesmo.
- Sabe o que é, você tem aí uma sacola para eu guardar meu cobertor? - em frase que acaba a pilha no final, emprestando palavras ao vento.
- Como? Eu não ouvi. O senhor poderia repetir?
- Você tem uma sacola pra eu carregar meu cobertor?
De perto, o vulto negro era um preto jovem, mulato de olhar tranquilo e ingênuo. Calças compridas, botas de pedreiro, uma velha e descorada camisa boiadeiro. Parecia um daqueles peões, campeões de rodeio em entrevista rápida para a televisão. Falava olhando ora pro chão, ora pra mim, tal qual gente simples da roça. Nem cheiro, nem olhar que exibisse pinga. Fala calma e sem rodeios daquele peão. Logo imaginei que andasse a pé e domasse a fome sempre a procura do teto de uma noite só.
- Espera só um momento que verei se tenho algo.
Ao procurar a sacola que faria mais rico o homem da roupa do corpo e do incômodo cobertor enrolado debaixo do braço, lembrava da cena crua a castigar a consciência. Mulato-peão-sem cavalo-a girar por aí, segurando criança o cobertor precioso, companheiro do frio e do calor, do pesadelo e da solidão. Talvez nele também abafasse seus medos. Homem só, noite seca, o vento prometendo frio. Seus dentes seriam cariados? Não sei, o sorriso de boca fechada do caipira, uma escuridão sem lampião e a lua esfumaçada pelos escapamentos insistentes do dia. Em setembro, o dia abandonado ao sol escaldante e a noite zunindo algum frio. E durante o dia? O que fazia com aquele cobertor, filho único nos braços? Gente em companhia de mochila nos ombros, nas costas, chapéu na cabeça, cigarro no bolso, filho nos braços, de mãos-dadas... mas com um cobertor na mão? Perplexo, divaguei. Na verdade o que aquele homem queria? Ele sonhava? Havia querer?
- Eu não entendi muito bem... - a sempre burra distância que nos separa do vulto da porta, por detrás das nossas grades, escondendo outros mundos. - Qualquer sacola serve? De plástico, de supermercado? Porque a mochila eu não tenho.
- Pode ser, pode ser. É só para guardar o cobertor.
- Já sei. Acho que tenho uma sacola grande de plástico, caberá o cobertor.
A melhor sacolinha moribunda que conseguia imaginar era aquela abandonada no canto mais empoeirado do quarto. Há muito não punha as mãos naquela bagunça. Tênis sem sola, cadernos usados, caixas de sapato e sacolas grandes de papelão. Essa de plástico, essa de papelão e ... divina descoberta! Uma mochila velha, marrom de poeira, praticamente inteira, esquecida e rejeitada naquele canto. Por que não? O homem do cobertor não merece aquela mochila velha, feia, quase-inteira e ainda em condições de uso? Mas, para onde iria o homem de mochila nas costas e sacola na mão?
- Por que você está carregando esse cobertor? - qualquer preconceito maior me chamaria de burro, respondendo o óbvio: não tem casa, mora na rua.
- Eu não sou daqui. Sou de Santos. Tô procurando emprego, mas não encontro nada, tá difícil, aqui tá muito difícil. Assim que der volto pra lá. No porto é fácil de encontrar serviço. Já chego e já arranjo.
- Que serviço você está procurando aqui na cidade?
- Trabalho como sevente de pedreiro, torneiro mecânico, mas tá muito difícil, o desemprego tá grande. Vou levantar uma laje aqui e aí eu volto pra Santos.
- E você está dormindo aonde?
- Onde dá, faz uma semana que estou aqui. Só não chover, tá bom.
- Você tá dormindo na rua?
- É... - responde meio hesitante.
- Se você arranja mais fácil um emprego no porto, por que ainda vai tentar trabalho aqui?
- Fazendo esse serviço aqui eu consigo o dinheiro da passagem.
- Você não tem o dinheiro para voltar?
- Não.
- Tentou pedir em alguma porta?
- Do jeito que a situação tá, não dá. Tá difícil, ninguém tem.
Humildemente relatava uma verdade estatística da qual era uma grande vítima. Porém, nem mesmo a verdade dos números era capaz de esconder a mentira de dezenas ou centenas de "não-tenhos", ideologicamente a negar o pedaço de pão duro aos nossos filhos vagabundos.
Ouvi algumas palavras de seu mundo arredio. Meu planeta mimado indignava-se com aquele peão sem rodeio, pião a girar sem futuro, de costas para a luz da lua. Rodava nos por aís, batendo palmas na pouca paciência sem memória de um mundo em só agora. Transmitido ao vivo para todo o Brasil, o cãopião só dava entrevistas algemado, à mercê de um carrasco ao microfone: "o que você acha que merece, Eudanel?". Após sonegar-se aos andaimes e ao salário-mínimo, o que você acha que merece, assassino?
Chamava-se Eudanel. E o nome estranho já não surpreende na estranheza daquelas vidas para as quais viramos o rosto, fugindo de alguma contaminação. Medo e fuga. Aquilo não existe, a miséria ao relento, o dente cariado, bichos em trapos a cambalear pela cidade lavada de sol e egoísmo, o rosto atacado de rugas chorando um pão-duro. Nosso olho não vê, não tem tempo. Façam silêncio, está na hora da novela, jornal nacional. Eles são menos, desimportantes, micro, microscópicos, bactérias. Lave as mãos, não se esqueça. Deixemos de lado, do lado de lá do portão, das câmeras... Dá logo o dinheiro! Não!! Não dê dinheiro, pode ser pra pinga. Tem que trabalhar, não vamos alimentar a vagabundice, a malandragem. E não vemos a bactéria no fundo da nossa retina míope, corroendo nosso globo ocular, globo solar, nossa luz a nos pedir esmolas.
Fuja, Eudanel-quase-nunca-Eudanel. Quem te chama pelo nome? "Vai trabalhá", vá passar frio em alguma marquise suja do centro da cidade. "Vai carpir, carregá saco". Afinal, "eu sô burro" mesmo, "se fodi na escola".
Os pais eram de Santos. Para o meu espanto, sabia ler, portava documentos e tinha o trocado do ônibus que o levaria até o centro da cidade para, na Prefeitura, contar o que queria, voltar para Santos.
- Se é isso o que você quer, espero que consiga. Boa sorte.
- Obrigado...
Minha fome reclamava a volta à cozinha. O iceberg de pó, intacto, ainda não 7havia derretido, leite em pó solúvel da melhor multinacional. O homem do cobertor me fazia bolhas no copo. Eu rezava por um estômago bem longe da consciência, que aquele leite não se revoltasse com alguma injustiça, seja meu sono guardado em outro mundo, seja a consciência também algo que o tempo consome. Estava Eudanel também com fome? Resposta sem rodeio, o frio pedindo o grito mais alto na noite de vento, o estômago pode esperar pra falar de comida. Ou havia acabado de comer, sobra fria, requentada, o luxo da esmola, resto de marmitex? Aquele vento balançava a realidade trazia poeira distante, a voz beduína no portão, pobres pedintes, refugiados do egoísmo, do desprezo moribundo. E vem sempre, voltam sempre os Eudaneis (que não voltam para Santos) com as palmas de sempre e os nomes de nunca.

Tuesday, January 11, 2005

DE DEUS EM QUANDO


As horas saltaram do relógio, todas em comboio ou esvoaçando, não me lembro.
Na caverna do quarto,
da minha alma,
do meu medo,
pude falar com com um raio de sol e uma cauda de nuvem, talvez fosse Deus...
Ele não falava nada, mas me deixava surdo
Ele não era nada e tão nada dizia tudo.
Ou melhor, ele era um pouco menos que nada
Estava lá, entre o nada e o lugar nenhum,
Abrangendo do silêncio à página em branco,
Tão sem, tão... tão, tão nem, tão não...
O proprio vão
O vão que carregamos sem o sabê-lo
E tão nada dizia tudo,
Tudo e mais um pouco
Deus estava lá, onde não se estava e estava dentro de mim.
Deus era esse nada,
essa morte que carregamos no lombo e que se curte por debaixo de nosso couro
Assim, entreguei-me a Deus
E do seu rosto eu via somente a lua e a lembrança do sorriso de minha mãe.
Corri para o fundo do quintal e olhei para a boca do escuro do olho de Deus
Eu estava dentro de Deus ou ele estava dentro de mim?
Eu era um sonho de Deus?
Deus não é ninguém, é esse ninguém que me persegue, que fala ao ouvido de todos os homens que todos morrerão,
Deus é sempre esse aviso.
Não, Deus é sempre um desvio para outro desvio,
Deus é desviado, o marginal em estado puro.
Ele vem agora me dizer que estou com sono, com fome, que devo dormir, que minha caligrafia é o rascunho do ruindade do mundo, vingada em meus garranchos arrependidos e heróicos
Mas eu desobedeço a Deus
Não entendo nem mesmo esse seu nome no plural.
São vários eus? Eus de mim? Como se o mundo fosse meu através de uma gramática egocêntrica voltada para as ressonâncias mais íntimas que até mesmo a pedra mais fria fosse capaz de despertar?
Quem é Deus?
Ele não é
Mas diz para que eu seja
Para que eu seja mais calmo agora
E eu teimo em desobedecê-lo.
Isso é ser humano, desobedecer a Deus
Na hora certa?
Sim, pois o destino sempre carrega um certa ironia. E a ironia do destino é trágica. O drama humano é a saga de teimar em desobedecer a Deus. O homem só faz aliança total com Deus quando morre.
Se Deus existisse, a vida seria uma fórmula numa lousa lá no céu. O que a vida não deixa de ser, um conceito divino. Mas se Deus não existisse, a vida seria uma ironia do destino. O que também não se pode negar.
É isso, essa vida é uma piada.
Tudo corria conforme as trilhas marcadas do tédio celeste até que de repente Deus resolveu inventar uma piada, eis o homem pintando na história. Mas, depois Deus percebe que havia semeado na verdade uma tragédia. As piadas são imortais, divinas. E a tragédia é exatamente aquilo que foge ao controle divino.
Será que Deus deseja tanta miséria e injustiça?
Não, Deus não deseja nada, pois nada lhe falta. Deus não fica furioso ou infeliz, não se rebaixa a isso. Assim, Deus não cobra, pode ficar tranqüilo.
Mas é que Deus nos deu de presente algo maravilhosamente sábio e assassino, o tempo. Mas o tempo também não está em lugar algum a não ser na cabeça de quem sabe que morre um dia.
O tempo é Deus ou o irmão dele?
O tempo é gente abraçando o vazio ou uma boa causa, no caso de quem sabe se aproveitar dele. E o tempo é causa de tudo.
Mas cansa querer falar disso como se fosse tarefa de casa, uma redação sobre Deus ou a geografia divina.
Nem mesmo andando por dois milhões de pais-nossos e aves-marias poderíamos encontrar a rua em que Deus mora ou número de seu telefone.
Falar de Deus é sempre engraçado. Ele nos enebria e nos faz sentir fora do corpo. Porque Deus está lá, no além, retumbando aqui dentro, no canto do vento, flutuando no mim e no amém.
É mesmo. Mesmo não sendo, assim o desejo e deliro e que assim seja, amém...

Monday, January 10, 2005

DEUS EM PROSA

Pensar, sentir, negar, amar e até odiar a deus; qualquer coisa que se relacione com ele (filosofia, espiritualidade), também me fascina muito. Gosto muito de filosofar sobre Deus, ou até mesmo tentar escrever uma poesia, ou uma carta infinita para ele. Às vezes penso em Deus e tenho vontade de começar uma carta para ele, sem fim. Porque mesmo o ateu, de vez em quando parece que também conversa com Deus (ele existindo ou não, se é que podemos falar nesses termos, em existência). Deus existe? Ou é algo um pouco além disso? Como se pudéssemos dizer que ele na verdade subsiste a tudo, que é o todo; logo absoluto, logo livre e necessário. Assim, Deus não poderia ser definido, mas é aquilo que define tudo: "incausado", causa de si mesmo, antes do mundo (ex-machina), anterior ao tempo (na eternidade não há tempo; a eternidade não é um tempo grande, infinito: seria outra dimensão, se é que assim podemos falar). Gente, resumindo: adoro pensar sobre esse cara, Deus; ou mesmo senti r que sinto sua presença, mesmo que isso seja mero en-tusiasmo. Traduzindo a palavra entusiasmo: somente ou o tudo de ter Deus dentro de si). Mesmo que tudo isso seja mera ilusão. A experiência de plenitude, seja ela na igreja, no terreiro, no amor, na brisa fresca da manhã com passarinhos cantando e o sol nascendo, ou mesmo na cama cm quem a gente ama: isso tudo para mim pode ser Deus, ou qualquer outro nome que vocês quiseram dar pra essa estória. Tudo isso nem pensa na verdade. A gente vive. São experiências totais, de plenitude.
Desculpem-me, devo ter escrito demais. Escrevi, há pouco tempo, uma poesia, em um momento em que me sentia perto de Deus, ou do amor, da paixão, não sei. Era um momento, para mim, em que minha alma sobrevoava uma grande imensidão de não sei o quê. Abaixo, cito alguns trechos da mesma:

"Sou também aquele que mira o absurdo e pode degustá-lo. Volto a voar por entre nuvens e horizontes de alegria estampados no sorriso de quem se colidiu com um caminhão de sentimentos e o terremoto que isso faz na alma. Jamais somos somente o que se fabrica nas vozes que comandam a orquestra da banalidade. Somos vulcão e a onda do mar de sensações que explode com qualquer exército de razão. Somos folha no vento soprando saudade na vila do desejo. Somos também uma coisa que respira poesia, e o parto de uma tempestade de belezas inauditas. Basta descobrir a criança que sorri por detrás do homem. Basta desenterrar canções que plantamos para colher um pouco de amor. (...) Deve-se olhar para o fundo da terra moída de nosso segredo e de nossa dor. Deixar que as mãos instalem o futuro de nosso sorriso. Peço demissão do mundo feito máquina de bajular a normalidade. E o dia começa em um sorriso de duas palavras e um coração povoado de vida."

Também tenho uma poesia que escrevi somente sobre Deus (De Deus em quando). Só eu e ele: "o Deus". Esta expressão eu ouvi dizer que saiu da boca de uma criança pequena, muito aflita e chorando pela mãe que acabara sofrer um acidente na sua frente: "Minha mãe... minha mãe (...) Cadê o Deus, cadê o Deus? Por que ele não tá aqui pra ajudá minha mãe?"