Monday, July 04, 2005

Os loucos 2 (Na vida de um beijo)

João Renato era machista, preconceituoso, grosseiro, insensível. Ninguém entendia por que havia escolhido estudar Psicologia. Era uma das primeiras visitas de nossa turma a um hospital psiquiátrico. Uma das internas, Claudete, ficou imediatamente fissurada por ele. Era baixa, bem gorda e forte. Tinha a boca muito grande e não tinha os dentes da frente. Transitava sempre com o mínimo de roupa possível ou até mesmo nua. Como a maioria dos pacientes, tinha a aparência intensamente afetada por seu histórico de doença mental.

João Renato não conseguiu disfarçar. Estava extremamente tenso com a abordagem de Claudete. Andamos por todas as alas do hospital e ela fez questão de nos acompanhar, de braço dado com ele. Não desgrudou um minuto. Ele não sabia como agir. Somente era capaz de fazer o que sempre fazia com qualquer um: transpirar indiferença, irritação e até arrogância. Claudete não deixava por menos: “Poxa, gatinho, vai ficar fazendo bico. Tô aqui te recebendo com o maior carinho na minha casa e você não é capaz de dar um sorriso?” E João Renato soltava um sorriso forçado, amarelo, quase perdendo a paciência. “O que foi, gatinho? Não gostou da minha blusinha. Se quiser eu tiro, fico sem nadinha, pra você”.

E Claudete ficou assim durante toda nossa visita, abraçadinha a João Renato e tentando agradá-lo com suas palavras carinhosas: “Ele é lindo né, gente”. Chegou a hora de irmos embora. E muitos dos internos mostraram sua insatisfação. Queriam que ficássemos. Estavam tão felizes com a visita, tão fascinados pela presença de gente do mundo fora, de jovens saudáveis e “bonitosque se dispunham a estar ali naquele momento. Sentiam-se honrados pelo mundo de vez em quando saber que existem, de haver qualquer contato. Uma senhora chorou. Aquela visita mexeu mais com eles do que conosco.

A despedida deu-se com muitas trocas de abraços. Porém o foco era João Renato e Claudete. Ela deu-lhe um abraço bem longo e, logo após, travando-lhe o pescoço com os braços, lascou-lhe um beijo na boca, bem molhado.

No caminho de volta à Universidade, João Renato não dizia uma palavra, estava absorto na experiência única pela qual houvera passado. Contudo, logo pudemos perceber que a pessoa mais afetada por aquela visita fora ele próprio. Passou, pelo menos em relação ao curso de Psicologia e à nossa turma, a mostrar uma outra face, que ainda não conhecíamos. Havia mudado. Com o passar dos meses pudemos ali perceber outra pessoa. Parecia mais aberto às diferenças, mais disposto a ouvir e experimentar coisas novas, mais sensível. E como, a partir dessa mudança, sofreu. Sua sensibilidade ficava à flor da pele. Funcionava com um pára-raios. Era capaz de mergulhar na dor dos outros, de gente indefesa, como ninguém. Desesperado e revoltado com as injustiças dessa vida, por vezes não sabia o que fazer. Sonhava romanticamente com um mundo melhor, e sua revolta era uma companheira eterna que nunca o deixava se acomodar. Uma criança indefesa frente a tantas coisas por se fazer.

Abriu-se para os outros e para a vida com uma coragem rara e tinha uma ânsia muito grande em consertar o mundo. Quantas vezes, nos anos em que convivemos pude vê-lo quebrando padrões, questionando a hipocrisia e uma série de contradições que compõem a vida social. Não queria acomodar-se, não queria ser cúmplice com o que era injusto ou egoísta. Possuia uma disposição enorme para o sacrifício, para doar-se, protestar e chamar a atenção para a injustiça.

Adentrou o movimento estudantil. Era dos militantes mais puros e sinceros. Mas muito revoltado. Fazia acampamento em frente à Reitoria e até greve de fome se necessário. Em protestos públicos e passeatas, apanhou da polícia algumas vezes e chegou até a ser preso. Foi perseguido por um diretor da Faculdade. Montaram uma comissão para avaliar sua sanidade mental. Argumentavam que talvez não tivesse condições psíquicas para exercer a profissão de psicólogo. Toda a faculdade se mobilizou em seu favor. Mesmo assim foi submetido a uma bateria de testes e de avaliações psicodiagnósticas. Nada de revelante foi constatado pela comissão e pôde receber seu diploma. Então os alunos se reuniram e fizeram uma grande festa para comemorar uma conquista que para João Renato havia sido tão sofrida: o direito de trabalhar como psicólogo.

Nos dois anos seguintes começou a trabalhar em um hospital psiquiátrico e passou na seleção para o mestrado. Continuou então na Universidade e não se afastou dos movimentos estudantis. Contudo, sua loucura parecia crescente. Realizava performances absurdas durante os protestos ou mesmo se dispunha a protestar sozinho, das formas mais bizarras possíveis. Exibia mensagens, seja em camisetas ou no corpo, muitas vezes incógnitas. O que antes era engraçado e excêntrico passou a ser visto com reservas. Mesmo os amigos mais próximos não entendiam o que dizia.

Durante as festas bebia um pouco, e antes que ficasse bêbado não hesitava em proferir discursos inflamados, em arrotar sua revolta para quem estivesse por perto. E a estas atitudes somava-se o ato de despir-se. Perambulava pelas festas completamente nu, como se nada estivesse acontecendo. Debatia com muita desenvoltura e inteligência sobre os mais diversos assuntos (filosofia, artes, política, história), porém, completamente nu. Quem não o conhecia ficava muito assustado: fugia ou ia aos poucos se acostumando, até percerber que João Renato era uma boa companhia. Era um maluco-beleza, um louco querido, que todos queriam por perto.

Entretanto, estava sendo tragado por um processo de enlouquecimento. não sabíamos distinguir entre o que era genial ou patológico. Até que um dia sua nudez e seus discursos insanos resolveram fugir do ambiente protegido das festas para ir sambar em frente à direção da Faculdade ou Reitoria. Não tardou e finalmente, um dia, João Renato foi internado. Ficou ao todo dois meses internado em um hospital psiquiátrico, público - mas que era modelo, um dos melhores do Brasil àquela época – e um ano afastado de suas atividades profissionais e acadêmicas.

Um dia reencontrei João Renato na rua. Estava novamente envolvido com teatro, artes e aplicando seus conhecimentos dessas áreas às oficinas que realizava no centro de saúde mental. Fiquei muito feliz e surpreso, pois parecia estar bem recuperado de toda a viagem que havia feito ao inferno. Conversamos por quase uma hora. Convidei-o então a dar uma palestra sobre seu trabalho e sua experiência junto a meus alunos.

Sua palestra foi excelente, inesquecível. É incrível como pôde absorver tudo o que lhe ocorrera em sua história de vida de forma muito construtiva. Era uma pessoa profundamente envolvida com sua profissão e com a vida de um modo geral. Falava com muita desenvoltura e ao mesmo tempo serenidade. E em um determinado momento da palestra lembrou-se, com muito bom humor e uma boa pitada de ironia, onde tudo havia começado, em sua experiência indescritível da primeira visita a um hospital psiquiátrico: “Na verdade aquele é que foi o meu primeiro beijo.”

4 comments:

Ingla Faulstich said...

oi Adriano... adorei seu blog... seus textos são fantásticos!!
Passarei aqui sempre!
Beijosss

Anonymous said...

Faz tempo que voce nao escreve... Estamos no dia 11-07. O que esta acontecendo, hein rapaz?

Quero dizer que voce nao escreve no blog porque e-mail que e bom voce nunca escreve.
Afinal esta historia e baseada em fatos reais? Achei tristissinha...
um abraco do Josafa Crisostomo
josafacrisostomo@ig.com.br

Eliana Costa said...

Parabens Frank pela coragem de expressar as ideias!!Adorei! Eliana Costa!

Eliana Costa said...

Parabens Frank pela coragem de expressar as ideias!!Adorei! Eliana Costa!