Sunday, November 27, 2022

O que é o futebol?

Futebol é o jogo surpreendente com uma bola que rola. Com alguma avalanche de pedras que se anuncia nos declives de nossas angústias e desesperos. É um jogo difícil, jogado com os pés. Há algo meio primitivo ou selvagem nisso. A bola não pode ser manuseada. As mãos, que constroem e constituem o mundo humano, tão caracteristicamente humanas, não entram na equação. E mesmo assim é uma encenação quase perfeita da vida, cuja finitude não pode ser manipulada. Porque nessa vida, com todos seus revezes, acasos e surpresas, apesar das mãos e de todo o seu poder, a gente precisa também se jogar e jogar com os pés.

As surpresas do futebol

É difícil uma copa do mundo de futebol não ser divertida ou não ter algo divertido.

Acompanho copas desde de 1982, quando o Brasil era a sensação, com seu futebol-arte e goleadas em quase tudo o que é time. Mas a grande surpresa foi mesmo a Itália, que na primeira fase empatou em 0 x 0 com a Polônia, 1 x 1 com o Peru e 1 x 1 com Camarões. Mas que da segunda fase em diante foi progressivamente arrasadora, batendo a Argentina de Maradona por 2 x 1 e o favorito, o Brasil, por 3 x 2, com 3 gols de Paolo Rossi em ascensão fulminante durante a competição. Sendo que daí em diante ninguém mais segurou os italianos, até a sua vitória na final por 3 x 1 contra a Alemanha.

Em 1986 a sensação foi a Argentina, com Maradona, que nos presenteou com lances e gols incríveis, sendo um deles um dos mais bonitos de todas as copas - aquele no qual ele percorre quase o campo todo, driblando meio mundo e o goleiro. Mas também tivemos outras surpresas, como a Dinamarca, que a imprensa chamava de Dinamáquina. Porque os dinamarqueses tinham sido arrasadores nas eliminatórias, com várias goleadas memoráveis nos anos anteriores, além de, na primeira fase, vencerem o Uruguai por 6 x 1 e a Alemanha por 2 x 0 . Foram para as oitavas contra a Espanha (que naquela época era um time bem mais fraco que Alemanha e Uruguai), e levaram uma surra dos espanhóis de 5 x 1, que depois perderam para os belgas nas quartas.

A copa de 1990 foi uma das mais chatas da história, porque caracterizava o fim do futebol-arte e a hegemonia do futebol-força, tendo a menor média de gols da história. Mas também teve suas surpresas: o desempenho empolgante de Camarões, que foi o primeiro país africano a avançar até as quartas de final; e as reiteradas defesas de pênaltis do goleiro argentino; isso somente para citar duas das surpresas das quais me lembro.

Em 1998, na França, houve alguns jogos emocionantes. Na primeira fase o Irã surpreendentemente venceu seus rivais geopolíticos, os EUA. O Brasil avançava bem, com Ronaldo explodindo, fazendo com que fôssemos para a final como favoritos. Mas aí Ronaldo “amarelou” e a França venceu por 3 x 0, um placar surpreendente. Apesar da derrota, foi bonito de ver a festa em Paris, com os franceses extasiados por serem campeões do mundo pela primeira vez.

Sobre 2002 nem preciso dizer nada. Porque ganhamos o penta com alguns jogos e vitórias memoráveis.

2010 teve a delícia de vermos pela primeira vez uma copa na África e a Espanha levando seu primeiro caneco.

Em 2014 teve a memorável vitória de 7 x 1 da Alemanha sobre o Brasil.

Lembro-me também de Nigéria, Costa Rica, Costa do Marfim e Grécia surpreendendo em copas passadas, as quais não consigo agora especificar.

E nesta copa já tivemos algumas saborosas surpresas. O Japão venceu a Alemanha, e hoje perdeu para a Costa Rica que, por sua vez, havia perdido para a Espanha por 7 x 0. Sendo que o Japão dominou o jogo e a Costa Rica venceu com um belo gol, no final, com seu único chute a gol durante todo o jogo.

A Arábia Saudita venceu a Argentina por 2 x 1 com dois golaços, com preleção cinematográfica de seu treinador, no intervalo, nos vestiários.

O Irã, depois de perder de 6 x 2 para a Inglaterra, venceu Gales por 2 x 0, com dois gols nos dois últimos minutos dos acréscimos. Sendo que Gales empatou com os EUA, que empataram com a Inglaterra.

E ontem, na vitória de 2 x 0 da Argentina sobre o México, Messi marcou o primeiro gol, na primeira oportunidade que teve, de fora da área, depois de ter passado o jogo todo apagado.

Futebol é o jogo surpreendente com uma bola que rola. Com alguma avalanche de pedras que se anuncia nos declives de nossas angústias e desesperos. É um jogo difícil, jogado com os pés. Há algo meio primitivo ou selvagem nisso. A bola não pode ser manuseada. As mãos, que constroem e constituem o mundo humano, tão caracteristicamente humanas, não entram na equação. E mesmo assim é uma encenação quase perfeita da vida, cuja finitude não pode ser manipulada. Porque nessa vida, com todos seus revezes, acasos e surpresas, apesar das mãos e de todo o seu poder, a gente precisa também se jogar e jogar com os pés.

Sunday, November 06, 2022

Orações e religião em meus grupos no CAPS

Sou agnóstico. Ou seja, simplificando: não acredito em nada, e não me comprometo com qualquer tipo de crença religiosa. Não acredito na existência de Deus nem na sua inexistência.

E hoje, no CAPS (em um grupo de terapia pela fala que coordeno), houve muita oração. Sim, oração: ficou parecendo um templo, uma igreja.

O paciente que assim quisesse se sentava numa cadeira, no centro da sala, e os outros, que também assim quisessem, se aproximavam e tocavam esse paciente com as mãos, sendo que cada um ficava à vontade para proferir suas orações, sua fala, da forma como achasse melhor.

Não entrarei em maiores detalhes sobre como o grupo chegou a esse estágio para não expor nenhum de meus pacientes. Mas posso lhes dizer que hoje os efeitos dessa prática, dessa vivência, em especial, foram muito interessantes.

Um dos pacientes estava muito resistente, tanto ao grupo quanto à minha pessoa. Simplesmente se negava à comunicação verbal, com expressões faciais de profundo desprezo em relação a todos os presentes. Dei a oportunidade para que todos se expressassem sobre como se sentiam em relação a esse tipo de interação. 

A sensação que de certo modo imperava era a de que essa pessoa estava com uma raiva muito grande de tudo e de todos nesse mundo. Havia um abismo imenso, e muitíssimo incômodo e constrangedor, entre o grupo e esse paciente, o qual já faz parte desse grupo há mais ou menos dois anos. 

Senti que não seríamos capazes de avançar, e de quebrar um pouco o gelo, se continuássemos somente nesse tipo de interação verbal, mais convencional. Tenho percurso, experiência, com outras formas de intervenção e resolvi então propor essa vivência, a qual já tínhamos realizado várias vezes em outros grupos, tais como o grupo de teatro ou o grupo de expressão total, ambos atualmente não mais ativos, mas que foram também coordenados por mim. 

No início todos tocavam a paciente, que estava no centro, e oravam em completo silêncio. Observando as expressões de cada um, percebi que um deles estava muito compenetrado. De modo bastante sutil fui até ele e sussurrei que ficasse completamente à vontade, e que inclusive soltasse a voz, se assim o desejasse.

Ele se empolgou e passou a orar em voz alta e com bastante vigor. Indaguei se mais alguém gostaria de fazer sua oração em voz alta, e ninguém se manifestou. Então, feito isso, houve o momento em que cada um, individualmente, abraçou o paciente em questão. 

Nessa hora me emocionei e não contive minhas lágrimas. Aliás, não fiz esforço algum para contê-las. Quando todos já tinham lhe dado um abraço, fui na direção desse paciente e também o abracei, pedindo-lhe desculpas por qualquer coisa que eu pudesse ter feito, ou falado, que o tivesse machucado. Nos abraçamos e choramos, juntos, abraçados.

Portanto fiz questão de mostrar ao grupo que eu estava emocionado. Também verbalizei sobre o que estava sentindo naquele momento e por quê.

Foi uma intervenção muito difícil. O paciente estava muito resistente e por vários momentos pensei que o caldo fosse entornar, que esse paciente fosse me hostilizar. Isso causaria danos ao nosso precioso vínculo. 

Quando isso ocorre não há como não nos entristecermos. Quebra de vínculo com quem a gente cuida, com quem a gente ajuda, com quem a gente ama, é sempre doloroso. E psicólogo que não cuida, que não interage com seus pacientes com carinho, com muito carinho, com amor, está fazendo tudo errado. Então a quebra de vínculo é sempre dolorosa, porque é uma quebra muito similar a qualquer quebra de vínculo que existe entre duas pessoas que se amam.

Enfim, é isso o que eu queria dizer aqui pra vocês: que hoje de manhã, esse momento, essa ocasião de minha interação com esses pacientes, foi emocionante. E continuo tranquilamente sendo agnóstico.

Texto de 22/09/2016

Saturday, November 05, 2022

Louco do 4º ano

 Já me comportei muitas vezes nessa vida de um modo mais próximo a algo parecido com a psicose, a loucura clássica. Porque já fui fascinado pela estética psicótica. Já agi de modo alegremente enlouquecido por inúmeras vezes.

Isso tudo começou por volta de meus 21 anos de idade, quando eu cursava o terceiro ano de psicologia. Em minha adolescência assisti a alguns filmes de comédia nonsense,  os quais inclusive talvez tenham sido uma das primeiras sementes de alguns de meus comportamentos psicóticos, ou dissociados, ou dissimulados mesmo, talvez simplesmente calculados para que eu conseguisse, naquele contexto, ter a interação que fosse a mais saudável possível para a minha sobrevivência social.

Em diversas situações eu me via encurralado com uma série de demandas e questionamentos, para os quais eu não encontrava a resposta que eu julgasse como 

satisfatória para dar para as outras pessoas. E assim acontecia o comportamento divergente, marcado pela bizarrice e o nonsense.

Dos 13 aos 14 anos de idade eu tive os piores anos de minha vida, com sintomas de ansiedade e depressão, marcados por sentimentos de intensa angústia e solidão. 1985 e 1986 foram dois anos torturantes, aos quais sobrevivi mediante um apaziguamento e uma estabilização lentos, na quietude de uma vida regrada em ser a pessoa mais boazinha que eu podia, aquele sujeito adolescente que nem mesmo sabia reconhecer em si sentimentos de raiva e de agressividade. 

Os dois primeiros anos no curso de psicologia fizeram com que eu me abrisse para algumas influências do Romantismo, relacionadas a permitir que as emoções e até mesmo a agressividade fluíssem com mais facilidade, e assim eu pudesse melhor me adaptar a uma complexidade das interações humanas da qual eu não tinha a menor ideia que era possível.

Passei então a me utilizar com cada vez mais frequência de instrumentos contracomunicativos e de uma interação mais esquisita, mais estranha com as pessoas. Assim deixava muitos desconcertados ou sem saber como me classificar.

Para muitas situações, principalmente as situações de encontro informal com outras pessoas, em ambiente festivo ou recreativo, esses comportamentos eram muito adaptativos e muito gratificados. As pessoas de modo geral gostavam muito e me tinham em alta conta nesses meios, inclusive também nos meios artísticos e culturais, porque tinha uma marca estilística muito forte. Essa estética da estranheza, juntamente com uma certa comicidade, despertava a admiração de muitos de meus pares.

E eu, por sorte, não era assim o tempo todo. Eu ficava mais agudamente pirado, como já mencionei, em ambientes recreativos ou festivos e culturais.

Então, classicamente falando, eu nunca fui louco e nunca enlouqueci. 

Porém, para quem me conhecia muito superficialmente, talvez coubesse esse tipo de classificação abusiva.

Lembro-me claramente de uma determinada vez, quando eu saía do restaurante universitário, quando uma estudante do quinto ano de psicologia apontou para mim e disse para outra, da mesma turma:

 - Aquele ali é o louco do quarto ano.

Lembro-me que achei o comportamento dela um pouco ridículo e risível. Então comentei com alguns colegas, e ficamos dando risada sobre o ocorrido. Nossa sensação era a de que aquela moça era bastante ingênua, para dizer o mínimo.

Sua vida era o que, por volta de 1968, muitos na França chamavam de metrô boulot dodô, para se referir à vidinha besta de alguém que só faz todos os dias a mesma coisa e sem qualquer tipo de abertura para atividades diferentes ou um pouco mais aventureiras.

Hoje não mais, mas sei que durante muitos anos, fui visto por muitas pessoas, que não me conheciam direito, como um sujeito meio doido. E eu continuava daquele jeito porque era muito divertido e gratificado. Meus amigos adoravam minhas doidices. E eu carrego comigo muito boas lembranças e saudades daqueles tempos.

Monday, October 24, 2022

Inteligentes de tão burras

Há pessoas inteligentes que são um pouco caricatas, meio Enéas Carneiro. Se acham muito mais inteligentes do que todo mundo e acabam assim se comportando de modo meio ridículo. Narram feitos intelectuais, cuja inverossimilhança é nítida. Ficam irritadíssimas e revoltadas com quem não concorda com elas, a partir de teses que outras pessoas, tão inteligentes quanto, não compreendem, por serem meio obscuras, contraditórias ou sem sentido, sem lógica. Se comportam geralmente de modo convicto e professoral. Quase não demonstram dúvidas ou pedem um tempo para analisar um determinado quadro ou situação. Ávida e constantemente tentam se impor ao mundo por meio de sua capacidade intelectual. E a cereja do bolo: carecem de habilidades sociais e vivem em constante e intenso conflito com inúmeros e variados tipos de pessoas. Sim, são inteligentes. Mas como são burras!

Tuesday, September 20, 2022

Não passarão!

Eu voltava do trabalho de bicicleta, como sempre, em um dia de sol escaldante e umidade bem baixa. 

Percebi que a mais de 100 metros de mim, à minha frente, havia um ciclista, pedalando na mesma direção que eu. Mantive meu ritmo normal, e 300 metros depois eu já estava ultrapassando-o, serenamente e sem pressa alguma.

Ele andava sem capacete e tinha uma bicicleta esportiva, veloz. Estava vestido como se estivesse indo malhar em uma academia, e tinha um boné com a propaganda política de um candidato de extrema-direita, neofascista.

Assim que foi ultrapassado, olhei pelo retrovisor e percebi que seu comportamento se alterou completamente. Ele passou a pedalar com muito mais intensidade.

Quem anda de bicicleta sabe que isso é muito comum. Muitos ciclistas, em seus trajetos para o trabalho ou para qualquer outro lugar, quando ultrapassados se sentem talvez meio desonrados ou desafiados, e assim se instaura uma competição tácita e feroz pelas ciclovias da cidade.

Ele estava então frenético, e pelo visto se sentiu muito contrariado de ser ultrapassado por alguém vestido com calça jeans, camisa, em uma bicicleta com aparência bem menos esportiva e com dois grandes alforges no bagageiro.

Ele realmente parecia ter uma boa capacidade atlética e sua bicicleta tinha um desempenho muito bom em declive. Estávamos em um declive ameno, de uns 4 km.

Ele manteve um ritmo muito forte e, por fim, após uns 800 metros, me ultrapassou.

Eu me esforcei bastante e estava talvez até mesmo desrespeitando alguns limites de minha própria capacidade. Abaixei a cabeça, me concentrei e passei a inspirar com mais intensidade. Eu precisava de mais oxigênio e de mais concentração. Eu somente conseguia olhar para seu boné, ver escrito o nome do fascista e pensava: 

- Não passarão!

Mantive o ritmo e o ultrapassei novamente. Ele, porém, não arredou. Continuava na minha cola.

A ciclovia chegou num ponto em que desembocava num posto de gasolina. Era necessário passar por dentro do posto, que tinha um terreno um pouco mais acidentado, composto por lajotas.

Olhei para sua bicicleta, com amortecedores, uma mountain bike, e senti que ali ele iria disparar na frente.

Porém, para minha surpresa, atravessamos o posto pareados. Quando chegamos novamente na ciclovia, eu estava novamente na frente.

Contudo, 200 metros depois, ele me ultrapassou novamente para, 100 metros depois, eu estar de volta na frente. E ele sempre bem próximo de mim, colado.

Fizemos uma curva, e chegamos na avenida. Eram muitos os carros que passavam. Estávamos um do lado do outro, pareados, esperando o fluxo diminuir para atravessar a avenida. Nem olhamos um para o outro. A concentração no fluxo de carros era total. Quem partisse primeiro teria uma boa vantagem.

Sai na frente e mantive o ritmo intenso. Olhei pelo retrovisor e percebi que ele foi desaparecendo sob a névoa seca. 

Eu me regozijava com sua silhueta que ia se desvanecendo, e pensava:

- É sempre uma batalha. Nunca foi fácil. Não é fácil. Mas temos de perseverar na luta. Não passarão!

Wednesday, September 14, 2022

Tropeços de um calouro

Março de 1991. Eu tinha 18 anos. Eram meus primeiros dias de aula na graduação, no curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (a Filô), em Ribeirão Preto.

Desde a matrícula, em janeiro ou fevereiro de 1991, até 1993, quando eu já estava no quinto semestre do curso, tive diversos atropelos e desencontros, dentre alguns felizes encontros, repletos de redenção. 

Lembro perfeitamente. Cheguei para a matrícula vestido com uma camiseta amarela, com alguma estampa infeliz, talvez com coisas bobas escritas aleatoriamente em inglês. Era uma camiseta velha, desbotada, cavada, que eu mesmo havia cortado com uma tesoura, sem qualquer tipo de costura. Eu também vestia uma bermuda preta, também muito velha, um par de tênis Bamba preto nos pés (daqueles mais simples, que pareciam Congas), sem meias e uma cueca roxa, daqueles modelos antigos que ninguém mais usava, bem velha, com dupla entrada na frente. Era muito provavelmente uma cueca com uns 5 anos de uso, herdada de meu irmão mais velho, e talvez tivesse até um furo na bunda.

Fui sozinho. Pedalei cerca de 10 km, num sol escaldante. Pensei que seria algo trivial e burocrático: assinar alguns papéis e cair fora. E eu não imaginava que na Filô houvesse trote ou qualquer imbecilidade similar.

Porém, para minha infelicidade, em volta da porta de entrada do bloco do auditório, onde estavam realizando a matrícula, havia uns 20 veteranos, e alguns deles sedentos para maltratar os calouros. Outros mais tranquilos, somente querendo nos conhecer. 

Percebi que havia algumas veteranas da Psicologia, que somente queriam nos conhecer. Uma delas, do segundo ano, me olhava dos pés à cabeça. 

- Qual teu nome, bicho?

- Adriano.

- Por que você prestou Psicologia?

- Por necessidade.

- Como assim? – perguntou-me, sorrindo, estranhando a resposta.

- Estudar Psicologia pra mim não será somente como estudar qualquer outra coisa. Minha necessidade é visceral. Hoje não consigo imaginar minha sobrevida fora da Psicologia...

Ela continuava a me olhar como se não estivesse entendendo nada do que eu falava. E nem eu sabia muito bem o que eu mesmo estava falando. Desencontro, logo no primeiro minuto, apesar de toda a gentileza dela.

Eu já estava para entrar no auditório, quando um veterano da Biologia apareceu com sua turma.

- Ei, bicho, onde você pensa que vai? Não vai entrar agora pra fazer sua matrícula não, querido. Você vem com a gente! Vamos dar um passeio. 

Fui pego à força e levado ao banheiro. Senti-me sequestrado. Dentro do banheiro éramos eu mais uns quatro veteranos, todos da Biologia e da Química. Ninguém da Psicologia. 

- Você vai fazer o seguinte. Vai tirar essa bermuda e vestir tua cueca por cima dela!

- Nem a pau! – respondi, da forma mais serena possível. 

- Vai sim! E sem dar um pio.

- Nunca.

Esse jogo de braço se estendeu por alguns minutos. Esse veterano da Biologia, que se comportava como o líder dos quatro, foi ficando bem nervoso. Saiu do banheiro. Voltou alguns minutos depois, e bem irritado.

- Phohrra! Não acredito que esse moleque ainda não fez o que a gente mandou. Você é bicho e tem que me obedecer, cahrallho!

O banheiro tinha um corredor, e ele disse isso gritando, dando murros nas paredes e vindo em minha direção. Era bem maior que eu e tentou me assustar. 

Como eu estava numa fase de excelente preparação física, com porte atlético, não tive medo algum dele. A minha sensação era somente a de que um rapaz adiposo estava querendo me intimidar. 

- Desculpa aí, mas não vou não. Não vou fazer nada do que você mandar. Tem mais alguém aí fora pra me fazer companhia com a cueca por cima da roupa? Se tiver, eu encaro. Se não, nada feito. Vocês não vão me pegar pra Cristo não. 

Esse sujeito somente fazia gritar e socar as paredes, fazendo jus a seu apelido, Brucutu. Era outro apelido, mas posto aqui algo similar, para preservar a identidade do infeliz.

Havia um outro rapaz, da turma do Brucutu, que pintava meu rosto. Esse parecia mais tranquilo. Seu apelido era Chupeta.

- Phohrra, Chupeta... Aqui não é a Filô? Ceis não são mais papo cabeça? Não tô entendendo esse Brucutu querendo sair no braço comigo.

- Não, pode deixar, Adriano. A gente vai fazer um trote legal com você. 

E assim Chupeta serenamente pintou um símbolo da paz na minha testa e me liberou para a matrícula, porque careca eu já estava, desde o trote que meu próprio irmão mais novo havia me dado uma ou duas semanas antes.

Entrei no auditório, fiz minha matrícula, e um representante do centro acadêmico muito gentilmente me deu as boas-vindas e uma série de informações importantes. 

Só ali, dentro do auditório, eu percebera o quanto a gritaria do Brucutu havia sido estressante. As pessoas que estavam lá fora perceberam a truculência. Eu entrei no auditório batendo boca com ele. Os servidores da USP ficaram um pouco assustados. Fomos repreendidos. Não era exatamente um bom começo, exceto pelo acolhimento gentil do rapaz do centro acadêmico e do Chupeta.

Fui embora sentindo que eu havia me matriculado no tumulto, sendo uma das causas do tumulto, e talvez tendo passado bem perto de alguma agressão física. 

“Mas tudo bem, tudo bem. Faz parte.” – pensei, após respirar fundo.

Fui para casa. Umas duas ou três semanas depois começariam as aulas.

Mas eu faltei à primeira semana de aulas. Havia feito uma cirurgia de hérnia inguinal, no SUS, poucos dias antes, e mal conseguia andar. Como eu iria de ônibus, não havia como. 

Uma semana depois do início das aulas eu por fim achei que tinha condições de pegar um ônibus que, com destino à USP, passava somente a cada 45 minutos. 

O ponto se situava a 500 metros de minha casa. Segundo o Google isso corresponde a 6 minutos da casa onde eu morava. Mas eu ainda estava debilitado e caminhava com dificuldades, bem lentamente. 

Quando eu estava a 50 metros, vi que o ônibus se aproximava. Tentei correr, mancando. O motorista percebeu e acho que esperou que eu chegasse até o ponto.

Cheguei à USP atrasado em uma semana e mancando.

- O que aconteceu? Por que você está andando curvado?

- Fiz uma cirurgia de hérnia inguinal.

Conversa vai, conversa vem, e assim perceberam que eu tinha muitas cicatrizes, devido a suturas com pontos, pelo corpo todo, cada uma contando a história de um acidente ou uma cirurgia diferente.

- Cahraio, bicho. Você parece o Frankenstein.

E assim fui carimbado com um novo apelido, Frank, que perdurou por todo o período de graduação. 

Nos primeiros dias de aula eu estava bombardeado por vários sentimentos diferentes. Fascinação por aquele novo universo que se abria, com suas inúmeras possibilidades e um pouco de ansiedade, porque era tudo muito novo e com muita coisa ainda a ser decifrada.

Meu sentimento em relação ao curso ser integral, e de haver na USP toda uma estrutura para isso, era de muita alegria. Havia um restaurante universitário, a preço subsidiado, o bandejão. 

Isso era incrível! Se eu quisesse, eu podia ficar na USP nos três períodos (manhã, tarde e noite) porque, antes de tudo, lá havia alimentação balanceada e acessível. 

Muitos reclamavam da comida. Diziam que tinha salitre, "para diminuir o desejo sexual dos estudantes". Que o arroz era gato, porque se arremessado ao teto, grudava. Que o feijão era chuá-pim-pão, porque seria muito aguado. Que o bife era James Bond, duro e com nervos de aço.

Mas para mim nunca houve problema. Eu amava a USP e amava tudo aquilo, porque o banquete do bandejão não era a comida, mas as companhias, as preciosas e belas amizades que cultivei enquanto fazia minhas refeições. 

Eu estava ansioso por aprender tudo o que fosse possível. Sentia que precisava aprender muito em termos acadêmicos, mas principalmente sobre a vida, sobre como se viver melhor, de modo mais saudável e feliz.

Foram muitas horas de aulas, de estudo, de esforço, mas também muitas horas conversando, confraternizando, bebendo ou fumando um baseado com amigos e gente de todo o jeito.

A primeira semana foi de deslumbre, para todos os estudantes. Havia um sentimento generalizado de desbravamento do mundo e de si.

E uma coisa ainda me incomodava. Alguns veteranos, até mesmo da Psicologia, insistiam em tratar mal os calouros. E achava esse tipo de comportamento ridículo, e não deixava de dizer o que pensava.

Ainda na primeira semana, eu jantava no bandejão, e uma turma estava de saída para uma festa. Peguei carona com eles. Entrei em algum carro e fui.

Era na casa de uma veterana. Havia muita gente, e a maioria ficou na calçada e até na rua. Meu sentimento era o de que todos bebiam e muito. Então eu bebi também. 

Vi que havia uma rodinha, com todos cheirando lança-perfume, que me ofereceram.

- Obrigado, mas não curto não. Hidrocarbonetos phodem com o cérebro. Até cocaína é mais saudável.

- Ah, bicho! Você é chato pra cahrallho! Sai daqui se não te dou uma porrada – esbravejou uma veterana.

- Uai, pode vir. Eu to operado, estrupiado, mas acho que consigo chutar teus peito.

- Seu filho da phutta! Eu vou te quebrar no meio!

E assim tiveram de segurá-la. Ficou fora de si. Babava de raiva. Eu fiquei apreensivo, mas sem desesperar. Tinha confiança de que ela não seria capaz de me espancar, mesmo com toda a debilitação pós-cirúrgica. 

E também fiquei chateado. Interagi com outras pessoas, e fui bem tratado pela maioria. Um veterano da Psicologia se aproximou.

- Poxa, cara, eu vi o que rolou. Você tá bem?

- Tô tranquilo.

Trocamos mais algumas palavras. Falamos de coisas boas e difíceis. Ele me falava de sua vida, de suas desventuras, e seus olhos marejavam. No final ele me deu uma carona até minha casa, que era bem mais distante que a dele. Chegando a meu destino, me deu um abraço.

- Falou, Frank! Muito bom conversar contigo!

- Tamos aí, meu irmão!

Seus olhos marejaram novamente. Foi-se embora, com um cigarro aceso na boca.

E foi assim, com muitos tropeços, até 1993.

Sunday, September 11, 2022

Mas Edu está vivo...

Solange (Sol) era atriz. Realizava um trabalho belíssimo de extensão junto às comunidades da periferia, e também fazia performances. Ela estava participando da instalação de alguns novos dispositivos em um dos centros culturais da cidade.

Após um dia intenso de trabalho, estendeu sua rede em um dos galpões do próprio centro cultural. Enquanto relaxava um pouco, conversamos sobre os novos projetos que estavam surgindo e as perspectivas culturais, que eram promissoras.

Dois dias depois haveria um evento marcante, com exposições e performances. 

- Nossa, Sol, pela sua descrição sinto que esse evento tem tudo a ver com meu irmão. Ele iria adorar!

- Então no sábado ele não pode faltar! Você tem que avisá-lo. Ele tem que vir aqui.

- Sim, sim... Vou entrar em contato com ele e fazer de tudo para que ele venha. Mas às vezes é um pouco complicado...

- Não entendi. Como assim?

- Ele passou por uma situação muito difícil, muito traumática, ao ponto de todo mundo pensar que ele tinha morrido. Aliás, ele quase morreu. Foi um milagre ele não ter morrido.

Era sempre muito difícil falar de Edu. Sempre que eu o mencionava em alguma conversa, e que o assunto se estendia um pouco mais, eu sabia que depois eu teria que explicar algo bastante difícil para as pessoas, porque a vida dele tinha sido marcada por um rombo muito grande, por um trauma enorme. E esse trauma o havia transformado em um ser completamente diferente. Era sempre importante ir preparando as pessoas para entenderem que conheceriam alguém talvez um pouco assustador.

Porém, conforme fui conversando com Sol, fui me dando conta de que eu às vezes pensava pouco sobre ele. Eu às vezes esquecia que ele existia, onde morava e o que estava fazendo no presente. 

Isso me incomodava bastante. Era sempre importante não esquecer que ele existia, porque ele já tinha passado por algo muito difícil e era fundamental agora cuidar bastante de Edu para que ele não voltasse para o mesmo buraco escuro onde um dia havia se metido.

- Adriano, eu estou aqui te ouvindo e pensando no que deve ter acontecido com ele. Ele por acaso sofreu um acidente? Ele é sobrevivente de um acidente terrível? É isso?

- Ele sobreviveu a uma tentativa extrema de suicídio. E uma coisa triste nisso tudo é que eu às vezes sinto que ele morreu. Mas ele não morreu, e eu não consigo entender  o porquê desse meu sentimento. Poxa, o cara não morreu. O cara tá vivo e trabalha aqui, nas imediações de Ribeirão Preto, ainda com Odontologia, que é o ganha-pão dele. E ele continua a todo vapor com a sua produção em artes plásticas e performances. Ele vai adorar esse evento. Eu preciso fazer com que ele venha. Mas o difícil é conseguir encontrá-lo e convencê-lo de que ele precisa vir. 

- Então ele não pode perder esse evento! Ele vai amar, e tem mesmo tudo a ver com ele!

- Nossa, só não me conformo com esse meu pensamento, às vezes automático e involuntário, de achar que ele morreu. Não tem cabimento isso. O susto, o trauma, foi gigantesco. Mas o cara tá vivo, tocando a vida dele, apesar de todas as dificuldades...

Eu estava deitado numa posição que não era muito confortável, e acordei, mais uma vez. Edu faleceu há 24 anos.

Tuesday, September 06, 2022

"Mermão..."

 - Mermão, isso aí é piração total – disse-me minha filha, de 8 anos de idade.

Eu dei risada. Achei engraçadinho.

- Viche, papai... Você não é meu irmão. Foi mal...

- Não tem problema, filha. Pode chamar o papai de irmão. Eu sei que é um modo comum de se chamar alguém.

Porque meu sonho sempre foi o de ver minha filha se misturando com o mundo, absorvendo, aprendendo e se tornando parte de tudo. Porque a gente não cria os filhos para si. A gente os cria para o mundo, mermão.

Saturday, August 27, 2022

Moto-contínuo

Às vezes sonho que estou em uma casa que nunca vi como se fosse a coisa mais familiar do mundo. Sinto isso no sonho, e me pergunto, já quase desconfiando de que estou somente sonhando:

- Por que estou aqui? Não faz sentido estar aqui. Essa casa é estranha e eu não moro aqui!

Então de repente eu me lembro que aquela realmente não é a casa em que moro. É a casa de minha infância. Isso me mantém dormindo, sonhando. É o sonho protegendo o sono.

Quando acordo e me lembro do sonho, me dou conta de que aquela casa, do sonho, não era nem mesmo a casa de minha infância. Mas enquanto eu sonhava havia a convicção de que era a casa de minha infância. Enquanto sonhava eu forjava falsas de memórias de uma infância que nunca tive.

Vidas inventadas todas as noites

Às vezes sonho que estou em uma casa que nunca vi como se fosse a coisa mais familiar do mundo. Sinto isso no sonho, e me pergunto, já quase desconfiando de que estou somente sonhando:

- Por que estou aqui? Não faz sentido estar aqui. Essa casa é estranha e eu não moro aqui!

Então de repente eu me lembro que aquela realmente não é a casa em que moro. É a casa de minha infância. Isso me mantém dormindo, sonhando. É o sonho protegendo o sono.

Quando acordo e me lembro do sonho, me dou conta de que aquela casa, do sonho, não era nem mesmo a casa de minha infância. Mas enquanto eu sonhava havia a convicção de que era a casa de minha infância. Enquanto sonhava eu forjava falsas de memórias de uma infância que nunca tive.

Monday, August 15, 2022

Seu burro!

Ouvi por inúmeras vezes em minha vida que sou muito inteligente. E, não tem muito outro jeito, quando se ouve algo repetidamente, vindo de diversas pessoas, isso tende a colar na gente. Nos identifica e passa a fazer parte de como também nos vemos, nos percebemos e nos descrevemos. 

E houve inclusive um momento em que fiquei tão seguro em relação às minhas capacidades intelectuais, que eu tranquilamente conseguia brincar com isso, ao ponto até de nunca, que eu me lembre, ter me incomodado se alguém alguma vez pensou que eu fosse burro.

Há muitos anos que não me incomodo ou tenho medo de errar, de cometer gafes ou parecer burro. Porque o mais comum, desde que me entendo por gente, é alguém que me julgou como burro logo em seguida se surpreender com algo incisivo em sentido contrário. 

Então quando cometo alguma gafe, de parecer mesmo muito burro, eu mesmo já falo, em alto e bom tom:

“Nossa, que burrice!”; “Como eu fui burro agora...”; “Desculpe a burrice, mas eu não entendi.”

Então nunca tive medo de dizer que não entendi ou que não sei algo, porque isso tudo sempre se resolveu da melhor forma possível em minha vida. Tive a sorte grande da loteria do mundo e talvez da genética terem me ajudado bastante.

Mas houve algum momento no qual, neste sentido, minha autoestima balançou? Sim, houve. Nos dois primeiros anos de graduação, em 1991 e 1992, na USP. 

Eu havia passado em segundo lugar no vestibular, tendo estudado em casa, com notas que alguns colegas do curso de medicina me diziam serem suficientes para ser aprovado junto com eles.

Então entrei no curso de Psicologia achando que meu desempenho acadêmico permaneceria como sempre foi, em um nível tranquilamente bem alto.

Porém não foi isso o que ocorreu. Minha primeira nota, de 0 a 10, em Neuroanatomia, foi 2,5. E talvez não tenha sido muito diferente em outras disciplinas. 

Eu tinha muito sono durante as aulas. Não conseguia estudar em casa. Dormia muito no ônibus. Chegava mal disposto na faculdade. Me sentia sobrecarregado e sem capacidade para entender um monte de coisas. Não conseguia entender o que estava escrito nos textos de antropologia e sociologia, e nem conseguia lê-los até o final. Me saia muito mal nos seminários, e alguns professores e colegas de sala deixavam isso bem claro:

- Você é um cara legal, Frank (sim, meu apelido era Frank, de Frankenstein, mas isso é uma outra história), e até inteligente. Mas o problema é que você é relapso.

Lembro de ter ouvido isso, talvez mais de uma vez, de um dos melhores alunos da turma. E meses depois eu me dei conta de que eu nem sabia o significado da palavra “relapso”. Minha mãe me chamava muito de relapso, dando a entender que eu era distraído. Ela me chamava, e eu não ouvia, ou demorava a responder. Ficava brava e logo soltava, com agressividade: 

- Ô, seu relapso, acorda! Acorda, relapso! Tô falando com você!

Cresci ouvindo maravilhas sobre minha capacidade intelectual, associada a uma distração irritante. Essas falas elogiosas vinham das professoras e a reclamação sobre a distração vinha de minha mãe. Não me lembro de meus pais dizendo que eu era inteligente, porque na minha família ninguém tomava sopa na cabeça do outros, dando um show de inteligência. Ninguém parecia ser muito destacado com isso e isso nem era louvado em função de sua suposta capacidade intelectual. Se eu era um bom ou o melhor aluno da turma, eu só estava cumprindo com minha obrigação.

- Esse não nos dá dor de cabeça com escola – lembro que era mais ou menos isso que meus pais diziam.

A admiração, principalmente de meu pai, surgia quando percebia coragem e pendores artísticos nos filhos. Porque ele tinha sido ilustrador, saltou umas 20 vezes de paraquedas, e sonhou em ser piloto da FAB. Então, quando chegavam as visitas, mostrava os desenhos de meu irmão caçula (que hoje é ilustrador profissional, em Londres) e os aeromodelos que meu irmão mais velho fazia e pintava primorosamente.

Até que um dia alguém perguntou, apontando pra mim:

- E esse, faz o quê? 

Meu pai hesitou, gaguejou, e respondeu, sem graça:

- Esse? Hum... Ah, esse vai bem na escola!

E como o ato de gaguejar e a hesitação foram engraçadas, surpreendentes, após sua resposta todos se riram. Porque ficou no ar que ir bem na escola era bosta nenhuma perto de lindos desenhos e maquetes de aeronaves. Foi uma resposta parecida com “Esse aí, como artista, vai bem na escola!”. Não vai espetáculo nem glamour algum em ir bem na escola.

Mas a minha lembrança era a de que eu cagava e andava pra tudo isso. Desde bem pequeno eu simplesmente não tinha a necessidade da admiração de meu pai. Se algum dia eu senti essa necessidade ela foi muito tênue e breve. Meu sentimento é o de que eu nunca movi uma palha para conquistar sua admiração. E seu amor eu acho que o tinha, mesmo que de modo meio atrapalhado, bruto ou questionável. Não sei se o tinha em grande medida. Mas devia sim ter alguma coisa, porque ele foi capaz de me acolher e me proteger em muitas situações. 

E com minha mãe a coisa talvez tenha sido bem diferente até por volta de meus 6 anos de idade, porque havia abraços, carinho e desejos declarados de me casar com aquela linda mulher que abarcava minha existência inteira.

Porém em casa, creio que depois dessa idade, os três filhos saíram do ninho da primeira infância talvez de um modo um pouco mais bruto, porque não tenho na memória o registro de palavras como “eu te amo” e longos abraços ou carinhos mais prolongados.

O ambiente era de cuidado um com outro, de solidariedade, trabalho, luta, apoio, conflitos (muitos conflitos e às vezes com muita agressividade e até violência), mas não de beijos e abraços.

E meu colega de faculdade tinha razão, eu era mesmo muito distraído, relapso. Porém, meses depois, eu me dei conta de que ele estava somente me chamando de vagabundo. Só isso. E eu nunca nem me defendi, para pelo menos tentar me justificar, mostrando para ele que eu era esforçado, e que meu maior problema era mesmo, naquele contexto, uma brutal fraqueza, deficiência, incapacidade. 

Passei dois anos angustiado, me sentindo extremamente burro, inferiorizado e paralisado em uma espécie de catatonia intelectual. Abria a boca em muitas aulas, porque sempre fui muito falante. Mas eu sentia que os membros mais influentes de minha turma tinham uma rejeição muito grande ao que eu dizia, porque quase tudo era prontamente rechaçado. Eu era um verdadeiro idiota para a maioria daquelas pessoas. Me viam como infantil, machista, equivocado, relapso, cafona e ignorante.

E assim, perante aquelas pessoas, eu realmente me sentia, com a desconfiança de que na verdade aquela turma era doente, porque foram muitos os conflitos e os traumas. Foram muitos os desentendimentos e muitas pessoas talvez estejam marcadas, até hoje.

Eu, porém, me dei conta disso muito rapidamente. Ou pelo menos classifiquei assim, e isso foi o suficiente para me afastar e não me esmerar em tentar alcançar a aprovação que eu nunca teria dessas pessoas.

Havia poucas disciplinas optativas e poucas oportunidades para montarmos nosso próprio curso, como costuma ser comum no sistema de algumas grandes universidades públicas. Se não houvesse reprovação, a tendência era começarmos o curso em uma turma e permanecer com ela até o final do curso, 5 anos depois.

E foi o que fiz. Comecei com esta turma, em 1991, e fui até o final do curso com eles(as).

Porém, a partir de meados do segundo ano (em 1992) e do terceiro comecei a frequentar e me enturmar com a Filô, com a faculdade como um todo, com estudantes de outros cursos e turmas, nos intervalos e nos eventos.

Então nos intervalos de aulas eu ia para o centro de convivência ouvir música, conversar, beber e paquerar. E ia também muito às festas, regadas com muita música punk, cerveja Polar no copão de 600 ml e maconha. Era nessas situações que eu me sentia aprendendo um pouco mais da vida, nesse contato com “gente muito doida”, fazendo os amigos que eu nunca tinha feito, descobrindo novas formas de se viver e se lidar com as dificuldades, admirando a imensidão que se descortinava perante a minha miopia existencial.

Era o início de minha liberdade a nadar de braçadas, de meus saltos para fora de casa, para longe de meus pais e mais perto da conquista de uma vida mais plena, ética e saudável.

Em 1991 fui a muitas festas e voltei para casa pegando os primeiros ônibus da manhã, porque eles paravam de rodar por volta de meia-noite e só retornavam às 5 ou 5:30. Porque eram sempre dois ônibus para ir e dois para voltar. Então me lembro de ter dormido algumas vezes nos bancos de concreto do terminal.

E minha sensação era sempre a de que aquilo tudo fazia parte do misterioso processo de aprender a viver. Sendo que isso, por acaso, faz agora eu me lembrar de há poucos dias, quando minha filha, brincando de entrevistadora, me perguntou:

- Como é ser psicólogo?

- Difícil... 

- Por quê?

- Porque as pessoas esperam que um psicólogo saiba viver, e eu não sei ainda.

Estávamos na área de lazer do condomínio. Ela saiu, rindo-se, com suas amiguinhas. Dois vizinhos, com quem eu conversava, entreolharam-se, talvez um pouco chocados. 

E eu ainda só sei que não sei, que ainda aprendo muito, o tempo todo, e que ainda erro, demasiadamente. Mas muitos tombos são de ensaio e erro. São testes que constantemente realizamos aqui e ali, mesmo com todo o arsenal teórico possível, e tentando lidar com todo o conhecimento que vem sendo depurado há décadas pelo método científico. E sempre aprendo algo novo, aqui e ali, inclusive com autores e técnicas das quais eu nunca antes havia ouvido falar, ou só conhecia superficialmente.

E alguém poderia alegar que fugi de enfrentar mais assertivamente as pessoas com as quais não fui capaz de conviver mais harmoniosamente, que eu não soube me comunicar com elas, que minha aversão foi maior do que minha habilidade social. Talvez seja verdade. Ou talvez esse tipo de alegação seja também, por um lado, bem equivocada, pois insiste numa resolução impossível de conflitos, em interações já totalmente desgastadas, queimadas. Porque pontes se queimam, e insistir em algumas travessias sem base é lançar-se e perder-se no abismo. 

Porque nessa vida eu aprendi muito mais com quem não estava contaminado pelo ranço de ter me conhecido e se enjoado ou se enojado de mim. Porque depois que as pontes são derrubadas vêm as muralhas a nos separar. E eu nunca fui muito bom em bater com a cabeça na parede. Sempre fui mais habilidoso para pegar minhas trouxas e cair no mundo.

Porque às vezes o maior problema não é sentir-se burro ou incapaz, e assim ser dotado de pouca autoconfiança. Saber que não sabemos, ou que não somos tão capazes quanto gostaríamos, é quase nada perto de saber que não somos queridos, aceitos ou amados.

Saturday, July 30, 2022

O peso do amor

Minha filha já tem 8 anos de idade mas, sempre que posso, ainda a pego no colo, e saio caminhando com ela, no colo, por longas distâncias, até me extenuar e chegar em casa com as pernas tremendo. Essa é uma das minhas atividades físicas preferidas e meu desejo é que eu pudesse ainda exercê-la durante muitos e muitos anos. Ela deita sua cabecinha em meu ombro, como se dormisse, e eu sigo caminhando, carregando-a pelo mundo afora. Há, para mim, um senso de amor e de realização intenso nessa atividade aparentemente trivial, ou até mesmo excessiva, já que ela não é mais um bebê.

Friday, July 29, 2022

Redução de ajudas

Um plano para o futuro, para começar desde já: reduzir meu “furor curandis”. E não é nem mesmo para cumprir a regra freudiana de que um altruísmo desesperado pode ser pior do que um egoísmo esclarecido, que se antecipa e projeta no outro necessidades que na verdade são nossas. Tenho que dar uma reduzida em meu furor curandis porque ele é prejudicial a mim mesmo. Às vezes acabo inclusive colocando minha saúde em risco quando me empenho demais em ajudar algumas pessoas. Muitas pessoas, de agora em diante, terão somente meu silêncio.

Wednesday, July 27, 2022

Predador

O rapaz era jovem. Tinha cerca de 25 anos de idade. Estava em estado gravíssimo, por um fio de vida. 

Na UTI havia sempre muitos casos graves e alguns gravíssimos. Os casos gravíssimos geralmente eram caracterizados por instabilidade hemodinâmica, e precisavam constantemente de monitoramento com administração de noradrenalina. 

Ele havia sido esfaqueado em uma briga. Seu ferimento era na jugular externa.

Até hoje, mais de 10 anos depois, só consigo pensar nesta expressão, de que ele estava mesmo somente "por um fio de vida", justamente pelo fato de que uma de suas ligações com a vida era essa veia jugular, que havia sido seriamente lesionada,  produzindo uma hemorragia intensa e com um potencial de letalidade muito grande.

Eu olhava para seu leito, e ao mesmo tempo em que o via prostrado, com todos aqueles aparelhos, imaginava um pequeno fio de vida, de carne, a segurá-lo, a mantê-lo vivo. 

Era somente possível dizer a seus familiares que seu estado era gravíssimo, e que não era possível prever o que ocorreria dali em diante.

Diziam que tinha sido uma briga e que havia saído a notícia no jornal. Procurei e rapidamente encontrei a notícia pela internet.

Ele estava em uma festa, e se desentendeu com um rapaz. Após esse conflito verbal, ele agrediu fisicamente esse outro sujeito, que saiu da festa e foi até sua casa buscar uma faca.

A lâmina dessa faca tinha mais de 20 centímetros. Não era uma faca pequena. Era bastante pontiaguda e muito letal. 

A descrição do jornal era de que o golpe havia entrado pela boca, quebrando-lhe três dentes durante a investida. 

Ele tentou se desvencilhar do ataque, possivelmente jogando o corpo para trás. Mas o agressor mesmo assim conseguiu acertá-lo, porém na boca. A faca entrou pela boca e foi, por dentro, até a sua jugular externa. Ele simplesmente tomou uma facada, em que engoliu essa faca inteira em uma fração de segundos. 

Engoliu a faca e ainda foi capaz de tentar fugir. Porém, correu somente por cerca de 20 ou 30 metros e perdeu por completo a consciência, se desfalecendo no chão. Correu desesperado, por poucos metros, e se esborrachou no chão.

E estava então naquele momento conosco, ali, internado em uma UTI de um hospital público, pendurado somente por um fio de vida.

Lembro-me que alguns de seus familiares ou amigos que o visitavam. Diziam que ele era um rapaz forte e bom de briga. Alguns o descreviam como um valentão,  como aquela pessoa que muitos vizinhos acabavam até tendo medo, porque havia várias histórias dele se impondo e intimidando outras pessoas por meio de sua força física.

Alguns dias depois ele recuperou a estabilidade hemodinâmica. Seu quadro saiu de gravíssimo para grave, adquirindo estabilidade e fazendo com que, em poucos dias, ele inclusive fosse desintubado e retomasse a consciência.

Em nossa passagem diária pelos leitos sempre cumprimentávamos os pacientes que estavam conscientes. 

Passei por ele e lhe dei bom dia. Ele respondeu de modo muito discreto, somente com um aceno sutil com a cabeça e um olhar firme.

Havia outros pacientes que precisavam de mim, e eu não tive tempo de interagir mais detidamente com ele.

Dias depois, quando voltei à UTI, ele já havia saído de alta.

Mas me lembro muito bem de seu olhar, que não fazia a questão de ser simpático, ou não se dava conta disso. Posso estar enganado, pode ter sido somente uma impressão equivocada de minha parte. Mas ali, mesmo naquele contexto de total vulnerabilidade, ele emitia um olhar intimidador. O valentão tinha sobrevivido.

Monday, July 04, 2022

Balanga beiço

É comum se pensar que havia, ou surgiram, por volta da década de 80, inúmeras coisas que, aos olhares de hoje, são vistas como muito bizarras e destrutivas.

As pessoas fumavam muito mais, bebiam muito mais refrigerante, ingeriam muito mais açúcar, andavam sem cinto de segurança ou sem capacete. Havia muito mais exposição a uma série de perigos e danos do que existe hoje, assim como também havia muito mais comportamentos que hoje são considerados crimes.

Havia também muito menos respeito aos direitos humanos e muito menos luta pela cidadania. Diversos direitos eram violados, e as pessoas simplesmente não os reivindicavam juridicamente, seja talvez por falta de legislação ou porque não havia uma cultura de luta pela cidadania.

Uma das coisas bizarras das quais me lembro, em Ribeirão Preto, é de um programa de sátira policial que era transmitido pelo rádio.

O nome do programa era "Balanga Beiço", e era transmitido por volta de 11:30, todos os dias, por alguma rádio AM.

Minha mãe todos os dias ligava o rádio, para ouvir a dois locutores, metidos a comediantes, em suas performances a trazer ao ar os boletins policiais que eles julgavam como sendo os mais engraçados dos últimos dias.

A função desses caras era ir às delegacias e coletar boletins de ocorrência para selecionar ali aqueles que tivessem o maior potencial para causar risos nos ouvintes.

Era uma espécie de vídeo- cassetada, porém com a exposição da intimidade, dos reveses, das tragédias e das tristezas que outras pessoas tinham vivenciado, ao ponto de virar caso de polícia.

As identidades dessas pessoas eram reveladas durante o programa, inclusive muitas vezes com detalhes sobre onde moravam ou trabalhavam. Elas eram expostas da forma mais crua possível, e geralmente não havia ações judiciais. Em alguns casos, as pessoas que eram expostas encontravam os locutores na rua e os agrediam fisicamente, e ficava tudo por isso mesmo. Ninguém processava ninguém.

As pessoas iam à delegacia e faziam um boletim de ocorrência. E o que geralmente ocorria era do delegado chamar as partes e entrarem em algum acordo verbal, com pedidos de desculpas e a promessa de que eventos similares não mais ocorreriam.

O problema é que pessoas de minha família e de minha vizinhança protagonizaram o programa mais de uma vez.

Meu pai e minha mãe tinham uma relação muito conflituosa. Por diversas vezes, após desentendimentos, ele ficava descontrolado e quebrava uma série de coisas dentro de casa: pratos, copos, cadeiras, portas, etc.

Segundo relatos de minha mãe, quando eu e meus irmãos ainda éramos bem pequenos, houve uma vez em que ele, bêbado, ameaçou de se matar.

Não sei exatamente o que ela fez, mas creio que tenha saído de casa, fugindo para a casa de algum vizinho ou familiar, carregando os filhos, para não lidar com situação tão extrema.

E, no limite das loucuras daquele dia, meu pai pegou uma espingarda de chumbinho e deu um tiro no próprio pé.

Teve de ir ao hospital, e eu imagino que algum profissional de saúde tenha feito alguma espécie de notificação ou comunicação para a polícia civil, ou que tudo isso tenha se difundido simplesmente pelo gosto de se falar da vida e da miséria alheia.

Os dois locutores do Balanga Beiço não perdoaram. Dias depois estavam contando essa história no ar, na hora do almoço, para que milhares de ouvintes, espalhados por toda a cidade de Ribeirão Preto, soubessem o nome e o endereço de meu pai, e o que ele tinha feito.

- É... Vocês conhecem o Antenorzim, o rapaz que mora ali no Jardim Independência, do lado do corpo de bombeiros. Ele é conhecido ali. Ele é filho do Véio Trovão. Sim, o Véio Trovão, seu Antenor, pai do  Antenorzim, que também já passou aqui no Balanga Beiço. Arranjou umas confusão aí nas rua do Jardim Paulista - narrava Tiririca, o mais debochado dos dois locutores.

E boa parte das pessoas, que agrediam os locutores nas ruas, preferiam agredir o Tiririca. Porque ele tinha uma estatura bem baixa e um porte físico nada atlético. Era baixinho, barrigudo e com uns óculos, fundo de garrafa, enormes. Era um sujeito que muitas pessoas classificavam como muito engraçado, mas que outras o percebiam como repugnante, e com uma constituição física que costumava encorajar até mesmo as mulheres para a agressão.

- O Antenorzim brigou com a esposa e deu um chilique. Gritou, soltou grunhidos, arrancou as calcinhas e pisou em cima, e quebrou a casa inteira. Não sobrou um único prato inteiro naquela pobre e humilde casa da Rua José Gastão de Oliveira. Aí ele ameaçou que ia se matar. A esposa, desesperada, correu com os filhos pra fora de casa e foi se abrigar na casa da vizinha. E ele ficou lá dentro, gritando "Eu vou me matar, eu vou me matar... Olha que eu me mato, viu? Mas não é que aí ele pegou uma espingardinha de chumbim e deu um tiro no pé. Chegou no hospital e falou que tava tentando matar um rato. O ratinho corria para cá e corria para lá, e o Antenorzim corria atrás. Mas aí ele errou de mira, e acertou o pé. Nossa, tá precisando de um óculos mais fundo de garrafa que o meu... - continuava Tiririca, para que milhares de pessoas, em suas casas, dessem boas risadas do que Antenorzim havia feito.

E isso, creio eu, nem mesmo teria ocorrido na década de 80. Teria sido algo da década de 70, porque na década de 80 eu já era grande o suficiente para saber certinho o que tinha ocorrido dentro de minha casa, sem perder a memória das coisas.

Mas com um infortúnio Tiririca não contava. Uns 10 anos depois ele se mudou para o Jardim Independência, e foi morar exatamente na Rua José Gastão de Oliveira, a uns 50 metros de minha casa.

Quando ele chegou para morar ali, naquela rua na qual praticamente inexistiam adolescentes e crianças do gênero feminino, encontrou o meio hostil ideal para que muitas de suas arruaças propagadas pelo rádio fossem devidamente vingadas. A maior parte da molecada da rua já não era mais de crianças pura e simplesmente, mas de pré-adolescentes e adolescentes no auge da rebeldia. 

Passamos bosta de cachorro nas maçanetas de seu portão e, minutos antes que ele chegasse, ficamos todos ali, escondidos, esperando pelo grande momento em que ele então sujaria literalmente de fato suas mãos de merda, para saber o que era ter realmente as mãos sujas e não simplesmente de modo metafórico, como o que fazia diariamente em seu programa de rádio.

- Ah!!! Pqp!!! Filho da phutta!!! Filho da phutta!!! Se eu pegar eu káppo o filho da phutta que fez isso!

E foi mais ou menos nessa época que também não medimos esforços para sair de casa com um pacote de cascas de banana e lixo, para enfiar tudo no escapamento do carro dele com um cabo de vassoura, e depois ver ele saindo, e saber que seu carro parou a dois quilômetros dali.

Nosso prazer, por um certo tempo, era deixar Tiririca na mão e com ela suja de merda.

- É, rapaz, eu não sei mais o que eu faço com aquela molecada encapetada lá da minha rua. Eles botam merda na maçaneta do meu portão, enfiam casca de banana no escapamento do meu carro, pulam dentro da minha casa para pegar bolinha... 

E talvez esse tenha sido um dos últimos programas de sátira policial que Tiririca fez na rádio, tratando do próprio boletim de ocorrência, que havia aberto contra a molecada de sua rua. Já estávamos no final dos anos 80, e sua audiência vinha despencando.

Faleceu poucos anos depois, com um infarto fulminante, por volta dos 55 a 58 anos de idade. Figura como um dos maiores radialistas de Ribeirão Preto durante as décadas de 60, 70 e 80.

Talvez seja um pouco ambíguo ou paradoxal dizer que deixou saudades.

Monday, June 06, 2022

Pacientes com medo do inferno

Já recebi pacientes com obsessões em relação ao diabo e ao inferno. São pessoas religiosas, ou que tiveram uma educação religiosa mais intensa, e não tiveram oportunidades para se expor de modo mais consistente a esses estímulos, para que assim pudessem se dessensibilizar.

E também não foram consistentemente expostas a outras fontes de influência, a pessoas que possuem crenças diferentes das delas.

Com aqueles que tinham medo do diabo, eu costumava convidá-los para uma exposição mais contundente. Porque a inundação de estímulos é possível quando a estimulação aversiva simplesmente não tem a capacidade de extrapolar os limiares do próprio paciente.

A inundação de estímulos, para quem não sabe, é um método arriscado de dessensibilização, cuja exposição é efetuada de modo contundente, e geralmente de uma única vez. 

Seria mais ou menos como convidar um paciente que tem medo de altura para, de uma hora para outra, saltar de bungee jumping ou de paraquedas.

É um método geralmente contrarrecomendado, por ser muito arriscado. A pessoa submetida a uma inundação de estímulos pode ser acometida por intensas respostas emocionais, que podem fazer com que ela simplesmente não se exponha à experiência, devido a uma perda de consciência, por exemplo. Ou então fazer com que ela fique ainda mais sensibilizada para com aquilo que tem medo. Pode então piorar tudo, porque a pessoa pode ficar ainda mais sensibilizada, traumatizada.

Então o mais recomendável é que a exposição seja gradual, e que assim a pessoa, que vem sofrendo com alguns medos, vá paulatinamente se dessensibilizando à estimulação aversiva.

Alguns pacientes que chegaram até mim com obsessões e medo do diabo puderam, com certa facilidade, ser expostos e dessensibilizados de uma única vez.

Com sua autorização, e inspiração em uma história Zen, que ouvi há muitos anos, eu chamava o coisa ruim. 

"Diabo, belzebu, capeta, demônio, lúcifer...” – eu utilizava todos os seus nomes e designações possíveis. "Eu, Adriano Facioli e o Sr. Fulano de Tal [o nome completo também do paciente] estamos aqui, no planeta Terra, na América do Sul, no Brasil” - enfim, endereço completo e todos os dados necessários, para que a entidade sobrenatural pudesse nos encontrar com facilidade; “venha até nós, apareça e comprove sua existência!”.

E esse era o momento máximo de tensão, de ansiedade, para esses pacientes, o qual durava talvez poucos segundos. 

Eu inclusive insistia em chamar e desafiar essa entidade, pedindo para que ela me matasse imediatamente com um raio, fazendo parar meu coração ou qualquer coisa parecida.

Alguns minutos ou segundos se passavam, e nada acontecia, por mais que eu insistisse. E isso ia fazendo com que o paciente ficasse mais tranquilo e relaxado. Esse era simplesmente um teste de realidade, com uma exposição abrupta a estímulos que, em si mesmos, não têm nada de aversivos. Porque quando entramos em contato com eles, de fato nada se produz na realidade.

E essa é uma das regras da aprendizagem. A exposição repetida a determinados estímulos, que não causam nenhum dano maior, que não ultrapassam os limiares do paciente, ou que de fato não impliquem em nenhum malefício à sua integridade física e psicológica, acaba por fazer com que esses estímulos diminuam ou percam sua propriedade aversiva. Esta é a habituação, uma das formas mais primárias de aprendizagem.

E quando os estímulos perdem sua força aversiva, eles deixam de se configurar como obsessões. A pessoa simplesmente para de pensar nisso. Isso para de invadi-la. Os pensamentos intrusivos deixam de existir.

Porém, certa vez atendi um caso com algumas peculiaridades, que impunham um nível de dificuldade talvez um pouco maior.

O paciente padecia de obsessões, de pensamentos intrusivos, de que ele estaria blasfemando contra o Espírito Santo.

Não havia como fazer um teste de realidade como eu já havia feito antes com os pacientes que tinham medo do diabo. Porque, naquele contexto específico, não fazia o menor sentido chamar o Espírito Santo, para se provar ou não sua existência. Porque a ameaça não era do Espírito Santo, mas a de não ocorrer a salvação após a morte.

Chamar o Espírito Santo, para que ele comprovasse sua própria existência, já era entendido como blasfêmia. Era entendido como uma espécie de desafio ou afronta, de desamor, de desrespeito, ao Espírito Santo e a Deus. 

Fora o fato de que, para os crentes, não faz o menor sentido buscar por provas objetivas da existência de Deus ou do Espírito Santo, porque senão não haveria motivo para se ter fé. Então, para quem acredita, para os teístas, Deus jamais ou muito raramente irá se manifestar de forma pessoal e clara. 

De repente me vi diante de uma situação muito complicada para um trabalho em um único momento de orientação psicológica. Não era uma psicoterapia. Não havia tempo ou oportunidade para isso.

Se fosse uma psicoterapia, com várias sessões, eu iria aos poucos estimulando esse paciente a encontrar novos contatos e amizades fora de sua igreja. Porque assim, talvez, iria aos poucos sofrer a influência de outras pessoas, com concepções e crenças diferentes das suas, as quais poderiam, em boa medida, ajudar a amenizar seu quadro de obsessões.

A situação, porém, era bem dramática. Esse paciente praticamente não convivia com pessoas de fora da igreja. E conviver com pessoas de outras crenças era também concebido como pecado imperdoável.

Quando trabalhamos com exposição a estímulos aversivos, temos o pressuposto de que as coisas ocorrem somente nesse mundo. Não há a ideia de que qualquer mínima exposição implique em uma condenação eterna em um plano transcendente.

Esse paciente estava então cercado, blindado. As regras eram muito rígidas e os controles intensos. Era monitorado constantemente por seus pares.

Quando até pensar é pecado, e o castigo é a danação eterna (irreversível) e sem alívio, tudo fica muito difícil.

Diante de todas essas dificuldades, tentei uma última alternativa, na tentativa de produzir algumas novas regras possíveis:

- Se a condição para o perdão é o arrependimento, não se esqueça de que você está se mostrando profundamente arrependido de cada um desses pensamentos que você não consegue controlar. Teu arrependimento está dado, é também uma regra e é anterior à ocorrência desses pensamentos. Seu arrependimento é genuíno. Logo, o perdão está dado. 

- Mas como faço para esses pensamentos irem embora?

- Não conseguimos fazer qualquer tipo de exposição ao objeto do qual você tem medo, que seria o inferno, dada a tua crença de que ele somente existe após a morte. Mas uma coisa que alguns achados científicos também nos mostram é que quanto mais lutarmos contra os pensamentos intrusivos, mais tempo eles levarão para deixar de nos infernizar. E aí então é melhor deixar que eles aconteçam, porque a sua força aversiva irá diminuir com a repetição, e perdoado você já está...

Até hoje não sei o que sucedeu com esse paciente, porque foi somente um único encontro, e não havia praticamente qualquer possibilidade de exposição mínima. 

Essa interação, com esse paciente, somente me fez pensar que a ideia de que existe tortura eterna, de que existe danação eterna e sem alívio, é uma ideia psicopática, coisa de torturadores de almas inocentes.

Se o inferno existe, nada tem valor. Esta vida perde o valor, e tudo o mais também. A crença de que existe um mal eterno não permite a noção de finitude, de descanso, de redenção. 

Não consigo imaginar chantagem mais cruel. A patética ideia de que existe inferno é extremamente valiosa nas mãos de líderes psicopáticos. Fazem o que querem, e torturam constantemente quem acredita nesse tipo de sandice. 

E, infelizmente, há realmente pessoas que acreditam na existência do inferno. São uma minoria dos crentes que, na prática, acreditam de fato no inferno. Mas eles existem, são reféns eternos, e sofrem o diabo. Muitas dessas pessoas, assim como esse paciente que atendi, são profundamente adoecidas em função disso. 

É bizarro imaginar que existem pessoas em sofrimento extremo em função desse tipo chantagem. O fanatismo religioso é uma prisão solidamente cercada. Quase ninguém sai. 

E é também dramático perceber as reações de pessoas fanáticas  ou manipuladoras, que pouco sofrem com isso. Cheguei a ouvir de alguns crentes que o sofrimento, com o medo do inferno, só existe nas pessoas que não se sentem merecedoras do paraíso.

Esse tipo de pensamento não é muito diferente daquele das pessoas que dizem que irão dormir tranquilas, porque estão com a consciência limpa. Ou o famigerado "Quem não deve não teme".

O problema é que consciência limpa não define caráter. Porque 

a consciência dos canalhas está sempre limpa.

Então a crença no inferno, para muitas pessoas, somente multiplica a miséria de se acreditar em algo bizarramente implausível, e que é um instrumento valioso nas mãos de canalhas manipuladores.

Porque, convenhamos, ninguém, absolutamente ninguém, merece sofrer. Muito menos o sofrimento eterno.

Friday, May 20, 2022

Teu calor e meu frio

No calor sinto cheiro de bosta, bicho, vida e morte. No frio me sinto limpo, estéril, robótico. Essa bosta toda me cansa. Prefiro o descanso da armadura que me separa do frio na espinha. Prefiro o vento mordaz, a aventura a me iludir que venço um pouco a natureza, ao caminhar sobre o gelo imaginado, com minha fortaleza em forma de roupas sobre roupas. O frio se enfrenta, com fogo e couro inventado. Do calor se foge pra lugar algum. Cada um com sua prisão. Se teu calor move tua alegria, meu frio me empurra pra morte da minha moleza de espírito.

Tabefe

Infelizmente não posso dizer que a relação de meus pais com seus filhos, e entre eles mesmos, era algo sereno. “Eles brigam muito”. “Eles brigavam muito”. Era o que muitos dizem e diziam. 

Mas, desde muito cedo, minha relação com meu pai era a mais resolvida. Ele era meu inimigo e, pronto, estava resolvido.

Mas isso não quer dizer que ele sempre foi meu inimigo, ininterruptamente. Houve deliciosos momentos de trégua. E isso também posso dizer de meus dois irmãos. Meu irmão mais novo, por exemplo, que ainda está vivo, foi meu inimigo, clássico, durante toda a minha infância. Mas éramos inimigos que não se desgrudavam. Sabe aquela história de “eu odeio ele”, mas não vive sem? Pois é... Apesar de que eu nunca dizia que odiava nada nessa vida. Ódio e raiva eram palavras tabu pra mim até os meus 20 anos de idade. Eu nem sabia que às vezes sentia ódio. Nada disso era resolvido.

Era resolvido somente saber, ou somente ter para mim mesmo, que não eram meus amigos. Não dizia que tinha ódio, mas vivia diariamente, por anos, uma certa distância. 

Como já disse, essa distância por vezes desaparecia. Mas era uma espécie de constante, que marcava minha identidade, bastante atrelada à minha mãe desde tenra idade.

Meu pai era meu inimigo clássico, e minha mãe era minha referência de tudo. E isso teve força até meus 19 anos, quando anunciei a ela que ia sair de casa para, vejam só, para ir morar com ele no primeiro muquifo que aparecesse.

Mas isso é outra história. Quero aqui me concentrar em minha relação com meu pai e em algumas de suas excentricidades, as quais não eram poucas.

Me aproximei desse meu inimigo clássico com 8 anos e meio de idade. Já fazia um ano que Edu, meu irmão mais velho, ia com ele para o trabalho, todos os dias. Edu começou a trabalhar com 10 anos de idade, e não parou mais. A  partir dos 13 já trabalha integralmente, manhã e tarde, estudando à noite. E foi assim até os 18 anos, quando parou tudo para fazer cursinho, para depois estudar odontologia. 

Porque a vida do Edu foi desse jeito. Trabalhou dos 10 aos 18 anos. E aí, de repente, inventou de entrar na USP. Parou por dois anos. Estudou feito louco (e ficou mesmo louco) durante dois anos, durante os anos de 1988 e 1989, para passar no vestibular da Fuvest, e e entrar na USP em 1990.

Porém não posso me desviar com mãe ou irmãos. Porque esse texto é sobre meu pai.

Edu começou a trabalhar com meu pai em 1980. Um ano depois lá estava eu também, com pouco mais de 8 anos e meio de idade. Porque, para meus pais, trabalhar era importante, edificante.

Então, provavelmente numa bela manhã de fevereiro de 1981, lá fomos nós: eu, Edu e meu pai, de moto, para o trabalho. E ao andar em três numa mesma moto, o menor ia sempre no meio, prensado pelos de maior tamanho. Então eu ia no meio, com os pés balançando no ar (porque não havia pedaleiras para um terceiro passageiro), e segurando bem forte na barriga de meu pai. E todos, claro, sem capacete. Porque ninguém na minha cidade usava isso.

Meu pai era o funcionário mais velho de meu tio, que era 6 anos mais novo que ele. Meu pai era empregado de seu irmão caçula. Foi o herói desse irmão durante toda a infância dele. “Seu pai era meu herói, minha referência. Depois, não sei por quê, tudo se acabou...” – lembro-me de meu tio me dizer, quando eu já tinha uns 18 anos.

“Ele tem uma alma de menino, de moleque” – outros, muitos outros diziam sobre meu pai. “Mas não pode beber” – algum outro geralmente completava. 

Porque meu pai teve, muitas vezes, problemas com o álcool.

- Quando a gente ainda namorava, encontrei ele na rua, meio perdido, bêbado. Nem a Lambreta ele lembrava onde tinha deixado. Ele chegou a perder a Lambreta, vocês acreditam? – dizia minha mãe.

E Lambreta, para quem não sabe, era uma motoneta no estilo italiano, bem parecida com uma Vespa, porém a um custo bem mais baixo. Gente rica, ou de classe média alta, andava de Vespa. A pobraiada andava de Lambreta.

E como meu pai fazia um tipo um pouco rebelde, sua Lambreta tinha o adesivo de um capeta.

Ele tinha o currículo de um playboy pobre. E playboy pobre, naquela época, tinha alcunha mais precisa: jacu. Mas meu pai jamais aceitaria tal alcunha. Porque jacu, para ele, eram os outros. Ele tinha convicção de que possuía mais classe e elegância do que os jacus. Era calígrafo, ilustrador e, durante sua juventude, talvez se vestisse de modo que não o pudessem chamá-lo de jeca ou de jacu.

Sempre passava Gumex (fixador popular da época) em seus cabelos, era magro, esbelto, e um rapaz bonito. Como chamá-lo de jacu? Talvez algum jovem de classe média alta, estudante de Direito, e amante de MPB, se o conhecesse, até diria isso. Mas meu pai jamais seria um jacu entre os seus.

Então, em uma bela manhã, no início de 1981, lá fomos nós, os três, de moto, para o trabalho. Lembro-me bem. Meu tio tinha 14 funcionários, incluídos aí eu e Edu. Então eram 13 funcionários em turno integral, e eu e Edu somente no período da manhã. Fazíamos serviços de limpeza e entregas, cuja maioria se dava no raio máximo de um quilômetro de distância. 

Nesse ano de 1981, por um certo acaso, eu meu tornei o melhor aluno da sala, na escola. Minha mãe conseguiu imprimir uma rotina espartana. Acordávamos às 6:30 horas, saímos para o trabalho às 7:15, voltávamos às 11:45. A aula começava às 13 e terminava às 17 horas. Às 17:05 já estávamos em casa. Às 17:30 já estávamos sentados na mesa da sala, fazendo as tarefas de casa, as quais terminávamos por volta de 19:30. Mas quando havia prova, estudávamos entre 20 e 20:30, no quarto, deitados de bruço, sobre a cama, com a porta fechada, e em voz alta. Esses 30 minutos eram o período exato de estudo para as provas, nas vésperas, porque era o tempo do Jornal Nacional, e a gente não perdia uma única telenovela. Era chegar da escola e já ligar a TV. Fazíamos todas as tarefas de casa juntos, na mesma mesa, enquanto assistíamos televisão, com intervalos somente para lanches e jantar.

E sendo o melhor aluno da sala, fui me destacando pela capacidade de memorização. E até no trabalho eu impressionava, por saber o nome e a localização das 27 ruas e 4 avenidas do centro da cidade.

Fazia as entregas a pé, em passo rápido, em ritmo de marcha olímpica. Assim veio o primeiro apelido, acho que dado por meu pai mesmo: Olivia Motoca, por comparação à minha avó paterna, que também andava bastante e com passo rápido.

Depois vieram vários outros apelidos, dados principalmente por um dos funcionários de meu tio. Era um sujeito de estatura baixa, que vou aqui chamar de Pedrinho, Pedrinho Anão, como todos o chamavam, porque ali praticamente todo mundo tinha apelido. Tonhão, Masturba, Anão, Velhinho. Esses eram alguns dos apelidos dos quais consigo me lembrar agora. E o Anão me deu vários apelidos: Costelinha, Piaba (porque uma vez esqueci de dar descarga, e ele achou o cocô muito grande pro meu tamanho, logo seria grande como uma piaba), Lombriguento, Desnutrido, etc.

“Que muleque magro, feio! Você tem lombriga?”. “Cadê o Desnutrido? Preciso que ele leve esse serviço aqui no Dr. Camburucci!”. Era assim que o Anão me tratava, e eu levava tudo no bom humor. Nunca nem me chateei com as brincadeiras dele.

Mas eu tinha medo do batismo que faziam lá, e uma vez fizeram com Edu, meu irmão, quando ele tinha somente 11 anos de idade. Levavam o funcionário para os fundos do laboratório (era um laboratório de prótese dentária, dos grandes), fechavam a porta, arriavam-lhes as calças, e jogavam água congelante eu seu saco e pinto.

Nunca fizeram isso comigo. Acho que meu pai tinha deixado claro que comigo não podia, porque eu ainda era muito pequeno.

E é do Anão que pretendo falar hoje, talvez do início de sua jornada naquele local de trabalho, e de sua relação com meu pai. Quando eu trabalhava lá, ele já tinha 21 anos de idade. Mas parece ter chegado ali com uns 13. Como sempre foi muito baixinho, era geralmente muito mais esperto do que as crianças e adolescentes de sua estatura. Então era um menino de 13 que talvez tirasse onda com a molecada de 11 ou 10.

Sempre ouvi, de Edu, a história de que o Anão uma vez foi pago por meu pai para dar uma bofetada na cara de um menino que morava bem de frente ao laboratório. 

- Pedrinho, quanto você quer pra ir lá do outro lado da rua, e dar um tapão, de mão aberta, bem dado, na cara daquele muleque babaca?

- Uai, Tenor, não sei...

- Você não tem coragem de ir lá dar um tapão nele?

- É, ele é chato pra caraio mesmo...

Pedrinho por fim aceitou o desafio. Outros funcionários se excitaram, e foram para a janela, para ver se teria mesmo coragem.

Foi se dirigindo para o outro lado da rua, meio hesitante. Olhava para meu pai, para confirmar se era aquele mesmo o menino a ser esbofeteado. Hesitou, olhou para meu pai e os funcionários. Todos o incentivavam.

- Esse, esse! Vai logo, porra! Ele! Larga mão de ser cagão!

Cumprimentou o menino. Ficou olhando pra ele. Conversaram um pouquinho. Olhou de volta para meu pai e, tabefe!

O coitado do menino tomou uma bofetada bem dada na cara, e saiu gritando e chorando em direção à sua casa.

Não sei se seus pais souberam, se tomaram providências, se foram reclamar com meu tio. Não sei o que sucedeu. Mas tenho quase certeza que nunca souberam que foi a mando de meu pai, e que nem meu tio soube de nada.