Friday, February 04, 2022

Redes sociais e adoecimento

As redes sociais podem produzir adoecimento das mais diversas formas. Porém é curioso como algumas pessoas adoecem e, adoecidas, se transformam em celebridades ou subcelebridades. 

Há um sujeito (seu codinome é Blueuzão) que chegou a comer fezes para continuar tendo projeção nas redes. E uma das coisas que ele mais fala em seus vídeos é que o YouTube está adoecendo-o. 

Conheço outros sujeitos que vivem se vitimizando, e são assim constantemente gratificados. Porque boa parte dos comentários são de condolências para comportamentos que são nitidamente patológicos. 

E muitos estão adoecidos e abandonados, inclusive pelo público que antes gratificava seu comportamento doentio. Porém agora não gratificam mais. Pois se deram conta de que estavam reforçando um comportamento destrutivo. 

O problema é que após a cessação das gratificações (a extinção) há uma tendência de acentuação de algumas respostas. Uma pessoa agressiva (após a perda de suas usuais gratificações) pode, por exemplo, passar a ter comportamentos ainda mais agressivos e destrutivos.

O experimento de Azrin, Hutchinson e Hake, de 1966 (apud Moreira e Medeiros, 2019), é clássico em demonstrar esse tipo de evento. Um pombo teve suas gratificações extintas, e assim passou a agredir intensamente um outro, com o qual cohabitava. 

A extinção das gratificações tende a produzir variação comportamental. Mas isso não quer dizer que essa variação aconteça primeiramente na topografia do comportamento. Fora o fato de que existem evidências de que a própria extinção tende, em muitos casos, em um primeiro momento, a intensificar os próprios comportamentos que eram antes gratificados.

Então a extinção das gratificações não resolve imediatamente o problema dessas pessoas, e pode inclusive, em curto prazo, agravar um pouco seu quadro. Estão com a vida bagunçada, abandonadas e com tendência a piorar por um certo tempo.

Referência:

Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. (2019). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed.

Meio filme nas férias

As aulas voltaram. Não tem jeito. Agora é aula presencial ou é a criança em casa, se sentindo excluída de uma escola que ela não pode frequentar, porque não há mais a opção de ensino remoto, apesar de estarmos no pico de contaminações de toda a pandemia.

Hoje a professora pediu para que as crianças respondessem à seguinte questão, com uma única frase: 

"O que vocês fizeram durante as férias?" 

"Eu assisti a meio filme com meu pai!", foi o que minha filha respondeu.

Minha esposa fez inúmeras coisas divertidas com minha filha, e se fosse menos atenta não entenderia a resposta.

E eu de fato, em um determinado momento, assisti mesmo somente a meio filme com ela. E também, se não fosse atento, iria pensar que ela acabou com minha reputação perante a professora.

Acontece que, para boa parte do que ocorre nessa vida, temos de saber interpretar os fatos em seu devido contexto.

Há quase uma semana, de sexta para sábado, às 3 horas da manhã, minha esposa começou a passar mal. E assim sucedeu, durante 12 horas seguidas, vomitando o tempo todo, sem conseguir até mesmo ingerir um único copo d'água e com dores intensas na região abdominal.

Chegou num ponto em que lhe perguntei em qual local específico do abdômen doía mais. Ela apontou o lado direito. Logo pensei que era provavelmente uma apendicite aguda. 

Corremos para o pronto-socorro, e era isso mesmo. Foi operada 7 horas depois, às 22:30 do sábado.

Chegamos em casa já bem tarde, muito cansados, mais ou menos no horário em que minha esposa estava na mesa de cirurgia. 

Como estamos em plena pandemia, e viemos de um hospital, fiz questão de entrar no box junto com minha filha  e lhe dar um bom banho.

Quando passeamos sozinhos, somente eu e ela, produzimos interações bem diferentes, e esses eventos acabam se tornando, muitas vezes, bastante especiais, agradáveis e memoráveis. São expressões singulares de nosso amor, entre pai e filha, das quais geralmente não me esqueço, e sempre faço questão de guardar na lembrança, com bastante carinho.

Depois do banho, bem mais relaxados e descansados, pedi então a ela para que escolhesse um filme. 

Ela escolheu um desenho animado, muito bonito, que se chama Parque dos Sonhos, em que uma menina, com mais ou menos a idade dela, é separada da mãe  em virtude desta estar possivelmente internada em alguma clínica ou hospital  com sérios problemas de saúde.

O cenário não podia ser melhor. Nosso cineminha particular era composto por nós dois, deitados na cama, comendo pipoca e assistindo a uma linda produção cinematográfica infantil.

Depois de mais ou menos meio filme assistido, o relógio já marcava quase meia-noite. Estávamos morrendo de sono, e pretendíamos chegar bem cedo ao hospital, para a visita à mamãe.

Ela concordou prontamente em interromper nossa sessão de cinema naquele momento, demonstrando ampla compreensão de tudo o que estava acontecendo, com exceção do medo intenso em relação ao que poderia ocorrer com sua mãe.

- Não quero que a mamãe morra, papai... Eu amo muito ela! Eu amo muito você! - com lágrimas a escorrer de seu rostinho.

Não escondi dela a verdade, e consegui convencê-la de que a situação de mamãe era difícil, mas não tão grave quanto ela imaginava, e que o risco de morte era baixo.

Tranquilizou-se, e dormimos placidamente o sono merecido de quem havia tido um dia atribulado e difícil.

E foi isso que ela fez em suas férias. Ela realmente assistiu a meio filme comigo, e isso foi muito significativo para toda a nossa pequena família. 

É isso, professora.

Sobrevivemos, mais uma vez. Somos gratos, ao destino, ao acaso, ao que quer que seja.

Esse foi, até o momento, o melhor meio filme de nossas vidas!

Tuesday, February 01, 2022

Brincar até matar

 Olho pra gatinha, no começo da manhã. Está afoita. Quer brincar. Agachadinha, rebola, abana o rabinho e prepara o bote, como se me dissesse:

- Sorte a tua ser maior e mais forte do que eu. Porque senão eu brincaria com você até a tua morte.

Tuesday, January 18, 2022

A gata de olho no banho

É divertido ir para o banho, e deixar a porta do banheiro um pouquinho aberta. Lua, nossa gatinha, ouve o barulho da água caindo e sai, de onde estiver, para atentamente assistir a todo o nosso banho. Chega de mansinho, se senta bem comportadinha em frente à porta do box, e fica observando tudo o que fazemos, e cada gota d'água que cai no chão ou escorre pelo vidro.

Gatos, assim como todo e qualquer felino, são programados para se dirigir a tudo o que se mexe, seja para caçar ou para interagir de modo fortuito ou lúdico. 

E água caindo costuma despertar muito a atenção desses animais. Lua muitas vezes tenta caçar cada uma das gotinhas que escorre pelo vidro, e está sempre atenta, até mesmo quando o chuveiro já foi desligado e cai uma ou outra gota.

Quando entro para o banho, e que ela fica me assistindo, sinto que entrei em em um espaço de alta tecnologia, uma câmara da construção de uma outra dimensão. 

Porque um box de banho produz algo parecido. De um lado há vapores, corpos nus, água caindo e uma temperatura geralmente bem mais quente. Do outro estamos com roupas, o ambiente é totalmente seco e com outra temperatura. 

O que ali ocorre parece estar cozinhando uma outra realidade. E isso de certo modo ocorre. Porque a expressão "tomar um banho" geralmente se liga a alguma transformação. Saímos diferentes. Não saímos somente nos sentindo mais limpos. Saímos com outra temperatura, com outras sensações, nos sentindo, amiúde,  um pouco renovados pelo banho.

E a gatinha permanece ali, totalmente atenta, com seu olhar aparentemente enigmático, mergulhado em seu mundo sem palavras. Esse mundo, de um presente constante, de comunhões rápidas, do esquecimento como regra, da escuridão dos silêncios eternos, da singela e atenta audiência de banhos como se fossem espetáculos milenares.

Monday, January 10, 2022

Gatos e Clarices

Gato é um bicho misterioso e  engraçado. Veio a esse mundo para confundir e desencontrar. É a Clarice Lispector dos animais de estimação. 

Quando se pensa que está num canto, está no outro. Quando se imagina que ficará agressivo, nos despreza. Quando fazemos de tudo para sermos desprezados, percebem até mesmo uma pena caindo ao chão.

Os encontros humanos com esse pequeno felino são muitas vezes desencontrados. Quando o chamamos, não vem. E quando não queremos que venha, vem correndo. Quando tentamos não fazer barulho algum, e passar completamente desapercebidos, ele nos pega. E quando estamos totalmente relaxados, tropeçando e derrubando o mundo, ele nem se liga, não está nem aí, não acorda e nem nos dá atenção. 

Um dia acordei de manhã, e vi que minha gatinha estava encostada na parede mas, como a luz do sol estava contra meus olhos, somente vi sua silhueta, e imaginei que ela estava ali, encostada na parede, olhando para mim, obviamente. Porque um predador jamais vira as costas para qualquer coisa que esteja se aproximando.

Cheguei perto. Ela estava completamente imóvel, como uma estátua, e parecia contemplar algo, ou em uma espécie de estado hipnótico, com os olhos abertos, a olhar para a própria parede, vazia, sem qualquer tipo de estímulo que chame a atenção de qualquer outro ser vivo.

O bichano entra num ambiente que nos contraria, em um lugar que não era para entrar. Aí esperneamos e gritamos, e ele ignora solenemente nosso chilique. Não se assusta com grito algum ou com ameaça alguma de violência. Mas baterá aterrorizado, em fuga, se somente dermos uma sopradinha suave em seu focinho.

E não adianta achar que esse bichinho irá se esquecer de explorar qualquer mínimo canto possível, e impossível, da casa. É um bicho absurdamente xereta. Quer cheirar tudo, e saber absolutamente de tudo o que está acontecendo em cada canto mínimo de um universo, que nunca nem pensamos em explorar antes de ter um gato.

E aí começam também meus próprios dramas pessoais e neuroses em relação a animais de estimação.

Fui criado a vida toda e condicionado a pensar que animais de estimação devem ser criados no quintal, e que jamais devem habitar o mesmo o ambiente interno que nós humanos.

Tive um único cachorro durante toda minha vida. Ele vivia no quintal, comia mais ou menos o que todo mundo na casa comia. Tinha passe livre para a rua, para sair e entrar quando quisesse. Passeava e namorava bastante, e corria obviamente diversos riscos. Mas tudo isso era concebido como algo que fazia parte da vida desses bichinhos naquele contexto de década de 80 e início da década de 90, em um bairro de periferia do interior de São Paulo.
Até o cocô e o xixi que meu cachorro fazia não era em casa. Nem víamos e nem sabíamos onde ele fazia xixi e cocô. Foi atropelado e teve fraturas, tomou facada de bandido, e também havia tomado tiros, porque conseguíamos apalpar o chumbinho, em formato diabolô, que ele tinha perto do pescoço.

Ele nem se atrevia a entrar em casa. Vivia no quintal, e a vida era muito separada, entre a vida de humanos e a vida de bicho. Desde quando éramos pequenos minha mãe sempre nos alertava, repetidamente, por inúmeras vezes, que os animais poderiam transmitir uma série de doenças e que, após tocá-los, deveríamos lavar as mãos.

Então Fred, nosso cãozinho, recebia muitos carinhos, e depois a gente lavava bem a mão.
Hoje, já há quase 2 meses, me vejo convivendo, em um apartamento pequeno, com uma gatinha preta, que foi por mim resgatada das ruas. 

Parei o carro para atender o celular. Vi que um filhote de gato, pretinho, ao longe, me avistou e fixou o olhar em mim, sendo que eu estava dentro do carro. Essa gatinha, bem pequenina, com apenas um mês e meio de vida, foi capaz de me visualizar, bem de longe, e perceber que eu estava dentro de um carro parado, e vir até a minha direção, como se estivesse mesmo pedindo ajuda, e assim entrou debaixo do veículo.

Não tive escapatória. Fui pego por esse predador implacável. Seus dois olhos, amarelinhos, brilhavam na escuridão de seus pelos. Mas um deles parecia estar fora do lugar, como se o globo ocular tivesse sido arrancado de sua órbita. 

Sou míope, e o entardecer já não permitia que eu conseguisse compreender muito bem o que havia nos olhos do bichinho. Eu tinha até receio de tentar entender claramente o que estava ocorrendo. Minha impressão é a de que ela estava mesmo com um dos olhos arrancados. Aquilo cortou meu coração, e só consegui pensar que a única coisa a ser feita era levá-la imediatamente a um veterinário, para ver o que era possível fazer em relação à sua vida.

Por sorte estava tudo tranquilo com a saúde dela, e o segundo passo era então tentar encontrar alguém que pudesse de fato ficar e conviver com esse bichinho. Porque eu não tinha, nenhum nunca tive planos de ter animais de estimação dentro de meu apartamento.
Não encontramos quem quisesse ficar com a gatinha. E assim o tempo foi passando, e minha filha foi se afeiçoando ao bichinho. O resultado é que agora esse animalzinho realmente habita o mesmo espaço que eu, que foi durante toda a vida condicionado a pensar que lugar de animal de estimação é no quintal.

E no começo o que mais me angustiava era essa gatinha descobrindo os cantos mais esquecidos e imundos da casa. Porque o problema é ela se sujar em algum canto desses, e levar a sujeira para o restante da casa inclusive para locais que não me sinto confortável em imaginar que estarão se sujando um pouco mais a partir disso, tais como o sofá, por exemplo.

E essas minhas neuroses só fazem com que eu me lembre de uma conversa um pouco engraçada que tive com a veterinária, logo nos primeiros dias em que a gatinha habitava nossa casa:

- Confesso que sou um pouco nojento, e tenho dificuldades para assimilar a convivência com um bichinho de estimação dentro de casa. Fico imaginando que ele acabou de fazer cocô, e logo em seguida senta no sofá.

- Ah, mas gatos são muito limpinhos. Eles se lambem o tempo todo, até ficarem bem limpinhos.

- E depois que ele faz cocô, ele lambe o quê? - perguntei, em um estilo um pouco mais socrático.

- Ele se lambe, e fica bem limpinho.

- Então ele lambe o cocô, e vai engolindo esse cocô, até ficar totalmente limpinho?

- É... - respondeu a veterinária, com um sorriso um pouco amarelo, e eu também.

E então, para amenizar um pouco essa minha angústia com alguns cantinhos sujos da casa, resolvi fazer uma faxina um pouco mais pesada. 

Comecei pelo banheiro. Lavei, muito bem lavadinho, tudo o que eu podia. E quem é que acompanhou, atentamente, toda a faxina?

A gatinha.

Ficou o tempo todo sentadinha, com sua cabecinha se mexendo para lá e para cá, olhando tudo que eu fazia, sem se atrever a botar suas patinhas na água.

Eu fazia aquela faxina pesada, olhava para a gatinha, e somente ouvia internamente um novo esquema de organização para o universo, que me dizia assim: "os gatos são os animais mais limpos que existem!"

Ela devia na verdade estar olhando atentamente para mim para estudar quais eram aqueles métodos de limpeza que eu estava utilizando, que eram muito diferentes dos dela. E pensava, consigo mesma:

"Olha o quanto esse ser humano está despendendo de energia, e se perdendo, em um processo que pode ser na verdade muito mais rápido e simples. Basta lamber tudo e se lamber, seu trouxa. Pra quê que você tem cuspe?"

O banheiro ficou um brinco. Ficou completamente desinfetado. Dava até para lamber o chão. Estava tão limpo que, se fosse lambido, nada seria engolido.

E aos poucos vou engolindo, assimilando essa nova realidade, pequenina, fofinha, estranha e misteriosa, que hoje circula, todos os dias, por vários cantinhos de nossa casa.

Banho quente pra quem é gente

Nunca tive nem cuidei de gatos. Em casa somente tivemos dois vira-latas, nas décadas de 80 e 90. Um deles, inclusive, cujo nome era Fred, nos deixou maravilhosas lembranças. 

Fred nasceu em 1987 e desapareceu 7 anos depois, em 1994. Era um típico vira-lata, querido da vizinhança, de periferia. 

Comia muito da comida que sobrava em nossos pratos e também um pouquinho de ração. O portão vivia trancado, mas havia uma abertura pela qual ele podia entrar e sair quando quisesse. Foi atropelado uma vez, tomou facada de bandido, que pulou dentro do nosso quintal. Tomou tiro de chumbinho, que não sabemos quem foi que deu. Mas sabíamos que ele tinha um chumbinho no corpo, porque dava para apalpar e sentir certinho o formato do chumbinho diabolô em sua pele.

Tomava banho de mangueira. Era um cachorro de quintal, e jamais entrava dentro de casa. Lembro-me bem que ele ficava bastante abatido durante o banho, ou tranquilo, não sei. E que Ribeirão Preto sempre foi muito quente. 

Então hoje tenho dificuldades para saber se aquele banho de água fria era muito sofrido ou não. Porque a água em Ribeirão não era, de modo geral, fria. Durante o verão a água não ficava muito fria, e era possível tomar banho frio normalmente, dentro de casa. Isso ajudava a refrescar.

Mas sei muito bem que naquela época eu era muito mais tosco do que hoje, e bem menos sensível ao fato de que, se estamos tomando banho quente, logo nossos animais de estimação também têm de tomar banho quente.

Sabendo muito bem disso, hoje fiz uma coisa que nunca fiz na vida, porque nunca tive gatos. Entrei dentro do box com a gatinha que peguei na rua, e dei um banho quente, presumo eu, bem gostoso nela. 

Porque ela ficou muito molinha. Ao ponto de eu enrolá-la na toalha, e ficar com ela no colo, olhando para a carinha dela, e sentindo que ela ronronava o tempo todo, e quase dormia. 

E tentamos fazer tudo baseados nos protocolos atuais, com shampoo especial, e todos os detalhes necessários para que não houvesse nenhum contratempo.

Mas eu jamais me imaginei em tal situação. Ontem, quando esse animalzinho entrou debaixo de meu carro, eu simplesmente não tinha a menor ideia do que fazer. Porque eu não tinha nem coragem de pegá-lo em minhas mãos. Fazia mais de 20 anos que eu não pegava um gato no colo.

E hoje foi isso. Tomamos banho juntos.

Sunday, January 09, 2022

"Não existe ateu quando o avião está caindo"?

Volta e meia vejo alguém dizer que não existe ateu quando o avião está caindo. Porque nessa hora as pessoas gritam "Meu Deus!", ou até mesmo oram para que o pior não aconteça.

Dizer uma coisa dessas talvez sirva como piada, para poder se descontrair um pouco. Porém, creio que a realidade seja um pouco mais complexa.

Primeiramente porque existem expressões que são na verdade automatismos, e que não podem ser tomadas como literais.

Quando alguém diz "você poderia me passar o sal?", não está perguntando para a outra pessoa se ela é capaz de passar o sal. Se a outra pessoa entender assim, irá somente responder "sim, posso", e não irá passar o sal para ela.

Se alguém grita para você "olha o cachorro!", você não vai somente ficar observando o cachorro. Você vai tentar se proteger.

Então se alguém diz "meu deus", "vai com deus", "pelo amor de deus" ou qualquer coisa parecida, isso não quer dizer necessariamente que a pessoa acredita em uma entidade sobrenatural, onisciente, onipresente, onipotente e criadora de tudo.

Porque acreditar não é definido somente por declarações ou pela utilização de expressões fixadas pelo uso comum.

Mas aí o crente insiste, e diz que a pessoa que, em um momento de desespero, começa a rezar, é alguém que na verdade acredita no deus cristão. E que se ela se declarou antes como ateia, isso que ocorreu antes não era verdade.

De fato. Não basta que uma pessoa declare no que ela acredita se ela não se comporta conforme o que declarou.

Não basta uma pessoa dizer a outra que a ama, se não cuida, não sente falta ou não expressa nenhum tipo de comportamento que esteja em conformidade com o que diz.

Não basta dizer que confia, mas não deixar que a outra pessoa tenha o mínimo de autonomia para fazer o que quer que seja sozinha.

Não basta dizer que acredita em alguma entidade sobrenatural, e que é necessário realizar com frequência rituais e orações de louvor a esta entidade, se não faz isso nunca ou quase nunca.

Assim como não faz muito sentido dizer que não acredita, mas morre de medo da suposta entidade na qual diz não acreditar.

E assim talvez seja importante retomar o conceito de agnosticismo, o qual resguarda para uma determinada crença um intervalo de confiança, sabendo que apesar de majoritariamente se crer em alguma coisa, há também margem para outras possibilidades. Ou então simplesmente não define no que exatamente acredita, porque não vê maior ou menor margem em qualquer um dos lados.

Então é agnóstico todo aquele que não tem convicção de sua crença. Acredita majoritariamente em um determinado aspecto e minoritariamente em outro. Ou então não sabe nem mesmo definir se existe uma crença majoritária. Acredita que ambas as possibilidades tem geralmente o mesmo valor.

Desse modo um agnóstico ambivalente seria aquele que teria como linha mestra somente a sua própria incoerência. Isso então fará com que uma pessoa assim se sinta livre para ser completamente incoerente em relação a determinados assuntos. Em um determinado contexto ela poderá se comportar como alguém que acredita piamente em algumas coisas e em outros poderá manifestar sua completa descrença.

Um agnóstico puro, ou ambivalente, então é alguém que segue à risca a própria etimologia da palavra agnose, que significa não-crença. É alguém que, em termos de entidades sobrenaturais, não acredita que elas existam e também não acredita que elas não existam.

Porém alguém que acredita que uma mesma coisa pode existir e pode não existir, é alguém que também pode tranquilamente se comportar tanto como se aquilo existisse como se aquilo não existisse.

Então para um agnóstico puro, ambivalente, tanto faz se aquilo existe ou deixa de existir, e ele vai, com muita tranquilidade, e até de modo divertido, navegar nessas possibilidades conforme o contexto.

E, a se observar pelo comportamento da maioria das pessoas, dá para se pensar que boa parte delas é muito mais agnóstica do que imagina.

Os que se dizem crentes muitas vezes não se comportam conforme aquilo que dizem acreditar, e o mesmo vale para os não-crentes.

Durante a maior parte do tempo pode ser que uma pessoa se comporte como se ela convictamente acreditasse ou não em alguma coisa. Mas pode ser que ocorra uma mudança em um determinado contexto. 

Uma pessoa que se julga convicta pode ser menos convicta do que imaginava e, em um momento de desespero, pode apostar suas fichas em algo que sempre teve para si mesma como muito improvável. 

Então alguém que sempre se comportou como um descrente pode, em um momento de desespero, apostar suas fichas em algo que talvez tenha uma pequena possibilidade de ajudá-la.

E talvez não seja muito honesto tentar definir uma pessoa a partir de como ela se comportou em um momento de desespero.

Por outro lado, vamos supor que faça sentido a alegação de que não existe ateu quando o avião está caindo.

Se isso faz sentido, logo todos nós acreditamos em uma entidade sobrenatural, onisciente, onipotente onipresente, criadora de tudo o que existe, e que é necessariamente Javé (Jeová), o deus do cristianismo?

Isso não faz o menor sentido quando pensamos em outras culturas, que não tem o cristianismo como base de crença. 

Então afirmar que não existe ateu, quando o avião está caindo, talvez só faça algum sentido se estivermos falando genericamente de crenças em entidades sobrenaturais, e não necessariamente de crenças em algum deus específico.

E mesmo assim podemos continuar explorando essa possibilidade. 

Vamos supor que de fato todas as pessoas tenham crenças sobrenaturais. O que faz alguém pensar que essas crenças estão no mesmo nível para todas as pessoas? O que faz alguém pensar que as crenças sobrenaturais são sempre majoritárias para absolutamente todas as pessoas? É simplesmente um episódio de desespero e descontrole emocional, no qual há completa perda de qualquer possibilidade de avaliação racional do que está acontecendo?

Isso quer dizer então que boa parte das pessoas somente acreditam em coisas sobrenaturais quando estão completamente desesperadas e perdidas? Qual é a validade de uma crença que somente se afirma a partir do desespero e do descontrole emocional de alguém?

Wednesday, December 29, 2021

Somos, em alguma medida, a média do que nos cerca

 Um colega escreveu assim:

"Uma coisa que fica cada vez mais clara - antes como intuição, agora reforçada por alguns estudos empíricos - é que somos, em alguma medida, a média de valores e opiniões que nos cercam."

Isso não é novidade alguma para os behavioristas radicais.

Friday, December 24, 2021

Sucesso e foco

Foco é fundamental para o sucesso. Quem se perde com muitos afazeres variados, pode mais facilmente se perder do rumo do sucesso. Já tive muito mais foco na vida. E muito mais sucesso. Porque o sucesso é desejar, o que de fato importa, e conseguir. Entrava às 8 horas na biblioteca, para estudar, e só saia às 23 horas. E tive o sucesso que almejava: não passei fome ou fiquei desempregado por mais de 6 meses. Não tomar um ferro bem grande no lombo era a minha motivação para esse nível de foco. Porque o sucesso é sobreviver e ter saúde. O resto é luxo.

Monday, December 06, 2021

Devedores compulsivos

Atuei em consultório particular durante muito tempo. Após a entrevista inicial é interessante avaliar se o caso é realmente para nós, se teria de ser encaminhado para algum outro profissional ou algum outro tipo de serviço. Porque ocorre de algumas vezes ser um caso que não teremos muitas condições de ajudar ou de sustentar. 

A questão é que não somos obrigados a aceitar, para um processo psicoterápico, qualquer paciente que aparece. Se achamos que não daremos conta, o mais ético é realmente encaminhar para outros, que terão mais condições.

Havia basicamente dois tipos de pacientes que eu evitava atender: sociopatas e devedores compulsivos.

Acho que no primeiro caso muito de vocês talvez entendam com mais facilidade os motivos da evitação. Mas quero aqui me ater ao segundo caso, o dos devedores compulsivos.

Em muitos desses casos sinto que essas pessoas fazem realmente alguns cálculos, para conseguir o que concebem como vantajoso para elas. 

São pessoas que têm o gozo de ficar devendo para outras. A dívida, principalmente aquela que for mais difícil de ser cobrada, é concebida, sentida, como uma espécie de lucro. Muitos sentem que levaram a melhor, que ganharam alguma coisa, fazendo uma dívida. É o gozo de ter algo de graça, de um modo que não pode ser chamado de roubo. É muito parecido com o prazer de ter roubado alguma coisa, porém de um modo bem mais suave e com consequências menos danosas para si.

O devedor compulsivo aproveita as mais variadas brechas para conseguir algumas coisinhas de graça, principalmente coisas pequenas, se possível, porque já conta com o comportamento resignado de seus credores.

Pode estar com o dinheiro no bolso, mas jamais paga no ato da compra. Sempre diz que vai pagar depois, ou pede para que o vendedor espere o dia em que irá cair seu salário, ou qualquer desculpa semelhante.

Você vê que o sujeito está muito longe de ser pobre ou de estar com algum problema de falta de grana. Mas ele acaba pedindo para você esperar até o mês seguinte quando, por exemplo, irá cair seu salário. Essa fala tem o cálculo de que você, vendedor ou prestador de serviços, irá se esquecer, depois de tantos dias após a venda de seu produto ou a prestação de seu serviço.

O devedor compulsivo conta constantemente com isso: com o esquecimento e o perdão de suas dívidas. E também fará de tudo para que o papel de vilão fique com qualquer pessoa que ouse cobrá-lo por alguma coisa que ele deixou de pagar.

E se você for psicoterapeuta, em alguns casos nem terá eficácia se criar uma regra de descontos para pagamentos antecipados. O devedor compulsivo não é besta. Começa pagando direitinho durante o primeiro ou os primeiros meses. Em muitos casos parece que até sabe da importância de começar direitinho, para depois se criar um vínculo, e assim tornar difícil qualquer tipo de interrupção do tratamento devido a seu comportamento impróprio.

Um modo de talvez se aceitar esse tipo de paciente, com um pouco mais de segurança (para nós terapeutas, obviamente), é encontrar uma terceira pessoa, que ficará inicialmente responsável pelo pagamento, e ir aos poucos transferindo essa responsabilidade para o próprio paciente.

Nunca procedi desse modo, porque na época em que eu atuava em consultório particular, meu trabalho ainda não era tão sistêmico e analítico-comportamental como hoje.

Talvez seja uma boa alternativa. É melhor do que colecionar calotes, algo com o qual convivi com certa frequência. Em alguns casos consegui consertar, e em outros nunca vi a cor da remuneração de meu trabalho.

Monday, November 08, 2021

Os limites da comunicação não-violenta (CNV)

Comunicação não-violenta não resolve tudo. 

É o que existe de mais eficaz para se quebrar com o ciclo da violência, nas interações em que é possível ocorrer um mínimo de comunicação. Contudo, há alguns casos nos quais algumas pessoas aumentam sua agressividade, mesmo quando são abordadas da forma mais pacífica possível, inclusive com as técnicas de comunicação não-violenta.

Eu fazia parte de um grupo virtual, no qual havia umas 40 pessoas, pelas quais, em sua maioria, eu tinha grande apreço e respeito. 

Porém, infelizmente, houve um dia em que um das pessoas do grupo ficou bastante irritada comigo e muito agressiva.

Eu estava transtornado com um evento trágico que havia ocorrido em alguma cidade do Brasil, e que estava sendo noticiado pelos jornais. E eu também estava revoltado, porque aquele aquela tragédia podia ter sido evitada. Havia claramente negligência e egoísmo envolvidos.

Porém, para tentar sensibilizar as pessoas para aqueles fatos, e do que podia ser feito, eu narrei a tragédia da forma mais realista possível.

E meu texto narrativo atuou como um gatilho para algumas das pessoas mais sensíveis do grupo. Era como se esse texto contivesse imagens muito fortes. Alguns ali não deram conta de ler sem ficar muito abalados.

Em poucas horas, em privado, comunicaram-se entre si, sobre meu texto, que ele continha excessos, que talvez eu não devesse me expressar daquele modo, ou que eu deveria ter deixado ali um aviso de gatilho para os mais sensíveis.

Até aí tudo bem. Porque qualquer pessoa mais serena teria plenas condições de me comunicar em privado, ou mesmo em público, dentro do grupo, de forma polida, como eu deveria ter procedido, como eles gostariam que eu tivesse procedido. Desse modo tudo teria sido resolvido da forma mais tranquila possível.

Porém  infelizmente, não foi isso o que ocorreu. Um dos membros do grupo tomou a palavra, em público, e me repreendeu de modo muito ríspido e truculento.

Confesso que nos primeiros minutos eu simplesmente não sabia o que falar ou o que responder. Fiquei bastante atônito com aquela reação tão desproporcionalmente agressiva. Foi assim que eu senti o contexto do ocorrido. Pode até ser que eu tenho me enganado. Mas meu sentimento, até hoje, é o de que a agressividade daquela pessoa foi muito grande e muito desproporcional.

Então a primeira coisa que fiz, sempre dentro da perspectiva de uma cultura da paz, foi a de pedir as minhas sinceras desculpa para todos os presentes, em virtude dos possíveis efeitos que aquele texto poderia ter provocado na sensibilidade de alguns.

Contudo, para a minha surpresa, isso fez com que essa pessoa aumentasse ainda mais o nível de sua agressividade. Ela pegou minha resposta e retrucou, fazendo trocadilhos e jogos de linguagem, ao ponto de transformar nossa interação, em público, em uma grande humilhação.

Eu me senti totalmente massacrado e humilhado. Confesso que tive muita vontade de também partir para a agressão franca. Eu teria poucas e boas para escrever para aquela pessoa. Mas, como venho há alguns anos fortemente cultivando uma cultura da paz, achei melhor me conter, e continuar com a minha pobre e quase inútil comunicação não-violenta.

Escrevi mais umas duas frases, em tom ainda bastante apaziguador, e me despedi do grupo.

E depois, como em outras vezes em que isso ocorreu em minha vida, eu sentei e chorei. Porque é muito difícil ser tão intensamente agredido, não reagir, se sentir absolutamente humilhado, em público, e ainda assim achar que não vamos sentir nada. Machuca, machuca muito. Dói, e fica doendo durante muito tempo. Isso ocorreu há quase dois anos, e quando começo a me lembrar ainda sinto a mesma dor. 

E uma das coisas que também fiz questão de fazer foi a de bloquear essa pessoa, em pelo menos uma de minhas redes sociais, que era a qual utilizávamos algumas vezes para nos comunicar, das poucas vezes em que nos comunicamos em privado, na vida.

Meu sentimento é o de que essa pessoa foi muito covarde. E eu jamais diria isso a ela ali, naquele contexto, porque não é assim que se faz uma comunicação não-violenta. Não é assim se faz redução de danos em interações com potencial para a violência. 

Ela percebeu que eu não revidei, que não houve troca de agressões, que houve um pedido de desculpas, e mesmo assim intensificou sua agressividade em cima de mim.

Eu somente soltei mais duas ou três frases, e me despedi do grupo. E não pretendo voltar, apesar da grande maioria das pessoas ali serem fantásticas.

É um grupo de WhatsApp, e eu detesto grupos de WhatsApp. Só faço parte mesmo dos grupos de trabalho, dos quais não há como fugir. E eu estava mesmo um pouco deslocado naquele grupo, me sentindo um completo estranho. Eu não conseguia me manifestar ou me sentir como uma pessoa que agradasse às outras naquele contexto, apesar, como já disse, da grande maioria delas serem pessoas fantásticas.

Horas depois de minha saída, alguns dos membros me enviaram mensagens, em privado, perguntando como eu estava. Perceberam que a agressão havia sido grande. Tiveram compaixão.

Mas ninguém, pelo visto, teve coragem de intervir enquanto as coisas estavam ocorrendo, dentro do grupo. Deixaram rolar, talvez pensando que eu fosse me defender, possivelmente revidando. Não foi isso o que ocorreu, e a humilhação foi completa. 

E quem está lendo esse texto pode até pensar que sou um completo idiota, uma pessoa resignada e tola, ou qualquer coisa parecida. Mas a cultura da paz que conheço não é algo que tirei da cartola, não é uma opinião. Está fundamentada pela contribuição de trabalhos acadêmicos. É uma técnica amplamente aceita e adotada, como instrumento de base para abordagens em mediação de conflitos e consultas com pacientes em variadas especialidades. E serve também para a vida diária.

Porém, como já disse, não é infalível. Diante de padrões de comportamento covardes e sádicos talvez seja completamente inútil, e possivelmente em muitos desses contextos não exista outro modo de nos comportarmos. Porque simplesmente revidar é sempre mais arriscado, e provavelmente mais danoso. A agressividade mútua pode se intensificar. E dependendo do contexto, e das pessoas envolvidas, os danos podem ser muito grandes e irreversíveis.

Uma das melhores coisas a se fazer em situações como essa é fugir, escapar, o mais rápido possível. E foi, de certo modo, o que fiz. 

Sim, dói, dói bastante. Mas minha experiência de vida me diz que foi o melhor a ser feito. Em várias outras situações, nos últimos 30 anos, atuei de modo bastante agressivo, conseguindo inclusive agredir muito mais a quem me agrediu, revidando, e os resultados, as consequências, não foram nada boas. Foi muito mais doloroso do que ser agredido, não revidar, e fugir. 

É isso também não quer dizer que eu sempre consigo atuar de modo pacífico. Algumas vezes eu revido, e parto mesmo para a agressão, o que deixa inclusive algumas pessoas bastante assustadas, porque não imaginavam que eu era capaz de tanta violência verbal e termos de bem baixo calão.

Porém, conscientemente, se alguém me perguntar qual é a opção que eu geralmente tento perseguir, ela é esta, a de uma cultura da paz e da comunicação não-violenta. E, sim, em muitos casos eu prefiro fugir. Podem me chamar de fujão.

Saturday, November 06, 2021

A questão do respeito na relação com os pacientes

Quando algumas pessoas, que não têm formação na área de saúde mental, aparecem para trabalhar no CAPS, costumam ocorrer alguns problemas. 

Tenho e tive colegas que estavam acostumados a trabalhar em hospitais, e quando chegaram ao CAPS se assustaram com algumas coisas. Nas reuniões era, e ainda é, comum reclamarem de que alguns pacientes foram desrespeitosos, por exemplo. E muitos, para tentar se impor, chegam até mesmo a dizer ao paciente a clássica frase: “Me respeite!”. Ou então alertam: “Você está me desacatando! E desacatar servidor público é crime!”.

Em algumas situações, durante essas a reuniões, eu digo que, em quase 30 anos de prática profissional, eu jamais senti que algum paciente estava me desrespeitando. Contudo, logo após me expressar desse modo, é nítida a expressão de incredulidade desses colegas, e alguns inclusive fazem questão de tentar mostrar que eu estou sendo desonesto ou mentindo.

É uma situação tensa e difícil, mas sempre mantive a tranquilidade, e tento dizer que, segundo minha formação técnica, e minha experiência profissional, eu não vejo o menor sentido em se afirmar que um paciente está me desrespeitando, e muito menos chegar ao ponto de ter que dizer para esse paciente algo como o clássico “Me respeite!”.

Lembro-me inclusive de uma ocasião em que alguém pregou alguns cartazes nas paredes do CAPS, com aquele aviso da lei do desacato. Aquilo me deixou suficientemente irritado para que eu imediatamente tirasse todos esses cartazes das paredes e os jogasse no lixo. 

Isso ocorreu durante o período em que essa lei havia sido extinta. Porém em junho de 2020 o STF decidiu que é crime. A votação não foi unânime, e a maioria dos ministros defenderam que não há incompatibilidade da lei do desacato com os direitos humanos de liberdade de expressão. Então ficou decidido que a população tem o direito de expressar o que pensa diante de servidores públicos, mas ninguém tem o direito de humilhar, injuriar ou agredir fisicamente o agente público.

Estou há 11 anos no SUS, atendo inúmeras pessoas diferentes todos os meses, e nunca nem mesmo senti que algum paciente alguma vez me desrespeitou. Porque meu sentimento é o de que aquela pessoa está em uma instituição de saúde, manifestando seu sofrimento, adoecimento e vulnerabilidade. Então o que temos nas instituições de saúde é um contexto muito específico, que facilita arroubos e excessos, e pode assim ocorrer de alguns pacientes serem mais ríspidos, hostis ou até xingarem algum servidor público.

E não é somente ter plena consciência disso que faz com que eu fique mais tranquilo e tolerante diante de pacientes e familiares mais agressivos ou hostis. Outra coisa que sinto é também que há uma assimetria muito grande entre os servidores e a população atendida. 

O servidor, na grande maioria das vezes, se encontra em uma posição de controle de muito mais poder do que o usuário do serviço. Ter plena consciência disso, e ter uma formação consistente em escuta empática e/ou comunicação não-violenta é fundamental.

Então, para finalizar, eu diria que me sinto muitíssimo tranquilo e seguro com minha formação, a qual tem me permitido, em muitos anos de atuação, quase sempre conseguir, com facilidade, contornar esse tipo de situação um pouco mais delicada. 

Quem tem uma formação técnica mais consistente quase sempre consegue fazer com que aquele paciente, ou familiar, que chegou mastigando marimbondos, saia do atendimento com gosto de mel na boca.

Wednesday, October 20, 2021

Duplo-vínculo

A expressão "se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come" é conhecida. E ajuda a entender um pouco o que é o duplo-vínculo. 

É um conceito que foi criado por terapeutas e pesquisadores da área de intervenção sistêmica. Diz respeito basicamente a uma situação na qual um comando duplo é emitido.

A duplicidade desse comando contém, porém, uma contradição fundamental. Porque é pedido ou ordenado a alguém que faça uma coisa, e que ao mesmo tempo faça o seu contrário.

Mas por que alguém faria isso com outra pessoa?

Pessoas indecisas ou mal resolvidas podem fazer isso com outras. E ódio e sadismo também produzem esse tipo de interação. 

É claramente um tipo de relação entre as pessoas, na qual uma oprime e outra é oprimida. 

Creio que pessoas indecisas ou mal resolvidas podem fazer isso com outras, de modo aparentemente involuntário, e pessoas que estão com muito ódio, ou tomadas por sadismo, estando ou não com ódio, também podem fazer esse tipo de coisa.

Fora o fato de que relações muito assimétricas, com excesso de poder para um dos lados, também podem se transformar em terreno fértil para tais abusos.

E o que o duplo-vínculo causa? As observações desses pesquisadores mostram que, durante a infância, é possível que o duplo-vínculo tenha um papel significativo na geração de transtornos mentais severos, tais como a psicose, cujo sintoma central é a perda do juízo de realidade.

O duplo-vínculo tortura, e tem o potencial para enlouquecer e matar. E pode ser perpetrado até mesmo por pessoas, em tese, bem intencionadas, que não sabem muito bem o que querem ou o que estão fazendo.

E o problema é que muitas das pessoas, que são envolvidas e oprimidas por este tipo de interação, não se dão conta do que está acontecendo.

Tenho um histórico relativamente longo, de ter percebido isso precocemente em algumas das interações que já tive em minha vida, e aprendi, em boa medida, talvez por volta do final de minha adolescência, a escapar de tal infortúnio.

Porque, se por acaso estivermos sendo vítimas de tal situação, é crucial que consigamos identificar que isto está ocorrendo. 

Em alguns casos basta identificar e comunicar isso a quem está assim nos oprimindo. Em outros casos, possivelmente a maioria, isso fica longe de ser suficiente. E assim somente nos restará fugir para o mais longe possível dessas pessoas, ou então conseguir denunciá-las a instâncias capazes de detê-las.

É um tipo de interação que tem um poder enorme de destruição. É realmente triste e violento. E muitas vezes o que torna o duplo-vínculo um evento ainda mais lamentável é o fato de que ele pode muitas vezes irromper no seio de um grupo ou família aparentemente funcional ou feliz.

Monday, October 11, 2021

Como manter a autoridade, com carinho e muito bom humor

No CAPS tenho uma paciente que é muito divertida.

Uma vez ela me deu bom dia e logo perguntou como é que estavam meus oxiúrus. Porque ela de fato sabe que eu faço a terapia helmíntica, e  sabe que perguntar dessa maneira, como se eu tivesse oxiúrus, é realmente para me sacanear. 

Respondi que eu fazia mesmo a terapia helmíntica, que eu tinha de fato vermes no bucho, mas que não tinha todo esse fogo no rabo. 

Há poucos dias ela ficou dizendo, repetidas vezes, que eu tinha de ir ver como estava o bazar do CAPS, que eu tinha de aparecer lá para prestigiar o evento. Aí eu lhe disse que eu já tinha ido lá, e que eu já tinha comprado algumas coisas. Ela me perguntou o que eu tinha comprado, e eu prontamente lhe respondi,  bastante sério, e na frente de outros pacientes, que eu tinha comprado algumas calcinhas pra mim. 

Ela é muito divertida, e desperta isso nas pessoas, que geralmente ficam mais divertidas perto dela. É uma maravilha!

Então, como brinco muito com alguns de meus pacientes, um colega, psicólogo, me perguntou como concilio as brincadeiras e "gozações" com a manutenção de minha autoridade na relação com eles.

Respondi-lhe assim:

"Já testei minha autoridade de tudo o que é jeito, tentando levá-la ao limite, mas ainda não encontrei esse limite. Só perco autoridade quando perco o vínculo afetivo. Isso geralmente ocorre com pacientes que foram frustrados por mim, antes de haver apego."

As éticas capitalista e comunista

Tenho profunda admiração por Carlos Lamarca e Ernesto Che Guevara.

Ambos, com seus vinte e poucos anos, viajaram pelo mundo afora, testemunharam a miséria de muitas pessoas, e retornaram com ideais mais igualitários.

Lamarca testemunhou a pobreza, a miséria e o sofrimento inaceitável na Palestina, no início da década de 60, assim como também o que percebia da realidade brasileira, e Che Guevara viajou por toda a América Latina.

Os ideais socialistas e comunistas são, em princípio, moralmente superiores à ética capitalista. 

São éticas diferentes. Os ideais comunistas se pautam por uma ética de cunho mais principialista. O capitalismo se pauta mais por uma ética consequencialista.

Quero então fazer uma analogia, com um exemplo bem simples. 

Suponha que alguém está se afogando, e uma pessoa lhe arremessa uma boia, para tentar salvá-la, e esta mesma boia atinge sua cabeça, provocando um desmaio, e que por fim a mata afogada.

Nesse caso temos uma intenção que é boa, porém com um resultado catastrófico. É fundamentalmente disso que é acusado o socialismo, geralmente com críticas que se referem ao socialismo soviético.

Agora suponha que, ainda como no primeiro exemplo, alguém esteja se afogando. Porém, do alto de um barco, alguém arremessa uma boia, com o objetivo de atingir o afogado na cabeça, para que ele desmaie, e morra.

A intenção neste caso é no mínimo difícil de ser compreendida, ou então é de fato maléfica, ou somente pode ser explicada por motivos egoísticos. 

Quem está tentando matar alguém que está se afogando pode tentar se justificar com argumentos mais típicos da extrema-direita, de cunho  nazi-fascista, dizendo que os afogados estão emperrando com a possibilidade de progresso material, econômico, da coletividade. Deve-se então deixar que os mais fracos pereçam, para que a própria coletividade, como um todo, possa se fortalecer.

Contudo, segundo o exemplo que dei, observamos que a intenção é ruim, e o resultado acaba sendo, contudo, satisfatório. Alguém tentou matar outra pessoa e acabou, no final das contas, salvando sua vida.

E não é muito difícil de julgar qual das duas ações é moralmente superior. Mesmo que o resultado da primeira ação tenha sido catastrófico, ela pode ser vista como moralmente superior. 

Então a impressão que tenho é que, em termos principialistas, a moral comunista é superior à moral capitalista.

A moral capitalista é muito mais tortuosa. É aquela história de que existem benefícios privados que produzirão, no final das contas, benefícios coletivos, de que é melhor cada um cuidar da sua própria vida, da melhor forma possível, que isso irá, no final das contas, produzir um grande benefício coletivo.

O motor do capitalismo é o individualismo, o egoísmo. Ele aproveita o egoísmo como uma grande força motriz para a produção de riquezas que, no final das contas, aumenta o tamanho do bolo, aumenta a riqueza da sociedade como um todo.

Para o capitalismo é fundamental que todo mundo queira ser rico, que todo mundo queira ganhar muito dinheiro, porque isso acaba depois sendo convertido em benfeitorias para toda a coletividade. Porque, em tese, uma pessoa muito rica, no sistema capitalista, querendo ficar cada vez mais rica, emprega outras pessoas, consome muitos bens e serviços, coleta uma quantidade muito grande de impostos, e assim o mundo vai progredindo.

Os capitalistas acusam os comunistas de não conhecerem a natureza humana, e de não saberem que é importante levar em conta a motivação individual. Falam, com razão, que "não existe almoço grátis", que nada é de graça, que tudo demanda o trabalho de alguém, que é preciso ter uma certa proporcionalidade, que as pessoas não podem simplesmente receber as mesmas gratificações, independentemente do que fizeram, que quem faz mais precisa ser gratificado por isso.

Outro ponto importante é a crítica de que talvez alguns comunistas tenham uma visão da natureza humana que é ingênua, pois talvez concebam o ser humano como essencialmente bom. E isso está obviamente longe de ser um fato.

Então algumas críticas da direita para esquerda talvez tenham fundamento quando acusam os comunistas de serem equivocados. Porque não dá para acusar os comunistas de serem, em princípio, maus ou desprovidos de compaixão. E esse tipo de acusação, por sua vez, dá para ser feita a muitas pessoas que defendem a defesa do egoísmo como algo que vai salvar a humanidade.

Em termos freudianos é mais arriscado o altruísmo desesperado do que o egoísmo esclarecido. Muitas vezes quem se manifesta como se fosse o herói, que está lutando pelos pobres e miseráveis, é alguém também carregado de narcisismo e desejo de poder.

Muitos que dizem que estão lutando para aumentar a igualdade no mundo, muitas vezes estão lutando por simples projeção de seus próprios desejos narcisísticos. Mas, convenhamos, isso é mais comum na caridade paternalista do que em um projeto estruturado de desconcentração de poder e renda. Então, para início de conversa, não confundamos comunismo com caridade. E é exatamente neste ponto que a crítica de muitos, da direita para a esquerda, é também fundamentalmente equivocada. Porque comunismo não é caridade nem cristianismo. Não é, por um ato de boa vontade, doar tudo o que se tem para os pobres. 

E também não é a crença de que o ser humano é fundamentalmente bom. Porque, se assim o fosse, não haveria porque haver, na fase socialista, o peso da mão do Estado planejando a vida social e econômica.

Tanto Carlos Lamarca como Ernesto Che Guevara vislumbraram a possibilidade de um sistema socioeconômico diferente que, da forma como entendemos hoje, possa aproveitar tudo de bom que o capitalismo produziu e, a partir disso, construir um mundo mais igualitário e benéfico para todos nós.

Porque o socialismo não é o contrário do capitalismo, e nem mesmo a negação deste. É sua assimilação e superação necessária.

Thursday, October 07, 2021

Caos e bom humor no CAPS

A depender da situação, os atendimentos em um CAPS podem se transformar em um verdadeiro caos, com o qual tem de se lidar com muita serenidade, tranquilidade e até bom humor.

Um paciente com autismo severo, incapaz de articular qualquer tipo de palavra, emitia gritos altos a cada 20 segundos, na recepção, e deixava todos muito estressados, porque não é nada fácil tentar trabalhar com alguém que está gritando o tempo todo. 

Seus gritos estavam comprometendo o trabalho de toda a equipe, com todos os outros pacientes. Entraram na sala na qual eu atendia um outro paciente, interrompendo o que eu fazia, para que eu pudesse atender a este caso severo.

Como se não bastasse essa interrupção, ainda houve outra interrupção, de uma paciente em crise, agitada e irritada, dizendo que queria ser atendida por mim. Esta paciente, por sua vez, não estava agendada comigo, e devia ser atendida por um outro profissional, escalado para as emergências.

Comecei a atender o autista e seus familiares. Ele continuava gritando, e emitindo sons em volumes bem altos, o que tornava difícil até mesmo escutar o que os familiares tinham a dizer. Ele andava constantemente de um lado para o outro dentro da sala. 

Por sorte a sala era grande. Os familiares me diziam que ele gostava de música. Colocamos algumas músicas de que ele gostava no volume mais alto possível dos aparelhos de celular, e ele parecia de vez em quando hesitar um pouco, para ouvir, e parecendo que ia se acalmar. Mas, 3 ou 4 segundos depois, tudo retornava à estaca zero.  

Então tivemos a ideia para que um dos familiares começassem a tentar dançar com ele, e mesmo assim pouco se resolveu. 

Porém, de repente, a mesma paciente que havia invadido a sala onde eu estava atendendo o paciente anterior, invadiu novamente a sala onde eu estava tentando atender agora esse autista grave com seus familiares, exigindo ser atendida por mim imediatamente.

- Só atenderei você, se você dançar com ele - disse a ela, apontando para o paciente com autismo severo.

Ela sorriu, e me respondeu:

- Sim, podemos tentar!

Tentamos, com muita suavidade e delicadeza, mais um movimento para que ele de repente se encontrasse um pouco com a música e algum movimento parecido com dança, mas nada disso resultou em qualquer resultado significativo.

Ela pelo menos se acalmou um pouco, ao ponto de entender que seria atendida por um outro profissional, porque havia outros pacientes agendados comigo, e eu não podia fazer com que ela furasse a fila. Não era justo com quem estava agendado.

O nível de energia e disposição para se lidar com uma situação dessas é bem alto. Mas para uma família conviver com aquela situação diuturnamente era certamente bem mais complicado.

Sunday, September 19, 2021

Epiteto, Sartre e behaviorismo radical

Epiteto teria dito assim: “O que perturba o ser humano não são os fatos, mas a interpretação que ele faz destes”.

As pessoas costumam citar esta frase para ressaltar que somos responsáveis pelo modo como interpretamos o que acontece conosco. 

Muitas dessas pessoas inclusive ressaltam que podemos interpretar nossas desventuras de modo vitimista ou transformá-las em uma visão mais otimista e fortalecedora. Chegam a dizer que não somos responsáveis pelo que nos ocorreu, mas que somos totalmente responsáveis pelo modo como interpretamos o que nos ocorreu.

Então imaginemos uma pessoa que tenha sido, por exemplo, torturada. E imaginemos também que esta pessoa, durante um certo tempo, tenha tido uma interpretação “vitimista” do ocorrido. Durante um certo tempo ela costumava relacionar as torturas que sofreu com tudo o que havia de errado em sua vida.

Porém, agora imaginemos que há alguns anos ela vem convivendo com um novo grupo de amigos e que, a partir dessa convivência, essa interpretação tenha mudado.

Sabemos muito bem que esse tipo de coisa ocorre na vida das pessoas. Muitas mudam a partir de novas influências. E se mudam sua interpretação a partir de novas influências, faz sentido dizer que são as responsáveis, ou as únicas responsáveis pelo modo como interpretam o mundo?

Dizer que somos os responsáveis pelo modo como interpretamos o mundo, que interpretar de modo otimista ou pessimista é simplesmente um ato de escolha, individual, é assumir que não existe influência possível. Se somos totalmente responsáveis pelo modo como interpretamos a realidade, somos todos ilhas incomunicáveis umas com as outras.

O mesmo se aplica a uma frase que é geralmente atribuída a Sartre, que teria dito que “não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”

Mas se essa frase faz você agir, logo o que você faz é resultado de algo que fizeram com você.

Saturday, September 18, 2021

Como saber se alguém enlouqueceu mesmo?

 No filme "Reine sobre mim", Adam Sandler faz o papel de um sujeito que enlouqueceu. Mas não se trata de loucura clássica, de psicose. Está mais para um transtorno dissociativo. É um filme muito interessante. Recomendo a todas as pessoas que se interessam por saúde mental e a questão da loucura.

O personagem padece desse transtorno de um modo muito sofrido e triste. Seu adoecimento é enigmático. Não é simplesmente uma loucura comum, como já disse, uma loucura clássica. Não é psicose.

Alguns especialistas talvez até mesmo classifiquem esta condição como uma pseudopsicose. E podem até alegar que o personagem do filme não enlouqueceu de verdade.

E é possível mesmo pensar que não é psicose, porque o risco autolesivo é bem mais baixo do que em um transtorno psicótico. Quem sofre de transtorno dissociativo se comporta de modo muito parecido com pessoas que estão em estado hipnótico. 

É pouco provável que pessoas, nestas condições, se exponham a riscos extremos. Quando a situação fica de fato bastante perigosa os sintomas supostamente delirantes tendem a retroceder.

Há alguns anos acompanhamos um caso assim no CAPS, o qual possui nuances impressionantes, assim como o que pode ser observado no filme.

E esses aspectos impressionantes têm relação com o fato de serem paradoxais. Trata-se de um paciente que possui uma oratória e uma retórica muito acima da média dos outros pacientes que têm o mesmo nível de instrução formal que ele.

Ele sabe ler. Contudo é incapaz de lidar com dinheiro. Não consegue fazer o básico das operações de adição e subtração. E possui inclusive uma classificação diagnóstica de deficiência cognitiva.

Porém, faz discursos grandiloquentes, dizendo-se alguém de grande projeção social. Jamais se identifica com seu próprio nome. Sempre se identifica com um único codinome, cuja biografia remete a outra região do Brasil. A partir desse codinome que encarna, se apresenta como um homem de 30 a 40 anos mais velho, muito rico, poderoso e ocupando cargos políticos em nível nacional. 

Em uma única conversa costuma se apresentar como deputado federal, candidato a governador, médico, advogado e quantas posições sociais de prestígio puder mencionar.

Sua retórica e oratória são articuladas e envolventes. Praticamente toda e qualquer interlocução com ele se transforma em uma espécie de discurso político, em ritmo que é sempre solene e vigoroso, com diversas menções a grandes projetos de infraestrutura, com os quais ele garante que tem envolvimento direto.

Quando fala de outros políticos ou celebridades, sempre fala em tom de intimidade, mencionando supostos detalhes da vida dessas pessoas, que não seriam divulgados na imprensa ou para o grande público.

Tem também uma capacidade muito grande para o improviso e construções verbais carregadas de ironia e humor, sempre com aparência de sofisticação e intensa linguagem simbólica. Quem geralmente ouve o que ele diz fica envolvido, e acha divertido, engraçado.

Durante uma determinada época ele comparecia às reuniões de meu grupo terapêutico no CAPS. Ele não havia sido inscrito no grupo, mas adentrava a sala como se assim tivesse ocorrido. E suas intervenções eram, na maioria das vezes, jocosas e hilárias. Mencionava, de modo bastante elegante, sua suposta vida amorosa com suas secretárias e seus problemas de ereção.

Isso fazia com que muitas pessoas ali no grupo dessem risadas, mesmo aquelas que estavam muito abatidas, com o humor bem rebaixado. 

Sua participação era sempre um imenso desvio do tema, ou uma extrapolação cômica, que quebrava um pouco com o ritmo, ou fazia com que ficássemos todos um pouco mais alegres e relaxados.

Eu tinha sempre de limitá-lo, de contê-lo, de dizer que as coisas não eram assim, que aquilo não podia, que alguma outra coisa que ele tinha dito talvez fosse para um outro momento, ou então eu fazia isso também de um modo debochado, e aí todos se riam ainda mais.

Era realmente muito divertido, e eu confesso que sinto muita falta dele em meus grupos. Às vezes era tão engraçado e divertido que eu dizia a todos os presentes que tínhamos de montar um grupo de humor.

Um olhar mais superficial iria somente classificar a participação dele como perturbadora e ruim para a evolução do grupo. Mas hoje, relembrando tudo o que acontecia, sinto que ele era na verdade uma peça muito importante.

Há ainda uma série de eventos, provindos da interação com esse paciente, que são muito interessantes, sobre os quais talvez posso um dia fazer alguma narrativa mais reflexiva e pormenorizada. 

Mas o que fica mesmo é minha saudade da participação dele em meus grupos.

Sunday, September 05, 2021

Muito foram torturados, escravizados, estuprados

 A variedade de casos impressionantes no CAPS é grande. Atendo muitos pacientes que foram torturados, escravizados, estuprados. E muitos não se dão conta de que foram torturados, escravizados, ou estuprados. 

Muitos familiares só se dão conta de que esses pacientes estão numa situação grave quando cortam sua própria traqueia ao meio ou matam seu amado cachorro a pauladas. 

O fluxo de pacientes é tão grande que muitas vezes não damos conta de saber se hoje estão em melhor condição ou não. 

Um desses, que foi esse que cortou a própria traqueia ao meio, em uma tentativa malograda de autoextermínio, somente fui ter conhecimento do fato em minha atuação na UTI, há uns 7 anos (por sorte já não atuo mais em ambiente de UTI há 5 anos). 

Ele estava lá, internado na UTI, e era paciente registrado no CAPS, para acompanhamento conosco, em reabilitação psicossocial. É tanta correria que nem sei o nome dele, e nem tive tempo de acompanhar para saber se sobreviveu, se hoje está vivo ou como está. 

Era ficar correndo atrás disso ou atender o outro que havia tomado um copo duplo de água sanitária e que, segundo ele, isso tinha sido lhe ofertado por um policial militar. Segundo ele, o policial militar teria lhe ofertado esse copo, e o obrigado a beber todo o conteúdo. 

Ele tinha um histórico de drogadição, de morar nas ruas, e era com frequência torturado por policiais militares. 

Nem sempre temos tempo para fazer tudo que gostaríamos de fazer. Muitos pacientes têm meu número pessoal de celular, e me enviam mensagens com sermões de insandescidos pastores neopentecostais, ou de que estão pensando em se matar, no meio da madrugada. 

Hoje mesmo entrei na internet para abrir conta de e-mail, cadastro no governo federal e cadastro para microempreendedor individual para um paciente.

Reuni muitas dessas histórias em livro, e talvez haja ainda material para um segundo livro.

Wednesday, September 01, 2021

Você não precisa ressignificar nada

Parte 1:

É comum ouvirmos profissionais de Psicologia dizendo para as pessoas que elas devem ressignificar algumas coisas. Contudo, esse tipo de orientação, na minha concepção, tem somente alguns significados: é uma orientação ruim, vazia e confusa. 

Quem diz isso a seus pacientes simplesmente está deixando-os sozinhos com alguma coisa que não faz sentido. Porque esta ressignificação não irá simplesmente surgir a partir de um ato de boa vontade e esforço. 

Não existe geração espontânea de ressignificação. Não existe esse tipo de liberdade. Não existe, portanto, o que é definido como livre-arbítrio. Porque querer não é poder. Não temos o poder de desejar, do nada, algo que não desejamos, e vice-versa. A liberdade não brota da vontade. E o livre-arbítrio é, em certa medida, isso: acreditar que a liberdade brota da vontade.

Se a ingenuidade acredita que somos resultado de nossas escolhas, a próxima questão é: o que determina nossas escolhas, porque escolhemos uma coisa e não outra? 

Isso não é resultado de um simples ato de vontade. Acreditar que assim o seja é negar algo absolutamente simples e básico: que o mundo é maior do que nós. Eis o narcisismo tolo.

Então um ponto importante é não confundir as coisas. Passamos a dar um novo sentido para o que existe, o que vivemos e o que nos cerca, a partir do momento em que nossas interações com o mundo e as coisas se alteram. Novas interações, novos ambientes, novas fontes de estimulação, novos modos de agir e estar no mundo produzem novos sentidos e não o contrário.

Você não precisa ressignificar nada. O trabalho do psicólogo é inevitavelmente sistêmico, social, familiar, lidando com tudo o que for possível à volta do paciente. É mudando o mundo que mudamos nós mesmos. 

Então temos de fazer o possível para que as pessoas se desloquem, alterem posições, configurações, horários, locais, exposições, fontes de estimulação, alimentação, e tudo o que for necessário para que elas de fato mudem. 

Porque não existe geração espontânea. O indivíduo não é o manancial de nada. Porque a mudança é sempre de fora para dentro.


Parte 2:

Acho que é primeiro importante entender a diferença entre sentido e explicação.

Uma pessoa está caminhando por uma rua deserta e algo raro ocorre: um vaso cai de cima de um prédio, em sua cabeça. Ela se fere ao ponto de ter de ficar alguns dias em um hospital, e passa por uma série de situações muito sofridas até que por fim se recupera. E juntamente com todo o sofrimento físico, ela também fica com uma pergunta muito sofrida: "Por que isso foi ocorrer logo comigo?".

A pergunta é compreensível, porque se a queda de um vaso de um prédio é algo muito raro, mais raro ainda é que a trajetória do vaso entre em colisão com a cabeça de um transeunte em uma rua deserta.

A vítima se sente vítima também do acaso. Sente que foi vítima de um azar muito grande. Se sente cruelmente injustiçada.

O primeiro problema é que a realidade não é justa. Não existe justiça na natureza. A justiça é uma invenção, uma aspiração humana.

Se essa pessoa quer algum tipo de justiça ou reparação, deverá entrar na justiça contra o proprietário do apartamento do qual o vaso caiu. Mas não há como voltar no tempo para reverter o dano, e não há como se comprovar que exista alguma entidade sobrenatural onipotente que tenha feito ou permitido isso.

Então simplesmente não há sentido para o que ocorreu. Porque não havia nenhuma finalidade para aquilo. O vaso não caiu na cabeça da pessoa para que ela se transformasse nisso ou naquilo, para que ela se transformasse numa pessoa mais forte ou para que ela aprendesse alguma coisa. Não havia finalidade alguma no ocorrido. Porque, para dizermos que havia finalidade, tem de existir uma entidade controladora de tudo, que atua com propósitos específicos para a vida desta pessoa.

Há, portanto, somente o campo das causas, dos determinantes do ocorrido. E, a partir disso, o que devemos buscar é uma explicação, e não um sentido.

Mas o problema é que boa parte das explicações não satisfaz a um bom número de pessoas. Para muitas parece haver um poder mais consolador no sentidos, nas ficções, nas mentiras que inventam para si mesmas, do que na simplicidade angustiante de uma explicação.

Concordo que a explicação, no exemplo citado, é de fato muito menos consoladora. O vaso caiu na cabeça daquele sujeito porque era ele quem estava passando ali naquele exato momento, oras. Sim, fato muito raro, mas não impossível. Sim, muito azar. Mas o azar sempre existiu e não merece um sentido individual e sobrenatural só porque ocorreu agora especificamente com você. Evento muito específico, mas que não torna você tão especial assim. 

Então, a partir desse exemplo, temos a percepção de que o sentido não serve para nada. Porque ou você tem uma explicação ou você simplesmente não tem nada. O sentido entra na situação e embola o meio-de-campo. 

Alcançamos as causas por meio de explicações, e alcançamos os sentidos por meio de interpretações. Mas se o sentido não coincide com a causa, com o determinante, ele é falso, não? Se uma interpretação permite um sentido que difere dos fatos, trata-se de uma interpretação equivocada.

E claro, não nos esqueçamos: existe o sentido no sentido de sentir. No sentido de que cada um sente o mundo de modo individual. Quando perguntamos a uma pessoa o que é ser mãe, cada uma, em tese, dirá uma coisa diferente. 

Alguém poderia dizer que o trabalho de ressignificação incide exatamente aí, em fazer com que as pessoas passem a sentir, em perceber de modo diferente o que lhes acomete.  

Porém, insisto. É uma ilusão acreditar que isso será obtido somente por meio de conversas sobre o que a pessoa vem sofrendo. Claro, conversar já é uma forma de exposição, que facilita por exemplo a dessensibilização, ou a habituação. E, ocorrendo isso, a pessoa passa a dar um sentido diferente para sua experiência.

Também, ao falar sobre o que está acontecendo, e assim entrar em contato com outras perspectivas, o paciente vai elaborando e ressignificando. Mas é incrível como muitos psicólogos não se dão conta de que isso muitas vezes não basta. Acreditam que bastam os pacientes falarem sobre o que estão sentindo, e que somente isso terá um efeito de mudança significativa em suas vidas. 

O sujeito que foi vítima da queda de um vaso em sua cabeça não precisa da mentira de que aquilo aconteceu para que ele se transformasse em uma pessoa mais forte. Ele somente precisa seguir com sua vida, se envolvendo com atividades e pessoas que preencham sua vida e seu cotidiano. 

Não precisamos nem mesmo responder à pergunta de qual é o sentido de nossa vida se nossa vida tem sentido. Quando a vida tem sentido, esse tipo de pergunta não faz sentido algum.

Não basta ressignificar. A produção de um novo sentido só tem finalidade prática, e terapêutica, se ele for concebido como um indício para se alcançar um estado mais elevado de qualidade de vida ou de compreensão da realidade. O encadeamento de novos sentidos somente é útil se estiverem a caminho do encontro com a realidade.

O risco da profusão de sentidos é quando ela desemboca em uma espécie de pântano ou ciranda hermenêutica. Ou quando damos sentido ao que não tem sentido, que é o caso da superstição. 

Como muito bem enuncia André Comte-Sponville (2003, p. 577 - 578): 

"Toda superstição submete o real ao sentido: ela explica o que é (um sonho, um eclipse, um gato preto) pelo que quer dizer (por exemplo, uma desgraça por vir)".

E Comte-Sponville dá sequência a seu raciocínio, para mostrar o risco de psicoterapias ou mesmo de processos, ditos psicanalíticos, que podem se perder em hermenêuticas vazias, ou mesmo em algo que mais se parece com superstição do que com um trabalho que mira a própria realidade:

"A psicanálise faz o inverso. Ela submete o sentido ao real. Ela explica o que quer dizer (o sentido de um sonho, de um ato falho  de um sintoma) pelo que é (um desejo reprimido, um trauma, uma neurose). A superstição dá sentido ao que não tem sentido; a psicanálise reduz o sentido a outra coisa, que o dissolve. 

É por isso que é um equívoco pedir que a psicanálise aponte o sentido da vida. Ela pode apontar apenas o sentido de nossos sintomas ou dos nossos sonhos. Senão deixa de ser análise para ser superstição. Deixa de ser conhecimento (da minha história) para ser religião (do meu inconsciente). Pobres analisandos, que buscam um sentido! Freud só buscava a verdade. 

Dirão que as duas coisas estão ligadas, que é esse o caminho real da psicanálise... Resta, todavia, não tomá-la na contramão. Freud é o contrário de um profeta. Ele não anuncia, explica. (...) O sentido é apenas um caminho que conduz à verdade. (...) A terapia é feita de palavras, mas a saúde é feita de silêncio. 

Notemos, para terminar, que toda superstição tende a se verificar. Quem quebra um espelho e se assusta com isso, seu temor já confirma o presságio que o inspira. A superstição dá azar."

Referência:

Comte-Sponville, A. (2003). Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes.

Tuesday, August 17, 2021

A vida vale a pena?

 Fiz um vídeo, de 6 minutos de duração, há 5 anos, cujo título é uma pergunta: "A vida vale a pena?". Tem mais de 4 mil visualizações e, modéstia à parte, ficou muito bom. Tentarei transformá-lo em texto, e talvez acrescentar ainda alguns complementos, porque certamente merece figurar em meu blog, ou talvez um dia em algum livro.





Friday, August 06, 2021

Gente sem caráter...

 Cuidado com gente que se expressa assim, tentando chantagear: 

"Você nunca encontrará alguém como eu!"

Há exceções, mas isso é geralmente coisa que sai da boca de gente sem caráter.

Ciúme

Relacionamentos repletos de ciúme, de ambas as partes, costumam ser um inferno. Mas isso somente se aplica a quem tem senso moral. Para sociopatas é o paraíso. Porque somente o outro lado se contém, obedece e fica refém. Esquema perfeito para uma relação abusiva. Ciúme nunca é sinal de um relacionamento justo ou saudável.


Thursday, May 20, 2021

Vontade doida

 Vontade de dar uma de pregador doido, que prega com megafone no centro da cidade.

- Vinde para a luz, proferia o senhor! Olhai  para o céu iluminado, para o azul! Contemplai a luz que emana do sol, essa luz primordial, e o vento em vosso rosto! Despertai, despertai! O dia é de luz e músculos! A noite é da escuridão! Cantai com os pássaros! Sente a imensidão do cosmo, sente a imensidão de ti mesmo, espalhado, derramado sobre o mundo! Comei as plantas em colorido profundo, os vegetais do infinito, o mosaico das raízes, a mandioca divina, para que o músculo todo o dia trabalhe e renasça na aurora do universo! Ohmmmm....

Saturday, May 15, 2021

Ajudar alguém que amamos a viver e a morrer...

Outubro de 2012.

Tive uma conversa importante com minha mãe esses dias. Ela está com uma doença crônica que muitas vezes a incapacita quase que totalmente, prostrando-a na cama durante todo o dia, em várias ocasiões.

Ela tem quase 66 anos. Vive sozinha e com uma rede de apoio social e familiar deficitária. Eu estou vivendo a 720 km dela e meu irmão mora na Inglaterra.

Quando está em crise, ela sempre se queixa e muitas vezes diz que preferia deixar de viver. O fato de seu filho mais velho (meu irmão mais velho) ter cometido suicídio em 1998, com 28 anos de idade, não produziu nela qualquer espécie de repúdio pelo suicídio ou pelos suicidas. Pelo contrário. Ela muitas vezes se refere ao meu irmão como alguém de coragem, como alguém que aproveitou bastante de sua juventude e se foi dessa vida sem envelhecer, sem viver todos os dramas da velhice.

Assim como meu irmão, sei que minha mãe é também muito bem capaz de cometer suicídio. Esta possibilidade me aterroriza mais do que se ela tivesse uma morte natural ou acidental. Assim como o era com meu irmão, conviver com essa possibilidade de minha mãe fazer o mesmo era muito perturbador para mim até termos essa conversa, há poucos dias. Hoje minha angústia e meu medo são bem menores. Nessa conversa franca, a qual não fui capaz de ter com meu irmão, eu lhe disse mais ou menos assim:

“Mãe, por favor, não tome uma decisão drástica como a do Edu sem antes pedir socorro, sem falar comigo, sem abrir o jogo. Se você quiser morrer, me fale, porque aí eu largo tudo e vou fazer de tudo para ajudar a aliviar a sua dor. Pego um avião e vou correndo praí. Faremos tudo o que for possível para seu conforto, para a sua felicidade. 

E se mesmo assim não conseguirmos contornar a sua dor, e você ainda quiser morrer, se não tiver mesmo remédio, se for de fato o fim da linha, também estarei com você. Mas, por favor, não faça como o Edu. Não tome esta decisão sozinha. Se não tiver mesmo jeito, aí eu aceitarei e vou querer me despedir de você, lhe abraçar, dizer o quanto a amo, o quanto sentirei sua falta, e o quanto você representa e sempre representou o absurdo de tudo o que existe de bom na minha existência. 

Se morrer for de fato o caso, eu lhe ajudarei, minha mãe, com unhas e dentes, por mais que isso me cause uma dor absolutamente profunda e não dimensionável. Pegaremos um avião e irei junto com você para a Suíça; ou, se não houver essa possibilidade, eu sei como encontrar o caminho menos doloroso para tal, para que você possa partir em paz e com todas as despedidas e carinhos necessários em um momento tão delicado e crucial para você e todos nós que tanto te amamos. 

No que depender de mim, minha mãe, você não sofrerá os absurdos que eu mesmo testemunho em meu cotidiano. Com certeza não. Não deixarei e você sabe que pode confiar em mim. Isso é o mínimo que posso fazer pela pessoa mais importante da minha vida. O mínimo.”

Ela compreendeu e se sentiu mais segura. E eu também, acima de tudo. Hoje estamos bem mais leves e tranquilos em relação aos seus desejos de morrer ou qualquer coisa análoga.

O suicídio é um ato muito solitário e horrivelmente triste. É um horror angustiante no seio de qualquer família que o experimenta. Falar abertamente sobre ele, tentando diminuir o tabu e sua proibição absoluta, é o que hoje faço como parte de minhas estratégias de prevenção.

O suicida precisa de vínculo, apoio, cumplicidade, carinho, amor, companhia, e muita conversa franca e transparente sobre seus desejos e planos para morrer. Sem desafios nem chantagens e sabendo sempre que ele é o dono e responsável por sua própria vida. 

Estou somente lutando pela vida e pela morte digna, minha e de quem amo. Acho isso absolutamente justificável, prudente e totalmente dotado de sentido e amor. 

Mas já estou me cansando de tratar disso no mundo em que vivo... Talvez essa luta só renda frutos e direitos (liberdades individuais, autonomia) para quem está mais próximo de mim. Uma pena... 

Deixo alguns pontos mais claros em minha vídeo-aula sobre o tema, a qual também posto aqui nesse grupo.