Friday, April 29, 2022

Interações abusivas

Não consigo nem imaginar alguém que nunca tenha sido vítima de uma interação abusiva. Tenho a impressão de que todo mundo já sofreu algum tipo de abuso em alguma interação, por mais leve que tenha sido o abuso, ou por mais breve que tenha sido essa interação.

Há diversas possibilidades de abuso, e algumas são mais sutis. E é muito comum que a pessoa abusada não tenha consciência de que está sendo vítima de abuso.

Há situações em que o abusador:

1. Consegue manipular, e fazer o outro se sentir culpado, sem de fato ter culpa alguma.

2. Chantageia e ameaça.

3. Persegue, no sentido de rastrear tudo o que o outro faz, para depois condenar, prender ou castigar física ou psicologicamente. E isso é muito comum em interações com abusadores marcados por ciúme e sentimento de posse excessivos.

4. Persegue, no sentido de marcar e registrar tudo o que a vítima faz, para poder condená-la e castigá-la por erros mínimos ou insignificantes. Isso por vezes caracteriza o abuso marcado pela implicância, o qual também pode ser fruto de relacionamentos que se desgastaram. Há abusadores que atuam como se tivessem pegado birra das pessoas que sofrem em suas mãos, e isso abre as portas do inferno para horrores marcados pelas mais variadas formas de sadismo. 

5. Constantemente humilha, agride e subjuga, muitas vezes alternando esse tipo de comportamento com afagos ou declarações de amor, o que acaba tornando difícil a percepção de que existe abuso.

6. Emite um comando, e logo depois emite um comando contrário, fazendo com que a pessoa se torne refém de um jogo no qual “se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come”. É o chamado duplo-vínculo. O abuso exige x. Tendo x, o abusador pune, e logo depois exige o contrário, y, e assim em um ciclo eterno, e paradoxal, de uma espécie de “bate e coça”. A vítima fica presa em comando paradoxais.

Exemplo:

O abusador exige dedicação. A vítima se esforça, e se dedica. Aí o abusador responde que o comportamento da vítima foi totalmente impróprio, e que se for para ser assim, nem precisa fazer nada. Mas não fazer nada é falta de dedicação. Eis a prisão do paradoxo do abusador.

E é importante ressaltar que nem todo abusador tem consciência de que abusa. Existem sádicos que conscientemente manipulam e torturam. Mas existem também aqueles que abusam em virtude de suas próprias vulnerabilidades e imaturidade. Porque o abusado nem sempre é mais fraco do que o abusador. Existem, por exemplo, pais abusados por filhos. Assim como existem pessoas psicologicamente enfraquecidas, que são patologicamente ciumentas, egocêntricas, imaturas, impulsivas, com medo patológico de serem abandonadas, desrespeitadas, humilhadas, que reduziram seu mundo a relacionamentos empobrecidos e doentios. 

Há abusadores que têm a convicção de que estão lutando pelo bem de suas vítimas, ao impor-lhes limites, disciplina ou punições, que concebem como justas e educativas. Mas que, no final das contas, torturam, mutilam, dilaceram e podem até matar.

E também é comum que um abusador (pouco consciente dos abusos que comete) passe a ter prazer com isso. É comum a transformação de um disciplinador em uma espécie de torturador sádico. Deste modo, o senso de disciplina com frequência se mistura com sentimentos de prazer sádico. 

Porque todos nós controlamos uns aos outros, o tempo todo, seja com guloseimas e agrados (gratificações/reforços) ou pontapés (estímulos aversivos). O problema é que os últimos costumam ser muito gratificantes para quem os utiliza, porque são com frequência mais simples de serem usados, e seu efeito é imediato. Eis então uma grande oportunidade para o abuso.

E você, já sofreu ou se sentiu abusado(a)? Quais situações mais vivenciou em sua vida? 1, 2, 3, 4, 5, e/ou 6?

O chocolate e a insônia

 Uma vez recebi um paciente, com sintomas de ansiedade e depressão, encaminhado ao CAPS por um médico, que teria lhe recomendado parar com a ingestão de todo e qualquer alimento que contivesse cafeína, inclusive chocolate.

Achei estranho. Mas não sei se esse médico errou, ou se esse paciente entendeu errado o que esse médico teria lhe dito. E sinto que talvez esse médico estivesse preocupado com a insônia relatada pelo paciente.

Porém, se a ingestão de cafeína for alta, parar de uma vez é um risco, pois o paciente pode sofrer com sintomas de abstinência.

E as recomendações mais comuns são a de se evitar a ingestão de alimentos que contenham cafeína depois das 17 horas.

Mas, em relação ao chocolate, vejam que interessante. 

Um chocolate, com 45 a 59% de cacau contém 43 mg de cafeína para cada 100 g. Meio copo americano de café (100ml) contém cerca de 71,5 mg de cafeína. Uma regra de 3 mostra, então, que um chocolate com 70% de cacau teria por volta de 58 mg de cafeína para cada 100 g. Uma barra de chocolate Talento (com 70% de cacau) tem 75 g, o que equivale a cerca de 43,5 mg de cafeína. Um terço dessa barra (25g) dá uma boa sobremesa, e isso equivale a 14,5 mg de cafeína. Meio copo de café contém quase 5 vezes mais cafeína do que 25g de chocolate 70%. 

E há também a teobromina, e o quanto seria ela o problema. Mas vejam a conclusão desse estudo, de 2013:

“Em conclusão, descobrimos que a teobromina geralmente carece de efeitos auto-relatados semelhantes à cafeína, apesar do uso de uma ampla gama de doses de teobromina e um tamanho de amostra relativamente grande de indivíduos. Em vez disso, a teobromina mostrou efeitos diferenciais dependendo da dose: a 250 mg mostrou efeitos positivos limitados no humor que se tornaram negativos em doses mais altas. Também aumentou a frequência cardíaca de forma dose-dependente. Juntos, isso sugere que a teobromina em níveis normais de ingestão, como pode ser encontrada em uma barra padrão de 40 g de chocolate amargo, pode contribuir para os efeitos positivos do chocolate.” (Baggott et al, 2013)

E não há evidências suficientes de que o chocolate seria um alimento importante no combate a sintomas de ansiedade e depressão. As evidências atuais nos mostram que o chocolate é somente um alimento que muitos de nós apreciamos.

Então talvez seja necessário um pouco de cuidado com a ingestão de chocolate amargo depois das 17 horas. Mas talvez não faça o menor sentido parar de comer, moderamente, essa delícia.

Referências

Baggott MJ, Childs E, Hart AB, de Bruin E, Palmer AA, Wilkinson JE, et al. Psychopharmacology of theobromine in healthy volunteers. Psychopharmacology. 2013 Feb 19;228(1):109–18.

Fundasono - Fundação Nacional do Sono - Quase metade dos brasileiros sofre de distúrbios do sono [Internet]. www.fundasono.org.br. [cited 2022 Apr 27]. Available from: https://www.fundasono.org.br/.../69-quase-metade-dos...

Fusar-Poli L, Gabbiadini A, Ciancio A, Vozza L, Signorelli MS, Aguglia E. The effect of cocoa-rich products on depression, anxiety, and mood: A systematic review and meta-analysis. Critical Reviews in Food Science and Nutrition. 2021 May 10;1–13.

Nisar M, Mohammad RM, Arshad A, Hashmi I, Yousuf SM, Baig S. Influence of Dietary Intake on Sleeping Patterns of Medical Students. Cureus. 2019 Feb 20.

O desencontro com pessoas intelectualmente desonestas e mal-intencionadas

Quando a piscina de meu condomínio estava sendo aquecida a 37°C (uma temperatura muito acima do máximo de 30°C, determinados por normas sanitárias), enfrentei a resistência de uma vizinha. Na ocasião ela me disse que a temperatura deveria continuar daquele jeito, porque nenhum de seus filhos adoecia com aquilo, e que eles gostavam muito das águas quentes de Caldas Novas.

O nível de sua tentativa de argumentação era tão tosco e desonesto, que eu desisti em poucos minutos. Não fazia sentido tentar argumentar com uma pessoa que, em um debate, estava tão mal-intencionada.

Porém, dias depois, tive o azar de cruzar novamente com essa pessoa em uma situação conflituosa.

Meu prédio tem três elevadores, sendo dois sociais e um de serviço. Moro no primeiro andar, e minha bicicleta é muito pesada para que eu consiga descer pelas escadas. Então, todos dias, desço pelo elevador de serviço.

Quando minha bicicleta entra no elevador, não sobra muito espaço para outras pessoas. É possível que caibam eu, a bicicleta e mais umas três pessoas. E todas ali ficarão um pouco espremidas. Não é confortável. Mas é possível.

Pedi o elevador. Ele demorou muito para chegar. E quando chegou, já estava com com quatro pessoas dentro. Não era possível que eu entrasse com minha bicicleta. Então deixei que ele fosse até o térreo, e pedi novamente. 

O problema é que ele não retornou imediatamente para o meu andar. Ele possivelmente foi até o 15° andar, e talvez tenha parado em vários andares, até chegar ao meu. Porque as pessoas pedem todos os elevadores ao mesmo tempo. Elas não se conformam em somente pedir os dois elevadores sociais. Também apertam o botão do elevador de serviço, e ele também acaba (em um horário de rush) sendo muito demandado. 

Após perder o primeiro elevador, esperei que ele fizesse toda a sua jornada, por todos os andares do prédio, até novamente chegar até mim,  no 1° andar. 

Quando ele por fim chegou, quem estava dentro? 

Essa infeliz e um adolescente, que talvez fosse seu filho ou neto, não sei.

Quando ela me viu,  e viu que o espaço ali ficaria reduzido, recomendou que eu não entrasse.

Eu, porém, fui entrando, e dizendo a ela que eu já tinha esperado muito tempo, e que já era o segundo elevador que eu estava aguardando.  

Ela, contudo, ficou irritadíssima, e resolveu nesse dia falar o que não havia me dito no dia da discussão sobre a temperatura da piscina.

- É uma falta de respeito tremenda você entrar dentro do elevador com essa bicicleta, fazendo com que a gente fique aqui espremido! Você é mal educado! 

Tentei novamente argumentar, mas com pessoas assim é praticamente em vão:

- Minha senhora, esse elevador é de serviço. É prioritariamente para cargas. Há dois outros elevadores sociais, e somente um único de serviço. Esse já é o segundo elevador que estou esperando, porque as pessoas estão usando-o para outras finalidades que não prioritariamente a de serviço. 

Não teve jeito. Ela saiu repetindo, em alto e bom tom, em modo de xingamento, na área externa do prédio, para que todas as pessoas possíveis ouvissem:

- Mal educado! Mal educado! 

Somente repliquei: 

- Siga as regras, e teremos mais tranquilidade no convívio. Basta seguir as regras. 

Como faço todos os dias, hoje novamente eu estava pedindo pelo elevador de serviço.  A porta se abriu, e quem estava lá? Novamente essa senhora e o adolescente. 

Dessa vez, porém, ela foi mais inteligente. Já foi logo saindo do elevador e, resmungando, se dirigiu aos elevadores sociais.

Ao invés de retrucar suas grosserias, achei melhor gratificar seu bom comportamento:

- Isso! Muito bom! Seguindo as regras! Muito obrigado, e tenha um bom dia! 

Sei que meu tom, no final das contas, soou um pouco irônico. Mas não me restou muitas alternativas. E não há como ela me acusar de ironia, porque eu realmente a parabenizei, a agradeci e lhe desejei um bom dia.

É assustador pensar que boa parte dessas pessoas está hoje pensando ou planejando ter porte de arma.

Monday, March 28, 2022

Ser agredido e não revidar

Não me defendo, nem fico me justificando quando pacientes se irritam comigo, e há uma tendência que isso ocorra, com maior frequência, no ritmo frenético de atendimentos em um CAPS. Quando percebo que algum paciente está muito irritado comigo, procuro somente ouvir e ser o mais empático possível. 

Então já sofri agressão física, por parte de uma paciente que, por sorte, era menor e bem mais fraca do que eu. Fui ameaçado de agressão por um paciente enorme e marombado. E já fui repreendido por pacientes ou seus familiares, por diversas vezes, e de modo bastante ofensivo, tendo sido classificado como antiético, irresponsável e insensível, com ameaças de processos e ouvidorias. 

Em alguns casos é bem doloroso. Ser agredido, e não reagir, costuma ser doloroso, principalmente por alguém que de fato tem o poder de nos causar sérios danos. Isso às vezes me deixa mal, angustiado e triste, por dias, nos quais fico lidando com o evento traumático, e tentando aprender mais alguma lição com isso tudo.

Houve um dia em que tive de ouvir um familiar de um paciente me proferir os mais variados impropérios. E não era uma pessoa que estava descontrolada. Era uma pessoa com formação acadêmica sólida e com uma vida estruturada, que se expressava com raiva, firmeza, sem qualquer tipo de histrionismo e com poder para me dar muitas dores de cabeça:

- Estou assustada com o quanto o senhor foi insensível e irresponsável em sua intervenção. Como pode um profissional com sua bagagem, títulos acadêmicos e experiência, se comportar dessa maneira?

Foi uma humilhação espetacular. Os pontos em questão eram sensíveis e propícios à polemização, da qual me abstive, por completo. Vesti o manto da empatia, dos pés à cabeça. Ou seja: engoli minha língua e ouvi o máximo e mais profundamente que pude.

Defender-me, ou tentar me justificar, produziria consequências que entram em um campo de disputa ainda mais inflamável para o que já estava em plena combustão. Minha experiência e minha formação me diziam que aquele familiar devia mesmo se expressar, botar para fora o que estava sentindo.

Eu procurava não gratificar suas expressões de raiva. Era silêncio, empatia e acolhimento, para permitir vazão e assim baixar a poeira. Porque há um momento em que a tormenta passa, a poeira baixa, e as pessoas até percebem que se excederam. E até chegar essa hora, ou esse dia, é isso mesmo, aguentar a dor de ter sido agredido sem revidar, sem reagir.

Por sorte, no atendimento seguinte tive o prazer de acolher todo o sofrimento de alguém que estava sendo totalmente escorraçado e rejeitado pelo mundo todo de seus afetos. Era alguém que se sentia odiado pelo mundo inteiro, aquela pessoa que todo mundo odeia, que ninguém mais ama, e que muitos têm o desejo de trucidar. E ela estava ali diante de mim, diante de um de seus únicos portos um pouco menos tempestuosos, para poder ali pairar um pouco sobre tanto rastro de sangue e dor de sua história dilacerada. 

No final do dia ainda doía bastante, mas eu já era capaz de respirar mais aliviado.


Friday, March 11, 2022

Rotinas dos anos 90

Houve alguns períodos, nos anos 90, durante minha graduação, em que eu praticamente não ficava em casa, só na USP, e tomava café da manhã, almoçava e jantava no bandejão, sem qualquer tipo de lanche durante os intervalos. Só fazia um lanchinho por volta das 23 horas, quando eu chegava em casa.

Aulas de manhã e à tarde, biblioteca, nadava das 18 às 19 horas todos os dias, ou quase todos os dias, jantava e ia de novo para a biblioteca, e lá ficava até ela fechar, às 22:30 horas. Então teve época que nem banho eu tomava em casa, e nem tomava banho com sabonete. Saia da piscina e tomava uma ducha, para tirar o cloro, sem sabonete nem xampu nem nada. 

Nadava inclusive em dias muito frios, de inverno, com a piscina completamente vazia, sem ninguém junto. Teve inclusive uma vez que eu e alguns amigos pulamos a cerca e invadimos a piscina, de madrugada. Foram embora e fiquei lá, sozinho, na escuridão total, boiando. Senti medo? Claro. Mas nadar no inverno e na escuridão, sozinho, eram coisas que me davam um senso muito grande de fruição e realização.

Wednesday, February 23, 2022

Perdas, traumas e a passagem do tempo

Penso que, quando se fala de sofrimento, há coisas que geralmente não são tratadas em suas devidas peculiaridades. 

Duas dessas coisas são a passagem do tempo e o passado.

Quando ocorrem eventos extremamente dolorosos, a passagem do tempo pode tanto ter um papel de atenuação como de agravamento do sofrimento relacionado a esses eventos. E isso possui diversas nuances, a variar de caso a caso.

Desse modo talvez não faça muito sentido afirmar que existem dores que jamais deixarão de existir, querendo dizer, mesmo que não intencionalmente, que elas jamais terão qualquer tipo de alívio ou de atenuação.

E é comum se fazer esse tipo de alegação em referência à perda de entes queridos ou filhos, por exemplo.

Penso que é perfeitamente possível afirmar que a dor da perda de um ente muito querido, tal como um filho, é algo que não se apaga. 

Porém, a alegação de que é algo que não se atenua de modo algum, não transmite solidez. Não vejo sentido em se fazer uma alegação tão categórica para todos os casos existentes.

E sinto que a passagem do tempo pode tanto atenuar quanto intensificar o sofrimento da falta da pessoa amada que se foi.

Se apesar de uma perda extremamente dolorosa, a vida prosseguir e de alguma forma se reconstruir, a tendência é que essa dor vá se atenuando.

Contudo, se após um evento tão trágico, há uma piora generalizada de vários aspectos da vida, a tendência é a dor da perda se intensificar. E, para piorar, ainda somar-se ao sofrimento da consciência de que o tempo passou, de que nada se resolveu e que até houve uma piora de tudo. 

A própria passagem do tempo, sem alteração, sem melhora, já é bastante sofrida por si só. Imagine que isso fica ainda mais sofrido quando somado a um buraco muito grande, a uma perda muito grande, que não foi nem mesmo tamponada de modo algum.

E há também uma tendência a se rememorar dolorosamente perdas ou sofrimentos passados, com mais frequência, em momentos mais difíceis da vida. Se a vida fica mais difícil há uma tendência a se lamentar perdas antigas.

Uma vida destruída, e sem bem-estar, é geralmente marcada por nostalgias incompreensíveis para quem está vivendo razoavelmente bem.

E o outro ponto que quero também comentar aqui é o peso do passado. É comum pessoas estarem sofrendo de sintomas de ansiedade e depressão, e de vagamente se fazer relações disso com um passado distante, com sua infância, por exemplo.

Uma pessoa vive a infância, na qual passa por inúmeras situações de sofrimento, e essas sensações desaparecem durante os anos subsequentes, da adolescência e muitas vezes até mesmo os primeiros anos da idade adulta.

Mas é possível que essa pessoa comece a padecer de intensos sintomas de ansiedade e depressão, sem conseguir encontrar qualquer tipo de explicação para o que está sentindo. Se vê triste, angustiada e com medo de uma série de coisas, das quais não tinha qualquer tipo de medo anteriormente.

E, com frequência, talvez numa espécie de comportamento culturalmente gratificado, muitas pessoas que estão em volta, e até a própria pessoa que está sofrendo, costumam atribuir a atualidade de seus sofrimentos a algumas coisas remotas de sua infância.

"Ela está assim porque era humilhada por seus pais em sua infância"; "Ele está sofrendo desse jeito hoje porque teve aqueles traumas na infância" - costumam dizer.

Mas resta explicar, especificamente, como alguma coisa que ocorreu na infância, depois de ter ficado em latência, por vários anos, volta a se exprimir na idade adulta, quando aquele contexto da infância nem existe mais.

São circunstâncias específicas do passado, que anos depois voltam a se expressar e a se generalizar, de modo a causar tanta destruição, mesmo em contextos tão diferentes? 

Ou é o sofrimento atual que, de alguma forma, ajuda a produzir rememorações de um passado também doloroso, e que assim entra em ressonância com o próprio sofrimento atual, ajudando a intensificá-lo, criando muitas vezes a ilusão de que é seu causador?

Cabe a uma escuta atenta, a um processo meticuloso e cuidadoso de terapia ou de orientação psicológica, investigar esses fatos nesse nível de detalhe, de especificidade, ou o risco de mistificar o peso do passado e a passagem do tempo, com elucubrações e explicações vagas e equivocadas.

Thursday, February 17, 2022

Mãos

Nosso primeiro contato com tudo

sua vida em dedos e tato

primeira porta pro mundo

adentram a vida em sua fala

complexa e muda

em sicronia perfeita

em linguagem precisa ou difusa

dizem muito

respiram o início de ver e saber

resumem a vida ao mirar as estrelas

o amanhecer

desenhadas e cheias de histórias

as duas se encontram em beijo perfeito

irmãs de berço, trabalho e leito

minhas mãos namoravam uma com a outra

a cada toque uma nova forma de saber

da existência de dois seres inteligentes

que produzem as cores do horizonte de meus braços

a direita é a executora, hábil dominante trabalhadora

a esquerda é mais frágil e doce

termômetro do cansaço

abraça e conforta a direita

sabe conversar com o fracasso

a direita é macho

a esquerda é fêmea

não há o que a direita faça

que a esquerda não ame e compreenda

porque ela é mão de luz

uma pausa, um silêncio, uma fenda

a direita executa e a esquerda referenda

e para que esquerda receba


é preciso que a direita aprenda


Brasília, em algum canto de 2003 ou 2004.

Monday, February 14, 2022

Para introduzir Pink Floyd

Apresentei Pink Floyd para minha filha. Tem que começar de leve, por onde todo mundo começa, com Another Brick in the Wall parte 2 (1979).

- Gostei, pai!

- Então a gente vai ouvir isso no carro, voltando da escola (tudo a ver com Another Brick parte 2).

- Ok!

E eu sou brasileiro e não desisto nunca. Um dia ela ouvirá comigo os 23 minutos todinhos de Atom Heart Mother (1970).

Friday, February 04, 2022

Redes sociais e adoecimento

As redes sociais podem produzir adoecimento das mais diversas formas. Porém é curioso como algumas pessoas adoecem e, adoecidas, se transformam em celebridades ou subcelebridades. 

Há um sujeito (seu codinome é Blueuzão) que chegou a comer fezes para continuar tendo projeção nas redes. E uma das coisas que ele mais fala em seus vídeos é que o YouTube está adoecendo-o. 

Conheço outros sujeitos que vivem se vitimizando, e são assim constantemente gratificados. Porque boa parte dos comentários são de condolências para comportamentos que são nitidamente patológicos. 

E muitos estão adoecidos e abandonados, inclusive pelo público que antes gratificava seu comportamento doentio. Porém agora não gratificam mais. Pois se deram conta de que estavam reforçando um comportamento destrutivo. 

O problema é que após a cessação das gratificações (a extinção) há uma tendência de acentuação de algumas respostas. Uma pessoa agressiva (após a perda de suas usuais gratificações) pode, por exemplo, passar a ter comportamentos ainda mais agressivos e destrutivos.

O experimento de Azrin, Hutchinson e Hake, de 1966 (apud Moreira e Medeiros, 2019), é clássico em demonstrar esse tipo de evento. Um pombo teve suas gratificações extintas, e assim passou a agredir intensamente um outro, com o qual cohabitava. 

A extinção das gratificações tende a produzir variação comportamental. Mas isso não quer dizer que essa variação aconteça primeiramente na topografia do comportamento. Fora o fato de que existem evidências de que a própria extinção tende, em muitos casos, em um primeiro momento, a intensificar os próprios comportamentos que eram antes gratificados.

Então a extinção das gratificações não resolve imediatamente o problema dessas pessoas, e pode inclusive, em curto prazo, agravar um pouco seu quadro. Estão com a vida bagunçada, abandonadas e com tendência a piorar por um certo tempo.

Referência:

Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. (2019). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed.

Meio filme nas férias

As aulas voltaram. Não tem jeito. Agora é aula presencial ou é a criança em casa, se sentindo excluída de uma escola que ela não pode frequentar, porque não há mais a opção de ensino remoto, apesar de estarmos no pico de contaminações de toda a pandemia.

Hoje a professora pediu para que as crianças respondessem à seguinte questão, com uma única frase: 

"O que vocês fizeram durante as férias?" 

"Eu assisti a meio filme com meu pai!", foi o que minha filha respondeu.

Minha esposa fez inúmeras coisas divertidas com minha filha, e se fosse menos atenta não entenderia a resposta.

E eu de fato, em um determinado momento, assisti mesmo somente a meio filme com ela. E também, se não fosse atento, iria pensar que ela acabou com minha reputação perante a professora.

Acontece que, para boa parte do que ocorre nessa vida, temos de saber interpretar os fatos em seu devido contexto.

Há quase uma semana, de sexta para sábado, às 3 horas da manhã, minha esposa começou a passar mal. E assim sucedeu, durante 12 horas seguidas, vomitando o tempo todo, sem conseguir até mesmo ingerir um único copo d'água e com dores intensas na região abdominal.

Chegou num ponto em que lhe perguntei em qual local específico do abdômen doía mais. Ela apontou o lado direito. Logo pensei que era provavelmente uma apendicite aguda. 

Corremos para o pronto-socorro, e era isso mesmo. Foi operada 7 horas depois, às 22:30 do sábado.

Chegamos em casa já bem tarde, muito cansados, mais ou menos no horário em que minha esposa estava na mesa de cirurgia. 

Como estamos em plena pandemia, e viemos de um hospital, fiz questão de entrar no box junto com minha filha  e lhe dar um bom banho.

Quando passeamos sozinhos, somente eu e ela, produzimos interações bem diferentes, e esses eventos acabam se tornando, muitas vezes, bastante especiais, agradáveis e memoráveis. São expressões singulares de nosso amor, entre pai e filha, das quais geralmente não me esqueço, e sempre faço questão de guardar na lembrança, com bastante carinho.

Depois do banho, bem mais relaxados e descansados, pedi então a ela para que escolhesse um filme. 

Ela escolheu um desenho animado, muito bonito, que se chama Parque dos Sonhos, em que uma menina, com mais ou menos a idade dela, é separada da mãe  em virtude desta estar possivelmente internada em alguma clínica ou hospital  com sérios problemas de saúde.

O cenário não podia ser melhor. Nosso cineminha particular era composto por nós dois, deitados na cama, comendo pipoca e assistindo a uma linda produção cinematográfica infantil.

Depois de mais ou menos meio filme assistido, o relógio já marcava quase meia-noite. Estávamos morrendo de sono, e pretendíamos chegar bem cedo ao hospital, para a visita à mamãe.

Ela concordou prontamente em interromper nossa sessão de cinema naquele momento, demonstrando ampla compreensão de tudo o que estava acontecendo, com exceção do medo intenso em relação ao que poderia ocorrer com sua mãe.

- Não quero que a mamãe morra, papai... Eu amo muito ela! Eu amo muito você! - com lágrimas a escorrer de seu rostinho.

Não escondi dela a verdade, e consegui convencê-la de que a situação de mamãe era difícil, mas não tão grave quanto ela imaginava, e que o risco de morte era baixo.

Tranquilizou-se, e dormimos placidamente o sono merecido de quem havia tido um dia atribulado e difícil.

E foi isso que ela fez em suas férias. Ela realmente assistiu a meio filme comigo, e isso foi muito significativo para toda a nossa pequena família. 

É isso, professora.

Sobrevivemos, mais uma vez. Somos gratos, ao destino, ao acaso, ao que quer que seja.

Esse foi, até o momento, o melhor meio filme de nossas vidas!

Tuesday, February 01, 2022

Brincar até matar

 Olho pra gatinha, no começo da manhã. Está afoita. Quer brincar. Agachadinha, rebola, abana o rabinho e prepara o bote, como se me dissesse:

- Sorte a tua ser maior e mais forte do que eu. Porque senão eu brincaria com você até a tua morte.

Tuesday, January 18, 2022

A gata de olho no banho

É divertido ir para o banho, e deixar a porta do banheiro um pouquinho aberta. Lua, nossa gatinha, ouve o barulho da água caindo e sai, de onde estiver, para atentamente assistir a todo o nosso banho. Chega de mansinho, se senta bem comportadinha em frente à porta do box, e fica observando tudo o que fazemos, e cada gota d'água que cai no chão ou escorre pelo vidro.

Gatos, assim como todo e qualquer felino, são programados para se dirigir a tudo o que se mexe, seja para caçar ou para interagir de modo fortuito ou lúdico. 

E água caindo costuma despertar muito a atenção desses animais. Lua muitas vezes tenta caçar cada uma das gotinhas que escorre pelo vidro, e está sempre atenta, até mesmo quando o chuveiro já foi desligado e cai uma ou outra gota.

Quando entro para o banho, e que ela fica me assistindo, sinto que entrei em em um espaço de alta tecnologia, uma câmara da construção de uma outra dimensão. 

Porque um box de banho produz algo parecido. De um lado há vapores, corpos nus, água caindo e uma temperatura geralmente bem mais quente. Do outro estamos com roupas, o ambiente é totalmente seco e com outra temperatura. 

O que ali ocorre parece estar cozinhando uma outra realidade. E isso de certo modo ocorre. Porque a expressão "tomar um banho" geralmente se liga a alguma transformação. Saímos diferentes. Não saímos somente nos sentindo mais limpos. Saímos com outra temperatura, com outras sensações, nos sentindo, amiúde,  um pouco renovados pelo banho.

E a gatinha permanece ali, totalmente atenta, com seu olhar aparentemente enigmático, mergulhado em seu mundo sem palavras. Esse mundo, de um presente constante, de comunhões rápidas, do esquecimento como regra, da escuridão dos silêncios eternos, da singela e atenta audiência de banhos como se fossem espetáculos milenares.

Monday, January 10, 2022

Gatos e Clarices

Gato é um bicho misterioso e  engraçado. Veio a esse mundo para confundir e desencontrar. É a Clarice Lispector dos animais de estimação. 

Quando se pensa que está num canto, está no outro. Quando se imagina que ficará agressivo, nos despreza. Quando fazemos de tudo para sermos desprezados, percebem até mesmo uma pena caindo ao chão.

Os encontros humanos com esse pequeno felino são muitas vezes desencontrados. Quando o chamamos, não vem. E quando não queremos que venha, vem correndo. Quando tentamos não fazer barulho algum, e passar completamente desapercebidos, ele nos pega. E quando estamos totalmente relaxados, tropeçando e derrubando o mundo, ele nem se liga, não está nem aí, não acorda e nem nos dá atenção. 

Um dia acordei de manhã, e vi que minha gatinha estava encostada na parede mas, como a luz do sol estava contra meus olhos, somente vi sua silhueta, e imaginei que ela estava ali, encostada na parede, olhando para mim, obviamente. Porque um predador jamais vira as costas para qualquer coisa que esteja se aproximando.

Cheguei perto. Ela estava completamente imóvel, como uma estátua, e parecia contemplar algo, ou em uma espécie de estado hipnótico, com os olhos abertos, a olhar para a própria parede, vazia, sem qualquer tipo de estímulo que chame a atenção de qualquer outro ser vivo.

O bichano entra num ambiente que nos contraria, em um lugar que não era para entrar. Aí esperneamos e gritamos, e ele ignora solenemente nosso chilique. Não se assusta com grito algum ou com ameaça alguma de violência. Mas baterá aterrorizado, em fuga, se somente dermos uma sopradinha suave em seu focinho.

E não adianta achar que esse bichinho irá se esquecer de explorar qualquer mínimo canto possível, e impossível, da casa. É um bicho absurdamente xereta. Quer cheirar tudo, e saber absolutamente de tudo o que está acontecendo em cada canto mínimo de um universo, que nunca nem pensamos em explorar antes de ter um gato.

E aí começam também meus próprios dramas pessoais e neuroses em relação a animais de estimação.

Fui criado a vida toda e condicionado a pensar que animais de estimação devem ser criados no quintal, e que jamais devem habitar o mesmo o ambiente interno que nós humanos.

Tive um único cachorro durante toda minha vida. Ele vivia no quintal, comia mais ou menos o que todo mundo na casa comia. Tinha passe livre para a rua, para sair e entrar quando quisesse. Passeava e namorava bastante, e corria obviamente diversos riscos. Mas tudo isso era concebido como algo que fazia parte da vida desses bichinhos naquele contexto de década de 80 e início da década de 90, em um bairro de periferia do interior de São Paulo.
Até o cocô e o xixi que meu cachorro fazia não era em casa. Nem víamos e nem sabíamos onde ele fazia xixi e cocô. Foi atropelado e teve fraturas, tomou facada de bandido, e também havia tomado tiros, porque conseguíamos apalpar o chumbinho, em formato diabolô, que ele tinha perto do pescoço.

Ele nem se atrevia a entrar em casa. Vivia no quintal, e a vida era muito separada, entre a vida de humanos e a vida de bicho. Desde quando éramos pequenos minha mãe sempre nos alertava, repetidamente, por inúmeras vezes, que os animais poderiam transmitir uma série de doenças e que, após tocá-los, deveríamos lavar as mãos.

Então Fred, nosso cãozinho, recebia muitos carinhos, e depois a gente lavava bem a mão.
Hoje, já há quase 2 meses, me vejo convivendo, em um apartamento pequeno, com uma gatinha preta, que foi por mim resgatada das ruas. 

Parei o carro para atender o celular. Vi que um filhote de gato, pretinho, ao longe, me avistou e fixou o olhar em mim, sendo que eu estava dentro do carro. Essa gatinha, bem pequenina, com apenas um mês e meio de vida, foi capaz de me visualizar, bem de longe, e perceber que eu estava dentro de um carro parado, e vir até a minha direção, como se estivesse mesmo pedindo ajuda, e assim entrou debaixo do veículo.

Não tive escapatória. Fui pego por esse predador implacável. Seus dois olhos, amarelinhos, brilhavam na escuridão de seus pelos. Mas um deles parecia estar fora do lugar, como se o globo ocular tivesse sido arrancado de sua órbita. 

Sou míope, e o entardecer já não permitia que eu conseguisse compreender muito bem o que havia nos olhos do bichinho. Eu tinha até receio de tentar entender claramente o que estava ocorrendo. Minha impressão é a de que ela estava mesmo com um dos olhos arrancados. Aquilo cortou meu coração, e só consegui pensar que a única coisa a ser feita era levá-la imediatamente a um veterinário, para ver o que era possível fazer em relação à sua vida.

Por sorte estava tudo tranquilo com a saúde dela, e o segundo passo era então tentar encontrar alguém que pudesse de fato ficar e conviver com esse bichinho. Porque eu não tinha, nenhum nunca tive planos de ter animais de estimação dentro de meu apartamento.
Não encontramos quem quisesse ficar com a gatinha. E assim o tempo foi passando, e minha filha foi se afeiçoando ao bichinho. O resultado é que agora esse animalzinho realmente habita o mesmo espaço que eu, que foi durante toda a vida condicionado a pensar que lugar de animal de estimação é no quintal.

E no começo o que mais me angustiava era essa gatinha descobrindo os cantos mais esquecidos e imundos da casa. Porque o problema é ela se sujar em algum canto desses, e levar a sujeira para o restante da casa inclusive para locais que não me sinto confortável em imaginar que estarão se sujando um pouco mais a partir disso, tais como o sofá, por exemplo.

E essas minhas neuroses só fazem com que eu me lembre de uma conversa um pouco engraçada que tive com a veterinária, logo nos primeiros dias em que a gatinha habitava nossa casa:

- Confesso que sou um pouco nojento, e tenho dificuldades para assimilar a convivência com um bichinho de estimação dentro de casa. Fico imaginando que ele acabou de fazer cocô, e logo em seguida senta no sofá.

- Ah, mas gatos são muito limpinhos. Eles se lambem o tempo todo, até ficarem bem limpinhos.

- E depois que ele faz cocô, ele lambe o quê? - perguntei, em um estilo um pouco mais socrático.

- Ele se lambe, e fica bem limpinho.

- Então ele lambe o cocô, e vai engolindo esse cocô, até ficar totalmente limpinho?

- É... - respondeu a veterinária, com um sorriso um pouco amarelo, e eu também.

E então, para amenizar um pouco essa minha angústia com alguns cantinhos sujos da casa, resolvi fazer uma faxina um pouco mais pesada. 

Comecei pelo banheiro. Lavei, muito bem lavadinho, tudo o que eu podia. E quem é que acompanhou, atentamente, toda a faxina?

A gatinha.

Ficou o tempo todo sentadinha, com sua cabecinha se mexendo para lá e para cá, olhando tudo que eu fazia, sem se atrever a botar suas patinhas na água.

Eu fazia aquela faxina pesada, olhava para a gatinha, e somente ouvia internamente um novo esquema de organização para o universo, que me dizia assim: "os gatos são os animais mais limpos que existem!"

Ela devia na verdade estar olhando atentamente para mim para estudar quais eram aqueles métodos de limpeza que eu estava utilizando, que eram muito diferentes dos dela. E pensava, consigo mesma:

"Olha o quanto esse ser humano está despendendo de energia, e se perdendo, em um processo que pode ser na verdade muito mais rápido e simples. Basta lamber tudo e se lamber, seu trouxa. Pra quê que você tem cuspe?"

O banheiro ficou um brinco. Ficou completamente desinfetado. Dava até para lamber o chão. Estava tão limpo que, se fosse lambido, nada seria engolido.

E aos poucos vou engolindo, assimilando essa nova realidade, pequenina, fofinha, estranha e misteriosa, que hoje circula, todos os dias, por vários cantinhos de nossa casa.

Banho quente pra quem é gente

Nunca tive nem cuidei de gatos. Em casa somente tivemos dois vira-latas, nas décadas de 80 e 90. Um deles, inclusive, cujo nome era Fred, nos deixou maravilhosas lembranças. 

Fred nasceu em 1987 e desapareceu 7 anos depois, em 1994. Era um típico vira-lata, querido da vizinhança, de periferia. 

Comia muito da comida que sobrava em nossos pratos e também um pouquinho de ração. O portão vivia trancado, mas havia uma abertura pela qual ele podia entrar e sair quando quisesse. Foi atropelado uma vez, tomou facada de bandido, que pulou dentro do nosso quintal. Tomou tiro de chumbinho, que não sabemos quem foi que deu. Mas sabíamos que ele tinha um chumbinho no corpo, porque dava para apalpar e sentir certinho o formato do chumbinho diabolô em sua pele.

Tomava banho de mangueira. Era um cachorro de quintal, e jamais entrava dentro de casa. Lembro-me bem que ele ficava bastante abatido durante o banho, ou tranquilo, não sei. E que Ribeirão Preto sempre foi muito quente. 

Então hoje tenho dificuldades para saber se aquele banho de água fria era muito sofrido ou não. Porque a água em Ribeirão não era, de modo geral, fria. Durante o verão a água não ficava muito fria, e era possível tomar banho frio normalmente, dentro de casa. Isso ajudava a refrescar.

Mas sei muito bem que naquela época eu era muito mais tosco do que hoje, e bem menos sensível ao fato de que, se estamos tomando banho quente, logo nossos animais de estimação também têm de tomar banho quente.

Sabendo muito bem disso, hoje fiz uma coisa que nunca fiz na vida, porque nunca tive gatos. Entrei dentro do box com a gatinha que peguei na rua, e dei um banho quente, presumo eu, bem gostoso nela. 

Porque ela ficou muito molinha. Ao ponto de eu enrolá-la na toalha, e ficar com ela no colo, olhando para a carinha dela, e sentindo que ela ronronava o tempo todo, e quase dormia. 

E tentamos fazer tudo baseados nos protocolos atuais, com shampoo especial, e todos os detalhes necessários para que não houvesse nenhum contratempo.

Mas eu jamais me imaginei em tal situação. Ontem, quando esse animalzinho entrou debaixo de meu carro, eu simplesmente não tinha a menor ideia do que fazer. Porque eu não tinha nem coragem de pegá-lo em minhas mãos. Fazia mais de 20 anos que eu não pegava um gato no colo.

E hoje foi isso. Tomamos banho juntos.

Sunday, January 09, 2022

"Não existe ateu quando o avião está caindo"?

Volta e meia vejo alguém dizer que não existe ateu quando o avião está caindo. Porque nessa hora as pessoas gritam "Meu Deus!", ou até mesmo oram para que o pior não aconteça.

Dizer uma coisa dessas talvez sirva como piada, para poder se descontrair um pouco. Porém, creio que a realidade seja um pouco mais complexa.

Primeiramente porque existem expressões que são na verdade automatismos, e que não podem ser tomadas como literais.

Quando alguém diz "você poderia me passar o sal?", não está perguntando para a outra pessoa se ela é capaz de passar o sal. Se a outra pessoa entender assim, irá somente responder "sim, posso", e não irá passar o sal para ela.

Se alguém grita para você "olha o cachorro!", você não vai somente ficar observando o cachorro. Você vai tentar se proteger.

Então se alguém diz "meu deus", "vai com deus", "pelo amor de deus" ou qualquer coisa parecida, isso não quer dizer necessariamente que a pessoa acredita em uma entidade sobrenatural, onisciente, onipresente, onipotente e criadora de tudo.

Porque acreditar não é definido somente por declarações ou pela utilização de expressões fixadas pelo uso comum.

Mas aí o crente insiste, e diz que a pessoa que, em um momento de desespero, começa a rezar, é alguém que na verdade acredita no deus cristão. E que se ela se declarou antes como ateia, isso que ocorreu antes não era verdade.

De fato. Não basta que uma pessoa declare no que ela acredita se ela não se comporta conforme o que declarou.

Não basta uma pessoa dizer a outra que a ama, se não cuida, não sente falta ou não expressa nenhum tipo de comportamento que esteja em conformidade com o que diz.

Não basta dizer que confia, mas não deixar que a outra pessoa tenha o mínimo de autonomia para fazer o que quer que seja sozinha.

Não basta dizer que acredita em alguma entidade sobrenatural, e que é necessário realizar com frequência rituais e orações de louvor a esta entidade, se não faz isso nunca ou quase nunca.

Assim como não faz muito sentido dizer que não acredita, mas morre de medo da suposta entidade na qual diz não acreditar.

E assim talvez seja importante retomar o conceito de agnosticismo, o qual resguarda para uma determinada crença um intervalo de confiança, sabendo que apesar de majoritariamente se crer em alguma coisa, há também margem para outras possibilidades. Ou então simplesmente não define no que exatamente acredita, porque não vê maior ou menor margem em qualquer um dos lados.

Então é agnóstico todo aquele que não tem convicção de sua crença. Acredita majoritariamente em um determinado aspecto e minoritariamente em outro. Ou então não sabe nem mesmo definir se existe uma crença majoritária. Acredita que ambas as possibilidades tem geralmente o mesmo valor.

Desse modo um agnóstico ambivalente seria aquele que teria como linha mestra somente a sua própria incoerência. Isso então fará com que uma pessoa assim se sinta livre para ser completamente incoerente em relação a determinados assuntos. Em um determinado contexto ela poderá se comportar como alguém que acredita piamente em algumas coisas e em outros poderá manifestar sua completa descrença.

Um agnóstico puro, ou ambivalente, então é alguém que segue à risca a própria etimologia da palavra agnose, que significa não-crença. É alguém que, em termos de entidades sobrenaturais, não acredita que elas existam e também não acredita que elas não existam.

Porém alguém que acredita que uma mesma coisa pode existir e pode não existir, é alguém que também pode tranquilamente se comportar tanto como se aquilo existisse como se aquilo não existisse.

Então para um agnóstico puro, ambivalente, tanto faz se aquilo existe ou deixa de existir, e ele vai, com muita tranquilidade, e até de modo divertido, navegar nessas possibilidades conforme o contexto.

E, a se observar pelo comportamento da maioria das pessoas, dá para se pensar que boa parte delas é muito mais agnóstica do que imagina.

Os que se dizem crentes muitas vezes não se comportam conforme aquilo que dizem acreditar, e o mesmo vale para os não-crentes.

Durante a maior parte do tempo pode ser que uma pessoa se comporte como se ela convictamente acreditasse ou não em alguma coisa. Mas pode ser que ocorra uma mudança em um determinado contexto. 

Uma pessoa que se julga convicta pode ser menos convicta do que imaginava e, em um momento de desespero, pode apostar suas fichas em algo que sempre teve para si mesma como muito improvável. 

Então alguém que sempre se comportou como um descrente pode, em um momento de desespero, apostar suas fichas em algo que talvez tenha uma pequena possibilidade de ajudá-la.

E talvez não seja muito honesto tentar definir uma pessoa a partir de como ela se comportou em um momento de desespero.

Por outro lado, vamos supor que faça sentido a alegação de que não existe ateu quando o avião está caindo.

Se isso faz sentido, logo todos nós acreditamos em uma entidade sobrenatural, onisciente, onipotente onipresente, criadora de tudo o que existe, e que é necessariamente Javé (Jeová), o deus do cristianismo?

Isso não faz o menor sentido quando pensamos em outras culturas, que não tem o cristianismo como base de crença. 

Então afirmar que não existe ateu, quando o avião está caindo, talvez só faça algum sentido se estivermos falando genericamente de crenças em entidades sobrenaturais, e não necessariamente de crenças em algum deus específico.

E mesmo assim podemos continuar explorando essa possibilidade. 

Vamos supor que de fato todas as pessoas tenham crenças sobrenaturais. O que faz alguém pensar que essas crenças estão no mesmo nível para todas as pessoas? O que faz alguém pensar que as crenças sobrenaturais são sempre majoritárias para absolutamente todas as pessoas? É simplesmente um episódio de desespero e descontrole emocional, no qual há completa perda de qualquer possibilidade de avaliação racional do que está acontecendo?

Isso quer dizer então que boa parte das pessoas somente acreditam em coisas sobrenaturais quando estão completamente desesperadas e perdidas? Qual é a validade de uma crença que somente se afirma a partir do desespero e do descontrole emocional de alguém?

Wednesday, December 29, 2021

Somos, em alguma medida, a média do que nos cerca

 Um colega escreveu assim:

"Uma coisa que fica cada vez mais clara - antes como intuição, agora reforçada por alguns estudos empíricos - é que somos, em alguma medida, a média de valores e opiniões que nos cercam."

Isso não é novidade alguma para os behavioristas radicais.

Friday, December 24, 2021

Sucesso e foco

Foco é fundamental para o sucesso. Quem se perde com muitos afazeres variados, pode mais facilmente se perder do rumo do sucesso. Já tive muito mais foco na vida. E muito mais sucesso. Porque o sucesso é desejar, o que de fato importa, e conseguir. Entrava às 8 horas na biblioteca, para estudar, e só saia às 23 horas. E tive o sucesso que almejava: não passei fome ou fiquei desempregado por mais de 6 meses. Não tomar um ferro bem grande no lombo era a minha motivação para esse nível de foco. Porque o sucesso é sobreviver e ter saúde. O resto é luxo.

Monday, December 06, 2021

Devedores compulsivos

Atuei em consultório particular durante muito tempo. Após a entrevista inicial é interessante avaliar se o caso é realmente para nós, se teria de ser encaminhado para algum outro profissional ou algum outro tipo de serviço. Porque ocorre de algumas vezes ser um caso que não teremos muitas condições de ajudar ou de sustentar. 

A questão é que não somos obrigados a aceitar, para um processo psicoterápico, qualquer paciente que aparece. Se achamos que não daremos conta, o mais ético é realmente encaminhar para outros, que terão mais condições.

Havia basicamente dois tipos de pacientes que eu evitava atender: sociopatas e devedores compulsivos.

Acho que no primeiro caso muito de vocês talvez entendam com mais facilidade os motivos da evitação. Mas quero aqui me ater ao segundo caso, o dos devedores compulsivos.

Em muitos desses casos sinto que essas pessoas fazem realmente alguns cálculos, para conseguir o que concebem como vantajoso para elas. 

São pessoas que têm o gozo de ficar devendo para outras. A dívida, principalmente aquela que for mais difícil de ser cobrada, é concebida, sentida, como uma espécie de lucro. Muitos sentem que levaram a melhor, que ganharam alguma coisa, fazendo uma dívida. É o gozo de ter algo de graça, de um modo que não pode ser chamado de roubo. É muito parecido com o prazer de ter roubado alguma coisa, porém de um modo bem mais suave e com consequências menos danosas para si.

O devedor compulsivo aproveita as mais variadas brechas para conseguir algumas coisinhas de graça, principalmente coisas pequenas, se possível, porque já conta com o comportamento resignado de seus credores.

Pode estar com o dinheiro no bolso, mas jamais paga no ato da compra. Sempre diz que vai pagar depois, ou pede para que o vendedor espere o dia em que irá cair seu salário, ou qualquer desculpa semelhante.

Você vê que o sujeito está muito longe de ser pobre ou de estar com algum problema de falta de grana. Mas ele acaba pedindo para você esperar até o mês seguinte quando, por exemplo, irá cair seu salário. Essa fala tem o cálculo de que você, vendedor ou prestador de serviços, irá se esquecer, depois de tantos dias após a venda de seu produto ou a prestação de seu serviço.

O devedor compulsivo conta constantemente com isso: com o esquecimento e o perdão de suas dívidas. E também fará de tudo para que o papel de vilão fique com qualquer pessoa que ouse cobrá-lo por alguma coisa que ele deixou de pagar.

E se você for psicoterapeuta, em alguns casos nem terá eficácia se criar uma regra de descontos para pagamentos antecipados. O devedor compulsivo não é besta. Começa pagando direitinho durante o primeiro ou os primeiros meses. Em muitos casos parece que até sabe da importância de começar direitinho, para depois se criar um vínculo, e assim tornar difícil qualquer tipo de interrupção do tratamento devido a seu comportamento impróprio.

Um modo de talvez se aceitar esse tipo de paciente, com um pouco mais de segurança (para nós terapeutas, obviamente), é encontrar uma terceira pessoa, que ficará inicialmente responsável pelo pagamento, e ir aos poucos transferindo essa responsabilidade para o próprio paciente.

Nunca procedi desse modo, porque na época em que eu atuava em consultório particular, meu trabalho ainda não era tão sistêmico e analítico-comportamental como hoje.

Talvez seja uma boa alternativa. É melhor do que colecionar calotes, algo com o qual convivi com certa frequência. Em alguns casos consegui consertar, e em outros nunca vi a cor da remuneração de meu trabalho.

Monday, November 08, 2021

Os limites da comunicação não-violenta (CNV)

Comunicação não-violenta não resolve tudo. 

É o que existe de mais eficaz para se quebrar com o ciclo da violência, nas interações em que é possível ocorrer um mínimo de comunicação. Contudo, há alguns casos nos quais algumas pessoas aumentam sua agressividade, mesmo quando são abordadas da forma mais pacífica possível, inclusive com as técnicas de comunicação não-violenta.

Eu fazia parte de um grupo virtual, no qual havia umas 40 pessoas, pelas quais, em sua maioria, eu tinha grande apreço e respeito. 

Porém, infelizmente, houve um dia em que um das pessoas do grupo ficou bastante irritada comigo e muito agressiva.

Eu estava transtornado com um evento trágico que havia ocorrido em alguma cidade do Brasil, e que estava sendo noticiado pelos jornais. E eu também estava revoltado, porque aquele aquela tragédia podia ter sido evitada. Havia claramente negligência e egoísmo envolvidos.

Porém, para tentar sensibilizar as pessoas para aqueles fatos, e do que podia ser feito, eu narrei a tragédia da forma mais realista possível.

E meu texto narrativo atuou como um gatilho para algumas das pessoas mais sensíveis do grupo. Era como se esse texto contivesse imagens muito fortes. Alguns ali não deram conta de ler sem ficar muito abalados.

Em poucas horas, em privado, comunicaram-se entre si, sobre meu texto, que ele continha excessos, que talvez eu não devesse me expressar daquele modo, ou que eu deveria ter deixado ali um aviso de gatilho para os mais sensíveis.

Até aí tudo bem. Porque qualquer pessoa mais serena teria plenas condições de me comunicar em privado, ou mesmo em público, dentro do grupo, de forma polida, como eu deveria ter procedido, como eles gostariam que eu tivesse procedido. Desse modo tudo teria sido resolvido da forma mais tranquila possível.

Porém  infelizmente, não foi isso o que ocorreu. Um dos membros do grupo tomou a palavra, em público, e me repreendeu de modo muito ríspido e truculento.

Confesso que nos primeiros minutos eu simplesmente não sabia o que falar ou o que responder. Fiquei bastante atônito com aquela reação tão desproporcionalmente agressiva. Foi assim que eu senti o contexto do ocorrido. Pode até ser que eu tenho me enganado. Mas meu sentimento, até hoje, é o de que a agressividade daquela pessoa foi muito grande e muito desproporcional.

Então a primeira coisa que fiz, sempre dentro da perspectiva de uma cultura da paz, foi a de pedir as minhas sinceras desculpa para todos os presentes, em virtude dos possíveis efeitos que aquele texto poderia ter provocado na sensibilidade de alguns.

Contudo, para a minha surpresa, isso fez com que essa pessoa aumentasse ainda mais o nível de sua agressividade. Ela pegou minha resposta e retrucou, fazendo trocadilhos e jogos de linguagem, ao ponto de transformar nossa interação, em público, em uma grande humilhação.

Eu me senti totalmente massacrado e humilhado. Confesso que tive muita vontade de também partir para a agressão franca. Eu teria poucas e boas para escrever para aquela pessoa. Mas, como venho há alguns anos fortemente cultivando uma cultura da paz, achei melhor me conter, e continuar com a minha pobre e quase inútil comunicação não-violenta.

Escrevi mais umas duas frases, em tom ainda bastante apaziguador, e me despedi do grupo.

E depois, como em outras vezes em que isso ocorreu em minha vida, eu sentei e chorei. Porque é muito difícil ser tão intensamente agredido, não reagir, se sentir absolutamente humilhado, em público, e ainda assim achar que não vamos sentir nada. Machuca, machuca muito. Dói, e fica doendo durante muito tempo. Isso ocorreu há quase dois anos, e quando começo a me lembrar ainda sinto a mesma dor. 

E uma das coisas que também fiz questão de fazer foi a de bloquear essa pessoa, em pelo menos uma de minhas redes sociais, que era a qual utilizávamos algumas vezes para nos comunicar, das poucas vezes em que nos comunicamos em privado, na vida.

Meu sentimento é o de que essa pessoa foi muito covarde. E eu jamais diria isso a ela ali, naquele contexto, porque não é assim que se faz uma comunicação não-violenta. Não é assim se faz redução de danos em interações com potencial para a violência. 

Ela percebeu que eu não revidei, que não houve troca de agressões, que houve um pedido de desculpas, e mesmo assim intensificou sua agressividade em cima de mim.

Eu somente soltei mais duas ou três frases, e me despedi do grupo. E não pretendo voltar, apesar da grande maioria das pessoas ali serem fantásticas.

É um grupo de WhatsApp, e eu detesto grupos de WhatsApp. Só faço parte mesmo dos grupos de trabalho, dos quais não há como fugir. E eu estava mesmo um pouco deslocado naquele grupo, me sentindo um completo estranho. Eu não conseguia me manifestar ou me sentir como uma pessoa que agradasse às outras naquele contexto, apesar, como já disse, da grande maioria delas serem pessoas fantásticas.

Horas depois de minha saída, alguns dos membros me enviaram mensagens, em privado, perguntando como eu estava. Perceberam que a agressão havia sido grande. Tiveram compaixão.

Mas ninguém, pelo visto, teve coragem de intervir enquanto as coisas estavam ocorrendo, dentro do grupo. Deixaram rolar, talvez pensando que eu fosse me defender, possivelmente revidando. Não foi isso o que ocorreu, e a humilhação foi completa. 

E quem está lendo esse texto pode até pensar que sou um completo idiota, uma pessoa resignada e tola, ou qualquer coisa parecida. Mas a cultura da paz que conheço não é algo que tirei da cartola, não é uma opinião. Está fundamentada pela contribuição de trabalhos acadêmicos. É uma técnica amplamente aceita e adotada, como instrumento de base para abordagens em mediação de conflitos e consultas com pacientes em variadas especialidades. E serve também para a vida diária.

Porém, como já disse, não é infalível. Diante de padrões de comportamento covardes e sádicos talvez seja completamente inútil, e possivelmente em muitos desses contextos não exista outro modo de nos comportarmos. Porque simplesmente revidar é sempre mais arriscado, e provavelmente mais danoso. A agressividade mútua pode se intensificar. E dependendo do contexto, e das pessoas envolvidas, os danos podem ser muito grandes e irreversíveis.

Uma das melhores coisas a se fazer em situações como essa é fugir, escapar, o mais rápido possível. E foi, de certo modo, o que fiz. 

Sim, dói, dói bastante. Mas minha experiência de vida me diz que foi o melhor a ser feito. Em várias outras situações, nos últimos 30 anos, atuei de modo bastante agressivo, conseguindo inclusive agredir muito mais a quem me agrediu, revidando, e os resultados, as consequências, não foram nada boas. Foi muito mais doloroso do que ser agredido, não revidar, e fugir. 

É isso também não quer dizer que eu sempre consigo atuar de modo pacífico. Algumas vezes eu revido, e parto mesmo para a agressão, o que deixa inclusive algumas pessoas bastante assustadas, porque não imaginavam que eu era capaz de tanta violência verbal e termos de bem baixo calão.

Porém, conscientemente, se alguém me perguntar qual é a opção que eu geralmente tento perseguir, ela é esta, a de uma cultura da paz e da comunicação não-violenta. E, sim, em muitos casos eu prefiro fugir. Podem me chamar de fujão.

Saturday, November 06, 2021

A questão do respeito na relação com os pacientes

Quando algumas pessoas, que não têm formação na área de saúde mental, aparecem para trabalhar no CAPS, costumam ocorrer alguns problemas. 

Tenho e tive colegas que estavam acostumados a trabalhar em hospitais, e quando chegaram ao CAPS se assustaram com algumas coisas. Nas reuniões era, e ainda é, comum reclamarem de que alguns pacientes foram desrespeitosos, por exemplo. E muitos, para tentar se impor, chegam até mesmo a dizer ao paciente a clássica frase: “Me respeite!”. Ou então alertam: “Você está me desacatando! E desacatar servidor público é crime!”.

Em algumas situações, durante essas a reuniões, eu digo que, em quase 30 anos de prática profissional, eu jamais senti que algum paciente estava me desrespeitando. Contudo, logo após me expressar desse modo, é nítida a expressão de incredulidade desses colegas, e alguns inclusive fazem questão de tentar mostrar que eu estou sendo desonesto ou mentindo.

É uma situação tensa e difícil, mas sempre mantive a tranquilidade, e tento dizer que, segundo minha formação técnica, e minha experiência profissional, eu não vejo o menor sentido em se afirmar que um paciente está me desrespeitando, e muito menos chegar ao ponto de ter que dizer para esse paciente algo como o clássico “Me respeite!”.

Lembro-me inclusive de uma ocasião em que alguém pregou alguns cartazes nas paredes do CAPS, com aquele aviso da lei do desacato. Aquilo me deixou suficientemente irritado para que eu imediatamente tirasse todos esses cartazes das paredes e os jogasse no lixo. 

Isso ocorreu durante o período em que essa lei havia sido extinta. Porém em junho de 2020 o STF decidiu que é crime. A votação não foi unânime, e a maioria dos ministros defenderam que não há incompatibilidade da lei do desacato com os direitos humanos de liberdade de expressão. Então ficou decidido que a população tem o direito de expressar o que pensa diante de servidores públicos, mas ninguém tem o direito de humilhar, injuriar ou agredir fisicamente o agente público.

Estou há 11 anos no SUS, atendo inúmeras pessoas diferentes todos os meses, e nunca nem mesmo senti que algum paciente alguma vez me desrespeitou. Porque meu sentimento é o de que aquela pessoa está em uma instituição de saúde, manifestando seu sofrimento, adoecimento e vulnerabilidade. Então o que temos nas instituições de saúde é um contexto muito específico, que facilita arroubos e excessos, e pode assim ocorrer de alguns pacientes serem mais ríspidos, hostis ou até xingarem algum servidor público.

E não é somente ter plena consciência disso que faz com que eu fique mais tranquilo e tolerante diante de pacientes e familiares mais agressivos ou hostis. Outra coisa que sinto é também que há uma assimetria muito grande entre os servidores e a população atendida. 

O servidor, na grande maioria das vezes, se encontra em uma posição de controle de muito mais poder do que o usuário do serviço. Ter plena consciência disso, e ter uma formação consistente em escuta empática e/ou comunicação não-violenta é fundamental.

Então, para finalizar, eu diria que me sinto muitíssimo tranquilo e seguro com minha formação, a qual tem me permitido, em muitos anos de atuação, quase sempre conseguir, com facilidade, contornar esse tipo de situação um pouco mais delicada. 

Quem tem uma formação técnica mais consistente quase sempre consegue fazer com que aquele paciente, ou familiar, que chegou mastigando marimbondos, saia do atendimento com gosto de mel na boca.