Tuesday, March 31, 2015

Algumas pérolas do Velho Testamento

No site da Sociedade Bíblica do Brasil é possível acessar três traduções da Bíblia, dentre elas a “Nova Tradução na Linguagem de Hoje”. Fiz uma busca de algumas pérolas do Velho Testamento e me surpreendi com a honestidade em que foram traduzidas. Apesar de um pouco chocante, é uma tradução fiel, corajosa. Confiram:

Levítico 20:13
Se um homem tiver relações com outro homem, os dois deverão ser mortos por causa desse ato nojento; eles serão responsáveis pela sua própria morte.

Oséias 13:16
O povo de Samaria será castigado porque se revoltou contra o seu Deus. Os homens morrerão na guerra, as crianças serão despedaçadas, e as barrigas das mulheres grávidas serão rasgadas.

Levítico 20:27
Qualquer homem ou mulher que invocar os espíritos dos mortos ou praticar feitiçarias deverá ser morto a pedradas. Essa pessoa será responsável pela sua própria morte.

Deuteronômio 21:18-21
Pode ser que um homem tenha um filho teimoso e rebelde, que não obedece aos pais, nem mesmo depois de ser castigado.
Então os pais devem levá-lo aos líderes da cidade e no lugar de julgamento na praça pública eles dirão: “O nosso filho é teimoso e rebelde; ele não nos obedece, gasta dinheiro à toa e é beberrão.”
Aí todos os homens daquela cidade o matarão a pedradas, e assim vocês tirarão o mal do meio do povo. Todos saberão do que aconteceu e ficarão com medo.

Deuteronômio 13:6-10
Talvez chegue perto de você o seu irmão, ou o seu filho, ou a sua filha, ou a sua querida esposa, ou o seu melhor amigo, procurando em segredo levá-lo a adorar outros deuses que nem você nem os seus antepassados adoravam.
Essa pessoa pode procurar levá-lo a adorar os deuses de povos vizinhos ou de povos que vivem longe, em lugares distantes.
Não deixe que essa pessoa o convença, nem escute o que ela disser. Não tenha dó nem piedade dela e não procure protegê-la.
Mate essa pessoa a pedradas; atire a primeira pedra, e, depois, que todos os outros atirem pedras também.
Assim vocês matarão essa pessoa, pois procurou fazer vocês abandonarem o SENHOR, nosso Deus, que os livrou do Egito, onde eram escravos.

Levítico 24:15-16
E diga ao povo: “Quem amaldiçoar o seu Deus pagará por esse pecado e será morto a pedradas por todo o povo. Não importa que seja israelita ou um estrangeiro que mora no meio de vocês; quem blasfemar contra o nome do SENHOR Deus será morto.

Êxodo 12:29-30
À meia-noite, o SENHOR Deus matou os filhos mais velhos de todas as famílias do Egito, desde o filho do rei, que era o herdeiro do trono, até o filho do prisioneiro que estava na cadeia; e matou também a primeira cria dos animais.
Naquela noite o rei, os seus funcionários e todos os outros egípcios saíram da cama. É que em todo o Egito havia gente chorando e gritando, pois em todas as casas havia um filho morto.

Números 33:4
Os egípcios estavam sepultando os seus primeiros filhos que o SENHOR havia matado. Assim, o SENHOR mostrou que era mais poderoso do que os deuses do Egito.

Deuteronômio 7:9-10
Lembrem que o SENHOR, nosso Deus, é o único Deus. Ele é fiel e mantém a sua aliança. Ele continua a amar, por mil gerações, aqueles que o amam e obedecem aos seus mandamentos, porém castiga de uma vez os que o rejeitam. Ele não demora em castigá-los e destruí-los.

Deuteronômio 13:12-16
Quando vocês estiverem morando nas cidades da terra que o SENHOR, nosso Deus, vai lhes dar, talvez vocês ouçam dizer que em certa cidade alguns homens perversos levaram os moradores a adorar deuses que vocês nunca adoraram.
Aí vocês deverão examinar o caso com todo o cuidado. Se ficar provado que, de fato, foi cometido um pecado tão grave no meio do povo de Israel, então vocês deverão matar à espada todos os moradores daquela cidade. Matem também os animais e arrasem a cidade.
Depois peguem todos os objetos de valor que encontrarem, amontoem na praça e queimem tudo e também a cidade, como oferta ao SENHOR, nosso Deus. Vai ficar só um montão de ruínas, e nunca mais será construída uma cidade naquele lugar.

Êxodo 4:24-26
Durante a viagem para o Egito, num lugar onde Moisés e a sua família estavam passando a noite, o SENHOR se encontrou com Moisés e procurou matá-lo.
Aí Zípora, a sua mulher, pegou uma pedra afiada, cortou o prepúcio do seu filho e com ele tocou o pé de Moisés. E disse: — Você é um marido de sangue para mim.
Ela disse isso por causa da circuncisão. E assim o SENHOR deixou Moisés viver.

Saturday, March 14, 2015

Contornar a ferida...

Não posso contornar sua ferida, depois de ter minha frágil sanidade partida o meio. Em seu céu, também de dor, você procura pelo que não sou, pelo que não posso lhe dar.

Aqui, montanha de equívocos, olho para o breu de não me conhecer, afogado em
uma paixão que costura sua conversa fiada a fogo, a vender ilusões e vidas plenas.

Você encontrou um vazio a habitar sua curiosidade e seu terror. Encontrei sua porta aberta, pude perceber sua alegria em me hospedar na sua intimidade.

Cansei de ouvir as vozes sádicas no turbilhão escrito nas paredes de minha solidão e servidão ao universo de ordens a me soletrar alarmes do tempo perdido, da vida roubada a cada minuto e eu pouco fazendo para que tudo fosse outra coisa muito mais bela.

Enterro-me no canto escondido da minha fraqueza, sei voltar e dizer adeus como quem não chora, e não consigo entender tudo o que os olhos e os ouvidos me mostram. Queria então saber conversar com o seu cheiro, no medo de que ele ainda me mate quando não puder senti-lo.

E tudo isso vai lhe escapar pelas mãos, pois já não trago no sorriso uma boa paisagem. Sou agora o tempo de uma impotência escura e impalpável. Em meu casulo ofegante de preguiças opiadas e cabeça trovoada, ainda pude pintar meu melhor retrato para que eu pudesse dormir tranquilo.

Estou esquartejado, à venda para o acaso e a sorte de não saber nada além do que puderia ter dito ou feito, no momento em que não queria fazer nada.

Rodeado por chuvas, há muito rumino um silêncio de pedra de não poder aliviar as dores que urravam do outro lado da minha agonia de acreditar no impossível, na ávida imagem de uma criança correndo, esbanjando sabedoria e simplicidade de não ter visto a dor do tempo que se esvai tão rápido, de sentir na pele tudo o que acontece e vê. Sou esse todo de ossos amontoados a pedir perdão por ter nascido e não saber viver para o que promete a paz e a utopia.

Brasília, 1998

PIADAS SOBRE O CÂNCER DE DILMA

Há poucos dias, um colega de Facebook, Alexey Dodsworth Magnavita, de certo modo expressou sua condenação moral em relação a postagens de médicos “torcendo” ou fazendo piada com o câncer de Dilma ou de Lula. Para quem quiser ler o que ele escreveu sobre isso, eis o link, abaixo:


Acho que suas considerações são instigantes para se refletir sobre ética e moral. Fez com que eu pensasse uma série de coisas. Tento, abaixo, transcrever um pouco do que pensei sobre tudo isso.

Sou servidor do SUS, e tenho portanto muitos colegas médicos, assim como enfermeiros e outros especialistas da área de saúde. A minha percepção, pelo menos nos setores onde atuo, é a de que os médicos estão, em sua grande maioria, ou em boa parte, unidos contra o governo Dilma, contra o PT. Também tenho a impressão de que boa parte deles faz esse tipo de piada ou não se incomoda com isso.

Porém, o mais interessante é que um desses meus colegas (o qual considero um dos mais éticos, senão o médico mais ético com o qual convivo profissionalmente) não se cansa de fazer esse tipo de piada em relação ao câncer de Lula ou de Dilma.

Eis então a contradição: uma ética deontolológica talvez o condenasse, contudo uma ética consequencialista pondera os benefícios e malefícios de suas ações.

E, sinceramente, eu prefiro ele fazendo piada de mau gosto e tratando de modo humanizado os pacientes e seus familiares, do que o contrário. No caso dele acho que não ocorre nem mesmo incitação ao ódio, pois ele não tem poder de comunicação de massa pra isso.

Acho que talvez resida aí algo parecido com um dilema moral que li em Comte-Sponville. O sujeito está se afogando e o outro, com um remo de madeira, tenta acertar-lhe a cabeça para matá-lo. Contudo, erra e o remo serve como uma bóia salva-vidas. Assim, o sujeito que estava se afogando acaba salvo. A outra situação ocorre quando uma pessoa arremessa um remo de madeira para salvar essa pessoa que está se afogando. Porém, por uma infelicidade, esse remo acerta a cabeça do sujeito e ele acaba morrendo.

Comte-Sponville não hesita em deixar claro que a ação mais moral é a do segundo caso, apesar das consequências serem muito mais trágicas.

No entanto, o lugar comum a enunciar que “de boas intenções o inferno está cheio” talvez possa também servir para esse caso. Tenho a impressão de que a geração de benefícios para o outro (para todos, para o maior número possível de seres sencientes), “o caminho do bem” ou uma existência mais virtuosa, também devem se alertar para o autoconhecimento, “o julgar bem para fazer bem”, a importância da técnica no fazer ético. Sem perícia ou prudência, mesmo que sem dolo, a ética também tende a perder. Um altruísmo desesperado pode, em muitas situações, ser mais nefasto do que a consciência e um certo exercício sublimado de nossas pulsões destrutivas, já nos lembrava Freud.

Sinto que as piadas desse meu colega médico não produzem malefício algum. Na obra "Os chistes e sua relação com o inconsciente", Freud defende que os chistes (as piadas) atuam conciliando exigências do Isso (Id) com exigências do Supereu (Superego). Os chistes satisfazem, portanto, tanto nosso lado impulsivo, selvagem, quanto as exigências morais do Supereu.

Fazer piadas, em muitos casos, pode ser até mesmo mais saudável do que não reconhecer em nós mesmos muitos desejos ou propensões censuráveis pelos agrupamentos sociais dos quais fazemos parte. Invés de uma ética apriorística ou purista, atenção para as consequências, para os resultados práticos, concretos, de nossas ações no mundo.

A minha questão é: existe alguém que nunca desejou o mal de outras pessoas? Quem nunca sentiu ódio ou inveja? Quando Alexey fala em sacerdócio no exercício da medicina, penso em alguns conceitos próximos, talvez mais simples, sem que precisemos apelar para um exercício demasiadamente idealizado de uma determinada atividade profissional. Pode se falar, por exemplo, no conceito de vocação, de gostar realmente da profissão que escolheu, de exercê-la com gosto, com amor, e não simplesmente pelos ganhos financeiros ou pelo status que ela pode proporcionar, ou o exercício que deve se lançar em um altar sagrado de sacrifícios e abnegações duvidosas.

Outro dado de realidade é que no contexto brasileiro a medicina adquiriu uma aura muito glamourizada. É uma profissão almejada por quem deseja muito poder, prestígio, sucesso. Esses jovens, em sua maioria, provêm de famílias mais abastadas. É uma profissão que promete muito a esse jovem.

A glamourização produz promessas que se descolam da realidade. O resultado, sabemos, é uma frustração atrás de outra. E há também uma disparidade muito grande (tanto em relação aos ganhos financeiros quanto ao prestígio social) entre a medicina e as demais áreas da saúde, ou mesmo em relação à carreira acadêmica, por exemplo. A minha impressão, portanto, é que essa glamourização, e essas disparidades, mais têm feito mal do que bem para o exercício ético dessa profissão.

Conheço professores universitários e pesquisadores que estudaram muito mais, que se dedicaram muito mais à sua profissão do que a maioria dos médicos, e ganham muito menos, tendo inclusive um prestígio social muito menor, isso sem precisar se falar em sacerdócio e abrir as pernas para as alegações bizarras de um Cid Gomes da vida: “Quem quer dar aula faz isso por gosto, e não pelo salário”. Isso abre portas para o outro extremo: a exploração descarada, a qual, convenhamos, cientificamente não rima muito com motivação e bom desempenho em qualquer atividade que seja.

O egoísta querendo ajudar...

"Devemos fazer para os outros o que gostaríamos que fizessem para nós mesmos", dizia generosa e "sabiamente" o masoquista...

A vida vale a pena?

Minha vida vale a pena porque amo muito algumas pessoas e sou amado por elas. Viver e bem, no meu caso, é um imperativo moral. Devo me manter vivo e saudável para dar e receber o amor dessas pessoas. Essa pra mim é a grande diferença entre estar vivo ou morto. Minha morte geraria muito sofrimento para essas pessoas, as quais posso contar nos dedos de uma mão. Para o restante das pessoas desse mundo sou tranquilamente substituível.

Vou ser ainda mais claro.

Se alguém chegasse agora pra mim e me dissesse: “você vai morrer, vamos apagar você, instantaneamente, sem dor”.

Nesse caso, minha maior aflição seria imaginar como minha mãe iria viver com isso, com mais um filho morto. Depois eu pensaria em minha filha e minha esposa. Essas três pessoas são as que mais iriam sofrer com a minha morte. Elas me motivam a viver, pelo que posso fazer por elas.

Não penso em outra coisa. Não penso que sou jovem, que teria muito ainda para curtir, aproveitar. Nada disso! Não tenho muito o que curtir ou aproveitar. Não penso assim. Quando penso somente em mim mesmo, sinto que tanto faz estar vivo ou morto. Se eu pensar somente em mim mesmo, vou desejar intensamente a morte!

Morrendo, por mim mesmo não haveria o que lamentar, pois não haveria eu algum para lamentar, estaria morto. E não haveria também mal algum, pois já estaria morto. O grande problema da morte é para quem fica vivo, sem aquele que ama.

Tuesday, February 03, 2015

UNIVERSOS PARALELOS

Essa noite viajei no tempo, como nunca tinha me ocorrido antes em um sonho. Sonhei com alguns universos paralelos. Leia o que tenho a lhe narrar. Acho que você vai gostar...

Em um primeiro momento eu estava em campo, para a estreia do Brasil em alguma das últimas Copas. Eu era lateral direito da seleção brasileira. Era mais velho e mais experiente que os outros jogadores, com várias Copas do Mundo em meu currículo.

Essa imagem de mim mesmo como um jogador de futebol, de seleção brasileira, faz parte do conjunto de sonhos megalômanos que tive na infância e adolescência. Especificamente, esse sonho de ser jogador de futebol é de 1982, quando eu tinha 10 anos de idade, e acompanhava muitíssimo entusiasmado a Copa do Mundo de futebol daquele ano. Devaneava e projetava para mim mesmo um futuro de sucesso como jogador de futebol, o qual participaria de várias Copas do Mundo.

E eu estava lá, em campo, para a estreia do Brasil, em alguma das últimas copas. Mas de repente percebo que eu estava ali como um invasor. Eu não fazia parte da seleção brasileira e talvez nem fosse jogador de futebol. Mas estava em choque: estava em campo, com a camisa 2 da seleção, na minha posição, na lateral direita, esperando pelo apito do árbitro, angustiado e não entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo.

Vieram me retirar de campo, pois eu era um invasor, nada além disso. Pensei:

“Se eu não sou jogador da seleção brasileira, o que diabos estou fazendo aqui nesse campo, nesse estádio imenso, lotado, com a camisa 2 da seleção, na lateral direita, esperando pelo apito do árbitro? Santo Deus, tenho várias Copas do Mundo em meu currículo. Sou o jogador mais velho e mais respeitado desse grupo. Por que estão me retirando de campo como se eu fosse um anônimo, uma outra pessoa? Por que estão retirando de campo o grande "Motorzinho"? Sim, é esse o meu apelido, penso eu, na realidade paralela em que sou um grande jogador de futebol.”

Enquanto me retiravam de campo, me vinha à lembrança as várias Copas das quais já tinha participado, e uma sensação perturbadora de não entender mais quem eu era. Se me retiravam dali à força, daquela forma truculenta, era muito provavelmente porque eu nunca havia sido jogador de futebol e eu estava completamente louco. Mas o pior era não me lembrar de quem eu verdadeiramente era, se é que existia um eu meu único ou verdadeiro nessa situação que eu estava vivendo nesse sonho (se é que isso era também de fato um sonho).

Dali fui transportado para 1985, quando eu tinha 13 anos de idade . Minha mãe estava na sala, conversando ao telefone. Ela estava preocupada com sua irmã, a qual vinha passando por um período muito difícil em sua vida, em um relacionamento muito conturbado com seu atual marido (o marido dela de 1985, claro).

Minha família suspeitava que ele não era uma boa pessoa. Havia várias evidências de que ele era um espertalhão, um mau caráter. Ela relatava para minha mãe várias situações em que ele abusava dela, em relação a dinheiro, infidelidades e até mesmo com agressões físicas.

Minha tia já vinha se alterando bastante, tendo muitos episódios de sério "desequilíbrio mental" (eis o termo que utilizávamos àquela época para definir o que estava ocorrendo com ela). Minha mãe tinha muito medo de que ela enlouquecesse, daquela situação toda se agravar.

Eu estava ali, aos 13 anos de idade, na sala da casa onde morei toda a minha infância, ouvindo a conversa de minha mãe ao telefone, manifestando essas preocupações com minha tia, e sabendo exatamente tudo o que iria ocorrer em nosso futuro, em uma projeção que avançava 30 anos.

Eu sabia que vários dos temores de minha mãe se realizariam. Ela temia muito que minha tia, em tal situação de vulnerabilidade de suas capacidades mentais, tivesse um filho com aquele sujeito. E, bingo! Eu sabia que minha tia teria um filho com ele. Mas, pior: ele morreria três meses antes desse filho nascer, deixando para trás um rastro enorme de confusões e desamparo para ela.

E sim, ela enlouqueceria, definitivamente, com várias internações psiquiátricas, deixando seu filho em uma situação muito grande de vulnerabilidade, ao ponto de, em 1988, minha mãe ter de levá-la para nossa casa juntamente com seus dois filhos, o bebê de 6 meses e minha prima com 12 anos de idade.

Eu ouvia a conversa de minha mãe ao telefone e tinha muitas histórias para lhe contar, mas estava completamente paralisado. Sentia-me, como muito ocorrem em sonhos, completamente paralisado. Eu queria muito lhe falar sobre todo esse futuro, 30 anos adiante, mas engasgava e não conseguia nem mesmo abrir a boca ou me mover.

Eis que, de repente, essa cena também se fechou, e eu acordei, me lembrando de todos os detalhes desses sonhos fabulosos.

Eu precisava ansiosamente escrever sobre tudo isso que sonhei durante a noite, mas ainda era muito cedo, e o som de meus dedos digitando certamente acordaria minha filha, a qual tem o sono muito leve. Pensei: preciso sair de casa para escrever essa história.

Muito silenciosamente, saí de casa e fui para o estacionamento do condomínio. Entrei em meu carro e comecei a escrevê-la, sentado no banco do motorista. Enquanto escrevia, de vez em quando eu observava pelo retrovisor os vizinhos que acordavam para se dirigir ao trabalho ou às suas atividades rotineiras.
Eu já estava escrevendo o final dessa história toda, quando um de meus vizinhos chegou com seu carro, na vaga dele, atrás da minha. Ele permaneceu dentro do carro e isso me chamou um pouco a atenção. Olhando pelo retrovisor percebi que ele saiu do carro e vagarosamente começou a se dirigir ao meu, em minha direção. Bateu em meu vidro. Abri:

- Pois não?

- Senhor Adriano Facioli?

Como ele sabia o meu nome? Nós nunca havíamos sido apresentados um ao outro.

- O senhor poderia nos acompanhar, por favor?

Olhei pelo retrovisor e reparei que a expressão “nos acompanhar” se referia a dois brutamontes, trajados como se fossem dois seguranças presidenciais, os quais acompanhavam meu vizinho. Percebi, inclusive, que havia um certo ar de gravidade na situação, pois meu vizinho portava uma pistola automática, com silenciador. Eu não estava entendendo nada e nem preciso dizer o quanto fiquei tenso...

Porém, infelizmente, agora terei de interromper a narrativa dessa história aqui para vocês, para cuidar de minha filha, a qual acaba de acordar e chama por mim. Foi mal aí, meus amigos...

Até as cenas dos próximos capítulos!

Justiça divina

Pra que serve acreditar em justiça divina, transcendental? Geralmente para se consolar diante de seu próprio sofrimento ou se acomodar diante do sofrimento dos outros.

No primeiro caso o sujeito passa a esperar indefinidamente por uma compensação aos seus males.

No segundo caso muitos deitam e rolam no berço esplêndido da indiferença e insensibilidade em relação ao sofrimento dos outros. É o consolo de muitos opressores a tranquilamente lavar suas mãos diante dos infortúnios alheios, dos quais se sustentam.

O que faz alguém ser de extrema direita?

Há poucos dias, por mensagem, me fizeram seguinte pergunta:

"Para você, o que faz um cara ser de ultradireita? Muita mágoa e rancor?"

Tive algumas leituras a respeito dessa questão, mas há mais de 20 anos. Foram textos de autores da Teoria Crítica. Como já faz muito tempo que tive essas leituras, vou somente pincelar um pouco do que atualmente sinto sobre isso. Portanto tecerei somente algumas impressões esparsas.

Primeiramente eu gostaria de dizer que a pergunta desse colega é muito boa, pois nos convoca à empatia. É necessário ter empatia para compreender, mesmo que tenhamos de compreender o mais vil dos seres humanos. Contudo ainda quero ressaltar que talvez minha resposta não esteja à altura de uma pergunta tão substancial.

Tenho a impressão de que as pessoas de extrema direita acreditam em soluções prontas, simples, rápidas, às quais se pautam pela convicção de que concebem a realidade como ela é, de maneira mais crua do que a maioria das pessoas.

É aquela velha história de que para fazer uma omelete é preciso quebrar ovos, matar pessoas, recorrer precipitadamente à violência, a qual produz resultados rápidos. Ou a ideia de que a vida é dura, de que existem poucas alternativas, de que os recursos são limitados, logo é necessário excluir pessoas.

Acreditam mais na exclusão do que na inclusão. Padecem de um darwinismo torto, aquele antigo e ultrapassado darwinismo social. Mas ao mesmo tempo só defendem a meritocracia em casos muito específicos, somente quando esta os favorece, uma meritocracia incompleta, torta. Geralmente são conservadores, conservadores extremos. Ou seja: fascistas.

Se concebem como pessoas muito práticas e realistas, mas na verdade são tradicionalistas, patrimonialistas e egocentrados, com pouca capacidade de se colocarem no lugar do outro. Resumindo: imorais.

Como são extremamente moralistas, devotados à manutenção da ordem e dos bons costumes (os quais geralmente estão fundamentados em princípios religiosos, dogmáticos) não conseguem compreender que são na verdade imorais.

Sem contar também com toda a visão que possuem acerca da desigualdade. Julgam a desigualdade como natural e inevitável e até mesmo desejável, pois em termos econômicos defendem a posição de que a desigualdade produz mais riquezas, de que ela é mais favorável ao crescimento econômico do que a igualdade. E também acabam por conceber a motivação como simplesmente baseada na inveja ou na idéia de tentar alcançar um nível que alguém em um nível superior já alcançou. Reduzem a motivação à competição, pura e simplesmente assim.

Há estudos atualmente, como os de Richard Wilkinson, com análises estatísticas apuradas, de como hoje o mundo padece mais de excesso de desigualdade do que o contrário.

Mas esses caras vão continuar insistindo na interpretação obtusa de alguns princípios econômicos básicos, a qual obviamente só favorece quem já está por cima da carne seca.

E existe, claro, também, pobre de extrema direita.

Outro ponto, o qual parte para uma análise mais comportamental, diz respeito aos grupos de influência dessas pessoas. Praticamente só convivem com pessoas que as gratificam por pensar assim, por expressar suas opiniões dessa maneira. É uma cultura onde existem gratificações mútuas para se manter essa cultura. E são fechados, porque possuem também uma mentalidade medieval. Não julgam importante a diversidade, o contato com a diferença. Nem acham muito importante mudar conforme as evidências.
Acreditam em verdades eternas - e olha que nem estou falando das verdades matemáticas ou dedutivas.


Mas, como eu já disse no início, essas são somente algumas de minhas impressões, esparsas, as quais carecem das convicções tão presentes nas falas dos extremistas...

O QUE É UMA PSICOTERAPIA

Com certa frequência recebo mensagens de pessoas pedindo por alguma orientação psicológica. Relatam seus dramas e pedem por meus conselhos.

Respondi a uma dessas mensagens, explicando o que é possível e que não é, em termos de aconselhamento e orientação nesse contexto, e quais são as alternativas. Transcrevo abaixo alguns trechos do que escrevi:

Prezado colega, eu poderia emitir alguns juízos generalizados sobre o que eu imagino que você esteja vivendo. Mas acho que não seria o mais eficaz. Penso que o mais eficaz, em seu momento atual, com a complexidade das relações nas quais você está envolvido, seria um acompanhamento psicoterápico semanal, contínuo, profundo, próximo.

Uma boa terapia seria a melhor solução. Pois você precisa se sentir, agora, acompanhado por alguém competente, o qual possa lhe fazer companhia, passo a passo, no que está ocorrendo. Alguém que ouça, com um tempo grande, cada detalhe, para primeiramente poder compreender melhor o que você está vivendo. Meio também assim como alguém pra pegar na sua mão, passar confiança, ajudar a segurar essa barra, cotidianamente. É isso o que uma boa terapia irá fazer.

Imagine alguém que tenha sofrido um acidente grave e esteja todo quebrado. Essa pessoa precisa de profissionais que o acompanhem diariamente para, por exemplo, fazer exames, fisioterapia, exercícios diários, tomar remédios no horário certo... Não é muito diferente não, meu amigo. Pouco vai adiantar eu, de longe, em uma única mensagem, dizer algumas coisas genéricas. Em um processo terapêutico sério vocês, você e seu terapeuta, irão trabalhar, em detalhe, cada questão que o aflige para poder de fato resolver isso na sua vida, ou ao menos conseguir melhorar um pouco a situação em que você está vivendo.

Na minha compreensão, o papel de um terapeuta é muito parecido com o de um treinador, pois o acompanhamento deve ser constante.

A psicoterapia envolve um processo de aprendizagem. Visa fazer com que as pessoas aprendam novas formas de interação com o mundo e com outras pessoas. Isso, de modo geral, não ocorre simplesmente com alguns conselhos esparsos, ou somente com algumas palestras motivacionais. Como eu já disse, é necessário um acompanhamento próximo.

A mensagem que você me enviou, tentando detalhar o que você tem experenciado em sua vida, mesmo sendo longa, contém pouquíssimas informações, se formos compará-la ao que é um processo de psicoterapia.

Pelo que sei, se não me engano, o número máximo de 10 sessões de orientação psicológica pela internet está regulamentado pelo Conselho Federal de Psicologia.

Mas esse já seria um serviço profissional, sistematizado, para o qual não tenho disponibilidade atualmente.
Bom, é isso. Espero pelo menos ter esclarecido alguns pontos em relação ao que é possível fazer ou não.

Doenças autoimunes e evolução

Há evidências de que uma série de características autoimunes são mais antigas do que imaginávamos. Em um contexto rico em micróbios patológicos (como era o contexto paleolítico), um sistema imunológico mais agressivo funcionaria para muitas pessoas como uma proteção.

Seria mais ou menos esse o cenário para alguns humanos durante o período paleolítico. Ao contrário do que ocorre hoje, esses seres humanos não padeceriam de sua condição, já que habitavam um ambiente microbiologicamente muito mais diverso, com a grande maioria dessas populações sendo hospedeiras inclusive de vermes.

Isso de certa forma é o que é postulado pela primeira teoria da higiene, proposta no final da década de 80.
Contudo há também uma teoria posterior, a qual vem sendo mais aceita, que é a teoria da diminuição dos microbiomas e de sua diversidade.

Em um contexto paleolítico ou até mesmo há cerca de 80 a 100 anos atrás, havia mais diversidade microbiológica em nosso mundo. Zonas rurais, com criação de animais e zonas de mata possuem maior diversidade microbiológica e menor incidência de doenças autoimunes em suas populações humanas.

Ou seja, se a predisposição às doenças autoimunes existe, muito possivelmente sobrevivou à seleção natural, há vários milênios. A diferença é que nosso mundo físico e microbiológico mudou bastante. Logo a expressão dessas características também se altera, produzindo hoje doenças, as quais no passado não passavam de algumas condições que possuíam vantagens adaptativas.

A partir dessas evidências fica mais claro o motivo pelo qual algumas pessoas possuem carência de vermes. Sem eles, elas padecem.

http://www.medicalnewstoday.com/releases/288703.php

Kit crise hídrica

E o kit crise hídrica, como seria?

1- Papel, muito papel: jornal (para sujeiras mais pesadas, com bastante resíduo), papel-toalha, guardanapos, papel higiênico. Quem não tem água, limpa com papel. Quem não tem papel, limpa com jornal...

2- Lenços umedecidos, algodão e pequenos panos, para banho.

3- Álcool, muito álcool: líquido e em gel.

4- Água mineral, muita água mineral, para beber.

5- Tenha reservatórios, de todos os tamanhos: mais uma caixa d'água ou barris. E sim, baldes, de todos os tamanhos possíveis.

Lavou uma verdura, roupas ou usou água para qualquer coisa desse mundo? Não jogue pelos canos. Coloque em baldes para descarga.

E como lavar uma louça suja sem água alguma?

Se não tiver água, imediatamente depois de usar a louça, retire imediatamente as sujidades com papel-toalha, guardanapo ou mesmo papel higiênico, para que não ressequem, e depois só se tira mesmo com água. Depois passe álcool líquido para esterilizar.

E sujeiras no chão?

Varra bem e depois passe um pano seco com desinfetante. Chão seco é mais limpo do que qualquer chão úmido.

Tendo pouca água, em recipientes, acho que é somente banho de canequinha mesmo e descarga com baldes somente para o número 2...

E sim, é um cenário de guerra, de carência. Então se liga. Se você ainda não está com o espírito ligado em um possível futuro desastre, não está preparado. Está somente bancando o idiota.

Que mais?

Toma, Tomás de Aquino!

Minha filha adora pegar alguns livros da coleção “Os pensadores” da estante da sala, a qual fica ao seu alcance. Agora há pouco, daqui do escritório, ouço minha esposa perguntar assim, em alto e bom tom:

- Tomás de Aquino é muito importante pra você, Adriano?

Acho que vocês já podem deduzir o que pode ter ocorrido, não?

Mas, sem problemas, Tomás de Aquino definitivamente não tem nem nunca teve qualquer importância acadêmica pra mim...

Chupa, Tomás de Aquino!

PS: Claro, tiramos da mão dela, antes que algo pior ocorresse. Foi somente uma babadinha em cima... Acontece.

Contrastes

Não li, mas minha esposa me falou de uma postagem aqui no FB de uma menina negra, única aluna negra, bolsista de alguma PUC, e de como ela relatava todo o sofrimento dela devido a uma certa segregação que sofria.

Muitos de nós, em especial negros e pobres, têm alguma história de segregação que sofreu. Sou branco e descendente de italianos, mas nasci em um conjunto habitacional com casinhas de três cômodos e 30 metros quadrados, além de ter estudado a vida toda em instituições públicas (com a única exceção para o meu terceiro ano do ensino médio).

Portanto no ensino fundamental e médio pouco tive contato com pessoas que julgávamos serem ricas ou “burguesinhas”. Porém o pouco contato que tive foi suficiente para me deixar um pouco traumatizado.

Quando eu tinha quase 13 anos, inventei de estudar inglês. Fui sozinho até uma tradicional escola de inglês no centro de Ribeirão Preto (minha cidade natal e onde moram meus pais e quase 100% de meus familiares) e fiz minha matrícula assim como pedi por uma prova para tentar não começar no início de tudo como qualquer outra criança ou adolescente. 

Até o dia dessa prova, ralei em casa, sozinho, tentando dominar alguma coisa de uma língua que era muito porcamente transmitida na escola pública em que eu estudava.

Fiz a prova e consegui começar o curso no J2 (juvenil 2). Um semestre depois eu tinha a medalha de ouro da melhor redação e nenhuma nota abaixo de 10. Prestei de novo a bendita prova e pulei duas séries de uma vez. A sensação que eu tinha naquela época era a de que não importava a série ou o colégio no qual me colocassem que eu sempre teria o melhor desempenho.

Meu desempenho acadêmico, entretanto, contrastava com meu coração. O ano de 1985 e o primeiro semestre de 1986 compuseram a pior fase, os piores anos de minha vida. Sofria muito de angústia, medo e de bizarras e vexatórias obsessões. Eu não sabia na época, mas tudo isso era reflexo das péssimas interações sociais e familiares que eu estava vivendo. 

Uma dessas interações possuía uma coloração triste e especial: era meu contato com os “burguesinhos” dessa escola tradicional de inglês. Era contrastante. Eles se vestiam com roupas de grife e eu vivia nos trapos, vestindo muitas roupas que eram de meu irmão mais velho ou compradas na Pelicano, uma loja de povão mesmo, ou de peão, como gostam hoje de falar.

Começava nas roupas, se estendia para os papos, para o modo de se expressar e infelizmente tudo isso culminava em um desconfortável estranhamento mútuo, o qual facilmente se transformava no que hoje chamam de bullying. Era uma terrível e humilhante sensação de isolamento, de solidão, a qual eu não vivenciava em minha escola, pública e da periferia. Periferia na época, pois hoje a cidade cresceu muito e deixou de ser assim. Eu pouco sabia como vivia alguém acima da minha classe social. Sabia muito mais de quem vivia com menos do que minha família. Minha avó materna era muito pobre, minha mãe foi muitíssimo pobre. Foi doméstica até pouco tempo antes de se casar, fora o fato de ter trabalhado desde os 9 anos de idade por anos a fio somente em troca de comida. E quando se casou, se casou com o pé rapado do meu pai, o qual tinha somente uma Lambreta, quiça usada e bem velha. Aliás já ouvi até a história de que um de nós, um de seus três filhos, teria vindo de Lambreta da maternidade.

Enfim, o sofrimento no contato com quem tinha mais grana foi muito grande pra mim até pouquíssimo tempo atrás. Para se ter uma ideia, lembro que até o ano de 2000 eu ainda sofria um certo pavor no contato com pessoas de classe média alta. Na companhia dessas pessoas o que existia era somente bloqueio, travação total. E isso perdurava até, por exemplo, tomarmos um bom porre juntos. E para quebrar a barreira eu fazia questão de aproveitar todas as bebedeiras (e qualquer coisa similar; entendam como quiserem rs) possíveis com essas pessoas.

Na graduação claro que tive boas e prazerosas vacinas. Na USP, na Filô, a qual era a minha faculdade, conheci pessoas maravilhosas, pobres ou com grana. Mas essa vacina ainda não tinha sido a definitiva, pois o pessoal com grana da Filô se disfarçava muito bem de pobre ou era a completa exceção do que existia em termos de gente rica ou de classe média alta.

Chegando à UnB, já no mestrado: outro baque. Brasília pra mim parecia a terra dos hippies de boutique. Eu achava estranhíssimo o cara com aquele visual meio hippie pegar a pick-up 4X4 colossal dele e ir pra casa depois da aula. Sentia tudo somente como um cenário de fachada horrível e voltei a ter verdadeiro pavor dos “burguesinhos”, principalmente no curso de Psicologia.

Lembro até de uma garota, da Psicologia, que namorou comigo somente uns dois dias, pois não aguentou a pressão de ter conhecido a minha casa, o fato por exemplo de eu dividir uma beliche com um estranho num quarto que tinha o tamanho de um banheiro, pois era um banheiro na planta original dos apartamentos JK miudinhos das quadras 400 na Asa Sul. Ela não aguentou a pressão de saber que todos os meus pertences cabiam numa estante de aço de livros, incluindo livros e roupas, absolutamente tudo. Ah, sim, havia também minha Caloi 10 ano 76!

Detalhe: eu vestia muitas camisetas promocionais. Sim, camisas com desenhos de produtos, de empresas. Camisas que você ganha de brinde, além de um belo par de Havaianas sempre que possível. Porque na USP eu nunca tive problemas com isso, e tinha muita moral com a mulherada.

Enfim (meu segundo enfim; mas agora é pra valer), esse contraste é foda pra baralho, meus amigos. Não julguem a moça se vocês nunca vivenciaram nada parecido com isso. E se vivenciaram não se esqueçam, por favor, da dor que sentiram. Porque, na boa, falta de empatia e amnésia é um pouco de degeneração de caráter de novos ricos idiotas.

Friday, December 19, 2014

Sobre os bebês, com otimismo...

Bebês são anjos que irradiam magia, graça e fragilidade em um mundo povoado de horror e injustiças. Bebês e filhotes são a realidade absurda da beleza de um universo inteiro que pede o nosso amor o tempo todo em interação que tende ao infinito, seja na sedução de suas brincadeiras e sorrisos ou na compaixão que nos inunda diante de seu sofrimento. São o coração pulsante da vida de uma família, que nos arrebata e nos impele a viver, do modo que for, para que elas continuem vivendo e alimentando as fontes de um sentido absoluto incrustado no centro de tudo: o amor.

Thursday, December 18, 2014

"Vidas exemplares"

A vida exemplar voou pela janela da dor surda de quem se perdeu nos labirintos de uma vida sem sentido nem trégua. Não serve de lição a vitória solitária do mais forte, em seu castelo de conquistas e medalhas, a não ser que possa ouvir e acolher a história singular e profunda de cada ser humano que sofre e se desespera, para depois quem sabe poder apontar para o horizonte de alguma redenção ou cura. Senão sempre iremos reiterar a ladainha míope do não-muda-porque-não-quer.

Sunday, August 10, 2014

Para curar Schopenhauer...

Quando o sofrimento chega, a vida dá uma freada brusca e tudo começa a andar devagar. Tudo se demora e pesa e aí você é, integralmente e sem fuga, toda a dor que vivencia. Quando essa parte mais extrema do sofrimento passa, começa uma outra, menos aguda: a fase do eco do sofrimento passado. 

E é nessa hora que o cobertor do amor dos outros por nós exerce uma função decisiva. Se esse cobertor for efetivo, real e acolhedor, sentiremos que, apesar de toda a dor e injustiça do mundo, a vida vale a pena. E isso não é migalha de prazer mergulhada na sopa de sofrimento da existência a nos iludir. É na verdade a base, muitas vezes sutil, de uma vida feliz. 

Saturday, July 05, 2014

Meu testamento vital

Eu, Adriano Machado Facioli, por meio deste documento, declaro que se ocorrer em minha vida a situação em que eu não possa expressar a minha vontade a respeito de tratamentos médicos a que serei submetido, desejo que esta declaração seja considerada como uma expressão formal da minha vontade, a qual foi tomada de forma consciente, responsável e livre, e que seja respeitada na qualidade de um testamento.
Portanto, eu, Adriano Machado Facioli, abaixo assinado, se um dia me encontrar com alguma doença ou condição terminal (irrecuperável), e sem capacidade de comunicação, peço que eu não seja submetido a tratamentos desproporcionais ou curativos.
Peço que a obstinação terapêutica (de cura) seja interrompida e que me sejam administrados cuidados paliativos: que a principal preocupação da equipe de saúde envolvida seja o alívio de meus sofrimentos e dores (com a prescrição de analgésicos e anestésicos com a finalidade da produção de meu conforto); que não ocorra entubação ou reanimação; que a vida nestas condições e os sofrimentos decorrentes não sejam prolongados.
Peço pela abreviação de meu sofrimento, seja ela por meio de eutanásia ou ortotanásia, caso haja recursos legais para tanto; sem a retirada de hidratação ou de alimentação; porém com a administração constante de paliativos para meu conforto e eliminação do sofrimento.
A redação e registro deste testamento ocorreram depois de longas e amadurecidas reflexões. Peço a familiares e a equipe de saúde envolvida que respeitem a minha vontade e o direito que tenho sobre meu corpo e minha vida em uma circunstancia tão extrema e dolorosa; que seja respeitado o meu desejo de uma morte rápida e indolor. Assim como faço questão de eximir a todos os envolvidos (familiares e equipe de saúde) de qualquer responsabilidade sobre a minha morte nessas circunstâncias.

Tuesday, June 24, 2014

Apelidos e futebol

O futebol no Brasil talvez seja uma fábrica de apelidos. Na copa, na maioria dos times, vemos nome e sobrenome em seus uniformes. Com o time brasileiro a coisa é diferente e vou citar somente alguns “nomes”, mais famosos: Dodô, Dadá Maravilha, Fio Maravilha, Biro-Biro, Vampeta, Zico, Zito, Dida, Tita, Pelé, Dondinho, Cafu, Tinga, Ataliba, Bebeto, 1958: Didi, Oreco, Zózimo, Vavá, Pepe, 1950: Nena, Maneca, 1978: Nelinho, Chicão.

Eu mesmo dei um apelido pra um colega, o qual ficou muito famoso com ele, após uma partida de futebol. O cara era novo no bairro e chegou com a maior panca. Pensamos: “é bom de bola”. E, para nossa nauseante surpresa, ele era muito peba, muito pé na forma. Não fazia diferença a presença dele em campo. Eu tinha 11 anos e havia acabado de aprender o conceito de elemento neutro em matemática. Não hesitei e tasquei: você é neutro. Ele não entendeu nada, mas o apelido pegou até para seu irmão mais novo, também ruim de bola, o Neutrinho. Duplinha dos infernos aquela: Neutro e Neutrinho.

Sunday, June 22, 2014

O amor e a eternidade

Certo vez, no meio da madrugada...
Minha filha acordou agora há pouco. Dormiu das 20:30 até às 23 hs. Começou mal: somente 2:30 hs na primeira etapa. Mas como Lilian já dormia. Fui pajear a bebê. Nossa, foi lindo. Ela ficou me olhando fixa e tranquilamente no silêncio e na penumbra da noite por vários minutos. De vez em quando sorria, do nada, da simples contemplação silenciosa e serena de nosso amor. O tempo parou e navegamos por todo o cosmos daquele instante, da viagem do amor a se reproduzir em sonhos e voos para além de nós mesmos. Dizem que isso é a eternidade...

Monday, June 16, 2014

“Sua ignorância flerta com a podridão...”

Quando eu morava em repúblicas estudantis, convivi com um sujeito que simplesmente não tinha a noção de que os alimentos deveriam ser consumidos em tempo hábil para não estragarem. Ele perdia muitos alimentos em função disso.
Um dia não me contive, tentei mostrar a ele o que estava acontecendo e asseverei:

“Sua ignorância flerta com a podridão...”
Ele nunca mais deixou os alimentos se estragarem.