Sunday, May 26, 2024

Ninguém merece sofrer

Muito tem se falado sobre merecimento. Eu também, por vezes, digo que alguém merece isso ou aquilo. Dou os parabéns, e digo “você merece”, para o campeão que percebo como tendo se esforçado e treinado muito ou para aquele que consegue fazer o que outros não foram capazes, por exemplo.

Mas aí, para esta segunda condição, muitas vezes me pergunto: se o sujeito já teve a sorte de nascer mais capaz ou mais inteligente, por que teria de ter também mais dinheiro? 

Mas não costumo dizer que alguém merece sofrer. Porque não concebo o sofrimento como útil, mas somente como evitável ou inevitável. Assim como concebo o sofrimento como sendo o próprio mal. Então penso que ninguém merece sofrer, e que todos merecemos mudar para melhor, para sermos pessoas melhores, para nós mesmos e para os outros, ajudando assim a diminuir o sofrimento no mundo.

Sinto que ninguém merece ser tratado como rei, rainha ou deus. Ninguém merece ser deusificado. Porque ninguém é perfeito. Merecemos ser amados e lembrados. Mas não merecemos mais do que diz respeito ao que é humano. 

E também não vejo sentido em alguém merecer luxos que custam o sangue e a vida de gente pobre e miserável. E, no mundo em que vivemos, ainda é geralmente, ou mesmo inevitavelmente, esse o custo de uma vida luxuosa.

Saturday, May 18, 2024

Andarilhos

Percebo muitas vezes os andarilhos como um mistério, que fascina pelas proezas de sobrevivência e de um nomadismo solitário, corajoso e forte. Tenho interagido com alguns pacientes que saíram andando pelo mundo. Um deles caminhou quase 100 km em um único dia, durante praticamente 20 horas seguidas. Saiu de casa às 6 horas da manhã e só parou à 1 da madrugada.

Narrava feliz sua proeza, aos 53 anos de idade, que se iniciou sem avisar nem se despedir de ninguém. Simplesmente saiu e sabendo onde queria chegar. Partiu de Abadiânia, rumo à Brasília. Tinha dinheiro para comer alguns pães de queijo. Mas nem precisou gastar esse dinheiro. Quem o viu pelas estradas se compadeceu e lhe deu de comer. 

Outro, a partir dos 68 anos começou a fazer a mesma coisa, ficando da última vez, já com quase 70 anos de idade, desaparecido durante mais de 2 meses. Há a suspeita de que esteja padecendo de um processo degenerativo. Não reconhece nem mesmo seus próprios filhos. Pouco fala. E só quer saber de sair andando, aparentemente rumo a uma cidade do Nordeste, onde nasceu. Em suas andanças não pede nada para ninguém. Somente se senta em algum canto onde possam vê-lo e ajudá-lo. E assim, pelo caminho, acaba sendo alimentado e recebendo ajuda. É esse o depoimento das últimas pessoas com quem interagiu pelas ruas e estradas do Brasil.

Quem observa, logo pensa que essas pessoas têm uma estrutura corporal forte. Mas também me pergunto sobre o passado evolutivo de nossa espécie, nômade, que caminhava em média 20 km por dia, e no quanto esse comportamento errante, em eterno movimento de caminhar, talvez tenha alguma relação com algum tipo de fortalecimento corporal.

Wednesday, May 08, 2024

Nove dias para o sarau

João (nome fictício) aceitou por fim cantar no sarau do CAPS sem cachê. Mas tem outras exigências.

- Adriano, precisa ter mídia. Convoque a imprensa. Tem que ter Globo, tem que ter divulgação. Meu objetivo é a carreira internacional.

- Ok. Farei o que puder. Mas vamos ensaiar um pouco?

E assim ele entoa sua primeira canção, Suspicious Minds, de Elvis Presley:

“We're caught in a trap
I can't walk out
Because I love you too much, baby..."

- Mas não, para, para... Assim não dá. Fomos pegos numa armadilha (We're caught in a trap)? Não, isso não soa bem. É ruim. Não gosto disso. Vou trocar para I still love you baby...

- Tudo bem, João... 

Aí passamos para Tears in Heaven, de Eric Clapton.

“(...) I must be strong
And carry on
Cause I know I don't belong
Here in heaven..."

- Não, assim não dá!

- O que foi, João?

- Esse Eric Clapton é um bosta mesmo. Como é que ele me fala uma coisa dessas, de não pertencer ao paraíso? Quer ir pro inferno? Que sujeito sem noção... Vou trocar por “Cause I know I will belong here in heaven...”

E assim prossegue João, alterando todas as letras. Faltam 9 dias para o sarau. Até lá boa parte das canções serão modificadas.

Monday, May 06, 2024

Insônia

Pelo pesadelo da ferida aberta de uma noite mal dormida, sou jogado ao relento sonolento do eterno e massacrante dia seguinte dessa vida.

Os juristas e o conceito de livre-arbítrio

Existe livre-arbítrio? Do modo como talvez a maioria das pessoas compreende essa questão, realmente não existe isso. É um conceito que é geralmente adotado no senso comum com tons de autoajuda, ou de um elogio cego de uma liberdade absoluta, que simplesmente não se sustenta na realidade. Porque trata a vida humana como totalmente capaz de liberdade, como se cada ser humano fosse uma constante escolha de si mesmo. 

Pensar dessa maneira é acreditar que temos a capacidade de produzir escolhas totalmente acima das circunstâncias. E as circunstâncias não são simplesmente o que nos determinam. Nós somos o somatório ou a interação orgânica, multiplicativa e complexa, de nossas circunstâncias. Nossas circunstâncias definem o que somos. Nós somos isso. A crença de que se pode pairar acima das circunstâncias é no mínimo algo da ordem de uma ingenuidade narcisista. É ilusão, é narcose.

E eu também percebo uma preocupação muito grande, na área do Direito, em relação à necessidade de que exista o conceito de liberdade ou de livre-arbítrio, calcado inclusive na capacidade de se escolher constantemente o que somos. Juristas, de modo geral, são sequestrados pela necessidade da existência do livre-arbítrio, porque se não houver esse tipo de conceito como é que poderíamos atribuir responsabilidade ou mérito a quem quer que seja? 

Contudo não tem nada a ver uma coisa com a outra. Podemos muito bem abrir mão desse tipo de conceito metafísico e continuar compreendendo muito bem as devidas responsabilidades relacionadas ao que as pessoas fazem. Compreender que todos somos determinados pelas circunstâncias ou que cada um tem seus motivos ajuda a entender, mas não transforma delitos e crimes em algo razoável ou justo Porque entender explica, mas não justifica. Quando explicamos estamos encontrando as causas, os motivos, mas não estamos tornando algo justo ou razoável.

A ordem da justiça e das justificações é completamente diferente da ordem das explicações. Não se misturam. Alguém que tenha sido abusado e depois passa também a cometer abusos não transforma assim seus crimes em algo justificável. Crimes não se justificam. Podem até ter alguns atenuantes, mas continuam sendo crimes, independentemente dos motivos de cada um.

Como hoje mesmo pude ler, e recomendo, em um texto de Carlos Orsi, sobre um dos principais livros de Daniel Dennett, ele cita uma frase muito emblemática a respeito dessa discussão, atribuída a John Austin: 

“Entendimento pode apenas acrescentar desprezo ao ódio”.

Friday, May 03, 2024

Rotina, no CAPS

Chego logo cedo e encontro com João, paciente que frequenta o CAPS há uns 7 anos. Ele canta bem. É afinado. Está vindo ao CAPS praticamente todos os dias nos últimos 10 ou 12 meses. É corredor de longa distância. Gosta de correr. Geralmente vem correndo de sua casa, que se situa a uns 5 km do CAPS ou mais. Não tem mochila. Vem correndo com um saco plástico numa mão, com seus pertences, e uma bíblia na outra.

- João, teremos sarau em 16/05. Você não quer cantar, não?

- De graça não dá, Adriano. Força as cordas vocais. Você sabe como é…

Horas depois cruzo com Dona Júlia, uma paciente muito divertida, com mais de 65 anos de idade, também assídua ao CAPS há uns 10 anos. Ela caminha com dificuldade e quase nunca perde seu bom humor e ironia refinada.

Sei os nomes e as datas de nascimentos de dezenas de pacientes. De modo geral qualquer pessoa, seja colega ou paciente, fica impressionada com isso. E saber o nome e a data pode agilizar bastante uma série de processos, porque não preciso ir até o paciente e lhe perguntar. Basta, a qualquer momento, lançar esses dois dados no sistema que instantaneamente tenho as informações de que preciso. 

- Júlia, agora consegui gravar sua data de nascimento: é 27/05/1958!

- Até que enfim, seu burro! Haja paciência! Não memoriza nunca! - com ironia precisa, certeira e dirigida a alguém que compreende o gracejo.

E assim juntos soltamos uma deliciosa gargalhada, geralmente acompanhada pelos demais presentes.

Wednesday, April 03, 2024

Do amor forjado na dor

Para onde foram nossos recantos mais íntimos quando a eternidade se engasgava com nosso amor?

Percorri as vias e as vilas de nossa paz e sofrimento e lá pude contemplar o abismo que a todos espreita e espera.

Eis nosso projeto de dor e resistência, a batalha de insistir em continuar a viver. É carregar a bandeira esfarrapada da vida para fazer brilhar os olhos de quem ainda engatinha por entre seus rincões mais belos e traiçoeiros.

Me servi da ternura de seu olhar e de suas mãos cansadas, para rastejar pelos campos dos dias que nos restam, das chuvas que se prometem no final do deserto e da dor.

Friday, December 08, 2023

Quando ser psicótico é mais adaptativo do que ser neurótico

Em minha experiência clínica observei alguns pacientes migrando de posições neuróticas para psicóticas. Um desses casos é curioso porque começou com uma alteração na pronúncia das palavras. O paciente acrescentava a letra r a todas as sílabas que podia. 

- Brom dria Aradrianoro cromro vrai? Vrocerê estara brem?

Esse paciente não tinha um quadro característicamente psicótico e tinhas muitos conflitos pessoais, dentro e fora do CAPS, inclusive com membros da própria equipe. Era um caso de difícil manejo, com grande vulnerabilidade socioeconômica, muita irritabilidade e agressividade verbal, e às vezes até física.

Esse novo modo de se comunicar, com uma pronúncia diferente, fez com que esse paciente ficasse um pouco mais afável. As pessoas passaram a reagir a ele de um modo diferente. Passou a haver mais interações, nas quais as pessoas tentavam falar com a mesma pronúncia que ele utilizava. As pessoas passaram a sentir que essa interação era mais prazerosa e até divertida, e esse paciente passou assim a ser mais intensamente gratificado pelo modo como estava se comportando.

Esse caso ainda está em observação e eu penso que irá se estabilizar nesse padrão de comportamento psicótico, completamente diferente do que houve durante toda a vida desse paciente, que tem mais de 40 anos de idade.

Assim como existe seleção natural de espécies, também existe uma seleção dos comportamentos que apresentamos em nossas interações e durante nossa história de vida. O ambiente sempre seleciona aquilo que é mais adaptativo. Esse paciente tem agora um comportamento muito mais adaptativo do que tinha antes. Sua vida agora, em plena psicose, está muito mais repleta de interações prazerosas do que antes, quando era somente mais uma pessoa neurótica dentre tantas outras.

Wednesday, December 06, 2023

"Está tudo interligado"?

Alguns místicos costumam dizer que “tudo está interligado”, como se isso fosse uma revelação. Mas não passa de truísmo, de uma verdade banal. E, a partir desse truísmo, dão um salto (que mais adiante muitos vão até apelar, chamando-o de “salto quântico”), para fazer associações espúrias. Como tudo está interligado se permitem o salto, que transforma contiguidade em contingência, para praticamente qualquer coisa que lhes desperte algum fascínio. E assim brotam as superstições: tudo está interligado, tudo tem relação com tudo, logo tudo faz sentido! Alcançando-se então o ponto culminante em que se sabe tudo, mas não se resolve nada. E nesse ponto algumas pessoas literalmente entram numa espécie de transe anestésico, como se fluíssem em consonância com os movimentos e as oscilações do universo. Eis seu sentimento oceânico, sua iluminação! Nesse ponto, nessa culminância e nesse estado de plena ignorância, muitas aparentemente morrem em paz.

A regra é não existir

A regra é a extinção. Há mais espécies extintas do que não-extintas. A não-existência é a regra. Cada pessoa nascida é aquele único espermatozoide, dentre bilhões de outros (mortos), que um dia alcançou um óvulo. É exceção. Outros bilhões pereceram. A regra é não existir. Viver é esse constante desafio a essa regra fundamental. Viver pode ser luminoso, mas raramente é fácil.


Thursday, November 09, 2023

A vida não é curta

Sempre que alguém diz que a vida é curta, sinto um cheiro de egocentrismo no ar. O ser humano, em comparação com a maioria dos animais, vive muito. Não vive pouco não.

E quem diz que é curta, assim se expressa por lamentar a finitude. A vida humana não é curta. Somente é finita. 

E essa lamentação parece também se associar com o amor que se tem pela própria vida. Ou seja: para quem está vivendo bem, se sentindo bem em estar vivo, a vida pode realmente ser percebida como curta. É curta para quem está curtindo. 

Por outro lado, para muitas pessoas a vida na verdade é até sentida como longa. Muitos, que sentem a vida como algo extremamente sofrido e insuportável, podem até na verdade a sentirem como muito longa, como algo que deveria acabar o mais breve possível. 

E outra coisa interessante é gente, que acredita em alma eterna (que na verdade é uma crença na vida eterna, convenhamos), se queixando de que a vida é curta, quase numa tentativa desesperada de blindagem dupla contra a angústia inerente à constatação da finitude. Eis a contradição: se a alma é eterna, qual é o sentido de se lamentar que esta vida é curta? 

Em si a vida não é nem longa nem curta. É somente finita. O que produz juízos de valor são comparações ou o desejo de continuar vivendo.

Wednesday, October 11, 2023

Existe "gozo no sofrimento"?

Isso é "gozo no sofrimento", alguém me disse, há poucos dias, para justificar o sofrimento pelo qual passavam algumas pessoas. 

Se for somente sofrimento, ninguém goza com isso. Isso, que essa pessoa genericamente chamou de “gozo no sofrimento”, só parece algo possível ou perto de possível se:

1.Houver pareamento com alguma estimulação prazerosa. Um exemplo: sexo prazeroso com agressividade.

2. Expressão do sofrimento que atrai atenção, carinho ou quaisquer outros benefícios secundários ao sofrimento em si. 

E nada disso é gozo no sofrimento. São outras coisas, bem mais específicas e que demandam análise, caso a caso. Caso contrário corre-se o risco de se culpar vítimas e justificar atrocidades.

Saturday, September 30, 2023

Podemos curar?

Não faz sentido defender que seu método ou sua abordagem psicoterapêutica não trabalha para promover a cura e sim o autoconhecimento. 

Pode-se até adotar a psicopatologia estrutural como argumento para a não existência de uma estrutura normal. Então, nesse sentido haveria umas três ou quatro estruturas básicas dos modos de ser e fazer humanos: neurose, psicose e perversão, por exemplo. Há quem defenda que existiria uma quarta estrutura, mas não entrarei aqui nesse detalhe.

Desse modo essas estruturas se manifestariam, por extensão, em tudo o que os seres humanos fazem. A cultura, nas suas mais variadas formas de expressão, se manifestaria tanto de modo neurótico, psicótico, quanto perverso. 

Somente para citar alguns exemplos, as religiões teriam uma estrutura predominantemente neurótica obsessiva, enquanto as artes teriam uma estrutura mais neurótica histérica. Sendo que há obviamente manifestações psicóticas nas religiões, assim como nas artes. 

Uma das origens dessa concepção é a metáfora do cristal, de Freud. Assim como os cristais, todos teríamos estruturas pré-formadas, que somente aparecem ou se mostram quando o cristal se quebra. Assim nossas estruturas psíquicas somente se manifestariam mais claramente após períodos de intenso estresse, pressão, crise. 

Portanto, nesta concepção não existem estruturas doentes e a patologia só se configura com a cisão, a quebra, o rompimento, o comprometimento da integração da psiquê. Pessoas adoecidas estariam na verdade em um momento de crise, quebra, cisão, desmedida. Psicose, neurose e perversão não são patologias. São predisposições do espírito, modos de ser. E isso justifica alegar que existem neuróticos, psicóticos e perversos saudáveis. Porque não existe estrutura doente. Logo, por este prisma específico, não há o que ser curado.

A alegação, porém, de que não se trabalha em função da cura, ou de qualquer tipo de melhoria, se limita somente a este aspecto estrutural. Porque não há como curar as pessoas daquilo que elas são.

Contudo, curar não é somente remover doenças. Não é tão simples assim. Curar, em sentido mais pleno, ideal, parte de princípios etiológicos, que demandam pela compreensão dos fatores causais envolvidos no adoecimento. Desse modo, a cura é a remoção ou a resolução dos fatores causais envolvidos no processo da doença. Uma gripe se cura quando a carga viral causadora da gripe é eliminada e não quando tomamos um paracetamol e nos sentimos temporariamente melhor. Porque não basta se sentir temporariamente melhor (remediar), é importante curar e voltar a viver de modo saudável.

Por outro lado, sabemos que para muitas enfermidades não existe cura completa, mas a melhoria de uma série de aspectos na vida da pessoa. E essas melhorias, se forem sustentáveis, também podem ser vistas como um tipo de cura, mesmo que parcial. Um queijo curado é um queijo melhorado. O termo curar também tem esse sentido, o de melhorar.

A alegação de que não se trabalha em função da cura, de qualquer tipo de cura, e somente em função do autoconhecimento, é frágil. Expõe nossa própria fragilidade de formação técnica, profissional, para ajudar as pessoas a terem uma vida mais saudável. Serve como desculpa para nossa incapacidade para ajudar quem procura por nossos serviços. É somente isso: racionalização do fracasso.

Friday, September 22, 2023

Fé? Não, desapego.

Obviamente que não puno, mas também não gratifico expressão de imaturidade. Tento puxar a conversa para outros pontos, mais sólidos, realistas ou práticos. Sei que nem sempre é possível trabalhar diretamente ou rapidamente com a realidade. Mas não deixo de fazer aproximações sucessivas à realidade, por mais dura que seja. Porque uma hora a pessoa terá de saber como as coisas são, sem distorções e sem mentiras. Porque isso faz parte do processo de amadurecimento. Porque é necessário crescer, se fortalecer e amadurecer.

A imensa maioria de meus pacientes é cristã. Em circunstâncias extremas, quando possível, gratifico expressões como “Seja o que Deus quiser; seja feita a vontade de Deus”; mas não gratifico “Para Deus nada é impossível”. 

Na vida há mais probabilidades do que certezas. Viver é geralmente navegar por oceanos de incertezas, e tentar compreender o que é mais ou menos provável. Não trabalho com o que é possível mas improvável. Se é muito improvável, saio fora, desisto e parto pra outra. Procuro não me focar no que não depende de mim. Valorizo muito mais o desapego do que a fé. Penso que é muito mais maduro e sólido, sereno, do que a fé. 

Há também desapego no cristianismo. Expressões como “Seja o que Deus quiser; seja feita a vontade de Deus” deixam isso claro. Reforço o uso e a meditação sobre essas expressões de desapego em meus pacientes. Não para que se acomodem, mas para que compreendam que há coisas mais prováveis e outras menos ou bem pouco prováveis. As primeiras merecem nossa atenção e esforço. As últimas não.

Wednesday, September 20, 2023

Diálogo e TDAH

Já atendi pessoas, estudantes, que diziam ter diagnóstico de TDAH, mas não comprovavam isso ou o processo de diagnóstico havia sido realizado de modo muito rápido ou mal feito. 

Um deles não deixou de mexer em seu celular enquanto falava comigo. 

- É urgente? – perguntei.

- Não.

Mesmo assim, mesmo depois de me responder que não era urgente, em atitude até um pouco desrespeitosa, não desgrudou do celular. Não costumava fazer anotações durante as aulas. Tinha caderno, mas não o usava para isso.

Se você é estudante, e tem problemas de concentração, precisa ter caderno e durante as aulas saber fazer anotações nele. E é caderno mesmo, de preferência aqueles que são divididos em matérias. Porque, comprovadamente, anotações no celular ou no computador, não tem o mesmo nível de eficácia. Fora o risco de, numa aula ou numa simples conversa, ser constantemente sequestrado para os algoritmos da internet. E, claro, precisa guardar o celular enquanto conversa com as pessoas. 

Outro me disse que tinha o diagnóstico de TDAH, que tinha dificuldades para se concentrar, para manter o foco, que se distraia com facilidade. Porém, enquanto conversava com ele, e sempre que eu tinha algo a dizer, eu falava e logo em seguida lhe perguntava sobre o conteúdo do que eu havia dito, se ela havia compreendido, pedindo-lhe para que dissesse a mim o que havia entendido.

Nossa conversa, frente a frente, olho no olho, nosso diálogo, foi avançando. E uma coisa para mim estava clara: em um diálogo, em que ambas as pessoas se alternam de modo equilibrado na fala, e que o tempo de cada um falando ininterruptamente não se estende muito, é bastante difícil que alguém se distraia ou perca o foco.

Eis a importância do diálogo, dessa interação cooperativa e naturalmente motivante entre seres humanos, na qual uma pessoa constantemente estimula a outra, fazendo com que se mantenham conectadas, sintonizadas, sincronizadas, para juntas construírem alguma coisa para si ou para o mundo.

O rapaz do celular não queria, naquele dia, naquele contexto, se conectar, e não houve tempo para que eu investigasse melhor por que se comportava assim. Tinha seus motivos. Todos temos nossos motivos

Porém, para mim, por vezes, uma coisa é certa: tentar se esconder debaixo de algum diagnóstico de transtorno mental costuma não ajudar, e pode até piorar alguns problemas, seja lá quais forem.

Saturday, September 16, 2023

Os transtornos mentais e sua complexidade

Está circulando um meme daqueles que tenta comparar doenças (que as pessoas classificam como físicas) com depressão ou os mais diversos transtornos psicológicos. É novamente a tentativa de se mostrar que a depressão é muito mais séria do que as pessoas imaginam, e que deveria ter as mesmas considerações e cuidados que as "doenças físicas" têm.

Neste meme há um quadrinho onde está escrito "Infecção", e ali existe uma série de ilustrações que denotam cuidados por parte das outras pessoas, desejando melhoras, mandando presentes, flores, etc.

No outro quadrinho está escrito "Depressão" e há somente a palavra "Silêncio". 

O problema é que esse quadro dificilmente será completamente alterado. Dificilmente ocorrerá equivalência das duas coisas. Enquanto não houver tecnologias que possam demonstrar materialmente, laboratorialmente, a existência de uma depressão, esse quadro tenderá a permanecer inalterado.

Fora o fato de que o fenômeno da depressão é muito mais complexo do que o de uma infecção. A depressão também sofre influência das interações com outras pessoas, podendo melhorar ou se agravar em função disso.

O comportamento depressivo pode ser punido e assim se agravar. O deprimido que está constantemente reclamando pode, sem perceber, afastar ainda mais as pessoas, e assim piorar seus sentimentos de solidão e baixa autoestima.

Ouvir atentamente uma pessoa deprimida, que está bastante queixosa, pode fazer com que ela se sinta acolhida em alguns contextos. E em outros pode fazer com que esses comportamentos depressivos aumentem em frequência. 

Algumas pessoas podem fazer o uso do diagnóstico ou do rótulo de depressão para se esquivar de obrigações, responsabilidades ou se proteger de juízos condenatórios. Outras pessoas, em outros contextos, talvez precisem desse rótulo ou diagnóstico para parar, descansar e cuidar um pouco

mais de sua saúde que, diante de tantas ameaças ou atribulações, está realmente prejudicada ou em risco.

Muitos talvez precisem urgentemente dessa equivalência com uma infecção, para que possam ser devidamente cuidados e amados. Outros podem, em função dessa equivalência, se enfraquecer e adoecer ainda mais.

E uma coisa é fato: todos precisamos de reconhecimento, companheirismo, respeito e carinho, e não somente quando estamos doentes. Porque isso nos fortalece como um todo, ajudando a prevenir os mais diversos problemas de saúde, inclusive a depressão.

Não existe sofrimento útil

 Quando alguém chega até mim, dizendo "O que não mata, fortalece", e ainda por cima tentando dar uma de erudito, de que essa teria sido uma alegação de Nietzsche, eu olho para a pessoa e respondo, com tranquilidade:

- Ah, sim, entendi: o que não mata, engorda...

E, claro, não deixo de fazer as minhas considerações, de que há também aquilo que não mata, mas deixa sequelas, irreversíveis.

Quem acredita que a sobrevivência é sempre fortalecedora, não compreende (ou se nega a compreender) o que é uma sobrevivência sequelada e moribunda. 

E há também aqueles que dão continuidade a tais ideias, com a concepção de que todo sofrimento é útil ou fortalecedor. E realmente também não se trata disso. Porque não se trata de ser útil ou inútil. Esse tipo de qualificação não cabe ao sofrimento, que é somente evitável ou inevitável. Sendo que muitos sofrimentos, que outrora eram concebidos como inevitáveis, hoje, após alguns avanços técnicos e tecnológicos, não são mais.

Sentir dor durante a extração de um dente talvez fosse algo inevitável há alguns séculos, mas hoje definitivamente não é inevitável e nem desejável. Para quem me diz que todo sofrimento fortalece, prontamente recomendo que vá ao dentista e faça todos os procedimentos sem anestesia. Porque, em tese então, sairá dali do jeitinho que prega: fortalecido. Se o sofrimento fortalece, não use anestesia. É bem simples.

Esses, que fazem elogio do sofrimento, parecem não ter a menor ideia de que atualmente existem as mais variadas técnicas para produzir fortalecimento com muito menos sofrimento ou sequer sofrimento algum. Negar isso é desconhecer completamente a função das artes, dos jogos, de uma série de atividades lúdicas em grupo e de uma variedade de criações humanas que produzem fortalecimento com envolvimento e diversão. 

E quando não há diversão, há pelo menos respeito pelos limiares de cada pessoa, sabendo-se que é possível se fortalecer por meio de aproximações sucessivas e não simplesmente com cassetadas ou coerções.

E o sofrimento é de fato realmente útil para quem se empodera com o sofrimento alheio. Porque tiranos, psicopatas e os mais variados tipos de pessoas e ideologias abusivas têm que ter algum meio para justificar suas atrocidades.

Sunday, September 10, 2023

Será que estamos enlouquecendo?

Lido com gente doida desde que nasci. Meus pais nunca foram muito bem em termos de equilíbrio emocional.

Minha mãe sempre foi mestre na arte de falar até que alguém perto dela enlouqueça. E meu pai era quase uma unanimidade quando o assunto era loucura ou desequilíbrio emocional.

Lembre-me dele quebrando a casa inteira, por várias vezes, desde bem pequeno. Uma das cenas mais clássicas em minha memória, dele perdendo a cabeça, é a imagem que vi por várias vezes, de quando ele pegava um prato de comida, cheio, e o jogava no chão, espatifando-se, com pedaços de louça e arroz com feijão para todos os lados. Essa é uma imagem clássica em minhas memórias infantis.

Ele inclusive teve seu último dia como morador em casa, conosco, com os filhos e com a esposa, totalmente permeado por essa agressividade. Ele havia, no período da tarde, se desentendido com minha mãe, por telefone. Ela em casa e ele no trabalho. 

Chegou muito agressivo. Para guardar os dois carros na garagem, acelerou e freou demais, várias vezes. Parecia que ia explodir o carro na parede da sala. Entrou muito nervoso, gritando com ela e já começou a quebrar uma série de coisas em casa. E ela teve a ideia (até hoje não sei se boa ou bizarra) de colocar água para ferver. Ficou perto da panela e assim que ele se aproximou, com medo ela pegou a panela com água quente e jogou em seu rosto.

Do quarto somente percebi que alguma coisa pior já estava acontecendo, pois ele urrava muito mais intensamente. Agora, além da raiva, também tinha muita dor porque a água estava bem quente.

Eu estava no quarto porque ali procurava por meu gravador. Queria gravar o áudio daquilo tudo. Naquela época não havia possibilidade de registro quase algum, e eu queria registrar, queria que depois ele ouvisse tudo aquilo. Mas não deu tempo. Tive que correr para ajudar Edu - meu finado irmão mais velho, falecido em 1998, aos 28 anos de idade, que naquele final de 1989 tinha somente 19 para 20 anos de idade. Eu tinha 17.

Meu pai estava completamente descontrolado. Com o rosto em vermelhidão, urrava e babava de ódio. Edu fazia o que podia para tentar impedir que ele thrucidhasse minha mãe. Edu o segurava com força, mas estava todo arranhado por meu pai. Seus braços sangravam. Pegou um cano de aço e o ameaçou:

- Você fica quieto! Fica na tua! Senão eu vou quebrar esse kano na tua khara! - gritava para meu pai.

Os vizinhos apareceram e logo em seguida a polícia.

- Vem aqui me pegar se você for macho, seu bhostha! Você só tem coragem se tiver com esse revólver na mão né, seu mherda? Pode pegar o revólver! Vem pra cima de mim! Pode vir, pode vir, que eu te arrebentho. Pode mether bhala! Não tô nem aí. Vem pra você ver o que que eu faço com você! - dizia meu pai, para um dos policiais que, parado, somente o observava.

Da grande árvore, que fez parte de toda a nossa infância e parte da adolescência, havia então somente o tronco, na porta de casa. Ali estava parada a minha bicicleta. Ele a levantou no alto e a jogou contra o muro. Subiu no tronco e, mudando completamente o tom de voz, fez uma espécie de discurso político, para toda a vizinhança, para demonstrar a eles como era a vítima daquilo tudo. 

E foi assim o último dia de meu pai, quase 20 anos depois, como morador daquela casa conosco, na qual seus três filhos homens haviam crescido. Por sorte, a violência não escalou para uma tragédia, como no caso de alguns conhecidos meus. Lembro-me muito bem de um amigo, cujo pai havia tido um episódio de descontrole emocional muito parecido com esse de meu pai, mas com um desfecho trágico. Foi preso e, durante a madrugada, dentro da cela, se mathou enfhorcadho.

Talvez tenha sido sorte. Ou talvez nossas ações tenham sido suficientes para impedir uma tragédia maior. Assim como no dia em que meu pai, há exatos 20 anos, nos expulsou de sua chácara.

- Você sai daqui agora, senão eu te dou um thiru na kara! - era isso que ele dizia para meu irmão mais novo, após um episódio de ciúme.

Meu irmão mais novo sempre teve uma relação bastante amistosa com um amigo, mais velho, e que também era como um pai. Nesse dia meu pai ficou obcecado por isso ao ponto de seu ciúme escalar e resultar numa ameaça de violência nesse nível.

É muito triste a lembrança da maior parte dos episódios de loucura ou descontrole emocional, em minha família, estarem atreladas a ele. Mas infelizmente é um fato.

Mas na maior parte do tempo era uma pessoa bastante alegre, engraçada e divertida. Sabia curtir a vida e fazer uma série de coisas que são prazerosas, aventureiras e emocionantes. Não tinha medo de que as pessoas pensassem que era desequilibrado ou louco. Em muitas situações fazia o que tinha vontade e o que era mais divertido. Se vestia com simplicidade e às vezes de modo diferente e exótico. Desenhava e pintava muito bem. Pirografava. Era excelente escultor e calígrafo. Produzia réplicas perfeitas de aviões a partir de caixas velhas de maçã. Era um exímio atirador com armas de fogo, estilingues, zarabatanas, bestas e arco e flecha. 

Tinha uma coleção de bicicletas motorizadas antigas. Havia até mesmo comprado a motoquinha bizarra com a qual um urso fazia apresentações em um circo. Andava com essa motoquinha para todos os lados, sem camisa e descalço, com seu cão no colo.

Tinha um grande senso de liberdade. Fazia simplesmente o que dava vontade e costumava não se intrometer na alegria e na liberdade das pessoas.

Era protético dentário e facilitou demais a vida de inúmeras pessoas, com acesso simples, prático e altamente eficiente a próteses. Consertou minha boca em seis meses, sendo que se eu tivesse sido levado a um dentista talvez ficasse por lá durante anos para obter o mesmo resultado. Se não fosse ele, hoje eu seria teria a boca igual a do Ronaldo, jogador de futebol, quando adolescente.

Era o mecânico particular e gratuito de muitos de seus amigos. Porque, além de protético, era também um bom mecânico de motos, de mão cheia. Além de ter todas as carteirinhas de mecânica de aviões e ser um piloto privado, na raça, estudando à noite, a vida toda.

Muitos de seus e de nossos amigos diziam que ele era uma pessoa fantástica, maravilhosa, muito engraçada e divertida. Porém, que tinha somente um único problema: o álcool. Porque, quando bebia, pedia totalmente o controle e fazia muita besteira.

Talvez realmente o maior problema da vida de meu pai tenha sido o álcool. Sinceramente eu não sei. Só sei que tenho, em minha memória, uma coleção grande de histórias bizarras (muitas impublicáveis) nas quais ele é o protagonista insólito.

Por isso que digo que convivo com gente doida desde muito pequeno, e não era somente ele. Sempre fui um imã para pessoas desadaptadas e com o comportamento francamente diferente e até constrangedor, sendo eu geralmente o mais equilibrado nesse contexto. Depois que me tornei psicólogo, isso até se intensificou. Posteriormente à minha entrada na graduação de Psicologia, na USP, em 1991, eu mesmo passei, muitas vezes, a me comportar de modo mais descontrolado ou bizarro, ao ponto de algumas colegas, do 5° ano, terem me rotulado como "o louco do 4° ano". 

Ontem, depois de minha jornada de trabalho, eu saía do CAPS um pouco exausto e um pouco assustado com o aumento do número de diagnósticos de transtornos mentais, no mundo todo, no Brasil e em minha própria realidade diária, de profissional de saúde mental. Minha sensação era a de um certo esgotamento.

"Está difícil. Para onde eu olho e vou sempre encontro com alguém transtornado, adoecido mentalmente. Zeus do céu, parece que todo mundo está enlouquecendo..." - pensava, angustiado.

E eu não tenho me sentido assim somente em meu ambiente de trabalho, no CAPS. Tenho me sentido assim também no dia a dia, nas mais diversas interações sociais e familiares. Porque, como já disse, sou um imã para gente doida.

Mas não tem problema. Sou calejado. Sinto que criei um couro bem grosso para tudo isso. E eu também erro. Erro demais, e por diversas vezes também me desequilibro. Isso quase nunca ocorre em ambiente profissional. Mas, em meus relacionamentos pessoais, não sou modelo para nada. Tenho a minha individualidade, como qualquer pessoa, com o meus defeitos, qualidades e destemperanças.

E, por sorte, algumas coisas boas do louco do 4° ano ainda continuam vivas em mim.

Wednesday, August 30, 2023

Na pedra do tempo congelado

Há estudos a demonstrar que o consumo de medicamentos psiquiátricos mais do que triplicou nos últimos 15 anos. Isso produz um aumento muito grande na demanda por médicos psiquiatras, cuja quantidade ficou muito longe de aumentar na mesma proporção. Isso resulta num número muito grande de pacientes que chegam ao CAPS já medicados e muitos desesperados por um atendimento médico, cuja previsão é indeterminada. Renovam suas receitas nas unidades básicas de saúde, mas esperam 6 meses ou mais para serem avaliados por um psiquiatra. 

Assim os casos de agressividade e hostilidade contra a equipe inevitavelmente aumentaram, e episódios de agressões físicas se tornam mais fáceis e frequentes, principalmente com pacientes que ainda não desenvolveram um vínculo conosco. 

Eu estava no grupo de boas-vindas, destinado a receber os pacientes que já haviam tido sua primeira entrevista e classificados como casos severos e persistentes. Então seu segundo atendimento no CAPS é em grupo, no chamado grupo de boas-vindas. 

- Eu quero saber quando serei atendida por médico nessa merda! Eu quero marcar atendimento com um médico! - reclamava uma paciente, repetidamente, durante toda a sessão em grupo. 

- Percebo e compreendo tua irritação (…) O CAPS não é uma instituição médica. Temos várias especialidades: enfermagem, psicologia, assistentes sociais, terapeuta ocupacional…

 - Eu preciso de remédio!

 - Sim, e isso não irá faltar. Sua prescrição continuará sendo renovada na UBS. Infelizmente, neste CAPS, a fila de espera para atendimento médico é grande e por tempo indeterminado…

 - Eu não quero saber de nada disso! Eu quero um médico e é meu direito! - gritando, dando socos na mesa, no balcão. 

Pessoas gritando, ameaçando colegas de agressão física, de morte, e o CAPS mobilizado, em tensão, com boa parte dos servidores se desdobrando para acudir, ouvir, acolher, tentar acalmar, tentar fazer vínculo. Isso transformado em rotina.

Em uma situação como essa, no grupo de boas-vindas, uma paciente começou a gritar descontroladamente, como se arrancasse os cabelos e veio, em fúria, para me agredir. Tomei socos, empurrões, e o vigilante entrou na sala para contê-la. Já era a segunda vez que eu era agredido por paciente. Mas dessa vez foi um pouco pior. A paciente foi retirada da sala e seu filho, com idade entre 25 e 30 anos, permaneceu na sala, apontando o dedo para mim, e fazendo um sermão. 

- Você é uma vergonha como profissional! Não devia estar aqui! Também precisa de tratamento psicológico! - em um sermão de alguns minutos, na frente de todas as pessoas presentes. 

Tenso, eu somente ouvia e anotava, sem lhe responder, sem demonstrar qualquer tipo de linguagem não-verbal que pudesse ser interpretada como afronta. 

- Tirem o Adriano da sala. Isso é muito pesado – dizia uma colega. 

Foi bem difícil. Mas eu sempre imagino que poderia ter sido pior. Alguém com mais força física poderia ter me agredido. 

Tentei me concentrar no trabalho e dar continuidade ao que precisava ser feito naquela manhã. É sempre corrido, com muitos afazeres. Não há muito tempo para lamentações. Debatemos. Tentamos compreender melhor o que acontece e como melhor prevenir que se repita. Mas a rotina do serviço tem sua conturbação habitual e sempre devemos seguir porque, sejamos práticos, a fila é extensa e a população precisa de atendimento, acolhimento, acompanhamento. 

Porém não há como negar que isso pode produzir alguns traumas. Percebemos os sinais. Pacientes e familiares estressados, pedindo por algo que não somos capazes de oferecer, não se acalmando com gentileza ou escuta empática, e a verdade também não podendo ser ocultada, pois haverá um momento em que teremos de dizer que algumas coisas não são possíveis. E é nesses momentos que irrompe a fúria. 

Como disse: por vezes vão se produzindo alguns traumas, de modo que nem nos damos conta. 

Noutro dia fui atender a uma intercorrência, que são os casos de pessoas que procuram o CAPS em crise, sem agendamento prévio. Peguei o prontuário na recepção e chamei o paciente pelo nome, na sala de espera. 

- Luiz Carlos da Silva! (nome fictício). 

Adentramos a sala de atendimento individual. 

-  Olá! Meu nome é Adriano. Sou psicólogo do CAPS. Como posso ajudá-lo? 

- Em nada. 

- O que trouxe você aqui, Luiz? 

- Nada. 

- Mas veio até aqui, pedindo por ajuda, não? 

- Não. 

- Então tá tudo bem com você? 

- Sim, tá tudo ótimo. 

Essa tentativa de escuta, de diálogo, sem resultado, se estendeu por mais alguns minutos, e sem sucesso. 

- Você veio sozinho? 

- Não. 

- Veio com quem?

- Vim com uma mulher que acha que é a minha mãe. Mas o espírito santo sabe como que não é nada disso. Ela está junto das maquinações de satanás. Não escuto a quem ousou profanar a mensagem de nosso senhor Jesus Cristo... 

E assim se estendeu em um solilóquio que quase não interagia comigo. 

- Posso chamá-la? 

- Claro. Fique à vontade! Porque Deus é meu pastor e nada me faltará! 

- Ele está em crise – dizia ela. Está impossível conviver com ele em casa. Abre portas de madrugada.  Não quer mais tomar os medicamentos. Deixa torneiras abertas, fogo aceso no fogão. Não quer tomar banho. Puxou faca pra mim. Estou com medo dele por fogo na casa. Tenho outras duas crianças pequenas... 

Seu discurso se aprofundou e ela chorava de desespero. Ele estava com discurso e comportamentos caracteristicamente desorganizados, com seu juízo de realidade comprometido e com riscos auto e heterolesivo consideráveis. Era caso para procurar o médico escalado na intercorrência e lhe comunicar que Luiz era elegível para o acolhimento integral (internação), porque eu, como psicólogo, não posso assinar o ingresso do paciente na enfermaria, não posso liberar o leito. É competência exclusiva do médico. 

Por sorte, naquele dia havia médico na intercorrência, e ele era um dos mais gentis e acessíveis. Havia vaga. Havia leito disponível. Agora eu deveria pedir o consentimento de Luiz, porque CAPS trabalham somente com internações voluntárias. 

Correria, como sempre. Havia mais pacientes esperando para serem atendidos. O horário do fim de meu plantão se aproximava e eu tinha de acelerar o passo, para dar conta de todos e evitar estresses maiores. 

Fui até Luiz e, sem perceber, eu já estava esperando pelo pior. Sentia que seria mais um caso de agressividade, de violência, em direção à minha pessoa. 

Cheguei bem lentamente, do modo mais suave e sereno do qual fui capaz. Ele me avistou a uns 10 metros. Caminhei, vagarosamente, com seu olhar fixo em minha direção. Ele estava sentado numa poltrona. Abaixei-me, para ficar exatamente na mesma altura que ele. Toquei-lhe os ombros calmamente, como se eu pudesse, somente com aquele toque e olhar ternos, lhe acalmar, e lhe comuniquei, do modo mais suave e sereno possível: 

- Luiz. Seria bom que você ficasse um pouco aqui conosco. Uns dois ou três dias. O que você acha? 

Senti como se eu tivesse lançado silenciosamente uma bomba atômica naquela sala e que em alguns instantes explodiria. Eram alguns segundos suspensos no varal da explosão que não acontecia, quando tudo ali se transformou em pedra do tempo congelado. 

Por uma fração de segundos, uma expressão de ódio se apoderou de seu rosto, mas não perdurou. Derreteu-se e também adquiriu tons ternos. 

- Sim. Tudo bem – respondeu-me, calmamente. 

- Muito obrigado, Luiz – respondi-lhe, com os olhos marejados, e quase lhe dando um abraço. 

Ele percebeu que quase chorei. E percebeu também que eu lhe abraçava, com a ternura do olhar e do toque em seu ombro. 

Nesse dia eu tive sorte.

Thursday, August 17, 2023

O mundo invertido

Hoje à tarde, por um breve momento, abriu-se um portal e adentrei o
mundo invertido, da série “Stranger things”.

Peguei minha bicicleta e me dirigi a um comércio, a 200 metros da faculdade, num local um pouco diferente de Samambaia.

Entrei no mercadinho de um bengalês e não encontrei o que queria. Na televisão rolava um debate em bengali. Troquei algumas palavras com o dono sobre sua terra, Bangladesh, e me transportei para o oriente. Era um local e uma situação bem pouco prováveis para a periferia do Distrito Federal.
 
Não tinha o que eu queria. Entrei no mercadinho do lado.

- Há muitos bengaleses em Samambaia, não? – comentei com a dona, no caixa.

- Mas tinha muito mais. Muitos foram embora do Brasil. A maioria foi pros EUA. Porque a situação deles piorou por aqui. 

- Piorou? Por quê?

- Por causa da política. Por causa da vitória do Lula. As vendas diminuíram.

Fiquei estático, sem entender. Mas rapidamente me dei conta de que ela era uma daquelas pessoas que ainda é bolsonarista, logo fanática.

Tudo escureceu e ficou cinza. Seu rosto se deformou e ficou cadavérico, em putrefação. Sua voz era a de um zumbi.

- Quais bengaleses foram para os EUA? – perguntei-lhe, já um pouco aterrorizado.

Ela não sabia responder, porque de seu rosto monstruoso só saiam grunhidos.

- Algum colega teu foi embora do Brasil depois da eleição? – perguntei ao bengalês.

Ele derretia na lama do mundo invertido e assim lembrei-me imediatamente de que no ano passado seu mercadinho tinha um retrato de Bozo presidente-mito total em tamanho real bem na entrada, para espantar qualquer sopro de sensatez e humanidade que pudesse passar por ali. Ele derretia. Somente parte de seus miolos e seus dentes boiavam na lama sob a qual imergira.

E assim parece que brotou em mim uma nova metáfora: a de que sempre entrarei no mundo invertido quando estiver interagindo com pessoas que ainda apoiam Bozo. E no esgoto paralelo de tudo, no sombrio e apocalíptico mundo invertido, todo cuidado é pouco, temos de respirar fundo e cada passo tem de ser calculado. Porque há sempre seres bizarros e quiméricos à espreita, para lhe caçar ao limite de tudo, às bordas inimagináveis da loucura humana.

Lá fora um rapaz, ainda ao vivo, bem vivo e em cores, na porta de um buraco de volta para o mundo, desesperadamente me chamava, com um sotaque afrancesado:

- Moçe, foge daí! Corrre, corrre! Nenhum bengalês foi emborra! É mentirre. Esses pessoes se afundarram na lama e nas treves de mentirre há muite tempe. O governe bolsolixe estimulou a xenofobie contre les imigrante de países pobres. Sendo nacionaliste e chupader de role ianque, era obviamente raciste com imigrante pobre e prete. E a fale de que as vendes diminuírram também não bate com o crescimente economique maior neste ane do que no ano passade. Pardon por me sotaque! Estou tentande falar brasileire...

Dez segundos haviam se transformado em 10 minutos. A zumbi-dona do mercadinho já estava quase me mordendo na jugular, quando esse rapaz suavemente me estendeu sua mão retinta e esquálida, como na criação de Adão, na qual o deus de Abraão lhe estende a mão, na recriação de um novo mundo, de uma nova realidade.

Segurei-lhe firmemente e escapei, por pouco, das trevas do mundo invertido. 

Era o haitiano misterioso de 2020, que na frente do Palácio da Alvorada, diante das câmeras, abordara Bolsonaro, com estas palavras misteriosas:

- Você está entendendo, eu estou falando brasileiro. Bolsonaro, acabou. Você está recebendo mensagem no seu celular. Todo mundo, todo brasileiro está recebendo mensagem no celular. Você não é presidente mais!

Foi há 3 anos, diante de todo o Brasil, deixando Bozo absorto, perplexo, mesmerizado. E desapareceu na multidão, como se nunca mais voltasse, o misterioso haitiano profético.

- O que é isso? – perguntava, desesperada, naquela ocasião, uma bolsonarista.

Agora todos sabemos o que era aquilo. Era o futuro. Aquele rapaz havia vindo do futuro e agora estava ali, na periferia do Distrito Federal, me estendendo a mão para que eu fugisse daquele mundo invertido que abria sua bocarra sobre mim nesta tarde insólita.

- Adriano, confie em mim: Bolsonaro acabou! Ele não é presidente mais!