Fiz um vídeo, de 6 minutos de duração, há 5 anos, cujo título é uma pergunta: "A vida vale a pena?". Tem mais de 4 mil visualizações e, modéstia à parte, ficou muito bom. Tentarei transformá-lo em texto, e talvez acrescentar ainda alguns complementos, porque certamente merece figurar em meu blog, ou talvez um dia em algum livro.
CRÍTICA DO SENSO COMUM E PROSA - Quem quiser adquirir o livro, acesse o link do canto superior direito
Tuesday, August 17, 2021
A vida vale a pena?
Friday, August 06, 2021
Gente sem caráter...
Cuidado com gente que se expressa assim, tentando chantagear:
"Você nunca encontrará alguém como eu!"
Há exceções, mas isso é geralmente coisa que sai da boca de gente sem caráter.
Ciúme
Relacionamentos repletos de ciúme, de ambas as partes, costumam ser um inferno. Mas isso somente se aplica a quem tem senso moral. Para sociopatas é o paraíso. Porque somente o outro lado se contém, obedece e fica refém. Esquema perfeito para uma relação abusiva. Ciúme nunca é sinal de um relacionamento justo ou saudável.
Thursday, May 20, 2021
Vontade doida
Vontade de dar uma de pregador doido, que prega com megafone no centro da cidade.
- Vinde para a luz, proferia o senhor! Olhai para o céu iluminado, para o azul! Contemplai a luz que emana do sol, essa luz primordial, e o vento em vosso rosto! Despertai, despertai! O dia é de luz e músculos! A noite é da escuridão! Cantai com os pássaros! Sente a imensidão do cosmo, sente a imensidão de ti mesmo, espalhado, derramado sobre o mundo! Comei as plantas em colorido profundo, os vegetais do infinito, o mosaico das raízes, a mandioca divina, para que o músculo todo o dia trabalhe e renasça na aurora do universo! Ohmmmm....
Saturday, May 15, 2021
Ajudar alguém que amamos a viver e a morrer...
Outubro de 2012.
Tive uma conversa importante com minha mãe esses dias. Ela está com uma doença crônica que muitas vezes a incapacita quase que totalmente, prostrando-a na cama durante todo o dia, em várias ocasiões.
Ela tem quase 66 anos. Vive sozinha e com uma rede de apoio social e familiar deficitária. Eu estou vivendo a 720 km dela e meu irmão mora na Inglaterra.
Quando está em crise, ela sempre se queixa e muitas vezes diz que preferia deixar de viver. O fato de seu filho mais velho (meu irmão mais velho) ter cometido suicídio em 1998, com 28 anos de idade, não produziu nela qualquer espécie de repúdio pelo suicídio ou pelos suicidas. Pelo contrário. Ela muitas vezes se refere ao meu irmão como alguém de coragem, como alguém que aproveitou bastante de sua juventude e se foi dessa vida sem envelhecer, sem viver todos os dramas da velhice.
Assim como meu irmão, sei que minha mãe é também muito bem capaz de cometer suicídio. Esta possibilidade me aterroriza mais do que se ela tivesse uma morte natural ou acidental. Assim como o era com meu irmão, conviver com essa possibilidade de minha mãe fazer o mesmo era muito perturbador para mim até termos essa conversa, há poucos dias. Hoje minha angústia e meu medo são bem menores. Nessa conversa franca, a qual não fui capaz de ter com meu irmão, eu lhe disse mais ou menos assim:
“Mãe, por favor, não tome uma decisão drástica como a do Edu sem antes pedir socorro, sem falar comigo, sem abrir o jogo. Se você quiser morrer, me fale, porque aí eu largo tudo e vou fazer de tudo para ajudar a aliviar a sua dor. Pego um avião e vou correndo praí. Faremos tudo o que for possível para seu conforto, para a sua felicidade.
E se mesmo assim não conseguirmos contornar a sua dor, e você ainda quiser morrer, se não tiver mesmo remédio, se for de fato o fim da linha, também estarei com você. Mas, por favor, não faça como o Edu. Não tome esta decisão sozinha. Se não tiver mesmo jeito, aí eu aceitarei e vou querer me despedir de você, lhe abraçar, dizer o quanto a amo, o quanto sentirei sua falta, e o quanto você representa e sempre representou o absurdo de tudo o que existe de bom na minha existência.
Se morrer for de fato o caso, eu lhe ajudarei, minha mãe, com unhas e dentes, por mais que isso me cause uma dor absolutamente profunda e não dimensionável. Pegaremos um avião e irei junto com você para a Suíça; ou, se não houver essa possibilidade, eu sei como encontrar o caminho menos doloroso para tal, para que você possa partir em paz e com todas as despedidas e carinhos necessários em um momento tão delicado e crucial para você e todos nós que tanto te amamos.
No que depender de mim, minha mãe, você não sofrerá os absurdos que eu mesmo testemunho em meu cotidiano. Com certeza não. Não deixarei e você sabe que pode confiar em mim. Isso é o mínimo que posso fazer pela pessoa mais importante da minha vida. O mínimo.”
Ela compreendeu e se sentiu mais segura. E eu também, acima de tudo. Hoje estamos bem mais leves e tranquilos em relação aos seus desejos de morrer ou qualquer coisa análoga.
O suicídio é um ato muito solitário e horrivelmente triste. É um horror angustiante no seio de qualquer família que o experimenta. Falar abertamente sobre ele, tentando diminuir o tabu e sua proibição absoluta, é o que hoje faço como parte de minhas estratégias de prevenção.
O suicida precisa de vínculo, apoio, cumplicidade, carinho, amor, companhia, e muita conversa franca e transparente sobre seus desejos e planos para morrer. Sem desafios nem chantagens e sabendo sempre que ele é o dono e responsável por sua própria vida.
Estou somente lutando pela vida e pela morte digna, minha e de quem amo. Acho isso absolutamente justificável, prudente e totalmente dotado de sentido e amor.
Mas já estou me cansando de tratar disso no mundo em que vivo... Talvez essa luta só renda frutos e direitos (liberdades individuais, autonomia) para quem está mais próximo de mim. Uma pena...
Deixo alguns pontos mais claros em minha vídeo-aula sobre o tema, a qual também posto aqui nesse grupo.
Monday, April 12, 2021
Sobre a mãe de Henry Borel
Muitas pessoas estão inconformadas sem entender como que uma mãe acaba privilegiando um amante a um filho pequeno e indefeso. Mas se esquecem que muitas pessoas atualmente, em nosso país, estão tomadas por um enlouquecimento coletivo, baseado em ostentação de poder e força. Ela estava apaixonada por uma pessoa que ela sentia como extremamente poderosa e inatingível. Ame-o ou morra. Ame-o ou jamais faça parte do paraíso que ele promete. Ela talvez se sentisse casada com uma espécie de imperador romano, um Calígula.
Em setembro do ano passado me fiz as seguintes perguntas:
"O que é pior? Amar alguém que não tem caráter, mas é a melhor pessoa do mundo na interação conosco? Ou odiar alguém que parece ser um modelo de ser humano, mas que errou feio conosco, e nunca percebeu isso?"
E a primeira pergunta eu só consegui me fazer quando me imaginei sendo filho de Jair Bolsonaro. Agradeço muito a minha sorte de não ser filho de alguma pessoa poderosa que é como Jair Bolsonaro. Ser filho de uma pessoa sem caráter, mas que é boa conosco, deve ser muito ruim. Eis uma das piores prisões existenciais. Depender de um canalha, ou ter uma vida que te obriga a aprender a amar um canalha, deve ser horrível.
E não estou querendo, com esse pequeno texto, aliviar a barra de criminosos e seus cúmplices. Tudo indica que ela foi no mínimo cúmplice das torturas e do bárbaro assassinato de seu próprio filho pequeno e indefeso.
O que estou tentando dizer é que uma parte significativa dos brasileiros está presa a um projeto de poder que lhes é muito sedutor, do qual se sentem partícipes, e a partir disso também inatingíveis. Seu líder se vende como um escolhido por Deus, e quem compra também em boa medida se sente assim, escolhido por Deus e inatingível.
Porque se existe um ser sobrenatural absolutamente bom e onipotente, vale tudo em seu nome. Porque não existe qualquer tipo de questionamento, e está acima de qualquer julgamento. E essas pessoas estão o tempo todo falando que fazem tudo em nome de Deus.
Evolução?
Acabei de ler um meme assim: "Você é o resultado de 3,8 bilhões de anos de evolução. Aja de acordo."
Porém devo dizer que isso me parece bastante equivocado. Porque a evolução não ocorreu com o propósito de culminar na espécie humana. Não somos o resultado mais lindo da história da vida na Terra. Não se trata disso.
Todas as espécies de seres vivos que existem no planeta, e todos os seres que estão vivos, são também, assim como o seres humanos, o resultado de 3,8 bilhões de anos de evolução. Somos, portanto, somente mais um animal, somente mais um produto da evolução. Não havia ninguém por detrás de todo o processo, trabalhando ativa, intencional e esforçadamente nisso.
Esse meme está mais para o criacionismo do que para o evolucionismo. Usa o termo evolução para dizer algo que não tem nada a ver com ela, para afirmar o que a nega.
Monday, March 29, 2021
Competindo tacitamente
Ter uma bicicleta elétrica é divertido, sob vários aspectos. Um deles diz respeito à tácita competição que existe entre ciclistas. Nas ruas se um ciclista é ultrapassado por outro, uma coisa que muito usualmente ocorre é esse ciclista tentar retribuir. Então é muito comum isso, que os ciclistas fiquem, tacitamente, apostando corridas.
Quando
ultrapasso algum ciclista-esportista a reação costuma ser extrema, cômica.
Porque os caras ficam muito irritados, e fazem de tudo para logo poderem me
ultrapassar. Em poucos segundos testemunho uma reação quase que violenta e
desesperada.
Agora
há pouco, voltando para casa, para o almoço, houve uma interação engraçada com
um ciclista não-esportista. Ele tinha uma bicicleta muito boa, e me acompanhou
por boa parte do trajeto, em uma velocidade alta.
Eu
simplesmente me mantive em minha velocidade usual, sem qualquer tipo de
desespero ou tentativa de fazê-lo comer poeira. E ele também não se desesperou.
Porém
chegou um momento em que paramos na faixa de pedestre, e ele olhou para minha
bicicleta e disse:
- Essa
sua bicicleta parece uma Barra Forte, mas corre demais, rapaz...
Desesperou
Na volta do trabalho, eu vinha pedalando em minha velocidade normal, de cruzeiro. Havia um rapaz, em uma mountain bike, a uns 100 ou 200 metros de mim, que pedalava vagarosamente, em ritmo de passeio.
Bastou
eu ultrapassá-lo para ele alterar totalmente seu comportamento. Olhei pelo
retrovisor e agora ele pedalava frenético, completamente louco. Tivemos de
passar por dentro de um posto de gasolina e havia alguns meio-fios a serem
transpostos. Como ele estava de mountain bike, passou por cima de tudo como se
não houvesse obstáculo algum, e eu tive de frear e fazer alguns desvios.
Isso
fez com que ele me ultrapassasse e ficasse a uns 100 metros à minha frente. Ele
pedalava de modo insano. Tinha muito mais giro do que eu. Mas era instável.
Pedalava demais e se cansava. Depois pedalava de modo frenético novamente, e se
cansava novamente.
Como
estávamos na descida, esse contexto era mais favorável para seu tipo de
bicicleta. Mas depois adentramos uma reta de quase 1 km, e isso foi suficiente
para que eu pacientemente conseguisse me aproximar dele, ultrapassando-o
novamente.
Bateu-lhe
um desespero que vexatoriamente o despiu das migalhas de compostura que ainda
tinha. Tentou cortar caminho pelo meio do mato, e por pouco não se esborrachou
no chão, porque havia pedras e galhos como obstáculos. Ele tinha uma mountain
bike, mas aquilo não é um helicóptero, não sai voando por cima das coisas.
Para
sua infelicidade mesmo assim não conseguiu me ultrapassar. Consegui olhar para
seu rosto. Sua expressão era de angústia, de desolação. Olhei para o
retrovisor, e sinceramente não entendi o que ocorreu. Ele simplesmente
desapareceu. Coisa de Arquivo-X.
Falar com uma porta
A queixa que mais ouço de pessoas que se frustraram com psicoterapia é a de que nunca tinham uma orientação mais clara ou direta de seus terapeutas.
Diziam
simplesmente não entenderem o que estavam fazendo ali, porque falavam o tempo
todo e o terapeuta não falava nada. Ou então perguntavam sobre alguma coisa que
não sabiam, e o terapeuta continuava se abstendo de responder ou orientar.
Para
algumas pessoas esse procedimento funciona, mas para muitas delas não é o caso.
E assim muitas terapias vão se arrastando, e o próprio terapeuta não se dá
conta, ou parece não querer se dar conta de que não estão ocorrendo progressos.
Ou então não tem conseguido comunicar isso ao paciente.
E se de
fato não estão ocorrendo progressos, se a terapia não sai do lugar, se aquele é
um espaço onde o paciente está sentido que nada de muito significativo está
sendo feito, e se o terapeuta já fez o que pôde para alterar a situação e não
conseguiu, talvez seja importante que esse terapeuta perceba seus próprios
limites, que ele não está conseguindo dar conta do recado.
E
quando o terapeuta percebe seus próprios limites, e deixa isso claro na
relação, mostrando claramente que não está mais conseguindo ajudar seu
paciente, conseguindo comunicar isso claramente, novas portas se abrem,
inclusive a porta do encaminhamento. Porque é muitas vezes em situações assim
que o encaminhamento é o mais recomendável, o mais ético.
Porque
ninguém aguenta, durante muito tempo, sentir que vem interagindo, conversando,
por meses a fio, com uma porta. O paciente vai embora, e não indicará esse
terapeuta para outras pessoas.
Wednesday, February 24, 2021
O que torna alguém psicopata?
Uma combinação explosiva nos psicopatas é a indolência com o poder de sedução. O mundo inteiro pode tentar punir um psicopata. Ele, porém, sempre encontrará alguém para ser seduzido. Um psicopata jamais fica isolado, em ostracismo. Porque é sempre capaz de seduzir. Sente menos dor, para quase tudo. Sofre menos. E alguns sofrimentos jamais teve ou terá. Desse modo sobra pouco espaço para empatia, compaixão, as quais, antes de tudo, somente são possíveis em alguém que sofre. É esse tipo de superioridade que o transforma em um monstro, em alguém com uma capacidade de destruição muito acima da média.
Karol Conká é psicopata?
Não sei como é Karol Conká, porque não assisto ao BBB. O que sei é das descrições que fazem da suposta vilã, da suposta psicopata. E não fico surpreso, porque já conheci e sofri muito com pessoas assim, principalmente no ambiente de trabalho. E essas pessoas são assim também em função do sucesso que fazem. O que mais me assusta é o quanto conseguem reunir de pessoas em seu favor para, juntas, produzirem atrocidades. Nesse tipo de situação o que mais me fez sofrer foram os linchamentos. Os grupos, chefiados por Conkás, são moedores de gente. Conkás não seriam nada se não fossem esses grupos, formados por psicopatas de ocasião, cuja covardia impede-os de assumir sua própria psicopatia.
Thursday, February 18, 2021
"Ninguém vence na vida sozinho, dentro de casa".
A frase do título sintetiza, com um pouco de ênfase, o que penso há cerca de 30 anos. Não diz exatamente o que penso. Porque não dá para afirmar que é assim para absolutamente todas as pessoas. O que sinto, na verdade, é que para a maioria das pessoas é assim.
Quando as pessoas estão isoladas, em sua casa, ou em seu território mais familiar, costumam ter menos oportunidades para crescer e se fortalecer. E ninguém faz nada sozinho, porque ninguém parte do nada. Sempre partimos de algumas coisas já dadas ou estabelecidas por outros que nos antecederam. Sempre partimos de coisas que estão no mundo. O que chamamos de "nós mesmos" é sempre resultado de alguma coisa do mundo que suscitou algo em nós.
Uma de minhas atividades profissionais é o trabalho com estudantes com problemas de aprendizagem. Essa é uma de minhas atribuições na instituição pública de ensino superior na qual atuo.
E um dos maiores problemas que sinto em relação aos estudantes com dificuldades de aprendizagem é a falta de mais monitoramento saudável. Porque não basta afirmar que os estudantes carecem de disciplina se nós não compreendemos como que o processo de aquisição da disciplina ocorre.
Acreditar que um estudante é o único responsável pelo processo de formação de sua própria disciplina é muito ingênuo. Militares costumam ser mais disciplinados porque são mais monitorados. E o problema da vida militar não é o monitoramento. Monitorar é necessário. O problema na vida militar é que esse monitoramento costuma ocorrer de forma muito aversiva. E não precisa ser assim.
O estudante brasileiro é de modo geral muito pouco monitorado. Se a escola não for em tempo integral a tendência é haver menos monitoramento. O estudante vai para casa e ali é que ele costuma se perder.
Em casa, sozinho, não há geralmente a estimulação necessária para que o comportamento de estudar ocorra de modo mais efetivo.
Reiterando, porém de outro modo: nossa vida, em grande medida, é movida pelos outros e não por nós mesmos. É o outro que nos indaga, cutuca, ordena, pede, lembra, ameaça, acompanha, atrai, seduz, elogia, agride, empurra, ouve, etc.
É claro que o mundo físico também faz isso. Mas quando estamos falando de compromissos sociais, a presença física ou imediata do outro pode desempenhar um papel fundamental.
É muitas vezes no diálogo que o movimento de conhecer o mundo, a si e aos outros, se atualiza da forma mais clara.
Se me permitem, cito abaixo um trecho de meu último livro (Facioli, 2020):
"Os seres humanos, de modo geral, precisam de constante interação uns com os outros. Para alguns autores, tais como Michael Tomasello, professor e pesquisador da Duke University, não somos simplesmente uma espécie social. A intensidade da sociabilidade de nossa espécie teria um caráter especial. E talvez fosse mais apropriado sermos classificados como uma espécie ultrassocial (Tomasello, 2014).
Da mesma forma que abelhas e formigas são especialmente cooperativas entre os insetos, nós humanos somos especialmente sociais, cooperativos, entre os mamíferos. E há evidências de que nossa intensa sociabilidade teve papel fundamental no surgimento das sofisticadas formas da cognição e moralidade humanas (Idem, 2014).
Vínculos afetivos sólidos e benéficos são fundamentais para nossa saúde e bem-estar. É fundamental o companheirismo, o diálogo, ou o jogo, a constante possibilidade de se sentir vivo, motivado, disposto, justamente a partir do que surge das interações geralmente mais próximas e imediatas entre as pessoas.
Quando estamos acompanhados por pessoas com as quais temos afinidade, cuja companhia nos faz bem, ou nos motiva, de modo saudável, a agir, trabalhar ou estudar, a tendência é que haja, de nossa parte, maior concentração e envolvimento na atividade realizada.
(...)
Muitos estudantes facilmente se distraem, perdem o foco, primeiramente porque o que predomina é a educação de massa e modelos tradicionais de ensino, os quais privilegiam a fala de um professor para um grupo grande de alunos. Nesse contexto praticamente não há diálogo. O que impera é a transmissão de um professor aos seus estudantes.
(...)
O diálogo é um elemento central na interação ensino-aprendizagem, no processo de aquisição e produção do conhecimento. E isso vale para qualquer metodologia de ensino. Independentemente da metodologia adotada, é fundamental que ocorra diálogo. Porque não existe vídeo de internet ou documentário, por exemplo, por mais espetacular que seja, que possa substituir a rica e saudável interação face-a-face, olho no olho, com liberdade e tranquilidade para se falar e se perguntar tudo o que for possível.
(...)
Em um diálogo, em que ambas as pessoas se alternam de modo equilibrado na fala, e que o tempo de cada um falando ininterruptamente não se estende muito, é bastante difícil que alguém se distraia ou perca o foco."
Lembro-me das diversas vezes em que eu estava com outras pessoas, estudando em grupo, durante finais de semana ou feriados, e que nós simplesmente não sentíamos o peso da passagem do tempo. Porque estávamos o tempo todo em interação intensa, dialogando e tentando completar uma tarefa, ou conhecer melhor um determinado objeto de estudo.
Porque o ser humano em boa medida é movido pelo outro, pela companhia necessária e constante de outras pessoas. Porque fazer junto costuma ser menos pesado do que fazer sozinho.
Porque primeiro se vive, depois se pensa. A vida vivida é que gera o que pensamos dela. Ninguém pensa positivo para depois viver. As pessoas vivem, e dependendo do quê e como viveram, passam a ser mais otimistas.
Sua casa ou o seu território mais familiar provavelmente serão muito pequenos diante do quanto o mergulho e a imersão no mundo poderão fazer por você.
E isso também é muito claro para mim ao lidar com pacientes que estão sofrendo de ansiedade. Muitos se trancam dentro de suas casas, e conseguem se manter assim indefinidamente, porque não há nada de mais pungente, que os faça de vez em quando sair e se expor. Muitos acabam sendo superprotegidos. Para muitas pessoas a comodidade e o conforto são a beira do precipício de seus próprios transtornos mentais.
Muita facilidade e comodidade para tudo (até mesmo para evitar qualquer tipo de contato com outras pessoas) podem simplesmente fazer com que a pessoa não saia do lugar. Isso, com a passagem do tempo, se mostra como algo extremamente enfraquecedor.
Outras, por sua vez, se isolam completamente de outras pessoas (devido a diversas experiências traumáticas que tiveram), mas ainda são estimuladas por animais de estimação, ou uma vida mais simples, talvez perto da natureza, que faz com que se mexam, e em alguma medida tenham comportamentos saudáveis, fortalecedores.
O título desse texto contém a expressão "vencer na vida", já muito desgastada, por ser quase que exclusivamente atrelada a uma noção de sucesso social. Porém quero deixar claro que, na minha concepção, vencer seria somente conseguir ter mais saúde e bem-estar. Somente isso.
Então, diante do que já escrevi, para ficar claro e concluir este texto, refaço a expressão, de modo mais técnico e menos apelativo (porque o título era para isso mesmo, uma isca para chamar sua atenção):
Ninguém (sabendo que ainda me utilizo do termo ninguém como força de expressão) obtém mais saúde e bem-estar sozinho, isolado, em sua casa, em seus confortos, comodidades e vícios, ao simplesmente se retirar das exigências e estimulações do mundo.
Referências:
Facioli, A.M. (2020). Agonia e sonho: memórias e reflexões de um psicólogo nos meandros do SUS. Publicado em formato Kindle (KDP) pela Amazon.
Tomasello M. (2014). The ultra-social animal. European journal of social psychology, 44(3), 187-194.
Sunday, January 10, 2021
A ilusão de eternidade
As narrativas do passado, essa memória que construímos em função do que nos contam, talvez seja um dos principais motivos pelo qual boa parte de nós sente que tem uma alma eterna. Se nem o universo é eterno, o que sou eu para pensar que eu o seria?
Friday, December 25, 2020
A felicidade mora na simplicidade e na intimidade
Essas pessoas que não dão valor ao que têm, que ficam o tempo todo se comparando a outras, que estariam em algum nível superior, precisam de um pouco mais de isolamento. Talvez precisem mesmo sair das redes sociais e estarem mais dentro de sua própria vida, em sua própria intimidade. Porque a felicidade mora na simplicidade e na intimidade. A felicidade não mora na fama, na relação com fãs ou pessoas que não nos conhecem, e que na verdade não nos amam. E, claro: o bem-estar psicológico depende de mais uma infinidade de variáveis. Mas faz sentido também falar desse aspecto pontual, quando aparece.
Saturday, December 05, 2020
Já sonhei em ser jogador de futebol
Com 10 anos de idade, durante todo o ano de 1982, que teve a Copa da Espanha, joguei muito futebol, praticamente todos os dias, e sonhei intensamente em ser jogador. E eu até me destacava, como zagueiro. Eu era uma pedra no sapato de qualquer atacante ali do mundinho em que eu habitava.
No universo de meu bairro, o Jardim Independência (o Jardel), no qual, durante alguns anos, morou o pai de Sócrates, eu era um zagueiro respeitado no campinho, atrás da escola em que estudava, a escola estadual João Augusto de Melo (o Jamel).
O pai do Magrão (Sócrates) morava no Jardel. Cada jogo da seleção, em 1982, tinha emissoras de TV dentro da casa dele. E, que coisa engraçada, o Raí tinha somente 17 anos em 1982, e já devia brilhar nas bases do Botafogo de Ribeirão, e obviamente devia também morar no Jardel. Mas eu nem sabia que Sócrates tinha um irmão que também jogava futebol, e os mais velhos do campinho tinham no máximo 13 anos de idade. Raí, com 17 anos de idade, fazendo ensino médio em escola particular do centro da cidade, era praticamente de outra geração, de outro mundo, mesmo morando no mesmo bairro que nós.
Durante todo o ano de 1982 sonhei demais em ser jogador profissional quando adulto. Pedia para meu pai me matricular na escolinha de futebol do Botafogo-SP ou mesmo na categoria fraldinha do time rival da cidade, o Comercial, para o qual ele torcia.
- Pai, tem como me matricular no fraldinha?
- Ah, sim, filho, o pai vai ver isso pra você...
Pedi durante um ano, e não rolou. 5 anos depois eu estava jogando no Comercial, mas hóquei sobre patins, esporte mais apreciado por meu pai do que futebol.
Porém, durante o próprio ano de 1982, cometi um erro. Sonhei mais alto e quebrei a cara. Tentei sair da zaga para jogar mais para frente. O resultado foi sofrível. Eu jamais seria um bom jogador do meio pra frente. Teria de nascer de novo, no mínimo.
E ontem me peguei me imaginando como jogador de futebol profissional, realizando um de meus mais intensos sonhos da infância, ao lado dos grandes de minha geração, indo para copas do mundo. É muito insólito se imaginar em uma realidade totalmente diferente, porque 12 anos depois, em 1994 (Copa dos EUA), quando eu tinha 22 anos, meu mundo era uma coisa absolutamente diferente de uma vida de atleta profissional.
Eu nem mesmo jogava com meus amigos da Psicologia, que treinavam no campo da USP, e tinham um time de respeito, com alguns colegas (como Felipe Nassar e Fernando Falcão) que haviam treinado em grandes clubes de São Paulo, como o Palmeiras, por exemplo.
Preferia nadar. Dia sim, dia não, nadava meus mil metros na piscina da universidade. E era quase todos os dias praticamente a mesma rotina: aulas de manhã e à tarde, piscina ao meio-dia, rango no bandeijão, no almoço e no jantar (aliás, por diversas e memoráveis vezes, na companhia de figuras lendárias do universo filô-uspiano de Ribeirão naqueles anos, tais como Alexandre Ioda e Antonio Sousa, que era conhecido como Barbosa), e biblioteca à noite, até umas 22 horas.
Ser jogador profissional de futebol foi talvez um dos sonhos mais distantes da minha realidade que eu já tive.
Sunday, November 15, 2020
Chico e uma camada da saga de minha família materna
Hoje, por acaso, me lembrei que a primeira vez em que
cuidei de um bebê, diariamente, foi em 1988, com 16 anos de idade. Minha tia,
irmã de minha mãe, passava por crises psicóticas, e acho que até teve sarna.
Ela tinha dois filhos: minha prima, com 12 anos e o Chiquinho, que tinha
somente 6 meses.
Minha mãe então escolheu terminar de jogar seu casamento
no lixo, levando os 3 para morar conosco numa casa de 2 quartos. Chiquinho se
apegou com todos nós, principalmente comigo. Troquei muitas e muitas vezes suas
fraldas, além de diversos banhos, sem banheira mesmo, no muque. Fazia-o dormir
no skate.
E lembro da noite inteira, em claro, tentando fazer com
que ele, com dores de ouvido, parasse de chorar, somente eu, ele e minha prima.
Ela entrava na puberdade, e eu estava lá havia dois anos. Sim, entrei na
puberdade somente aos 14 anos.
Casa pequena, de dois quartos. Meus pais dormiam em um,
meus dois irmãos na sala, eu, minha prima e Chiquinho no outro quarto. Minha
tia internada em um hospital psiquiátrico, por meses.
Eu com 16 e minha prima com 12, sozinhos, por meses,
dormindo todos os dias no mesmo quarto. Hormônios que explodiam, em ambos. E no
meio da noite nossos corpos se encontravam no risco constante dela ali, aos 12,
engravidar de mim, aos 16.
Dois anos depois dois amigos não entendiam como eu havia
resistido. Três anos depois, já na universidade, dois ou três idiotas tentaram
me humilhar, dizendo que sabiam de minha virgindade e que isso seria espalhado
aos sete ventos, ou que rifariam meu corpo para angariar dinheiro para a
formatura. E eu somente sonhava que meu pai fizesse comigo o que vinham fazendo
havia gerações, que me levasse pra um puteiro, pra que eu pudesse me libertar
logo daquele fardo.
Mas voltemos a Chiquinho. Ficou um pouco mais de 6 meses
conosco, dos 6 meses a 1 ano de idade. Lembro de quando engantinhou por cima de
todos nós, na cama grande, de casal, no quarto de minha mãe. Fez um gracejo
para cada um de nós, enquanto todo mundo estava ali, junto, deitado, assistindo
ao Globo Repórter. Foi um momento memorável, de amor, de todos por aquele
serzinho que começava sua vidinha.
Quatro anos e meio depois, em 1993, minha tia estava
novamente internada e Chiquinho volta a ficar alguns dias conosco. Ele já tinha
5 para 6 anos. Eu tinha 21. Seu pai morrera de câncer, três meses antes dele
nascer. Não o conheceu. Mas tinha uma referência.
Durante esses dias em que ficou conosco pediu para minha
mãe para que eu fosse o pai dele. Minha mãe achava engraçadinho. Eu ficava
pensando se valia pena assumir. Levava pra terapia. Sentia algo profundo. Meu
coração doía por Chiquinho. E o dele por mim.
“Chiquinho é a imagem que você tem de si mesmo quando
pequeno: frágil, sensível demais pra esse mundo...”, dizia o residente de
psiquiatria da USP, que me atendia em 3 sessões psicanalíticas por semana. Mas
não sei exatamente se era ele quem dizia isso ou eu mesmo, talvez já deitado em
um divã, e sentindo como se escancarasse o mundo inteiro a cada sessão.
Um ano depois minha prima, com 18 anos de idade, morava
em Sampa e namorava com uma moça que, por coincidência se chamava Adriana, e
era da minha idade. Juntas montaram uma empresa, que prospera, até hoje, e
muito mais do que qualquer um de nós poderia imaginar.
Três anos depois, em 1996, Chico já era outra criança,
bem mais fortalecida para enfrentar esse mundo cão. Jogava muito vídeo game,
bola e tinha amigos. Não precisava mais de mim. Eu respirava um pouco aliviado.
Mas deixei uma coisa clara para minha mãe:
“Se ele, daqui uns 8 ou 10 anos não entrar pra
criminalidade, nós já estamos no lucro.”
Nove anos depois, com 17 anos, em 2005, Chico estava em
coma, no Hospital das Clínicas de São Paulo. Fugia da polícia, com mais alguns
parceiros, de carro, após alguns assaltos que fizeram. Seu carro perdeu o controle
e bateu em um caminhão de lixo. Chiquinho quebrou perna, não sei mais o quê, e
ficou em coma, entubado. Pensamos que morreria.
Coisa de um mês depois, peguei um avião pra Sampa, pra
depois pegar um ônibus pra Ribeirão. Minha prima me pegou no aeroporto, para
depois me deixar na rodoviária. Se eu visitasse Chico no hospital, não chegaria
a tempo da festa de despedida de meu irmão, que partia do Brasil para Londres,
para nunca mais voltar. Isso mesmo, já são mais de 15 anos em Londres. Não faz
mais sentido voltar.
Então não visitei Chiquinho no hospital. Minha prima
ficou muito triste comigo.
Nunca mais vi o Chico. Somente via, de vez em quando,
algumas fotos desfocadas dele, que minha prima nos enviava, de suas idas e
vindas de internações para parar ou diminuir o uso de cocaína.
Internava, se convertia ao neopentecostalismo, e logo em
seguida voltava pra bandidagem. E tome depois uns 3 anos de cadeia, do qual
voltou mais manso do crime, mas ainda em uso pesado de álcool, tabaco, maconha
e coca.
Em 2013, aos 25 anos de idade, teve uma overdose e ficou
em estado vegetativo por uns dois meses. Mas me avisaram somente poucos dias
antes de sua morte. Eu estava recém-operado de hérnia inguinal e caminhava com
dificuldades. Não pude ir ao funeral.
Parte 2 (sem revisão gramatical, somente para registro):
Minha tia foi vida loka, a vida inteira. As crises com
sintomas psicóticos só começaram a acontecer na vida dela aos 35 anos de idade,
quando já tinha um ano ou mais de convivência com outro vida loka, o pai de
Chiquinho, o Francisco.
Foram um casal que deu muito trabalho para minha família
nos anos de 1985 e 1986. O reveillon de 1984 pra 1985 passei na casa deles, em Sampa.
Foi um reveillon vida loka. Fiquei eu e Cako (meu irmão
mais novo) com eles durante uma semana. Chiquinho ainda não tinha nascido.
Francisco nos levava para passear de carro. Rodava as ruas de Sampa a 140 km/h,
e ninguém com cinto de segurança. Entornava uma garrafa de uísque atrás da
outra. E minha tia o tempo brigando com ele, ameaçando de se matar. Por vários
dias eu fui o mediador dos dois, com 12 anos de idade. Depois disseram a meus
pais que eu tinha sido o anjo que os tinha impedido de um matar o outro
naqueles dias. depois de uma semana Francisco pegou seu VW Santana, botou a
gente dentro (eu, Cako, prima, ele e minha tia), e voamos pra Ribeirão, o tempo
todo a 150/160 km/h, e ele talvez sempre Chapado de alguma coisa. chegando em
ribeirao, na anhaguera, por volta de umas 21 hs, vimos que havia ocorrido um
acidente. um caminhao havia atropelado um ciclista. francisco foi devagarinho
iluminando o asfalto. havia pedaços do ciclista na pista, por dezenas, talvez
centenas, de metros. fui la com francisco ver o corpo. parecia uma carne de
açougue na qual somente reconheci um corpo humano pelo que havia restado do
cranio, somente com alguns poucos cabelos. eles passaram alguns dias em
ribeirao. um dia vi que meu pai ia pro bar, beber e conversar serio com
francisco. botou a 765 na cintura e a escondeu, sob a camiseta. disse pra minha
mae que ia fazer o francisco entender algumas coisas. passaram a tarde toda
bebendo. voltaram bebados. acho que depois dessa conversa francisco ficou mais
esperto. deixaram de nos azucrinar por um tempo. dois anos e nove meses depois,
em setembro ou outubro de 1987, francisco morreu de cancer. acho que foi
leucemia ou algo no figado. nao me lembro mais. chiquinho nasceu em 07 de
janeiro de 1988, uns 3 meses depois da morte de seu pai e um dia antes de minha
tia completar 39 anos.
minha tia ficou estavel, sob uso pesado de
antipsicoticos, praticamente somente dormindo, assistindo novela e comendo,
morando a maior parte do tempo somente ela e chiquinho, de 1993 a 2013. depois
da morte dele, em 2013, ela continuou estavel, sob controle pesado de
antipsicoticos, até 2016. ou seja, 23 anos sem parar de tomar antipsicotico de
deposito, todo mes tomava uma injeçao. aí em 2016 ela parou de tomar todos os
remedios. e acho que conseguiu ficar assim uns meses ou cerca de um ano, quando
voltou a ter crises maníacas. minha mae ficou possessa e culpou minha prima.
minha mae, que sempre foi, para minha prima, a grande matriarca de toda a
grande familia, uma familia sem referencias masculinas, sempre comandada por
mulheres, esta mulher, minha mae, nao conversa mais com minha prima, que ja
deve ter chorado muito em funçao disso. minha tia está, ha cerca de dois anos
ou mais, morando em uma clinica de repouso em sao paulo. fui a sampa em
janeiro, passei somente um dia e meio por la. nao tive tempo de visita-la. mas
passei deliciosos e preciosos momentos com 4 primos e minha tia, uma outra tia,
irma de meu pai, de 64 anos, que ainda é uma mulher muito bonita. minha prima
esta muito bem. vive uma vida feliz e prospera, e ja estava se preparando para
seu terceiro casamento, agora com uma psicologa, novamente com uma psicologa
que, por coincidencia, tem o mesmo nome que minha filha. de suas tres ou quatro
unioes conjugais, duas foram com psicologas. todos jantamos juntos, um jantar
lindo, na casa dessa minha tia, irma de meu pai. ela mora em uma casa pequena,
aconchegante, e muito bonita, com seu filho, de 29 anos, que é publicitario.
ela mesma preparou um jantar lindo, maravilhoso, no qual todos confraternizamos
e bebemos bom vinho. e eu deixei claro a todos ali que 2020 será uma decada
muito dificil. minha prima foi embora mais cedo, bem mais cedo. é executiva.
está habituada a reunioes rapidas e resolutivas. e agora faz higiene do sono,
seguindo todas as recomendaçoes do "oraculo da noite", de sidarta
ribeiro. minha prima nunca precisou tomar medicamentos psicotropicos, e hoje
esta mais ligada ao pai que, aos 77 anos, mora sozinho, é totalmente
independente, e ainda presta serviços para a empresa dela. meus outros dois
primos sao dois irmaos. um de 39 e a outra fará 35 em dezembro. o de 39 mora
tambem sozinho, em sampa, e é militante do pt ha uns 20 anos. seu pai é
bolsonarista, e mora em ribeirao, com esta prima, que fará 35 em dezembro.
jantamos e fui dormir na casa dele. ele saiu para comprar pra mim e pra ele, um
travesseiro antirrefluxo. só durmo em rede ou com travesseiro antirrefluxo. no
meio da madrugada minha prima pediu por socorro. havia dormido de bruços e nao
conseguia se virar. é cadeirante. padece de uma doença neurodegenerativa, a
qual matou, que eu saiba, tres tios de minha mae. lembro bem de um deles, que
tentou se matar em 1980, tomando aquele veneno para ratos. essa doença o
castigou durante uns 15 anos ou mais. minha prima está doente ha mais de 10
anos. antes disso era tambem vida loka, como chiquinho e como minha tia, que
hoje está internada na clinica de repouso.
Ideações suicidas: baobás impossíveis de se cortar ou a possibilidade de uma bela paisagem
Atenção,
alerta de gatilho: o texto abaixo é sobre comportamento suicida. Se for
sensível ao tema, não dê continuidade à leitura.
Ideações
suicidas são muito mais frequentes do que a maioria de nós imagina. Essa
informação está contida em um dos livros de Steven Hayes, e ele cita a fonte:
"Pensamentos
e tentativas de suicídio são chocantemente prevalentes na população em geral
(Chiles & Strosahl, 1995). Cerca de 10% das pessoas, em algum momento,
tentará o suicídio. Outros 20% terão dificuldades com ideação suicida e terão
um plano e meios para realizar o ato. Ainda outros 20% terão problemas com
pensamentos suicidas, mas sem um plano específico. Assim, metade da população
enfrenta níveis, de moderados a severos, de comportamento suicida em suas
vidas"(p. 07).
Faço
parte dessa metade da população. Mas demorei muito para ter pensamentos assim.
Talvez eu pela primeira vez tenha tido consciência de que alguém tinha acabado
com a própria vida quando estávamos eu e meu pai caminhando, a uns 200 metros
de nossa casa, quando eu tinha uns 11 anos de idade, e ele me mostrou uma casa
na qual, havia poucos dias, uma pessoa havia cometido suicídio.
Sempre
que eu passava na frente daquela casa pensava naquele ocorrido horrível. Sentia
aversão. Percebia aquele contexto como absolutamente sombrio e repugnante. Não
conseguia compreender como alguém era capaz de cometer um ato tão atroz contra
si mesmo. Transformou-se para mim em um tabu. Era algo sobre o qual eu não
gostava de pensar nem de imaginar para qualquer pessoa, muito menos para mim.
Mas isso
se desfez depois que entrei na universidade. Já no primeiro ano do curso de
psicologia comecei aceitar mais esta possibilidade, talvez como um ato mesmo de
liberdade, tanto para os outros quanto para mim mesmo.
Por que
todos temos essa liberdade. No Brasil não temos esse direito. Mas o ato,
escapar disso tudo, está ao alcance da maioria de nós. E quando digo liberdade,
menciono o conceito em seu sentido mais vulgar, somente para poder me comunicar
melhor, em um texto que tem a pretensão de ser breve.
Uma coisa
que me chama a atenção, em minha própria experiência, nos últimos 30 anos, é o
quanto a minha percepção foi se alterando, e o fato de que o desejo de morrer
foi, por diversas vezes, acompanhado por experiências de grande prazer.
Já tive e
tenho minhas ideações, como a metade das pessoas desse mundo. Mas elas também
se alteraram bastante. No artigo científico que publiquei sobre o tema, o qual
é o relato do caso de meu irmão mais velho, que se foi assim, em 1998, trago a
metáfora do baobá.
A ideação
suicida seria como uma semente ou uma pequena muda de baobá. É melhor cortar
logo pela raiz. Porque quando começamos a cultivá-la, ela tende a crescer,
adquirir raízes, e se transformar em um enorme baobá que pode se apossar de
nossa vida por completo. O que antes era somente um desejo, até mesmo
indefinido, pode se transformar em alternativa válida, porta de saída para todo
e qualquer tipo de aborrecimento. Ou a pessoa pode começar a ficar fascinada
pela morte.
Sinto que
tanto eu quanto Edu, meu irmão que se foi, éramos, em 1993, fascinados pela
morte. Mas jamais conversamos sobre isso, sobre esta fascinação, no nível
pessoal. O mais próximo a que chegamos, numa conversa, neste sentido, foi
quando ele se preocupou comigo, achando que eu pudesse tentar alguma coisa.
- Dri,
meu irmão, li isso aqui que você escreveu, e fiquei preocupado...
- Não há
com que se preocupar, eu lhe garanto. Isso é somente exercício poético,
literário...
Ele
insistiu em se mostrar preocupado, e eu inverti:
- Poxa,
Edu, convenhamos, quem está em mais risco aqui é você, e não eu.
Vi que
ficou um pouco surpreso, achando que eu não soubesse de nada, que eu não
percebia o quanto ele era suicida. Mas deixei muito claro para ele que era
muito angustiante saber que ele uma hora poderia fazer alguma coisa. A
possibilidade de chegar em casa e encontrar alguém que fez uma coisa dessas é
horrível.
Senti que
ele havia percebido que algo assim poderia gerar muito sofrimento em muitos de
nós, e continuei durante todos os cinco anos seguintes (assim como eu já vinha
fazendo havia cinco anos, desde 1988) fazendo o que eu podia para que ele se
sentisse mais feliz, e percebesse que de alguma forma a vida dele valia a pena.
Minha
capacidade de ajuda e prevenção a alguém numa situação dessas era muito menor
do que a que tenho hoje. Hoje compreendo tudo isso, em termos de intervenção
psicológica e em termos éticos, de um modo muito mais vasto e profundo do que
nos anos 90.
Cada um
fez o que pôde e cada um tinha seus limites, e muitos de nós tivemos
importantes aprendizados depois dessa tragédia.
Mas esse
texto já está ficando longo, e se desviou para pontos sobre os quais já tratei
em detalhes no artigo e na versão, em formato de crônica, em português.
Eu queria
mesmo é falar da forma das ideações. Meu baobá já existe há muitos anos, e
convivo muito bem com ele. E ele não cresceu sob o piso de minha casa,
destruindo tudo e invadindo minha vida.
Hoje
tenho tudo muito bem delimitado e separado. O baobá é hoje uma paisagem linda
que tenho em minha janela, e que sei que posso um dia ir lá, quando for
necessário, quando for a hora.
Sinto que
a vida, além de um direito, é também em boa medida, para muitos de nós, um
dever. Temos deveres para com quem nos ama, e sofreria muito com nossa falta
repentina.
Então não
tenho mais ideações que estão crescendo e tomando conta da minha vida. Não tem
mais nada a ver com isso.
E se você
leu até aqui e pouco entendeu, talvez você precise compreender, em maiores
detalhes, o que são ideações suicidas, tabus sobre o tema, suas modulações
sociais e históricas, e os conceitos de: liberdade, direito, ética, e todo o
debate sobre eutanásia e suicídio assistido.
Referência:
S.C.
Hayes et al (1999). Acceptance and commitment therapy. New York: Guilford
Press.
Tuesday, October 06, 2020
Quando um paciente roubou meu celular
Há cerca de 4 anos um paciente roubou meu celular. Eu estava com um pequeno grupo, em uma sala do CAPS. Ele fazia parte desse pequeno grupo, e era o único ali que tinha passagens pela polícia, por roubo. Dando falta do celular, minutos depois voltei à sala, correndo, na qual não havia mais ninguém. E o celular simplesmente havia desaparecido. Peguei o celular de um colega, e liguei para meu próprio número.
Ele mesmo, esse paciente, que tem uma voz e um jeito de falar inconfundíveis, atendeu. Vou aqui chamá-lo de Josimar (nome fictício):
- Josimar, você está com meu celular. Volte aqui para o CAPS! Traga ele de volta pra mim, por favor!
- Perdeu, playboy! Perdeu! - e desligou na minha cara.
Não consegui recuperar meu celular, porque dali do CAPS ele foi diretamente a algum local, para vendê-lo a um receptador.
Também não acionei polícia. Tentei somente conversar com sua mãe e seu tutor, que era um vizinho dele.
Sua mãe, por telefone, lamentou o fato, e disse que fez o que pôde, tentando conversar com ele, mas ele jamais admitiu que cometeu tal delito.
Seu tutor, um senhor entre 50 e 60 anos de idade, foi com ele até o CAPS, para que pudéssemos fazê-lo se convencer de que seu ato não poderia se repetir, e que era algo condenável.
Josimar, mesmo após ter atendido a ligação telefônica, jamais confessou que cometeu tal crime.
Ele frequentava o CAPS porque a justiça assim o obrigava. O juiz havia definido que ele somente se manteria em liberdade se não houvesse reincidência de seus crimes (no caso, roubo), e que ele obrigatoriamente frequentasse um CAPS.
Josimar tem retardo mental. Nasceu em um estado do Nordeste, e veio para Brasília quando tinha nove anos de idade. Uma das versões sobre sua história, registrada em seu prontuário, era a de que ele teria caído de uma rede, e batido fortemente com a cabeça no chão, quando tinha somente alguns meses de idade. As lesões cerebrais produzidas por esse acidente teriam resultado posteriormente no sério comprometimento de seu desenvolvimento cognitivo.
Do que eu conseguia me lembrar, após leituras de seu prontuário, era que ele havia sido pego pela polícia em alguma tentativa de roubo, na qual vinha sendo repetidamente instrumentalizado por seus irmãos, já que era inimputável.
Colocavam um deficiente mental para roubar para que assim não fossem penalizados. A culpa recairia sempre sobre o deficiente.
Josimar, contudo, deixou de frequentar o CAPS nos últimos 3 anos. Porque reincidiu e acabou novamente sendo preso. Ficou três anos em reclusão em um manicômio judicial.
Há poucos dias ele reapareceu no CAPS em companhia de um irmão. Havia sido solto, e agora devia obrigatoriamente voltar a frequentar nosso serviço.
Para minha surpresa Josimar não tinha vários irmãos. Tinha somente aquele irmão, com quem estava agora diante de mim, em uma avaliação para sua reinserção no CAPS.
Ele é 15 anos mais velho que esse irmão, que não tem retardo mental, e também ficou preso por cerca de três anos, por ter sido condenado por furto ou roubo.
Seu irmão, Rodrigo (nome fictício), tem 34 anos, tem três filhas e uma neta, de 5 meses de idade. Acho que Rodrigo é o avô mais jovem que já vi nessa vida.
Entrevistei-os do modo mais completo possível, inclusive em relação aos fatores sócio-financeiros.
Josimar é analfabeto e o irmão estudou somente até a quinta série. Sua filha, de 17 anos, ainda cursa a sexta série do ensino fundamental. Ainda conseguem pagar água e luz. Mas ninguém na casa tem telefone celular, e também não há telefone fixo. Nunca tiveram carteira assinada, e têm dificuldades inclusive para ter comida em casa.
- Lá em casa é eu, minha mãe, Josimar, minha filha e minha neta. (...) Levantamos de manhã bem cedo, e viemos para cá, a pé. Não tem nada de comida lá. Nem pão, café, nem açúcar. (...) Pra comer tamo saindo de casa. Cada dia a gente vai na casa de uma pessoa diferente. Ontem almoçamos na casa da madrinha de minha filha.
No final do atendimento Rodrigo me interpelou:
- Desculpa o incômodo aí, mas será que você não teria aí uns R$10 pra emprestar pra gente, pra nós passar na padaria e comprar uns pão, pra levar pro café da manhã?
- Rodrigo, eu não tenho dinheiro na carteira. Tenho somente o cartão. Vou com vocês até a padaria. Pode ser?
- Sim!
Saí com os dois, e caminhamos uns 200 ou 300 metros, até a padaria mais próxima.
Chegando lá pediram pães com mortadela e um refrigerante de 2 litros. Estavam loucos para saborear pães com mortadela com refrigerante, de café da manhã. Comprei-lhes açúcar, pó de café, margarina e leite.
Agradeceram-me, animados, contentes, como se tivessem descoberto um novo parça.
Despedi-me deles rapidamente, para voltar logo ao trabalho. No meio do caminho senti o sol brilhando como se não fosse real, como se eu fosse capaz de ver cada um dos raios a penetrar no mundo das coisas e de seres que sofrem, como se tudo aquilo fosse um cenário calculadamente armado de modo excessivamente luminoso naquela manhã. Por alguns instantes parecia que eu havia feito uso de alguma substância anestésica e alucinógena
Foi um sentimento breve de estar fora de mim, e de ser tomado pela sensação, emotiva, de que tudo podia com muita facilidade ser completamente diferente e muito melhor para muito mais pessoas.
Mas isso durou somente alguns segundos. Metros depois o sol voltou impiedosamente a rachar na cabeça.
Saturday, September 05, 2020
Pensar na vida
Eu deveria ter começado a fazer terapia ou algo talvez como filosofia para crianças quando tinha uns 7 anos de idade ou menos. Desde pequeno meu pendor para as humanidades era nítido. Apesar de não ter dificuldades com área alguma de conhecimento, eu adorava atividades braçais ou manuais. Porque me deixavam pensar na vida. O que eu mais gostava, e sempre gostei, era pensar na vida. E ainda gosto, e é o que mais faço, hoje porém com a ajuda de diversos autores e pensadores. Porque eu precisava, com urgência, por sobrevivência psicológica, pensar na vida, desde muito cedo.