Friday, August 12, 2011

A simplicidade e suas virtudes





Que ninguém se engane, só se consegue
 a simplicidade através de muito trabalho.

Clarice Lispector



Antes de tudo, vamos definir os conceitos. Simplicidade não é a mesma coisa que simploriedade. Não se trata de simplificar o que quer seja, distorcendo os fatos, a realidade. Não se trata de adotar uma visão tosca, pouco refletida ou crítica. Diz respeito a conseguir compreender, e bem, sem se perder em nossas próprias firulas cognitivas, narcisistas ou obscuras. 


Comte-Sponville, em seu “Pequeno tratado das grandes virtudes”, elenca 18 virtudes. Umas delas é a simplicidade, pela qual tenho uma predileção especial. Sempre, em minha vida, admirei o simples derrotando o complexo, o complicado, o obscuro e tudo aquilo que é cheio de enredamentos, rodeios e efeitos exagerados, os quais muito geralmente vem acompanhados de uma tentativa desesperada de demonstrar força, poder.

Não quero com isso jogar a existência real de complexidades no lixo. Comecemos então com Goethe:

“Tudo é mais simples do que podemos imaginar e, ao mesmo tempo, mais intricado do que poderíamos conceber” (Goethe, 1930, apud Comte-Sponville, 1995, p. 164).

A complexidade existe, mas não façamos dela o mote de um relativismo tolo que pretende abolir toda e qualquer possibilidade de conhecimento válido. Não façamos dela a bandeira de quem pretende igualar todas as formas de conhecimento ou o ardil de quem precisa rebaixar seu interlocutor com invocações de um saber inacessível aos não-iniciados.

Porém, a simplicidade que sempre admirei não diz respeito ao real, às coisas. Admiro pessoas capazes de demonstrá-la, desmontando quem fazia malabarismos para subjugar quem mora na credulidade. O que me agrada na simplicidade é seu amor pela verdade, sua tranquilidade para desfazer rapidamente o equívoco de quem gosta de complicar para poder dominar. É interessante a sugestão de Nietzsche: há quem turve as águas para fazê-las parecer profundas. Enfim, é um joguinho raso e sujo, e recheado de aparências enganadoras.

A tradição Zen também detecta rapidamente esses tipinhos e os bota logo pra correr. Se começar a complicar, a embromar, vem logo uma varada nas costas ou uma bofetada. Para o analista de Bagé, de Luís Fernando Veríssimo, é o joelhaço. Se o sujeito começa a se perder em abstrações sem rumo, em inutilidades espirituais camufladas de ridícula seriedade, o analista de Bagé lhe mete um joelhaço na boca do estômago e o bichinho volta correndo, tinindo, para a realidade. São várias as passagens no livro do Veríssimo em que isso ocorre; e são hilárias, sapientes até onde se rói osso da realidade mais crua e despida de frescuras pseudointelectuais.

Uma das grandes virtudes da simplicidade, na minha compreensão, é sua capacidade de resolução e de tradução da beleza da razão em sua pureza: tornar o complexo simples e não o contrário. Não somente desbanca embromadores, como resolve a situação dada. Vai lá e faz. Mata logo a estória, sem enrolação. Sem rococó charlatão. Chega logo na verdade do osso da coisa.

Não posso deixar de citar alguns trechos preciosos do ensaio de Comte-Sponville (1995, p. 163-171):

“O simples vive como respira, sem maiores esforços nem glória, sem maiores efeitos nem vergonha. A simplicidade não é uma virtude que se some à existência. É a própria existência, enquanto nada a ela se soma. Por isso é a mais leve das virtudes, a mais transparente e a mais rara. É o contrário da literatura: é a vida sem frases e sem mentiras, sem exagero, sem grandiloquência. É a vida insignificante, a verdadeira vida” (...)

Essa passagem me lembrou de um fato ocorrido com Drummond. Sua poesia, a qual contém os versos “No meio do caminho havia uma pedra/ Havia uma pedra no meio do caminho”, caiu num exame de vestibular, para ser interpretada, para que os candidatos refletissem sobre o que significavam esses versos. Houve até correções pela televisão, com divagações e mais divagações. Quando, por fim, resolveram entrevistar o próprio Drummond e ele respondeu mais ou menos assim: “Não, tinha uma pedra lá no caminho e eu chutei. Foi isso”. Não que fosse somente isso. Mas Drummond não perdeu a piada: como um mestre Zen, deu uma bofetada em todo mundo e saiu rindo. E isso também foi poético, violentamente poético.

Ou mesmo uma estória que contam, sobre a vinda de Albert Einstein ao Brasil. Em companhia dele estava Austregésilo de Athayde. Este tinha um caderno e anotava sem parar. A conversa teria se desenrolado mais ou menos assim: “O que você tanto escreve nesse caderno?”, indagou Einstein. “São minhas ideias. Você não tem também um caderno ou bloco de notas para registrar as suas?”. “Não. Só tive uma”.

Continuo e finalizo com Comte-Sponville:

“O que há de mais complicado do que uma rosa, para quem a quer compreender? O que há de mais simples, para quem não quer nada? Complexidade do pensamento: simplicidade do olhar. "Tudo é mais simples do que podemos imaginar e, ao mesmo tempo, mais intrincado do que poderíamos conceber", dizia Goethe. Complexidade das causas: simplicidade da presença. Complexidade do real: simplicidade do ser. "O contrário do ser não é o nada", escreve Clément Rosset," mas o duplo ". O contrário do simples não é o complexo, mas o falso”. (...)

“A simplicidade constitui, ao contrário, o "antídoto da reflexividade" e da inteligência, que evita que estas se envaideçam, se percam em si e com isso percam o real, se deem demasiada importância, dissimulem, façam enfim obstáculo àquilo mesmo que pretendem revelar ou desvelar. A simplicidade aprende a se desprender, ou antes, ela é esse desprendimento de tudo e de si mesmo.” (...)

“É a razão, quando ela não se engana a seu próprio respeito: razão lúcida, razão encarnada, razão mínima, se quisermos, mas que é a condição de todas. Entre duas demonstrações, entre duas hipóteses, entre duas teorias, os cientistas costumam privilegiar a mais simples: é apostar na simplicidade do real, mais do que na força de nosso espírito. Essa escolha, que não tem como ser provada, é entretanto de bom senso . Aconteceu-me muitas vezes lamentar que os filósofos, sobretudo os filósofos contemporâneos, façam ordinariamente a escolha inversa, preferindo o mais complicado, o mais obscuro , o mais contorto… Isso os protege contra qualquer refutação e torna suas teorias tão inverossímeis quanto enfadonhas. Complicação não do real , mas do pensamento : má complicação. Mais vale "uma verdade simples e ingênua", como dizia Montaigne, decerto proporcional à complexidade do real, quando necessário, mas sem lhe acrescentar os enredamentos de nosso espírito nem confundi-la com estas. A inteligência é a arte de reduzir o mais complexo ao mais simples, não o inverso.” (...)

“Toda geração tem seus sofistas, seus intrujões, seus preciosos ridículos, seus pretensiosos. Descartes, contra os de seu tempo, soube dizer o essencial, que também vale contra os do nosso: " Sua maneira de filosofar é muito cômoda, para aqueles que só têm espíritos muito medíocres; pois a obscuridade das distinções e dos princípios de que se servem permite-lhes que falem de todas as coisas tão ousadamente como se delas soubessem e que sustentem tudo o que dizem contra os mais sutis e mais hábeis, sem que se tenha meios de convencê-los." A obscuridade protege. A complexidade protege. A isso Descartes opõe os princípios " muito simples e muito evidentes " que utiliza, os quais tornam sua filosofia compreensível para todos e discutível por todos . Não pensamos para nos proteger . A simplicidade também é uma virtude intelectual.” (...)

"Querendo ser simples", escreve Fénelon, "nos afastaríamos da simplicidade ." Trata-se de não afetar nada, nem mesmo simplicidade. Mais vale ser simplesmente egoísta do que afetar generosidade. Mais vale ser simplesmente volúvel do que afetar fidelidade. Não, mais uma vez, que a simplicidade se reduza à sinceridade, à ausência de hipocrisia ou de mentira. Ela é antes a ausência de cálculo, de artifícios, de composição. Mais vale uma simples mentira do que uma sinceridade calculada. "Essas pessoas são sinceras", prossegue Fénelon, "mas não são simples; não se sentem à vontade com os outros, e os outros não se sentem à vontade com elas; não encontramos nelas nada de desembaraçado, nada de livre, nada de ingênuo, nada de natural; preferiríamos pessoas menos regulares e mais imperfeitas, que fossem menos compostas. Eis o gosto dos homens, e o de Deus é o mesmo: ele quer almas que não se ocupem de si mesmas, como que sempre ao espelho para se comporem." A simplicidade é espontaneidade, coincidência imediata consigo mesmo (inclusive naquilo em nós que ignoramos), improvisação alegre, desinteresse, desprendimento, desprezo de provar, de prevalecer, de parecer…” (...)

“O mundo é simples porque é a única resposta às perguntas que ele não se faz: simples como a rosa ou o silêncio." (...)

“Sabedoria de poeta : "Vamos aqui e ali, à procura de uma alegria por toda a parte em migalhas, e o saltitar do pardal é nossa única possibilidade de saborear Deus espalhado no chão." Tudo é simples para Deus; tudo é divino para os simples.” (...)
“Nada tem a provar , pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali . Há coisa mais simples que a simplicidade ? Há coisa mais leve? É a virtude dos sábios, e a sabedoria dos santos.”

Friday, July 29, 2011

Para que serve a arte?



Hegel pode ajudar a clarear bastante esse ponto:

"Sua finalidade [da arte] é assim expressa: despertar e avivar as impressões, as inclinações e paixões adormecidas de todo tipo; preencher o coração; permitir que os homens possam sentirdesenvolvido ou nãotudo o que o ânimo humano possa ter, experimentar e produzir em seu ser mais íntimo e secreto; permitir que os homens possam sentir o que pode mover e excitar o peito humano em sua profundidade e em suas múltiplas possibilidades e aspectos; oferecer para o prazer dos sentimentos e da intuição o que o espírito possui de essencial e de superior em seu pensamento e na Idéia, a saber, a magnificência do nobre, do eterno e do verdadeiro; igualmente tornar apreensível o infortúnio e a miséria, o mal e o crime; ensinar a conhecer intimamente tudo o que é horrível e horripilante assim como o que é prazeroso e beato; e por fim, deixar a fantasia livre no jogo ocioso da imaginação assim como deixar as intuições e sentimentos sensivelmente excitantes se regalarem num encanto sedutor. A arte deve, por um lado, agarrar esta riqueza onipresente do conteúdo para completar a experiência natural de nossa existência exterior; por outro lado, deve excitar aquelas paixões em geral para que as experiências da vida não nos deixem insensíveis e então possamos alcançar a predisposição para todos os fenômenos." (Hegel, 1835/1999, p. 66) [grifo meu]


Referências
Hegel, G.W.F. (1835/1999). Cursos de estética. São Paulo: Edusp.





Tuesday, July 19, 2011

ENSINO "SUPERIOR" 5

Esta ocorreu com uma professora, colega minha.
Ela escreve assim no final da resposta do aluno: "prolixo". O mesmo vem reclamar, bastante inconformado:
"Pro lixo, professora? Minha prova merece o lixo, professora?"

ENSINO "SUPERIOR" 4

Por incrível que pareça, não são estórias de ensino fundamental ou médio não...
O aluno, bem irritado:
"Mas professora, é óbvio, evidente, não está vendo não: 2,17 é maior do que 2,7!"

ENSINO "SUPERIOR" 3

Durante uma aula, em uma universidade particular, um aluno é chamado à atenção pelo professor, pois estava conversando muito e atrapalhando o andamento da aula:
“O senhor queira por favor se retirar da sala, pois está atrapalhando a aula.”
O aluno resiste, dizendo que não vai sair, e argumenta:
“Eu estou pagando!”
“Está pagando... Bom, então vamos fazer as contas. Eu estou recebendo R$ 40,00 por esta aula, e aqui nesta sala temos cerca de 100 alunos. Se dividirmos R$ 40,00 por 100 alunos, isto equivale a um pagamento de 40 centavos por aluno, certo?”
O professor retira do bolso uma nota de um real, bem amassada e velha e a deposita na carteira do aluno, embolada, como se fosse o dinheiro de um bêbado perdido em final de noite:
“Aqui está seu dinheiro de volta: 40 centavos pela aula de hoje e mais 40 pela próxima aula. Ou seja, não venha também na próxima, você está dispensado. Ah, e pode ficar com o troco!” (os 20 centavos restantes).

Friday, July 08, 2011

Mendigo fashion-hippie retirando tesouro de dentro de si

Mendigo fashion-hippie, cabelos tingidos de vermelho, dançando seu techno mental, sem camisa, no sinal, do lado do Conjunto Nacional.
De repente, vejo-o de costas, parar e enfiar a mão dentro da bermuda, na bunda, se remexendo todo, como se, com muito esforço, retirasse dolorosamente algo de dentro de si, pela bunda. Retirou, levou ao nariz, aos olhos, à boca, e novamente, contemplando esplêndido, com os braços estendidos no horizonte a observar atônito algo que simbolicamente se parecia com uma pedra preciosa ou diamante, em postura épica de descobridor. E assim, após, suponho, grande descoberta, pôs-se a pular freneticamente de alegria, como alguém que tivera marcado o gol decisivo em final de campeonato mundial!

Friday, July 01, 2011

Loucos 8 (Você tá louco?)


Certo dia cruzei com alguns pacientes psiquiátricos, internados, os ditos loucos. Tomavam sol. Um deles veio até mim e eu perguntei: "Você não vai tomar sol não?". E ele respondeu, na lata: "Você tá louco? Isso é sol de meio dia! Sol só até às 10 hs da manhã e depois das 4 hs da tarde!".

Loucos 7 (Dando a louca no cobogó)


Houve uma doida, em minha época de moradia, na Colina, na UnB, que em certo dia discursava assim, durante horas, escondida em sua área de serviço: "sua mãe não vale nada, seu pai também, sua irmã é uma vadia...". Presumimos: ela está falando isso tudo, há horas, para seu marido. Mas, de repente, tudo mudou. Ela passou gritar muito alto, assim: "covarde!! covarde!! canalha!! covarde!!". Presumimos, outra vez: o cara não aguentou mais e lhe meteu um safanão.
Aí, do nada, um doido, de outro prédio, resolveu se comunicar com ela assim: "Coríntians!".
E não é que ela saiu das profundezas de sua revolta atávica para responder assim, de forma meio torta: "Palmeiras...".
Tem cada doido, hein...

Friday, June 17, 2011

"Eu era feliz e não sabia"?


“Eu era feliz e não sabia”. Sempre achei essa frase meio tola. Por quê? Porque, depois que passou, depois que os males já foram resolvidos, depois que ficaram para trás, sinto que tendemos a superestimar a alegria passada e a subestimar a dor de ontem, hoje já resolvida. Nostalgia, é isso. Coisa de gente triste e masoquista: coleção de lembranças boas para lamentar o presente, para maltratá-lo e desvalorizá-lo ainda mais. Está ruim, está sofrendo? Comece a comparar com o que já foi, e que foi melhor, para ficar (o presente) pior ainda.
Nostalgia “é a falta do passado, na medida em que houve. Distingue-se da lamentação (falta do que não foi). Opõe-se à gratidão (a lembrança reconhecida do que ocorreu: a alegria presente do que foi) e à esperança (a falta do porvir: do que talvez venha a ser). Tendo a pensar que a nostalgia, desses quatro sentimentos, é o primeiro, e que toda esperança, especialmente, nada mais é que a expressão – ou o remédio imaginário – de uma nostalgia prévia. Seria preciso reler Platão e Santo Agostinho, desse ponto de vista, à luz de Freud. E reler também Epicuro: veríamos neles que a gratidão é o único remédio verdadeiro contra a nostalgia” (Comte-Sponville, 2003, p. 419)
Ou, ainda com o pensamento de Comte-Sponville, porém em outro texto, em seu “Pequeno tratado das grandes virtudes” (2000):
“A gratidão se regozija com o que aconteceu, ou com o que é; ela é, portanto, o inverso do arrependimento ou da nostalgia (que sofrem com um passado que foi, ou que não é mais), como também da esperança ou da angústia, que desejam ou temem (desejam e temem!) um futuro que ainda não é, que talvez nunca seja, mas que as tortura com sua ausência” (p. 150).
Marcel Pagnol nos ajuda no arremate: "A razão pela qual algumas pessoas acham tão difícil serem felizes é porque estão sempre a julgar o passado melhor do que foi, o presente pior do que é, e o futuro melhor do que será". Pessimismo em relação ao presente, como já discuti aqui, é uma grande furada. É mais seguro o otimismo no presente, a gratidão (ver o lado bom, dar valor ao que se tem), do que lançá-lo faminto ao futuro, inflado de desejos acerca do que ainda não existe.
Concluindo, em termos psicanalíticos, aproveitando que Comte-Sponville cita Freud, é até mesmo mais comum o contrário. É mais comum, por uma questão de proteção, de sobrevivência (e também por falta de maturidade, discernimento), somente nos darmos conta da intensidade dolorosa de certos sofrimentos depois que já passaram, invertendo-se assim o jargão: “Eu era infeliz e não sabia”.

Referências
Comte-Sponville, A. (2000). Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes.
Comte-Sponville, A. (2003). Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes.


Sunday, June 05, 2011

“Se Deus não existisse, tudo seria permitido”?



Coloquei, como podem ver, as aspas antes do ponto de interrogação. Por quê? Porque esta ideia é mais comumente enunciada em sentido afirmativo. Há quem a atribua a Nietzsche e há quem a atribua a Ivan Karamazov, personagem de “Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski. Pretendo me concentrar na principal implicação dessa ideia: a de que a moral deixa de existir com a inexistência de Deus; a de que não podemos sobreviver, enquanto sociedade ou civilização, sem religião. Fui buscar algum esclarecimento em Comte-Sponville. Para ele não há relação necessária entre uma coisa e outra:
“Não muda em nada, tampouco, ou em quase nada, a moral. Não é porque você perdeu a fé que vai de repente trair seus amigos, roubar ou estuprar, assassinar ou torturar! “Se Deus não existe, tudo é permitido”, diz um personagem de Dostoiévski. Claro que não, já que eu não me permito tudo! A moral é autônoma, mostra Kant, ou não é moral. Quem só se impedisse de matar por medo de uma sanção divina teria um comportamento sem valor moral: seria apenas prudência, medo do policial divino, egoísmo. Quanto a quem só faz o bem para a sua salvação, não faria o bem (já que agiria por interesse, e não por dever ou por amor) e não seria salvo. É o ápice de Kant, da Luzes e da humanidade: não é porque Deus me ordena alguma coisa que está certo (porque nesse caso poderia ter sido certo, para Abraão, matar seu filho); é porque uma ação é boa que é possível acreditar que ela é ordenada por Deus. Não é mais a religião que funda a moral; é a moral que funda a religião. É onde começa a modernidade. Ter uma religião, precisa a Crítica da razão pura, é “reconhecer todos os deveres como mandamentos divinos”. Para os que não têm ou deixaram de ter fé, já não há mandamentos, ou antes, os mandamentos já não são divinos; restam os deveres, que são os mandamentos que impomos a nós mesmos.” (Comte-Sponville, 2002, p. 46-47)
Ele enfatiza que nenhuma sociedade vive sem fidelidade, sem compromisso entre as partes. Somos fiéis ao que nos propomos, pois somente assim é possível viver. Como animais sociais, dependemos profundamente uns dos outros. A moral é um fator fundamental de sobrevivência, seja ela religiosa ou laica. Ela funda e é anterior à religião, como a qualquer concepção acerca de sua origem. A ausência de fundamentos morais é um risco, tanto para a sobrevivência do indivíduo quanto de seu grupo.
E o que dizer então da modernidade, a qual ele mesmo cita nesta passagem? O que estamos fazendo há cerca de 500 anos, no mundo ocidental, não é exatamente isso, tentando organizar a vida em sociedade sem se recorrer à religião? Eis a laicidade: julgar o que é bom e o que é mau por meio do debate racional, levando em conta os contextos específicos das dificuldades e conflitos em questão. Ou seja, há cerca de 500 anos estamos construindo um mundo que busca deixar religião e argumentos de autoridade (o famoso “porque está escrito” neste ou naquele livro sagrado) do lado de fora deste debate. Quem irá construir nossa moral somos nós, com base geralmente no objetivo de diminuir a cota de sofrimento no mundo como um todo.
Em outras passagens deste belo livro, ele sugere que em religiões (ou sabedorias) como o budismo, taoísmo e confucionismo, por exemplo, não existe a figura de Deus, de um criador transcendente, e nem mesmo o cultivo da fé. Nestas tradições qualquer coisa parecida com a fé é evitada. Acreditar, esperar pelo melhor, sempre, que ele aconteça, apesar de todas as adversidades, não faz parte dos ensinamentos destas doutrinas. Trata-se mais do cultivo do desapegar-se: não lamentar o passado e não esperar nada do futuro. E, portanto, se não se espera nada do futuro, não há fé. Ou seja, trata-se mesmo de não ter fé, de evitá-la. Nesta perspectiva, ela é considerada um mal a ser evitado.
Também cabe citar o pensamento de Michel Onfray. Em seu “Tratado de ateologia” ele inverte o enunciado. Seria, segundo ele, o contrário: se Deus existisse, tudo seria permitido. Em nome do Bem (de um bem absoluto), na história, geralmente se fez o pior. Religiões e morais, as quais se tomaram por absolutas e únicas, negando violentamente todo e qualquer possibilidade de diferença e diversidade, cometeram as maiores atrocidades da história. Em nome de Deus, de um um bem absoluto e inquestionável, tudo vale, tudo é permitido. Tudo é permitido para defender o nome dele, para defender o que é inquestionavelmente bom.
Sem dúvida, por esse prisma, fica até meio assustador. Conceber a existência de algo absolutamente bom pode justificar qualquer ato ou violência em sua defesa. Por outro lado, se houvesse de fato algo absolutamente bom, será que este algo precisaria de nossa defesa? Se Deus existe e é absolutamente perfeito e bom, ele não carece que o defendamos, que lutemos por ele, ou qualquer coisa similar.
Numa concepção mais aristotélica, Deus, como primeiro motor imóvel de tudo, não seria comovido nem locomovido por nada. A consequência lógica é que seria uma entidade fora do universo (ex-machina), totalmente indiferente, por exemplo, à realidade e sofrimento dos seres vivos. Deus, nesta concepção, “viveria” somente de si mesmo. Todo resto somente teria sentido e existiria em função dele. Todo o resto, imperfeito, tenderia a ele, tenderia à sua perfeição. Tudo se movimentaria na direção de Deus e em amor a ele, o qual, por sua vez, sendo absolutamente perfeito, “viveria” somente de si mesmo.
Este tipo de concepção, ao meu ver, convoca uma espiritualidade mais ativa e alinhada com os princípios modernos. Pois não se trata de esperar por Deus, de pedir sua ajuda, chamá-lo, ou qualquer coisa similar a imaginá-lo como uma entidade pessoal. Deus, neste sentido, não é alguém. É a fonte de tudo, sem corpo, sem individualidade. Está mais para algo do que para alguém. É também próximo do Deus de Spinoza, o qual, por sua vez, muito se assemelha à própria natureza, a totalidade. E assim Comte-Sponville pergunta: e isso não seria então a própria natureza?

Referências:
Comte-Sponville, A. (2007). O espírito do ateísmo: introdução a uma espiritualidade sem Deus.  São Paulo: Martins Fontes
Onfray, M. (2007). Tratado de ateologia. São Paulo: Martins Fontes.

Friday, June 03, 2011

Prazer sem esforço pode ser fatal



Obter prazer sem esforço prévio não é natural e pode ser fatal. Este alerta é de certo modo antigo e remonta aos estóicos. Esta grande escola filosófica da Antiguidade valoriza a virtude e o esforço. Para o estoicismo, a felicidade deve ser alcançada pelo esforço, e o prazer deve ser mais uma conquista do que um produto gratuito de nossa rotina.
Esta concepção, contudo, não se restringe aos ensinamentos estóicos. Russell, em seu livro “A conquista da felicidade”, diz que “a passividade física durante a excitação é contrária ao instinto” (p. 62). Skinner faz distinções importantes entre ser agradável e fortalecedor. Ressalta que no mundo desenvolvido ocidental há uma ênfase muito grande em um certo cultivo gratuito de prazeres, os quais estariam desatrelados do fortalecimento de comportamentos importantes tanto para a sobrevivência saudável do indivíduo quanto da espécie humana.
Eduardo Giannetti, em seu livro sobre a felicidade, faz menção a um (segundo ele) “clássico” experimento, no qual ratos obtinham acesso irrestrito, e praticamente sem esforço algum, a uma estimulação direta em seus centros de prazer no cérebro, somente pressionando uma alavanca:
“Toda vez que ele aperta a tal alavanca por meio segundo, um eletrodo implantado no seu hipotálamo lateral solta uma pequena carga de eletricidade naquele ponto. O efeito disso é fazer com que o hipotálamo acione o circuito que libera o neurotransmissor dopamina, assim como ocorre quando o rato se alimenta ou copula. Ao pressionar a alavanca, portanto, o animal estimula diretamente o centro de prazer no seu cérebro, como se estivesse obtendo "comida elétrica" ou "sexo elétrico". A diferença é que agora o seu apetite é insaciável. O prazer da descarga elétrica é tão intenso e gratificante que o rato se desinteressa por tudo o mais, inclusive alimento e sexo, e passa a se autoestimular dia e noite, cerca de 3 mil vezes por hora, até o colapso por esgotamento.” (Giannetti, 2002, p. 156-157).
Neste sentido, não basta realizar desejos. A felicidade não pode ser traduzida em simples realização de desejos. Não basta fruir, ou experimentar o prazer de qualquer modo, gratuita e irrestritamente. Prazer gratuito e irrestrito é enfraquecedor, e pode ser fatal.

Referências: 
Giannetti, E. (2002). Felicidade. São Paulo : Companhia das Letras.
Russell, B. (1930/2001). A conquista da felicidade. Lisboa: Guimarães Editores.
Skinner, B. F. (1987), What is Wrong with Daily Life in the Western World? Em: Upon Further Reflection. Englewood Clifs (New Jersey): Prentice Hall, p.15-31

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Sunday, May 29, 2011

Sobre a tolerância religiosa (Comte-Sponville)



“Creio em Deus, porque senão seria muito triste”, disse-me um dia uma leitora. Isso, que por certo não é um argumento (“pode ser que a verdade seja triste”, dizia Renan), deve no entanto ser levado em conta. Eu ficaria zangado comigo mesmo se levasse a perder a fé quem dela necessita ou, simplesmente, quem vive melhor graças a ela. E estes são incontáveis. Alguns são admiráveis (reconheçamos que há mais santos entre os crentes do que entre os ateus; isso não prova nada quanto à existência de Deus, mas proíbe que se despreze a religião), a maioria dignos de estima. A fé deles não me incomoda nem um pouco. Por que eu deveria combatê-la? Não faço proselitismo ateu. Procuro simplesmente explicar minha posição, argumentá-la, e mais por amor à filosofia do que por ódio à religião. Há espíritos livres nos dois campos. É a eles que me dirijo. Deixo os outros, crentes ou ateus, às suas certezas." 

(Comte-Sponville, em “O espírito do ateísmo”, p. 19-20)

Saturday, May 14, 2011

Depressão e a perda da capacidade de amar


É conhecida a concepção de Freud, no clássico texto “Luto e melancolia” (1917), a qual relaciona a melancolia (e, de certo modo, a depressão) com a perda da capacidade de amar, entre outros atributos.
Esta consideração é fecunda. Por quê? Porque toca em um conceito muito aclamado, declamado, distorcido, comercializado, banalizado, multifacetado, paradoxal: o conceito de amor. Sem amor não há valor. O primeiro precede o segundo e lhe serve de condição. Só há valor se houver, antes, amor. A vida vale a pena? Para quem a está amando, enquanto está amando, certamente. A morte é uma ausência, negatividade. É um bem, um mal? Mal negativo para quem está gostando, amando sua vida. E bem negativo para o suicida, por exemplo.
Amor e desejo precedem o valor. Você gosta, deseja, porque é bom? Não. Na verdade é bom porque você gosta, deseja. Amor e desejo são anteriores ao valor. O bom é aquilo que é desejável. Onde há desejo, amor, há valor.
No caso do depressivo, como perde sua capacidade de amar? Tendo perdido seus objetos de amor; estando submetido a constantes ameaças e punições e não sendo capaz de se esquivar delas; ou por uma espécie de atrofia: sendo impedido de exercitar o amor ao que se ama.
O mundo do depressivo pode estar mergulhado em perdas ou alguma perda fundamental. Pode estar cercado de ameaças e punições, ou pode simplesmente estar recluso, paralisado, fechado para a vida, para o amor, seja por quais tipos de impedimentos for.

Podcast com comentários:

Friday, May 13, 2011

Existe livre-arbítrio?


Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda...
Cecília Meireles

A idéia de que existem escolhas absolutamente livres (o livre-arbítrio) me parece ingênua:

“Os homens imaginam ser livres porque têm consciência das suas volições e dos seus desejos, e não pensam, nem em sonho, nas causas pelas quais se dispuseram a desejar e a querer, por não terem o menor conhecimento delas” (Spinoza, citado por Comte-Sponville, 2002, p. 67).

“Embora seja verdadeiro que a democracia se baseia na escolha, é falso que a escolha se torna sem sentido ou impossível se não houver livre-arbítrio. A idéia de que a escolha desapareceria provém de uma noção excessivamente simplista da alternativa ao livre-arbítrio. Se, numa eleição, uma pessoa puder votar de duas formas, o voto que de fato ocorrer dependerá não apenas de sua história a longo prazo (proveniência, educação, familiar, valores), mas também de eventos imediatamente anteriores à eleição. As campanhas eleitorais existem precisamente por esta razão. Posso mudar de lado em função de um bom discurso, sem o qual eu votaria em outro candidato. Para que uma eleição tenha sentido, as pessoas não precisam ser livres; basta apenas que seu comportamento esteja aberto à influência e persuasão (determinantes ambientais de curto prazo)”. (Baum, 1999, p.31)

Somos mais livres do que os animais porque temos um eu, uma consciência que se reconhece como tal. Somos mais livres porque sabemos mais, temos mais informações sobre o mundo e sobre nós mesmos, logo mais poder de escolha. Isto nos torna mais livres, mas não absolutamente livres. Adotar a idéia de que estamos condenados inelutavelmente à liberdade, parece-me uma fascinação provocada pela ilusão que a própria condição de possuir um eu pode despertar, a ilusão de Narciso, que se entusiasma com a própria imagem e em seus labirintos se perde.

Nossas escolhas são sempre condicionadas a nossos contextos e limitações. A concepção de que existem escolhas absolutamente livres é uma ilusão de nosso próprio narcisismo.

É possível, por outro lado, nos sentirmos mais ou menos livres, conforme o contexto no qual estamos inseridos. Nossa ação no mundo sempre tem alguma função. O que não tem função tende a se extinguir. Agimos seja para obter algo que nos apraz, seja para nos afastarmos do que nos é aversivo.

Deste modo, há situações que produzem sensações de maior liberdade: quando agimos em função do que nos apraz. E há aquelas situações em que nos sentimos menos livres: quando agimos por dever, por medo, em função de ameaças; quando agimos para evitar algum mal.

Agir em função do que nos apraz tem nome: amor. Desse modo estamos agindo com amor, por amor. Onde há somente dever, não há amor. O que fazemos por dever, não fazemos por amor.

Comte-Sponville (2002) ajuda a finalizar:
“Ninguém nasce livre, torna-se livre. Pelo menos é o que penso, e que, por isso, a liberdade nunca é absoluta, nem infinita, nem definitiva: que somos mais ou menos livres e que se trata, é claro, de o sermos o mais possível.” (p. 74)

Referências
Baum, W.M. (1999). Compreender o Behaviorismo. Porto Alegre: Artmed.
Comte-Sponville, A. (2002). Apresentação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

Wednesday, April 13, 2011

Sobre escolher o paraíso dos tolos (Russell)




As pessoas dirão que, sem os consolos da religião, elas seriam intoleravelmente infelizes. Tanto quanto este argumento é verdadeiro, também é covarde. Ninguém senão um covarde escolheria conscientemente viver no paraíso dos tolos. Quando um homem suspeita da infidelidade de sua esposa, não lhe dizem que é melhor fechar os olhos à evidência. Não consigo ver a razão pela qual ignorar as evidências deveria ser desprezível em um caso e admirável no outro.


Bertrand Russell


Sobre a tolerância e a liberdade de expressão



‎"Ser tolerante significa que você tem que tolerar a intolerância, tendo que tolerar pessoas que não tem tolerância para com você"  -  Pat Condell




"O critério não é moral, aqui, mas político. O que deve determinar a tolerabilidade de determinado indivíduo, grupo ou comportamento não é a tolerância de que eles dão mostra (porque então todos os grupos extremistas de nossa juventude deveriam ter sido proibidos, o que só lhes daria razão), mas sua periculosidade efetiva: uma ação intolerante, um grupo intolerante, etc., devem ser proibidos se, e somente se, ameaçarem efetivamente a liberdade ou, em geral, as condições de possibilidade da tolerância.
Numa República forte e estável, uma manifestação contra a democracia, contra a tolerância ou contra a liberdade não basta para colocá-las em perigo; portanto, não há motivo para proibi-las, e seria uma falta de tolerância querê-lo. Mas, se as instituições estão fragilizadas, se a guerra civil está iminente ou já começou, se grupos facciosos ameaçam tomar o poder, a mesma manifestação pode se tornar um perigo verdadeiro; então pode ser necessário proibi-la, impedi-la, até pela força, e seria falta de firmeza ou de prudência renunciar a essa possibilidade." 
(Comte-sponville, A tolerância, Em: O pequeno tratado das grandes virtudes, Ed. Martins Fontes, p. 177- 178, 2000)

Saturday, April 09, 2011

Amor não correspondido é plantação de ódio no coração do rejeitados



Isso vale, obviamente, e até mais, para a paixão, a qual geralmente se refere ao narcisismo projetado no outro. Explico melhor. O narcisismo seria um amor excessivo a uma imagem que se tem de si. É interessante inclusive verificar a etimologia de narcisismo: narkos, a mesma de narcose; remete à torpor, entorpecimento. Ou seja, Narciso é um completo equivocado, pois está apaixonado por seu reflexo no lago. Está apaixonado por uma imagem, e nela se perde, se afoga. Ali perece. Perece no encantamento por algo que não é efetivo, por um reflexo. Agora imagine isso tudo, essa imagem (equivocada) de si mesmo projetada no outro.
Eis uma posição extremamente delicada para se estar: servir de alvo, de ponto de incidência do delírio, do encantamento do outro. O sujeito apaixonado irá projetar tudo o que pode e que não pode na pessoa por quem nutre sua paixão.  Se houver correspondência, ótimo, vive-se a boa paixão, e assim se flutua, se vive o melhor desse sentimento que nos arrebata.
Porém, se não houver correspondência, se houver indelicadeza com a pessoa apaixonada, aí o bicho pode pegar feio, rosnando, babando e mostrando os dentes. Qualquer movimento pouco pensado, qualquer “não”, dito sem muito cuidado, qualquer desatenção que possa parecer desdém, podem se transformar em atos que semeiam o ódio.
Todo o cuidado é pouco quando se trata de como se lidar com alguém que está apaixonado. O amor do apaixonado é sempre esfomeado e insano na direção de se apossar do objeto de sua paixão. É amor voraz, de posse, de consumação. “Ou você é meu ou de mais ninguém”. É o amor que mata. É energia concentrada, pronta para explodir. Todo cuidado é pouco, pois as paixões são inflamáveis.

Sunday, April 03, 2011

Antigas prosas poéticas que morreriam na gaveta (1)


Vaguei por entre os dias moribundos em que me alimentava de vazios. Sou uma alma que do coração habita seu lado morto e frio. Corri para o seu abraço. Abracei o abismo, meu corpo em pedaços. Sou uma ponte pro nada, um sorriso sem dentes, vela apagada. Bicho, parto pro mato, vôo sem asas, derreto no asfalto. Mudo me esqueço, saio sem rumo, começo pelo tropeço, imundo e sem prumo, vagabundo sem endereço, feito pelo avesso, no erro aconteço.
Sou essa teimosia da sobrevivência. Sou essa praga que insiste em viver. Sou esse monte de carne e ossos amontoados no sofá que ainda teima em comer e assistir televisão. Mas, mesmo quase morto, ainda quero um pedaço sorridente do sol da manhã e do canto dos pássaros que a abrigam em sua música. Cada pedaço meu é feito de um equívoco. Sou um erro ambulante que se alegra e sorri. Desafio a física da felicidade e ainda posso dizer que tenho o gozo dessa vida besta.
Não tenha pena de mim, meu amor. Pois minha casa é a alegria, este castelo no ar à prova de dor.

Wednesday, March 30, 2011

Algumas formalidades e suas contradições




Quando criança eu tinha uma relação conflitiva com comemorações de aniversário. Nestas ocasiões as pessoas nos abordam e dizem assim: “Parabéns! Muitas felicidades, muitos anos de vida!”.  E eu não entendia nada. Como assim, parabéns? Que mérito tenho eu? O que fiz para receber parabéns? Não fiz nada, nada de relevante. Somente estou vivo e isso é, em boa medida, obra do acaso (?). Parabéns porque ainda estou vivo e isso não é culpa minha? Que absurdo. Eu não percebia minha vida como uma guerra, como uma batalha contra a morte. Então por que os parabéns? Pra que tanta alegria?
Eu achava esse cumprimento meio bobo, meio sem noção, assim como a maior parte dos cumprimentos e artifícios da polidez: “Olá, tudo bem com você?”. Eu não estava interessado em saber como que a pessoa estava. Pra que perguntar isso se não há interesse? Que falsidade é essa? E depois ainda teria, talvez, de ouvir conversa. Esse era meu maior medo: vai que o sujeito começa a reclamar da vida. Só depois fui saber que é gente chata que assim o faz. Você manda um “tudo bem?”, e o cara, sem noção que é, responde e começa a reclamar da vida. Só depois fui saber que a melhor resposta para a pergunta “tudo bem?” é, vejam só o absurdo, a própria pergunta retornando em eco acéfalo: “tudo bem?”.
Mas voltemos ao tema central: o “bendito” aniversário. Ok, recebido o cumprimento de mão (alguém pega na sua mão e elas ficam balançando sozinhas no ar), pode também ter um abraço - ah, e isso pra mim tinha mais sentido. E pode ser também que haja beijos nas bochechas. Sim, isso, beijos: pequenas chupadinhas (ou pseudochupadinhas) discretas que as pessoas em nossa cultura costumam aplicar umas nas outras, as quais, por convenções de polidez, costumam ser nas bochechas ou nas costas das mãos - o que hoje, por sinal, está em desuso.
Nossa, e veja só que coisa engraçada é o beijo como cumprimento. Trata-se de uma imitação barata de uma chupada, de um ato sexual. Eu fico imaginando outros tipos de convenções e reverências solenes a se inspirar em atos sexuais. Fico imaginando que tipo de reverência solene teria como inspiração o movimento dos quadris durante a penetração. O papa chega, beijamos sua mão e também fazemos um sutil movimento com os quadris, o qual toca levemente o corpo, o rosto, mão ou os pés da santidade em nossos genitais, por exemplo. Que interessante.
Mas, pelo amor de Deus, preciso finalizar logo este texto com o tema principal, o aniversário. Dão-nos parabéns, balançam nossa mão no ar, nos envolvem com abraços, e geralmente recebemos beijos nas bochechas - e eu sempre limpava minhas bochechas depois disso. Se minha mãe vivia dizendo pra evitar secreções alheias, a saliva dos outros, principalmente, como fazer com esse monte de beijos? Depois dos beijos, do principal da festa e dos presentes, vinha o ritual derradeiro: cantar parabéns. A letra da música é completamente simplória e infantil. É uma música imbatível que faz a felicidade de muita gente nestas comemorações.
Enfim, congratulações e música tolas são o pretexto para as pessoas se reunirem, comemorar a existência do aniversariante e o amor que se tem por ele, sendo este, por exemplo, até mesmo um animal de estimação. Sopram-se velas e batem-se alegremente palmas bobas, porém no contexto da simples alegria em torno do amor que se tem por alguém. Formalidades são sempre convenções repletas de contradição. Elas contudo não apagam a beleza e a simplicidade de reuniões que celebram ritualisticamente o amor em sua forma mais singela. Coisas que eu não compreendia de modo algum em minha infância cercada de perguntas, mistérios, sonhos e medos abissais.