Friday, May 13, 2011

Existe livre-arbítrio?


Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta,
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda...
Cecília Meireles

A idéia de que existem escolhas absolutamente livres (o livre-arbítrio) me parece ingênua:

“Os homens imaginam ser livres porque têm consciência das suas volições e dos seus desejos, e não pensam, nem em sonho, nas causas pelas quais se dispuseram a desejar e a querer, por não terem o menor conhecimento delas” (Spinoza, citado por Comte-Sponville, 2002, p. 67).

“Embora seja verdadeiro que a democracia se baseia na escolha, é falso que a escolha se torna sem sentido ou impossível se não houver livre-arbítrio. A idéia de que a escolha desapareceria provém de uma noção excessivamente simplista da alternativa ao livre-arbítrio. Se, numa eleição, uma pessoa puder votar de duas formas, o voto que de fato ocorrer dependerá não apenas de sua história a longo prazo (proveniência, educação, familiar, valores), mas também de eventos imediatamente anteriores à eleição. As campanhas eleitorais existem precisamente por esta razão. Posso mudar de lado em função de um bom discurso, sem o qual eu votaria em outro candidato. Para que uma eleição tenha sentido, as pessoas não precisam ser livres; basta apenas que seu comportamento esteja aberto à influência e persuasão (determinantes ambientais de curto prazo)”. (Baum, 1999, p.31)

Somos mais livres do que os animais porque temos um eu, uma consciência que se reconhece como tal. Somos mais livres porque sabemos mais, temos mais informações sobre o mundo e sobre nós mesmos, logo mais poder de escolha. Isto nos torna mais livres, mas não absolutamente livres. Adotar a idéia de que estamos condenados inelutavelmente à liberdade, parece-me uma fascinação provocada pela ilusão que a própria condição de possuir um eu pode despertar, a ilusão de Narciso, que se entusiasma com a própria imagem e em seus labirintos se perde.

Nossas escolhas são sempre condicionadas a nossos contextos e limitações. A concepção de que existem escolhas absolutamente livres é uma ilusão de nosso próprio narcisismo.

É possível, por outro lado, nos sentirmos mais ou menos livres, conforme o contexto no qual estamos inseridos. Nossa ação no mundo sempre tem alguma função. O que não tem função tende a se extinguir. Agimos seja para obter algo que nos apraz, seja para nos afastarmos do que nos é aversivo.

Deste modo, há situações que produzem sensações de maior liberdade: quando agimos em função do que nos apraz. E há aquelas situações em que nos sentimos menos livres: quando agimos por dever, por medo, em função de ameaças; quando agimos para evitar algum mal.

Agir em função do que nos apraz tem nome: amor. Desse modo estamos agindo com amor, por amor. Onde há somente dever, não há amor. O que fazemos por dever, não fazemos por amor.

Comte-Sponville (2002) ajuda a finalizar:
“Ninguém nasce livre, torna-se livre. Pelo menos é o que penso, e que, por isso, a liberdade nunca é absoluta, nem infinita, nem definitiva: que somos mais ou menos livres e que se trata, é claro, de o sermos o mais possível.” (p. 74)

Referências
Baum, W.M. (1999). Compreender o Behaviorismo. Porto Alegre: Artmed.
Comte-Sponville, A. (2002). Apresentação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

1 comment:

Rita Ribeiro said...

"Nossas escolhas são sempre condicionadas a nossos contextos e limitações."

Fato.

Gostei!
Beijos, Adriano!