Saturday, April 09, 2011

Amor não correspondido é plantação de ódio no coração do rejeitados



Isso vale, obviamente, e até mais, para a paixão, a qual geralmente se refere ao narcisismo projetado no outro. Explico melhor. O narcisismo seria um amor excessivo a uma imagem que se tem de si. É interessante inclusive verificar a etimologia de narcisismo: narkos, a mesma de narcose; remete à torpor, entorpecimento. Ou seja, Narciso é um completo equivocado, pois está apaixonado por seu reflexo no lago. Está apaixonado por uma imagem, e nela se perde, se afoga. Ali perece. Perece no encantamento por algo que não é efetivo, por um reflexo. Agora imagine isso tudo, essa imagem (equivocada) de si mesmo projetada no outro.
Eis uma posição extremamente delicada para se estar: servir de alvo, de ponto de incidência do delírio, do encantamento do outro. O sujeito apaixonado irá projetar tudo o que pode e que não pode na pessoa por quem nutre sua paixão.  Se houver correspondência, ótimo, vive-se a boa paixão, e assim se flutua, se vive o melhor desse sentimento que nos arrebata.
Porém, se não houver correspondência, se houver indelicadeza com a pessoa apaixonada, aí o bicho pode pegar feio, rosnando, babando e mostrando os dentes. Qualquer movimento pouco pensado, qualquer “não”, dito sem muito cuidado, qualquer desatenção que possa parecer desdém, podem se transformar em atos que semeiam o ódio.
Todo o cuidado é pouco quando se trata de como se lidar com alguém que está apaixonado. O amor do apaixonado é sempre esfomeado e insano na direção de se apossar do objeto de sua paixão. É amor voraz, de posse, de consumação. “Ou você é meu ou de mais ninguém”. É o amor que mata. É energia concentrada, pronta para explodir. Todo cuidado é pouco, pois as paixões são inflamáveis.

1 comment:

Tia Lay said...

Excenlente texto.

Ao meu ver, o amor, ainda mais nos dias atuais, se faz mais como uma construção a uma aquisição.
Não dá para viver uma vida "A espera de um milagre" que o outro o ame a qualquer custo.
Vale sim, viver a busca de alguém que em primeiro momento, simplesmente seja legal. Posteriormente se sinta bem com aquela presença e assim por diante.