Friday, October 14, 2016

O quadrante de Benatar e o antinatalismo



Essa imagem retrata o quadrante proposto por David Benatar, filósofo, professor da Universidade da Cidade do Cabo, autor do livro “Better Never to Have Been” (“Melhor nunca ter existido”).

Segundo esse autor o advento da consciência insere, na existência, uma desvantagem lógica em relação à inexistência. Para os seres vivos que têm consciência, os seres sencientes, seria melhor não existir, pois o sofrimento predomina sobre o prazer. Se o sujeito x existe, a presença de sofrimento é ruim (-), e a presença de prazer é boa (+). Logo o saldo é zero. Porém, na inexistência, inexiste o sofrimento, e isso é bom (+), assim como inexiste prazer, e isso não é ruim (0). Ou seja: a inexistência é, em termos lógicos, uma vantagem em relação à existência.

Esse é, porém, somente o quadrante lógico que compara a existência com a inexistência. David Benatar tenta demonstrar mostrar que, além de haver essa vantagem lógica da inexistência, há também, durante a própria vida, o predomínio do sofrimento. Ou seja: há mais sofrimento do que prazer na vida. A vida senciente é essencialmente uma vida de sofrimentos, uma vida ruim.

Confesso que ainda não fui capaz de ler todo seu livro, mas pude ouvir algumas conferências e debate dos quais ele participou. Pelo que percebi, ele tenta demonstrar que há um predomínio do sofrimento na existência dos seres sencientes. Desso modo a consciência seria então um erro enorme da natureza, o qual vem produzindo mais danos do que benefícios, o qual vêm produzindo uma história repleta de sofrimentos no transcorrer da vida em nosso planeta.

Viver é basicamente sofrer, e muitos de nós continuamos vivendo em função de algumas migalhas, de algumas miragens de prazer. E, para Benatar, nem faz muito sentido afirmar que sofrimento e prazer são os dois lados de uma mesma moeda, pois há muitos exemplos de seres que têm uma vida preenchida, repleta de sofrimento, com pouquíssimos espaços para experiências de prazer. Encontramos muitos desses exemplos, muito facilmente, em animais de criação para o consumo humano. Boa parte, senão a maioria desses animais (criados e mortos aos bilhões todos os anos) costumam ter uma vida que é predominantemente sofrida. Portanto, nesses casos, sofrimento e prazer não são os dois lados de uma mesma moeda: trata-se de uma moeda que tem somente uma face, a face do sofrimento.

O surgimento da consciência criou o prazer, porém criou o sofrimento, e esse pesa muito mais na conta. A existência consciente (senciente) seria uma existência eminentemente cruel e injusta. Portanto procriar, ou colocar mais seres conscientes nesse mundo, seria imoral, antiético. Na perspectiva de Benatar ninguém pediu para nascer, e ninguém merece nascer, porque essa vida é fundamentalmente ruim. Ele é então um filósofo que propõe a perspectiva antinatalista.

Nessa perspectiva não há muito o que fazer com quem já nasceu. A perspectiva de Benatar é calcada em valores. Ele deixa claro de que o antinatalismo não é uma perspectiva niilista, de que nada tem valor. Para esse autor os seres vivos conscientes não devem morrer, e ele não faz também uma apologia ao suicídio, pois acredita que intentar para essa possibilidade gera mais sofrimento do que continuar tentando viver da melhor forma possível. Desse modo seria então mais ético, para quem já está vivo, tentar não procriar para não perpetuar o legado da miséria dos seres sencientes.
Sim, Benatar acredita que seria melhor nós, seres sencientes, nunca termos existido. Seria melhor que o planeta continuasse sendo dominado por seres não sencientes, desprovidos de sistema nervoso, como bactérias ou plantas, por exemplo.

Ele acredita que os únicos que poderiam escolher a inexistência, a qual acabaria sendo alcançada de forma paulatina, por meio da não procriação, seriam os seres humanos. Mas a minha objeção a essa perspectiva é que isso não resolverá o problema da existência do sofrimento na natureza, pois esse sempre esse existirá. Desde que surgiu a vida consciente, há centenas de milhões de anos, que existe o sofrimento imperando (se é que ele de fato impera), e isso não deixará de existir com a extinção da espécie humana. Aliás, talvez a própria espécie humana é que seja uma possibilidade mais consistente da minoração significativa dos sofrimentos das espécies sencientes que existem e ainda existirão.

Concordo que a espécie humana por enquanto tem mais contribuído para aumentar esse sofrimento. Isso pra mim é um fato. Porém há ainda a possibilidade de que nossa espécie contribua significativamente para a diminuição dos sofrimentos do planeta como um todo. Há inclusive um filósofo britânico, David Pearce, o qual afirma que no futuro, com uma série de desenvolvimentos tecnológicos, teremos a real possibilidade de acabar com todo e qualquer sofrimento, de todas as espécies de seres vivos, do planeta.

Finalizando, reitero: a proposta antinatalista não resolve o problema do sofrimento entre as espécies sencientes de nosso planeta, nem impede o surgimento futuro de novas espécies humanas, as quais novamente imporiam ciclos de sofrimentos mais intensos para si mesmas e a outras espécies. Por ora é assim que concebo: prefiro me filiar a propostas transumanistas-hedonísticas como a de David Pearce.

1 comment:

MrRaahc said...

Prazer e sofrimento têm pesos iguais ou diferentes? Se tiverem pesos iguais, faz sentido o pensamento do autor... Todavia, o peso de cada um, na minha opinião é relativo. Por exemplo, o êxito numa competição, a aprovação num concurso, a conquista de um amor, suplanta todo o tempo sofrido de preparação para o sucesso final. Além disso, prazer e sofrimento têm fundos culturais além dos individuais: o que é sofrimento para um, ou em algum lugar, pode ser prazer em outro contexto ou para outrem. O ponto de vista da própria pessoa, mercê de seu amadurecimento, pode mudar o balanço que faz de sua vida para o polo positivo. Grande abraço.