Sunday, September 05, 2010

Com Deus não se brinca?



Em uma sociedade “temente” a Deus como a nossa, poucos ousam fazer tal pergunta. Nesse contexto, para a maioria, a resposta já vem pronta: “óbvio que não”. E é muito interessante prosseguir com o questionamento. Por que não? Por que não posso brincar com Deus? Por que não posso fazer piadas com o nome de Deus?

Uns dirão: “porque é sagrado”. E tudo o que é sagrado não pode ser tocado, violado, explorado ou investigado. Deve permanecer em total mistério, livre de perguntas ou curiosidade racional. Outros dirão: “porque trata-se de ter respeito”. E respeitar é não questionar? Não imaginar? Não brincar? Não suspender um pouco a realidade e testar os limites da forma mais segura possível: brincando?
Sim, porque o brincar está presente inclusive entre os animais não humanos. Até pássaros brincam. Trata-se de lutar sem estar lutando de verdade, de matar sem estar matando de verdade; de morrer sem estar morrendo de verdade. O brincar é instintivo e tem uma função biológica muitíssimo importante: conhecer sem se expor diretamente aos perigos da realidade. É uma forma de investigação, de exploração do mundo e de suas possibilidades. Brincando, testamos e ensaiamos para a realidade. Brincando, conhecemos mais, testamos mais.
Mas, voltemos à Deus. Ele não é perfeito? E o que é o perfeito? É aquilo a que nada falta. Nada falta à Deus. Então também não lhe falta bom humor, esportiva. Se Deus é perfeito, também tem bom humor, também sabe levar na brincadeira. Também sabe distinguir brincadeira de realidade. Ora, então por que não brincar com Deus?
A expressão “não brinque com” pode também remeter inconscientemente a “não brinque com fogo” ou qualquer coisa similar. Ou seja, se algumas pessoas pensam que não se pode brincar com Deus, isso deve-se às possíveis conseqüências aversivas da brincadeira. “Não brinque com Deus, pois você pode se dar mal”. Como assim? Ele pode castigar? E as pessoas que temem tanto assim a Deus, sem o sabê-lo, costumam ser as mesmas que vivem a dizer que Deus não castiga. Se não castiga, por que o temem tanto?
Penso que há alguns motivos básicos para não se brincar com alguma coisa ou alguém:
1. Essa coisa ou alguém podem ferir você. São poderosos e perigosos. São fortes, explosivos, impulsivos, vingativos. “Não brinque com fogo, pois você pode se queimar, se machucar seriamente”. Aplicando esse argumento a Deus: não brinque com ele, ele pode lhe ferir, lhe castigar”. E por que Deus iria ferir alguém que brincasse com ele? Seria revide, troco? Deus também revida? Também se defende e se vinga? É isso?
2. Essa coisa ou alguém pode ser ferido por você. Ou seja, não devemos brincar com o que é muito frágil e pode se quebrar. Então fica assim: “Não brinque com Deus, pois você pode machucá-lo”. E Deus é assim tão frágil?
3. Essa coisa ou alguém é completamente desconhecida. Trata-se do “não brinque (ou não converse) com estranhos”. Se você se julga, como muitos, íntimo de Deus, não há motivo para não brincar. O argumento é mais ou menos assim: “se brinco com meus amigos, pais, irmãos, com todos que me são íntimos, por que eu não brincaria com Deus? Se não brinco, é por que ele me é totalmente estranho?”.
4. Essa coisa ou alguém carece do mínimo inteligência. É incapaz de diferenciar brincadeira de realidade. Deus do céu, até os animais percebem essa diferença. Quando você corre atrás de seu cachorro ou rola com ele no chão, brincando, ele, mesmo sendo irracional, percebe que não se trata de um combate verdadeiro. Tanto que não lhe morde pra valer. E por que Deus não teria uma inteligência tão grande quanto a do seu cachorro de estimação? Fique tranquilo, pois ele com certeza sabe que é somente brincadeira.
Concluindo. Com Deus não se brinca? Se você não acredita nele e vive em uma sociedade livre e democrática, você pode, entre os seus, brincar tranquilamente. O estado não o executará em praça pública por isso. E nenhum conhecido ficará ressentido com isso, pois estará “entre os seus”, como sublinhei. Contudo, estando entre crentes (aqueles que acreditam em Deus), pode ser que você seja hostilizado, pois religião é um assunto deveras inflamado, uma ferida que já custou muitas e muitas guerras e milhões de mortos na face da Terra. Portanto, não custa ter cuidado.
Por outro lado, se você acredita que Deus castiga, que pode magoá-lo com alguma brincadeira, se não se julga íntimo dele, se acha que ele não é perfeito (pois lhe falta esportiva), ou que não entenderá a piada, é melhor mesmo não brincar com o todo poderoso.


Tuesday, August 10, 2010

A morte e o medo de ser esquecido



O que nos faz ter tanto apego à vida ou a ser lembrado? Mesmos os suicidas, de modo geral, não desejam ser esquecidos. E todos seremos esquecidos, mais dia menos dia. Daqui uns 100 anos a maioria das pessoas que hoje vive estará completamente esquecida. Não haverá mais qualquer rastro nosso por sobre a Terra. Essa é a regra.
As pessoas falam de como desejam ser sepultadas, de como querem ser lembradas. Mas se esquecem de que serão esquecidas.  E para que tanto desejo disso ou daquilo, se já não mais existirão? É o apego, o amor próprio, o qual revela seus tentáculos imaginários para além da vida. E sempre o desejo de não ser esquecido, esse mandamento irracional e desmedido do amor próprio, de nosso egoísmo fundamental.
Trata-se do sentido estóico da vida: perseverar nela. O sentido da vida é a perseveração nela. Todo ser vivo luta por se manter vivo. A vida seria assim compreendida como o conjunto de resistências à morte. E todas as resistências que levantamos inclusive para desesperadamente afirmar a existência improvável de nossa eternidade. Amor próprio, somente ele talvez explique os absurdos em que acreditamos para não aceitarmos nossa própria finitude absoluta: haja narcisismo.  Não acredito nesse sentido estóico para a vida. Penso que o princípio do prazer, concepção epicurista, é prevalente. Todo ser vivo, o qual possui percepção, busca prazer ou foge da dor. A perseveração e todas suas derivações são nada mais do que ressonâncias de nosso próprio egoísmo fundamental.
Acho mais madura e humilde a concepção de que com o fim da vida, tudo acaba. De que tenho começo, meio e fim. Por que eu seria infinito, dotado de alma eterna, e os protozoários e vermes não? Arrogância especista. Humanismo infantil. Por que o ser humano seria assim privilegiado, mais especial do que todas as outras espécies? Então somos eternos e o resto não? Como assim? Se o sofrimento iguala todas as espécies que são sensíveis, o que nos faria assim tão diferentes e melhores? A racionalidade? Sim, somente se for para nos autoenganar acerca de nossos próprios limites enquanto seres vivos, seres que morrem, que acabam.
Contudo, compreendo um pouco até onde vai nosso amor próprio, nossa paixão cega por nós mesmos, nosso narcisismo. Como aceitar que nossa vida e a de quem amamos, que tanta beleza, complexidade, singularidade e profundidade possa se desfazer? Pois é exatamente isso o que sentimos em relação a nós mesmos e a quem amamos: beleza, complexidade, singularidade e profundidade. Somos humanos, seres portadores de consciência reflexiva (sabemos que existimos e que morremos) e somos também seres sociais. Nossa existência assim concebida e a presença do outro são vividas em estado de imensidão.
Psicologicamente somos vastidão e profundidade incalculável para nós mesmos e para quem nos ama. E é amando e se envolvendo com pessoas que sentimos a presença constante do infinito na identidade singular que cada ser humano possui e carrega consigo. Cada um é um. Ninguém é igual a ninguém. Parafraseando Drummond, todo ser humano é um estranho, absurdo e infinito ímpar. A singularidade da existência de cada um é uma ressonância de infinito, traduz as possibilidades infinitas de existência. E assim fica talvez difícil não acreditar na eternidade. O amor produz profundidade e sentimentos de eternidade. Amar é ver o abismo que é o outro. Não tem fundo. Não tem limite. Apaixonar-se é cair nesse abismo. E de tão apaixonados que somos por nós mesmos, nos acreditamos como eternos.
Só dá para escapar das contradições dessa concepção se admitirmos que tudo é eterno, de que há um outro mundo, paralelo a este, fonte deste e eterno. O mundo platônico das ideias, das almas de tudo, a fonte de tudo. E este mundão aqui seria isso mesmo: repleto de mudanças e mortes.
Mas as pessoas se angustiam e não se cansam de perguntar sobre o que será o futuro, e o que será após a morte. Para onde vamos depois que morrermos? Para o mesmo lugar de onde viemos antes de nascermos. Todos se perguntam sobre o que será após a morte, mas ninguém se pergunta sobre o que foi antes de ter nascido. E, confesso, tenho pensado muito sobre o que “fui” antes de ter nascido. Um pensamento me deixar muito consolado: não fui nada, eu não existia. E voltarei a não existir após minha morte. A coisa que mais fiz, na existência de tudo, foi não existir. Pensando assim aceito melhor minha finitude e o esquecimento completo de meu ser. Posso desejar o que for dentro da minha pequenez diante de tudo, contanto que sejam desejos para mim mesmo e não para o mundão lá fora.

Sunday, August 01, 2010

“A vida é curta”?



Nem curta, nem longa. Sem ensaio, replay, nem prorrogação, ela é o que é: uma só. Esse “uma só” é negado por muita gente. E aí pode ser que advenha o lugar comum de que ela é curta. Como não podemos ensaiar, nem fazer de novo (recomeçar do zero), parece que é curta. Como não podemos viver outra vez, uma segunda vez, pode parecer que é isso: curta. Eis o juízo de valor, a definição particular, subjetiva. Curta? Pra quem? Comparado a que? O que é curto para uns pode não ser para outros. O que as pessoas estão tentando dizer quando assim enunciam?

Não há coisa mais subjetiva e individual do que a vivência do tempo. É a temporalidade, o como cada um experencia a passagem do tempo. O que demora mais: uma hora namorando ou uma hora a padecer na cadeira do dentista? Ah, sim, “tudo o que é bom passa rápido”...

Cena típica: imagine uma criança a se divertir intensamente em uma festa ou parque de diversões, quando chegam os pais e anunciam que o tempo acabou, que já é hora de ir embora. Ela já vai aprendendo cedo o lugar comum: “tudo o que é bom acaba rápido”. Assim como os adultos que vivem a dizer que a vida é curta. Não querem deixar o parque de diversões da vida ou tudo aquilo que ela poderia ter sido e não foi. Ainda não se satisfizeram. A insatisfação com tudo o que a vida poderia ter nos dado pode nos fazer dizer: “a vida é curta”.

Sim, curta. “Não fiz tudo o que eu poderia ter feito”. “Não tive uma segunda chance, ou um tempo a mais, para tentar de novo”. “Não aproveitei o suficiente”. Mas também que saco esse mandamento atual de aproveitar ao máximo, tirar tudo o que a vida pode dar. Parece maximização de lucros. Quanto mais você tirar da vida, mais lucro você tem.

E nessa trilha não faltam também as imagens estereotipadas do que seja aproveitar a vida: viajar para tudo o que é lugar, explorar todas as infinitas distâncias do planeta (e acima de tudo, gabar-se por isso, mesmo que de modo disfarçado); enfrentar as maiores adversidades em espírito esportivo e elegante de aventura, com demonstração suprema de saúde e superação do restante dos mortais (enfim, poder...); viver as emoções intensas todas que a vida humana, ou sobrehumana, pode proporcionar; arriscar, estar sempre um passo além; sentir-se vivo em toda a intensidade possível; estar no cume dos mundos e pode urrar de prazer ou alegria. Eis o estereótipo mais comum do que seja aproveitar ou viver bem a vida.

Costumo fazer essa pergunta às pessoas: “O que é aproveitar a vida pra você”? Grande parte, obviamente, traz este estereótipo: viver o máximo possível em altíssima intensidade. Costumo pedir por imagens: “Que imagem lhe ocorre quando você pensa no que é aproveitar a vida, pra você?”. Há quem cite imagens de coisas totalmente distantes de seu cotidiano ou mesmo ausentes em sua própria história de vida. Citam coisas absurdas, megalômanas, que nunca fizeram. Como se a imagem do que é aproveitar a vida estivesse somente estampada nas revistas de celebridades. Outros citam imagens do que já viveram e padecem de nostalgia. E há também os que citam coisas de seu próprio cotidiano, muitas vezes bem simples, as quais habitualmente visitam ou realizam.

Os primeiros, convenhamos, não devem estar felizes. Os nostálgicos, por sua vez, não se cansam de dizer que eram felizes e não sabiam (o que também, penso eu, está carregado de ilusões). E os últimos são os que, de modo geral, sem muitos artifícios ou arsenais de felicidade, estão aproveitando a vida em sua simplicidade e dentro do que ela pode dar.

Agora, se me perguntassem o que é aproveitar a vida, pra mim, em uma imagem, eu responderia: “Pra mim, aproveitar a vida é boiar”. Sim, boiar. Quando estou flutuando, na água, com os ouvidos imersos e a cabeça imersa no universo, sinto que estou aproveitando a vida em sua plenitude. Isso mesmo, desse jeitinho: quieto, isolado e casado com o universo, seja lá como isso tiver de acontecer: boiando, correndo, namorando, escrevendo, comendo, conversando, dormindo, caminhando, capinando ou mesmo lavando louças.

Thursday, July 15, 2010

Projeto de lei que proíbe a palmada. Parte 2: O que a Psicologia tem a dizer sobre isso?



Há quatro anos escrevi um pequeno artigo sobre este projeto de lei:

Tal texto era fruto de minha participação em um debate, na Tv Nacional, no Programa Diálogo Brasil. Àquela época levantei algumas questões, tanto de cunho ético quanto jurídico.
Contudo, devo ressaltar, eu ainda tinha pouco conhecimento acerca das contribuições da Análise do Comportamento sobre o tema da punição. É sobre isso que pretendo tratar no presente texto.
Penso que o termo palmada, neste debate, está fetichizado. Ou seja, valorizado em excesso. Fala-se muito, e de modo pouco consistente, acerca das ditas palmadas, como se elas em si, e sozinhas, fossem capazes de produzir danos psicológicos. Quem assim pensa, nos diz o bom senso, está muito equivocado. Não se trata, obviamente, da palmada em si. Trata-se de punições físicas. Um questionamento de cunho ético, repito, é o seguinte: "Se é proibida a punição física para adultos, por que seria permitida para as crianças? Onde fica a dignidade da criança? Por que, neste aspecto, ela não teria o direito de igualdade com os adultos?”.
Em termos legais, muitos também podem questionar: “Uma lei como esta, a qual proíbe que um pai dê uma simples palmada em um filho, não é muito invasiva? Onde ficam as pressupostas garantias legais referentes às liberdades individuais e à privacidade?”.
O debate consistente, como já disse antes, deverá enfrentar estas questões.
Contudo, farei alguns ajustes em minha fala sobre as contribuições da Psicologia. Ela tem algo a dizer sobre esta questão? Sim, com certeza. E esta certeza passei a tê-la depois que comecei a estudar a Análise do Comportamento.
A punição é um conceito que foi e é intensamente pesquisado pela Análise do Comportamento. Desconheço outra área ou abordagem que possua um número tão grande de pesquisas consistentes sobre o tema.
Primeiramente, devemos começar pelo conceito de punição. O senso comum quase sempre o reduz à punição física. E eis aí o grande erro, muito presente nos debates equivocados sobre este projeto de lei. Indo um pouco mais além, poderíamos, em termos bem comuns, assim definir a punição: tudo o que é penoso, desprazeroso, e que é imposto a um determinado sujeito, em função de alguma falta ou erro cometido.
A Análise do Comportamento possui a definição mais objetiva e precisa que conheço: punição é toda consequência aversiva de determinada ação ou comportamento.
Explico melhor. Não se trata simplesmente de faltas ou erros, pois aí já existe um juízo de valor. Todo comportamento do sujeito que tem como consequência algo aversivo, está sendo punido. Se seu filho grita e você lhe dá uma bofetada (a qual ele sente como dolorosa, aversiva), ele está sendo punido. Se você sai na rua e é assaltado, e isto lhe é aversivo, você está sendo punido. Se um pai compara um filho com o outro, e um deles se ressente: está sendo punido. Se o aluno teme ir à lousa, e a professora o obriga: está sendo punido. Se um filho diz algo que ofenda o pai: está punindo-o. Se este pai se comporta como ofendido e triste pelo comentário do filho, e este se culpa pelo ocorrido: está sendo punido pelo comportamento de tristeza que provocou no pai.
Enfim, se há um comportamento e este possui uma consequência aversiva para um determinado sujeito, eis a punição. E ela pode ser tanto positiva quanto negativa. O termo positivo, veja bem, indica acréscimo, presença, adição. E o termo negativo indica retirada, subtração. Esses termos são adotados em seu sentido descritivo, científico, e não moral. Não se trata do positivo ser o bom e o negativo ser o ruim. Pois, se assim o fosse, um resultado de HIV-positivo seria motivo para alegria, não é verdade?
Então, é punido positivamente todo comportamento ao qual é acrescentado uma consequência aversiva. E é punido negativamente todo comportamento em que uma consequência agradável para o sujeito é retirada. Exemplo: o filho diz ao pai algo que o magoa, e o pai, como consequência, deixa de sorrir para o filho: punição negativa. O filho grita e o pai lhe dá uma bofetada: punição positiva (e repare que a punição positiva é mais aversiva, violenta, que a negativa).
Bater nos filhos é uma punição positiva. O comportamento do filho é consequenciado com a apresentação de estímulos aversivos (bater, a surra, as palmadas). Isso se as palmadas forem aversivas para o sujeito em questão. Para alguns é mais doloroso o sermão, a humilhação. Deixar o filho de castigo, sem poder assistir televisão, é uma punição negativa. O comportamento do filho é consequenciado com a retirada de estímulos agradáveis (televisão, no caso). E todo comportamento punido tende a diminuir de frequência.
Ou seja, se a punição é capaz de fazer com que um comportamento indesejável diminua de frequência ou até mesmo se extinga, então ela é eficaz? Sim, para a situação específica em questão e a curto prazo. Você resolve o problema, aquele ali, do momento e (segundo incontáveis dados de pesquisa) cria vários outros. Sim, a punição possui diversos efeitos colaterais indesejáveis. Eis alguns deles abaixo (os quais procurarei explicar com termos bem coloquiais):
1. A produção de respostas emocionais em excesso: o sujeito punido tende a ficar muito alterado emocionalmente frente a situações de punição ou similares ao contexto em que sofreu estimulação aversiva. O medo, em excesso, é totalmente contraproducente. O sujeito treme, gagueja, hesita, tem “brancos”, não consegue se concentrar, etc. Ou seja, fica muito incapaz para aprender. É, de modo geral, paralisante.
2. A inibição de repertório comportamental: o sujeito punido pode generalizar a experiência aversiva para outros contextos, o que vai somente aumentando sua restrição comportamental. Passa a “travar” também em outras situações. Muita punição tende a gerar inibição geral (vergonha e ansiedade frente a diversas situações são alguns exemplos mais notórios). O professor repreende a criança na sala de aula e esta criança pode generalizar a experiência para todo o ambiente escolar. Não custará, em muitos casos, acontecer dela dizer que não gosta mais da escola, de estudar, ou coisa parecida. O professor que não consegue ver seu esforço gratificado, também pode se sentir punido e passar a generalizar para a profissão como um todo: “Detesto ser professor”; “É um martírio...”; “Os alunos são malcriados, sem educação, violentos...”. E isso tem ocorrido muito: os ambientes escolares, principalmente públicos, tem sido muito aversivos, tanto para alunos quanto para professores. A violência contra professores tem aumentado em frequência. Dado extremamente preocupante. Ou seja, professores punidos, logo menos motivados.
3. A punição possui baixo valor informativo. Quando um cão pula no dono e este levanta o joelho para que o animal sinta a dor da pancada no peito, a tendência será o animal deixar de pular nas pessoas. Resolvido o problema de pular nos outros. Mas a questão é a seguinte: o que se aprende ao ensinar alguém a deixar de fazer algo? Com a punição o sujeito deixa de fazer coisas. Não aprende algo novo, a fazer algo novo.
4. A punição é, de modo geral, aleatória, pois o mais eficaz é encontrar as causas, as motivações para um determinado comportamento, e isso a punição não faz. Se a criança gritar e espernear e for punida, se agirá simplesmente sem se saber o que causa este comportamento de birra. As pesquisas demonstram com clareza: o mais eficaz é encontrar os motivos da birra e subtraí-los. E os motivos não são o fato dela não ter podido, por exemplo, tomar sorvete. Não ter podido tomar sorvete é o que, para o senso comum, causa a birra. Para a Análise do Comportamento, os comportamentos são, na grande maioria dos casos, mantidos por suas consequências. A criança faz birra em função da consequência. Se esta consequência for favorável à criança, logo ela tenderá a manter seu comportamento de birra. Ou seja, se fazemos assim ou assado é porque ganhamos algo bom com isso ou evitamos algo ruim. Se o sujeito faz é porque esse comportamento tem ou já teve função em sua vida.
5. Contracontrole: o sujeito pode fazer uma boa discriminação de contextos e somente se comportar do modo desejado nas situações em que o punidor está presente. É o famoso jeitinho. É a famosa arte de somente fazer “o correto” quando o pai ou o chefe estão por perto. Depois volta tudo a ser a mesma porcaria de sempre. Os radares para redução de velocidade no trânsito são os exemplos mais utilizados: a maioria dos motoristas só tira o pé do acelerador quando ele está em cima.
Não continuarei a lista dos efeitos indesejáveis da punição, a qual deve estar obviamente incompleta. Foi somente para dar uma noção básica da coisa. Para muitos fica a seguinte questão: um ambiente ou relações totalmente livres de punição são possíveis? De forma alguma. A punição está sempre presente em nossa vida, seja no ambiente físico, natural, ou nas relações entre as pessoas, nos seus mais sutis detalhes, como pudemos ver em alguns exemplos que dei. Contudo, uma coisa é certa: vale a pena diminui-la, e há comprovadamente procedimentos alternativos a ela. São eles: o reforçamento diferencial, o reforçamento positivo e a extinção, somente para citar os mais importantes.
Falar de cada um deles, contudo, já é tarefa para um outro texto.
A Análise do Comportamento é uma área já bastante desenvolvida e produziu conhecimentos sobre os quais não podemos negar sua utilidade, tanto prática quanto teórica.
Falar sobre dar ou não palmadas em filhos, e deixar de contemplar esses importantes conhecimentos produzidos por esta área de estudo, seria omitir uma história muito relevante dentro da Psicologia.

Monday, July 05, 2010

Deus e a questão do mal

A questão do mal é uma questão clássica em metafísica e filosofia cristã. Uma definição plausível para o mal é concebê-lo como toda e qualquer forma de sofrimento. Se algum ser sofre, eis o mal. Alguns objetarão: não, o mal diz respeito somente aos sofrimentos injustos ou injustificados. Pois “há males que vêm para o bem”, e estes seriam os justificados, os sofrimentos que possuem alguma utilidade. Exemplo: você vai ao dentista, sofre um pouco, mas previne males muito maiores. Mas a grande questão é que há males, sofrimentos, cuja utilidade não compreendemos, e cuja injustiça também é alarmante. E eis aí a questão: se Deus pode tudo e é absolutamente bom, por que permite injustiças incompreensíveis, irracionais e que causam tanto mal? Males inúteis, por que os permite?

Em termos lógicos, há uma resposta básica: não dá pra Deus ser ao mesmo as duas coisas. Ou pode tudo e não é absolutamente bom, ou é absolutamente bom e fraco. Como já vimos no texto anterior, a onipotência é racionalmente impossível, não tem cabimento. Mas, por ora, suponhamos que seja. Se assim o fosse, teríamos de lidar com uma possibilidade absurdamente assustadora: a de um Deus onipotente, absolutamente poderoso e que também possui maldade. Ou seja, pode castigar-nos quando bem quiser, e sem muita justificativa. Essa possibilidade gera muito medo. Imaginem só: um Deus tirânico, caprichoso. Um Deus que também é mau. Um cara absolutamente poderoso e que pode arruinar com sua vida e torná-la um pesadelo sem fim. Deus do céu, esse seria um Deus dos infernos para seus desafetos. Sim, pois se não é absolutamente bom, Ele também teria desafetos.

Esse Deus onipotente, e que não é absolutamente bom, submete a todos, por medo. A crença nele é forçada pelo medo de ser aniquilado. O ato de entrega e fé, é um ato de render-se a algo maior que você e que pode lhe destruir. Lembro do personagem de Tv, o médico Gregory House, assim dizendo aos crentes: “Vocês acreditam em Deus porque temem que Ele os esmague como formiguinhas”. É a fé motivada pelo medo. Pelo medo de desobedecer ao todo poderoso e ser castigado.

Porém, se continuarmos pela linha de raciocínio do texto anterior, a onipotência não tem cabimento. Então, esse ser todo poderoso não existe e nada precisamos temer de infalível e eterno. Assim nossa miséria fica menor, penso eu. Melhor saber que Deus, mesmo que existisse, não poderia tudo. Melhor, muito melhor. Quem pode tudo não dá alternativas a quem não pode nada, a não ser calar a boca, obedecer e fim de papo. Me sinto muito melhor com essa ideia de que ele não pode tudo. Isso me dá muito mais liberdade para continuar pensando e seguindo a trilha da lógica, da sensatez. Permite a liberdade e a responsabilidade, esses dois fundamentos tão importantes da maturidade. Se ele não pode tudo, temos liberdade. Do contrário, estamos eternamente amordaçados.

Como a onipotência é uma impossibilidade, somente nos resta a alternativa mais suave e sensata: ele não pode tudo e é absolutamente bom. É fraco, como nós, porém absolutamente bom.

Mas Deus como fraco e absolutamente bom, ainda nos deixa algumas questões. Como uma entidade absolutamente boa pode ter criado o homem, com todas suas imperfeições e injustiças? Comte-Sponville, no “Pequeno tratado das grandes virtudes”, levanta algumas questões interessantes, em belíssimas e instrutivas passagens (1995, p. 292 – 294):

“Por que Deus iria criar o que quer que seja, se ele mesmo é todo o ser e o todo o bem possíveis? Como acrescentar ser ao Ser infinito? Bem ao Bem absoluto? Criar só tem sentido, nessa lógica da potência, desde que para melhorar, pelo menos um pouco, a situação inicial. Mas é o que Deus, mesmo onipotente, não poderia fazer, pois a situação inicial, sendo o próprio Deus, é absolutamente infinita e perfeita! Alguns imaginam Deus, antes da criação, como insatisfeito consigo, como um aluno exigente que escrevesse, à margem de seu próprio dever ou de sua própria divindade: “Pode fazer melhor”… Mas não: Deus não pode fazer melhor do que ele é, nem mesmo igualmente bem (pois teria então de criar a si mesmo, portanto não criar absolutamente nada: é esse, talvez, o sentido da Trindade). Deus, se quiser criar outra coisa que não ele, isto é, criar, só poderá fazer menos bem que si mesmo. Melhor dizendo, ou pior: Deus, já sendo todo o bem possível e não podendo, por conseguinte, aumentá-lo, só pode criar o mal! Daí este nosso mundo. Mas então: por que cargas d’água tê-lo criado?

Esse problema é tradicional. Mas talvez ninguém o tenha percebido melhor, nem resolvido melhor, se é que se possa fazê-lo, do que Simone Weil. O que é este mundo, pergunta ela, senão a ausência de Deus, sua retirada, sua distância (a que chamamos espaço), sua espera (a que chamamos tempo), sua marca (a que chamamos beleza)? Deus só pôde criar o mundo retirando-se dele (senão só haveria Deus); ou, se nele se mantém (de outro modo não haveria absolutamente nada, nem mesmo o mundo), é sob a forma da ausência, do segredo, da retirada, como a pegada deixada na areia, na maré baixa, por um passeante desaparecido, única a atestar, mas por um vazio, sua existência e seu desaparecimento… Temos aí uma espécie de panteísmo em negativo, que é a recusa de qualquer panteísmo verdadeiro ou pleno, de qualquer idolatria do mundo ou do real. “Esse mundo enquanto totalmente vazio de Deus é Deus mesmo”, e é por isso que “Deus está ausente, sempre ausente, como indica de resto a famosa prece: “Pai nosso que estás no céu…” Simone Weil leva a expressão a sério, e tira dela todas as conseqüências: “É o Pai que está no céu. Não em outra parte. Se acreditamos ter um Pai aqui na terra, não é ele, é um falso Deus.” Espiritualidade do deserto, que não encontra ou não prega mais que “a formidável ausência, por toda parte presente”, como dizia Alain, a que responde, em sua aluna, esta fórmula surpreendente: “É preciso estar num deserto. Pois aquele que é preciso amar está ausente.” Mas por que essa ausência? Por que essa criação-desaparecimento? Por que esse “bem feito em pedaços e espalhado através do mal”, estando entendido que bem possível já existia (em Deus) e que o mal só existe por essa dispersão do bem, pela ausência de Deus – pelo mundo? “Só se pode aceitar a existência da infelicidade considerando-a como uma distância”, escreve ainda Simone Weil. Que seja. Mas por que essa distância? E, já que essa distância é o próprio mundo, enquanto ele não é Deus (e ele só pode ser o mundo, evidentemente, desde que não seja Deus), por que o mundo? Por que a criação?

Simone Weil responde: “Deus criou por amor, para o amor. Deus não criou outra coisa que não o próprio amor e os meios do amor.” Mas esse amor não é um mais de ser, de alegria ou de potência. É exatamente o contrário: é uma diminuição, uma fraqueza, uma renúncia. O texto mais claro, mais decisivo, é sem dúvida este:

“A criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de renúncia. Deus e todas as criaturas é menos que Deus sozinho. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser. Esvaziou-se já nesse ato de sua divindade. É por isso que João diz que o Cordeiro foi degolado já na constituição do mundo. Deus permitiu que existissem coisas diferentes Dele e valendo infinitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo, como Cristo nos prescreveu nos negarmos a nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor, para nos dar a possibilidade de nos negar por Ele. Esta resposta, este eco que depende de nós recusar é a única justificativa possível à loucura de amor do ato criador.

As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância voluntária, esse apagamento voluntário de Deus, sua ausência aparente e sua presença secreta aqui embaixo, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da grande Revelação. As religiões que representam a divindade como comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo são falsas. Mesmo que monoteístas, são idólatras.” “

E isso tudo Comte-Sponville escreveu somente para tentar compreender um pouco melhor o amor como ágape (caritas), o amor de Deus, uma das três grandes classificações antigas do amor.

Como minha linha de raciocínio contemplava a ideia de um Deus fraco e absolutamente bom, pretendo encerrar esse texto com ela. Se ele é absolutamente bom, porém fraco, também morre?

Referência:

Comte-Sponville, A. (1995). Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes.

Sunday, July 04, 2010

Onipotência divina

Muito comum se ouvir que Deus é onipotente, onisciente e onipresente. Acerca da primeira qualidade existe um argumento interessante: se ele é onipotente, se ele pode tudo, pode também construir uma pedra que não dê conta de carregar? E eis o paradoxo: se sim, logo não pode tudo – pois não poderia carregar o que criou. Se não, logo também não pode tudo, pois não é capaz de construir a tal pedra. Logo, concluindo, não é onipotente. Isso nos faz pensar que não existe algo ou alguém onipotente. A onipotência não existe, não tem cabimento. Se Deus existe, não pode tudo. É mais humano do que imaginamos. Também erra e também falha. Logo, pode ser que também nos deva desculpas, em alguma circunstância ou condição. E se ele, em algum momento ou aspecto, nos deve desculpas, o que fazer para perdoá-lo?

O que não é a felicidade

Segundo Comte-Sponville, “a felicidade não é nem a saciedade (a satisfação de todas as nossas propensões), nem a bem-aventurança (uma alegria permanente), nem a beatitude (uma alegria eterna).” Comte-Sponville.

Ou seja, neste sentido, todas estas três concepções acerca do que seja a felicidade são equivocadas. A primeira e a segunda concepção são as mais comuns. São talvez também (vejam a ironia) as que produzem mais infelicidade. Produzem infelicidade, primeiramente, pelo simples fato de serem equivocadas. Assim, geram falsas expectativas, o que, por sua vez, é mais do que suficiente para a ocorrência de alguns desastres e surpresas desagradáveis. Quem não se prepara com perspectivas realistas está sujeito a surpresas desagradáveis.

As concepções de felicidade como a satisfação de todos os nossos desejos ou uma condição de alegria permanente são pouco refletidas, sensatas ou até mesmo infantis. Há o pensamento mágico implícito aí, de que diversas situações complexas podem ser resolvidas com atos simples e instantâneos, os quais dispensam qualquer explicação, esforço ou processo. Em termos psicanalíticos seria a fantasia de retorno ao estado original do recém-nascido que se satisfaz e se ilude acerca de sua própria condição de ser. Tendo suas necessidades satisfeitas, é tomado por sentimentos de onipotência, plenitude e invulnerabilidade (o narcisismo primário). Onde nem mesmo o mundo externo (incluído aí o outro) se configura como perceptível (como outro) e capaz de aniquilá-lo.

Seguindo as pistas dadas por Freud em “O mal-estar na civilização” (1930), podemos dizer que a busca por esse tipo de felicidade é um modo de se apartar da realidade. Acreditando nesta possibilidade absurda, o sujeito nega a realidade que o circunda, e passa a se devotar a uma fantasia infeliz. Trata-se de uma fantasia que abre mão da consciência e instala o sujeito em um terreno sem qualquer sustentação. Sim, constrói castelos no ar. São concepções bastante otimistas acerca do que seja a felicidade. Otimistas e míopes. Otimistas e bem pouco esclarecidas. Aliás, como todo otimismo extremo e equivocado.

Tuesday, June 01, 2010

Superstição: se dizer, acontece?

A pergunta parece meio tola mas, na prática, a maioria das pessoas tem alguma forma de superstição. Há aqueles, por exemplo, que jamais falam a palavra “desgraça”, pois, segundo seus avós, seus pais, os mais antigos (ou seja lá porque), ela apareceria debaixo da mesa. Nossa, quanto disparate. Há também os que não passam debaixo de escadas, fogem do número 13, começam com o pé direito, saem pela mesma porta, e por aí vai uma série quase infinita de superstições.

Neste pequeno texto quero falar daquela que se refere à ideia de que dizer gera o acontecer. Ou seja, se você dizer, a coisa acontece. Há inclusive pessoas que, obsessivas, padecem terrivelmente. Não dizem nunca certas palavras ou repetem inúmeras vezes aquelas que soam como benéficas; ou até mesmo falam e “desfalam” o que sinaliza o mal: se pronunciam algo maldito, logo o repetem, para poder desdizer o que foi dito antes. Enfim, nesses casos não faltarão compulsões (fazer isso ou aquilo, repetidamente) para desfazer o incômodo das obsessões (ideias fixas e incômodas, as quais escravizam e torturam o sujeito).

Uma das situações mais risíveis das quais lembro reporta-se à ocasião em que, com vários amigos em uma mesa de bar, o assunto era como cada um gostaria de morrer. E, obviamente, a maioria respondia que preferia uma morte rápida e repentina: “Quero morrer dormindo...”, eis um exemplo mais do que comum, só para não citar os outros tantos, menos óbvios. Mas eis que um dos que estavam à mesa expele sua pérola: “Quero morrer queimado ou afogado”. Alguns da mesa ficaram boquiabertos, principalmente os mais religiosos: “como ele pode dizer uma coisa dessas, que loucura...”; “bata a mão em sua boca”; “não diga um coisa dessas”; “com essas coisas não se brinca”.

Esse amigo é a pessoa mais destituída de superstição que conheço. E ele sabia muito bem o que estava fazendo. Ficou quieto, olhando para todos nós com seu sorriso debochado. Não disse mais nada, pois voltaria a sempre dizer o que já estava cansado de saber: não é porque você disse que a coisa acontece. E a gente sempre se esquece disso e, vez ou outra, fica com medo. Se dizer alguma coisa ou enunciar algum desejo gerassem sua realização, por si só, bastaria dizer “quero ganhar na loteria” e assim o seria. E olha que as pessoas repetem seus desejos aos milhares e o destino de tudo quase nada tem a ver com isso. Eis o pensamento mágico e infantil, o qual ainda sobrevive em nós, de algum modo. Em alguns mais e em outros menos.

Sunday, May 16, 2010

Felicidade: o papel da autoavaliação

A felicidade é um tema muito interessante e fecundo. Trata-se do bem supremo? Ou seja, possui mais valor e está acima de tudo o mais? Há algo mais importante do que ela? Segundo Pascal: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção... É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar...” (citado por Comte-Sponville, 2001, p. 01). Ou seja, na concepção pascalina, para a realidade humana, é o motivo de tudo, só isso. Há, entretanto, diversas possibilidades de abordagem do tema, a começar pelo conceito, pelas várias definições e usos possíveis do termo felicidade.

O que é a felicidade? Começo pela definição que cunhei há alguns anos, pois ela incide diretamente sobre a questão da autoavaliação. É um balanço geral do espírito com saldo positivo. Após toda ponderação e avaliação possível, poderia se considerar feliz aquele que percebesse em si mais alegria do que sofrimento ou tristeza. Esta é um concepção que atrela a felicidade ao julgamento. Se julgo, se avalio que tenho mais momentos de alegria e prazer do que sofrimento e tristeza, logo me julgo feliz. Ou seja, a felicidade depende da avaliação que o próprio sujeito faz de todo o seu estado de espírito.

Em “O mal-estar na civilização” (1930), Freud, logo de início, suspeita do conceito. Percebe aí um grau muito elevado da subjetividade de quem está se avaliando. Se a felicidade é resultado de uma autoavalição, logo depende mais de como as pessoas julgam sua vida, ou de como se referem a ela.

Em termos comportamentais, alguém pode falar que sua vida está boa ou ruim em função do que obtém ou já obteve na vida com este tipo de comportamento. Já pude observar que em contextos religiosos, por exemplo, é muito comum os fiéis dizerem que estão muito felizes. Há, de modo geral, pressão para isso em contextos religiosos. Já em outros contextos dizer que não se está feliz, que não se está bem, pode ser mais valorizado do que o contrário. Exemplo: o sujeito sempre diz que está infeliz, que nada está bem, pois isso resulta em mais atenção e cuidados de seus próximos. No primeiro caso, depois de um tempo, o sujeito pode se dar conta de que era infeliz e não sabia. No segundo caso, de que era feliz e não sabia. Uma coisa é o que se diz e outra é o que se sente.

E o dizer, por sua vez, classifica e ordena o sentir. Dizer que se está bem ou mal pode interferir na percepção do que se sente, do que se vive. Como dizemos se estamos ou não bem? Como entendemos o que estamos sentindo e, no final, avaliamos, damos uma nota? É possível falar de felicidade em sentido objetivo?

Em termos comportamentais a coisa parece ficar mais clara e melhor discriminada. Se a vida do sujeito está muito pobre em reforçadores positivos, se há inibição de repertório comportamental e se predominam fuga e esquiva, eis a infelicidade. Se mais agimos em função do dever do que do querer (do prazer de fazer); se não temos ânimo para nada, se a vida se mostra como um grande sacrifício; se o medo impera e nossa ação é sempre impulsionada para evitar o pior: eis a infelicidade.

O que é um bicho infeliz? É um bicho encolhido num canto, sozinho e com medo, muito medo. Digo também sozinho, para enfatizar o bordão: “é impossível ser feliz sozinho”. Na canção de Tom Jobim o sentido mais comum da expressão refere-se a não permanecer sozinho e viver a felicidade no amor. E as pessoas, de modo geral, só compreendem esta felicidade no amor a dois, no amor de cunho erótico. Quero, porém, ressaltar um outro ponto: o da ética. Penso que é impossível ser feliz sozinho no sentido de que se o egoísmo for onipotente e vencer, isso resulta na própria solidão enlouquecedora do poder absoluto. E é neste ponto que a felicidade tem de fazer alguma concessão ao amor. Neste sentido ela não pode ser considerada como bem supremo, pois o amor vem antes. E que espécie de amor vem antes? Aquele que compartilha, o amor da amizade. E assim, amor e felicidade são conceitos que podem ser casados de algum modo. Mas isto foge um pouco ao tema do presente texto.

Voltemos à questão da felicidade enquanto fenômeno objetivo ou subjetivo. É possível então falar em felicidade como algo objetivo, do qual de fato se vive? Penso que sim. Há, como mencionei, fatores concretos ligados à felicidade e pode ser que o sujeito que se diz feliz, talvez não o seja e vice-versa.

Referências

COMTE-SPONVILLE, A. (2001). A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas, Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. XXI.

Thursday, January 28, 2010

“Nada acontece por acaso”?

Eis mais uma expressão do jargão popular. É muito comum ouvir pessoas dizendo ou escrevendo isso. E o que estão querendo dizer? “Nada acontece por acaso, minha filha. Tudo tem a sua hora”. Como assim, “tudo tem a sua hora”? É isso, há um programa já predeterminado? Predeterminado por quem? Pois se “tudo tem a sua hora”, alguém marcou. E quem marcou a hora desse “Alguém”? De modo geral a expressão “nada acontece por acaso” reforça a crença em entidades superiores e sobrenaturais, as quais predeterminam nossa existência.
Outro modo de também compreender esta expressão é que ela também afirma que tudo tem uma finalidade. Mas por que essa finalidade seria sempre boa para quem sofreu um mal? Ou seja, esta expressão serve, muito geralmente, de consolo: “espere um pouco mais, que mais adiante você terá uma excelente oportunidade, a qual somente aparecerá em função deste infortúnio recente”. Doce consolo.
Por outro lado, também não há como fugirmos da tentativa de compreensão mínima de alguns outros conceitos correlacionados: determinismo e liberdade, por exemplo. Determinismo: tudo é determinado, possui causas (favor não confundir com predeterminismo). No determinismo trata-se da rede ou série infinita de causas. Até os eventos mais complexos são determinados, possuem causas, embora estas estejam em uma rede muito extensa e muitas vezes inacessível.
“Tudo é mais simples do que podemos imaginar e, ao mesmo tempo, mais intricado do que poderíamos conceber”, disse uma vez Goethe. Simplicidade do olhar e complexidade do real. A simplicidade é um ato da vontade, de desprendimento, de entrega imediata, sem reflexões, de não tematização da vida e do mundo. Coisa do mundo animal, principalmente. Antídoto do espírito, dos males do intelecto que turva as águas para parecer que são mais profundas. Ou seja, simplicidade é bom para combater gente muito complicada e dominadora com suas complicações. Complicam para dominar, para terem mais poder. Jogo de aparências, também.
Mas quero continuar no caminho que comecei, pelo conceito de determinismo. Comte-Sponville alerta: o acaso não é o contrário do determinismo. É o contrário da liberdade. Ser livre, em boa medida, é a capacidade para se autodeterminar. E o acaso é esse inacessível ao poder dos homens. Determinado, porém de modo tão complexo que não podemos controlá-lo. “Nada ocorre por acaso”? Sim, com certeza, pois tudo tem causas. Mas nem sempre temos acesso a elas, à sua compreensão. Às vezes não somos capazes de explicar porque as coisas são assim ou assado, porque ocorreram desta ou daquela forma, mais precisamente: eis o acaso.
Sugestão de Comte-Sponville: pensemos em nossa própria existência e a rede de causas que a organiza, que a funda. Para que cada um de nós tenha nascido, por exemplo, foi preciso uma série específica de acontecimentos. Se o preservativo não tivesse furado; se ela não se atrasasse um pouco e os dois não se cruzassem na rua e não se conhecessem; se ele tivesse desistido de continuar a morar longe da família (e assim não a conhecesse); se ela tivesse ido estudar em outra escola; fora os milhões de espermatozóides que tivemos de vencer; ou mesmo o sexo daquele dia com aqueles espermatozóides, dos quais, entre milhões, e centenas de possibilidades de encontro amoroso, éramos somente um único e singular gameta; ou mesmo o encontro fortuito de nossos avós, de nossos bisavós e assim por diante, “infinitamente”.
Enfim, vários outros seres morreram para que estivéssemos aqui. Vários outros foram superados, dispensados, aleatoriamente. Infinitas outras possibilidades foram perdidas para que nascêssemos. Alguns dizem: a existência é um presente, uma sorte, muita mais improvável do que o prêmio máximo de qualquer loteria ou jogo de azar. Mas como definir como presente o que me foi dado ao acaso ou totalmente fora do controle de quem quer que seja?
Mas o acaso é isso: mesmo que complexamente e infinitamente determinado. É o impossível de ser controlado de modo preciso. Como prever exatamente quais serão os números do próximo sorteio de loteria em um palpite só? Há somente probabilidades. Pode ser isso ou aquilo, quase infinitamente, e você talvez tenha de esperar um média de de dezenas de milhões de lances ou jogos para em um determinado momento acertar.
O acaso nos diz o seguinte: você não é livre para fazer o que bem deseja. Você é um amontoado de determinações. O fato, porém, de assim o ser, também não quer dizer que não tenhamos liberdade para algumas coisas, que podemos alguma coisa. Senão, ação alguma seria válida. Não se trata de niilismo. O acaso fala da probabilidade distante, da infinitude do universo, de determinismos complexos, e não da possibilidade imediata. Podemos sim determinar alguma coisa e é para isso que vivemos, e pensamos. E assim vamos provocando microscópicos acidentes no destino de tudo.

Thursday, January 21, 2010

Avatar: o Evo Morales adorou...



Ontem eu fui assistir ao filme Avatar. Como eu ainda não conhecia a tecnologia 3D, pensei: está aí um boa oportunidade. Trata-se de um dos filmes mais caros da história, com custos acima de 200 milhões de dólares, além do emprego das tecnologias mais avançadas do ramo. O que fez inclusive muitos entendidos no assunto dizer que este filme revolucionaria a forma de se fazer cinema. Enfim, tecnologia e custos nas alturas. E uma bilheteria também muito pujante, a qual já passa de 1 bilhão e meio dólares em arrecadação. Ou seja, a bilheteria, somada aos custos, já produziu, em um mês, mais do que o dobro dos recursos arrecadados para o socorro das vítimas do terremoto no Haiti.
Além do filme ter consumido esse volume extraordinário de recursos ainda havia a opinião de algumas pessoas, uma aqui e outra ali, de que a história era muito boa, de que valia a pena. Ouvi essa história de que a história era boa e fiquei um pouco desconfiado, confesso. Pois o cabeça dessa história é quem? James Cameron. Ele escreveu o roteiro. E ele já escreveu o que antes? Cito alguns dos mais lembrados: Toda a série do “Exterminador do Futuro”, “Aliens, o regaste”, “Rambo II”(vejam só), “O segredo abismo”, “True Lies”, “O último grande herói” e “Titanic”.
O mesmo cineasta que escreve o roteiro reacionário, boboca e belicoso de Rambo II, escreve também o roteiro de “esquerda” e igualmente boboca e belicoso de Avatar (digo de “esquerda” entre aspas, pois foi assim que alguns deram a entender em suas críticas).
E não esqueço, ele também escreveu o roteiro de Titanic. Avatar se saiu melhor, com certeza. Lembro de minhas impressões acerca de Titanic. Entrei no cinema esperando o naufrágio em águas salgadas, e saio de lá afogado em um oceano de açúcar. Brochante. Historinha fraca, boba. Aliás, problema meu. Ninguém mandou ir para o cinema para saber de Titanic. Pois saí de lá sabendo de nada, ou menos ainda do que eu já sabia sobre o naufrágio. Saí sabendo somente de uma história boba a qual já vi milhões de vezes em qualquer telenovela brasileira. Muito melhor seria ter assistido um documentário ou lido um livro sobre o assunto. Ignorância foi a minha de esperar algo de onde obviamente mais brota opulência do que profundidade.
Voltando ao Avatar: é muita coisa, muito dinheiro envolvido na produção de um filme. Disso todos sabemos. Logo, minhas expectativas novamente foram grandes. O que somente denuncia a minha própria ingenuidade. Enfim, novamente me frustrei. A história é velha - vide “Dança com lobos”, “A missão” (aliás, muito mais bonito, na minha opinião), “Guerra nas estrelas” e “Brincando nos campos do senhor” (só para citar alguns) - o filme é de guerra, todo coloridinho e para crianças.
Sim, mais um filme americano de guerra. Só que este é para crianças. Pimpolhos a partir de 12 anos podem legalmente assistir esse desenho animado belicoso. Mas se o “Bem” vence o “Mal” (o velho e bom maniqueísmo de sempre), o uso da força é legítimo, não é não, meu povo?
Dois detalhes engraçados: um foi a menção da delicada palavra “terror”, pelo menos na legenda. O coronel americano diz mais ou menos assim: vamos combater o terror deles (do Bem, do povo colorido e puro da floresta) com nosso terror, em dobro. Não teve jeito, já logo associei o povo da floresta com Palestinos ou qualquer formação terrorista atual e a luta dos americanos contra o terror. O Cameron não deve ser republicano. Ou já foi, na época do Rambo II e hoje já está mais para Obama, recomendando que devemos ouvir o que os “abomináveis” “terroristas” têm a dizer.

O outro detalhe esquisito e risível foi quando Jake, o mocinho da história, mata uma espécie de veado com seu arco-e-flecha e faca. O bichinho toma a flechada e cai no chão, agonizando. Jake então, bem rápido, vai lá e mete a faca em seu coração. Fulminante. Aí senta-se ao seu lado e reza, agradecendo pelo alimento que ele será, de modo meio sublime-canibal: agora você, bichinho, será parte de mim, obrigado. Sua companheira não perde tempo, apaixonada e impressionada com seu guerreiro, sacramenta de vez o que acabou de ver: parabéns, foi uma “morte limpa”. Deus do céu, cena digna de se parodiar nos Simpsons.

Um crítico chegou a dizer que o grande mérito do filme é esse, botar milhares de americanos conservadores, de extrema direita, no cinema e fazê-los gostar de uma história que contradiz tudo o que dizem que pensam sobre política internacional. Ou seja, um filme de esquerda para o povo de direita gostar e ir dormir feliz. Outro disse que o meio, a mídia, é George Lucas e que a mensagem é Che Guevara. Filme americanóide, marqueteiro, cheio de embalagens e efeitos especiais de última geração, mas com uma romântica e açucarada história de esquerda. Pronto: eis aí a Coca-colla do Evo Morales. E, mais hilário, o próprio Evo Morales elogiou o filme, como uma demonstração profunda de resistência ao capitalismo e pela defesa da natureza.
E o 3D então, no Dolby system, que foi o que vi, me pareceu meio enganação. A quem diga que essa estória de 3D é meio furada. Nosso cérebro processa o 3D, não precisamos de mais essa embalagem não. Aliás, embalagem... O James Cameron é bom nesse negócio. A arte das belas embalagens. O tempo todo o que temos é o gozo do olhos. Somos capturados pelos olhos. A imagem visual reina absoluta. E olho gordo e no quindim dos outros é o que não falta.
Por outro lado não nego que o filme me envolveu bastante, assim como as boas telenovelas da Grobo. Sim, acho que o lance é mesmo se entregar e viver a história e o enredo dos acontecimentos ali apresentados. Se deixar levar, se esquecer um pouco, ser hipnotizado (e muitos vezes somos hipnotizados por idiotas; sim, pois nos pegam de surpresa). Em virtude disso não deixo de lado as oportunidades para chorar em virtude de tudo aquilo que não me diz respeito, ou mesmo daquilo que seria problema do outro, mas que na verdade choro por minhas coisas mesmo.
No primeiro caso é o meu choro frente a qualquer trama boba a se desenrolar em uma telenovela ou filme do Cameron. No segundo é o choro dos velórios: choramos por tudo, menos pelo morto que ali está, pois velório é lugar pra chorar, onde o choro é uma ordem. E assim vou, choro sempre que posso, sempre que for permitido. É prazeroso e não importo de parecer idiota. Porque depois também é dar risadas do ridículo de ter chorado por idiotices. Chorar e rir ao mesmo tempo, de preferência. Melhor ainda. Ou então chora e logo em seguida cai na risada. Tem coisa melhor? O ridículo move o mundo e eu estou nessa.
Voltando ao Avatar, de novo (sim, pois ele sempre volta, o termo avatar têm também, originalmente, o sentido de manifestação que retorna). Filme com uma história boboca, de massas, de massas incultas, não há dúvidas. Diálogos superficiais, historinha para boi dormir, para o gado do povão dormir. Dormi junto. Estou no meio do gado. E vou junto, dando risadas. Preciso ser povão. Se não sou, me dêem o bilhete de entrada, deixem-me fazer parte do clubinho. Se sou, então me permitam uma autocrítica, por favor. O rebanho me protege. Mas não me impeçam de achá-lo ridículo.
E as críticas ao filme foram as mais variadas. Isso torna a obra mais interessante, pois mais polêmica e polissêmica: a tão desejada profusão de sentidos que a arte almeja.
Alguns disseram que é uma impressionante obra de arte em termos técnicos, mas bem banal em termos de narrativa. Outros mencionaram que a história é velha, citando outros filmes com essa mesma história, como eu mesmo já disse aqui. Ou que o roteiro é óbvio e previsível; ou que o mundo vislumbrado por Cameron é muito bonito e que vale a pena visitá-lo. Sim, muito bonito, muito colorido, coisa de sonho mesmo (ainda bem que não sou daltônico), coisa do sonho real da mãe dele. Isso mesmo, a mãe dele sonhou com seres azuis, em um outro planeta, maravilhoso, o que também lhe serviu de inspiração e tributo à progenitora. Tudo meio hindu, meio “Caminho das Índias” (está na moda), ou uma mistura de Pocahontas com Smurfs: avatares, Krishnas azuis e por aí vai. Tudo meio indígena: meio nus, em comunhão integral com a natureza, com tudo. O conforto divino de estar nos braços da natureza, em seu útero, nesse mergulho oceânico de êxtase nas profundezas de tudo.
E aí também não me esqueço de uma colega a qual gostou muito da história: “Vá assistir, Adriano, a história é muito boa. Vale a pena”. E quando lembro dela falando isso, agora dou risadas. Como ela não iria gostar desse filme? Ela é a própria protagonista, nativa do planeta Pandora. Só falta ser azul. Adora “ficar na natureza”, parece uma indiazinha, igualzinha à mocinha da história. Identificação instantânea.
E para finalizar, há também aqueles que vêem em Avatar a manifestação da visão panteísta de Cameron. Os hominídeos azuis, nativos de Pandora, são panteístas. Deus, para eles, está em tudo. Não se trata de um indivíduo todo poderoso fora do mundo. E basta a nós, viventes, caminharmos em harmonia com esse Todo, que é Deus. Visão muito bonita, com certeza. Retomada, inúmeras vezes, por diversos pensadores e artistas (em Espinosa, Fernando Pessoa – ler a poesia “Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada”, no Estoicismo). E rebatida por outros (Freud, por exemplo). Pois se trata de pensar se Deus, esse conceito, antes de tudo, é algo ou alguém.
Mas penso que é também possível perceber a Teoria de Gaia (originalmente proposta por James Lovelock) no enredo de Avatar, segundo a qual a biosfera teria mecanismos integrados e suficientes para se comportar como um organismo vivo, o qual visa um certo equilíbrio e constância de seus estados internos. A humanidade atual e seu crescimento populacional, com o esgotamento de recursos naturais, seria então uma virose a ser estirpada por Gaia, pelo planeta Terra. Ou seja, não passaríamos de uma gripe, da qual a Terra logo irá se recuperar. Assim como, em Avatar, o são os americanos que estão a colonizar Pandora.


Sunday, November 29, 2009

O consultório do Freud mal-assombrado


Esta história já tem alguns anos. Somente agora é que senti apropriado narrá-la aqui.
Saí do elevador e tomei um susto. Bem de frente, sem a menor chance de fuga, uma sala com uma porta de vidro e, detrás dela, um quadro grande com uma foto conhecida de Freud a boiar na escuridão. Aquele era somente um prédio comercial, mas aquela sala parecia a entrada para um museu ou coisa similar. Era uma sala de espera, toda escura, muito escura e somente o grande pai Freud emitia luz. A única luz da sala era para iluminar aquele quadro. O resto ficava em segundo plano.
Em algumas pessoas aquilo talvez desse arrepios, pois ressoava também um pouco fúnebre.
Lembrava um pouco uma sala do Memorial Juscelino Kubitschek, em Brasília, em que jazem os restos mortais do ex-presidente. Trata-se de uma sala bem grande, toda encarpetada, fechada e bem escura. Ali parece que tudo é roxo escuro, ou preto, ou um vermelho sendo iluminado por uma luz negra. Enfim, o cenário cheira um pouco a terror. Sombrio, lúgubre e com os restos mortais do ex-presidente ali, jazendo na escuridão.
Não teve jeito: quando pela primeira vez estive nesta sala do Memorial, logo me imaginei passando a noite ali, sozinho, e tentando dormir. Que lugar diferente para passar uma noite, para tentar relaxar. Escuro e iluminado. Iluminação parecida com aquelas produzidas por luzes negras. Sensação dupla de desproteção: estar iluminado e no escuro ao mesmo tempo. Confusão dos sentidos.
Mas aí tentar reproduzir isso, com Sigmund Freud, em uma pequena sala de espera, já não é demais? Isso me despertou uma série de divagações. E pude ainda, depois, conferir que aquele quadro ficava ali, eternamente iluminado, e com a porta de vidro, sempre transparente, a exibi-lo. Era no mesmo prédio em que eu mesmo tinha meu consultório. Estive lá, em um final de semana, e pude comprovar: o freudão ficava lá, todo iluminado, 24 horas por dia, durante todos os dias do ano. Inacreditável: era uma luz eterna a iluminá-lo, um fogo de Zoroastro a nunca ser apagado. Reverência eterna, divina? Louvor? Os olhos de Freud estão em todo o lugar? Mas ele não vê nada, pois somente ele se ilumina. O resto jaz no escuro: o velho drama de Narciso, do narcisismo da própria Psicanálise, sua ameaça constante de ruína: a de às vezes se esquecer de que existem várias e boas possibilidades de tratamento psicoterápico nessa vida, e não somente a sua como via única de acesso ao inconsciente ou à saúde.
A grande impressão ali, naquela sala, era a de que o Freud do quadro não nos via. No início aquilo me simbolizava a grande dificuldade em que muitos psicanalistas, dogmáticos e fanáticos em seu ofício, tinham em lidar com a alteridade, a diferença. Como o Freud do quadro, de tão iluminado, “não era capaz” de ver o outro, ele nos detinha, nos controlava e nos punia com a gravidade de seu semblante e postura incólume, reforçados pelo tamanho do quadro e pela periferia do resto do pequeno mundo escuro à sua volta. Pois, não era ele mesmo, Freud, o qual dizia que toda vigilância já é uma forma de punição?
Não era difícil, também, ficar observando aquele quadro e imaginar uns olhinhos por detrás dele a espiar a sala, como naquele velho clichê de cinema, em que quadros com pessoas servem para vigiar, saber mais do que se deve, controlar, e fraudulentamente assombrar.
Minhas reações a este cenário foram variadas e ambivalentes. Um lado meu gostou e deu risadas e o outro também deu risadas, porém ficou questionando esse louvor pela figura de Freud. Perguntei-me o que muitos psicanalistas sentem em relação a esse grande pai, Freud. Ele os protege e os vigia? Pune? É onisciente? O que Freud falou está falado? Como amam Freud? E esse amor produz o quê, que espécie de felicidade? Freud se ilumina e apaga o resto? Como é que é isso? Que filhos os psicanalistas, os quais assim se intitulam (e se afiliam, se tornam “filhos”), desejam ser para este pai? Obedientes? Prediletos? Protegidos? Rebeldes? Completamente identificados, cegos, e incapazes de qualquer confronto com o pai primevo?
Logo me lembrei de um cartum do Quino em que o sujeito, já adulto, caminhava ao lado da mãe, portando um camiseta com o retrato dela estampado. Como diz a própria Psicanálise: reduzido à mãe, ainda preso na relação simbiótica, infantilizado, não castrado? Alguém que ainda não cresceu e pôde construir seu próprio caminho? A liberdade não conquistada? Ou a gratidão? O reconhecimento do outro na constituição do que somos? O respeito pela memória? O amor assumido? E afetado, exibido? Ou sem medo de mostrar que ama e a quem ama?
O que era aquela sala pra mim? Por que havia me mobilizado tanto? Fiquei durante dias obcecado pela sala do Freud mal-assombrado. Aquilo parecia uma assombração. O desejo daquele psicanalista era assombrar quem quer que saísse daquele elevador? Causar espanto e, em alguns, até horror? Por que não? E não era isso o que Freud muitas vezes produzia em seus contemporâneos, e até os dias atuais ainda produz em muitos de nós: espanto, horror? Também não me esqueço de certa passagem em que Wittgenstein fala das extravagâncias teóricas de Freud. Mas me esqueço em que livro de Wittgenstein eu li isso. Lembro, porém, que ele acaba sugerindo uma coisa: Freud era um sujeito afeito a malabarismos teóricos.
E, sem dúvida, Karl Popper também não hesitou em conceber desta maneira: papai Freud adotava malabarismos teóricos para fazer valer seus postulados. O malabarismo teórico talvez tivesse sua relevância, segundo o próprio Popper, na fase da descoberta científica, na fase de preparação de hipóteses, as quais demandam até bastante criatividade. A coisa porém muda de figura quando passamos à testagem das teorias. E é aí que Freud, segundo ele, apelaria bastante para argumentos ad hoc. Ou seja, argumentos que, apesar de entrar em franca contradição com a teoria proposta, falseando-a, eram adotados por Freud como uma espécie de exceção ou argumentos que explicavam aquele caso em particular.
Isto, em grosso modo, é o resumão da crítica de Popper à Psicanálise. O pensamento freudiano seria amarrado de um modo a coibir a possibilidade de refutação ou falsificação. É impermeável à testagem. O que seria, segundo esta concepção, anticientífico. Pois é, Freud explica? Explica sim. Mas muitas vezes explica demais da conta. O que faz alguns dizerem que a Psicanálise seria boa demais para ser ciência.
Os malabarismos teóricos de Freud teriam, em muitos casos, por sua vez, o pendor à extravagância. Toda a circunvolução argumentativa para se falar do complexo de castração, por exemplo, pode dar muito bem a dimensão disso. Não há dúvidas, o legado de Freud para a cultura ocidental é relevante e em boa medida proveitoso. Mas como lidar com isso? De modo crítico ou somente fazendo parte do coro que reproduz todo e qualquer enunciado emitido por ele? Sempre tive estas questões comigo e não sei se vale a pena fazer parte da massa fanática de psicanalistas que tem como mote de vida a defesa da Psicanálise com unhas e dentes, em função mais da sobrevivência da instituição psicanalítica e seus dogmas, do que a busca saudável da verdade.
Sim, eu estava horrorizado. A visão daquela sala tinha feito todo o real lacaniano despencar sobre minha cabeça. O simbólico despertado em mim pelo Freud mal-assombrado não cessava de acontecer e dominar meu mundo dividido entre amar e odiar a Psicanálise. E o impossível de tudo aquilo que não sou capaz de dizer aqui não cessava de não se escrever em minha cabeça. Talvez fosse meu próprio sentimento de amor e meu horror por idolatrias e tietagens a afetar um amor que não precisa ser obsceno ou exibicionista. Guardasse o Freud dentro do seu consultório, meu caro. Já não basta introjetá-lo fanaticamente? É preciso erigir mais um totem?
Havia em mim, também, o sentimento de que Freud conseguia traduzir realisticamente a crueza da existência com tanta sofisticação e, ao mesmo tempo, com todo o auto-engano que ele mesmo denunciava. O triste sentimento de que pessoas muito inteligentes e lúcidas eram também capazes de cometer atrocidades, e que a autodestruição, o auto-engano e o paradoxo se avizinham mesmo nos terrenos mais férteis da racionalidade. Sentimento este, o qual também não deixa de ser tipicamente psicanalítico.
Eu insisti em rir disso tudo, durante dias. Fiquei doente, enlouquecido com aquilo. Contei a história a várias pessoas. Mas várias pessoas mesmo. Algumas riam e fabulavam junto comigo:
“Nossa, mas que cara absurdo esse psicanalista...”; “Que sujeito ridículo”; “Esse cara não tem noção”; “É um panaca, um imbecil. Eu jamais faria análise com ele”; “Ridículo, cômico, grotesco. Ele pensa o quê? Pensa que vai intimidar seus pacientes com esta sala escura em que o freudão reina absolutamente pintão a oprimir o resto do universo cintilante e não cintilante?”; “O que esse cara pretende? Castrar seus pacientes antes mesmo que eles adentrem a sala? A sala de espera dele é a salinha da castração? Operação de fimose simbólica? Hospitalzinho do além (pois que mal-assombrado) ou do simbólico, que seja; cujo procedimento cirúrgico preliminar é esta assombração castradora e opressora?”; “Então é isso mesmo? Freud castra, castra demais, todos os seus discípulos (apóstolos?) e pacientes? Freud representa antes de tudo uma figura paterna onipotente e opressora? Esse cara baba muito o ovo de Freud. Psicanalista baba-ovo é um porre. Os apóstolos de
Freud... Haja paciência”.
Outras, porém, percebendo meu exagero, minha desmedida em implicar ou debochar do suposto psicanalista, atacavam. Foi o caso de uma grande amiga, também psicóloga, a qual não perdoou:
“Nossa, Adriano, como você é doente, invejoso. Você está é morrendo de inveja. No fundo, você gostou do que o cara fez, da coragem que ele teve, e queria ter um consultório tão impactante quanto o dele. Aquilo te impressionou demais. Você ficou tocado, cara. Tá morrendo de vontade de ir lá e fazer análise com esse doidão aí.”.
A sala do Freud mal-assombrado na parede tinha, contudo, sua beleza. Uma beleza estranha e meio cômica. Era, apesar de exagerada, provocativa. Tal como um filme de Zé do Caixão? Tal como qualquer coisa que em um primeiro momento pode parecer ridículo, torto, tolo e desproporcional, mas o qual, depois, não tiramos da cabeça? Pelo menos em mim aquele absurdo estava produzindo algum efeito. E a fala de minha amiga, a dizer que eu desejava entrar naquela sala e conhecer o doido do psicanalista que armara aquele cenário, não devia ser desprezada.
O que fiz então? Um dia, saindo de meu consultório, resolvi dar uma passadinha por lá. A porta não estava trancada. Ou seja, o homem estava em casa. O clima, de fato, era taciturno. Aquilo era um memorial mesmo, um templo obscuro, um recanto insólito e apartado do mundo a buzinar lá fora. A música ambiente era clássica, temperatura e cheiro agradáveis, além de uma pequena fonte d’água, elétrica. Música clássica, no volume certo, e um ambiente sinistramente acolhedor. Onde eu estava me metendo? Ok, vamos esperar o doidão sair de sua sala...
Passaram-se uns dez minutos e a porta se abriu. Era ele e uma senhora, sua paciente. Abraçaram-se, com um carinho cordial e cúmplice. E ela se foi. Tratava-se de um senhor, de idade, vestindo um chapéu tipo boina, e suspensórios. Tinha um sorriso bastante singelo e simpático:
“Bom dia.”
“Bom dia” – repliquei bem rápido, sem conseguir falar direito, pois tive alguma vontade de rir, mas sem todo aquele impulso que eu havia antes imaginado. A imagem daquele velhinho com ares de bonachão simplesmente me desarmou. Seu sorriso era sereno. Havia tranqüilidade em toda a sua postura e expressão.
“Pois não?”
“Serei sincero com você. Um dia passei por aqui e vi esse quadro de Freud, no meio do escuro, e tive vontade de sentar e esperar que a porta se abrisse. Desculpe-me se pareço invasivo...”
A conversa se estendeu, bastante. Meu castelo recalcitrante de rejeição a quem eu simplesmente não conhecia desmoronou. Fiquei em análise com ele por um bom tempo, até seu falecimento. Devo muito ao homem que eu antes havia fabulado como o bizarro guardião do consultório do Freud mal-assombrado.
( Narrativa Fictícia)