Thursday, January 28, 2010

“Nada acontece por acaso”?

Eis mais uma expressão do jargão popular. É muito comum ouvir pessoas dizendo ou escrevendo isso. E o que estão querendo dizer? “Nada acontece por acaso, minha filha. Tudo tem a sua hora”. Como assim, “tudo tem a sua hora”? É isso, há um programa já predeterminado? Predeterminado por quem? Pois se “tudo tem a sua hora”, alguém marcou. E quem marcou a hora desse “Alguém”? De modo geral a expressão “nada acontece por acaso” reforça a crença em entidades superiores e sobrenaturais, as quais predeterminam nossa existência.
Outro modo de também compreender esta expressão é que ela também afirma que tudo tem uma finalidade. Mas por que essa finalidade seria sempre boa para quem sofreu um mal? Ou seja, esta expressão serve, muito geralmente, de consolo: “espere um pouco mais, que mais adiante você terá uma excelente oportunidade, a qual somente aparecerá em função deste infortúnio recente”. Doce consolo.
Por outro lado, também não há como fugirmos da tentativa de compreensão mínima de alguns outros conceitos correlacionados: determinismo e liberdade, por exemplo. Determinismo: tudo é determinado, possui causas (favor não confundir com predeterminismo). No determinismo trata-se da rede ou série infinita de causas. Até os eventos mais complexos são determinados, possuem causas, embora estas estejam em uma rede muito extensa e muitas vezes inacessível.
“Tudo é mais simples do que podemos imaginar e, ao mesmo tempo, mais intricado do que poderíamos conceber”, disse uma vez Goethe. Simplicidade do olhar e complexidade do real. A simplicidade é um ato da vontade, de desprendimento, de entrega imediata, sem reflexões, de não tematização da vida e do mundo. Coisa do mundo animal, principalmente. Antídoto do espírito, dos males do intelecto que turva as águas para parecer que são mais profundas. Ou seja, simplicidade é bom para combater gente muito complicada e dominadora com suas complicações. Complicam para dominar, para terem mais poder. Jogo de aparências, também.
Mas quero continuar no caminho que comecei, pelo conceito de determinismo. Comte-Sponville alerta: o acaso não é o contrário do determinismo. É o contrário da liberdade. Ser livre, em boa medida, é a capacidade para se autodeterminar. E o acaso é esse inacessível ao poder dos homens. Determinado, porém de modo tão complexo que não podemos controlá-lo. “Nada ocorre por acaso”? Sim, com certeza, pois tudo tem causas. Mas nem sempre temos acesso a elas, à sua compreensão. Às vezes não somos capazes de explicar porque as coisas são assim ou assado, porque ocorreram desta ou daquela forma, mais precisamente: eis o acaso.
Sugestão de Comte-Sponville: pensemos em nossa própria existência e a rede de causas que a organiza, que a funda. Para que cada um de nós tenha nascido, por exemplo, foi preciso uma série específica de acontecimentos. Se o preservativo não tivesse furado; se ela não se atrasasse um pouco e os dois não se cruzassem na rua e não se conhecessem; se ele tivesse desistido de continuar a morar longe da família (e assim não a conhecesse); se ela tivesse ido estudar em outra escola; fora os milhões de espermatozóides que tivemos de vencer; ou mesmo o sexo daquele dia com aqueles espermatozóides, dos quais, entre milhões, e centenas de possibilidades de encontro amoroso, éramos somente um único e singular gameta; ou mesmo o encontro fortuito de nossos avós, de nossos bisavós e assim por diante, “infinitamente”.
Enfim, vários outros seres morreram para que estivéssemos aqui. Vários outros foram superados, dispensados, aleatoriamente. Infinitas outras possibilidades foram perdidas para que nascêssemos. Alguns dizem: a existência é um presente, uma sorte, muita mais improvável do que o prêmio máximo de qualquer loteria ou jogo de azar. Mas como definir como presente o que me foi dado ao acaso ou totalmente fora do controle de quem quer que seja?
Mas o acaso é isso: mesmo que complexamente e infinitamente determinado. É o impossível de ser controlado de modo preciso. Como prever exatamente quais serão os números do próximo sorteio de loteria em um palpite só? Há somente probabilidades. Pode ser isso ou aquilo, quase infinitamente, e você talvez tenha de esperar um média de de dezenas de milhões de lances ou jogos para em um determinado momento acertar.
O acaso nos diz o seguinte: você não é livre para fazer o que bem deseja. Você é um amontoado de determinações. O fato, porém, de assim o ser, também não quer dizer que não tenhamos liberdade para algumas coisas, que podemos alguma coisa. Senão, ação alguma seria válida. Não se trata de niilismo. O acaso fala da probabilidade distante, da infinitude do universo, de determinismos complexos, e não da possibilidade imediata. Podemos sim determinar alguma coisa e é para isso que vivemos, e pensamos. E assim vamos provocando microscópicos acidentes no destino de tudo.

9 comments:

Maviane Ribeiro said...

Adriano querido, muito bom esse texto. Adorei!

Anonymous said...

é bom saber, mavi, que tem sempre alguem que le... obrigado pelo comentario...

adriano

psicologiaa said...

Mestre,você se apresentou a mim como gênio,esses seus oclinhos diz tudo.
Nada acontece por acaso...esse é meu lema,talvêz,meu consolo, como de tantas outras.Por acaso também adorei tê-lo como mestre,sua garra e paciência fez a diferença no meu aprendizado.Nada acontece por acaso,viu!?
Bjos

Anonymous said...

meus "oclinhos" dizem tudo e voce nao diz seu nome... obrigado pelo comentario...

goalgoosh said...

ótimo adriano, é sempre bom passar por aqui...
aguas turvas, sofismas, Comte Sponville...

Frank

Anonymous said...

ai ai esses ateus... haha brincadeirinha... adorei o texto.

Lia

Anonymous said...

Nada acontece por acaso? Somos donos da nossa vida, temos nosso livre arbítrio. Isso de destino, nada é por acaso, Deus quis assim... São desculpas para aqueles que não assumem os próprios fracassos, defeitos, a incapacidade, incompetência . ..Aqueles que conquistam o que quer, sabe que tudo vem do trabalha da força de vontade, da coragem de encarar a vida, de ver a realidade sem fantasias e sem culpar ninguém.
As pessoas fracas estão sempre querendo um culpado, até culpam o inconsciente de agir inconsciente. O inconsciente é uma desculpa daqueles que não querem assumir o que realmente são, pessoas que guardam seus anjos e demônios dentro de si só esperando o momento de solta-los. O destino não existe, o que existe são as coincidências do acaso.
Essas pessoas que sempre estão querendo culpar o pré-destino, tem personalidade como o desse desenho : ( Lippy the Lion and Hrdy Har Har) oh Vida oh azar...
Quem acredita assisti o desenho, tem no youtube, talvez alguém se identifique com a hiena.
Tudo é culpa de nossas ações, se vc acha que não tem culpa, pense bem...reveja suas ações, hábitos...

Renata Luna said...

Sr. Adriano, não foi minha intenção plagiar nada. Recebi uma mensagem por email com trechos dessa publicação, onde não citava a fonte (nem o nome do autor, nem site, nem livro, etc).

Já incluí a fonte e me desculpo pelo incoveniente.

Rita Ribeiro said...

"O acaso fala da probabilidade distante, da infinitude do universo, de determinismos complexos, e não da possibilidade imediata."

Gostei muito de seu texto.
Bjs, Adriano!