Sunday, March 30, 2025

Violência no CAPS

Nos dias em que o CAPS se transforma num caos as coisas podem sempre piorar.

Eu estava com meu grupo de pacientes, o grupo de metas, na maior sala, bem perto da entrada, quando começamos ouvir uma gritaria. Pedi licença e fui até a porta. Era um rapaz de mais de 1,90 m e bem robusto. Seu nome era Edvan (nome fictício). Não era somente alto, era consideravelmente forte. Isso lhe conferia certamente uma aparência intimidadora. 

Eu quero meu Rivotril! Não saio daqui sem meu Rivotril. Não saio dessa poha sem meu Rivotril! Ô, desgraça! Vocês são um bando de vagabundos! Vocês tem que trabalhar! Eu pago o salário de vocês, seus vagabundos!

Não era paciente de nossa unidade. Não era paciente de CAPS. Era a primeira vez que ele aparecia por ali. Chegara há poucos minutos. Exigia atendimento imediato e literalmente furando a fila. Havia outras pessoas que tinham chegado antes dele. 

Minha hipótese é a de que ele chegou e, em seu primeiro contato, com o primeiro servidor, infelizmente não foi recebido de forma muito gentil. Infelizmente existe uma cultura bastante generalizada no Distrito Federal de não haver gentileza, simpatia ou sorrisos com estranhos. Muitos brasilienses não respondem a um cumprimento de bom dia e nem são abertos para conversar trivialmente com estranhos no supermercado, parada de ônibus ou em qualquer outro local fora de casa. Creio que esse paciente chegou ao CAPS e disse um bom dia para alguém que não lhe respondeu a esse cumprimento de bom dia e não lhe sorriu, e que esse tipo de interação pode ter sido a faísca que faltava em alguém com um potencial explosivo tão grande.

Ele já estava bastante agitado, caminhando de um lado para outro e vociferando para as pessoas presentes na instituição, que não eram poucas. 

- Você não me conhece. Fica esperto! Você não sabe com quem você está lidando - dizia furiosamente para o vigilante e quaisquer outras pessoas que estavam por perto, tentando acalmá-lo.

Paulo, nosso vigilante daquela ocasião, se manteve muito sereno e com o tom de voz modulado para baixo, tentando acalmar aquele rapaz que parecia confiar bastante em sua estrutura física ameaçadora. 

Paulo fitava-o com mansidão, com o oceano de um olhar tranquilo. Não se opunha. Colocou-se à sua frente e parecia tentar acalmá-lo, de modo firme e pacificador. Eram dois homens pretos, separados por quase 30 anos de diferença. Unidos pela cor da pele, estatura e separados em duas gerações e biografias completamente diferentes, sendo Edvan o mais jovem e impulsivo e Paulo o quase ancião dessa história. 

Não compreendo como Paulo não se intimidou, pois tinha diante de si alguém bem mais jovem, grande, forte e propenso à violência.

- Você não sabe quem eu sou. Se liga, Mané! Eu pago teu salário! - vociferava Edvan.

Começou a retirar-se, em direção à rua.

- Eu vou embora, mas eu volto! 

E nem foi-se por completo. Atravessou a rua e coletou um grande pedaço de cascalho que repousava no chão. Era uma pedra com uns dois ou três quilos de massa, pouco maior que um tijolo comum, de barro, com o qual Edvan rumou novamente em direção ao CAPS, que estava lotado, resultando em correria generalizada. Pacientes e servidores se debandaram, desesperados, rumo aos fundos do prédio, que se estende por cerca de 50 metros de comprimento, talvez 30 ou 40 metros de largura e composto por diversas salas. Não sabíamos do que ele era capaz. Estávamos todos em busca de fuga ou refúgio.

Corri em direção à copa, um pouco antes da enfermaria, praticamente nos fundos do terreno. Antes que lá chegasse, ouvi o primeiro forte estrondo, resultante do impacto do cascalho nos vidros da porta de entrada.

- É tiro! É tiro! - gritavam aflitos alguns pacientes, mais ao fundo do CAPS, que não sabiam o que estava acontecendo.

Eu sabia que Edvan havia coletado na rua um grande cascalho e que aquele estrondo era resultante do impacto. Corri e tentei me esconder, porque não tinha a menor confiança de que seria capaz de me proteger de suas investidas ou de um cascalho que pudesse ser arremessado em minha direção. Não seria capaz de me esquivar. Como a maioria das pessoas, corri e fugi sem hesitar, pois não havia mais o que ser feito. 

Então, se dependesse de mim, Edvan facilmente tomaria a posse de todas as instalações do CAPS. Não tentei bloqueá-lo fisicamente. Isso não se afigurava como uma possibilidade para mim.

Edvan adentrou o CAPS pelo portão, caminhou até perto da porta e arremessou o primeiro cascalho, destruindo completamente um dos vidros.

Paulo, das raízes profundas de seus 59 anos de idade e mais de 20 como vigilante, agiu de modo completamente diferente de mim e da grande maioria das pessoas que ali se encontravam.

Quando Edvan invadiu o CAPS com o primeiro cascalho, também se escondeu, pois não lhe restava outra alternativa, ao risco de receber uma pedrada certamente bastante danosa. Ser vítima do arremesso de um cascalho daquele tamanho poderia facilmente ser fatal. 

Contudo, quando percebeu que Edvan retornava à rua para coletar o segundo cascalho, rumou em sua direção, para maior desespero de alguns poucos, que ainda observavam a sucessão daqueles lamentáveis eventos. 

- Seu Paulo, volta! Volta! Não vai lá não! O cara tá louco! - gritavam alguns. 

Paulo, porém, não corria propriamente na direção de Edvan. Na verdade corria para fechar e trancar o portão, o que somente fez aumentar a ira de Edvan, que agora corria na mesma direção, para impedir que Paulo o trancasse, com o risco de que houvesse um embate físico entre os dois. 

Por sorte, nosso vigilante conseguiu trancar o portão a tempo. Edvan chutava o portão com força, deformando-o completamente. Era bem forte, mas sua força era insuficiente para quebrar o ferrolho e seu grande cadeado. Paulo, em seu treinamento, possivelmente havia ensaiado aqueles movimentos por diversas vezes e também ensaiado vários outros movimentos de contenção de pessoas agressivas.

Porém, a distância entre o portão e a porta de vidro era de menos de 10 metros, com um bloqueio gradeado que permitia a visualização desta porta e sua mira. Diante de tal contexto, Edvan não hesitou em arremessar o grande cascalho com toda sua força.

Por sorte, esse segundo cascalho bateu na junção de ferro dos vidros, e não sei exatamente por qual motivo Edvan deu-se por satisfeito. Talvez não houvesse mais cascalhos por perto. Ele, porém, continuou do lado de fora, na rua, praguejando.

- Vocês são uns vagabundos! A gente paga pra vocês trabalharem e não para ficar negando serviço! Vocês precisam respeitar as pessoas! É por isso que esse Brasil não vai pra frente! Eu sou cidadão de bem e exijo respeito! 

Alguns pacientes se refugiaram dentro de um banheiro. Muitos choravam e rezavam. Eu me abriguei dentro da copa, juntamente com alguns outros colegas, também servidores. Todos estávamos com medo que Edvan avançasse para dentro das dependências da instituição, agredindo e ferindo quem estivesse pela frente. Todos tinham medo de algo parecido com um massacre coletivo, como naquelas invasões de atiradores de escolas. 

Sim, tratava-se somente de uma única pessoa, que não portava a arma de fogo. Porém, dada sua agressividade e porte intimidador, e o fato de estar munido com grandes pedaços de pedra, que podiam ser arremessados em qualquer pessoa, praticamente ninguém teve a coragem de se manter por perto, dado o risco de se ferir seriamente.

Mas Paulo estava lá, bem perto, diante de Edvan. Paulo era a pessoa que continuava a encará-lo com grande proximidade e risco. 

A copa tinha uma janela, que dava para a horta. Pulei essa janela e da horta telefonei para a polícia, sem saber que Edvan estava trancado para fora do CAPS, na rua.

- Um sujeito invadiu o CAPS de Samambaia, coletou grandes pedaços de pedra e os arremessou na porta de vidro, e talvez nesse momento esteja invadindo as dependências e depredando o que encontra pela frente. É possível até mesmo que tenha ferido alguém seriamente.

- Ele está armado com arma de fogo?

- Não, mas está muito agressivo e é um sujeito bem grande e forte.

- Ele feriu alguém seriamente? 

- Não, mas o desespero aqui é geral. Vários servidores e pacientes correram e estão todos escondidos.

Essa conversa com a atendente se estendeu. Ela parecia resistir a qualquer informação que eu lhe passava. Parecia que iria acionar o serviço de urgência somente se houvesse alguém seriamente ferido. E eu de certo modo até compreendo. Se a polícia militar também estiver padecendo do problema que nós mesmos padecemos: falta de recursos humanos, falta de pessoal. Com falta de pessoal e uma demanda muito grande, devem ser priorizado os casos onde há pessoas feridas ou seriamente feridas.

Nada disso acalma quem está desesperado, assim como nossos pacientes desesperados também não costumam se acalmar rapidamente. Era o caso propriamente de Edvan, que diante de seu desespero, pelo visto, geralmente explode em agressividade. Fico imaginando se fosse Edvan ao telefone, pedindo socorro para a polícia. Ele xingaria violentamente a atendente:

- Olha aqui, sua phuta! Você não tá vendo que tá rolando a maior merda aqui? Phuta que phariu! Vocês vão esperar alguém ser morto? Karalio!

A polícia, contudo, chegou rapidamente. Porque antes de mim, ou ao mesmo tempo, outras pessoas também haviam telefonado para pedir socorro. Não havia mais gritaria e pude ver que Edvan estava na rua, já conversando com alguns policiais. 

- Eles me negaram atendimento. Sou um trabalhador, um cidadão de bem e tenho transtorno mental... - dizia aos policiais, em tom de voz bem mais ameno, chorando.

 Era a primeira vez que Edvan botava os pés dentro de um CAPS. Tinha o discurso e o comportamento organizados, o juízo de realidade preservado e não tinha histórico de internações psiquiátricas. Vinha na verdade fazendo uso abusivo de benzodiazepínicos, no caso o Rivotril, pelo qual furiosamente agiu para que o obtivesse de modo imediato, e sem qualquer tipo de espera ou diálogo.

Chegara ao CAPS e queria ser atendido em 5 minutos, furando a fila composta por diversas outras pessoas que haviam chegado bem antes dele e também tinham suas urgências. Provavelmente estava acostumado a ser agressivo e conseguir o que queria. A agressividade é algo que vicia. A minha hipótese é que Edvan era mais uma dessas pessoas intimidadoras que são viciadas em serem agressivas. Porque funciona. Porque dá resultado. Produz resultados favoráveis e imediatos, com uma série de efeitos colaterais a longo prazo, que não são tão bem percebidos por quem é agressivo. Mas que acabam, mais cedo ou mais tarde, por se fazer pesar em suas vidas. Porque, ao agirmos de modo agressivo e truculento, também por vezes colhemos as consequências morais ou jurídicas resultantes de tal comportamento.

Era o que estava acontecendo naquele dia. A minha hipótese é a de que Edvan estava novamente agindo de modo agressivo, porém agora estava tendo de lidar com uma consequência jurídica imediata. Passou dois ou três dias preso e nunca mais apareceu por ali. Não temos quase ideia alguma de quem era aquela pessoa e quais eram os problemas pelos quais estava passando. Entrou naquela manhã no CAPS, tomando-nos todos de assalto. Aquilo foi um assalto. Fomos todos tomados de surpresa, sob intensa ameaça. Não houve tempo para diálogo, escuta, conversa nada. 

Edvan entrou no CAPS com um único objetivo; pegar algumas caixas de Rivotril. E eu sei muito bem como é um assalto. Porque já fui assaltado algumas vezes. Simplesmente não há qualquer possibilidade de diálogo. Na maioria das situações é tudo muito rápido, e os criminosos agem para que não seja diferente.

Esse triste episódio foi tema de algumas reuniões de equipe. Ficou claro que em nossa formação continuada era necessária a inclusão de algumas aulas ou debates sobre estratégias de desescalonamento da agressividade. Assim foi feito. Durante duas ou três reuniões assistimos apresentações sobre técnicas e métodos para a prevenção de atos de agressividade tão intensos. E não era somente assistir a essas apresentações. Havia também debate exaustivo.

Infelizmente porém algumas pessoas, que ainda têm a cultura de não responder a um simples cumprimento de bom dia (ou que não sabem trocar gentilezas com desconhecidos), ainda continuam se comportando do mesmo modo.

Wednesday, March 26, 2025

Inveja e tolice

A inveja é a infelicidade pela felicidade do outro. Mas por que alguém ficaria feliz ao observar que o outro está feliz? Se essa outra pessoa é um inimigo, logo facilmente se compreende o motivo da infelicidade. Mas o problema é que existe gente invejosa até de filhos, que não são inimigos. Existe gente invejosa que observa o outro feliz e sente isso como uma grande injustiça. E só fica bem quando causa o mal a quem está feliz. Às vezes só fica bem quando consegue perceber que o outro também está infeliz.

São pessoas que tentam nivelar o mundo por baixo, pela miséria, por sua própria miséria pessoal. Não conseguem compreender o que seria necessário para também alcançarem aquele admirado estado de bonança ou de bem-estar. E mesmo que de fato exista injustiça, não conseguem compreender quais são as causas dessa injustiça. 

É muito nesse contexto que se forma o ressentimento. Existe a raiva, que é somente uma emoção, e geralmente passageira. Existe o ódio, que é o cultivo da raiva. E existe o ressentimento, que é o cultivo do ódio. O ódio do ressentido é plantado, colhido, descascado, fatiado amassado, fermentado, temperado e cozido durante meses, anos a fio. É sentir, e sentir novamente, por uma infinidade de vezes. 

É a vingança colocada no centro e no sentido da vida. É obsessão pelo outro como o sentido da própria vida. Não para ajudá-lo, acolhê-lo ou acalantá-lo. É a obsessão por um outro fantasmático, superdimensionado. É o mote de vida de gente miserável e geralmente boba, muito boba, que muitas vezes se orgulha de sua própria ignorância, de suas próprias tolices, como se essas fossem virtuosas. Justificam sua ignorância e tolice como uma espécie de espírito prático e resolutivo.

É olhar para o outro, que está bem e não entender absolutamente nada, tendo somente como propósito a reivindicação de alguma justiça que fica longe de ser produzida no horizonte míope de quem não entende minimamente os motivos de tal assimetria ou desigualdade. É a perspectiva viciosa da busca de igualdade pela destruição de tudo. 

O ressentido não sonha com um mundo melhor. É um tolo que percebe o sofrimento e a miséria somente na linha d'água de seu próprio umbigo. É incapacitado para empreender esforços na direção de uma sociedade mais igualitária, porque não foi disso que se alimentou durante boa parte de sua vida. Durante muito tempo foi doutrinado para dividir o mundo entre vencedores e perdedores e achar que esse é o espetáculo da existência humana.

Tuesday, February 18, 2025

A maldade

Há pessoas, muitas pessoas, que sei que não são más. Ou não são terrivelmente más. Mas que já me fizeram muito mal. Por medo ou mágoa de mim. Por ignorância ou egoísmo. Por pequenez de consciência. Ou talvez mesmo por terem razão, por eu merecer e não saber.

E há pessoas que pouco conheço e que nem tenho coragem de conhecer melhor. Porque infelizmente tive delas indícios, para mim muitos sérios, de que são realmente maldosas. Quando vejo o que me assusta, crio uma barreira protetora, raramente criada entre mim e qualquer pessoa, porque sou um ser tranquilamente aberto ao contato humano, para conhecer melhor quem quer que seja.

E essa barreira felizmente me transforma por completo. Adquiro, espontaneamente, a capacidade de ficar, imóvel, porque acende-se um alerta de perigo, a me avisar constantemente que com aquela pessoa devo ter muito cuidado. 

Nunca me fez mal algum, mas diante dela coisas horríveis ocorreram. Têm cheiro de algo muito errado. Estão sempre no centro de alguma confusão, no meio de transações obtusas, de jogos ardilosos de poder. Desprezam, tratam com violência e sorriem sadicamente para os vulneráveis. São afáveis e calorosos com pessoas poderosas. 

Com quem se comporta assim, sinto que todo cuidado é pouco. Somente observo. E tento tocar o rebanho inocente de minha vida adiante. Porque também sei o quanto sou vulnerável e você, pessoa malvada, que se regozija em ser assim, você não me engana.

Monday, February 10, 2025

Gatilhos

Há sintomas dos quais padecem as pessoas, que estão com transtornos mentais severos, que são inacreditáveis. Se alguém me dissesse que uma outra pessoa não tem condições nem mesmo de ouvir algo um pouco nojento, e que a partir disso literalmente vomita, eu não acreditaria.

Eu conversava com uma colega, no CAPS, que me perguntava detalhes sobre uma técnica de laboratório de análises clínicas. Ela queria saber mais especificamente como era a técnica Harada Mori. Essa técnica implica na coleta de uma amostra de fezes e sua parcial diluição em água destilada, formando-se assim um creme, como se fosse uma espécie de milk shake de fezes.

Um paciente estava perto, ouviu o que eu falava e saiu imediatamente do recinto, correndo em direção ao jardim, para vomitar.

Pensei: "não é possível. Ele deve estar somente emitindo aqueles reflexos de vômito".

Para minha surpresa, quando cheguei perto vi que estava de fato vomitando.

Pedi-lhe desculpas e deixei claro que a partir de então eu iria sempre tomar o máximo de cuidado para verificar se ele não estava por perto quando o assunto se remetesse a algo parecido, para que não tivéssemos mais um infortúnio como esse.

Para uma pessoa que está severamente adoecida os cuidados devem ser redobrados. Para outras pessoas, que simplesmente exigem que existam alertas de gatilho para quase todo e qualquer tipo de assunto, penso que elas também devem ser informadas de que precisam sim ir enfrentando, aos poucos, o que elas estão caracterizando como gatilhos. Porque a cultura do gatilho é extremamente enfraquecedora e adoecedora. Quanto mais nos esquivamos e nos protegemos daquilo que consideramos como gatilhos, mais fracos nos tornamos para o que nos é aversivo. 

Superproteção é uma coisa enfraquecedora. Superproteção institucionalizada é algo desastroso.

Covardia

Não consigo pensar ou sentir de outra maneira. Sempre que vejo alguém defendendo bilionários ou gente rica, de modo geral logo penso comigo mesmo: esse sujeito é um bunda mole, um covarde. 

Porque é um sinal imenso de covardia ficar do lado mais forte. As ideologias que pregam isso são sustentadas eminentemente por pessoas profundamente covardes.

- Você não tem vergonha na cara de ser tão covarde, tão bunda mole? - é o que tenho vontade de lhes perguntar.

E outro ponto também é que não se trata somente de covardia. Mas também de mesquinhez existencial, de egoísmo existencial. São pessoas que não querem ter dúvida em relação a se dar bem às custas de outras, que estão mais vulneráveis. Não têm o mínimo de grandeza de espírito para aceitar que o outro também pode ter os mesmos direitos que elas. Detestam a igualdade. 

E acrescente-se a isso o fato de que a defesa de bilionários também soa como um comportamento interesseiro, típico de puxa-sacos. Porque puxa-saquismo é refúgio comum de gente covarde.

Wednesday, January 29, 2025

"A terra vai pegar fogo"

O paciente estava com um livro na mão que me chamou a atenção. O nome do livro era "O mundo vai pegar fogo". Tinha capa de filme de ficção científica, daqueles que falam do fim do mundo.

- Perdoe-me, mas eu fiquei um pouco curioso como que você está lendo. Parece ser um livro muito interessante...

Ele prontamente colocou o livro em minhas mãos. 

- Estou gostando muito! É uma leitura muito envolvente!

Abri-o, e comecei a ler uma das orelhas.

Falava de riscos globais atuais: mudança climática, ameaça nuclear e das inteligências artificiais. Falava de como os cientistas já haviam nos alertado e de que a classe política não não havia ouvido o que diziam.

Gostei... Mas logo em seguida percebi que era um livro de cunho religioso. Começava falando de ciência e terminava com pregação e texto bíblico. 

- Você sabe o que são o que quer que você faça?

- Não. Como assim?

- Ele quer que você passe a frequentar a igreja dele.

- Eu sei disso. Mas jamais passaria a frequentar a igreja dele. Porque já tenho a minha. Fui batizado na Assembleia de Deus aos 13 anos de idade e jamais sairei de lá.

- Peço-lhe desculpas por ter desviado um pouco o assunto. É que esse livro tem uma capa muito chamativa, atrativa...

- Imagina... Não tem problema. Gosto muito de conversar sobre o que estou lendo. 

Nesse dia ele falou sobre muitas coisas, de sua própria história de vida, e em um determinado momento ressaltou:

- Mas tem uma coisa que mudou a minha vida. E é recente, coisa de dois ou três anos atrás.

- Mudou para melhor ou para pior?

- Para melhor, com certeza. Se não fosse isso eu ainda estaria refém de uma série de pessoas que só me faziam mal. Se não fosse isso eu nunca teria enxergado o quanto essas pessoas são tóxicas.

- E o que aconteceu há cerca de 2 ou 3 anos? O que mudou a tua vida? 

- Ayahuasca.

- Você bebeu o chá? É isso?

-Sim, bebi o chá seis vezes. E pretendo continuar bebendo. Não vejo a hora de beber novamente! Se não fosse o chá, eu jamais teria percebido o quanto alguns conhecidos e muitos dos meus familiares são extremamente tóxicos e somente ajudavam a me manter numa situação de sofrimento para o qual eu não via nenhuma alternativa de alívio.

Fiquei um pouco atônito. Ele começou o atendimento falando de religião, como se fosse uma pessoa religiosa fervorosa e no final acabou me revelando que o que mudara sua vida foi a ayahuasca.

Quando se trabalha um CAPS é tudo muito previsível. Sempre ocorre a mesma coisa. Boa parte dos pacientes sempre nos surpreende. É sempre isso que ocorre, essa previsibilidade. Sempre ocorre alguma coisa impactante, que nos surpreende e abala o chão sob nossos pés.