Eu estava com meu grupo de pacientes, o grupo de metas, na maior sala, bem perto da entrada, quando começamos ouvir uma gritaria. Pedi licença e fui até a porta. Era um rapaz de mais de 1,90 m e bem robusto. Seu nome era Edvan (nome fictício). Não era somente alto, era consideravelmente forte. Isso lhe conferia certamente uma aparência intimidadora.
Eu quero meu Rivotril! Não saio daqui sem meu Rivotril. Não saio dessa poha sem meu Rivotril! Ô, desgraça! Vocês são um bando de vagabundos! Vocês tem que trabalhar! Eu pago o salário de vocês, seus vagabundos!
Não era paciente de nossa unidade. Não era paciente de CAPS. Era a primeira vez que ele aparecia por ali. Chegara há poucos minutos. Exigia atendimento imediato e literalmente furando a fila. Havia outras pessoas que tinham chegado antes dele.
Minha hipótese é a de que ele chegou e, em seu primeiro contato, com o primeiro servidor, infelizmente não foi recebido de forma muito gentil. Infelizmente existe uma cultura bastante generalizada no Distrito Federal de não haver gentileza, simpatia ou sorrisos com estranhos. Muitos brasilienses não respondem a um cumprimento de bom dia e nem são abertos para conversar trivialmente com estranhos no supermercado, parada de ônibus ou em qualquer outro local fora de casa. Creio que esse paciente chegou ao CAPS e disse um bom dia para alguém que não lhe respondeu a esse cumprimento de bom dia e não lhe sorriu, e que esse tipo de interação pode ter sido a faísca que faltava em alguém com um potencial explosivo tão grande.
Ele já estava bastante agitado, caminhando de um lado para outro e vociferando para as pessoas presentes na instituição, que não eram poucas.
- Você não me conhece. Fica esperto! Você não sabe com quem você está lidando - dizia furiosamente para o vigilante e quaisquer outras pessoas que estavam por perto, tentando acalmá-lo.
Paulo, nosso vigilante daquela ocasião, se manteve muito sereno e com o tom de voz modulado para baixo, tentando acalmar aquele rapaz que parecia confiar bastante em sua estrutura física ameaçadora.
Paulo fitava-o com mansidão, com o oceano de um olhar tranquilo. Não se opunha. Colocou-se à sua frente e parecia tentar acalmá-lo, de modo firme e pacificador. Eram dois homens pretos, separados por quase 30 anos de diferença. Unidos pela cor da pele, estatura e separados em duas gerações e biografias completamente diferentes, sendo Edvan o mais jovem e impulsivo e Paulo o quase ancião dessa história.
Não compreendo como Paulo não se intimidou, pois tinha diante de si alguém bem mais jovem, grande, forte e propenso à violência.
- Você não sabe quem eu sou. Se liga, Mané! Eu pago teu salário! - vociferava Edvan.
Começou a retirar-se, em direção à rua.
- Eu vou embora, mas eu volto!
E nem foi-se por completo. Atravessou a rua e coletou um grande pedaço de cascalho que repousava no chão. Era uma pedra com uns dois ou três quilos de massa, pouco maior que um tijolo comum, de barro, com o qual Edvan rumou novamente em direção ao CAPS, que estava lotado, resultando em correria generalizada. Pacientes e servidores se debandaram, desesperados, rumo aos fundos do prédio, que se estende por cerca de 50 metros de comprimento, talvez 30 ou 40 metros de largura e composto por diversas salas. Não sabíamos do que ele era capaz. Estávamos todos em busca de fuga ou refúgio.
Corri em direção à copa, um pouco antes da enfermaria, praticamente nos fundos do terreno. Antes que lá chegasse, ouvi o primeiro forte estrondo, resultante do impacto do cascalho nos vidros da porta de entrada.
- É tiro! É tiro! - gritavam aflitos alguns pacientes, mais ao fundo do CAPS, que não sabiam o que estava acontecendo.
Eu sabia que Edvan havia coletado na rua um grande cascalho e que aquele estrondo era resultante do impacto. Corri e tentei me esconder, porque não tinha a menor confiança de que seria capaz de me proteger de suas investidas ou de um cascalho que pudesse ser arremessado em minha direção. Não seria capaz de me esquivar. Como a maioria das pessoas, corri e fugi sem hesitar, pois não havia mais o que ser feito.
Então, se dependesse de mim, Edvan facilmente tomaria a posse de todas as instalações do CAPS. Não tentei bloqueá-lo fisicamente. Isso não se afigurava como uma possibilidade para mim.
Edvan adentrou o CAPS pelo portão, caminhou até perto da porta e arremessou o primeiro cascalho, destruindo completamente um dos vidros.
Paulo, das raízes profundas de seus 59 anos de idade e mais de 20 como vigilante, agiu de modo completamente diferente de mim e da grande maioria das pessoas que ali se encontravam.
Quando Edvan invadiu o CAPS com o primeiro cascalho, também se escondeu, pois não lhe restava outra alternativa, ao risco de receber uma pedrada certamente bastante danosa. Ser vítima do arremesso de um cascalho daquele tamanho poderia facilmente ser fatal.
Contudo, quando percebeu que Edvan retornava à rua para coletar o segundo cascalho, rumou em sua direção, para maior desespero de alguns poucos, que ainda observavam a sucessão daqueles lamentáveis eventos.
- Seu Paulo, volta! Volta! Não vai lá não! O cara tá louco! - gritavam alguns.
Paulo, porém, não corria propriamente na direção de Edvan. Na verdade corria para fechar e trancar o portão, o que somente fez aumentar a ira de Edvan, que agora corria na mesma direção, para impedir que Paulo o trancasse, com o risco de que houvesse um embate físico entre os dois.
Por sorte, nosso vigilante conseguiu trancar o portão a tempo. Edvan chutava o portão com força, deformando-o completamente. Era bem forte, mas sua força era insuficiente para quebrar o ferrolho e seu grande cadeado. Paulo, em seu treinamento, possivelmente havia ensaiado aqueles movimentos por diversas vezes e também ensaiado vários outros movimentos de contenção de pessoas agressivas.
Porém, a distância entre o portão e a porta de vidro era de menos de 10 metros, com um bloqueio gradeado que permitia a visualização desta porta e sua mira. Diante de tal contexto, Edvan não hesitou em arremessar o grande cascalho com toda sua força.
Por sorte, esse segundo cascalho bateu na junção de ferro dos vidros, e não sei exatamente por qual motivo Edvan deu-se por satisfeito. Talvez não houvesse mais cascalhos por perto. Ele, porém, continuou do lado de fora, na rua, praguejando.
- Vocês são uns vagabundos! A gente paga pra vocês trabalharem e não para ficar negando serviço! Vocês precisam respeitar as pessoas! É por isso que esse Brasil não vai pra frente! Eu sou cidadão de bem e exijo respeito!
Alguns pacientes se refugiaram dentro de um banheiro. Muitos choravam e rezavam. Eu me abriguei dentro da copa, juntamente com alguns outros colegas, também servidores. Todos estávamos com medo que Edvan avançasse para dentro das dependências da instituição, agredindo e ferindo quem estivesse pela frente. Todos tinham medo de algo parecido com um massacre coletivo, como naquelas invasões de atiradores de escolas.
Sim, tratava-se somente de uma única pessoa, que não portava a arma de fogo. Porém, dada sua agressividade e porte intimidador, e o fato de estar munido com grandes pedaços de pedra, que podiam ser arremessados em qualquer pessoa, praticamente ninguém teve a coragem de se manter por perto, dado o risco de se ferir seriamente.
Mas Paulo estava lá, bem perto, diante de Edvan. Paulo era a pessoa que continuava a encará-lo com grande proximidade e risco.
A copa tinha uma janela, que dava para a horta. Pulei essa janela e da horta telefonei para a polícia, sem saber que Edvan estava trancado para fora do CAPS, na rua.
- Um sujeito invadiu o CAPS de Samambaia, coletou grandes pedaços de pedra e os arremessou na porta de vidro, e talvez nesse momento esteja invadindo as dependências e depredando o que encontra pela frente. É possível até mesmo que tenha ferido alguém seriamente.
- Ele está armado com arma de fogo?
- Não, mas está muito agressivo e é um sujeito bem grande e forte.
- Ele feriu alguém seriamente?
- Não, mas o desespero aqui é geral. Vários servidores e pacientes correram e estão todos escondidos.
Essa conversa com a atendente se estendeu. Ela parecia resistir a qualquer informação que eu lhe passava. Parecia que iria acionar o serviço de urgência somente se houvesse alguém seriamente ferido. E eu de certo modo até compreendo. Se a polícia militar também estiver padecendo do problema que nós mesmos padecemos: falta de recursos humanos, falta de pessoal. Com falta de pessoal e uma demanda muito grande, devem ser priorizado os casos onde há pessoas feridas ou seriamente feridas.
Nada disso acalma quem está desesperado, assim como nossos pacientes desesperados também não costumam se acalmar rapidamente. Era o caso propriamente de Edvan, que diante de seu desespero, pelo visto, geralmente explode em agressividade. Fico imaginando se fosse Edvan ao telefone, pedindo socorro para a polícia. Ele xingaria violentamente a atendente:
- Olha aqui, sua phuta! Você não tá vendo que tá rolando a maior merda aqui? Phuta que phariu! Vocês vão esperar alguém ser morto? Karalio!
A polícia, contudo, chegou rapidamente. Porque antes de mim, ou ao mesmo tempo, outras pessoas também haviam telefonado para pedir socorro. Não havia mais gritaria e pude ver que Edvan estava na rua, já conversando com alguns policiais.
- Eles me negaram atendimento. Sou um trabalhador, um cidadão de bem e tenho transtorno mental... - dizia aos policiais, em tom de voz bem mais ameno, chorando.
Era a primeira vez que Edvan botava os pés dentro de um CAPS. Tinha o discurso e o comportamento organizados, o juízo de realidade preservado e não tinha histórico de internações psiquiátricas. Vinha na verdade fazendo uso abusivo de benzodiazepínicos, no caso o Rivotril, pelo qual furiosamente agiu para que o obtivesse de modo imediato, e sem qualquer tipo de espera ou diálogo.
Chegara ao CAPS e queria ser atendido em 5 minutos, furando a fila composta por diversas outras pessoas que haviam chegado bem antes dele e também tinham suas urgências. Provavelmente estava acostumado a ser agressivo e conseguir o que queria. A agressividade é algo que vicia. A minha hipótese é que Edvan era mais uma dessas pessoas intimidadoras que são viciadas em serem agressivas. Porque funciona. Porque dá resultado. Produz resultados favoráveis e imediatos, com uma série de efeitos colaterais a longo prazo, que não são tão bem percebidos por quem é agressivo. Mas que acabam, mais cedo ou mais tarde, por se fazer pesar em suas vidas. Porque, ao agirmos de modo agressivo e truculento, também por vezes colhemos as consequências morais ou jurídicas resultantes de tal comportamento.
Era o que estava acontecendo naquele dia. A minha hipótese é a de que Edvan estava novamente agindo de modo agressivo, porém agora estava tendo de lidar com uma consequência jurídica imediata. Passou dois ou três dias preso e nunca mais apareceu por ali. Não temos quase ideia alguma de quem era aquela pessoa e quais eram os problemas pelos quais estava passando. Entrou naquela manhã no CAPS, tomando-nos todos de assalto. Aquilo foi um assalto. Fomos todos tomados de surpresa, sob intensa ameaça. Não houve tempo para diálogo, escuta, conversa nada.
Edvan entrou no CAPS com um único objetivo; pegar algumas caixas de Rivotril. E eu sei muito bem como é um assalto. Porque já fui assaltado algumas vezes. Simplesmente não há qualquer possibilidade de diálogo. Na maioria das situações é tudo muito rápido, e os criminosos agem para que não seja diferente.
Esse triste episódio foi tema de algumas reuniões de equipe. Ficou claro que em nossa formação continuada era necessária a inclusão de algumas aulas ou debates sobre estratégias de desescalonamento da agressividade. Assim foi feito. Durante duas ou três reuniões assistimos apresentações sobre técnicas e métodos para a prevenção de atos de agressividade tão intensos. E não era somente assistir a essas apresentações. Havia também debate exaustivo.
Infelizmente porém algumas pessoas, que ainda têm a cultura de não responder a um simples cumprimento de bom dia (ou que não sabem trocar gentilezas com desconhecidos), ainda continuam se comportando do mesmo modo.