Friday, February 24, 2006

SONHOS COM EDU

Edu se foi. Não foi levado por Deus. Ele mesmo tomou a decisão e deu no dessa vida. Claro, ninguém entende, ninguém aceita. Somente se estiver na mesma sintonia.
Como ele mesmo deu um jeito de ir embora, ficou no meu inconsciente a impressão de que também poderia dar um jeito de voltar. Porque a decisão de Deus é mais irrevogável. Se Deus volta atrás, prova que teve uma decisão imperfeita. E isso compromete o Deus todo poderoso. Bom, mas Edu era humano, um mano meu, ok. Errava, como todos nós. E poderia então voltar atrás.
Tive vários sonhos em que ele voltava atrás. Sem contar o meu desejo mais do que consciente de que voltasse mesmo.
Sonho 1:
Apesar de hoje eu não saber mais se foi sonho ou se ocorreu mesmo.
Estávamos todos no Bar Brasília, em Ribeirão, sem o Edu (ele tinha batido as botas). Este é o bar que freqüentamos muito há uns dez anos atrás. Edu esteve conosco, várias vezes, em vários momentos muito felizes de nós, os irmãos metralha.
De modo repentino, me toquei de que havia algo estranho no ar. Virei para os amigos à mesa e disse assim: “Moçada, o Edu tá vindo ”. “Mas como assim, ele voltou?”, perguntaram. “É, não sei como, mas o cara voltou”. E de repente, para o espanto e perplexidade geral, o Edu aparece. Cumprimenta todo mundo, como se nada tivesse acontecido. O povo fica louco e quer submetê-lo a uma avalanche de perguntas, para saber como esse cabra afinal voltou da morte.
Tudo bem gente, mas preciso antes ir ao banheiro. Quando voltar eu explico tudinho. E vocês verão que é simples, que não tem mistério algum”. Foi. E ainda o vimos fechando a porta. Mas não saiu mais de . Batemos e nada. Abrimos a porta e ele simplesmente havia desaparecido. Perto da pia, em local bem visível, havia um flor, singela no meio da hecatombe de um banheiro de pinguços.
Peguei-a pra mim e retornei ao meu lugar.
“E , Adriano, cadê o Eduardo? voltou do banheiro? To curioso pra saber o final dessa estória?”
Gente, cheguei e não havia mais ninguém. Ele simplesmente sumiu. Deu no ”. Para depois me lembrar que era essa uma das marcas mais características do Edu: viver dando no .
Levei a flor para casa. No dia seguinte, a namorada do Cako chegou com ele e pegou a flor nas mãos: “Que mandrágora linda...”.
Depois fui pesquisar as propriedades da mandrágora: narcótica, alucinógena, sedativo potente, afrodisíaca. Uma planta repleta de mitos. Tradicionalmente utilizada em diversos rituais na história da humanidade. E ainda, tempos depois, conversando com uma criança, ela me narrou um episódio do livro Harry Potter em que a mandrágora era dada para ressuscitar alguns personagens que haviam sido petrificados.

Wednesday, February 01, 2006

Projeto de lei que proíbe a palmada

Na semana passada participei de um debate, ao vivo, pela Tv Nacional (Programa Diálogo Brasil, 25/01/2006, às 22:30hs), sobre o Projeto de Lei contra a palmada. Se aprovado, será proibido por lei todo e qualquer castigo físico à crianças, inclusive a palmada. No caso de infração são previstas penalidades como acompanhamento e orientação psicológica dos pais ou responsáveis envolvidos.

Os participantes éramos eu e a deputada federal Sandra Rosado (PSB/RN), aqui em Brasília. O filósofo e educador Dante Donatelli, em São Paulo, e Lauro Monteiro Filho, da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), no Rio de Janeiro. Tanto a deputada quanto Lauro Monteiro Filho encabeçavam a defesa do projeto de lei. Sendo que este participou intensamente de sua elaboração. Dante Donatelli se posicionava contra tal projeto. E eu, em tese, também deveria argumentar contra. Dado o tamanho da polêmica, achei mais prudente a avaliação crítica tanto dos argumentos prós e contras.

Tentarei, então, resumir aqui os pontos principais de minha reflexão:

Palmada com diálogo, educa? Sim. E é possível educar sem palmada, sem a utilização de castigos físicos? Sim, também. O maior problema são os argumentos mal formulados, tanto prós quanto contra. Mas esta é uma questão da ética, do campo jurídico e não da Psicologia. Por quê? Porque não existem evidências ou estudos conclusivos de que a palmada (punições físicas moderadas) cause danos psicológicos ou de que seja uma porta de entrada para punições mais serveras e violentas, para o abuso. E também não é necessariamente um modelo que ensina a violência para a resolução de todo e qualquer conflito. O modelo que necessariamente existe é o da punição corporal frente a determinadas infrações.

Portanto, não existem argumentos psicológicos plausíveis, seja favoráveis ou contra a palmada. Penso que os argumentos éticos e jurídicos são mais relevantes. O debate sobre este projeto de lei remete-se mais ao campo jurídico e ético do que à Psicologia. A Psicologia não tem nada a dizer sobre isso.

E em termos éticos, o que pode ser dito ou pensado?

Talvez um bom príncipio para a argumentação, em termos éticos, seja, de forma bem simples, o seguinte: "Se é proibida a punição corporal para adultos, por que seria permitida para as crianças?". Onde fica a dignidade da criança? Por que, neste aspecto, ela não tem o direito de igualdade com os adultos? E aí sim poderíamos começar um debate mais consistente, pois a igualdade é um imperativo ético relevante.

Por outro lado, em termos legais, também existem questões que devem ser levantadas:

Uma lei como esta, a qual proíbe que um pai dê uma simples palmada em um filho, não é muito invasiva? Onde ficam as pressupostas garantias legais referentes às liberdades individuais e à privacidade?

Um debate mais consistente deve enfrentar estas questões.


Friday, January 27, 2006

VIVÊNCIAS E VEXAMES 2 (EUCLIDES!)

Mais um desafio. Novamente com neo-reichianos. Só que agora era em Bioenergética. Nossa, a primeira vez que ouvi esse nome, não entendi nada. Lembrou-me algo tecnológico. E não tem exatamente nada a ver com isso. Não tem nada nada da frieza da tecnologia. É mais quente do que você imagina.

Era uma psicóloga, na faixa entre 40 e poucos e 50 anos de idade. Reichiana de ar solene. Sabia se impor. Talvez para os reichianos deva ser muito importante saber impor respeito, pois muitos leigos podem pensar que vale tudo, que é tudo oba-oba. Não, não é assim, meu filho.

Ela pediu que desenhássemos, numa grande folha, o contorno do corpo de um dos colegas de cada grupo de quatro ou cinco pessoas. Depois passamos a desenhar em volta, livremente. Pediu para que ficássemos discutindo e interpretando o que houvera sido desenhado. Foi divertido. Eu estava inspirado. Muitas idéias, muitas associações. A interação com os colegas estava sendo muito produtiva.

De repente, ela pediu para que deixássemos ocorrer em nosso corpo a expressão total de nosso juiz interno, aquele que vive a nos massacrar, reprimindo-nos o tempo todo, em implacáveis veredictos existenciais. Entrei de cabeça. Eu pulava pela sala e, ao mesmo tempo, me dava uma bronca. Falava uma besteira e, ao mesmo tempo, me punia severamente, com humilhações verbais do pior tipo. Entretanto, quando me dei por conta, eu estava pulando de almofada em almofada, as quais eram várias, espalhadas pelo chão da sala. Tenho um problema de dores nos pés. Pé inchado, sabe como é. Por isso pulava de almofada em almofada.

“Olha o que você está fazendo, seu idiota. Todo mundo está quieto e parado a ser massacrado pelo juiz interno. Somente você é que está pulando pra lá e pra cá feito uma besta! Pare e faça como todo mundo”, disse-me meu juiz prêt-à-porter.

Ruim, todos ouviam o que eu dizia para mim mesmo. Coisa de louco: estava falando sozinho, pensando alto; e mais temíveis sandices. Então dei um jeito de consertar: fiquei paradão também e completamente imóvel. “E cale essa boca!”, completou meu querido juiz.

Percebi que estava saindo fora do padrão. Não somente o meu, mas todos os juízes me massacrariam. Meu surto não seria acolhido.

Ela então pediu para que nos libertássemos do juiz: “Libertem-se! De corpo inteiro! Soltem-se! Mandem o juiz para bem longe!”. Ela tinha um tom de pregadora fanática, conduzindo-nos ao êxtase. E eu já estava em êxtase, ou melhor, em possessão, há muito tempo. Eu estava muito doido. Dilacerando sanguinariamente meu juiz com os dentes. “Uhaaaaaah!!! Agora eu sou liiiivreee!!”. E quem pode com a loucura de quem acaba de se libertar de séculos de opressão silenciosa? Estava louco, e pensei que era justamente isso o que ela queria.

“Isso, agora vocês se deixem cair no chão. Morrerão para renascer renovados, outros!”

Desabei. Seria um novo tempo daqui pra frente.

Ela foi nos acalmando, nos fazendo relaxar, dormir. Agora seria aquele transe relaxado, entorpecido, de quem jaz eternamente na paz de todos os seus sonhos, de toda a vastidão oceânica de seu inconsciente. Eu boiava no meio do Oceano Atlântico. O oceano estava calmo e morno. Era noite, repleta de estrelas e em banho de lua. Meu ser em completa paz e harmonia com todo o restante do universo. Era parte disso tudo. Estava conectado a tudo. Eu e o infinito oceano éramos um só.

E não sei porque, naquele estado geral de completa paz, ela resolveu retomar o tom de sermão, de pregador fanático: “Quem é você , qual é o seu nome?”. Perguntava, em tom enérgico. Eu estava tão fluido, tão oceano, tão movimento puro que, espontaneamente, respondi: “Euclides!”. Não sei porque, foi o nome que me invadiu o espírito e saltou pela boca.

Acho que ela não esperava por resposta alguma, de ninguém: “Euclides?”, como assim?

“Euclides da Cunha, ahahahaha!”. Soltei esta pérola de surtos preciosos em uma risada convulsiva e estranha. Meu corpo estava todo contorcido e minha expressão não era diferente. Um estado de loucura tomava meu ser e eu não era capaz de controlar...

Mas meu surto parou por aí. Penso que a coisa não foi tão grave, pois nossa guru foi capaz de sustentar razoavelmente a situação, não precisando recorrer à qualquer espécie de reprimenda. Talvez tenha sido, quem sabe, até um pouco divertido para as pessoas com quem eu dividia o espaço. Ou no máximo, um pouco desagradável. Fico imaginando possíveis comentários: “Nossa, vocês viram aquele cara? Pirou totalmente”; “Não entendi o que aconteceu”; “Ele estava sabotando a vivência”; “Palhaçada. Falta de maturidade”; “Euclides da Cunha. De onde ele tirou isso? Ahahaha....”.

Claro, depois de uma dessas, as reações podem ser as mais diversas e imprevisíveis. Que bom, ninguém disse nada. Com exceção da nossa guru, óbvio:

“Às vezes estamos seriamente doentes e nem percebemos. Nessas horas é preciso procurar ajuda...”.

Dispensou alguns minutos a tecer um pequeno sermão do alto de toda a sua experiência profissional e de vida. O tom solene e sereno nunca se perdia. E seu olhar estava totalmente concentrado em mim.

Um surto, isolado, ali, naquele contexto, segundo ela, fazia de mim um doente.

Depois de uma vivência tão boa e catártica como aquela, a qual havia me conduzido a um transe incontrolável, eu não tinha disposição nem capacidade para debater ou refutar qualquer coisa. Aceitei o rótulo de doente e ouvi a tudo o que ela disse, encarnando profundamente a expressão facial mais doentia que poderia apresentar-lhe.

Não teve dúvidas e não permiti que tivesse: saiu dali com a certeza de que eu era um doente mental.

Thursday, January 12, 2006

VIVÊNCIAS E VEXAMES

Sempre gostei muito de vivências e jogos em grupo, sejam oficinas teatrais, psicodrama, biodança, oficina de criatividade e outros mais que pude participar. Porém, houve experiências que não deram muito certo. Isto, obviamente, sob o olhar do ministrante. Em algumas tive comportamentos completamente inusitados ou até mesmo bizarros. E eles simplesmente irromperam de dentro de mim. Foram espontâneos. Em psicodrama e oficina teatral isto foi muito freqüente e nunca tive problemas. Nestas abordagens tive a sorte de encontrar profissionais preparados para lidar com a espontaneidade e que, acima de tudo, a estimulavam e a valorizavam.

Contudo, houve experiências de absurdo, as quais não foram bem recebidas pelos ministrantes, que eu gostaria de relatar. A primeira foi em um mini-curso de Somaterapia. Para quem não sabe, esta abordagem é neo-reichiana. Os somaterapeutas dizem que sua terapia é anarquista. Valorizam muito a liberdade, a espontaneidade, o fluir mais livre das energias corporais, a quebra das couraças, a criatividade.

Apesar de toda minha admiração por esses ideais, acho que posso de repente ter idealizado demais e assim ter passado na medida de minha liberdade e espontaneidade. Ou então o anarquismo das pessoas com as quais tive a infelicidade de lidar era somente uma fachada para se defenderem de seu facismo enrustido.

Vamos então ao que interessa: a vivência fatal. Já estávamos no final do mini-curso. O ministrante deixou-nos de olhos vendados por um bom tempo. Mais de uma hora sem ver o que ocorria. Éramos cerca de 25 pessoas. Caminhávamos pela sala, em silêncio, tocando-nos das mais diversas formas: eram comunicações de costas com costas, cabeça com barriga, ventre com ventre, conversa de mãos que se exploram. Enfim, corpos encontrando outros corpos, das formas mais variadas e inusitadas. Sim, muito interessante.

O ministrante era um japonês. Tinha um ar de sábio sisudo misturado com porralouquice. Sabe aquelas misturas esquisitas que só cabem em japas pirados? Uma coisa assim meio liberdade com porrada. E havia alguns praticantes antigos. Ficavam siderados pelas vivências. Tudo o que o mestre mandava faziam de forma vigorosa e até fanática. Houve momentos em que as pessoas estavam sendo arremessadas para o alto. O mestre ninja pressionava para que fosse mais forte, mais alto, mais perigoso, e todos estavam ali, absortos, massacrando os “covardes” que estavam com pavor de serem jogados para cima. Senti que o grupo às vezes se transformava numa massa sem rosto, sem qualquer espaço para o indivíduo, para o “não quero”, o “não posso”, “é meu limite”, “tenha um pouco mais de paciência comigo”. Resumindo, era um “vai ou reich”. Então racha, meu amigo. Haja violência para se conquistar a liberdade.

Estávamos lá, todos de olhos vendados, depois de muita bolinação. E o mestre shaolin ordena um abraço universal, no centro da sala. Seria a despedida. Todos, sem ver um palmo à frente de seu nariz, grudados. Braços entrelaçando-se, pernas, mão boba (ou esperta) aqui e ali. “Toquem-se da forma que vocês quiserem, sem censura. Pode ser com carinho, com tesão. Não importa”. Imaginem, foi aquela festa. O povo se apalpou pra valer. E não seria muito discreto que eu aqui entrasse em detalhes.

“Agora vamos respirar fundo. Inspira... Expira...”

E assim foi. Até que, de repente, sem que o mestre pedisse, começaram a expirar soltando a voz. Aquilo parecia um gemido de orgasmo, em coro. E os homens gemiam muito mais alto do que as mulheres. O gemido delas foi abafado e ficou inaudível. Se é que gemeram em algum momento. Não fui capaz de me sintonizar com aquilo. Estava me sentindo oprimido pelo gozo titânico de gordos de cueca, suados e com a barba por fazer. Sabe aquela história terrível de sentir um bafo quente e fedido na sua nuca? E fugir não dava. Estava preso no meio daquele mundo de gente. Ia gritar assim (?) : “Pára, pára, pelo amor de Deus, que eu quero descer!?” Impossível.

Pensei, então: vou me harmonizar com isso e soltar a voz também. Como meu sentimento era de opressão, saiu, espontaneamente, algo sofrido e talvez engraçado: uns ganidos desesperados de cachorro atropelado. “Caim, caim, caim...!!!”.

E isso foi uma bomba de silêncio bem no meio daquele monte de corpos em volúpia. Foi uma quebra geral de gozo dos titãs balofos. Por alguns segundos, foi um silêncio fúnebre. Mas logo algumas pessoas se riam muito do coitado do cachorro que caíra do caminhão de mudança. E aí ouvi o que me mais aprazia: a risada feminina. E não aquele gozo suado dos pura-banha.

Pelo tom de voz, vi que o mestre shaolin não gostou nada nada daquilo. “Tudo bem, pessoal. Vamos continuar. Isso acontece.”

E tudo voltou novamente. O gozo infernal dos titãs adiposos. “Não tem problema, desta vez faço a lição de casa e gozo também, exatamente como mestre shaolin deseja: Uhhh.... uhhhh... uhhhhh...!!!”. Também bem grave e bem forte. Mas não era um titã gordo. Foi o gozo de um titã gordo e lesado. Matou todo mundo. Ninguém podia com um titã gordo e lesado, pisando sobre todos os prédios da face da Terra e ejaculando sobre o mundo. Silêncio total. E depois, risadas.

“Quem não quiser participar, fora!”. O mestre shaolin tinha perdido a elegância.

Pensei: fico, e se os titãs voltarem, seguro a barra em silêncio. Pois não quero confusão com ninguém, muito menos com um japa pirado, chefe de um batalhão de fanáticos, disfarçados de libertários.

“Novamente, então, pessoal. Vamos lá: inspirem... expirem...”

E os titãs não voltaram nunca mais.

Saturday, December 24, 2005

NATAL

O Natal é uma ocasião, nem sempre boa, para presentear. Digo “nem sempre boa”, pois força a própria ocasião para tal. É o dia do presente generalizado, do presente gratuito. Gratuito porque você é obrigado a presentear, sem qualquer motivo, a não ser a própria data. E não porque encontramos o que seria perfeito para tal pessoa em um determinado momento e que, se deixasse passar, já não serviria mais. O Natal é a instituição do presente, o presente compulsório, assim como vários outros, prescritos por datas fixas e longe do movimento da vida.
Algumas pessoas até reclamam e dizem que o melhor presente é o imotivado. Aquele da ocasião de sua descoberta, que encontramos ao acaso, sem data pré-definida. O qual se encaixa perfeitamente nos desejos do felizardo. E que ainda tem um gostinho maior de surpresa, já que não era esperado, pois que é fora de data. O melhor presente é o fora de hora, desde que não seja o atrasado.
E há aquelas pessoas com a cultura de presentear. Alguns, mesmo não precisando de nada, querem ganhar presente. Outras (a maioria) sentem carências que presente nenhum irá preencher. Ou pelo menos os presentes que são possíveis de se ganhar rotineiramente. Estou, é claro, excluindo desta lista ganhar na loteria, casa própria, amor ou qualquer coisa que geralmente não cabe em um presente comum.
Ouvi também gente dizendo que Natal é para as crianças, que obrigação de dar presente pra adulto é um saco. E de fato, dar presente pra criança é a coisa mais divertida do mundo. As opções são inúmeras. E as crianças precisam mesmo ser presenteadas. Elas não tem o poder de ir lá e comprar tudo o que desejam ou precisam. Vivem uma carência constante: carência de não poder ir e vir, de geralmente não poder escolher por si mesmas e de ainda não serem senhoras de seus próprios impulsos e emoções. E aquilo que vem “engenhosamente” (assim elas o sentem) das mãos dos adultos é sempre bem-vindo. Ganhar presente é ganhar alguma coisa. O que, por si só, já é lucro. E isso tudo envolve um universo enorme de mitos e fábulas, sobre mundos repletos de personagens e coisas misteriosas e maravilhosas, cheias de alegria e superpoderes.
Saí para comprar alguns presentes para as crianças que amo e que fazem parte de minha vida. E aí nos damos ainda mais conta, sempre, de como o universo das crianças é imenso e fabuloso. É uma coisa incrível a criatividade que borbulha em tudo isso, nas estórias e nos brinquedos. E como o brinquedo precisa da estória e a estória muitas vezes vira brinquedo. Tudo é jogo e experimento. Tudo é transgressível, feito para ser recriado, violado de sua função original, de sua intocável sacralidade. Sem medo. Nada permanece sagrado nas mãos de uma criança... (a continuar)

Saturday, December 10, 2005

SERIEDADE E FALTA DE ESPÍRITO

Em minha tese de doutorado disse, de certa forma, de modo educado, elegante e sutil (ou seja, em formato acadêmico) que psicólogo não pode deixar de ser quem ele é. Autenticidade e espontaneidade responsáveis são talvez rincões privilegiados para a saúde mental, seja no plano do umbigo ou do rebanho. Sempre tive asco por psicólogos que fazem o tipo comedido, equilibrado. Sim, claro, algumas pessoas sempre foram assim.
Mas ninguém é tão sério assim. A seriedade, quando elevada a parâmetro primordial de tudo o que existe, é um atraso de vida. Não suporto gente séria, ou que se leva demais a sério. Trabalhar de modo engajado, envolver-se com alguém, amar, honrar compromissos, preocupar-se também com o bem-estar dos outros, não exclui o riso nem a auto-ironia. Digo “auto-ironia”, porque antes de sermos irônicos, devemos ser capazes de ironizar a nós mesmos. Ironia sem auto-ironia pode ser somente agressão.
Psicólogo que obedece ao estereótipo de resolvido (diga-se, excessivamente ponderado, discreto, sem graça) está perdendo a oportunidade de uma vida mais saudável. “É anti-ético”, disse uma vez um colega de profissão, bêbado. Concordo plenamente. Além de enquadrar sua própria existência na pobreza de espírito do estereótipo, tripudia, goza da cara de quem não é capaz de tal mediocridade e patologia.
Como diz uma colega minha que adora dançar e cantar sozinha, na rua ou em público: uma vida sem alegria não tem sentido. E talvez nem mesmo valha a pena. As pessoas que fazem o tipo sério demais, geralmente estão se escondendo, se defendendo.
E ainda, indiretamente, reprimem uma certa dose de abençoada e esclarecida loucura. Seriedade em excesso é burrice, dogmatismo. Não duvida de si mesmo, porque se leva demais a sério. E não satisfaz, oprime. Porque não dá férias ao pensamento, soltando a imaginação. Não transita. É sem movimento, sem graça. Não percebe que a vida também é jogo e faz-de-conta. Espirituoso é aquele que tem senso de humor ou que cultiva o espírito.
Seriedade demais é deixar o espírito morrer de fome.

Wednesday, December 07, 2005

CRIANÇAS


A tradição em casa era seguir o primogênito. Edu mandava. E Cako, o caçula, obedecia. Eu não. Assim vivi muito tempo no ostracismo. Edu e Cako eram um bloco, eu era outro. Também não havia a menor condição de eu ser o mestre de Cako. Quem faz fronteira não brinca em serviço. Faz guerra. E eu e Cako vivíamos em guerra. Jamais seria seu ídolo. Ela não queria ser engolido por um rival. Não sei se deu pra entender. Eu era o do meio. Disputava interesses tanto com o mais velho quanto com o mais novo. Minhas idolatrias ficavam reservadas para meus pais. Mas não era nada fácil viver espremido entre dois rivais.

Por outro lado, havia muitos e memoráveis momentos de união do trio. E Edu, claro, o mais velho, era sempre o mentor do que iria acontecer ao nosso mundo.

Éramos crianças do interior. Nascemos em uma Cohab. Casas com 30 metros quadrados. Mas era uma Cohab linda, toda arborizada, com jardins em frente às casas. Éramos pobres e bonitos. Meus dois irmãos, loirinhos e de olhos verdes. Dois bebês Johnson. Pareciam crianças de calendário. Uma pobreza colorida, alegre, romântica, sabe. E eu, no ostracismo. Olho claro, mas moreno. Era chamado de “preto”. Mas era um trio bem bonitinho, engraçadinho. Minha mãe sempre nos vestia com roupas iguais e cortes de cabelo meio beatles. Ficava meio circense, meio bonequinhos.

Parecia aquela banda de rock de um antigo desenho animado: “Os impossíveis”. Curly: o homem mola (Cako). Harry (?): o homem fluído (Edu). E Marlon (?): o Multihomem (eu). Paravam no meio de um show e viravam super-heróis, voando para o alto e gritando: "E Vamos Nós !!!". E o Multi-Homem sempre falava para o vilão: "Você pegou todos... menos o original !".

Para os três patetas, eu e Cako éramos os dois idiotas, os que faziam tudo errado. E Edu aquele que vinha pra botar ordem na casa. Papel de mais velho.

E éramos impossíveis mesmo. Edu estava com 10 anos, eu com 7 e meio e Cako com 6. Meu avô resolveu passar o sábado a tarde conosco na fazenda de seu antigo patrão, Dr. Quartim. Pegou seu fusquinha abacate 61. Isso foi em 1980. E lá fomos nós. “E Vamos Nós !!!", gritávamos na estrada, em uníssono. E dá-lhe aquelas tradicionais brigas no banco de trás. “A janela é minha...”. “Não, minha...”. E tome porrada.

Chegando lá, era um ambiente desconhecido. Edu, óbvio, pegou o comando do batalhão. Aí ele virava meu mestre. O que faríamos dessa vida sem o Edu? Isso era forte em nós. Tanto que Cako, há mais de oito anos, quando o Edu morreu, virou-se pra mim, colocou a mão em meu ombro, olhou fundo em meus olhos e disse: “Agora somos só nós dois, negão. Não vai mais ter Edu pra cuidar da gente não”.

E então Edu tomou a frente. Tudo o que ele dissésse, nós obedeceríamos. Afinal, éramos os dois idiotas dos três patetas, né verdade.

Chegamos na fazenda. E era linda, maravilhosa. Plantavam lírios. Inacreditável: havia um morro forrado de lírios, de todas as cores. Lindo, lindo. Cartão postal. E aqueles dois loirinhos e um moreninho, ficava mais calendário ainda. Copiava certinho o padrão de beleza europeu que o mundo todo compra.

Encontramos alguns pedaços de canos antena, de alumínio. Caniços de antena. Pareciam espadinhas. Ah, claro, não deu outra. A espadinha cortava lírio como em filme de samurai. Meu avô se distraiu um pouquinho. E quando chegamos lá em cima do morro. O que já havia ocorrido? Eu, Edu e Cako, abrimos uma estrada bem no meio do morro. Acho que decepamos milhões de lírios em questão de minutos. E, fora de brincadeira, gente. Edu olhou para o mundo que jazia a seus pés, como se tivesse acabado de desbravar o Everest. E em pose de mestre disse:

“O caminho se faz ao caminhar...”

Meu avô ficou louco.

Tuesday, November 22, 2005

Os loucos 4 (Loucos de rua)

Estava dando uma aula sobre movimento antimanicomial e diante do tema da tentativa de maior integração do doente na sociedade, não tive como não lembrar desses loucos que estão nas ruas. Não os que estão sem assistência, mas aqueles que, meio ao modo medieval, marcam presença em locais estratégicos da cidade. Seja em uma esquina movimentada ou mesmo perto de nossa casa. Talvez aquele vizinho doidão ou morador do bairro que chamava a atenção por sua excentricidade ou comportamentos mais bizarros.

Segundo as palavras de Lobosque (1997, p. 23), “‘fazer caber’ o louco na cultura é também ao mesmo tempo convidar a cultura a conviver com certa falta de cabimento, reinventando ela também seus limites”. Ou seja, a luta é por uma maior tolerância para as diferenças, mesmo que elas sejam meio espantosas, estranhas e talvez bizarras. Para que o louco não seja excluído, isolado, exterminado, deveríamos recuperar um certo espírito medieval em que os loucos estavam mais integrados à vida social.

Esse negócio de isolar louco só veio mesmo a ocorrer com vigor a partir da modernidade. Pois os loucos passaram a ser concebidos como uma ameaça a três valores que são os pilares do mundo moderno: razão, liberdade e individualidade. Além de ter rompido com a ordem das coisas, da razão, também têm sua individualidade devassada pela confusão de si com o mundo e pela fragmentação do seu eu, a alienação de si mesmo. E assim também não é possível, segundo a concepção filosófica antiga, escolher, ser livre. Mas não quero ficar aqui me delongando em explicações. Quero falar dos loucos que vi nesta vida e que percebi como mais integrados. Não importa de que forma.

São os loucos de rua. Um que batia bola numa esquina, em frente ao Sesc, em Ribeirão Preto. Aliás, pra mim é muito simbólico que ele ficasse exatamente no semáforo de frente ao Sesc. Pois esta instituição me traz sempre muito boas lembranças em relação a artes, esportes, convivência com as diferenças, humanização da vida. Era o louquinho do Sesc ou do posto Maravilha. Um posto de frente ao Sesc. Na verdade ele estava mais pra Maravilha do que pra Sesc.

E aquilo era uma maravilha. Ele passava ali seus finais de tarde, dando embaixadinhas com uma bola de futebol oficial e camisa de times. Adorava cortejar um ônibus inteiro parado no sinal. Controlando a bola, acenando pra galera, recebendo diariamente inúmeros aplausos. Aquilo era de uma alegria contagiante. Para outros poderia ser visto como algo triste, digno de dó. Mas eu e meus irmãos nunca vimos a coisa assim. A gente gostava. E ele gostava muito daquilo. Era seu espetáculo, seu show diário. Não estava mendigando, não parecia padecer de nenhuma miséria. Gente, convenhamos: bola oficial e camisa de times.

“Olha lá, Dri. O louco do futebol...”, dizia Cako ou Edu.

“O que será que se passa na cabeça de um sujeito desses?”, perguntávamos a nós mesmos, os três, juntos.

Um amigo meu fez tratamento em hospital-dia por um bom tempo. Sofria de alcoolismo e alguns agravantes. Sempre fora meio louquinho. Bebendo, a coisa ficava mais intensa. Não vou dizer quem é. Não pretendo expô-lo. E se eu pedisse a ele para publicar aqui sua identidade, ele deixaria. O cara é louco. Está pouco se lixando.

Um dia ele disse ao psiquiatra que tinha vontade de parar numa esquina movimentada e fazer discursos.

“Faça seus discursos. Por que não? Tá com medo do que os outros vão pensar?”, sugeriu o psiquiatra, que também não batia muito bem das idéias.

E não é que ele fazia mesmo. E não ficou marcado como o louco da esquina não. É necessária maior disciplina e assiduidade para tal. Como fez somente algumas vezes, não ficou para a história. Sabe aquela coisa de louco da hora, louco que se recupera? É visto como aquele sujeito excêntrico que deu ou ainda dá, de vez em quando, umas surtadas, sabe.

E esses loucos de rua podem também ter outro nome, mais carinhoso: “maluco beleza”, que virou até tema da música do Rauzito. Porque existe o maluco-beleza e o maluco-malvadeza. O primeiro é sangue bom, alto astral, alegria pura. O segundo é chato, doente, malévolo. Desses eu fujo. Mas também tem aqueles pseudomalvadeza, ou malvadeza sem risco. Melhor dizendo, tem louco que morde e louco que não morde. Louco de cidade do interior, que vive na rua, geralmente não morde. É igual vira-lata. Agora aquele que vive trancado, que se isola, que não convive, estes me parecem mais perigosos.

E por falar em pseudomalvadeza, e o seu Gino, hein? Ah, esse foi o louco mais famoso do meu bairro, na infância e adolescência. E tive o grande privilégio de morar na mesma rua, de frente à casa do sujeito.

“Meia, meia, meia! Eu sou o demônio!”, dizia bem alto, em tom enérgico e olhar diabólico, dentro do ônibus lotado, nos fundos.

As pessoas se assustavam e se afastavam, deixando seus lugares vazios. Gino sentava-se e dizia, dando gargalhadas diabólicas:

“Como é bom ser o diabo! Como é bom poder sentar onde eu quiser! Ah hahahahahaha...”, e ria-se, demoradamente, como num filme de terror. Eu e meu irmão ríamos juntos. Seu Gino era nosso chapa.

Mas a gente também brigava muito com ele. A molecada gostava de infernizá-lo. Eram brigas infinitas, verdadeiras guerras, com várias batalhas. Ele fatiava a bola que caia na sua casa, literalmente. Não somente rasgava ou furava, fazia churrasquinho mesmo. O cara botava fogo, cortava em pedaços. Louco, louco. E a molecada revidava. Punham bomba na sua caixa de correio e coisas semelhantes. Mas o que mais gostavam era de infernizá-lo com gozações, dançando e cantando em sua frente, correndo dele.

“Gineta campestre!!”, rebolando, em paródia à música do comercial do refresco Ki-suco campestre.

E seu Gino pegava pedaço de pau, atirando-o na molecada. Um dia agarrou meu irmão pelo shorts, que o bichinho quase se borrou todo, mas conseguiu fugir, com as calças meio arriadas. Ichi, meu irmão não era brincadeira. Capeta. Em plena festa junina pegou o microfone e começou a mexer com seu Gino. Minha mãe ficou uma arara.

Mas seu eu fosse aqui contar todas as peripécias do convívio com este nosso vizinho, precisaria de mais e mais parágrafos... Deixemos para as próximas estórias. Se o leitor quiser...

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* Lobosque, A. M. (1997). Princípios para uma clínica antimanicomial. São Paulo. Hucitec.


Monday, November 14, 2005

O NINJA 5 (Série Colegas de República)

Hans, apesar de holandês, tinha requebrado. Um requebrado muito esquisito, mas que tinha seu estilo. Tinha um jeito de dançar que era uma espécie de caricatura do estilo de Ney Matogrosso. Era uma coisa cômica e que deixava as mulheres confusamente excitadas. Riam e ao mesmo tempo se sentiam atraídas, seduzidas.

Enquanto dançava freneticamente, Ramon o apresentou à Júlia. Não passou despercebido. Júlia ria muito e não tirava os olhos do holandês, tentando imitar sua dança. Hans sabia que parecia ridículo, mas se divertia muito com isso. Tinha um ensinamento que há muito tempo carregava fielmente consigo: “O ridículo move o mundo”. Sabia que todos nós estamos condenados infalivelmente ao ridículo e que este, quando aceito e assumido, é o veículo de uma existência mais lúcida e alegre.

Ramon lhe daria uma carona. Júlia iria junto. No caminho até o carro, ela avistou uma mangueira.

“Nossa, olha só, tá carregada de mangas maduras...”

Hans correu bastante e, em grande velocidade, escalou a mangueira, colhendo uma manga grande e bonita. Júlia surpresa, sorriu como a receber um dos melhores presentes daquela semana.

“Obrigada”, com o olhar vidrado.

No caminho conversaram algumas banalidades e nada mais. Isto fora numa quarta à noite.

Sábado, sete e meia da manhã. Hans ainda dormia. A campainha tocou: era Júlia.

“Oi. Desculpe, você estava dormindo, não é? É que havíamos combinado de caminhar no parque, lembra?”

“Ah, sim, sim”, não se lembrava de porra nenhuma. Estava bêbado.

Tomaram café juntos. Deram muitas risadas.

“Ei, Hans. Você tem baseado? Vamos levar um pouquinho.”

Caminharam bastante. Depois subiram em uma mangueira bem frondosa e lá começaram a fumar um baseado. Hans agiu rápido e tentou, sem muitas demoras, dar-lhe um beijo.

“Nossa, que pressa. Nem conversamos direito e você já vem logo querendo me beijar. Não beijo estranhos.”

“Ah, baby. Você me acorda às sete e meia no sábado pra ficar me recusando um simples beijinho.”

“Vocês homens são todos iguais. Só pensam nisso.”

Preferiu relevar, contornar a situação. Não engrossaria com a menina. Afinal, caminhar de manhã cedo no parque e depois fumar um baseadinho com alguém interessante era algo agradável. Júlia era atriz, tinha boa conversa pra se jogar fora.

Passaram a manhã toda no parque. Hans enrolou vários baseados, pois Júlia queria sempre mais. Fazia de tudo para seduzi-la e nada. De repente:

“Vamos lá pra sua casa dar aquela trepada selvagem. Quero chupá-lo todinho...”

Então tentou beijá-la e ela esquivou-se.

“Pra quem quer dar uma trepada selvagem, um beijo não é nada.”

“Aqui não. Tem pessoas olhando. Gosto de privacidade, discrição.”

Foram pra casa. Ela pediu mais baseado. Fumou tudo o que ele tinha em casa também. Nunca vira alguém fumar tanto e ainda parar em pé. E ela conversava normalmente, nem parecia entorpecida, a não ser pelos olhos vermelhos, em escaldante magma, do olhar siderado e perdido no vulcão de si mesmo.

Por fim, no sofá da sala, beijaram-se. Hans levantou-se, de um só golpe, e correu para o quarto. Tirou toda a roupa e pulou na cama, completamente nu.

“Porra, velho. Pensei que fôssemos tirar um sarro aqui na sala”, lamentou Júlia.

Fumou mais um pouquinho, pensativa. E foi atrás de Hans. Chegando à porta do quarto:

“Você está pelado? Onde fui me meter? Que saco, vocês homens só pensam nisso!”

Bateu a porta foi-se embora, desiludida.

Três dias depois a campanhia de Hans tocou novamente. Agora às seis e quinze da manhã.

“Ah, Júlia, pelo amor de Deus, me deixe em paz.”

Foi para o quarto e deitou-se novamente.

Ela tinha uma cesta de mangas, bem cheirosas e no ponto. Deixou-as na cozinha e foi até a porta do quarto. Ficou observando-o dormir por alguns instantes. Tirou toda a roupa e deitou-se ao seu lado. Beijou-o até que acordasse.

“Júlia, afinal de contas, o que você quer de mim?”

Ela respondeu em uma única, rápida e insólita frase:

“Mete ni mim...”

Wednesday, November 09, 2005

COLEGAS DE REPÚBLICA 5 (O Ninja 4)

Hans descendia de uma família rica, mas que havia empobrecido pouco antes de nascer. Morou então nos bairros mais pobres de Amsterdã. Sofreu com um pai alcoólatra e violento, até uns 25 anos de idade, quando este veio a falecer de cirrose. Na infância e adolescência, além de se envolver em muitas confusões e brigas, praticou alguns furtos e outros delitos. Frenqüentou academias de boxe e chegou a lutar profissionalmente algumas vezes. Mas só veio definitivamente a encontrar um rumo mais estável em sua vida ao entrar para o exército aos 19 anos.
A vida de militar favoreceu uma canalização mais sadia de toda aquela energia. Aprendeu com unhas e dentes o valor da auto-disciplina e da perseverança e, com muito esforço, entrou para a universidade, no curso de Filosofia; o qual cursou durante todo o período em que esteve no exército. Também foi aluno em algumas disciplinas de outros cursos ( Sociologia, Ciência Política e Psicologia), e assim foi formando uma visão bem crítica e entrando em choque com o posição militar que já ocupava: a de sargento.
Terminada a faculdade, não teve jeito, deixou a vida militar. Enquanto não conseguia emprego em sua área de formação universitária, foi ganhando a vida com o que aprendeu no exército: foi contratado para o o rigoroso serviço segurança da embaixada dos Estados Unidos na Holanda. Permaneceu ali durante três anos e foi demitido sob a alegação de algo parecido com subversão: foi flagrado lendo algum texto de índole marxista ou anarquista durante o plantão. Apesar de toda a sorte de decepções com os americanos, valeu a pena, pois saíra de lá falando fluentemente o inglês. Com o dinheiro de suas contas, foi correr a Europa. Ficou cerca de um ano viajando, e disse jamais ter se esquecido do que viu e conheceu no leste europeu. Durante alguns anos passou então a viver assim: trabalhava bastante durante um tempo, juntava um bom dinheiro, economizando tudo o que podia, dormindo pouco, morando e vestindo mal. Depois gastava-o todo em viagens, para os mais diversos locais possíveis. Foi assim que conheceu os cinco continentes.
Em sua viagem à América do Sul, conheceu uma brasileira e apaixonou-se. Como a santa deu conta do recado, não mais desgrudaram. Entre idas e vindas, em um relacionamento cheio de loucuras e absurdos, já estão juntos há dez anos.
Conheceram-se em uma parada de ônibus. Caminhando, a alguns metros da parada, já pôde perceber que ali havia duas garotas, as quais pareciam comentar sobre o sujeito grande e esquisito que se aproximava. Observaram-no e riram-se, discretamente para que o estranho não se desse conta do motivo. Hans não teve dúvidas, estavam acintosamente rindo dele.
“Por acaso, eu tenho cara de palhaço”, disse assim, do nada, com aquele sotaque carregado.
Riram-se mais ainda, mas agora tentando de todo modo conter-se, em um misto de situação hilária com pavor.
“Não, pelo amor de Deus, de jeito nenhum, moço”, ainda rindo, mas assustadas.
O sujeito era bem esquisito. Vestia umas roupas meio orientais e trapeadas, sapatilhas de samurai e trejeitos de filme de kung-fu. Cabeludo e careca ao mesmo tempo, alto e forte.
Mas este desencontro inicial foi a ponte para se conhecerem.
Saíram juntos algumas vezes. E um dia Laura revelou que gostaria de experimentar haxixe. Hans conhecia tudo quanto era droga. Laura primeiro disse que seu sonho era fumar ópio. Mas como isso não existe no Brasil, disse que um haxixinho já estava de bom tamanho. Era a maior maconheira, mas ainda não tinha provado esta variante da cannabis.
Foram para casa Hans, pois Laura morava com a família. Enrolou um baseadinho bem firme, adicionando um pouquinho de haxixe. Tinha pouco e não iria desperdiçar com a primeira menina que aparecesse. Para quem nunca provou do haxixe já estava bom demais. E depois não suportaria ter de ficar segurando onda de mulher em pânico. Ainda mais naquele caso. Laura era muito dissimulada e gostava de ser fazer passar pelo que não era. Tentava demonstrar o tempo todo que era muito louca. Vivia para seduzir e dar o fora. Tinha prazer em ver os homens babando. Deixava o caminho totalmente aberto, e ao menor sinal de investida, se fazia de desentendida e humilhava o infeliz com “Você está me confundindo; não te dei esse tipo de liberdade; nunca senti nada por você; te vejo somente como um amigo”.
Mas a filha da puta gostava de provocar, de insinuar-se, de falar muita sacanagem, fazendo perguntas íntimas, demonstrando interesse, para depois cuspir na cara que você era um tarado idiota. Era provocação pura e deleitava-se em humilhar.
Hans percebeu seu jogo infantil e simplesmente transformava-se numa montanha de ironias, sustentando os mais diversos personagens e iludindo quem se achava muito esperta. Este jogo foi crescendo, juntamente com a excitação absurda que o acompanhava. Ela o tinha como um louco varrido, senão um psicopata, um perigo ambulante e sedutor. Ele a via como uma burguesinha mimada, metida a louca e intelectual: pura fachada a esconder-se por detrás de clichês das tribos de que fazia parte. Uma gostosa e atraente cretina. Além de gratuitamente competitiva.
Tudo isso mais esse último detalhe, a constante competição idiota que ela vivia a fomentar, deixavam-no profundamente irritado e desconfiado. Ela não era digna de confiança. Ali jamais abriria seu coração.
Enrolou um baseado bem firme, deu uma tragada profunda e suave.
“Sabe como se ensinam as pupilas?”
“Como?”, perguntou ela, como se tivesse entendido alguma coisa.
Hans levanta e apaga a luz. No escuro, toda pupila se inflama, se excita. E mestre Hans poderia agora começar sua aula de hoje.
A pupila começa a tossir. Hans sai do quarto e vai até a cozinha buscar um copo d’água. No escuro, tira toda a roupa e retorna completamente nu, com o copo d’água na mão.
A pupila bebe a água, percebe a nudez e dispara a dar gargalhadas.
“O que foi? Algum problema?”
“Não, nenhum”, rindo convulsivamente.
O mestre começa a rir também, em risadas diabólicas e que terminavam de repente em uma expressão de extrema gravidade.
“Por que você está rindo?”
“Ah, não sei. Você vai buscar um copo d’água e volta pelado e quer que eu faça o quê? Tenha paciência.”
“Pelado? Você está me vendo pelado? Esse haxixe é do bom.”
Laura sorria amarelo em sua boca e dentes tortos. Batom excessivo e rugas tristes. Seu rosto se desmanchava, sua máscara de cera se derretia e não sabia onde enfiar a aquela boca torta. Contemplava em silêncio e pânico um mundo insano do qual nunca fizera parte.
“Vem cá...”
Puxou Hans para perto de si, como se fosse abraçar um louco infeliz que precisava do colo de alguém que tinha juízo. Coitadinho, não sabe o que faz.
“Não. Tire sua roupa também”, se desvencilhando dela.
Ela insistiu e ele foi claro. As regras seriam outras. Morte aos seus clichês.
“Você se despiu, na sua vida, somente frente a duas ocasiões: banho e sexo. Hoje será diferente. Irá despir-se, totalmente, somente para conversar.”
Foi difícil, muito difícil. Mas Laura, por fim, ficou completamente nua.
Ficaram, frente a frente, somente conversando, sem tocar-se.
Hans começa a masturbar-se e a conversa continua, como se nada estivesse ocorrendo. Ela fingia que não estava vendo. Mestre em fingir e fugir.
“Não está percebendo nada de diferente?”
“Não...”, tinha gozo enorme em dissimular.
E, de repente, num átimo, caiu de boca. Sem dizer uma palavra se jogou sobre o pênis de Hans, chupando-o magistralmente. Tinha os lábios muito protuberantes, naturalmente indecentes, o que dava uma impressão de talento nato para a felação. Tinha também um corpo moreno, de pele macia e muito lisa. Marquinhas de biquíni. Tempo pra se cuidar não faltava. Era uma moça muito atraente e cortejada.
Hans estava agressivo, sádico. Ela despertava seu sadismo. Penetrava com força. E ela gemia de modo muito insólito, como bicho. Uivava, emitia grunhidos. Gemidos doentios, deformados, mas extremamente excitantes.
Penetrava forte e rápido, e parava de repente, no ar, e dizia, em tom bem agressivo:
“Sabe qual é o seu problema?”
Então penetrava mais rápido e mais forte. E parava novamente. Intercalando fortes estocadas com palavras fortes. Era para machucá-la.
“Seu problema...”, batendo bem forte, “é que você é... muito... competitiva...!”
E gozou, como quem matava alguém, como quem se vingava. Como se gozasse na cara do inimigo.
“É isso, minha hora já deu. O parque já fechou. Por hoje já era. Volte amanhã.”, ordenou, vestindo-se.
Levantou-se rápido, como quem tivesse acabado de cumprir um serviço. E Laura, completamente atônita, sentia-se violentada, perplexa com toda aquela agressividade.
Puta da vida, limpou-se com o edredom, cuspiu no chão, e retirou-se apressadamente com as roupas na mão. Foi para a casa e chorou durante a noite toda. Fora vilipendiada, agredida, sem o menor motivo. Estava arrasada e com muito ódio no coração. Como as pessoas podiam ser tão más?
Às quatro da manhã resolveu ligar:
“Você foi um monstro comigo. Estou arrasada. Você não tem noção do que fez.”
“Que bom. Agora posso dizer porque agi assim. Não confio em você. Conheço seu tipo, o prazer que sente em humilhar, em ter um mundo de homens atrás de você para somente desprezá-los e assim sentir-se mais amada, com mais valor nesse mercado sujo da vaidade em que se afogou o seu coração.”
“Nada justifica você ter agido como um monstro, como um maníaco. Seu monstro sujo. Eu odeio você!”
Trocaram mais e mais ofensas. Porém, agora a batalha era franca. E puderam falar tudo o que sentiam um para com o outro. Terminaram a conversa encontrando um acerto. De modo suficiente, resolveram-se. Ele, contudo, continuava vendo-a como uma completa idiota.
Dias depois, cruzaram-se na rua, rapidamente. Ela estava maravilhosa. Seu sorriso era lindo, sereno e sincero. Hans engolia seco. Seu coração quase saiu pela boca.

Friday, November 04, 2005

COLEGAS DE REPÚBLICA 4 (O Ninja 3)

Hans tinha mantra pra tudo quanto é ocasião. Tudo devia ser precedido por palavras sagradas. Um mantrazinho antes do café da manhã, outro para os estudos, antes de almoçar, de dormir, ao caminhar, para o nascer do sol, lua cheia, para ressaca, mau-olhado e muitos outros.

Passo pelo corredor e percebo que Hans está no banheiro e emite grunhidos. Está soltando o verbo. Fala de modo forte e rápido, como um japonês raivoso, prestes a quebrar o primeiro que aparecer.

Ao sair, deixa o rastro de defecador. E não resisto, novamente:

“Hans, o que você estava falando ou, sei lá, resmungando, dentro do banheiro?”

“Este é um mantra japonês que utilizo para a defecação. Muito bom, ajuda a purificar os intestinos. Depois que passei a recitar este mantra, nunca mais tive problemas intestinais.”

Thursday, November 03, 2005

COLEGAS DE REPÚBLICA 3 (O Ninja 2)

O mais curioso eram as contradições. Ao mesmo tempo que Hans conhecia o que havia de melhor, também sabia ou cultivava lixo. Gostava de filmes de arte, assim como de cinema trash. E costumava assistir várias e várias vezes a um mesmo filme. Chegava do trabalho, pegava uma panela somente com arroz e ficava na frente da televisão, comendo uma panela inteira de arroz, puro, sem qualquer mistura; assistindo e reassistindo ao mesmo filme. Dava risadas para a mesma cena, várias vezes, como uma criança que se regozija da mesma piada durante semanas e ri sempre como se a tivesse ouvido pela primeira vez. O senhor de 45 anos se transformava em uma criança, enorme, cheia de músculos, careca e com cabelos compridos que se estendiam do pouco que lhe restava na cabeça. Ria bastante, sozinho, e feliz. Depois recolhia-se para seu quarto, acendia um incenso, meditava um pouco ou fazia yoga e então dormia.
Durante várias vezes, já tarde da noite, cerca de uma ou duas horas da manhã, eu ouvia um barulho muito diferente, de uma vara a ecoar no ar, ou de ferro raspando em ferro, como em um funcionamento rápido de engrenagens. Vinha do quarto de Hans, de onde brotava o cheiro usual de incenso e uma luminosidade vermelha. Aquele ruído, juntamente com a luz vermelha, era uma combinação a qual não pude decifrar. O que estaria fazendo ali? Um dia não resisti à curiosidade e resolvi bater à sua porta.
“Pode entrar”, respondeu, em alto e bom tom.
Ao abrir a porta este era o cenário: uma luz vermelha, ligada a um fio comprido, o qual se conectava à tomada. O quarto, totalmente vermelho, totalmente fechado e cheio de vapor no ar, quente como uma sauna. Cheiro forte de suor, misturado com incenso. O altar de orações de Hans bem à sua frente, com todos seus santos, orixás e imagens de diversas religiões. E Hans, em pé, somente de cuecas, bufando com força, espirrando suor e saliva para todos os lados, completamente absorto, em transe. Manipulando seu chiaco* como um ninja insano.

* Para quem não sabe, o chiaco (leia-se “tiaco”), é aquela famosa, cinematográfica, e adolescente arma oriental, muito utilizada e popularizada por Bruce Lee, constituída de dois bastões, ligados por uma corrente.

Saturday, October 29, 2005

COLEGAS DE REPÚBLICA 2 (O Ninja)

Hans era um holandês muito gente boa e exótico. Tinha teorias pouco comuns e interessantes sobre o ser humano, a vida. Vivia de modo saudável e sempre o mais próximo possível da natureza. Meditava e fazia yoga já bem tarde da noite. Às vezes já era uma ou duas horas da manhã e lá estava Hans, concentrado, se contorcendo todo nas mais diversas e bizarras posições de yoga, com influências de várias outras práticas orientais, em um ecletismo cheio de estórias de mestres, livros, filmes e referências das mais variadas espécies.
Também havia praticado diversas artes marciais. Além do fato de saber como sobreviver na selva, no mar, com pouco alimento e recursos, pois fora do exército de elite da Holanda. Sabia manejar tudo quanto é tipo de arma e conhecia as mais diversas formas de defender-se ou matar. Hans era alto, forte, uns 45 anos de idade, mas com um corpo uns quinze anos mais jovem. Por outro lado, bebia e fumava feito um louco, inclusive maconha. Já havia experimentado tudo quanto é tipo de drogas: maconha, haxixe, cocaína (inclusive a folha), ecstasy, chá de cogumelos, absinto, ayahuasca, peiote, LSD, ópio, heroína e várias outras porcarias. Também conhecia todos os cinco continentes: comera churrasquinho de grilos na Tailândia, baiacu na Coréia e macaloba em uma tribo indígena daqui do Brasil.
O baiacu, para quem não sabe, é aquele peixe venenoso, extremamente difícil de se preparar e que serve de sofisticada refeição para os orientais que pretendem almoçar bem perto da morte. Pois, diante de qualquer pequeno erro em seu preparo, este peixe pode matar a quem se atreve a comê-lo. São cerca de setecentas mortes ao ano, de pessoas envenenadas por baiacu, somente na Coréia do Sul. E a macaloba é uma bebida alcoólica indígena, fruto da fermentação de milho com cuspe, pois no seu preparo, este deve ser intensamente mastigado e misturado à saliva.
Hans era uma pessoa vivida, experiente e sangue bom. Era o nosso mestre shaolin. Costumávamos chamá-lo de “O Ninja”. O apelido surgiu de uma história que ele mesmo nos contou. Como Hans conhecia diversas artes marciais, houve quem exagerasse por demais as expectativas acerca de suas habilidades. Jorge, um sujeito de uns trinta anos de idade, o conhecera e ficara tão surpreendido com as estórias de Hans, que propunha seriamente levá-lo a participar de um campeonato de vale-tudo. Queria e acreditava que Hans pudesse enfrentar e vencer quaisquer brutamontes nascidos para matar e cerca de vinte anos mais jovens.
“Hans, você não me engana, conhece a fundo o ninjutsu. Você possui muitos conhecimentos sobre sociedades secretas, ocultismo e não revela facilmente o que sabe. É, aquela história: o sábio não diz o que sabe e o tolo não sabe o que diz. Por favor, ensina-me da arte, mestre...”
E Hans deu-lhe uma forte bofetada no rosto, estridente, de mão aberta, rápida e inusitada.
“Então, cale-se, seu tolo!”
Jorge, em princípio, ficou um pouco assustado, pois fora um ataque fulminante, repentino. E doera bastante. Colocou a mão sobre a face avermelhada, marcada fortemente pela bofetada. Fez primeiramente uma expressão de dor e desapontamento, da qual brotou surpreendente e espontaneamente um sorriso. Um sorriso de satisfação, de quem cresce com um tapa na cara: fora seu primeiro ensinamento ninja.