Thursday, January 12, 2006

VIVÊNCIAS E VEXAMES

Sempre gostei muito de vivências e jogos em grupo, sejam oficinas teatrais, psicodrama, biodança, oficina de criatividade e outros mais que pude participar. Porém, houve experiências que não deram muito certo. Isto, obviamente, sob o olhar do ministrante. Em algumas tive comportamentos completamente inusitados ou até mesmo bizarros. E eles simplesmente irromperam de dentro de mim. Foram espontâneos. Em psicodrama e oficina teatral isto foi muito freqüente e nunca tive problemas. Nestas abordagens tive a sorte de encontrar profissionais preparados para lidar com a espontaneidade e que, acima de tudo, a estimulavam e a valorizavam.

Contudo, houve experiências de absurdo, as quais não foram bem recebidas pelos ministrantes, que eu gostaria de relatar. A primeira foi em um mini-curso de Somaterapia. Para quem não sabe, esta abordagem é neo-reichiana. Os somaterapeutas dizem que sua terapia é anarquista. Valorizam muito a liberdade, a espontaneidade, o fluir mais livre das energias corporais, a quebra das couraças, a criatividade.

Apesar de toda minha admiração por esses ideais, acho que posso de repente ter idealizado demais e assim ter passado na medida de minha liberdade e espontaneidade. Ou então o anarquismo das pessoas com as quais tive a infelicidade de lidar era somente uma fachada para se defenderem de seu facismo enrustido.

Vamos então ao que interessa: a vivência fatal. Já estávamos no final do mini-curso. O ministrante deixou-nos de olhos vendados por um bom tempo. Mais de uma hora sem ver o que ocorria. Éramos cerca de 25 pessoas. Caminhávamos pela sala, em silêncio, tocando-nos das mais diversas formas: eram comunicações de costas com costas, cabeça com barriga, ventre com ventre, conversa de mãos que se exploram. Enfim, corpos encontrando outros corpos, das formas mais variadas e inusitadas. Sim, muito interessante.

O ministrante era um japonês. Tinha um ar de sábio sisudo misturado com porralouquice. Sabe aquelas misturas esquisitas que só cabem em japas pirados? Uma coisa assim meio liberdade com porrada. E havia alguns praticantes antigos. Ficavam siderados pelas vivências. Tudo o que o mestre mandava faziam de forma vigorosa e até fanática. Houve momentos em que as pessoas estavam sendo arremessadas para o alto. O mestre ninja pressionava para que fosse mais forte, mais alto, mais perigoso, e todos estavam ali, absortos, massacrando os “covardes” que estavam com pavor de serem jogados para cima. Senti que o grupo às vezes se transformava numa massa sem rosto, sem qualquer espaço para o indivíduo, para o “não quero”, o “não posso”, “é meu limite”, “tenha um pouco mais de paciência comigo”. Resumindo, era um “vai ou reich”. Então racha, meu amigo. Haja violência para se conquistar a liberdade.

Estávamos lá, todos de olhos vendados, depois de muita bolinação. E o mestre shaolin ordena um abraço universal, no centro da sala. Seria a despedida. Todos, sem ver um palmo à frente de seu nariz, grudados. Braços entrelaçando-se, pernas, mão boba (ou esperta) aqui e ali. “Toquem-se da forma que vocês quiserem, sem censura. Pode ser com carinho, com tesão. Não importa”. Imaginem, foi aquela festa. O povo se apalpou pra valer. E não seria muito discreto que eu aqui entrasse em detalhes.

“Agora vamos respirar fundo. Inspira... Expira...”

E assim foi. Até que, de repente, sem que o mestre pedisse, começaram a expirar soltando a voz. Aquilo parecia um gemido de orgasmo, em coro. E os homens gemiam muito mais alto do que as mulheres. O gemido delas foi abafado e ficou inaudível. Se é que gemeram em algum momento. Não fui capaz de me sintonizar com aquilo. Estava me sentindo oprimido pelo gozo titânico de gordos de cueca, suados e com a barba por fazer. Sabe aquela história terrível de sentir um bafo quente e fedido na sua nuca? E fugir não dava. Estava preso no meio daquele mundo de gente. Ia gritar assim (?) : “Pára, pára, pelo amor de Deus, que eu quero descer!?” Impossível.

Pensei, então: vou me harmonizar com isso e soltar a voz também. Como meu sentimento era de opressão, saiu, espontaneamente, algo sofrido e talvez engraçado: uns ganidos desesperados de cachorro atropelado. “Caim, caim, caim...!!!”.

E isso foi uma bomba de silêncio bem no meio daquele monte de corpos em volúpia. Foi uma quebra geral de gozo dos titãs balofos. Por alguns segundos, foi um silêncio fúnebre. Mas logo algumas pessoas se riam muito do coitado do cachorro que caíra do caminhão de mudança. E aí ouvi o que me mais aprazia: a risada feminina. E não aquele gozo suado dos pura-banha.

Pelo tom de voz, vi que o mestre shaolin não gostou nada nada daquilo. “Tudo bem, pessoal. Vamos continuar. Isso acontece.”

E tudo voltou novamente. O gozo infernal dos titãs adiposos. “Não tem problema, desta vez faço a lição de casa e gozo também, exatamente como mestre shaolin deseja: Uhhh.... uhhhh... uhhhhh...!!!”. Também bem grave e bem forte. Mas não era um titã gordo. Foi o gozo de um titã gordo e lesado. Matou todo mundo. Ninguém podia com um titã gordo e lesado, pisando sobre todos os prédios da face da Terra e ejaculando sobre o mundo. Silêncio total. E depois, risadas.

“Quem não quiser participar, fora!”. O mestre shaolin tinha perdido a elegância.

Pensei: fico, e se os titãs voltarem, seguro a barra em silêncio. Pois não quero confusão com ninguém, muito menos com um japa pirado, chefe de um batalhão de fanáticos, disfarçados de libertários.

“Novamente, então, pessoal. Vamos lá: inspirem... expirem...”

E os titãs não voltaram nunca mais.

11 comments:

Cako Facioli said...

Mijei de rir Negao!!
A minha sorte eh que eu na camada mais externa desse massa toda, ainda quase que posso ouvir os ganidos do pobre vira-lata.
Mais um causo exorcizado, genial!

yuri vieira said...

Olá Adriano
Vim retribuir sua visita e dou de cara logo com essa ótima crônica. Me identifiquei totalmente. O mais louco é que, semana passada, comecei a escrever também sobre minha experiência com a famigerada somaterapia. Foi em 1993, numa oficina dada pelo próprio Roberto Freire, com mais de 100 pessoas - o recorde dele. Pelo menos saí de lá com uma namorada...
Abração
Yuri

Cecília said...

Olá! Depois de alguns passeios vim parar por acaso por aqui. Gostei!Um beijo,
Ciça

Adriano said...
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nadja soares said...

ahahahahaha
já passei por algumas experiencias bizarras, mas igual a essa...
adorei.
obviamente, adorei saber da sua experiencia... já eu, não amo tanto o ser humano assim..
ahahahahhaha
vc sempre me surpreende.
beijo

Ciça said...
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Anonymous said...

Olá Adriano!
Muuuuuito engraçado! Toda vez que me lembro deste texto começo a rir sozinha...
Sabe...vc tem tantas lembranças boas e tocantes e já pode vivenciar tantas coisas diferentes que para nós, seus leitores, fica a certeza de sempre poder contar com textos gostosos de se ler. Parabéns! Espero q esteja tudo bem com vc!
Bjm.
Heleura.

Anonymous said...

Exatamente! O problema dessas vivências é o bando de gordos suados de cueca - pra não falar do bafo quente na nuca! Nos anos 80 fiz somaterapia com o Roberto Freire e dois assistentes. Não sei como não acabei de enlouquecer completamente. Prezo o Roberto Freire, mas a prática da soma... humm... Acho que não dá certo, não.

Mina

Anonymous said...

Caramba,

Concordo plenamente com o último post!
Roberto Freire é um "elemento" um tanto quanto...
Ah, é complicado até tecer comentários...
Também participei de algumas sessões de soma em SP e foi, no mínimo, desestimulante...

Edvania said...

Se a Marta houvesse dito aquela máxima pra voce na época do ocorrido, garanto que tinhas relachado e gozado!
rsrsrsrs

Priscila Minervino said...

Olá, professor! Vi seu convite para acessar seu blog no email da turma e curiosa que só eu vim aqui ver :)
Bom, estando estudando pra sua primeira prova que é amanha, pude apenas ler o último post que fora postado e posso dizer que adorei!
Bom, era só pra deixar meu oi, meus parabéns pela super escrita e agradecer pelas aulas nota 10!

Abraços! Priscila Psicologia Ceub