Thursday, November 03, 2005

COLEGAS DE REPÚBLICA 3 (O Ninja 2)

O mais curioso eram as contradições. Ao mesmo tempo que Hans conhecia o que havia de melhor, também sabia ou cultivava lixo. Gostava de filmes de arte, assim como de cinema trash. E costumava assistir várias e várias vezes a um mesmo filme. Chegava do trabalho, pegava uma panela somente com arroz e ficava na frente da televisão, comendo uma panela inteira de arroz, puro, sem qualquer mistura; assistindo e reassistindo ao mesmo filme. Dava risadas para a mesma cena, várias vezes, como uma criança que se regozija da mesma piada durante semanas e ri sempre como se a tivesse ouvido pela primeira vez. O senhor de 45 anos se transformava em uma criança, enorme, cheia de músculos, careca e com cabelos compridos que se estendiam do pouco que lhe restava na cabeça. Ria bastante, sozinho, e feliz. Depois recolhia-se para seu quarto, acendia um incenso, meditava um pouco ou fazia yoga e então dormia.
Durante várias vezes, já tarde da noite, cerca de uma ou duas horas da manhã, eu ouvia um barulho muito diferente, de uma vara a ecoar no ar, ou de ferro raspando em ferro, como em um funcionamento rápido de engrenagens. Vinha do quarto de Hans, de onde brotava o cheiro usual de incenso e uma luminosidade vermelha. Aquele ruído, juntamente com a luz vermelha, era uma combinação a qual não pude decifrar. O que estaria fazendo ali? Um dia não resisti à curiosidade e resolvi bater à sua porta.
“Pode entrar”, respondeu, em alto e bom tom.
Ao abrir a porta este era o cenário: uma luz vermelha, ligada a um fio comprido, o qual se conectava à tomada. O quarto, totalmente vermelho, totalmente fechado e cheio de vapor no ar, quente como uma sauna. Cheiro forte de suor, misturado com incenso. O altar de orações de Hans bem à sua frente, com todos seus santos, orixás e imagens de diversas religiões. E Hans, em pé, somente de cuecas, bufando com força, espirrando suor e saliva para todos os lados, completamente absorto, em transe. Manipulando seu chiaco* como um ninja insano.

* Para quem não sabe, o chiaco (leia-se “tiaco”), é aquela famosa, cinematográfica, e adolescente arma oriental, muito utilizada e popularizada por Bruce Lee, constituída de dois bastões, ligados por uma corrente.

5 comments:

Anonymous said...

Caramba! E você sabe onde anda o Hans atualmente? Deve ter virado algum tipo de monge retirado do mundo no Tibeh. Ou sei lá, de repente algum tipo de Saduh, aqueles homens que vivem esquecidos de si, só na contemplaçao. O melhor de tudo é o contraste entre a elevação espiritual e o pezinho no trash. Pra mim, é melhor caminho para encontrar Deus.

Adriano Facioli said...

Ainda convivo com o Hans... Mas, de fato, vc advinhou, ele sempre diz que quer virar monge...

Hans said...

Monge?...Ja pensei nisso, jawel...
Mas nao necessariamente no contexto do Budismo. Digamos, nao apenas nesse contexto.Na minha ultima pulsao monacal, o retiro potencial devia ser um mosteiro trappista, nas redondezas de Curitiba...

adriano facioli said...

Não falei que ainda convivo com o Hans? Olha ele aí em cima... Um grande abraço, mestre...

Anonymous said...

Nuntchako