CRÍTICA DO SENSO COMUM E PROSA - Quem quiser adquirir o livro, acesse o link do canto superior direito
Friday, February 24, 2006
SONHOS COM EDU
Wednesday, February 01, 2006
Projeto de lei que proíbe a palmada
Na semana passada participei de um debate, ao vivo, pela Tv Nacional (Programa Diálogo Brasil, 25/01/2006, às 22:30hs), sobre o Projeto de Lei contra a palmada. Se aprovado, será proibido por lei todo e qualquer castigo físico à crianças, inclusive a palmada. No caso de infração são previstas penalidades como acompanhamento e orientação psicológica dos pais ou responsáveis envolvidos.
Os participantes éramos eu e a deputada federal Sandra Rosado (PSB/RN), aqui em Brasília. O filósofo e educador Dante Donatelli, em São Paulo, e Lauro Monteiro Filho, da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), no Rio de Janeiro. Tanto a deputada quanto Lauro Monteiro Filho encabeçavam a defesa do projeto de lei. Sendo que este participou intensamente de sua elaboração. Dante Donatelli se posicionava contra tal projeto. E eu, em tese, também deveria argumentar contra. Dado o tamanho da polêmica, achei mais prudente a avaliação crítica tanto dos argumentos prós e contras.
Tentarei, então, resumir aqui os pontos principais de minha reflexão:
Palmada com diálogo, educa? Sim. E é possível educar sem palmada, sem a utilização de castigos físicos? Sim, também. O maior problema são os argumentos mal formulados, tanto prós quanto contra. Mas esta é uma questão da ética, do campo jurídico e não da Psicologia. Por quê? Porque não existem evidências ou estudos conclusivos de que a palmada (punições físicas moderadas) cause danos psicológicos ou de que seja uma porta de entrada para punições mais serveras e violentas, para o abuso. E também não é necessariamente um modelo que ensina a violência para a resolução de todo e qualquer conflito. O modelo que necessariamente existe é o da punição corporal frente a determinadas infrações.
Portanto, não existem argumentos psicológicos plausíveis, seja favoráveis ou contra a palmada. Penso que os argumentos éticos e jurídicos são mais relevantes. O debate sobre este projeto de lei remete-se mais ao campo jurídico e ético do que à Psicologia. A Psicologia não tem nada a dizer sobre isso.
E em termos éticos, o que pode ser dito ou pensado?
Talvez um bom príncipio para a argumentação, em termos éticos, seja, de forma bem simples, o seguinte: "Se é proibida a punição corporal para adultos, por que seria permitida para as crianças?". Onde fica a dignidade da criança? Por que, neste aspecto, ela não tem o direito de igualdade com os adultos? E aí sim poderíamos começar um debate mais consistente, pois a igualdade é um imperativo ético relevante.
Por outro lado, em termos legais, também existem questões que devem ser levantadas:
Uma lei como esta, a qual proíbe que um pai dê uma simples palmada em um filho, não é muito invasiva? Onde ficam as pressupostas garantias legais referentes às liberdades individuais e à privacidade?
Um debate mais consistente deve enfrentar estas questões.
Friday, January 27, 2006
VIVÊNCIAS E VEXAMES 2 (EUCLIDES!)
Era uma psicóloga, na faixa entre 40 e poucos e 50 anos de idade. Reichiana de ar solene. Sabia se impor. Talvez para os reichianos deva ser muito importante saber impor respeito, pois muitos leigos podem pensar que vale tudo, que é tudo oba-oba. Não, não é assim, meu filho.
Ela pediu que desenhássemos, numa grande folha, o contorno do corpo de um dos colegas de cada grupo de quatro ou cinco pessoas. Depois passamos a desenhar em volta, livremente. Pediu para que ficássemos discutindo e interpretando o que houvera sido desenhado. Foi divertido. Eu estava inspirado. Muitas idéias, muitas associações. A interação com os colegas estava sendo muito produtiva.
De repente, ela pediu para que deixássemos ocorrer em nosso corpo a expressão total de nosso juiz interno, aquele que vive a nos massacrar, reprimindo-nos o tempo todo, em implacáveis veredictos existenciais. Entrei de cabeça. Eu pulava pela sala e, ao mesmo tempo, me dava uma bronca. Falava uma besteira e, ao mesmo tempo, me punia severamente, com humilhações verbais do pior tipo. Entretanto, quando me dei por conta, eu estava pulando de almofada em almofada, as quais eram várias, espalhadas pelo chão da sala. Tenho um problema de dores nos pés. Pé inchado, sabe como é. Por isso pulava de almofada em almofada.
“Olha o que você está fazendo, seu idiota. Todo mundo está quieto e parado a ser massacrado pelo juiz interno. Somente você é que está pulando pra lá e pra cá feito uma besta! Pare e faça como todo mundo”, disse-me meu juiz prêt-à-porter.
Ruim, todos ouviam o que eu dizia para mim mesmo. Coisa de louco: estava falando sozinho, pensando alto; e mais temíveis sandices. Então dei um jeito de consertar: fiquei paradão também e completamente imóvel. “E cale essa boca!”, completou meu querido juiz.
Percebi que estava saindo fora do padrão. Não somente o meu, mas todos os juízes me massacrariam. Meu surto não seria acolhido.
Ela então pediu para que nos libertássemos do juiz: “Libertem-se! De corpo inteiro! Soltem-se! Mandem o juiz para bem longe!”. Ela tinha um tom de pregadora fanática, conduzindo-nos ao êxtase. E eu já estava em êxtase, ou melhor, em possessão, há muito tempo. Eu estava muito doido. Dilacerando sanguinariamente meu juiz com os dentes. “Uhaaaaaah!!! Agora eu sou liiiivreee!!”. E quem pode com a loucura de quem acaba de se libertar de séculos de opressão silenciosa? Estava louco, e pensei que era justamente isso o que ela queria.
“Isso, agora vocês se deixem cair no chão. Morrerão para renascer renovados, outros!”
Desabei. Seria um novo tempo daqui pra frente.
Ela foi nos acalmando, nos fazendo relaxar, dormir. Agora seria aquele transe relaxado, entorpecido, de quem jaz eternamente na paz de todos os seus sonhos, de toda a vastidão oceânica de seu inconsciente. Eu boiava no meio do Oceano Atlântico. O oceano estava calmo e morno. Era noite, repleta de estrelas e em banho de lua. Meu ser em completa paz e harmonia com todo o restante do universo. Era parte disso tudo. Estava conectado a tudo. Eu e o infinito oceano éramos um só.
E não sei porque, naquele estado geral de completa paz, ela resolveu retomar o tom de sermão, de pregador fanático: “Quem é você , qual é o seu nome?”. Perguntava, em tom enérgico. Eu estava tão fluido, tão oceano, tão movimento puro que, espontaneamente, respondi: “Euclides!”. Não sei porque, foi o nome que me invadiu o espírito e saltou pela boca.
Acho que ela não esperava por resposta alguma, de ninguém: “Euclides?”, como assim?
“Euclides da Cunha, ahahahaha!”. Soltei esta pérola de surtos preciosos em uma risada convulsiva e estranha. Meu corpo estava todo contorcido e minha expressão não era diferente. Um estado de loucura tomava meu ser e eu não era capaz de controlar...
Mas meu surto parou por aí. Penso que a coisa não foi tão grave, pois nossa guru foi capaz de sustentar razoavelmente a situação, não precisando recorrer à qualquer espécie de reprimenda. Talvez tenha sido, quem sabe, até um pouco divertido para as pessoas com quem eu dividia o espaço. Ou no máximo, um pouco desagradável. Fico imaginando possíveis comentários: “Nossa, vocês viram aquele cara? Pirou totalmente”; “Não entendi o que aconteceu”; “Ele estava sabotando a vivência”; “Palhaçada. Falta de maturidade”; “Euclides da Cunha. De onde ele tirou isso? Ahahaha....”.
Claro, depois de uma dessas, as reações podem ser as mais diversas e imprevisíveis. Que bom, ninguém disse nada. Com exceção da nossa guru, óbvio:
“Às vezes estamos seriamente doentes e nem percebemos. Nessas horas é preciso procurar ajuda...”.
Dispensou alguns minutos a tecer um pequeno sermão do alto de toda a sua experiência profissional e de vida. O tom solene e sereno nunca se perdia. E seu olhar estava totalmente concentrado em mim.
Um surto, isolado, ali, naquele contexto, segundo ela, fazia de mim um doente.
Depois de uma vivência tão boa e catártica como aquela, a qual havia me conduzido a um transe incontrolável, eu não tinha disposição nem capacidade para debater ou refutar qualquer coisa. Aceitei o rótulo de doente e ouvi a tudo o que ela disse, encarnando profundamente a expressão facial mais doentia que poderia apresentar-lhe.
Não teve dúvidas e não permiti que tivesse: saiu dali com a certeza de que eu era um doente mental.
Thursday, January 12, 2006
VIVÊNCIAS E VEXAMES
Sempre gostei muito de vivências e jogos em grupo, sejam oficinas teatrais, psicodrama, biodança, oficina de criatividade e outros mais que pude participar. Porém, houve experiências que não deram muito certo. Isto, obviamente, sob o olhar do ministrante. Em algumas tive comportamentos completamente inusitados ou até mesmo bizarros. E eles simplesmente irromperam de dentro de mim. Foram espontâneos. Em psicodrama e oficina teatral isto foi muito freqüente e nunca tive problemas. Nestas abordagens tive a sorte de encontrar profissionais preparados para lidar com a espontaneidade e que, acima de tudo, a estimulavam e a valorizavam.
Contudo, houve experiências de absurdo, as quais não foram bem recebidas pelos ministrantes, que eu gostaria de relatar. A primeira foi em um mini-curso de Somaterapia. Para quem não sabe, esta abordagem é neo-reichiana. Os somaterapeutas dizem que sua terapia é anarquista. Valorizam muito a liberdade, a espontaneidade, o fluir mais livre das energias corporais, a quebra das couraças, a criatividade.
Apesar de toda minha admiração por esses ideais, acho que posso de repente ter idealizado demais e assim ter passado na medida de minha liberdade e espontaneidade. Ou então o anarquismo das pessoas com as quais tive a infelicidade de lidar era somente uma fachada para se defenderem de seu facismo enrustido.
Vamos então ao que interessa: a vivência fatal. Já estávamos no final do mini-curso. O ministrante deixou-nos de olhos vendados por um bom tempo. Mais de uma hora sem ver o que ocorria. Éramos cerca de 25 pessoas. Caminhávamos pela sala, em silêncio, tocando-nos das mais diversas formas: eram comunicações de costas com costas, cabeça com barriga, ventre com ventre, conversa de mãos que se exploram. Enfim, corpos encontrando outros corpos, das formas mais variadas e inusitadas. Sim, muito interessante.
O ministrante era um japonês. Tinha um ar de sábio sisudo misturado com porralouquice. Sabe aquelas misturas esquisitas que só cabem em japas pirados? Uma coisa assim meio liberdade com porrada. E havia alguns praticantes antigos. Ficavam siderados pelas vivências. Tudo o que o mestre mandava faziam de forma vigorosa e até fanática. Houve momentos em que as pessoas estavam sendo arremessadas para o alto. O mestre ninja pressionava para que fosse mais forte, mais alto, mais perigoso, e todos estavam ali, absortos, massacrando os “covardes” que estavam com pavor de serem jogados para cima. Senti que o grupo às vezes se transformava numa massa sem rosto, sem qualquer espaço para o indivíduo, para o “não quero”, o “não posso”, “é meu limite”, “tenha um pouco mais de paciência comigo”. Resumindo, era um “vai ou reich”. Então racha, meu amigo. Haja violência para se conquistar a liberdade.
Estávamos lá, todos de olhos vendados, depois de muita bolinação. E o mestre shaolin ordena um abraço universal, no centro da sala. Seria a despedida. Todos, sem ver um palmo à frente de seu nariz, grudados. Braços entrelaçando-se, pernas, mão boba (ou esperta) aqui e ali. “Toquem-se da forma que vocês quiserem, sem censura. Pode ser com carinho, com tesão. Não importa”. Imaginem, foi aquela festa. O povo se apalpou pra valer. E não seria muito discreto que eu aqui entrasse em detalhes.
“Agora vamos respirar fundo. Inspira... Expira...”
E assim foi. Até que, de repente, sem que o mestre pedisse, começaram a expirar soltando a voz. Aquilo parecia um gemido de orgasmo,
Pensei, então: vou me harmonizar com isso e soltar a voz também. Como meu sentimento era de opressão, saiu, espontaneamente, algo sofrido e talvez engraçado: uns ganidos desesperados de cachorro atropelado. “Caim, caim, caim...!!!”.
E isso foi uma bomba de silêncio bem no meio daquele monte de corpos
Pelo tom de voz, vi que o mestre shaolin não gostou nada nada daquilo. “Tudo bem, pessoal. Vamos continuar. Isso acontece.”
E tudo voltou novamente. O gozo infernal dos titãs adiposos. “Não tem problema, desta vez faço a lição de casa e gozo também, exatamente como mestre shaolin deseja: Uhhh.... uhhhh... uhhhhh...!!!”. Também bem grave e bem forte. Mas não era um titã gordo. Foi o gozo de um titã gordo e lesado. Matou todo mundo. Ninguém podia com um titã gordo e lesado, pisando sobre todos os prédios da face da Terra e ejaculando sobre o mundo. Silêncio total. E depois, risadas.
“Quem não quiser participar, fora!”. O mestre shaolin tinha perdido a elegância.
Pensei: fico, e se os titãs voltarem, seguro a barra
“Novamente, então, pessoal. Vamos lá: inspirem... expirem...”
E os titãs não voltaram nunca mais.
Saturday, December 24, 2005
NATAL
Algumas pessoas até reclamam e dizem que o melhor presente é o imotivado. Aquele da ocasião de sua descoberta, que encontramos ao acaso, sem data pré-definida. O qual se encaixa perfeitamente nos desejos do felizardo. E que ainda tem um gostinho maior de surpresa, já que não era esperado, pois que é fora de data. O melhor presente é o fora de hora, desde que não seja o atrasado.
E há aquelas pessoas com a cultura de presentear. Alguns, mesmo não precisando de nada, querem ganhar presente. Outras (a maioria) sentem carências que presente nenhum irá preencher. Ou pelo menos os presentes que são possíveis de se ganhar rotineiramente. Estou, é claro, excluindo desta lista ganhar na loteria, casa própria, amor ou qualquer coisa que geralmente não cabe em um presente comum.
Ouvi também gente dizendo que Natal é para as crianças, que obrigação de dar presente pra adulto é um saco. E de fato, dar presente pra criança é a coisa mais divertida do mundo. As opções são inúmeras. E as crianças precisam mesmo ser presenteadas. Elas não tem o poder de ir lá e comprar tudo o que desejam ou precisam. Vivem uma carência constante: carência de não poder ir e vir, de geralmente não poder escolher por si mesmas e de ainda não serem senhoras de seus próprios impulsos e emoções. E aquilo que vem “engenhosamente” (assim elas o sentem) das mãos dos adultos é sempre bem-vindo. Ganhar presente é ganhar alguma coisa. O que, por si só, já é lucro. E isso tudo envolve um universo enorme de mitos e fábulas, sobre mundos repletos de personagens e coisas misteriosas e maravilhosas, cheias de alegria e superpoderes.
Saí para comprar alguns presentes para as crianças que amo e que fazem parte de minha vida. E aí nos damos ainda mais conta, sempre, de como o universo das crianças é imenso e fabuloso. É uma coisa incrível a criatividade que borbulha em tudo isso, nas estórias e nos brinquedos. E como o brinquedo precisa da estória e a estória muitas vezes vira brinquedo. Tudo é jogo e experimento. Tudo é transgressível, feito para ser recriado, violado de sua função original, de sua intocável sacralidade. Sem medo. Nada permanece sagrado nas mãos de uma criança... (a continuar)
Saturday, December 10, 2005
SERIEDADE E FALTA DE ESPÍRITO
Mas ninguém é tão sério assim. A seriedade, quando elevada a parâmetro primordial de tudo o que existe, é um atraso de vida. Não suporto gente séria, ou que se leva demais a sério. Trabalhar de modo engajado, envolver-se com alguém, amar, honrar compromissos, preocupar-se também com o bem-estar dos outros, não exclui o riso nem a auto-ironia. Digo “auto-ironia”, porque antes de sermos irônicos, devemos ser capazes de ironizar a nós mesmos. Ironia sem auto-ironia pode ser somente agressão.
Psicólogo que obedece ao estereótipo de resolvido (diga-se, excessivamente ponderado, discreto, sem graça) está perdendo a oportunidade de uma vida mais saudável. “É anti-ético”, disse uma vez um colega de profissão, bêbado. Concordo plenamente. Além de enquadrar sua própria existência na pobreza de espírito do estereótipo, tripudia, goza da cara de quem não é capaz de tal mediocridade e patologia.
Como diz uma colega minha que adora dançar e cantar sozinha, na rua ou em público: uma vida sem alegria não tem sentido. E talvez nem mesmo valha a pena. As pessoas que fazem o tipo sério demais, geralmente estão se escondendo, se defendendo.
E ainda, indiretamente, reprimem uma certa dose de abençoada e esclarecida loucura. Seriedade em excesso é burrice, dogmatismo. Não duvida de si mesmo, porque se leva demais a sério. E não satisfaz, oprime. Porque não dá férias ao pensamento, soltando a imaginação. Não transita. É sem movimento, sem graça. Não percebe que a vida também é jogo e faz-de-conta. Espirituoso é aquele que tem senso de humor ou que cultiva o espírito.
Seriedade demais é deixar o espírito morrer de fome.
Wednesday, December 07, 2005
CRIANÇAS

Por outro lado, havia muitos e memoráveis momentos de união do trio. E Edu, claro, o mais velho, era sempre o mentor do que iria acontecer ao nosso mundo.
Éramos crianças do interior. Nascemos em uma Cohab. Casas com
Parecia aquela banda de rock de um antigo desenho animado: “Os impossíveis”. Curly: o homem mola (Cako). Harry (?): o homem fluído (Edu). E Marlon (?): o Multihomem (eu). Paravam no meio de um show e viravam super-heróis, voando para o alto e gritando: "E Vamos Nós !!!". E o Multi-Homem sempre falava para o vilão: "Você pegou todos... menos o original !".
Para os três patetas, eu e Cako éramos os dois idiotas, os que faziam tudo errado. E Edu aquele que vinha pra botar ordem na casa. Papel de mais velho.
E éramos impossíveis mesmo. Edu estava com 10 anos, eu com 7 e meio e Cako com 6. Meu avô resolveu passar o sábado a tarde conosco na fazenda de seu antigo patrão, Dr. Quartim. Pegou seu fusquinha abacate 61. Isso foi em 1980. E lá fomos nós. “E Vamos Nós !!!", gritávamos na estrada, em uníssono. E dá-lhe aquelas tradicionais brigas no banco de trás. “A janela é minha...”. “Não, minha...”. E tome porrada.
Chegando lá, era um ambiente desconhecido. Edu, óbvio, pegou o comando do batalhão. Aí ele virava meu mestre. O que faríamos dessa vida sem o Edu? Isso era forte em nós. Tanto que Cako, há mais de oito anos, quando o Edu morreu, virou-se pra mim, colocou a mão em meu ombro, olhou fundo em meus olhos e disse: “Agora somos só nós dois, negão. Não vai mais ter Edu pra cuidar da gente não”.
E então Edu tomou a frente. Tudo o que ele dissésse, nós obedeceríamos. Afinal, éramos os dois idiotas dos três patetas, né verdade.
Chegamos na fazenda. E era linda, maravilhosa. Plantavam lírios. Inacreditável: havia um morro forrado de lírios, de todas as cores. Lindo, lindo. Cartão postal. E aqueles dois loirinhos e um moreninho, ficava mais calendário ainda. Copiava certinho o padrão de beleza europeu que o mundo todo compra.
Encontramos alguns pedaços de canos antena, de alumínio. Caniços de antena. Pareciam espadinhas. Ah, claro, não deu outra. A espadinha cortava lírio como em filme de samurai. Meu avô se distraiu um pouquinho. E quando chegamos lá em cima do morro. O que já havia ocorrido? Eu, Edu e Cako, abrimos uma estrada bem no meio do morro. Acho que decepamos milhões de lírios em questão de minutos. E, fora de brincadeira, gente. Edu olhou para o mundo que jazia a seus pés, como se tivesse acabado de desbravar o Everest. E em pose de mestre disse:
“O caminho se faz ao caminhar...”
Meu avô ficou louco.
Tuesday, November 22, 2005
Os loucos 4 (Loucos de rua)
Segundo as palavras de Lobosque (1997, p. 23), “‘fazer caber’ o louco na cultura é também ao mesmo tempo convidar a cultura a conviver com certa falta de cabimento, reinventando ela também seus limites”. Ou seja, a luta é por uma maior tolerância para as diferenças, mesmo que elas sejam meio espantosas, estranhas e talvez bizarras. Para que o louco não seja excluído, isolado, exterminado, deveríamos recuperar um certo espírito medieval em que os loucos estavam mais integrados à vida social.
Esse negócio de isolar louco só veio mesmo a ocorrer com vigor a partir da modernidade. Pois os loucos passaram a ser concebidos como uma ameaça a três valores que são os pilares do mundo moderno: razão, liberdade e individualidade. Além de ter rompido com a ordem das coisas, da razão, também têm sua individualidade devassada pela confusão de si com o mundo e pela fragmentação do seu eu, a alienação de si mesmo. E assim também não é possível, segundo a concepção filosófica antiga, escolher, ser livre. Mas não quero ficar aqui me delongando em explicações. Quero falar dos loucos que vi nesta vida e que percebi como mais integrados. Não importa de que forma.
São os loucos de rua. Um que batia bola numa esquina, em frente ao Sesc, em Ribeirão Preto. Aliás, pra mim é muito simbólico que ele ficasse exatamente no semáforo de frente ao Sesc. Pois esta instituição me traz sempre muito boas lembranças em relação a artes, esportes, convivência com as diferenças, humanização da vida. Era o louquinho do Sesc ou do posto Maravilha. Um posto de frente ao Sesc. Na verdade ele estava mais pra Maravilha do que pra Sesc.
E aquilo era uma maravilha. Ele passava ali seus finais de tarde, dando embaixadinhas com uma bola de futebol oficial e camisa de times. Adorava cortejar um ônibus inteiro parado no sinal. Controlando a bola, acenando pra galera, recebendo diariamente inúmeros aplausos. Aquilo era de uma alegria contagiante. Para outros poderia ser visto como algo triste, digno de dó. Mas eu e meus irmãos nunca vimos a coisa assim. A gente gostava. E ele gostava muito daquilo. Era seu espetáculo, seu show diário. Não estava mendigando, não parecia padecer de nenhuma miséria. Gente, convenhamos: bola oficial e camisa de times.
“Olha lá, Dri. O louco do futebol...”, dizia Cako ou Edu.
“O que será que se passa na cabeça de um sujeito desses?”, perguntávamos a nós mesmos, os três, juntos.
Um amigo meu fez tratamento em hospital-dia por um bom tempo. Sofria de alcoolismo e alguns agravantes. Sempre fora meio louquinho. Bebendo, a coisa ficava mais intensa. Não vou dizer quem é. Não pretendo expô-lo. E se eu pedisse a ele para publicar aqui sua identidade, ele deixaria. O cara é louco. Está pouco se lixando.
Um dia ele disse ao psiquiatra que tinha vontade de parar numa esquina movimentada e fazer discursos.
“Faça seus discursos. Por que não? Tá com medo do que os outros vão pensar?”, sugeriu o psiquiatra, que também não batia muito bem das idéias.
E não é que ele fazia mesmo. E não ficou marcado como o louco da esquina não. É necessária maior disciplina e assiduidade para tal. Como fez somente algumas vezes, não ficou para a história. Sabe aquela coisa de louco da hora, louco que se recupera? É visto como aquele sujeito excêntrico que deu ou ainda dá, de vez em quando, umas surtadas, sabe.
E esses loucos de rua podem também ter outro nome, mais carinhoso: “maluco beleza”, que virou até tema da música do Rauzito. Porque existe o maluco-beleza e o maluco-malvadeza. O primeiro é sangue bom, alto astral, alegria pura. O segundo é chato, doente, malévolo. Desses eu fujo. Mas também tem aqueles pseudomalvadeza, ou malvadeza sem risco. Melhor dizendo, tem louco que morde e louco que não morde. Louco de cidade do interior, que vive na rua, geralmente não morde. É igual vira-lata. Agora aquele que vive trancado, que se isola, que não convive, estes me parecem mais perigosos.
E por falar em pseudomalvadeza, e o seu Gino, hein? Ah, esse foi o louco mais famoso do meu bairro, na infância e adolescência. E tive o grande privilégio de morar na mesma rua, de frente à casa do sujeito.
“Meia, meia, meia! Eu sou o demônio!”, dizia bem alto, em tom enérgico e olhar diabólico, dentro do ônibus lotado, nos fundos.
As pessoas se assustavam e se afastavam, deixando seus lugares vazios. Gino sentava-se e dizia, dando gargalhadas diabólicas:
“Como é bom ser o diabo! Como é bom poder sentar onde eu quiser! Ah hahahahahaha...”, e ria-se, demoradamente, como num filme de terror. Eu e meu irmão ríamos juntos. Seu Gino era nosso chapa.
Mas a gente também brigava muito com ele. A molecada gostava de infernizá-lo. Eram brigas infinitas, verdadeiras guerras, com várias batalhas. Ele fatiava a bola que caia na sua casa, literalmente. Não somente rasgava ou furava, fazia churrasquinho mesmo. O cara botava fogo, cortava em pedaços. Louco, louco. E a molecada revidava. Punham bomba na sua caixa de correio e coisas semelhantes. Mas o que mais gostavam era de infernizá-lo com gozações, dançando e cantando em sua frente, correndo dele.
“Gineta campestre!!”, rebolando, em paródia à música do comercial do refresco Ki-suco campestre.
E seu Gino pegava pedaço de pau, atirando-o na molecada. Um dia agarrou meu irmão pelo shorts, que o bichinho quase se borrou todo, mas conseguiu fugir, com as calças meio arriadas. Ichi, meu irmão não era brincadeira. Capeta. Em plena festa junina pegou o microfone e começou a mexer com seu Gino. Minha mãe ficou uma arara.
Mas seu eu fosse aqui contar todas as peripécias do convívio com este nosso vizinho, precisaria de mais e mais parágrafos... Deixemos para as próximas estórias. Se o leitor quiser...
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* Lobosque, A. M. (1997). Princípios para uma clínica antimanicomial. São Paulo. Hucitec.
Monday, November 14, 2005
O NINJA 5 (Série Colegas de República)
Enquanto dançava freneticamente, Ramon o apresentou à Júlia. Não passou despercebido. Júlia ria muito e não tirava os olhos do holandês, tentando imitar sua dança. Hans sabia que parecia ridículo, mas se divertia muito com isso. Tinha um ensinamento que há muito tempo carregava fielmente consigo: “O ridículo move o mundo”. Sabia que todos nós estamos condenados infalivelmente ao ridículo e que este, quando aceito e assumido, é o veículo de uma existência mais lúcida e alegre.
Ramon lhe daria uma carona. Júlia iria junto. No caminho até o carro, ela avistou uma mangueira.
“Nossa, olha só, tá carregada de mangas maduras...”
Hans correu bastante e, em grande velocidade, escalou a mangueira, colhendo uma manga grande e bonita. Júlia surpresa, sorriu como a receber um dos melhores presentes daquela semana.
“Obrigada”, com o olhar vidrado.
No caminho conversaram algumas banalidades e nada mais. Isto fora numa quarta à noite.
Sábado, sete e meia da manhã. Hans ainda dormia. A campainha tocou: era Júlia.
“Oi. Desculpe, você estava dormindo, não é? É que havíamos combinado de caminhar no parque, lembra?”
“Ah, sim, sim”, não se lembrava de porra nenhuma. Estava bêbado.
Tomaram café juntos. Deram muitas risadas.
“Ei, Hans. Você tem baseado? Vamos levar um pouquinho.”
Caminharam bastante. Depois subiram em uma mangueira bem frondosa e lá começaram a fumar um baseado. Hans agiu rápido e tentou, sem muitas demoras, dar-lhe um beijo.
“Nossa, que pressa. Nem conversamos direito e você já vem logo querendo me beijar. Não beijo estranhos.”
“Ah, baby. Você me acorda às sete e meia no sábado pra ficar me recusando um simples beijinho.”
“Vocês homens são todos iguais. Só pensam nisso.”
Preferiu relevar, contornar a situação. Não engrossaria com a menina. Afinal, caminhar de manhã cedo no parque e depois fumar um baseadinho com alguém interessante era algo agradável. Júlia era atriz, tinha boa conversa pra se jogar fora.
Passaram a manhã toda no parque. Hans enrolou vários baseados, pois Júlia queria sempre mais. Fazia de tudo para seduzi-la e nada. De repente:
“Vamos lá pra sua casa dar aquela trepada selvagem. Quero chupá-lo todinho...”
Então tentou beijá-la e ela esquivou-se.
“Pra quem quer dar uma trepada selvagem, um beijo não é nada.”
“Aqui não. Tem pessoas olhando. Gosto de privacidade, discrição.”
Foram pra casa. Ela pediu mais baseado. Fumou tudo o que ele tinha em casa também. Nunca vira alguém fumar tanto e ainda parar em pé. E ela conversava normalmente, nem parecia entorpecida, a não ser pelos olhos vermelhos, em escaldante magma, do olhar siderado e perdido no vulcão de si mesmo.
Por fim, no sofá da sala, beijaram-se. Hans levantou-se, de um só golpe, e correu para o quarto. Tirou toda a roupa e pulou na cama, completamente nu.
“Porra, velho. Pensei que fôssemos tirar um sarro aqui na sala”, lamentou Júlia.
Fumou mais um pouquinho, pensativa. E foi atrás de Hans. Chegando à porta do quarto:
“Você está pelado? Onde fui me meter? Que saco, vocês homens só pensam nisso!”
Bateu a porta foi-se embora, desiludida.
Três dias depois a campanhia de Hans tocou novamente. Agora às seis e quinze da manhã.
“Ah, Júlia, pelo amor de Deus, me deixe em paz.”
Foi para o quarto e deitou-se novamente.
Ela tinha uma cesta de mangas, bem cheirosas e no ponto. Deixou-as na cozinha e foi até a porta do quarto. Ficou observando-o dormir por alguns instantes. Tirou toda a roupa e deitou-se ao seu lado. Beijou-o até que acordasse.
“Júlia, afinal de contas, o que você quer de mim?”
Ela respondeu em uma única, rápida e insólita frase:
“Mete ni mim...”
Wednesday, November 09, 2005
COLEGAS DE REPÚBLICA 5 (O Ninja 4)
Friday, November 04, 2005
COLEGAS DE REPÚBLICA 4 (O Ninja 3)
Hans tinha mantra pra tudo quanto é ocasião. Tudo devia ser precedido por palavras sagradas. Um mantrazinho antes do café da manhã, outro para os estudos, antes de almoçar, de dormir, ao caminhar, para o nascer do sol, lua cheia, para ressaca, mau-olhado e muitos outros.
Passo pelo corredor e percebo que Hans está no banheiro e emite grunhidos. Está soltando o verbo. Fala de modo forte e rápido, como um japonês raivoso, prestes a quebrar o primeiro que aparecer.
Ao sair, deixa o rastro de defecador. E não resisto, novamente:
“Hans, o que você estava falando ou, sei lá, resmungando, dentro do banheiro?”
“Este é um mantra japonês que utilizo para a defecação. Muito bom, ajuda a purificar os intestinos. Depois que passei a recitar este mantra, nunca mais tive problemas intestinais.”
Thursday, November 03, 2005
COLEGAS DE REPÚBLICA 3 (O Ninja 2)
* Para quem não sabe, o chiaco (leia-se “tiaco”), é aquela famosa, cinematográfica, e adolescente arma oriental, muito utilizada e popularizada por Bruce Lee, constituída de dois bastões, ligados por uma corrente.
Saturday, October 29, 2005
COLEGAS DE REPÚBLICA 2 (O Ninja)
Thursday, October 20, 2005
COLEGAS DE REPÚBLICA 1
Entrou no apartamento e qual foi a primeira coisa que fez, como disse, “em homenagem” aos amigos? Colocou uma outra música para tocar, no repeat, indefinidamente. Bem alto, para que todos os outros moradores do prédio também ouvissem, principalmente os desafetos: “Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito...”.