Essa
noite viajei no tempo, como nunca tinha me ocorrido antes em um sonho. Sonhei
com alguns universos paralelos. Leia o que tenho a lhe narrar. Acho que você
vai gostar...
Em
um primeiro momento eu estava em campo, para a estreia do Brasil em alguma das
últimas Copas. Eu era lateral direito da seleção brasileira. Era mais velho e
mais experiente que os outros jogadores, com várias Copas do Mundo em meu
currículo.
Essa
imagem de mim mesmo como um jogador de futebol, de seleção brasileira, faz
parte do conjunto de sonhos megalômanos que tive na infância e adolescência.
Especificamente, esse sonho de ser jogador de futebol é de 1982, quando eu
tinha 10 anos de idade, e acompanhava muitíssimo entusiasmado a Copa do Mundo
de futebol daquele ano. Devaneava e projetava para mim mesmo um futuro de
sucesso como jogador de futebol, o qual participaria de várias Copas do Mundo.
E
eu estava lá, em campo, para a estreia do Brasil, em alguma das últimas copas.
Mas de repente percebo que eu estava ali como um invasor. Eu não fazia parte da
seleção brasileira e talvez nem fosse jogador de futebol. Mas estava em choque:
estava em campo, com a camisa 2 da seleção, na minha posição, na lateral
direita, esperando pelo apito do árbitro, angustiado e não entendendo
absolutamente nada do que estava acontecendo.
Vieram
me retirar de campo, pois eu era um invasor, nada além disso. Pensei:
“Se
eu não sou jogador da seleção brasileira, o que diabos estou fazendo aqui nesse
campo, nesse estádio imenso, lotado, com a camisa 2 da seleção, na lateral
direita, esperando pelo apito do árbitro? Santo Deus, tenho várias Copas do
Mundo em meu currículo. Sou o jogador mais velho e mais respeitado desse grupo.
Por que estão me retirando de campo como se eu fosse um anônimo, uma outra
pessoa? Por que estão retirando de campo o grande "Motorzinho"? Sim,
é esse o meu apelido, penso eu, na realidade paralela em que sou um grande
jogador de futebol.”
Enquanto
me retiravam de campo, me vinha à lembrança as várias Copas das quais já tinha
participado, e uma sensação perturbadora de não entender mais quem eu era. Se
me retiravam dali à força, daquela forma truculenta, era muito provavelmente
porque eu nunca havia sido jogador de futebol e eu estava completamente louco.
Mas o pior era não me lembrar de quem eu verdadeiramente era, se é que existia
um eu meu único ou verdadeiro nessa situação que eu estava vivendo nesse sonho
(se é que isso era também de fato um sonho).
Dali
fui transportado para 1985, quando eu tinha 13 anos de idade . Minha mãe estava
na sala, conversando ao telefone. Ela estava preocupada com sua irmã, a qual
vinha passando por um período muito difícil em sua vida, em um relacionamento
muito conturbado com seu atual marido (o marido dela de 1985, claro).
Minha
família suspeitava que ele não era uma boa pessoa. Havia várias evidências de
que ele era um espertalhão, um mau caráter. Ela relatava para minha mãe várias
situações em que ele abusava dela, em relação a dinheiro, infidelidades e até
mesmo com agressões físicas.
Minha
tia já vinha se alterando bastante, tendo muitos episódios de sério
"desequilíbrio mental" (eis o termo que utilizávamos àquela época
para definir o que estava ocorrendo com ela). Minha mãe tinha muito medo de que
ela enlouquecesse, daquela situação toda se agravar.
Eu
estava ali, aos 13 anos de idade, na sala da casa onde morei toda a minha
infância, ouvindo a conversa de minha mãe ao telefone, manifestando essas
preocupações com minha tia, e sabendo exatamente tudo o que iria ocorrer em
nosso futuro, em uma projeção que avançava 30 anos.
Eu
sabia que vários dos temores de minha mãe se realizariam. Ela temia muito que
minha tia, em tal situação de vulnerabilidade de suas capacidades mentais,
tivesse um filho com aquele sujeito. E, bingo! Eu sabia que minha tia teria um
filho com ele. Mas, pior: ele morreria três meses antes desse filho nascer,
deixando para trás um rastro enorme de confusões e desamparo para ela.
E
sim, ela enlouqueceria, definitivamente, com várias internações psiquiátricas,
deixando seu filho em uma situação muito grande de vulnerabilidade, ao ponto
de, em 1988, minha mãe ter de levá-la para nossa casa juntamente com seus dois
filhos, o bebê de 6 meses e minha prima com 12 anos de idade.
Eu
ouvia a conversa de minha mãe ao telefone e tinha muitas histórias para lhe
contar, mas estava completamente paralisado. Sentia-me, como muito ocorrem em
sonhos, completamente paralisado. Eu queria muito lhe falar sobre todo esse
futuro, 30 anos adiante, mas engasgava e não conseguia nem mesmo abrir a boca
ou me mover.
Eis
que, de repente, essa cena também se fechou, e eu acordei, me lembrando de
todos os detalhes desses sonhos fabulosos.
Eu
precisava ansiosamente escrever sobre tudo isso que sonhei durante a noite, mas
ainda era muito cedo, e o som de meus dedos digitando certamente acordaria
minha filha, a qual tem o sono muito leve. Pensei: preciso sair de casa para
escrever essa história.
Muito
silenciosamente, saí de casa e fui para o estacionamento do condomínio. Entrei
em meu carro e comecei a escrevê-la, sentado no banco do motorista. Enquanto
escrevia, de vez em quando eu observava pelo retrovisor os vizinhos que
acordavam para se dirigir ao trabalho ou às suas atividades rotineiras.
Eu
já estava escrevendo o final dessa história toda, quando um de meus vizinhos
chegou com seu carro, na vaga dele, atrás da minha. Ele permaneceu dentro do
carro e isso me chamou um pouco a atenção. Olhando pelo retrovisor percebi que
ele saiu do carro e vagarosamente começou a se dirigir ao meu, em minha
direção. Bateu em meu vidro. Abri:
-
Pois não?
-
Senhor Adriano Facioli?
Como
ele sabia o meu nome? Nós nunca havíamos sido apresentados um ao outro.
-
O senhor poderia nos acompanhar, por favor?
Olhei
pelo retrovisor e reparei que a expressão “nos acompanhar” se referia a dois
brutamontes, trajados como se fossem dois seguranças presidenciais, os quais
acompanhavam meu vizinho. Percebi, inclusive, que havia um certo ar de
gravidade na situação, pois meu vizinho portava uma pistola automática, com
silenciador. Eu não estava entendendo nada e nem preciso dizer o quanto fiquei
tenso...
Porém,
infelizmente, agora terei de interromper a narrativa dessa história aqui para
vocês, para cuidar de minha filha, a qual acaba de acordar e chama por mim. Foi
mal aí, meus amigos...
Até
as cenas dos próximos capítulos!