Thursday, June 28, 2012

Sozinho no mundo



Sozinho no mundo. Um filhote. Um gatinho preto, de olhos clarinhos, amarelos. Gente, muita gente, indo e vindo, o tempo todo. A maioria, indiferente. E o gatinho, absurdamente frágil em sua existência solitária, ali, presente, mas quase invisível.

No primeiro dia em que o vi, ele tinha um dos olhos um pouco feridos ou irritados e me olhava atentamente, precavido, guardando distância, protegendo-se, escondendo-se, sem miar. Aliás, em quatro dias de alguma convivência com esse bichinho, nunca ouvi seu miado, nunca ouvi qualquer sinal de sua existência.

Fiquei marcado, em quatro dias, pelo olho no olho, por procurá-lo todos os dias e tentar alimentá-lo, em saber que animais são proibidos em meu condomínio; em ficar observando-o de perto ou ao longe: seus belos e pueris pulinhos de fuga, sua procura solitária por um lugarzinho no mundo, ou o amor de alguns pequenos e quase despercebidos gestos: um pouquinho de leite que alguém deixara; e saber que outros, assim como eu, também se compadeciam por aquele pedacinho nascente e alegre de vida que os filhotes despertam em nosso coração.

Lilian me acompanhou algumas vezes em minha procura pelo gatinho preto. Podíamos, algumas vezes, vê-lo da janela de nosso apartamento, em sua interação constante de exploração e fuga. Contudo, o tempo se alongou um pouco. Por uma noite ele não mais apareceu e nem na manhã seguinte, em frente à padaria, tomando sol, como de costume.

Cheguei do trabalho, para o almoço, e fui procurá-lo. Não o encontrei nos lugares de costume e por fim fui até a padaria. Nenhum sinal. Porém, a cerca de vinte metros de distância, no canto da rua, avistei um manchinha preta a se destacar do asfalto.

Podia ser um saco de lixo ou podia ser ele mesmo. Era ele. Era seu corpinho, somente reconhecível pelo tamanho, pelagem e coloração. Era o gatinho preto, de minha afeição de quatro dias, morto, com a cabecinha esmagada e a ausência de qualquer vestígio de seus olhinhos claros e de seu olhar completamente inocente.

Embora muito rapidamente, pensei em todas as pessoas e seres que amo e já amei. Minha descoberta foi solitária. As pessoas a transitar eram indiferentes. Ali, naquele canto de rua, ao olhar alheio, era uma perda boboca, minha, somente minha, incompreensível para o outro e até, de certo modo, para mim mesmo.

Não era uma perda. Era um eco constante com minha própria solidão. Era um eco irrisório, mas constante, com perdas que já tive e ainda terei de viver. Ecoava ali, bem baixinho, o fim do mundo na vida de um gatinho preto.

Passei pelo porteiro:

“Você viu o gatinho preto?”

“Qual? Um pequeno que andava por aqui? Acho que vi sim. Cadê ele?”

“Tá ali, do outro lado da rua, esmagado.”

“É mesmo?”

“É... Melhor assim. Melhor do ficar sofrendo, né?”

“É... Deus sabe o que faz”, finalizou o porteiro.

E cada um ficou com seu consolo.

Existem verdades absolutas?

Wednesday, May 23, 2012

Rigidez e intelecto



Porque rigidez é falta de intelecto...

Razão e emoção




Ouça seu coração, e obedeça à razão.

Abrir caminhos e clareiras...


Que o caminho da minha vida seja também feito de abrir clareiras, picadas, em minhas próprias ideias...

Sunday, May 20, 2012

Você acredita em milagres?



E você, por acaso, já teve notícia, por exemplo, de um braço ou perna amputados nascerem de novo, como um novo membro a brotar e crescer, repondo milagrosamente a perda inicial?

Thursday, May 17, 2012

Documentários sobre suicídio assistido, eutanásia e o direito de morrer na Suiça



1. Exit (2005, documentário suiço, em 6 partes, legendado)

2. Choosing To Die (2011, documentário britânico, legendado)












Pessoas com pouco intelecto (fanáticos, geralmente) costumam confundir direitos com deveres



Confesso, ando bem cansado dessa mania que fundamentalistas e pessoas com pouco intelecto têm de ficarem confundindo direitos com deveres.

Basta perceberem qualquer sinal de liberdade, de responsabilidade que cada ser humano deve ter sobre si mesmo, sobre seu próprio corpo e sua vida, que logo abrem a boca para atacar como se estivessem sendo ameaçados.

Em tese, como posso ser ameaçado pelo que outra pessoa está fazendo com seu próprio corpo ou vida?

Muito triste o debate ter de começar em um nível tão básico, na distinção básica entre direitos e deveres:

O direito de morrer não é o dever morrer!

O direito ao aborto de anencéfalos não é o dever de abortar, não é a obrigação do aborto!

O direito ao casamento homoafetivo não é a transformação da homoafetividade em norma, em obrigação!

Bem simples, como já foi dito:

Você é contra o casamento homoafetivo? Então não se case com alguém do mesmo sexo!

Você é contra o aborto? Então não aborte!

Você não acredita que a vida é de quem a vive, mas sim de uma entidade criadora sobrenatural?

Então viva de acordo com essa ideia, mas deixe o outro viver de acordo com suas próprias ideias!

Tuesday, May 01, 2012

Sobre a espiritualidade (Comte-Sponville)




“Somos seres finitos, abertos para o infinito. Posso acrescentar: seres efêmeros, abertos para a eternidade; seres relativos, abertos para o absoluto. Essa abertura é o próprio espírito. A metafísica consiste em pensá-la; a espiritualidade, em experimentá-la, exercê-la, vivê-la.”

André Comte-Sponville


Sobre a tolerância religiosa (Drauzio Varella)



Os religiosos que têm dificuldade para entender como alguém pode discordar de sua cosmovisão devem pensar que eles também são ateus quando confrontados com crenças alheias.

Que sentido tem para um protestante a reverência que o hindu faz diante da estátua de uma vaca dourada? Ou a oração do muçulmano voltado para Meca? Ou o espírita que afirma ser a reencarnação de Alexandre, o Grande? Para hindus, muçulmanos e espíritas esse cristão não seria ateu?

Na realidade, a religião do próximo não passa de um amontoado de falsidades e superstições. Não é o que pensa o evangélico na encruzilhada quando vê as velas e o galo preto? Ou o judeu quando encontra um católico ajoelhado aos pés da virgem imaculada que teria dado à luz ao filho do Senhor? Ou o politeísta ao ouvir que não há milhares, mas um único Deus?

Quanto aos religiosos, leitor, não os considero iluminados nem crédulos, superiores ou inferiores, os anos me ensinaram a julgar os homens por suas ações, não pelas convicções que apregoam.

Drauzio Varella

O crescimento do Criacionismo no Brasil

                                                                       Ilustrações de Carlos Ruas


A popularidade do Criacionismo, no Brasil, é crescente. E isso é preocupante.


Os criacionistas tentam comprometer a produção de conhecimento e tecnologias que são benéficas para a humanidade em função de mesquinhez e rigidez em relação aos seus dogmas religiosos. Isso é assustador e desnecessário.

A crença em Deus, ou mesmo o que os cristãos chamam de fé, tem condições de conviver com novas descobertas científicas. A Terra não é plana, não é o centro do universo, assim como o ser humano não é o centro da vida. E isso tudo não impede a crença em Deus. Isso talvez impeça o fanatismo, mas não a crença em Deus.

Em vez de sofisticarem suas crenças, suas ideologias, algumas pessoas preferem combater avanços e descobertas científicas importantes para a sobrevivência de nossa espécie. Assim a espiritualidade é relegada a segundo plano e o fanatismo impera. Isso é lamentável.

Um amigo, biólogo pela USP (o qual prefere ter sua identidade preservada, para evitar hostilidades por parte de fanáticos religiosos de seu círculo social), se expressa muito bem acerca do tema:

“Não acreditar nas teorias da evolução biológica, diante da massa absurdamente gigantesca de dados que as evidenciam e das aplicações tecnológicas que já existem a partir dela (inclusive na geração de programas de computador e projetos em robótica) é, atualmente, tão pouco razoável quanto acreditar que a Terra é quadrada, que o Sol gira em torno de nós, que as estrelas são brilhantes presos em esferas de cristal ou que toda a matéria é constituída apenas por 4 elementos.

Não acreditar em evolução biológica era razoável há mais de 100 anos atrás. Hoje não é mais!”

Para finalizar, Karl Popper ajuda a reforçar este ponto:

"A diferença principal, me parece, tem a ver com o fato de que as ideias de uma pessoa em plena saúde mental não são impossíveis de serem corrigidas: uma pessoa em plena saúde mental mostra sempre uma certa disposição de revisar as suas opiniões. Ela só pode fazê-lo contra a vontade; ela se coloca, contudo, pronta a corrigi-las sob a pressão dos eventos, das opiniões sustentadas por outros, e de argumentos críticos.

Se assim é, podemos dizer que a mentalidade do homem que possui opiniões bem firmes, o homem ‘comprometido’, assemelha-se àquela do louco. Pode ocorrer que todas as opiniões bem firmes desse homem sejam adaptadas, no sentido de que elas coincidem efetivamente com a melhor solução possível no momento em que elas são concebidas.

Mas na medida em que ele está comprometido, ele não é racional: ele irá se recusar a toda variação, a toda revisão. Como ele não pode estar de posse da verdade exata (pessoa alguma pode), ele irá se recusar a corrigir, dentro de um espírito racional, até mesmo as opiniões cuja falsidade seja patente. E ele irá se recusar, do mesmo modo, a partir de sua vida, que a sociedade aceite a revisão dessas idéias.

É por isso que, quando esses que glorificam o comprometimento e a fé cega se apresentam com o nome de irracionalistas (ou pós-racionalistas), eu me ponho de acordo com eles. Eles são irracionalistas, embora sejam capazes da raciocinar.

Isso porque eles encontram uma soberba em se reconhecerem incapazes de quebrar a casca, em se fazerem prisioneiros de suas manias. Eles se privam espiritualmente da liberdade, por um ato explicável (segundo os psiquiatras), no sentido da ação racionalmente compreensível. Iss pode ser visto, por exemplo, como um ato cometido por temor - o temor de ser forçado, pela crítica, a abandonar uma idéia à qual eles se prendem, pois ela se constitui (ou porque eles acreditam que ela constitui) a base de toda sua vida." (Popper, 1994, p. 180)

POPPER, K. R. (1994). The myth of the framework: in defence of science and rationality. London: Routledge.

Tuesday, April 10, 2012

Ficando rico com a hipnose




A hipnose é uma técnica mergulhada em mistificações. Abordo este tema, detalhadamente, em meu livro sobre o assunto: “Hipnose: fato ou fraude?”. Antes, porém, tive algumas experiências interessantes.


Vi muitos dizerem que se utilizam da hipnose em sua prática terapêutica, seja ela pertencente à Psicologia ou não: médicos, terapeutas alternativos, psicólogos, dentistas e outros. Infelizmente, boa parte das pessoas com quem tive contato, utilizava a hipnose de modo mistificador e, em alguns casos, até mesmo de modo fraudulento e charlatão. Existem obviamente muitos profissionais conscientes de suas limitações e das técnicas que fazem uso. Porém, a hipnose, com toda sua aura lendária, parece atrair legiões de enganadores.


Está muito próxima do truque. O ilusionismo é de certa forma uma espécie de hipnose. Ao chamar a atenção para um ponto específico e produzir a percepção de uma ilusão, é gerado um efeito muito semelhante ao que se faz durante uma indução hipnótica. O objeto muitas vezes já se encontra ali e nem nos damos conta, pois nossa atenção está focalizada em um outro ponto. Isto é muito comum em apresentações de ilusionismo. Deste modo, em algumas práticas, não é estranho que uma coisa comece a se confundir com a outra.


Um exemplo. O sujeito faz hipnose de palco e está mais preocupado em impressionar o público do que em fazer compreender o que de fato está ocorrendo ali. O mais importante é mostrar-se como o detentor de um dom espetacular e misterioso, como alguém poderoso, senhor de conhecimentos profundos acerca do controle da mente e comportamento alheios. Habilidades que somente seriam adquiridas mediante um aprendizado especial, guardado às sete chaves, por centenas de anos.


O sujeito aquece o público com estórias de casos bem sucedidos, de espetáculos já propiciados. Relata curas incríveis. Às vezes possui sotaque estrangeiro, o qual reforça ainda mais a assimetria entre ele, hipnotista, e nós. Possui uma retórica envolvente, provoca carisma e/ou temor. Geralmente bem vestido e dito bem sucedido. Um jogo fulminante de aparências. Ilusionismo e inebriação do começo ao fim. Sem qualquer aviso, será realizada a hipnose de todos. O auditório acaba também sendo hipnotizado, mas assim não concebe.


A pessoa já está no palco, sendo submetida a uma indução. O hipnotista começa a sussurrar em seus ouvidos. O que será que diz nestas horas? Quais são as preciosas e “mágicas” palavras que sussurra ao pé do ouvido daquela pobre vítima de seu poder avassalador? Logo, a presa está lânguida e sob o completo controle deste mago. É assim que este tipo de hipnotista quer fazer parecer.


Uma vez um deles perguntou ao público:


“Quem aqui acha que não é facilmente hipnotizável, levante a mão.”


Algumas pessoas levantaram a mão. Escolheu uma jovem de expressão doce. Utilizava uma técnica de fixação do olhar, na palma de sua mão, bem acima da cabeça da jovem, com o ombro direito dela apoiado em seu peito. Sussurrava em seu ouvido e a abraçava, estando ela de lado para ele. Em poucos minutos, ela já pendia a cabeça em seu peito, caindo literalmente em seus braços.


Este excesso de proximidade física pode produzir um efeito de opressão ou proteção corporal. Retoma na pessoa hipnotizada estados de estar sendo possuída, seduzida ou dominada. Em termos pavlovianos, é a conquista da presa, o beco sem saída. A consumação de um domínio, de uma caça, de um ato de sedução. O que resta então à presa? Congelar. Freezing.


Percebi que este hipnotista, quase nunca trazia homens ao palco, e se os trouxesse era somente para deixá-los absortos num canto. Com as mulheres era um intenso contato corporal. Com os homens, uma distância fria.


“Meu caro colega, você já percebeu que utiliza quase somente mulheres em suas demonstrações?”, indaguei.


“É verdade. Às vezes penso que sou guiado pelo meu tesão. Você viu a última menina? Que gracinha. Foi muito bom tê-la nos braços.”


Ele se realizava ao perceber que havia hipnotizado uma mulher atraente, que esta havia caído em seus braços, como se tivesse de fato consumado uma sedução. Preferia sempre mulheres bem mais jovens. E não raro enamorava-se de suas alunas ou pacientes. Todas as últimas companheiras que tivera tinham sido alunas ou pacientes. Outro detalhe é que sempre fora um sujeito muito ambicioso. Sempre muito atento para seus proventos financeiros. De seu círculo de conhecidos, não havia quem não percebesse isto.


Para piorar, no final, depois de ter hipnotizado a jovem que dissera não ser facilmente hipnotizável, soltou a seguinte pérola:


“Pois como eu digo: jamais duvidem do poder de um hipnotizador”.


Convenhamos, para ser hipnotista é preciso também ser uma besta?


Seu desejo mais íntimo era talvez hipnotizar o mundo todo e dele apropriar-se como seu senhor supremo. E a hipnose não seria um caminho para isso? Não é isto o que fazem alguns, senão todos os sacerdotes via-satélite, o quais podemos acompanhar a qualquer hora da madrugada em programas religiosos transmitidos pela televisão?


Uma vez, inclusive, eu estava a assistir um destes programas. Alguém chegou. Percebeu que eu perseverava em assistir e não entendeu.


“Ué, Adriano? Por que você tá assistindo isso aí?”


“Rapaz, tô aqui tentando compreender quais são as técnicas que esse povo utiliza. Olhe a oratória desse sujeito. A emoção, a música. Tá construindo um mundo inteiro dentro da cabeça do povão somente com a boca. Haja recurso dramático, haja repetição...”


Sim, dá pra ficar abismado. E não foi diferente quando, em um curso que fiz, mencionei que o maior centro de hipnose estava ali, ao lado. Mas as pessoas não entenderam.


“Sim, gente, aqui, do outro lado da rua. Aquele enorme templo ali, oh, é o maior centro de hipnose daqui das redondezas.”


Algumas pessoas, não sei por que, ainda não compreendiam. Desculpem-me, mas esses cursos são repletos de antas.


“Ou vocês acham que o sacerdote daquele templo utiliza técnicas muito diferentes das que estamos a aprender aqui?”


Era bom não insistir muito. Fanatismo também existe fora daqueles templos e rituais histéricos.


Aliás, num destes cursos, os quais geralmente são caros e cheios de conversa fiada, vi e ouvi cada uma.


Entrei no site do curso, para verificar mais especificamente do que se tratava, se valeria à pena pagar pra ver. A home page tinha uma concepção visual de última categoria. Além de graficamente pobre, era repleta de clichês. O que talvez seja até meio difícil de se escapar completamente. Para dar um exemplo, a primeira edição de meu livro possui também alguns espirais. Sutis, mas não deixam de ser espirais. E, portanto, para a área, clichê.


Mas o problema não era somente este. Não somente clichê mas também graficamente pobre, muito pobre. Todo seu conteúdo era voltado para a promoção dos cursos. Faziam também referência a uma associação de hipnose que teriam fundado. E muitos fazem isto. Criar uma associação, mesmo que esteja evidente que é somente de fachada, produz, para muitos, ingênuos, uma outra impressão.


Além de site, tinham uma associação. Qualquer um que fizesse o curso já automaticamente ficava inscrito na “associação” de caráter nacional. Verifiquei os preços dos cursos. Caríssimos. Turmas sempre lotadas, sem limite de inscritos. Sinalizavam inclusive o recorde de participantes em um de seus cursos. Fiz as contas. Os lucros eram altos, muito altos: um negócio da China. O sujeito tinha criado uma máquina de fazer dinheiro. Mas ainda era um negócio familiar, nada ainda em grande escala, como uma PNL, por exemplo.


Alias, não sei por que. Talvez seja até preconceito de minha parte. Mas não confio em nada que venha com um ™ do lado. Inventam um nome e uma embalagem diferente para uma coisa que todo mundo já conhece, para disfarçá-la, e botam lá o famigerado ™. Ainda não me acostumei com este tipo de coisa. Mas já pensaram nisso? Freud lançando seu livro “A interpretação dos sonhos” com a capa assim: “A interpretação dos sonhos™”. Estranho. Muito estranho.


Outro fato interessante no site do dito curso era a bibliografia. A grande maioria era de livros de autoajuda. Como montar alguma coisa séria com base em livros de autoajuda? Como era um curso totalmente focado em técnicas de indução hipnótica, pensei que seria interessante fazê-lo. Eu estava mais interessado no que chamo de lay-outs de técnicas. Pagaria então pra ver se havia alguma técnica nova, que me surpreendesse. Com o termo lay-out pretendo dizer que a estrutura é a mesma e o que muda são somente alguns detalhes, os quais eu não tenho criatividade suficiente para tirá-los da cartola.


Existem fundamentos básicos da técnica: repetição, focalização da atenção, privação sensorial. Abordo também esta questão em meu primeiro livro (já citado) sobre o tema. Adotando estes fundamentos, o restante é somente uma roupa, uma embalagem diferente em cima de uma mesma coisa, sempre, ou seja: lay-outs, molduras. Fui então em busca de molduras diferentes. Uma hora o sujeito fixa o olhar em sua própria mão, na outra, na mão do hipnotista, em algum ponto do ambiente, pêndulo, com os olhos voltados para cima ou para baixo, em posição fatigante, e por aí vai.


O curso contudo foi, em termos teóricos, bem fraquinho, sem a menor consistência. A cabeça do professor era totalmente modelada por débeis considerações de livros de autoajuda. Incapaz de qualquer questionamento ou reflexão mais profundos. Uma voz muito calma e a retórica mais do que necessária para inebriar muitos dos presentes, já há muito inebriados, talvez pelo tema, ou pela própria pressão do grupo a endossar cegamente os milagres de que era capaz a hipnose.


Em muitos momentos a cena beirava a comicidade, o ridículo. Aliás, hipnose, se não tomarmos cuidado, pode muitas vezes nos mergulhar no ridículo. Não sou muito temeroso com o ridículo, desde que assumido e conscientizado. O que não era o caso. Ele enumerou, e até de modo inútil, uma aparente infinidade de técnicas. Somente aparente. Ao meu lado, um aluno, inconformado com a perda de tempo, a observar tanta debilidade mental, chegou a comentar:


“Esse curso é oco, vazio. Não tem nada dentro. Tudo em função somente das aparências, mais nada.”


E durante o coffee-break:


“Este foi o coffee-break mais caro de toda a minha vida.”


Outro, mais nervoso, mais revoltado, com um jeito efeminado, também não se conteve:


“Vou pedir meu dinheiro de volta. Estou me sentindo em um ritual da Seicho-no-ie. Não vim aqui para isso. Não estou acreditando nisso.”


Fizeram, durante o coffee-break, destilar seu veneno, e queriam minha solidariedade à sua revolta. Eu não estava nem um pouco contrariado:


“Desculpem-me, mas vocês deveriam ter avaliado melhor do que se tratava antes de terem se inscrito. Dessem uma olhada na bibliografia e logo veriam que a teoria aqui não passaria de conversa fiada.”


Para mim não havia surpresa. Sabia que ouviria mesmo muito papo furado. Minha meta eram as molduras, as pinturas eu já as tinha.


Não sei se o professor assim concebia, mas muita coisa que falava colocava em xeque sua malícia e inteligência:


“Minha esposa disse que estava cansada e doida pra estar numa praia. Fiz uma hipnose com ela e pronto: foi para a praia, sem precisar sair do lugar, sem gastar um tostão”, comentava.


E fez aquela lista enorme de curas. Hipnose como remédio pra tudo, como panacéia. A ausência de qualquer limite, de qualquer critério. Parecia um caixeiro viajante, de cidade em cidade, a vender seu tônico miraculoso. E não assim que também agiam os sofistas, vendendo sabedoria de cidade em cidade? E sempre a promessa de mundos e fundos, de resultados imediatos. Sem uma grande promessa, não há bom negócio. Deve-se resguardar muito bem o campo das aparências, da perfumaria, usar e abusar da repetição e da retórica e, por fim, mesmerizar o público, com a anestesia completa de sua capacidade crítica.


O rapaz revoltado foi à frente, como sujeito de uma demonstração:


“Não estou hipnotizado”, em tom afetado.


“Foi exatamente isto o que eu disse à primeira vez em que eu havia sido hipnotizado”, respondeu o mestre.


Em toda sua dificuldade, o professor tinha uma habilidade: a de não estender uma discussão, de não esquentá-la. Estava sempre em baixíssima temperatura. O que não interessava, ele simplesmente nem dava ouvidos. Calmo, sempre muito calmo.


“Não estou hipnotizado”, repetiu um outro.


“Está sim, você que não está percebendo...”


Esta sua última réplica retomou à minha memória Milton Erickson, em um de seus livros. Às vezes fazia exatamente esta mesma coisa. Desculpe-me a autoridade de Erickson neste campo, mas isso é patético. O sujeito está dizendo que não está hipnotizado e retrucamos que sim? E fim de papo, sem qualquer justificativa ou explicação plausível? Não compreendo. Tosco.


As demonstrações deste nosso mestre meio atrapalhado eram também muito rápidas. Queria demonstrar todas as suas “infinitas” técnicas. Então tudo adquiriu um ritmo de amostragem, se é que ele assim concebia. Às vezes parecia pegadinha ou brincadeira de criança, de tão idiota. A pessoa ia até a frente, ele lhe passava a mão na testa, ou fazia qualquer outro sinal e pluft!: “durma, durma”. E claro, a maioria não sentia absolutamente nada, deixando nitidamente de exibir qualquer alteração. Brincadeirinha inócua. O menino efeminado não perdoava:


“Palhaçada isso aqui.”


Tentei acalmar o rapaz. Mas minhas intervenções o deixavam ainda mais histérico e inconformado.


Em outro momento, senti que era importante fazer algumas considerações, pois o professor acreditava que a hipnose fosse uma eficiente ferramenta para a recuperação de memórias. Pedi a palavra e falei de uma questão fundamental: as falsas memórias.


Utilizar a hipnose para recuperar memórias é um grande equívoco. Isto está mais do que estabelecido, inclusive em nível experimental: a hipnose pode induzir a produção de falsas memórias.


Vários autores perceberam isto, inclusive Freud, há mais de um século atrás. Em nível experimental, as pesquisas mais conhecidas são as de Elizabeth Loftus. Realizou uma série de experimentos e pesquisas sobre o tema, além de ter escrito vários artigos e livros a respeito.


Em um de seus experimentos mais conhecidos, submeteu diversos sujeitos a um vídeo de curta duração, o qual retrata dois carros se colidindo. Depois, foram formulados dois tipos de questionamento, para dois grupos diferentes:


1. A que velocidade os carros estavam quando se colidiram? Houve algum vidro quebrado?


2. A que velocidade os carros estavam quando se estraçalharam? Houve algum vidro quebrado?


Como se pode ver, a única diferença é entre os verbos “colidir” e “estraçalhar”. Os resultados são significativos. Os sujeitos do segundo grupo tendem a atribuir velocidades maiores aos veículos e a dizer que viram vidros quebrados, apesar de não haver vidros quebrados no vídeo. Ou seja, foi produzida uma falsa memória.


Fiz minhas considerações e deixei claro sobre os perigos de uma concepção que confere à hipnose o poder legítimo na recuperação de memórias. Não somente pelas demonstrações experimentais, mas também pelos estragos históricos que já foram produzidos por este tipo de prática na clínica. Houve diversos casos nos Estados Unidos, principalmente na década de 80. Alguns pacientes, submetidos à hipnose para recuperação de memórias, saiam das sessões com a convicção de que haviam sido abusados sexualmente na infância. Os supostos infratores (os acusados) eram geralmente os pais, parentes ou amigos bem próximos. Em alguns casos, o que é ainda mais grave, estes acusados chegaram a ser presos.


O professor, sempre muito diplomático e suave, ouviu atentamente minhas considerações e, mesmo que não tenha compreendido nada, endossou tudo para que pudéssemos logo passar adiante. Mestre da polidez, sem dúvida.


No final do curso foi muito gentil. Entregava os certificados e abraçava a todos, sem distinção. Por um momento pensei que eu até poderia ser desprezado ou hostilizado. Mas não, o sujeito era um doce. Fazia o que tinha de fazer e não olhava muito para os lados. Era um manual de autoajuda ambulante. Sempre sorrindo, sempre educado, otimista.


Mas ficou-me a seguinte impressão, a que geralmente tenho quando me deparo com sucessos da autoajuda, sejam livros ou pessoas: era cego, era a vitória completa do auto e do heteroengano. No caso dele, mais especificamente, pareceu-me um autoengano tão estrutural, que o engano dos outros deixava de ter uma aparência tão maquiavélica.


E assim foi um final de semana inteirinho. Um festival de ilusões e dogmas cafonas. Nenhum surto, nenhum vexame, nenhuma agulha atravessando a carne de ninguém. Nada muito excitante, a não ser as cifras volumosas que o professor tinha botado no bolso.