Wednesday, July 12, 2006

Loucos 6 (Mostra aí)

Não é muito raro alguém surtar enquanto é estudante de Psicologia. O contexto em que realizei meu curso de graduação era altamente propício. Éramos uma turma , durante cinco anos, com quase 90% de mulheres convivendo em período integral. E dos cinco homens, somente três eram tradicionalmente homens. Os outros dois eram bem femininos. Independentemente da orientação sexual, eram efeminados. Parece que tinham uma alma feminina. Nossa, se lerem isto aqui, irão condenar-me com toda a veemência possível, como sempre o faziam.

Farão um julgamento ético de cada palavra que utilizo para, com afetação contida de bicha intelectual, sepultar minhas idéias, o machismo grosseiro que perpetro nestas parcas linhas em que tento inutilmente falsear o passado. Farão o ar de reprovação arrogante ou afetada que sempre recebi de seus semblantes. Enfim, Adriano, ou melhor, o “Frank” (este era meu apelido na graduação) sempre foi um idiota, grosseiro, sem horizontes. Um machãozinho de merda, tolo e ingênuo, perdido aqui em nosso mundo. De fato, às vezes me sentia muito perdido naquela turma de mulheres.

Sempre tive, até hoje, mais facilidade para lidar com homens. Sinto que os homens se respeitam mais. Não permitem um grau muito intenso de ofensas, pois a coisa pode logo ficar mais séria e terminar em brigas que podem até resultar em morte. Homem não mexe com homem. Homem que mexe com homem é burro.

As mulheres se provocam e se ofendem mutuamente com muito mais facilidade, pois geralmente não existe uma conseqüência mais grave ou extrema. Assim acabam se hostilizando por meio de ardis e fofocas até o limite do imaginável. Falam mal umas das outras, armam ciladas, cobiçam amantes alheios e dissimulam com uma habilidade historicamente incrustada em nossa espécie. Coisa da qual poucos homens são capazes.

Como tenho um limiar muito baixo para tolerar provocações contínuas e veladas, um ambiente feminino e altamente competitivo é para mim altamente nefasto. Minha melhor tática naquela turma foi o isolamento, permanecer longe dali sempre que possível. Em outros setores da universidade onde minha auto-estima pudesse minimamente ser preservada. Foi tudo completamente o contrário do que havia concebido. Antes de cursar Psicologia, eu pensava que seria um rei no meio de tantas mulheres. Que nada, fiquei pra palhaço em um circo faminto e sem público.

Este universo feminino, peçonhento e ardiloso era o palco de fabricação da loucura de muita gente. Uma de suas vítimas foi Lili. Aquela turma de futuros intelectuais, de gente muito segura de si, de psicólogos resolvidos, precisava de bodes expiatórios. Uma de suas presas ideais foi Lili. Católica, doce, delicada, um poço de ingenuidade e virgem aos vinte e poucos anos. Noivaalguns anos e virgem. Falava de sua virgindade com tranqüilidade, mas mal sabia o que se armava às suas costas: comentários altamente venenosos, o ódio do mundo canalizado para uma presa inofensiva. Lili era a idiota da qual as mais moderninhas, recheadas de MPB e Michel Foucault, debochavam. Lili era a cabritinha que seria queimada, sacrificada para salvar a sanidade daquele povo.

E assim foi, hostilizada e encurralada durante uns três anos, os primeiros do curso, quando o povo se amou (na ilusão) e depois caiu na atrocidade civilizada: os ardis infinitos do mundo feminino. Lili era inferiorizada e humilhada por ser virgem, por ser ingênua. Alvo fácil de sadismos infantis.

Era uma segunda-feira, dez da manhã, aula de Psicopatologia. Toda semana começava assim, com uma apresentação dos flagelos da humanidade na forma de doenças mentais. Sentei-me e quem resolve, neste dia, sentar-se ao meu lado? Lili.

Hoje esse bando de filho-da-puta vai ouvir tudo o que merecem”, rosnava Lili para mim, como se pedisse minha aprovação ou acordo.

“Essas vacas vão comer a própria merda. Tudo puta. Tudo mal amada. Tudo vagabunda. Povo fedido, escroto.”

Estas palavras definitivamente não combinavam com Lili. Sempre fora uma moça muito delicada, discreta, de voz suave, obediente e temente a Deus.

Ela estava sentada entre eu e Rosa. Esta, também muito delicada, mas com uma capacidade para invisibilidade da qual Lili não dispunha, soube, durante todo o curso, esconder-se das garras das mais peçonhentas, e nunca fora a cabritinha da vez.

Lili resmungava e praguejava tanto para mim quanto para Rosa. Fiz, por trás dela, aquele conhecido gesto de girar o dedo nas orelhas para querer dizer que nossa colega estava louca. Rosa compreendeu e concordou imediatamente.

Houve um intervalo, ficamos juntos de Lili, para tentar acalmá-la. Ricardo, um outro colega de sala, também não muito certo das idéias, mas bem mais sólido em sua condição, bem mais calejado nas loucuras da vida, também estava conosco na tentativa de amenizar a situação.

Lili estava completamente decidida a se machucar. Queria ir à frente da sala e dizer tudo, revelar os podres mais íntimos de todos, os quais ela agora dizia saber, com o olhar de uma vidente que o fim dos tempos e dos homens todos sobre a Terra.

“E vocês vão comigo. Vamos juntos acabar com esta farsa, esta hipocrisia. Esse povo é podre. Falaram tanto de mim, agora está na minha vez. Quero ver a cara desses filhos-da-puta. Cuspo na cara deles. Pau no cu desse povo. Hoje eu vou botar pra foder e vocês vão me ajudar.”

“Lili, calma. Vamos conversar. Não faça isso. Você vai se expor demais, vai se machucar. Vamos conversar primeiro. Vamos sair daqui. Vamos para o bosque. a gente conversa com calma.”

Não, eu quero botar pra foder ! ”, fazendo um gesto agressivo de masturbação masculina em uma tentativa de enfatizar sua fúria e deboche diabólico.

Gritava isto no meio daquele monte de gente que saía das salas de aula. As pessoas se assustavam, estranhavam e percebiam que alguém ali estava enlouquecido.

Tentávamos abafar e escondê-la, mas era inútil. Estava enormemente disposta ao escândalo.

“E , Adriano? E , Ricardo? Vocês não são machos, não são os machos da turma? Então vamos ! Provem para aquelas bichas que são machos! Mostra o pinto !”

Repetiu o “mostra o pinto bem alto, várias vezes. Quanto mais pessoas passavam, mais fazia questão de enfatizar e gritar. Algumas pessoas riam, desconcertadas. Mas quem passava, sabia: aquela garota estava surtando.

Do constrangimento fomos passando ao desespero. Desespero de ver uma amiga que tanto estimávamos ir se destruindo moralmente em poucos minutos. Gritou tantas vezesmostra o pinto ”, que eu e Ricardo resolvemos tentar amenizar, sussurrando em seus ouvidos:

Tudo bem, Lili, a gente mostra, mas no bosque. Que tal?”

Lili ficava empolgada e até acalmava um pouco. Fazia cara de tarada, como se percebesse, em sua loucura, a boa oportunidade da vida que estaria perdendo.

“Uhm, vocês estão vendo que eu estou louca pra cair de boca no pau de vocês, né. Pra mandar ver num sexo a três. Mas quem me garante que vocês não estão dizendo isso somente para me acalmar?”. Mudou o tom de voz, agora mais calmo, a ponto de parecer ter recuperado a sanidade. Mas o diabo permanecia fervendo em seus olhos. Não era ela. Estava possuída.

Voltou ao discurso político de ir dar vexame na sala. Ricardo conversava a sós com ela, murmurando em seus ouvidos. E eu sempre bem perto, para o caso de ter de contê-la. Porém, em uma pequena distração, Ricardo, como sempre, estava se excedendo. Quando dei por mim, mostrava seu enorme pênis para Lili, de um modo bem reservado e discreto. Quem os visse, de costas, diria que estavam olhando para o chão ou que ele continha algum papel nas mãos e o mostrava à garota.

Que isso, Ricardo, tá ficando louco? Bote isso pra dentro.”

Tive de chegar forte na censura. Eu não daria conta de segurar dois loucos no meio daquela multidão.

Calma , meu chapa. tô dando uma noção pra menina. Não é o que ela queria?”

“Ricardo, não vamos piorar as coisas.”

Compreendeu e recolheu o pênis, apesar de um pouco contrariado.

O efeito de sua loucura, porém, fora mais calmante para Lili do que os dez minutos de conversa que havíamos tido até ali. Após ter visto o pênis de Ricardo, ela concordou em ir conosco até o bosque para acalmar-se um pouco.

Paramos em um bambuzal. Ele não perdeu tempo. Tirou do bolso um pedaço de papel de seda e logo estava bolando um baseado.

“Poxa, Ricardo, não é hora disso”

“Fica na sua, Adriano. Depois disso tudo, agora vai querer dar uma de careta? É pra relaxar um pouquinho, meu chapa.”

Fumou e, pior, deixou que Lili também fumasse. Ela estava topando todas.

Rosa estava muito introspectiva e saiu do bambuzal. Também não estava nada bem. O surto de Lili deixara-a bem mexida. Precisava conversar, elaborar o ocorrido. Estava carente e eu também. Começamos a conversar e divagamos pelo céus e suas nuvens em avalanche, pelo verde do bosque e por todos pássaros que naquela manhã também diziam alguma coisa em seu canto solitário. Em uma árvore, bem perto, havia um bem-te-vi. Ele chamava, chamava, e aquilo ecoava dentro de nós. Depois de tanta loucura, o bosque era um universo à parte e muito mais lento do que todo o restante da vida. O coração do bosque e sua infinidade de bichos e vida pulsavam vagarosamente dentro de nossos olhos e ouvidos. O olhar de Rosa estava mais lindo e plácido do que nunca.

Ouvi um gemido (parecia de dor) vindo de dentro do bambuzal.

Espera , Rosa! Vamos ver o que está acontecendo ali! Afinal, esquecemos estes dois loucos sozinhos.”

Ricardo e Lili estavam completamente nus e transavam sem a menor cerimônia. O gemido sofrido, ou de prazer, era dela. Mas tinha mais um ar é de sofrido.

Mal chegamos à entrada do bambuzal, Ricardo logo parou de se movimentar, e ainda grudado em Lili, esbravejou:

“Saiam daqui! Deixem-nos em paz!”

Falava e cuspia, saliva, suor. Rosa ainda tentou dizer algo, argumentar. Em vão.

“Lili, você está bem? Quer continuar com Ricardo?”, perguntei.

Sim, sim...”, sem parar com o que estava fazendo.

Jura?”, prosseguiu Rosa.

Sim, sim, gente... Olha , vocês tão vendo, eu to numa boa aqui com o Ric. Ou vocês entram na roda, ou deixam a gente em paz. Esse homem me curou da minha loucura. Ai, meu Deus...”

Definitivamente não era aquele clima o meu e de Rosa. Preferimos ficar sós, longe dali, e conhecer melhor um ao outro.

Aquele dia começara fervendo, insano e cheio de ódio nos olhos de Lili. E terminara com uma alma de bosque, cheio de vida pulsante nos olhos e na boca de Rosa.

11 comments:

Cako said...

O Negao, tenho me divertido bastante aqui, chorei de dar risada agora!!! Genial!!! Bom saber que Lili esta curada!

Alexandrino said...

Perfeito!!! Na melhor definição reichiana possível... Adorei!

Francisco said...

Oi Adriano, legal teu blog, tu escreve mto bem msm...
Parabéns...

rodrigo alves said...

estilo de pergunta jo soares: mas isso aconteceu mesmo rapaz?

thata said...

Contos a la Nelson Rodrigues!
heheheh
Muito bom!

diadorin said...

Viva a vida. Lili em sua loucura cria, acontece, sai de si, entra no bambú, faz cena e (re)cria a vida. Nesta explosão faz clarão e, talvez o gozo de Ric, fosse sua comida predileta,o corpo de cristo, já não havia mais o amém, pois, o corpo era outro! "Essa violência é uma calma que nos agita", diria Jean Genet.

Ronei

Fabiana said...

Querido Prof. maravilhosa a trama!!!
Envolvente e interessante, prendeu minha atenção!
Parabéns

Keyci said...

Bom demais esse texto, prendeu minha atenção...e olha q eu não sou de ler textos longos não...morro de preguiça (confesso!), mas esse me prendeu!
Legal Adriano!

Anonymous said...

Deve ter sido uma barra mesmo é ter de lidar com um monte de baitola e afeminado intelectual e as moderninhas dissolutas. "julgamento ético com afetação contida de bicha intelectual" kkkkkk!
Isso me lembra que o Falcão dissera que logo se voce sair na rua e dizer que não é bicha/gay/baitola... vai ser vaiado por todos.
As moderninhas, recheadas de MPB e Michel Foucault conseguiram enlouquecer a pobre moça. Hahahaha!

Ass:
Frank (o verdadeiro)

Anonymous said...

Nossa muito bom, dei boas gargalhadas!!!

Ass.Danyela Veronica

Elise said...

Para cada um exite seu remédio.....

Grande abraço.....