Wednesday, April 19, 2006

Aprendendo na porrada

Nesta vida, aprendi muita coisa na porrada. E dizem (os behavioristas) que o controle aversivo produz uma faixa muito restrita de comportamentos. O animal, com medo, aprende muito pouco, somente a esquivar-se da punição. Não fica livre para explorar outras formas de ação.

Porém, muita coisa foi sofrida. Inclusive a poesia. Comecei a escrever poesia, de verdade, velho, aos 21 anos. Mas para começar foi um sofrimento. Era uma oficina de poesia. Um curso de poesia ministrado na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Era gratuito, mas tinha seleção. Na qual passei, pois a concorrência era bem pequena ou nem tinha. Havia seleção para haver um critério. Enfim, acho que todo mundo que quis fazer o curso, o fez. Até ali eu escrevia algumas coisas. Costumava mostrar para uma amiga, leitora de Fernando Pessoa. Ela fazia uma cara horrível e, com um esforço grande de paciência, ponderava nas palavras: “É, Adriano, precisa melhorar aqui, ali...”, para não dizer que estava uma bosta, que eu deveria jogar aquilo no lixo. E era mesmo uma bosta. Eu escrevia assim: “o vento em meus cabelos/ na montanha voa o gavião e meu pensamento/ sigo voando/ sou leve/ sou vento...”. Um desfile de clichês, de frases vazias, banais e bobas. Não sabia e nem tinha coragem de brincar com as palavras. Não sabia que isso era permitido, que esse era o jogo.

Primeiro dia da oficinaArder a palavra em emoção”. O professor: um negro, velho, grande, barba branca, voz grave, rouca, imponente, resoluto. Dava aula e bebericava algo num copo de plástico. Esperei o intervalo e conferi, cheirando o copo: uísque. Pensei: “gostei desse cara”. Bebericava, declamava o que todos escreviam, solene, mesmo que fosse a maior besteira do mundo. E depois descia o cacete: “Isso não é poesia, sejamos sinceros. Escrevi muita merda até meus 19 anos. E botei fogo em toda merda que havia escrito até então”. estava avisando: botarei fogo na merda de vocês também.

Porém penso o seguinte, se você ainda não tem coisa melhor pra botar no lugar, jamais irá se livrar da merda. É igual dentadura. A velha não serve e a nova machuca. Devemos fazer como o Dr. Lélio, dentista, amigo de meu pai? O paciente tinha a nova mas não a utilizava e ficava com aquela horrenda e putrefata velharia na boca: “É que a nova machuca, Dr. Lélio”. “Não, vamos fazer um teste”, dizia Dr. Lélio. “Ponha a nova na boca, e deixa eu ver como fica”. Enquanto o paciente colocava a nova, Dr. Lélio, escondido, pegou a velha e a arrebentou com uma pedra, sem nenhuma. O paciente chorava copiosamente, pegando os pedacinhos de sua amada e finada dentadura velha. Era isso o que o negrão fazia com nossapoesia”, sem piedade.

E eu dei um pouco de azar. Não em relação a ele. Quem me rejeitou foram alguns alunos que cultivavam uma certa mistura de poesia com religião. O professor dava a palavra a todos. Lia a poesia e perguntava a cada um: “diga sua opinião”. “Não gostei, achei que não tem nada a ver ele ser tão pessimista, e tratar tudo de forma tão negativa”, disse um rapaz notoriamente religioso (parecia um missionário). Lembro-me bem, um verso em especial havia incomodado profundamente os religiosos e otimistas de plantão: “e eu estou aprendendo a rastejar”. E talvez, mesmo pesado e sombrio, fosse o único que contivesse alguma poesia no meio do monte de banalidades que eu escrevera. Fui um rebuliço. Polêmica total. Uns me defenderam, outros atacaram ferozmente, inclusive um médico, do alto da sua autoridade de pajé ancestral: “Não tem dessa não, se for uma bosta, diremos que é uma bosta. Seremos sinceros.” Saí moído, transtornado, mas sem deixar transparecer. Foi muita porrada.

Na aula seguinte, o professor salientava: “Mas que confusão você arranjou aqui, hein, Adriano”. O que me deixava mais tenso. Sentia-me massacrado, linchado. Pois para mim era claro: poesia é forma e não conteúdo. Posso falar do cocô da mosca, mas tenho de falar bonito. Posso ser pessimista, otimista, o que seja. Não importa o tema, o conteúdo. O mais importa não é “o quê”, mas o “como” se diz. E o grupo a me agredir, insistia que eu estava equivocado. Para eles era necessário transmitir um sentimento bom, benéfico, o qual servisse de lenitivo para os ouvidos cansados da humanidade. Para eles a poesia deveria estar mais próxima da oração do que do desabafo. Prefiro a seguinte máxima: “quem faz poesia tentando dizer alguma coisa, acaba não dizendo nada”. Ou Paul Valéry: a poesia é uma “hesitação entre som e sentido”. E muitas vezes, mas obviamente nem sempre, serve sim o conhecido versinho: “dor é motor”.

Dali em diante, li muita poesia, muita mesmo. Debruçava-me horas e horas, ou dias e dias, somente para escrever alguns poucos versos. O mestre negro da voz solene e retumbante dizia: “reescreva, reescreva e reescreva, sempre...”. E ele ficava cortando daqui e dali. Retalhava nossos escritos. Desconstruia, fazia a versão dele. E geralmente nos convencia da merda que estávamos a escrever. “Arder a palavra em emoção”. Ardíamos de raiva, de dor: “quem é esse cara pra dizer que sou um merda?”.

Esse sofrimento todo fez eu me lançar na frente. Dali em diante, li muita poesia. E várias vezes as mesmas poesias, os mesmos livros. Ficava degustando, digerindo, elaborando cada verso. Isso foi em 1994. Minhas primeiras poesias pós-oficina eram sombrias, e muitas vezes fortes, violentas, senão um pouco herméticas. Para tanto transcrevo alguns versos esparsos: “escrevo a véspera do vômito” (falo sim da dor, por que não?); “Nesse choro que tusso”; “Zangão anseio sugar seus lírios mamilos”; “Espirra vermelho à orquestra dos gritos o som oco de cabeça no chão” (quando presenciei uma abominável briga de rua, um espancamento covarde); “Grita longínquo o escorrer das lágrimas de um beduíno no ponto final do deserto”; “Canta melancólico o terror parado do ar” (uma imagem que me toca, com trilha grandiosa do Vangelis, se possível).

Depois eu descobri mais um monte de modos de se escrever e me expressar. E assim adquiri muito mais coragem para escrever qualquer tipo de coisa. A poesia me tirou o medo de escrever. Perdi o medo e aprendi a concentrar o que expressaria. E tudo ficava muito denso, ainda meio hermético, porém sempre temperado com beleza. Deste modo criei coragem pra fazer um mestrado a respeito disso. Como sou Psicólogo, o título ficou assim: “O poético e a clínica: da verdade à ambigüidade”.

E minha defesa de dissertação, com toda a solenidade do ritual, começava comigo declamando isso, assim, do nada: “Se um homem conseguisse escrever o que sente, perderia a faculdade de pensar. É para não dizer o que sente que o homem pensa. Uma criatura sincera dá a impressão de que está dizendo o que sente. Sinceridade é falta de espírito”. Um texto chocante de Guilherme de Almeida, descendo o pau em tudo o que é sagrado no meio acadêmico: verdade (“A verdade é o tédio da imaginação”), saber (“Saber é um horror”), sinceridade, a ciência. E enaltecendo o contrário: as belas mentiras da arte, a ironia. O texto completo está publicado aqui neste blog, mas reitero alguns de seus trechos essenciais:

“A arte é puramente espiritual. Ela não diz verdades: diz mentiras belas. Não adianta nada dizer verdades: quem ouve fica apenas sabendo. Não é preciso que alguém “fique sabendo”; é preciso que todos “fiquem imaginando”. A verdade é o tédio da imaginação. Saber é um horror. Uma coisa é bela enquanto não é sabida: o céu, a alma... Nãosugestões possíveis no binômio de Newton. Porque é preciso que exista a verdade e que exista a beleza: se não, não poderia haver homens de mau gosto e homens de bom gosto É muito mais belo acreditar numa mentira do que numa verdade. Para que a verdade fosse bela, foi preciso pô-la dentro de uma linda mentira: a cisterna da lenda. Em rigor, nãoverdade nem mentira: há pessoas que acreditam e pessoas que não acreditam. A gente tem necessidade de acreditar nas coisas incríveis. Ninguém tem vontade de que “aconteça” um romance de Zola.; todos têm vontade de que aconteça um conto de Perrault. Por isso é que há deístas. Deus é perfeitamente inverossímil. Os ateus são homens que com certeza viram Deus. A arte é assim: a arte é como Deus. Todos os homens, querendo assemelhar-se a Deus, criam ou destróem. É o que justifica haver artistas e haver críticos. Aqueles criam sugerindo; estes destróem explicando.Quando um artista não é compreendido, naturalmente é porque um crítico tentou explicá-lo. Explicar é completar. Somente as coisas incompletas é que são perfeitas, porque não satisfazem. Uma grande obra de arte é sempre incompleta: tem a perfeição de não satisfazer, isto é, de não cansar nunca. Mas nãonada mais inútil do que discutir arte. se discutem convicções. Em arte nãoconvicções. O fato de ter um homem uma convicção prova, quando muito, que ele foi inferior a quem o convenceu. O artista é um ser absolutamente superior.” (Guilherme de Almeida, 1925)

E, coincidência, este maravilhoso texto de surgiu onde? Na oficina de poesia em 1994. Lembro-me bem de quem o levou e o leu em sala: Dona Jair. Uma senhora de mais de 70 anos que fazia oficina de poesia e estava escrevendo a biografia de um palhaço de circo, talvez mesmo este que acabou de falecer: o Carequinha. Em 1999, fui atrás da Dona Jair, procurar o magnífico texto que lera na oficina. Esse texto de Guilherme de Almeida é a linha mestra de boa parte de minha dissertação de mestrado.

E ainda no final deste ano devo publicar meu primeiro livro, um livro de poesias: “Nuvem das horas”. Depois de muitos e muitos anos labutando nessa história e com material para publicar mais uns cinco livros. Mas para que pressa? Isso tudo é demorado mesmo. Como diz José Simão: “Nóis sofre mas nóis goza”.


2 comments:

Cako Facioli said...

Eh isso ai Drizao!! Goza logo, po!!
Maravilhoso o texto!

junior said...

Motivador, realmente como quase tudo um desafio para ter sentido.
Otimo.