Thursday, April 06, 2006

Mergulhos

Andava com a vida muito corrida. Tudo congestionado. A passagem do tempo era um massacre constante. Sem contar a angústia constante do “não vou conseguir”, “não estou encontrando tempo”, “meu corpo está no limite”. Em um desses dias estive, como sempre, correndo, e passei, cheio de tarefas e afazeres dentro da cabeça em ebulição, por dentro da biblioteca da UnB.

De repente, lampejos e nuvens de paz tomaram meu espírito e o tempo parou um pouquinho. Parou para valer mais. Engraçado, porque a vida estressante e repleta de compromissos gera logicamente o pensamento de quetempo é dinheiro”, de que ele possui um valor imenso. Cada minuto passando é computado no taxímetro de nossa alma. E cada minuto gasto deve ser pago com uma outra coisa. Queremos sempre o tempo de volta. Relacionar-se com a passagem do tempo é lidar com uma perda fundamental estabelecida em nossa existência: o que alguns teóricos chamam de temporalidade; como sentimos e vivemos sua passagem.

Dentro de uma biblioteca sinto isso, sinto o tempo parar. Porque livros exigem muito tempo. Ler um livro requer tempo. Quantas pessoas não passaram um ano inteiro, com várias horas de dedicação a fio, somente para dar conta da leitura completa de um livro. Claro, estou falando de um extremo, o tempo que a leitura de alguns verdadeiros tratados demandam.

Mas, mergulhar na leitura, de um modo geral, toma tempo. Não tenho dúvidas disso. E como consigo fazer esse tempo valer mais dentro de uma biblioteca. Porque ela foi feita somente pra isso, para a leitura. O silêncio impera, é seu mandamento máximo. Biblioteca que não tem silêncio perdeu a noção de que é biblioteca. Pra mim bibliotecas são templos. É o mesmo espírito: concentrar-se, meditar, estar consigo mesmo, e tentando sempre acessar algo acima de nós. Um processo constante de cura, de fazer parar o tempo para o que é mais precioso nesta vida: o cuidado com nosso espírito. Claro, nem sempre é isto o que ocorre. Mas é o que me chamou atenção naquele dia.

Tive uma saudade tremenda de coisas quemuito não faço: fechar bibliotecas ou permanecer quase o dia todo nelas. Uma boa biblioteca é um oceano, um mundo enorme a ser explorado. E eu me deixava mesmo levar. Navegava horas a fio, mergulhando, em mim, e em tudo o que lia. De repente, quando eu via, estava fechando mais uma vez a biblioteca, seja na UnB, USP ou Unicamp: lugares onde mais me enfiei no fundo das bibliotecas e me esqueci. Na Unicamp foi pouco tempo, um semestre. Mas também não deixei de mergulhar e de ir até o último minuto de funcionamento; de dar “boa noite” e desejarbom descanço” aos últimos funcionários que deixavam o recinto.

E isso tudo começou na USP, na época em que ainda fazia minha graduação. havia dois maravilhosos templos que eu freqüentava: a piscina e a biblioteca. E os dois tinham a mesma função básica: lugares onde eu meditava, mergulhava. Ouvido debaixo d’água, som de bolhas, a respiração viva, compaçada e constante. As braçadas e a placidez irretocável de um nado relaxante, para si mesmo. E incêndio do mundo deixado fora. O tempo parava, a vida parava. E eu sempre podia fazer as pazes com o tempo. Ficar debaixo d’água, quieto, completamente calmo, com a respiração presa, é um tremendo de um estudo do tempo.

Os prazeres da leitura e de nadar são, para mim, muito semelhantes. Porém, na água, sempre chego mais rápido a esse gozo. Bastam quinze minutos de respiração consciente, nado e mergulho constante, de total ensimesmamento, e estou em outro plano, sentindo plenitude, harmonia com o mundo e a posse de mim mesmo. Com a leitura também consigo efeito parecido. Assim como quando passeio e deixo levemente que meus pensamentos me levem em meio à brisa a revigorar o corpo, e talvez a visão e frescor da copa das árvores a dar recanto e sombra a tudo o que pede um pouco de trégua para a energia voraz do sol.

Durante meu curso de graduação, piscina (água) e biblioteca eram templos tão importantes que os freqüentava diariamente. Geralmente eu saia da piscina e ia para a biblioteca. A primeira preparava minha alma e meu corpo para a segunda. E aquilo era tão importante pra mim. Eu me entregava com tal intensidade que chegava mesmo a dizer que poderia morrer em qualquer uma das duas. Parece absurdo, mas me ensinavam também a aceitar melhor a morte, o fim de tudo.

E quantas vezes não me vi nadando como se dormisse. Fechava os olhos e ia, no escuro de mim mesmo, no escuro de tudo, em um sono inconcebível debaixo d’água. Isso tem nome: meditação.

Um dia esqueci de abrir os olhos e literalmente me esqueci nadando. Tendo isso ocorrido outras vezes, eu simplesmente batia com as mãos na outra margem, e assim repentinamente me dava conta de que havia chegado do outro lado. Era como se eu dormisse, mergulhasse, sonhasse e nadasse ao mesmo tempo. Porém, há pouco tempo atrás, dei azar. Bati com a cabeça na borda. E não foi com a testa ou uma parte lateral. Foi um choque bem no centro do crânio, o qual gera ressonância simétrica para todo o corpo. Foi um estrondo enorme dentro de mim. Praticamente não tive dor. Porém, como foi um choque de ressonância, ecoei inteiro. Acordar com uma pancada seca bem no centro da cabeça, por praticamente não ter sido doloroso, foi interessante: um trovão dentro de mim. Um choque de consciência. Rápido, contudo estimulante. Entretanto, obviamente, não pretendo repetir o acidente. Mas, como muitos, tiro lições disso também.

É, como a leitura ou o nado, uma hora devo acordar e voltar ao mundo. O que diz que este texto foi para mim também um mergulho.

3 comments:

nadja soares said...

U A U !!!
sem palavras pra vc, senhor adriano!!!
simplesmente incrivel.

yoda said...

Mestre Adriano,

Como gosto de seus escritos ! Como eles ecoam na minha alma e me fazem relembrar que a vida é possível, e que de verdade existiu, não é só imaginação, uma vida anterior a esta sobrevida. Estou morto porém confortável.

Por aqui faltam templos, ou estão todos profanados. A biblioteca de meu antigo colégio (primeiro grau) não existe mais. O colégio virou universidade, construiu outra, enorme, mas sem qualquer devoção ou espiritualidade. O mantra de silêncio das minhas escapadas da sala de aula (sim, por que eu odiava a sala de aula) não existe mais. O oceano dos livros, um tipo de amor que te submerge na alma e na vida das personages, fatos e autores, não existe mais. É tudo ruído, é tudo falação, como se um bar. Nada contra os bares, lá se fazem outros tipos de oração, de comunhão, de relaxamento, de paquera. Mas a biblioteca, como você bem disse, exige um espírito próprio. O amor a um livro, e ler em profundidade é quase uma relação de amor, de amizade, exige mergulho, mergulho em profundidade, onde o risco de morrer, de se perder, de nunca mais sair, de enlouquecer, de enfrentar as terríveis dores da abstinência, as dores do fim da leitura, geram sentimentos tão intensos que não te abandonam jamais. Nada mais doloroso que o fim de um livro amado, especialmente se romance, que te joga e te vive no meio como quaisquer outras personagens (te faz de lagartixa !).

Me faltam templos por aqui: o mar, a piscina, a biblioteca. Mas vão dizer. O Rio está lotado deles. E eu retruco. Todos profanados ! A praia e o mar viraram mercados, sujeira, imundice. As bibliotecas parecem bares ou caem aos pedaços. As piscinas, com raras excessões, se tornaram palco exclusivo das vaidades e esconderijo das inseguranças. Ajuntamentos de gentes preocupadas apenas com suas próprias vidas, dinheiro, prazeres fugazes, imagem, etc. Nada contra os prazeres fugazes, mas eles não são suficientes. O espírito ? Este encontra uma placa onde se lê "Proibida a entrada de espírito, alma, consciência ou amor neste recinto ! Por favor, deixe na portaria !".

Me lembro do fime " A praia". Agora que a badalação com o Leonardo de Caprio baixou posso confessar duas coisas: Primeiro, acho, apesar do Leonardo, um filem incômodo. Ele coloca em evidência exatamente o "efeito formigueiro" e a profanação do mundo pelos hábitos desenvolvidos, como um tumor maligno, pela civilização ocidental e suas franquias internacionais. Terceiro, a chefe da ilha era muito gostosa, de uma beleza germânica, dura, sofisticada ( e depois apareceu sensacionalmente como arcanjo Gabriel no péssimo filme "Constantine").

Os sentimentos que salvam a "alma" do rapaz no filme são a decepção, a melancolia e a saudade. Será então que estes nos serão os útlimos templos ? Sem bibliotecas, piscinas ou mares silenciosos, onde poderemos orar e meditar ? Será intrinsecamente proibida a meditação para o homem das periferias ? Será que esta falta é desejada, é planejada, é intencionalmente estimulada ? Até onde a falta de um mergulho torna um ser humano mais fácil de ser domado, de ser escravizado, de ser convencido a trabalhar como animal e ganhar migalhas ? Será que o sentimento oceânico é um mal para os interesses do empresariado e para os lobos de sempre ?

Quando morei em Caravelas, BA, conheci um povo altivo, de quietude, que se diluíam e viviam da floresta e do mar. Um povo livre que sequer conhecia a prostituição. O turismo, os esportistas, as empresas de celulose, a cegueira tradicional e estratégica do Ibama, a televisão, as roupas de marca, os carros de luxo, as vaidades, os grupos de axé, o "sorria, você está na Bahia", o desejo de consumo e outras tantas monstruosidades urbanas estão aos poucos corroendo um conjunto de comunidades tradicionais que vivia em certo grau de harmonia com o ambiente e consigo.

Outro dia falo mais dessas coisas,

um grande abraço,

Yoda

P.S.: O texto mexeu comigo. Me deixou perturbado meu caro Mestre.

P.S 2: Uma pequena revisão ortográfica se faz necessária. Encontrei uma ou duas incorreções banais. Não me lembro as quais agora.

Maura Cristina de Carvalho said...

Compartilho ENORMEMENTE do seu sentimento em relação à piscina e às bibliotecas. E concordo que é isso que chamam de meditação.