Friday, October 13, 2006

Exercitando o nonsense

Aviso: fique tranqüilo, leitor, este texto não será non-sense.

Quero falar um pouco de minha história com o non-sense. Meus primeiros contatos conscientes com tal fenômeno foi com cerca de uns doze anos de idade. Lembro-me bem, era um filme de comédia: Top Secret. Coisa da década de 80. Não chegava a ser um Monty Python, com sua fama e chiqueza. Porque Monty Python é uma coisa fina, respeitada. Não, filmes como Top Secret, Apertem os cintos que o piloto sumiu!, Top Gang, Corra que a policia vem , e outros mais do mesmo estilo, estavam mais para o trash movie do que a finesse e a sutileza consagrada de Monty Python.

Mas foi meu primeiro contato com o non-sense. Tudo valia. Misturar alhos com bugalhos e mostrar sempre que possível algo que não tem nada a ver: no meio da confusão em que o avião está caindo, uma mulher balançando os seios para a câmera; depois de uma série de explosões, um carro velho aparece do nada e explode muito pior ainda; ou extraterrestres, vindo do espaço, do nada, que de repente, sem o menor sentido, salvam o protagonista no momento fatal - essa é da Vida de Brian (Monty Python).

O humor era algo absurdamente valioso em minha família. Meu pai era tido como um sujeito engraçado e Cako, meu irmão mais novo, foi simplesmente o sujeito mais engraçado que eu e muita gente conheceu nessa vida. , desde muito cedo, eu também queria ser engraçado como Cako. Mas tive de desenvolver meu próprio estilo. Não bastava imitar. Ficava muito limitado e não tinha a mesma graça. E meu próprio estilo, nessa história de humor, se é que um dia ele existiu, começou a brotar com uma grande inspiração no non-sense. Achava aquilo o máximo: não ter a obrigação de fazer ninguém rir. Fazer humor de cara séria, sem sorrisos desnecessários, sem abrir os dentes para que a maldade do mundo se aproveitasse e lhe desse um soco na boca.

Comecei a entender tudo, assistindo a filmes non-sense. Melhor não ser compreendido, do que ser compreendido na falta de graça. Era não depender de ter uma cara de palhaço. Não precisar aproveitar-se de um defeito físico ou uma medida excessiva (narigudo, cabeçudo, orelhudo...). É fazer humor de cara limpa e com sobriedade. Criar tensão. Deixar algo no ar. Não completar. E claro, surpreender, sempre. É um exercício constante de descontinuidade.

Essa coisa do non-sense é tão pungente em mim que vez ou outra eu toquei, cultivei, estudei, escrevi e exercitei o negócio. Tanto no meu mestrado, sobre a experiência poética, quanto no meu doutorado, sobre a ironia, escrevi tópicos inteiros sobre o non-sense. E também quando fui supervisor de uma oficina de criatividade na universidade, estava o bichinho. Fora o fato de eu sempre ter relacionado a poesia com o humor. Sempre pensei que uma poesia, por mais séria que fosse, funcionava de modo parecido com aquilo que nos faz dar risadas. me graduei em Psicologia, e fui para a Unicamp. Entrei no IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) e me matriculei emTópicos em Análise do Discurso”. Durante a maior parte desta disciplina estudamos os operadores lingüísticos do humor. Ou seja, o que nos faz rir em uma piada.

Li tudo o que eu era capaz de ler sobre o assunto. E sempre estava a lanterna do non-sense a iluminar meu caminho. “Para fazer boa poesia não procure dizer nada. Se quiser flutuar, tente afundar. O não-sentido é o ninho gerador do sentido”. E assim eu caminhava por entre contra-sensos e não-sensos, fascinado com as dinâmicas insólitas e contraditórias do espírito e do universo.

Muito antes da oficina de criatividade, eu cultivava a comunicação e a expressão non-sense. Para mim, o non-sense é pai do humor e da poesia. Lembro-me de uma vez, com alguns colegas da Psicologia da UnB. Era uma reunião de amigos na chácara de um professor. Descemos até a piscina, e em um grupo de umas cinco pessoas, no escuro, somente sob a luz da lua, começamos a conversar e fazer movimentos corporais non-sense. Aquilo foi magnífico. Muitos deixaram inclusive que o próprio corpo fizesse movimentos non-sense. Houve alguém que correu como um jogador de futebol para o gol, narrando seu próprio jogo e, antes, parou para botar um ovo, antes de fazer o gol. Um lance típico de um Garrincha em tempos de lua e torcida admirada a engolir picolés de alegria e olhos de delírio no gozo um gol samba na alma. Naquele dia muitos de meus colegas psicólogos puderam experimentar uma forma libertadora de expressão.

Ainda antes da oficina, lembro de Diogo, com 12 anos, filho prodígio de uma amiga minha. Era clima de férias, em Pirenópolis, e ele ficou fascinado com a brincadeira. Não queria parar. Ficamos horas e horas falando non-sense. Atingimos outros níveis. Nossa consciência e percepção se alteraram. O mundo se transmutou. Nossa fala fantástica nos conduzia a outras dimensões. Não havia medo do destino de nossa expressão. É um exercício muito interessante e varia muito conforme o tempo em que nele permanecemos. O corpo começa também a participar e, quando percebemos, estamos atuando de forma completamente ridícula ou bizarra, em coreografrias absurdas e livres. Intensamente livres. E este é seu resultado: a fluência, a fluidez, o desbloqueio de energias, no corpo, na cabeça e na língua.

, depois, teve a oficina de criatividade e o tanto que eu e alunos nos deliciamos com aquilo tudo. Hoje, dois anos depois da oficina, eu estava dando aula sobre linguagem e pensamento, mais especificamente sobre a afasia. Vimos dois tipos: a Afasia de Broca e de Wernicke. Na primeira, há deficiência na capacidade sintática. Na segunda, a deficiência é nas palavras de conteúdo ou palavras-chave. Em uma, o sujeito somente fala as palavras-chave e na outra o que falta é justamente isso.

De repente, fui percebendo o quanto a poesia é uma forma de expressão cambeta. É expressar-se como se estivesse faltando algo. Ressaltar somente uma parte da linguagem e daí poder dizer o que nunca foi dito. Enfim, percebi que os haicais sofrem de afasia de Broca e que brincar de esquizofrenês (falar non-senses) tinha algo a ver com a afasia de Wernicke.

Então passei um exercício que gosto muito: escrever uma frase, cheia de sintaxe, complexa, descontínua, non-sense e infinita.

Exemplo:

“Estou agora aqui voltado para os montes claros da minha visão enluarada de sabiás para poder cantar a vida das vacas que rodearam meu sono por toda a eternidade de pastos de alegria e sabor de nuvens por entre as pernas da sabedoria divina dos amores que vivi no horizonte do ventre da rua que se abriu de sua boca para me contar um sonho de amanhã e luz em meu coração de pedra carcomido pelo véu da noite de minha lucidez...”

Ou, como pude escrever antes, em um texto chamado Pornografia:

Olhos de olhar o deserto arrumado na casa das fomes de pedir saladas de peles retorcidas nos lençóis da esperança prometida num instinto esquecido. Sonhos de escalar corpos, vidas de sodomizar vultos, sombras de falos falantes, cavidades obscuras de cheiros e harmonias de tempestivas mucosas flamejantes, cuspidoras de beijos e melodias peristálticas. Tradições ejaculatórias da divina vulva eternizada no arcabouço das ereções indubitáveis do jorrar vulcão das vermelhas entranhas que explodem por entre as pernas escancaradas da memória do primeiro dia de vida.”

, o mais interessante é ver os alunos praticando, estimulá-los. Quando conseguem se entregar, percebem que qualquer um de nós é capaz de expressar-se, de dizer o que pensa e o que não pensa, de ir além do pensamento, de poder comunicar-se de modo mais visceral, mais próximo da riqueza das metáforas e do sentimento. Produzem, com este exercício, a forma bruta da poesia, ainda em estado puro, sem lapidação, e ficam maravilhados, como se tivessem encontrado pepitas de ouro das possíveis expressões humanas. Sentem-se fluidos. Algo saiu. E desse algo, dessa lama de expressão, podemos tirar pérolas. A última vez em que fiz este tipo de exercício foi em uma aula de processos psicológicos básicos, sobre linguagem e pensamento, afasias. Foi uma boa oportunidade para aprender e nos divertir. Tivemos algumas pérolas, algumas locuções insólitas, que deixo aqui registradas:

Gaivotas enluaradas

Boi voando pro arco-íris de meus olhos

No sótão do pensamento de cabelo arrepiado

Jogo de escada

Raio da bondade

No caminho do horror

Brasa fundamental

Rádio aberta da novela da matraca sem fim *

* Esta chamou muito nossa atenção. Foi de Flávia Holanda. Aliás, uma bela definição para sogra.

E assim foram aprendizes para sempre... do caos que nos governa, e das montanhas de sorrisos que construímos em nossa aurora, para podermos às vezes voar nossa mente com os passarinhos da liberdade de expressão...

Tuesday, September 12, 2006

“Faça sinal de paz pra extraterrestre...”

O prédio da moradia da pós-graduação da UnB é um bloco bem simpático, localizado na Colina, o setor de habitações de funcionários e professores. É um local bem arborizado, pacato e agradável. Para quem vivia de bolsa de mestrado como eu, morar na Colina era um luxo completo. A casa do estudante possui acomodações muito dignas. É um bloco de três andares com um estacionamento pavimentado com brita à sua frente, de modo que é possível ouvir, por exemplo, os passos de quem chega pela frente do prédio, vindo da pista.
Eram mais ou menos duas horas da manhã. Marina (minha namorada à época) e eu estávamos na sala, quando ouvimos alguns gritos e gemidos vindos do lado de da pista, de uma escuridão sem nome, de locais ermos, sobre os quais sempre deveríamos ter cuidado redobrado se de viéssemos. Eram gemidos sofridos, agonizantes e desesperadores.
Você ouviu isso, Marina?”
Sim. Depressa, vamos abrir a janela para ver o que é!”
Nada. Ninguém.
Nossa, parecia alguém morrendo, sendo atacado.”
Ouvimos passos na brita, por detrás do prédio. Não sabíamos ao certo do que se tratava. Alguém andava a passos largos e gemia como um bicho, em direção ao prédio. Estávamos no terceiro andar e podíamos perceber que o bicho subia as escadas e estava cada vez mais próximo. De nosso apartamento, no fim do corredor, podíamos ver o início das escadas e o pátio aberto para o qual elas davam acesso. A coisa então irrompeu em nosso andar. Saiu das escadas e adentrou o pátio, de braços abertos, imitando um avião, o qual decolaria dali, do terceiro andar. Não adentrou o corredor dos apartamentos. Passou reto, continuando no pátio, era sua plataforma de decolagem. Deu a volta e finalmente estav em nosso corredor. Vinha em nossa direção, gemendo. Um avião que gemia com um bicho.
Mas não era um bicho. Era na verdade uma bicha doida, completamente descontrolada, fora de si. Era Reginaldo parindo o mundo todo de suas loucuras às duas horas da manhã para que toda a moradia ouvisse.
Marina, prepare-se. É o Reginaldo. E parece quemuito doido. Faça sinal de paz pra extraterrestre, é isso o que nos resta.”
Não sabíamos do que ele seria capaz. Estava completamente descontrolado, insano. Eu e ela ficamos estáticos, com um singelo sorriso de boas-vindas no rosto, com o braço estendido à frente e a palma da mão voltada para Reginaldo, como uma espécie de sinal de “pare”, o qual na verdade era um gesto de paz para extraterrestres que eu havia visto numa revista sobre UFOs em minha adolescência. Havia um gordinho bicha, nosso vizinho de infância, que adorava essas estórias de disco voadores. Dizia ter visto vários deles e assinava uma inútil e fascinante revista sobre o tema. Foi que eu vi este recomendado sinal, do qual nunca mais me esqueci. Sabia que um dia seria muito útil para mim em algum futuro próximo, pois nunca somos capazes de prever o dia em que faremos contato com seres de outro planeta.
Ficamos , imóveis, com um sorriso suave no rosto, tentando nos comunicar, e transmitir aquele gesto de paz para Reginaldo. Ele não tinha palavras, somente uivos. Bem diante de nós, contorcia o rosto, o corpo e uivava alto. Estava tomado por algum outro ser. Eu poucas vezes na vida havia visto alguém com as feições e expressões corporais tão distorcidas. Era um bicho grande, gordo, babando, suado e exalando álcool e bicha-louquisse por todos os poros do corpo.
Não disse coisa alguma. Fitava-nos e uivava, retorcendo-se e com o olhar doentio. Foram segundos tensos, em que o relógio para. Uivou mais um pouco, agora como quem tinha orgasmos. De repente tomou passo e entrou, cambaleando. Foi para o quarto, batendo a porta. Da sala, ouvíamos sua movimentação ruidosa dentro. Eram barulhos de quem tropeçava e topava com partes do corpo nas paredes: som oco de osso a bater no concreto.
poucos dias nós dois havíamos nos desentendido de forma muito desagradável e agressiva. Reginaldo era de convivência absurdamente difícil e sempre que podia tentava impor seus padrões e neuroses aos outros. O clima entre nós estava péssimo. Não havia notícia naquela moradia de alguém que houvesse conseguido se relacionar bem com Reginaldo. Eu não estava entendendo nada. Sentia-me como em um presídio. Com Reginaldo os espaços ficavam muito reduzidos, pois ele ocupava todos os possíveis. Conviver com ele era muito opressivo. Para se ter uma idéia, tive várias vezes o ímpeto inconcluso de quebrar-lhe uma cadeira na cabeça e mandá-lo para o pronto-socorro. Era meio psicopata e despertava em nós impulsos violentos de auto-proteção. Nunca esse tipo de ato havia passado pela minha cabeça. Mas com Reginaldo isto era normal.
Edinho, nosso famoso Edinho Miranda Di Caprio, o goiano baixinho e barrigudo que era uma comédia absurda de ingenuidade, disse que havia dormido várias vezes com uma faca debaixo do colchão, na época em que dividia quarto com Reginaldo, e ninguém entendia. Agora que eu também dividia quarto com a louca, sabia do que ele estava falando.
Depois de tropeçar em tudo e bater muita cabeça dentro do quarto, saiu para a sala. Parou diante de mim e Marina:
Eu queria que vocês soubessem de uma coisa. Eu gosto muito de vocês dois. Nós nos desentendemos ontem, Adriano. Não importa o que tenha acontecido. Quero que fique claro que gosto e respeito muito você e Marina.”
Mas aquilo não combinava com seu olhar. Tinha uma expressão profundamente doente.
Foi para o banheiro. Bateu mais cabeça por alguns minutos e voltou, completamente nu. Carregava a calça nas mãos. Antes de adentrar o quarto, fez um aceno de cabeça, em uma espécie de boa noite.
Naquela noite não tive dúvidas. Dormi com uma faca debaixo de meu colchão.