Friday, May 05, 2023

Acalme-se...

Um de nossos pacientes do CAPS sempre alegra os grupos dos quais participa. Porque é muito espirituoso e realmente engraçado. Sabe que é engraçado e sempre inventa histórias divertidas ou até bizarras. Os outros pacientes dão risadas, se soltam, relaxam. Ficam todos mais leves e ele fica nitidamente feliz em saber que ajudou na descontração geral.

Tem pouco mais de 40 anos de idade e apresenta déficit cognitivo. Não sabe lidar com dinheiro ou números, quando esses passam de 10 unidades ou algo próximo. Mas sabe falar em milhões ou bilhões quando conta suas histórias.

Tem passe-livre e vai, sozinho, para tudo o que é canto do Distrito Federal. Cumprimenta e conversa com todas as pessoas com as quais cruza pelas ruas. 

Para seu nível de instrução, tem excelente oratória e retórica. Sua fala é envolvente e ele geralmente se apresenta com outro nome (que não o próprio) como se fosse político ou alguma pessoa poderosa. Diz que é advogado, logo em seguida se apresenta como médico, que tem 74 anos de idade, casos amorosos com suas secretárias e uma história de vida repleta de grandes projetos, aventuras amorosas e também as desventuras de um grande homem.

- Hoje em dias as pessoas estão muito estressadas, se aborrecendo com pouca coisa, e querendo partir para a briga por qualquer motivo! – dizia, como sempre, com vigor, como se estivesse na tribuna de uma câmara legislativa.

- Eu estava no trânsito e quase fui atropela por um rapaz que dirigia uma caminhonete enorme! Freou bem em cima de mim e saiu de seu veículo esbravejando. Era um sujeito enorme. Tinha uns 2 metros de altura. E eu, por sorte, consegui acalmá-lo.

- O que você fez para acalmá-lo? – indaguei.

- Eu lhe disse: “Acalme-se, meu senhor. E dance um bambolê!”.

O tom desse comando para que o sujeito de 2 metros de altura se acalmasse era firme, porém bem suave.

- E ele se acalmou?

- Sim, e começou a dançar com o bambolê. E assim sua expressão foi se alterando ao ponto de ficar bem tranquilo, relaxado e sorrindo plenamente. Desde o momento em que ele esbravejou comigo, juntou uma multidão. Mas, conforme ele foi se acalmando e, por fim, sorriu, plenamente, a multidão se emocionou. Choraram de emoção.

Não cheguei a chorar de emoção, mas essa história memorável ajudou a alegrar meu dia. 

E acho que preciso urgentemente providenciar alguns bambolês, para estarem sempre comigo, onde quer que eu esteja. Porque basta um bambolê na mão e cinco palavrinhas mágicas: “Acalme-se... E dance um bambolê!”. 


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