Thursday, February 24, 2011

A vingança é a melhor forma de perdão?


Em nossa cultura cristã a pressão para o perdão é grande. Não faltam mensagens na internet e no senso comum a estimular tal atitude. Mesmo supondo que devemos perdoar, que isso seja de algum modo benéfico, ainda fica a questão: como perdoar? O que podemos fazer para tornar isso possível. Pois não basta somente ordenarmos: “perdoe e será bom pra você”; “quem perdoa é mais feliz, não fica engolindo veneno”. Não basta ordenar, pedir. O perdão tem, se for o caso, de ser construído. Deve haver condições concretas que o sustentem. E perdão se constrói com compensações.
Uma das formas mais rápidas e eficazes para se perdoar é a vingança. Você se vinga e dois minutos depois já está perdoado. A vingança é um prato que se come frio e com muita pimenta mexicana. Há contudo um problema: a vingança, se produzir a compensação desejada, pode gerar o perdão, mas pode também gerar culpa. É uma forma destrutiva e beligerante na direção do apaziguamento do ódio. Você se vinga, tira o peso do ódio do lombo, talvez perdoe, mas no final são somente os mortos, as ruínas e as cinzas a construir o cenário desse desfecho.
E como construir o perdão de modo mais pacífico? Simples: basta fazer com que o outro se sinta culpado, reconhecendo seu erro, em pedidos explícitos de perdão. E de onde vem esta compensação? De perceber que o outro agora também sofre (de culpa). Sofre como a quem fez outrora sofrer (olha a vingança aí, de novo – será que conseguimos escapar dela?). Um sofrimento um pouco diferente daquele de sua vítima. Mas é muito doloroso também. A culpa pega nosso amor próprio e o esmigalha. Faz com que tenhamos, também, assim como nossa vítima, ódio, ódio de nós mesmos.
Quem não sente culpa, quem não sofre de culpa, quem não está verdadeiramente se odiando, não merece perdão. Ou, por outro lado, quem não reconhece que errou e tenta reparar o erro cometido, com alguma forma de compensação, não merece perdão.
Somos tão capazes de perdoar que só o fazemos quando o fato em questão não é relevante, quando o tempo já consumiu toda a memória, quando o outro repôs exatamente tudo o que se perdeu, ou quando temos a clara percepção de que nosso algoz agora está se odiando profundamente pelo mal que causou a si mesmo devido ao mal que nos fez.

1 comment:

Rita Ribeiro said...

Eu só vejo que o perdão verdadeiro é possível, quando o mal feito foi esquecido. Algumas pessoas dizem: Eu perdoo, mas não esqueço..." Essas, eu acho, continuam sofrendo e não perdoaram nada. Na primeira oportunidade desfilarão todo eu rancor.

;)