Wednesday, October 14, 2009

“É psicológico”?

A causalidade e seus dilemas. A expressão “é psicológico”, “é emocional” ou “é psicossomático” está na boca do povo. Médicos costumam utilizá-la com frequência. É fato comum: você vai ao médico e ele pede uma série de exames. Não conseguindo encontrar evidências fisiológicas ou orgânicas relacionadas aos males que você apresenta, não hesita, solta logo seu veredicto sagrado: “seu problema é de origem psicológica”.
Alguns encaminham o paciente para um psiquiatra. Outros recomendam psicoterapia. E esses pacientes aparecem em nossos consultórios. E, não muito raro, têm expectativas médicas e até mecânicas em relação à solução de seus problemas. Geralmente esperam que a solução virá de um conserto aqui e outro ali, ou de um medicamento que logo apagará tudo o que lhe tem feito padecer. Pode-se dizer que, nesses casos, muitas vezes o médico passa a batata quente para as mãos do psicólogo. Pois o paciente chega até nós bastante ansioso em relação à solução imediata de problemas que nem mesmo se tem certeza sobre sua possível causalidade.
Dizer ao paciente que é psicológico possui talvez alguns sentidos que seria interessante tratar aqui. O que um médico está fazendo quando enuncia isso a seu paciente? Está de fato apontando a causa dos problemas desse paciente e lhe indicando o melhor caminho ou tratamento a ser seguido?
Na minha concepção não está apontando causa nenhuma. O enunciado “é psicológico” é muito vago para poder ser considerado científico. Se tivéssemos que tornar esta comunicação mais precisa, seria mais interessante comunicar ao paciente que ele deveria procurar profissionais de outras áreas, psiquiatras e psicólogos, por exemplo, para continuar a investigação das possíveis causas de seu problema de saúde.
Não deixo de me lembrar de algumas considerações acerca desse tipo de interações com médicos. Em um determinado episódio da série de televisão “House, M.D.”, o protagonista diz mais ou menos assim: “Quando um médico diz que seu problema é psicológico é porque ele é burro e não descobriu as causas”. Apesar de ofensiva, esta fala chama a atenção para um fato: o que muitos médicos estão fazendo quando emitem esse enunciado tão genérico a seus pacientes? Estão, muitos deles, tentando esconder de seu paciente sua incapacidade ou limites para saber o que está acontecendo? Não são capazes de dizer: “sinto muito, mas não sei o que você tem”? Por que tudo, no meio médico, tem de terminar com uma espécie de veredicto, com um diagnóstico categórico?
Outra passagem da qual me recordo é de Susan Sontag, em seu livro “A doença como metáfora”. Ela diz que se ouvir de seu médico que seu problema é psicológico, se isto ocorrer, peça seu dinheiro de volta.
E há como ter esta segurança toda, enunciando que o problema é “psicológico”? Tem como simplesmente transferir o problema para psicólogos e psiquiatras? Penso que não é tão simples assim. Alguns médicos, nessas situações, estão mais tentando se livrar do problema e de assumir seus limites do que trabalhando para de fato tentar descobrir o que está acontecendo. Assumir seus limites e deixar claro que estão compartilhando a investigação com outros profissionais talvez seja uma devolutiva mais profissional.
Neste mesmo livro, Sontag deixa claro os equívocos históricos que já ocorreram em função dessa atribuição espúria de causalidade. Os exemplos mais notórios são a tuberculose e as úlceras estomacais, sendo que o segundo exemplo é bem recente – só para não nos esquecermos desse tipo de equívoco. No caso da tuberculose, antes da descoberta de sua verdadeira causa, a bacterial, eram atribuídas a ela, também, causas psicológicas. No caso das úlceras estomacais, é bem mais fácil de se compreender o cenário, pois o papel etiológico significativo de um agente microbiano (a Helicobacter pylori) rendeu até mesmo um Prêmio Nobel de Medicina em 2005.
Ou seja, há evidências, na história, da repetição do misticismo de que esta ou aquela doença é “psicológica”. É muito mais fácil atribuir uma causalidade vaga do que investigar de fato o que pode estar acontecendo, com abertura para todas as possibilidades factíveis.
Não estou também, por outro lado, querendo apagar os componentes comportamentais ou interacionais de nossa saúde. Se há a possibilidade desses componentes estarem exercendo sua influência de modo mais determinante, eles devem ser investigados com mais precisão. Há um argumento de Skinner que talvez ajude a compreender essa questão da causalidade. Em seu livro “Ciência e comportamento humano”, mais especificamente no capítulo 3, ele defende que toda causa é sempre externa e que a atribuição de causas internas a nossos comportamentos não teria qualquer função explicativa.
Se um sujeito, por exemplo, está bebendo água com uma frequência alta e perguntarmos o por quê desse comportamento, geralmente teremos a seguinte resposta: bebe água porque está com sede. E assim acabamos ficando reféns de uma explicação circular: bebe água porque tem sede, logo tem sede porque bebe água. E isso não nos leva a lugar algum, a qualquer possibilidade concreta ou precisa de resolução do problema. Se, por outro lado, pensarmos em possíveis causas concretas, teremos algo mais palpável, mais razoável como hipóteses. O sujeito bebe muita água pois pode estar com uma dieta muito salgada; pode estar transpirando bastante, devido a altas temperaturas; pode estar com alguma disfunção orgânica, tal como diabetes, por exemplo. Enfim, essas são hipóteses mais precisas e menos vagas. E isto é investigar, de fato.
Quando alguém diz que é “psicológico”, podemos logo então perguntar: psicológico como, de que maneira? O que este sujeito faz para que assim o seja? Qual é precisamente sua participação? Que tipos de interações ou comportamentos, especificamente, podem ser determinantes?
E até que ponto dizer que é psicológico também pode piorar a situação, em vez de ajudar? Sim, pode haver casos em que a pessoa, ao ouvir um enunciado vago desses, venha a se sentir culpada por coisas que nem mesmo lhe dizem respeito. Para tornar isso mais claro, vamos a um exemplo bem prático. Uma conhecida minha padeceu durante meses de coceiras nas costas. Foi de médico em médico, fez diversos exames, e ouvia sempre o quê? “Isso é psicológico...”. Um belo dia, ela teve uma idéia muito simples: trocaria de marca de sabonete. Assim o fez e as coceiras desapareceram, por completo. E aí me pergunto: onde esses médicos vão colocar essa conversa banal e reducionista de que “é psicológico” depois de uma dessas?
E vamos supor que ela começasse a se sentir responsável por seus sintomas de um modo bastante difuso e comum: “ah, tenho coceiras nas costas, pois sou uma pessoa que carrega rancores, que não sabe perdoar, de ruindade mesmo...”. Enfim, com todo um desfile de superstições modernas, psicologizantes. Sim, pois todo o desespero em atribuir sentidos ou causas, gerando equívocos, é superstição.
É mais fácil nomear logo, encontrar uma pseudocausa para nossos problemas do que a investigação e ponderação razoável sobre o que de fato pode estar acontecendo. E assim também talvez não seja muito difícil desembocarmos em lugares comuns os quais afirmam uma série de outras besteiras atuais, tais como a força do pensamento positivo, por exemplo. Tudo pode, dessa maneira, terminar em algumas idéias pobres e comuns de que tudo depende de nossas crenças, do poder de nossa mente para mudar o que se encontra em nossa volta e por aí vai. Ou seja, se é psicológico, a responsabilidade é inteiramente sua. Logo, além de doente, você ainda terá motivos, obtusos, de sobra, para se sentir também culpado. Um fardo e uma ilusão a mais, e muita investigação a menos.

8 comments:

Alessandro said...

Mas se sentir culpado é um evento constante hoje em dia. A culpa vem dos produtos que você consome e que gera lixo, muitas vezes descartado de maneira incorreta. A culpa vem dos alimentos que você ingere que tem agrotóxicos, gorduras açúcares, carboidratos e substâncias cancerígenas, sem contar a criação e matança de bovinos, que precisam de pasto em lugar de florestas e que produzem aumento do efeito estufa com seus gases. Quando um médico diz que seu problema é psicológico, só está alinhado com uma era em que tomar sol gera câncer, a água pode conter coliformes e o amor tem que ser com camisinha.
E quanto ao tal "ato médico"? Seria este o mecanismo que ratificaria a autoridade dos médicos a encaminharem pacientes ao tratamento psicológico, ao mesmo tempo que seria o fiel da balança para encaminhamentos posteriores feitos por psicólogos? O conhecimento humano não abrange assim a gama de questões que podem surgir via nosso comportamento, bem como não pode determinar a causa de uma desordem simplesmente afirmado que se trata de um fenômeno psicológico.
Mas a culpa generalizada permanece. Mas parece que esta não atinge a classe médica, que não se envergonha em vaticinar encaminhamentos, mesmo sem saber o que estão fazendo.
Mais uma vez, parabéns pelo texto, Dr. Frank!

paula said...

adoro tudo que vc escreve......

André Lemos said...

"É psicologico"? Questiona o psicólogo. De que medicina estamos tratando? A ortodoxa? Ainda perdura uma visão dicotomista?
Os proprios psicólogos se utilizam dizem "Isso é psicologico". Como assim, então não existe um problema? É coisa da cabeça? Realmente, alguns clientes procuram nos psicólogos as mesmas respostas dos medicamentos. O psicologo não deve competir com o psiquiatra, terapia é cara e pode demorar anos, o remédio tem eficacia comprovada e elimina sintomas em instantes. Porque se tornou necessario o surgimento da psicólogia? Como você bem apresenta caro Adriano, "existem outros olhares" e as profissões não respondem a todas as questões que envolvem o ser humano. Um médico possui limites para a sua atuação, assim como o psicólogo o fisioterapeuta e etc.Precisamos unir esse conhecimentos, permitir um olhar holistico, tomando como paradigma a inter-relação corpo e mente. Ainda há uma discussão o corpo influência a mente ou a mente influência o corpo. Penso que estão inter-relacionadas e um olhar causal seria limitado.

Mário said...

Parabéns Adriano, mais uma vez conseguiste abordar inteligentemente uma matéria lacônica, satisfazendo a curiosidade dos leitores. De certo modo todas as pessoas tendem a dar respostas prolixas, quando desconhecem ou não querem realmente saber do que se trata, afinal de contas é muito mais fácil “enrolar” do que explicar. O fato é que ½ das pessoas não possuem conhecimento/cultura suficientes para esclarecer a matéria questionada e a outra ½ não está nenhum pouco interessada em saber. Impera a desinformação, ineficiência educacional e a má vontade, se por um lado temos o despreparo sócio educativo do outro prepondera a precariedade junto à falta de investimentos aliada a péssima gestão pública. Num país onde os sistemas de serviços públicos básicos estão falidos (saúde, educação e segurança). Pessoas de melhor poder aquisitivo, recorrem a outros profissionais, para ouvirem respostas falaciosas. E o que é pior: ouvem sem questionar a realidade dos fatos. “É o fim do mundo!”

Olavo Carvalho said...

É, realmente é muito comum se ouvir esta fala "É psicológico", e esta fala vinda de um médico significa única e exclusivamente "Eu não sei o que está acontencedo". E é bom que se diga que um médico não poderia dizer esta frase simplismente porque não possui treinamento nem conhecimento para fazer este julgamento, e assim, faz uma afirmação que não faz nem idéia do que significa. Portanto faça como a autora citada disse, peça seu dinheiro de volta e procure uma segunda opinião.

Mas isso levanta outra discussão mais importante, e que fica como sugestão pra vc abordar, Adriano.... O que não é Psicológico?

Abraço.

ADRIANO FACIOLI said...

Ótimo, Olavo.
Sua pergunta final demonstra o quanto é fundamental a análise conceitual do termo “psicológico”. Temos então de definir o que estamos chamando de “psicológico”, o que o senso comum está assim denominando e inclusive os médicos. Pena que estou sem muito tempo disponível para continuar a discorrer aqui sobre o tema. Mas não tenho dúvidas de que há muito ainda o que se debater. Obrigado por seus comentários.
Um abraço

Anonymous said...

Pois é...
Difícil é carregar a culpa por uma doença que o médico diz ser psicológica. E mais difícil ainda é quando vários deles repetem esse mesmo discurso (imponentes, em seus jalecos brancos) e você começa acreditar nisso. O triste é perceber que a maioria deles prefere o bordão “é psicológico” ao invés de pesquisar detalhadamente os fatos. Patético é pagar por uma consulta e ouvir o médico dizer “pense positivamente que tudo vai melhorar”. Somos sentenciados como incapazes de gerir nossos próprios sentimentos... E a quem iremos recorrer?!? Talvez eles respondam: "o chapolin colorado".

Anonymous said...

Adorei o texto, pois muitas vezes tive que ouvir que um problema que eu tinha era "psicológico"! Dava vontade de mandá-lo à merda!