Monday, November 26, 2007

Cuidado com seus desejos...


Há duas
catástrofes na existência: a primeira é quando
nossos desejos não são satisfeitos; a segunda é quando são.
George Bernard Shaw
Boa parte de nossos dramas existenciais e da conquista do bem-estar psicológico podem ser relacionados ao modo como lidamos com nossos desejos. Há quem pregue a completa renúncia ao desejo. Afirmam que nele estaria a fonte da infelicidade. Neste caso, em tese, desejamos aquilo que não possuímos. Logo, ao obter o que desejávamos, não o queremos mais. O que nos incluiria em um ciclo de perpétua geração da insatisfação. Esta existe se há desejo. Se há insatisfação, infelicidade, elas geralmente existem porque algum desejo não foi satisfeito.
A felicidade, ou a alegria, seu representante elementar, são frutos da realização de desejo. Se alguém está alegre ou feliz é porque algum desejo foi ou está sendo satisfeito. Portanto, neste contexto de argumentação, a afirmação de que a renúncia ao desejo seria um caminho para a felicidade é insustentável. Na verdade, o foco deve ser mantido no modo como desejamos. Não se trata, em termos absolutos, de haver desejo ou não. Pois o desejo é o motor. É ele, de certo modo, quem nos mantém vivos. Sem desejo nãoação.
Segundo Luc Ferry (2007), a sabedoria antiga, por meio da escola estóica, nos ensina muito acerca da temperança e da resignação: desejar somente aquilo dependa diretamente de nós; jamais despender energia e esforços para com o que é improvável; e, no eixo do tempo, não lamentar passado nem esperar nada do futuro. Ao invés de esperar, agir, e no agora. Há um foco na ação e no presente. Os estóicos concebem a esperança e a nostalgia como verdadeiros atrasos de vida. Devem ser expurgados de nossa existência. “Não chorar o leite derramado”; “não criar expectativas demais”; “não viver em função de passado nem de futuro”: é mais ou menos nestes termos que estas questões são expressas pelo senso-comum.
Da minha leitura de autores que escreveram sobre o desejo, fica uma formulação, um valor que procuro também adotar para minha própria vida. Tento sintetizar, da forma mais simples possível (ou até simplóriatalvez seja o caso), um imperativo moral no seguinte enunciado:
Desejar mais o que se tem e menos o que ainda não se não tem”
A primeira é a classe dos desejos imediatamente possíveis. E a segunda é a classe dos desejos prováveis. Colocados na balança de nossa vida, é mais prudente que existam, em maior peso e número, os imediatamente possíveis. Esta classe diz respeito a tudo aquilo que desejamos e que pode ser imediatamente realizado. É desejar o que se tem. É desfrutar de tudo aquilo que possuímos. É dar valor ao que temos. Eis a gratidão, como uma virtude, e sua importância.
Os jargões popularesvalor quando perde” e “nãovalor ao que tem” traduzem de certa forma o erro: desejar somente o que não possuímos, deixando de lado toda uma vida possível e palpável, a qual poderia ter sido desfrutada e não foi. Sinto da seguinte maneira: não é necessário abandonar nossos sonhos. Mas é muito pouco saudável viver somente em função deles, sacrificar nossas possibilidades de fruição e prazer imediatos em prol de castelos no ar.
E o que seria desejar o que se possui? Muito simples. É desejar o que é imediatamente possível. Por exemplo: desejo chegar hoje em casa e tomar um bom e relaxante banho; desejo comer lasanha no almoço; desejo, após o almoço, tirar uma boa soneca; desejo agora estar aqui, escrevendo este artigo, e estou. Nada disso é simplesmente provável. São eventos que estão imediatamente ao meu alcance. E não dependem predominantemente de terceiros ou da sorte. Lembro de Sartre dizendo coisa parecida: se depende dos outros ou da sorte, então desista e vá dedicar sua energia a algo mais útil.
É a tristeza do torcedor, do , dos idólotras como um todo. É remoer-se por algo que não depende de nossos próprios esforços. É colocar todas as fichas de nossas apostas vitais em algo que está fora de nós mesmos. É abrir mão de nossas responsabilidades e de tudo o que podemos fazer por nós próprios, na esperança inútil (sempre inútil, segundo alguns autores) de que algo decisivo aconteça, de que alguma graça caia do céu.
Há, porém, distinções e sutilezas existentes entre os conceitos de desejo, vontade, e esperança, por exemplo, que devem ser realizadas. Segundo Comte-Sponville, em seu belo ensaio “A felicidade, desesperadamente” (2005, p. 60), pode-se desejar o que depende de nós (vontade) e o que não depende de nós (esperança). Diz que toda esperança é um desejo, mas que nem todo desejo é uma esperança. Pois é possível desejar o que possuímos, o que é imediatamente possível. E isto seria o que ele chama de “felicidade em ato”. Mais bem-estar significa mais felicidade em ato e menos felicidade em potência no balanço de nossa vida.
Seria tirar a vida do condicional, do “como eu seria feliz se isso ou se aquilo”. É fazer o que se tem vontade, o que se gosta, aqui e agora. O que se pode fazer e não o que se poderia fazer. Tirar proveito, prazer, de tudo o que temos, por mais simples que seja. Uma sabedoria da simplicidade, dos pequenos prazeres da vida, muitas vezes.
Comte-Sponville defende que a conquista da felicidade deve se dar por meio de umalegre desespero”. E o sentido da palavra desespero, neste caso, remete à ausência de esperança, a qual ele, e boa parte da história da filosofia, repudiam. Neste sentido, ter esperança, esperar, (ou seja, desejar o que não depende de nós mesmos) é desejar sem gozar, sem poder e sem saber. Sem gozar, pois não usufruímos do que desejamos. Sem poder, pois não possuímos o que desejamos e nem somos capazes para tal. E sem saber, pois nosso desejo é somente uma aposta à derivar pelo oceano do acaso, na crença de uma fortuna remota.
A esperança - ao contrário da vontade, a qual está centrada na ação e em objetivos mais concretos e imediatamente possíveis - é um desejo miserável. Não consigo deixar de ver relação com o ditosonhar alto”, o qual não vejo com bons olhos. Logo sinto o cheiro de megalomanias, adolescência ou o mercado da venda do sucesso no ar. Não creio que sonhar alto seja condição para realizar o que quer que seja. E em muitos casos, como nas manias, o preço do sonhar alto é a negação da realidade mais imediata e concreta. Há desprezo pelos passos mais próximos, pela humildade de saber se colocar na realidade, e um desespero (no sentido de aflição) em pular etapas. Como se pudéssemos viajar sem percorrer qualquer caminho.
Tive um paciente acometido por megalomanias. O que mais fazia era sonhar alto. E quanto maior o sonho, maior o tombo, se este não for realizado. Maior a frustração. E quanto maior for esta, mais sólida terá de ser a estrutura do sujeito para o fracasso, para a perda, pois maior é o luto a ser elaborado. E é justamente o que não costuma ocorrer com quem sonha alto demais, com os megalômanos. Eles sonham alto para se esconder, para fugir do peso da realidade. E ficam presos a um ciclo vicioso. Seus castelos no ar se desmancham e caem no fundo do poço da frustração. E voltam a sonhar alto, porque é isso, no seu modo de funcionamento, o que lhes resta.
Desejando avidamente tudo o que não possuem, tudo o que está distante, tropeçam no passo mais próximo. Aliás, a avidez, o excesso de energia que concentramos em um único ponto de nossos desejos, é também geralmente nefasta. Jargão popular: “não ir com muita sede ao pote”. Em muitos casos uma atitude mais desprendida e desapegada do objeto de desejo é mais salutar.
Porque a avidez é irmã de uma ansiedade contraproducente, a qual atropela ou violenta o objeto de desejo, em vez de conquistá-lo. Bota o carro na frente dos bois. É mãe de uma impetuosidade viciosa. É a voracidade que não saboreia, o desejo intenso que é inimigo da espontaneidade, pois é mistificação excessiva, tornar fetiche o que não se possui. É desejar possuir antes de conhecer. O ter antes do saber. E talvez uma desesperada paixão pelo êxito.
Então, retomando o título do artigo: “Cuidado com seus desejos. Você pode realizá-los.” Este é o dito popular em sua forma completa. Porém, pode haver diferentes apropriações do mesmo. Pode-se compreendê-lo pelo viés da capacidade, do sucesso, ou mesmo da decepção. O primeiro sentido seria: você é capaz de realizá-los. Ou: a possibilidade de realização é maior do que você imagina. Acaba atuando como uma formapoética” de estimular o desejo, o sonho, ou a aposta.
E na verdade é isso o que o mercado do sucesso, da auto-ajuda, em boa medida, faz: cria legião de apostadores. Vive de vender apostas. De estimular o comportamento viciante de jogo, de aposta. “É necessário desejar (pois assim o “universo conspira a favor”), sonhar, acreditar, ter , esperança, pensar positivo”.
O segundo sentido refere-se à possibilidade de realização, mas levando-se em conta também a possibilidade da decepção. E este seria o segundo tipo de catástrofe que pode acometer a existência: quando nossos desejos são satisfeitos. E é para o que chama atenção a frase de Bernard Shaw.
Muitas vezes, devido a avidez ou ambição excessivas, criamos tantas expectativas em relação à realização de determinados desejos, que nos esquecemos de todo o restante da vida. Passamos a habitar as nuvens e assim deixamos de viver. E nos esquecemos também que frustrações e decepções não são somente frutos do fracasso. Elas podem surgir da simples percepção de que nossos objetos de desejos não são tão fabulosos quanto nossa sede os fazia parecer. Porque a idolatria quase sempre desemboca na decepção. O olhar faminto adultera e diviniza o objeto da fome. Assim, o desejo, o sonho, é traduzido em necessidade vital (com o perdão do pleonasmo).
É este mesmo o mecanismo: transformar o sonho em algo vital; e a probabilidade em certeza. O sonho realizado ou a morte. E assim muitos sonhadores deixam de viver, para viver sonhando.
Referências
Comte-Sponville, A. (2004). Dicionário Filosófico. São Paulo: Martins Fontes.
_______________ (2005). A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins Fontes.
Ferry, L. (2007). Aprender a viver. São Paulo: Objetiva.

3 comments:

Pá Mariano said...

Dri, querido...
Muito bom o texto, como sempre!
Saudades,

Bob said...

Adriano.

Parabéns pelo seu texto.
Fruto de não sei qual desejo.
Mas,
com certeza um desejo que foi acolhido,
escutado e,
talvez,
intuio eu,
sublimado...

Sempre digo aos meus alunos, reconhecer seus desejos não é a mesma coisa que realizá-los.
A psicanálise não faz apologia de passagem ao ato. Mas de "tornar consciente o inconsciente", de reconhecer seus desejos e cuidar deles. Dar-lhes um destino possível, dentre eles, o da realização, por que não?
Parabenizá-lo por seu texto é pouco, desejo dizer que fico feliz por ele.
Seu texto atendeu, minimamente, meu desejo de encontrar algo de bom na net.
Sigo em frente, buscando o que? Não sei...
Um forte abraço,
Bob.

Anonymous said...

Oi Adriano,
Que texto... hein?!
Encontrei seu texto através do site Rede Psi, daí fui até seu blog e não consegui parar de ler os textos que estavama lá: MUUUUito Bons!!!
Parabéns!!
Ana Gois (annagois@hotmail.com)