Saturday, February 18, 2012

O suicídio como um baobá.



 A vivência muito recente de todo o contexto do trágico suicídio de um amigo, o fato de já ter tido essa experiência bem perto de mim, em minha família, assim como o que observo e tenho estudado em minha prática profissional, têm produzido em mim uma avalanche de sensações e sentimentos, com suas imagens e simbolismos decorrentes. Deste modo, criei, por ora, quatro metáforas para o suicídio (baobá, onda, sol negro e ferida no mundo), as quais têm me parecido fecundas para a minha abordagem inicial de tal questão.

O suicídio é um baobá. Quando ocorre, já estava plantado há muito tempo. Só nos damos conta de seu tamanho, de sua imensidão, quando ele acontece. Mas suas raízes são profundas, e ele vinha sendo cultivado há muitos anos. Esse tipo de suicídio é o mais difícil de ser prevenido. Como prevenir algo que já faz parte da identidade, da constituição de determinada pessoa?

Muitos suicidas constroem anos a fio sua própria morte em impulsos e pensamentos constantes de como irão dar cabo de suas vidas. Acompanhei pessoas que forneciam sinais claros de que um dia se matariam, muitos anos antes de cometerem tal ato. Lembro muito bem de meu irmão mais velho, Edu, aos 18 anos, dizendo que a vida muitas vezes não valia a pena, pois era muito injusta e repleta de sofrimento, com minha mãe se opondo a ele:

“Acho um egoísmo tremendo o sujeito se matar, e não pensar no sofrimento de quem fica”, dizia ela.

“Egoísmo é o outro achar que é dono da vida de quem tá se matando. A vida é de quem, afinal?”, rebatia ele.

Esse diálogo ocorreu em 1988, 10 anos antes de Edu resolver por um fim em tudo.

Cinco anos antes de sua morte, em 1993, ele também teria dito a alguns amigos, às margens do lago da USP, em Ribeirão Preto, que ali era “um belo lugar para se morrer”. E sua morte foi exatamente ali, cinco anos depois, em 1998.

Algumas vezes também me lembro dele comentar jocosamente sobre algumas ameaças de suicídio, as quais ele parecia desqualificar:

“Quer se matar mesmo? Então se enforca com um cabo de aço com gracha. Porque aí não tem volta não”. Dizia isso em tom de gozação, de deboche, como alguém que desacreditava da maior parte das pessoas que ameaçavam se matar para controlar as outras. E ele nunca ameaçou que se mataria. Apesar de eu ter carregado, durante 10 anos, o temor extremamente desagradável de que ele viesse um dia a fazer isso, a surpresa devastadora do ocorrido também não me poupou. Apesar de termos conversado claramente sobre isso, cinco anos antes, também não fui poupado da surpresa de ter de lidar com esse tipo de infortúnio:

“Edu, vamos ser claros, o suicida aqui é você e não eu...”, disse a ele, cinco anos antes, em uma conversa em que ele estava preocupado com a possibilidade de eu ser um suicida. Eu tinha 21 e ele 23 anos de idade.

“E isso te incomoda, te preocupa muito?”, perguntou ele.

“Sim, é muito angustiante, Edu. É muito, muito desagradável ficar imaginando que eu posso um dia chegar em casa e encontrar você pendurado, cara”.

A conversa continuou e ele tentou consertar, tentou mostrar que levaria minha angústia a sério. Demonstrou empatia e percebeu que a situação toda era dolorosa para mim. E pensei comigo mesmo que aquela conversa tinha algum poder, que a preocupação dele comigo fosse talvez suficiente. Mas não foi não. O baobá só deixou de ser regado naquele ou naqueles dias. Já estava grande, muito grande, e eu não tinha a menor ideia de sua imensidão na vida de meu irmão.

E ele, de certo modo, antecipou onde e como morreria. Era somente uma questão de tempo, pois vinha plantando e cultivando isso há vários anos.

“O suicídio é uma plantinha. Não plante não. Se já foi plantando, não cultive, não regue. Uma plantinha que vai crescendo, e se transforma em um baobá. Depois pode ser bem difícil de remover de sua vida”, eu costumava dizer, desde sua morte.

Era somente uma questão de tempo. Ele deixou isso claro, que já estava bem perto de morrer, em uma carta que não enviou para mim, aqui em Brasília. Deixou-a guardada por 9 meses em uma gaveta de seu guarda-roupas. Depois dessa carta sua morte foi gestada solitariamente por mais 9 meses. Pariu seu fim de tudo, pendurado por uma corda, amarrada em seu pescoço, presa ao galho de uma árvore, às margens do lago da USP, em Ribeirão Preto.

Deixou uma carta para mim e outra para meus pais e meu irmão. E por que uma carta somente para mim? Por quê? A única coisa que sei dizer é que ele se preocupava muito comigo, já em vida, como o carinhoso irmão mais velho que era, e com o quanto eu poderia sofrer com seu suicídio.

Deixou muitos escritos em sua gaveta, os quais eram guardados para que ninguém ali mexesse, para que sua privacidade fosse sempre muito bem respeitada. Respeitávamos e sabemos muito bem o preço disso. Vários desses escritos se encaixam e formam parte de um quadro mais completo acerca de seus motivos e sua história, a qual teve seu fim por suas próprias mãos.

Nunca deixo de pensar e imaginar como foi seu último dia. Morava com alguns amigos, bem perto da USP. Em um escrito, poucos meses antes, dizia que havia pegado sua bicicleta, de noite, pelas avenidas desertas, e corrido como nunca para que seu coração estourasse de tanto bater. Sua carta para mim, nove meses antes, não postada, engavetada, começava mais ou menos assim:

“É, meu irmão, tenho conversado muito com a morte. Ela me sussurra aos ouvidos e me puxa pelos pés...”.

E em seu último dia ele pegou sua bicicleta e foi pedalando para a USP. Em sua mochila havia seus documentos, uma pequena agenda e um par de algemas. Deduzimos que na falta de coragem, ele se algemaria, para não haver mesmo retorno. Não sei de mais nada. Se ele foi chorando, se estava sereno. Se já havia ido outras vezes até o local. Se ficou ali por horas a criar coragem. Se aproveitou para apreciar a paisagem em uma despedida absurda e solitária. Ou se houve desespero até o último instante.

No caso dele ainda pudemos ficar com cartas de despedida, com justificativas, com pedidos de desculpas:

“Minha mãe, você não tem culpa nenhuma nisso...”; “Eu sei que um véu negro de dor cobrirá a todos vocês, mas não estou mais dando conta de meu sofrimento”; “Não é culpa de ninguém”; eram mais ou menos essas suas palavras, as quais estão agora longe de minhas mãos, em outro estado do Brasil, mas não tão longe de minha lembrança.

Casos como o de meu irmão, de longa gestação, em que o suicídio foi pensado e planejado por inúmeras vezes, anos a fio, e foi crescendo como um baobá, adquirindo tamanho e se construindo juntamente com a própria identidade da pessoa, são, me parece, os mais difíceis de se prevenir. Vêm de longa programação, de uma rotina diária que os alimenta por anos.

Ficamos somente com as cinzas, nossos sentimentos de impotência, culpa e, no meu caso, muitas e variadas boas lembranças. Edu era uma fonte inesgotável de ideias, beleza, criatividade, arte e surpresa. Era uma pessoa genial: “Genial, Edu, genial...”, eu deixava isso claro pra ele, que “genial”, para mim, era um acontecimento raro. Muito belo e muito raro foi Edu. Apesar de todos os seus defeitos, foi isso: um acontecimento raro, belo, explosivo, surpreendente e breve, o qual passou por nossas vidas e que também ajudou a construir o que sou.


3 comments:

Anonymous said...

Gostei muito do seu texto e da metáfora do baobá.
Fiquei curiosa em saber: ele chegou a procurar tratamento psiquiátrico e/ou psicológico?

JANINE CARDOSO MOURÃO BASTOS said...

Excelente texto! Muito interessante essa perspectiva. Na verdade, acabei lendo outros também. Não sabia da existência do seu blog e gostei muito. Passo a seguí-lo.

Bruno Fagundes said...

Ai.... quase morri de tanto chorar com este caso real em sua família Adriano!