Transtorno mental não é salvo-conduto para se fazer o que se quiser e se acreditar que não haverá consequências. Tudo o que fazemos na vida tem consequências sociais, morais e judiciais, e todos precisamos vivenciar e responder, em maior ou menor medida, pelas consequências do que fazemos, até quem tem transtornos mentais.
Todos nós, em maior ou menor medida, somos sensíveis às consequências de nossos comportamentos. É muito importante que todos nós entremos em contato com essas consequências. Que ninguém seja poupado disso. Entrar em contato com as consequências de nossos próprios comportamentos é pedagógico. Funciona como algo fundamental no desenvolvimento pessoal, no amadurecimento e na mudança de comportamento.
Trabalho em CAPS há mais de 15 anos. O que não faltam são pacientes, principalmente pacientes violentos, acreditando que seus diagnósticos de transtornos mentais os protegem das consequências de seus comportamentos.
Afirmar que tudo o que fazemos tem consequências (sociais, morais ou judiciais) não impede ou desrespeita o princípio da equidade, de que cada pessoa deve ser avaliada e tratada segundo suas capacidades e circunstâncias.
Em nosso CAPS debatemos sobre os casos que estamos atendendo, em intervisão interdisciplinar, duas vezes ao dia, no final das manhãs e das tardes. Portanto, creio que não faça muito sentido tentar desqualificar meu trabalho com a afirmação ou a insinuação de que eu estaria completamente sozinho nessa percepção, ou que faltaria a mim a supervisão de algum psiquiatra, como esse profissional estivesse num patamar superior ao do psicólogo.
Estamos ali constantemente, todos os dias, debatendo sobre casos severos e persistentes de transtornos mentais. Participam desse debate profissionais de diversas especialidades: psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psiquiatras, médicos generalistas, técnicos de enfermagem, assistentes sociais, nutricionistas, fisioterapeutas, etc, em sua maioria concursados, com níveis de qualificação plenamente validados.
Mas algumas pessoas, lamentavelmente, parece que ficam muito incomodadas com esse tipo de afirmação, como se eu estivesse tentando desrespeitar suas especificidades ou até mesmo seus diagnósticos. Acho que ficou claro que não se trata disso, não é?