Monday, November 24, 2025

A diferença entre TOC e loucura

A preservação da crítica é fundamental para saber se alguém enlouqueceu ou não. Desculpem-me, mas alguém que diz ter TOC, deve ter a crítica de que suas obsessões e compulsões não fazem o menor sentido. Deve dizer algo mais ou menos assim: "Sei que não faz o menor sentido, mas não consigo deixar de fazer ou de sentir que algo ruim acontecerá".

Quem defende suas "obsessões", como se tivessem lógica, justificativa ou sentido, está com um quadro mais próximo de uma psicose do que de um TOC. E isso não é obsessão. É delírio.


Thursday, November 20, 2025

Transtornos mentais e responsabilidade

Transtorno mental não é salvo-conduto para se fazer o que se quiser e se acreditar que não haverá consequências. Tudo o que fazemos na vida tem consequências sociais, morais e judiciais, e todos precisamos vivenciar e responder, em maior ou menor medida, pelas consequências do que fazemos, até quem tem transtornos mentais.

Todos nós, em maior ou menor medida, somos sensíveis às consequências de nossos comportamentos. É muito importante que todos nós entremos em contato com essas consequências. Que ninguém seja poupado disso. Entrar em contato com as consequências de nossos próprios comportamentos é pedagógico. Funciona como algo fundamental no desenvolvimento pessoal, no amadurecimento e na mudança de comportamento. 

Trabalho em CAPS há mais de 15 anos. O que não faltam são pacientes, principalmente pacientes violentos, acreditando que seus diagnósticos de transtornos mentais os protegem das consequências de seus comportamentos. 

Afirmar que tudo o que fazemos tem consequências (sociais, morais ou judiciais) não impede ou desrespeita o princípio da equidade, de que cada pessoa deve ser avaliada e tratada segundo suas capacidades e circunstâncias.

Em nosso CAPS debatemos sobre os casos que estamos atendendo, em intervisão interdisciplinar, duas vezes ao dia, no final das manhãs e das tardes. Portanto, creio que não faça muito sentido tentar desqualificar meu trabalho com a afirmação ou a insinuação de que eu estaria completamente sozinho nessa percepção, ou que faltaria a mim a supervisão de algum psiquiatra, como esse profissional estivesse num patamar superior ao do psicólogo.

Estamos ali constantemente, todos os dias, debatendo sobre casos severos e persistentes de transtornos mentais. Participam desse debate profissionais de diversas especialidades: psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psiquiatras, médicos generalistas, técnicos de enfermagem, assistentes sociais, nutricionistas, fisioterapeutas, etc, em sua maioria concursados, com níveis de qualificação plenamente validados.

Mas algumas pessoas, lamentavelmente, parece que ficam muito incomodadas com esse tipo de afirmação, como se eu estivesse tentando desrespeitar suas especificidades ou até mesmo seus diagnósticos. Acho que ficou claro que não se trata disso, não é?

Thursday, November 06, 2025

Inteligência e afeto

Acho que nunca conheci pessoas que são inteligentes em absolutamente tudo e isso não quer dizer que elas não existam. Mas pude conviver com pessoas muito capacitadas. É o que se encontra na carreira acadêmica. Quem faz formação acadêmica completa (com graduação, mestrado e doutorado), em instituições referenciadas, certamente se depara e lida com pessoas muito inteligentes. 

A minha percepção é que a grande maioria das pessoas consideradas inteligentes, ou muito inteligentes, têm algumas habilidades específicas muito desenvolvidas e outras que não passaram por esse processo. E um grande número de pessoas que nem são consideradas padronizadamente inteligentes demonstram níveis altíssimos de sagacidade em habilidades e contextos que não tem relação com aquilo que é geralmente classificado como da ordem da inteligência.

Eu vejo um nível superior de inteligência em pessoas que são capazes de fazer as outras rirem. A habilidade para se mostrar engraçado e fazer com que os outros dêem risadas ou até melhorem seu humor é para mim uma das maiores demonstrações de inteligência que conheço. Quem faz os outros rirem acaba muitas vezes se colocando em um nível de superioridade que eu considero inigualável. Todas as outras pessoas podem se mostrar habilidosas ou capazes das mais diversas proezas, mas o humorista, o sujeito engraçado, é aquele que surfa na crista da onda da cabeça de todo mundo.

E o espírito que alimenta tudo isso é a ironia, e foi isso que tentei demonstrar em minha tese de doutorado. O comediante está ali, elogiando uma outra pessoa ao seu lado, dizendo que ela é muitíssimo inteligente e que ele é a pessoa mais burra do planeta, ao mesmo tempo em que todos estão dando gargalhadas e batendo palmas para o que ele fala, como se o que ele diz fosse muito mais admirável e genial do que qualquer coisa que aquela pessoa supostamente muito inteligente pudesse dizer.

Fiz todo esse rodeio para tentar dizer uma outra coisa. Minha intenção era mostrar que a aprendizagem depende muito do afeto, desde o início da nossa vida. Se formos bem tratados e tivermos uma aproximação prazerosa com o objeto a ser conhecido, ou com a habilidade a ser adquirida, nos envolveremos com aquilo e nos desenvolveremos. O afeto faz aprender. E o afeto prazeroso é muito mais poderoso do que os afetos desencadeados pelas chamadas emoções negativas (raiva, medo, nojo, etc) que geralmente nos ensinam somente a fugir e nos escondermos. 

Na imensa maioria dos comportamentos inteligentes que observo, ou nos comportamentos adquiridos por meio de processos demorados, profundos e complexos, percebo que resultaram inicialmente de apego afetivo, do terreno fértil da cooperação e do amor entre as pessoas. Quem foi hostilizado, massacrado ou humilhado (por pessoas, pelo mundo ou pelo acaso) se afastou e não pôde aprender ou desenvolver os repertórios básicos, pilares do imenso edifício de comportamentos necessários para se atingir alguma alta habilidade. 

Porque a inteligência também se desenvolve, também se cria durante o processo de construção da biografia de cada um de nós.